domingo, 6 de março de 2016

Clientelas

VASCO PULIDO VALENTE Público 05/03/2016

A melhor maneira de uma pessoa se alçar às delícias do funcionalismo estava num grupo que o ajudava e promovia.

Por uma razão ou por outra, o compadrio, a acumulação de empregos e as clientelas têm sido muito discutidas ultimamente. Como sempre foram desde a instalação do liberalismo em Portugal e como não foram, regra geral, na Inglaterra e Europa do Norte; e nem sequer em Espanha ou em Itália. Esta singularidade merece uma explicação. Quando se critica os beneficiários da pouca-vergonha pública e partidária, convém lembrar de onde eles vieram. Todos vieram de uma espécie de miséria recatada ou de uma mediocridade sufocante, com uma educação sumária e pouca distinção pessoal. A vida não era para eles, como para a alta classe média e a burguesia, um caminho de oportunidade e conforto; era um esforço contínuo para preservar a obscura situação que lhes calhara à partida.
A agricultura obrigava metade da população a viver na insegurança, dependente do clima, da qualidade das colheitas, dos preços que variavam de ano para ano. O pouco artesanato e o pequeno comércio que existiam na vila mais próxima não chegavam para dar emprego estável a ninguém. E até Lisboa e o Porto, tirando meia dúzia de fábricas, não absorviam emigração do campo. Com diferenças de escala é isto ainda o que se passa no país. Não admira, por isso, que o emprego do Estado, à medida que ele se desenvolveu, se tornasse a grande ambição do português comum, porque o Estado garantia permanência e uma protecção perpétua. Por mais baixa que fosse a posição de um indivíduo na hierarquia administrativa, ele não deixava de ser um privilegiado, que não estava sujeito ao tumulto e aos desastres da economia privada.
Mas como arranjar esse salvífico emprego? As qualificações não bastavam, por causa da concorrência frenética que se instalou logo em 1820. Um compadre influente, a quem se prestavam serviços, podia às vezes conseguir um nicho por caridade ou conveniência sua (e daí a “educação para o servilismo” de que tanto se queixou a literatura política nacional). Seja como for, a melhor maneira de uma pessoa se alçar às delícias do funcionalismo estava num grupo que o ajudava e promovia. Como o compadre, esse grupo, o partido político, esperava favores em troca das suas benesses (propaganda, facilidades, um ocasional torcegão na lei). Em compensação oferecia a meia dúzia de intrigantes com algum talento a possibilidade de enriquecer e de trepar a etéreos lugares. As clientelas nasceram assim e continuam assim.
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