segunda-feira, 7 de março de 2016

O carrossel

António Barreto
DN 2016.03.06
Quando muito parecia mostrar o caminho de uma relativa acalmia, tudo se deteriorou. Poderia pensar-se que a falta de dinheiro, a supervisão dos credores e a fiscalização das instituições internacionais fossem sedativos para a rotação de cargos políticos e empresariais. Também era legítimo imaginar que o elevado número de políticos, altos funcionários, banqueiros e empresários condenados ou arguidos fosse um dissuasor das manobras de nomeação de amigos e um travão nos circuitos da promiscuidade. Além disso, as leis recentes e as funções da CRESAP (Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública) poderiam desempenhar um papel moderador dos apetites políticos e partidários. Mas não! Desenganemo-nos.
As demissões e as nomeações regressaram. Aliás, nunca tinham cessado. A promiscuidade voltou. O carrossel recomeçou. E vai durar o tempo que dure o governo e a legislatura. Como esta mudança de governo e de maioria foi aparentemente mais radical do que as anteriores, é possível que o movimento seja mais rápido. Nos dois sentidos. Da vida privada e dos partidos para a administração e as empresas públicas, por um lado. Do governo, do parlamento e da administração para as empresas lucrativas, públicas ou privadas, nacionais ou internacionais, por outro. Por obra e graça do governo, as nomeações de favor, de amigos, de camaradas e de convergência de interesses já começaram, precedidas de ameaças e demissões vingativas. O recrutamento, por empresas privadas, de antigos membros do governo e de deputados, começou também. São, aliás, primos direitos: a promiscuidade, o nepotismo, a corrupção e o favoritismo.
Contra o Banco de Portugal e seu governador Carlos Costa, o primeiro-ministro António Costa andou mal! Encoraja a deslealdade, dá luz verde à quezília institucional, assim como dá cobertura ao comportamento caceteiro de governantes e deputados. Contra António Lamas e o CCB (Centro Cultural de Belém), o ministro da Cultura João Soares esteve mal, pior ainda com Elísio Summavielle. Na sua associação à financeira Arrow, a actual deputada e antiga ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque esteve mal, muito mal!
Parece pouco, mas não é. São três exemplos, diferentes na forma, similares no ânimo, no cume das personalidades e dos encargos. Daqui para a frente, poderá dizer-se que abriu a caça! Parece novo, mas não é. Depois das PPP e das direcções-gerais, dos institutos e das empresas de obras públicas, das estradas e das pontes, dos bancos a privatizar e dos privatizados... Após as grandes empresas de energia, comunicações e petróleos e dos grandes serviços públicos... Depois disto tudo, é um recomeço. Como a caça, que abre regularmente.
Vai ser muito interessante ouvir deputados e governantes alegar que o que fazem os seus amigos é legal e ético! Enquanto as mesmas coisas feitas pelos seus adversários políticos não são uma coisa nem outra. Vamos ouvi-los e vê-los torcerem-se pelos seus companheiros e camaradas, elogiando as respectivas honras e excelsas virtudes, mas sempre denunciando a ilegitimidade, a ilegalidade e a corrupção dos mesmos gestos e comportamentos quando da autoria dos seus rivais. Vai continuar a ser interessante ouvir António Costa acusar Passos Coelho que acusa José Sócrates! Será curioso ouvir os actuais governantes e seus apoiantes acusar, com fundamento, o governo social-democrata e popular das malfeitorias com o Banif, o BES, o BNP, as PPP e os swaps. Tal como será curioso ouvir os sociais-democratas demonstrar, com provas, que foram os socialistas os culpados. Não fazem as leis que deveriam fazer. Não respeitam as leis que fazem nem a moral que pregam. Como o carrossel, gira e volta e anda à roda!
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