Em conversa com Rui Ramos

VASCO PULIDO VALENTE Público 06/03/2016

As pequenas clientelas do concelho ou da administração são agora clientelas de massa em que sobrenadam meia dúzia de “influentes”.

Continuando a conversa com Rui Ramos. Para começar, é preciso dizer que a dependência do Estado de uma parte da população portuguesa foi crescendo durante todo o século XIX e no século XX até Salazar. Única maneira de “subir” na vida, continuou sempre a ser a carreira preferida da gente que saía do campo à procura de melhor sorte. De resto, o Estado também mudou invadindo áreas cada vez maiores da sociedade. De um Estado cuja função era fundamentalmente reguladora e policial, o país passou a um Estado que absorveu funções técnicas e se imiscuiu progressivamente na economia. O número de funcionários aumentou e também o défice e a dívida com que eles se pagavam. A literatura política do tempo está cheia de lamentos sobre esta situação, que se achava incompatível com a dignidade da Pátria. Não, não se tratava do simples “carneiro com batatas”, como o Rui está farto de saber.
As consequências da miséria do Estado eram muito diferentes das de hoje: dependência do exterior (ou dos “portadores da dívida”, como na altura se dizia), estagnação económica e, nas cidades, desemprego. Certo que no campo, mal ou bem, mas sobretudo mal, se ia conseguindo sobreviver e que muitos trabalhadores de Lisboa e do Porto se refugiavam na sua terra da origem e na sua família. Só que os trabalhadores de 2.ª ou 3.ª geração morriam de fome pelas ruas, sem simpatia e sem ajuda, enquanto almas sensíveis lamentavam nos jornais a imoralidade da esmola. Desde 1851, para não falar das guerras civis, Portugal balançou entre períodos de expansão da dívida e do funcionalismo e períodos sem crédito, ou um crédito caro e de contracção do funcionalismo. Fosse como fosse, as clientelas continuavam.
A grande mudança veio com a revolução de expectativas depois da II Guerra Mundial, que chegou a Portugal em 1974-1975. Os direitos do cidadão que, na prática ou constitucionalmente, cobriam uma existência do nascimento à morte trouxeram clientelas de massa, a que o Estado teve de atender. A saúde, a educação, a reforma, a cultura, a investigação, os transportes acabaram por se tornar serviços que o Estado devia gratuitamente fornecer e a quantidade de pessoas que trabalhavam nesses serviços subiu para números quase inacreditáveis. As pequenas clientelas do concelho ou da administração são agora clientelas de massa em que sobrenadam meia dúzia de “influentes”. Sem a eliminação radical deste regime, não há reforma possível.
Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Sou mãe de um forcado. E agora?

O grande educador sexual

Suécia persegue parteiras que se negam a praticar abortos