Ser pai não é um direito, é um dever

Henrique Raposo
Expresso, 20160202

Ser pai não é um direito como votar, dizer o que nos vai na alma ou ter cativo na Catedral. Ser pai não entra na esfera festiva da vidinha, não está no terreno dos likes e dos gatinhos felpudos. Ser pai é um dever que cobra caro, que remete para o sacrifício e renúncia de incontáveis direitos e prazeres. Sim, tem incontáveis alegrias, mas essas são apenas a ponta do iceberg que lá vai aparecendo nesse estendal de mentiras chamado Facebook. Porque o ponto central da paternidade não é o pai, é o filho. E o que está errado na retórica do “direito à paternidade” dos casais gays é precisamente a centralidade do direito a ser pai, como se estivéssemos a falar de mais uma “conquista” da escadaria do progresso. Lamento, mas ser pai não é um direito. A paternidade não é direito de ninguém. 
Ao contrário da adoção por casais gays, a co-adoção não me oferece dúvidas. Muitas vezes, trata-se somente da regularização de algo que já existe na realidade. Contudo, o discurso dos autoproclamados líderes gays e a própria letra das leis estão desfocados. O argumento não pode estar centrado no direito de gays e lésbicas, que tendem a falar a partir de um estranho pressuposto: a criança fica sempre em segundo lugar; é como se a criança não fosse o centro da questão, como se a criança fosse secundária ou um meio para um fim. Enquanto não compreender que a criança é o fim em si mesmo, a retórica gay estará desfocada. 
As quadrilhas bem-pensantes têm o hábito de dizer que a sociedade necessita de refletir sobre este assunto. É verdade. O verdadeiro debate é escasso. Mas a comunidade gay também está dentro deste perímetro de falta de diálogo, também não debate ou reflete com a abertura necessária. Eles não são os iluminados e nós os ultramontanos. Ora, se quiser de facto chegar à tal luz, a comunidade gay devia deixar de falar da paternidade como um direito. A paternidade não é direito de ninguém. Nem de gays, nem de heteros. Tal como no aborto, o centro da questão é a criança, não o pai ou a mãe.
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