quarta-feira, 9 de março de 2016

As notícias vistas ao contrário

Henrique Monteiro
Expresso, 2016.03.09 

Hoje pareceria inevitável escrever sobre Marcelo e a sua tomada de posse como quinto Presidente da República democraticamente eleito por voto universal. Mas não é isso que vou fazer, porque amanhã, depois da maioria das comemorações passadas, também é dia. Vou antes falar do modo como se fazem notícias, quando estas se veem do outro lado – ou seja do ponto de vista contrário ao do jornalista. 
Ontem, ao fim do dia, estive no lançamento do livro de Henrique Raposo. Mais do que estar, fiz uma intervenção a apresentar o livro. Falou antes de mim o grande escritor José Rentes de Carvalho (é mesmo um grande escritor) e, depois, o autor, Henrique Raposo. Não dissemos todos o mesmo; discordámos em pontos interessantes. 
Durante cerca de cinco minutos, a seguir à intervenção de Rentes, cerca de uma dezena de homens levantaram-se e cantaram uma canção alentejana, perante o silêncio da sala. Se não tivesse havido a polémica que antecedeu o lançamento da obra, dir-se-ia que fazia parte do programa. Mas não. Aquilo era a forma de protesto daqueles alentejanos, o Grupo Cantadores do Desassossego. Abandonaram a sala depois de cantar, sob os aplausos do público, e a sessão seguiu. 
Interrogo-me, como jornalista, qual a importância deste ato? Será mais interessante do que a discussão que se travou sobre a violência e as condições de vida das aldeias portuguesas que existia até há 50 ou 60 anos – de Norte a Sul, e não só no Alentejo? Mais do que os exemplos que deu Rentes, e alguns dados por mim (ele de Trás-os-Montes, eu da Beira Alta) e, sobretudo mais do que as interrogações que, no final, Raposo havia de colocar: por que motivo esta violência é escondida? Desde as invasões francesas, às lutas liberais, dos grupos de bandoleiros a Norte e Sul à violência que esteve sempre latente nos finais da monarquia e na I República? Por que razão tanta gente reage mal ao que é dito no livro, que não é mais do que um retrato que Raposo (a meu ver) erradamente pensa ser todo ele específico do Alentejo, mas que, em partes substantivas abrange todo o país. 
Se olharmos as notícias, sejam de onde forem, o que sobressai é a interrupção pelos cantantes. A maioria, aliás, publica declarações do líder do grupo. Nada contra. Têm o direito de protestar pacificamente, como fizeram, até com bastante dignidade. Mas quando títulos como “O Alentejo cantou queixando-se de Henrique Raposo, que continuará a escrever com atrito” surgem em jornais importantes e referentes como o ‘Público’, fico preocupado. Não só pela construção gramatical, mas por esta mania que o jornalismo tem vindo a desenvolver de tomar a parte pelo todo. ‘O Alentejo’? Ó camaradas! Se o Alentejo fossem 10 ou 15 pessoas a cantar ninguém lhe dedicaria um livro. 
Mas o ‘Público’ ainda refere algumas ideias de contraposição entre os conteúdos da obra de Camilo e de Eça que Raposo abordou; noutros jornais nem se diz de que trata o livro ou de que se falou. Afirma-se que o lançamento foi interrompido por cânticos e que havia 20 seguranças. O ‘Negócios’ vai um pouco mais longe e o ‘Expresso’ é, tal como o ‘Público’, mais específico, mas não foge ao título “Henrique Raposo com direito a cante alentejano de protesto”. 
Não quero criticar nenhum jornalista em especial. Quero refletir. É para isto que queremos o jornalismo? É para isto que nos queixamos de sermos pouco respeitados e lidos? Uma ideia vale um quinto ou um décimo de uma ação de protesto sem história (cantaram, foram aplaudidos, saíram)? 
Este é um exemplo. Em quase todas as áreas, em quase todos os temas, assistimos a fenómenos assim. O marginal derrota o normal; a forma mata o conteúdo; o bizarro sobrepõe-se ao sério. 
Ao fazermos este jornalismo (e não me excluo) caminhamos para o circo. Aposto que se Marcelo tivesse escorregado nas escadas do Parlamento isso teria mais relevância no espaço noticioso do que o bom discurso que fez.
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