O orçamento Photoshop

António Barreto
DN 20160201
Toda a gente sabe o que é o Photoshop: um formidável programa de trabalho com imagens. Com o Photoshop pode fazer-se tudo, passar da cor ao preto e branco, colocar pessoas onde nunca estiveram, incluir objectos em ambientes inesperados, dar vida aos mortos, inventar sítios, levar pessoas a fazer de conta... Pode fazer-se o que se quer. O mar ou a montanha de fundo, uma rua de Nova Iorque ou o planalto da Capadócia, um barco ou um carro, uma mulher sedutora ou um homem atraente, tudo ao alcance de um pouco de manipulação. Até se pode transformar um chinês num branco ou um sueco num preto. Pode aumentar-se os braços e as pernas, diminuir o nariz e as orelhas, arredondar as nádegas e desfazer rugas...
É com Photoshop que está a ser feito o Orçamento do Estado para 2016. Põe um bocadinho de défice a mais, a ver se pega. Tira umas poeiras de dívida, talvez se arranje. Reduz a sobretaxa, aumenta o desconto, diminui o IVA, anda lá com um escalão de IRS. Vamos ver o que dá. Mau, diz o Bloco. Péssimo, grunhe o PCP. Não chega, rosna a UE. Volta-se atrás. Põe lá uns pozinhos no PIB, dá um cheirinho na inflação, empurra um ponto na exportação, talvez sirva. A UE diz que não. O Bloco garante que está a passar as marcas. O PCP declara que isto não estava no acordo. A impoluta Unidade Técnica de Apoio Orçamental alerta: este orçamento não pode ser cumprido. O Conselho das Finanças Públicas torce o nariz e afirma que o orçamento não tem em consideração os riscos relevantes da actual situação. A empresa de rating DBRS, a única que permite que Portugal vá buscar dinheiro ao BCE, adverte que talvez Portugal desça de escalão. Vamos lá outra vez. Mexe um pouco no PIB, tira o IVA, deixa o IRS, desce a taxa, sobe a sobretaxa, põe tabaco, tira combustíveis, aperta a pensão, esfrega o salário mínimo, dá cá um pouco de inflação, toma lá TSU... Bela maneira de fazer um orçamento.
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