terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Tão inteligentes que eles eram

Inês Teotónio Pereira, ionline 20160209

Por mim, eu parava de elogiar a criançada. E se eles fossem inteligentes nunca, jamais, lhes revelaria tal descoberta. Escondia a informação e até pedia a ajuda da Comissão Nacional de Proteção de Dados para garantir o sigilo
Quando os professores dos meus filhos escrevem nas avaliações que eles são muito inteligentes, levo as mãos à cabeça. Ao princípio, quando era mais novinha e menos experiente nesta lide maternal, ficava toda orgulhosa: “Ah, que maravilha, este meu rico menino é tão inteligente. Aprende tudo à primeira. Já o estou a ver a ganhar o Nobel.” Foi assim durante anos. O facto de os professores reconhecerem a inteligência da minha criançada era um consolo e, achava eu, o quanto baste. Depois cresci. Cresci eu e cresceram eles. E foi então, mais ou menos por esta altura, que percebi o óbvio: a inteligência é como a farinha, não serve para nada sozinha. Aliás, a inteligência, sozinha, morre. Ora, os meus filhos inteligentes andam todos a dormir à sombra da inteligência que os professores lhes deram há anos. E isso chega-lhes. Houve um dia, quando eles ainda lutavam para aprender a ler e a fazer contas de dividir com dois números, que alguém lhes ditou uma espécie de passaporte para o ócio: “Tu és muito inteligente, se quiseres consegues melhores resultados.” E todos os trimestres, com cada um deles, é a mesma coisa: “Tu és muito inteligente, se trabalhares vais longe, só tens de querer.” É o fim. Este reconhecimento de inteligência, que do ponto de vista dos professores serve para encorajar e motivar a miudagem, tem nos meus filhos o efeito contrário: eles enroscam-se na inteligência e trabalhar, que é bom, nada. Acham que não têm mais nada para provar e ficam pacientemente à espera que uma vontade vinda do além os faça trabalhar. E enquanto a vontade não chega, descansam.
Por mim, e desculpem os professores pelo atrevimento do conselho, eu parava de elogiar a criançada. E se eles forem inteligentes nunca, jamais, lhes revelaria tal descoberta. Escondia a informação e até pedia ajuda à Comissão Nacional de Proteção de Dados para garantir o sigilo. As crianças não têm maturidade para lidar com uma informação tão preciosa quanto esta. Se elas forem de facto inteligentes, não precisam que ninguém lhes diga; se não forem, muito menos precisam.
Uma criança com o rótulo de inteligente na testa acha que se conseguirá safar em qualquer circunstância. De facto, eles até vão passando de ano, até se safam nos exames, conseguem aguentar-se estudando apenas na véspera, apanham meia dúzia de coisas que os professores dizem nas aulas e, muitas vezes, até conseguem inventar outras tantas, revelando a sua inteligência e criatividade. Mas mais tarde ou mais cedo, a farra acaba. E quando lhes são exigidos hábitos de trabalho, treino e responsabilidade, eles nem sabem o que isso quer dizer.
A verdade é que para qualquer miúdo, inteligente ou não, o que conta na escola e na vida é a responsabilidade, a capacidade de trabalho e o esforço. E isso treina-se. A inteligência pode ajudar mas, em qualquer caso, é apenas um acessório. O mundo dos crescidos está cheio de crianças inteligentes que nunca acharam que fosse preciso esforçar-se, pois bastava-lhes a inteligência, e por isso ficaram a meio caminh do sítio onde queriam chegar. Afinal, nunca passaram de uma promessa.
Há uma altura na vida escolar e, depois, na vida profissional que o trabalho e a persistência dão 100 a zero à inteligência. E é aí que os nossos filhos inteligentes se arriscam a ficar para trás, agarradinhos à sua almofada de inteligência e a suspirar por um futuro e por uma vontade de trabalhar que não há maneira de cair do céu. É que é preciso ser-se esperto para usar a inteligência.

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