Inês criou a gota de luz, uma garrafa que ilumina aldeias na Guiné

SARA DIAS OLIVEIRA Público 02/03/2016

Professora de Inglês, Inês Rodrigues venceu Prémio Terre de Femmes com o projecto Tabanca Solar composto por fornos, desidratadores para conservar alimentos, lâmpadas que dispensam electricidade. Catarina Grilo, bióloga, recebe menção honrosa por cabaz que reduz desperdício de peixe.
As histórias que o avô lhe contava sobre África, sobretudo a descrição do cheiro daquela terra, e o passado da família que ali morou diziam-lhe que, mais dia menos dia, aquele continente faria parte da sua vida. As histórias que escutava dos seus alunos africanos, contadas na primeira pessoa sobre uma realidade dura e distante, durante as aulas no CICCOPN – Centro de Formação Profissional da Indústria da Construção Civil e Obras Públicas do Norte, na Maia, não lhe saíam da cabeça. Em 2011, no Dia Mundial da Criança, 1 de Junho, a professora de Inglês Inês Rodrigues fundou a Educafrica, Organização Não Governamental, e daí surgiu o projecto Tabanca Solar que chega a mais de 5000 pessoas de cinco aldeias remotas da Guiné-Bissau.
O projecto não tem qualquer fio eléctrico e inclui lâmpadas que são garrafas de água (solução já adoptada em vários pontos da América Latina e não só), fornos solares, sistemas fotovoltaicos que iluminam centros de saúde e escolas, e desidratadores solares para secar e conservar frutas e legumes. E é com este projecto que Inês Rodrigues vence a 7.ª edição do Prémio Terre de Femmes, da Fundação Yves Rocher, que reconhece e recompensa financeiramente mulheres eco-cidadãs de oito países – Portugal, França, Alemanha, Suíça, Rússia, Marrocos, Ucrânia e México. Inês Rodrigues ganha 10 mil euros e o seu nome foi hoje anunciado durante uma cerimónia no pavilhão branco do Museu da Cidade de Lisboa, pelas 10h30. Catarina Grilo, bióloga, também recebe uma menção especial. As primeiras classificadas de cada país estão habilitadas ao Grande Prémio Internacional de 10 mil euros - ganho, na última edição, pela bióloga portuguesa Milene Matos – e ao Prémio do público com votação online.
Inês Rodrigues já sabe onde vai aplicar os 10 mil euros. A gota de luz é uma garrafa de água que ilumina casas em várias aldeias da Guiné-Bissau, uma espécie de lâmpada que é colocada no telhado, uma parte dentro outra fora, vedada para prevenir a entrada da chuva, e que permite ter luz dentro das habitações, na sua maioria, escuras, sem janelas ou com poucas aberturas para não deixar entrar o calor. Uma garrafa de plástico de litro e meio com água quase até cima, 10 mililitros de lixívia para não criar fungos e uma chapa de zinco. Apenas isso. Funciona como uma clarabóia: o sol incide na água, a luz reflecte, e ainda consegue reduzir a temperatura em dois, três graus no interior das habitações. A água não se evapora, a difusão da radiação solar pela garrafa equivale a uma lâmpada de cerca de 40 watts de potência, e a gota de luz pode durar três anos. O impacto é enorme. “Há vários benefícios: deixam de usar as lâmpadas de querosene ou tochas durante o dia na habitação, o risco de doenças respiratórias diminui, e previnem-se acidentes domésticos, incêndios ou queimaduras”, conta. O próximo passo, e é aí que entra o dinheiro do prémio, é estudar a maneira da gota de luz funcionar à noite. Filipe Castro, professor de Física e Química, membro da Educafrica, coordenador técnico do projecto, acredita que é possível. “É um desafio”, assume. “O que vimos é impressionante, mulheres que nos dizem que agora podem ver os seus bebés dentro de casa”, acrescenta.
A gota de luz chegou à Guiné em 2014, foram dadas cinco formações a habitantes para a sua implementação, e a Educafrica tem um voluntário em permanência no terreno que monitoriza e faz a manutenção das lâmpadas instaladas. De Portugal, vai apenas o vedante, as garrafas são fornecidas pela Unicer, que ajudou financeiramente o projecto Tabanca Solar, através do apoio logístico que tem na Guiné. “Encontrámos uma solução energeticamente sustentável, não queremos levar lixo para África”, diz Inês Rodrigues. Nem encher contentores com bens para distribuir. O objectivo é levar ideias que melhorem condições de vida e ensinar como podem ser executadas.  
O dinheiro do prémio também será aplicado num projecto-piloto para a recolha de resíduos nos mercados semanais e que terá a ajuda de um técnico da Lipor, outra parceira da Educafrica. Serão marcadas acções de sensibilização na Guiné com um grupo de jovens para, por um lado, perceberem a importância de recolher o lixo que fica depois das vendas nos mercados, e por outro, aprenderem a reutilizar algum desse material. A lógica da Educafrica é essa: ensinar a fazer, dar formação nas aldeias, capacitar habitantes locais, pensar e desenvolver projectos que tenham impacto social num dos países com menor índice de desenvolvimento humano do mundo. E, neste trabalho, estão envolvidos formandos do CICCOPN que, noutro país, se empenham, em várias disciplinas, no processo de encontrar soluções ambientalmente sustentáveis para um país em que 70% da população não tem acesso à electricidade.
Conservar frutas e legumes
O forno solar foi a primeira novidade que a Educafrica levou para a Guiné e a que mais estranheza causou. O modelo foi desenhado no CICCOPN, a construção fica ao gosto dos habitantes que podem confeccionar uma refeição para uma família de cinco pessoas em cerca de uma hora. “Utilizam-no mais como esterilizador do material hospitalar do centro de saúde, ainda lhes causa alguma confusão cozinhar sem fogo”, revela a professora de Inglês. Os fornos estão em Cabedu, no sul, e podem ser utilizados por cerca de 900 pessoas.
O sistema fotovoltaico do projecto também foi concebido pelos formandos dos PALOP que frequentam o centro de formação profissional da Maia. Quem melhor do que eles para concretizar a ideia adaptada às condições e características de África? Inês explica como funciona o sistema portátil que ilumina centros de saúde e escolas, mesmo quando o sol desaparece, nas cinco aldeias do projecto – Cabedu, Geba, Djufunco, Elalab e São Domingos. “É uma caixa de derivação com uma bateria ligada a uma luz fixa. Tem ainda uma lanterna que carrega com painel solar e que pode ser transportada para onde for necessária”. Por isso, é possível dar assistência à noite em casa das pessoas, quando se assim se justifique, e ter escolas abertas para a alfabetização após um dia de trabalho.
Há ainda o desidratador solar que está em fase de estudo e que chegará à Guiné ainda este ano. “Usa apenas a energia solar, desidrata fruta e legumes em cerca de oito horas e permite uma conservação de dois anos dos alimentos que mantêm todos os nutrientes”, garante Inês Rodrigues. A Lipor foi importante neste processo em termos de conhecimentos. Frutas e legumes serão laminados e colocados em prateleiras dentro deste desidratador, reconhecido pela Comissão Europeia como boa prática de educação ambiental e finalista nos European Week for Waste Reduction (EWWR), que premeia projectos na área da sustentabilidade ambiental, em 2015, tendo ficado em segundo lugar entre perto 12000 projectos avaliados. No ano anterior, a gota de luz foi igualmente finalista nos EWWR e também ficou em segundo lugar.
Inês sente-se em casa quando chega à Guiné. A Educafrica foi pensada com calma. Dois anos para juntar parcerias e perceber com os seus alunos africanos as melhores maneiras de melhorar as condições de vida de quem vive num dos países menos desenvolvidos do planeta. “Não queríamos ir logo para África, queríamos ir para África e fazermos logo alguma coisa”, conta Inês, presidente da Educafrica e coordenadora do Tabanca Solar. A ONG, que neste momento tem cinco voluntários, e que ainda não tem sede, dá a cana e ensina a pescar. Em Portugal, realiza várias acções de formação, workshops em escolas, explica como montar projectos transdisciplinares. Tudo gratuitamente. “Mudamos vidas cá a nível da cidadania, mas também mudamos vidas lá, formando e desenvolvendo os projectos nas aldeias”. O Prémio Terre de Femmes mostra-lhe que vale a pena. Chorou quando recebeu a notícia. “Gostamos daquilo que fazemos. Este reconhecimento é motivo de orgulho e mostra-nos que estamos no bom caminho”. Em Maio, Inês volta à Guiné.   
Tudo o que vem à rede
O Cabaz do Peixe, que desde Julho do ano passado funciona em Sesimbra e que está agora também no Seixal e em Palmela, conquistou uma menção honrosa no Prémio Terre de Femmes no valor de 3000 euros. Catarina Grilo, bióloga, de Setúbal, é a eco-cidadã portuguesa premiada nesta categoria. A ideia é importada.
Há cinco anos, então estudante de doutoramento no Canadá, ficou surpreendida com a relação pouco provável entre uma ONG da área do ambiente e um grupo de pescadores que entregava peixe encomendado num ponto de encontro. Decidiu aplicar o sistema em Portugal e, neste momento, são feitos 60 cabazes de peixe, com três quilos cada, por semana que custam 20 euros e que são entregues em dias e locais específicos. E assim envolve-se a comunidade piscatória e disponibiliza-se ao consumidor um produto de origem local a um preço mais reduzido.
Os consumidores não podem escolher o peixe e um terço do pescado no cabaz é de espécies menos valorizadas, que nem sequer vão à lota. “Tudo o que vem à rede é peixe, tudo o que vem à terra é oferecido”, comenta a bióloga para contar que nada do que sai do mar é desaproveitado. “Este projecto permite reduzir o desperdício de peixe, melhorar a eficiência ambiental do pescado, e aproximar pescadores e consumidores, não havendo intermediários”, explica Catarina Grilo, que trabalha na Fundação Gulbenkian na iniciativa Oceanos.
Não foi simples implementar o processo em Portugal porque não é permitida a ligação directa entre pescador e consumidor. O peixe tem de ir à lota. A Associação dos Armadores de Pesca Local e Artesanal do Centro e Sul, de Sesimbra, constituiu-se então como comprador na lota, trata das encomendas e organiza os cabazes – e tudo pode ser acompanhado em www.cabazdopeixe.pt. Até ter o peixe em cabaz, fizeram-se vários contactos com a Câmara de Sesimbra, a Docapesca, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, o Governo. Foi apresentada uma candidatura ao Promar, programa operacional da pesca, em 2013. Os resultados saíram em 2014 e no ano seguinte o projecto arrancou. Com o prémio nas mãos, Catarina Grilo pensa expandir o projecto para Lisboa. “O peixe é fresquinho, de uma frescura incomparável, e mais saboroso”, garante.
Os projectos candidatos ao Terre de Femmes foram avaliados por um júri nacional e independente constituído por representantes da Liga para a Protecção da Natureza, Quercus, Inspecção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território e Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
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