terça-feira, 8 de março de 2016

Um catavento?

José António Saraiva | SOL | 07/03/2016

Na moção ao Congresso do PSD de 2014, Passos Coelho afirmou que o partido não apoiaria nas presidenciais um «catavento de opiniões erráticas».
Passos não referiu nenhum nome, mas todos acharam que o ‘catavento’ era Marcelo Rebelo de Sousa.
E Marcelo enfiou a carapuça – dizendo que, nessas condições, não seria candidato presidencial.
Não o deveria ter feito, até para não ter de dar mais tarde o dito por não dito.
Ou seja: para não parecer um catavento, caso viesse a candidatar-se.
A palavra ‘catavento’ aplicada a candidatos presidenciais não era uma novidade.
Nas famosas eleições de 1986, que opuseram na segunda volta Mário Soares e Freitas do Amaral, cantava-se nos comícios de Freitas:
Dizem que o Soares é fixe,
o Soares não é fixe, não;
o Soares é um catavento,
o Freitas é que tem razão.
Ao contrário, porém, do que diziam os versos, Mário Soares não se revelaria em Belém um catavento, antes seria bastante consistente no objetivo de atacar o Governo de Cavaco Silva.
Nunca se afastou do rumo traçado e foi tentando fazer sucessivas mossas no cavaquismo.
Curiosamente, quem se revelaria um catavento seria o homem cujos adeptos chamavam nomes a Soares.
Partindo nessa altura da posição mais à direita do leque político, Freitas do Amaral foi caminhando paulatinamente para o centro e depois para a esquerda.
Tendo votado contra a Constituição de 1976 por falar em ‘socialismo’, Freitas acabaria surpreendentemente por vir a integrar um Governo socialista.
E chegaria ao ponto de elogiar, recentemente, a frente de esquerda cozinhada por António Costa, com o PCP e o BE.
Um verdadeiro catavento, portanto.
Diz-se que este ‘desvio’ de Freitas do Amaral se deveu em parte ao facto de Cavaco Silva não lhe ter pago as contas da campanha presidencial.
Não perdoando a Cavaco, Freitas afastou-se do PSD; e como também se tinha afastado do CDS, dada a sua má relação com Paulo Portas, caiu na esquerda.
Situação semelhante foi a de Manuela Ferreira Leite.
Tendo-se travado de razões com Pedro Passos Coelho, tornou-se uma das suas mais ferozes críticas.
Depois de ter sido no passado uma implacável ministra das Finanças, defensora das políticas de austeridade, tornou-se uma inimiga figadal da austeridade imposta por Passos Coelho.
Havendo-se insurgido com Jorge Sampaio por este dizer que havia «mais vida para lá do Orçamento», fez depois a Passos Coelho o que Sampaio lhe fizera a ela.
E agora deu a sua chancela ao Orçamento de António Costa e Mário Centeno, que a maior parte dos economistas diz conter elevados riscos.
Em suma, outro catavento.
Cataventos também foram Pacheco Pereira e António Capucho.
Embora com trajetos muito diferentes.
Pacheco veio da extrema-esquerda, da qual nunca se desligou emocionalmente, como o provam os sucessivos livros que escreveu sobre os grupúsculos esquerdistas que pulularam a seguir ao 25 de Abril e a sua extensa história da vida de Álvaro Cunhal.
A passagem de Pacheco pelo PSD deveu-se a um entusiasmo com Cavaco Silva, que fazia o perfil do líder autoritário que lhe agradaria; mas logo que Cavaco saiu, Pacheco iniciou o regresso às origens.
Como militante social-democrata, pode dizer-se que Pacheco Pereira foi um erro de casting.
Ele sempre foi um radical.
E hoje ultrapassa o BE pela esquerda.
António Capucho é um caso completamente diferente.
Era um ‘menino da Linha do Estoril’, que desde a juventude gostou de estar ligado ao poder – e não ao antipoder, como Pacheco.
Foi ministro, deputado europeu, presidente da Câmara de Cascais, e diz-se que terá ficado ressentido com Passos Coelho por não ter sido convidado para presidente da Assembleia da República.
Foi aí que o caldo se entornou.
Mas nunca foi esquerdista nem será.
É um social-democrata com espírito liberal, como Sá Carneiro.
Enquanto Pacheco navega hoje nas águas profundas da extrema-esquerda europeia, estando talvez próximo de Louçã, António Capucho continua a ser o que sempre foi: um burguês da Linha.
Quanto a Marcelo Rebelo de Sousa, que para a semana toma posse como Presidente da República, não creio que ‘catavento’ seja a melhor palavra para o definir.
O seu problema não é mudar muito de opinião, mas sim uma certa falta de coragem para ter opinião.
Durante a austeridade, foi sempre dando uma no cravo e outra na ferradura.
Nunca foi capaz de dizer: «A austeridade é necessária para amanhã podermos ter uma vida melhor»; ou então: «A austeridade é um disparate e devíamos seguir outro caminho».
Marcelo nunca foi ‘sim’ nem ‘não’: foi sempre ‘nim’.
Ora isto não é um catavento.
Mas será o Presidente de que o país neste momento precisa?
Vejo-o mais talhado para dias calmos do que para os duros tempos que se aproximam.
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