quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Um homem com um cérebro tão grande…

Paulo Tunhas
Observador 4/2/2016

Como me escrevia um amigo no outro dia, o lapso de António Costa, que por duas vezes chamou “primeiro-ministro” a Passos Coelho no parlamento indica pelo menos alguma má-consciência

Pois lá anda o PS de novo a entrar-nos pela casa dentro, com o seu costumeiro cortejo de desastres. Já é um hábito. Agora calharam-nos as “reversões” de vária espécie, que nos vão custar uma fortuna, o que não importa muito ao Governo, e as aventuras com Bruxelas, que inspiram os impulsos belicosos não só do Bloco e do PC como mesmo, e com muito sentimento, de vária gente do PS que adora “bater o pé” a Bruxelas. Face a isto, e a muito mais, e ao que virá a seguir, que não vai ser lindo, o que era bom era uma pessoa poder rir-se com esta “aventura intelectual” (Mário Centeno) do “tempo novo”. Mas como a coisa roça a delinquência pura e dura, e como vamos sofrer muito com ela, a vontade de rir é pouca.
Como escrevia aqui muito bem Alexandre Homem Cristo, estão a gozar connosco. E, como também explicava, só alguém muito viciado no jogo político pode achar natural uma situação em que a irracionalidade é flagrante e as consequências danosas das acções quase imediatamente palpáveis. Eu só acrescentaria que mesmo esse simpático vício não chega para explicar a criminosa loucura que anda por aí à solta. É preciso ser generoso e acrescentar um defeito suplementar. Como hipótese, sugiro uma radical falta de imaginação. E, em primeiro e mais importante lugar, a falta da imaginação necessária para nos colocarmos no lugar do outro. No PC, e, depois, no Bloco, isso quase fazia, por razões doutrinais, parte da sua essência e garantia a sua identidade. Chegou agora, pelos vistos, e para nossa grande desgraça, a vez do PS ser atacado pela triste maleita.
Só partindo deste princípio é que se consegue perceber o que se passa no cérebro de António Costa. Para o PS, inspirado por esse cérebro, os outros, lá em Bruxelas, são, coitados, incapazes de pensarem correctamente. Mais tarde ou mais cedo, maus generais e péssimos jogadores de xadrez, vão-se atrapalhar e fazerem o que queremos. É só arranjar um bocadinho de tempo, e ele arranja-se com uns truques ou outros, e eles espalham-se ao comprido, satisfazendo os desejos da esquerda local. O dinheiro que lhes cai dos bolsos começará a voar muito lampeirinho para os nossos. A curiosa falta de prudência, para não dizer outra coisa, que permite esta atitude é celebrada aqui e ali como patriótica e “soberanista”.
Esta do soberanismo, pensando bem, tem graça. Por acaso, levo a sério o conceito, e nem me esqueço dos risos que a simples palavra “soberania” provocava ainda há não muitos anos em vária gente que agora a mostra muito contente na lapela. Até escrevi sobre a matéria aqui no Observador e em lugares mais académicos. E não tenho a mínima dúvida que a perda tendencial da soberania, que se avolumou com a entrada (muito festiva) no euro, mesmo que factualmente ela já fosse relativíssima, tem um efeito nefasto na vida democrática. A perda da faceta externa da soberania – a nossa independência, pequeníssima que fosse, em relação aos outros Estados – acarreta a diminuição da soberania interna, o que se manifesta no surgimento de forças políticas de extrema-esquerda e de extrema-direita com pretensões verosímeis ao poder.
Mas reconhecer isto, em alguém que não tenha sido tocado pela loucura, não conduz de modo algum a optar por uma política suicidária, que não preste atenção à nossa situação e que, por conseguinte, não se dê ao trabalho de pesar as consequências das suas acções. Isto é, não leva ninguém a ser António Costa. Para que isso se verifique é necessária a referida incapacidade de se pôr realmente no lugar do outro. No nosso caso, de nos pormos no lugar de quem nos salvou da bancarrota e que certamente não vê com bons olhos a obrigação, que se arrisca a ser cíclica, de ter de nos salvar outra vez, por culpa exclusiva de um bando de iluminados que tomaram o poder cá na Pátria através de um método muito esquisito. A propósito: como me escrevia um amigo no outro dia, o lapso de António Costa, que por duas vezes chamou “primeiro-ministro” a Passos Coelho no parlamento, indica pelo menos alguma má-consciência relativamente ao tal procedimento esquisito. É uma luzinha apenas pisca e bruxuleante de consciência, mas, vinda que quem vem, é quase apreciável.
A incapacidade de se pôr no lugar do outro que o PS mostra, e o contágio pelos princípios da extrema-esquerda, conduz fatalmente a uma situação caracteristicamente patológica. Num dia, é certo que, mais cedo ou mais tarde, teremos Bruxelas aos nossos pés. No dia seguinte, Bruxelas conspira sem piedade para orquestrar a nossa perda e nos condenar à mais abjecta sujeição. Tudo com grandes doses de péssima oratória e de argumentos nulos. Há um nome clínico para estas oscilações. E quem delas sofre, naturalmente esquece duas coisas. A primeira, é que é um erro partir do princípio que os outros são idiotas: perde-se forçosamente um jogo de xadrez assim, porque não conseguimos imaginar as consequências do que fazemos E, em segundo lugar, perde-se, não nos colocando no lugar do outro, a noção de justiça. Só podemos ter uma noção de justiça se conseguirmos imaginar o que os outros sentem como resultado das nossas acções. E se eles sentirem que não somos dignos de confiança? Não conviria ter isso em atenção? Ah, e esquece também uma terceira coisa: que nos vai conduzir directamente a um estado pouco recomendável do qual, desde há quatro anos, nos fomos pouco a pouco, e com sacrifícios vários, libertando.
A acreditar em Chamfort, Marlborough (suponho que o primeiro duque) encontrava-se numa trincheira com um amigo seu e com um dos seus sobrinhos. De repente, uma bala de canhão fez explodir o cérebro do amigo, com os restos dele a cairem na cara do sobrinho, que recuou um passo atrás. O duque, homem muito experimentado, dirigiu-se ao sobrinho: “Pareceis espantado!”. “Sim, respondeu o sobrinho, enquanto limpava os pedaços do cérebro do outro da cara. Estou espantado que um homem com um cérebro tão grande se tenha exposto gratuitamente a um risco inútil.”
Não quero ser mal interpretado. Apesar de democraticamente aceitar que António Costa, como fino político que todos dizem que é, faça o que quiser com o cérebro dele, não desejo de modo algum que as partes do dito comecem a voar em direcções incertas. O meu problema é que, se continuar a fazer o que anda a fazer – e já não tenho dúvidas que é apenas isso que ele sabe fazer -, são os nossos cérebros todos que vão sofrer o triste destino do dele. E isso, francamente, parece-me muito mal. Parece-me péssimo. O nosso futuro Presidente, que tornou pública a sua hipocondria, devia começar a preocupar-se, até por ele mesmo, com esta previsível insalubridade.
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