quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Natal neurológico

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Observador 6/1/2016

Não sou perito em saúde pública, mas tenho a legitimidade de três semanas de internamento em dois hospitais públicos. Num particular talvez tivesse mais comodidades, mas não teria sido melhor tratado.
Alguém disse que, como ministro da saúde, mais do que um político, um gestor ou um médico, dever-se-ia nomear um doente, pois é quem mais sabe, em termos práticos, de saúde pública. O irónico comentário não pode, como é óbvio, ser tomado à letra, mas tem alguma pertinência. Eu que o diga: durante o último mês, um grave problema neurológico, felizmente já superado, obrigou-me a três semanas de internamento em dois hospitais públicos. Uma experiência absolutamente inédita para quem, em mais de meio século de vida saudável, nunca, até agora, tinha estado internado num hospital!
Mas a saúde, afinal, mais não é do que um estado efémero, que não pressagia nada de bom… Não vou entrar em pormenores clínicos, mas devo referir que, ultrapassadas as 48 horas em que estive, em observação, no serviço de urgências do Hospital São Francisco Xavier – onde, por sinal, dei entrada no próprio dia em que se festeja liturgicamente este santo missionário! – o resto da minha experiência hospitalar ocorreu no serviço de neurologia do Hospital Egas Moniz, que também faz parte do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental.
Logo que fui transportado, de ambulância, para aquele primeiro hospital, por ser o que corresponde à zona onde vivo, fui muito prontamente atendido pelos profissionais de saúde. Sei agora, pela nota de alta, que foi o neurocirurgião Dr. Ding Zhang quem teve a amabilidade de aí me receber e acompanhar. Permaneci nesse dia e no seguinte no serviço de urgência do São Francisco Xavier, onde fui muito bem atendido pelo pessoal médico, pelos profissionais de enfermagem e auxiliares.
No dia 4, pelas 21h30, fui transferido, também em ambulância, para o Hospital Egas Moniz, dando de imediato entrada no respectivo Serviço de Neurologia, onde fui muito cordialmente recebido pelas Senhoras Enfermeira-Chefe e Cristina Colaço.
Desde a minha admissão no Hospital Egas Moniz, fiquei sob a superior orientação do Senhor Professor Doutor Miguel Viana Baptista, Chefe do Serviço, da Dra. Isabel Carmo e do Dr. João Pedro Marto. Não tenho, como é evidente, competência para ajuizar o acompanhamento médico que me proporcionaram, mas não exagero se disser que não poderiam ter sido mais solícitos. As suas visitas eram diárias, tiveram sempre a grande delicadeza de me ouvirem e de me explicarem a evolução do meu estado de saúde, bem como a razão de ser dos tratamentos e exames que me foram, sucessivamente, prescrevendo, até ao dia da minha alta definitiva, a 23 de Dezembro passado.
Também a Senhora Directora do Hospital, Drª Maria Celeste Sim-Sim, foi de uma inexcedível amabilidade no modo como me acolheu, se interessou pela minha saúde e se disponibilizou para o que fosse necessário.
Em abono da verdade, devo confessar que, durante todo o tempo da meu internamento – vinte e um dias, com as suas noites! – nunca detectei, em relação a mim ou a qualquer outro doente, nenhum comportamento menos solícito por parte de nenhum profissional de saúde. Tenho a consciência de que fui sempre apoiado por uma equipa médica excelente, enfermeiras e enfermeiros de comprovada competência profissional e de enorme delicadeza pessoal, auxiliares de grande eficiência técnica e muito generosa dedicação.
Por tudo isto, foi com especial consternação que li, ainda internado, a horrível notícia do falecimento de um jovem de 29 anos, precisamente por um grave acidente de natureza neurológica. Para além de sentir uma imensa tristeza por essa terrível morte, experimentei também uma veemente indignação pelo modo como, um pouco por toda a parte, se pôs em causa a honestidade e dedicação dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde. Aquele fatídico acidente foi, certamente, lamentável e as causas do óbito devem ser apuradas, para memória futura e eventual responsabilização dos que, por acção ou omissão, sejam alegadamente culpados pela perda daquela vida humana. Mas a ninguém é lícito extrapolar aquele caso e generalizar conclusões injustas e difamatórias para os médicos, os enfermeiros, os auxiliares ou os gestores hospitalares!
É pena que os justiceiros que, ante um infelicíssimo acidente, estão sempre preparados para difamar os profissionais do Serviço Nacional de Saúde, nunca se tenham lembrado de lhes dedicar uma palavra de reconhecimento ou gratidão. Não quero fazer meus, neste novo ano, esses velhos e maus hábitos de maledicência dos nossos médicos, enfermeiros, auxiliares, administradores hospitalares e administrativos. Não sou perito em saúde nacional, mas tenho a legitimidade que me conferem três semanas de recente internamento em dois hospitais públicos. Em nenhum momento solicitei ou obtive nenhum privilégio: jamais me atreveria a solicitar qualquer favor, nem o teria aceite, se me tivesse sido espontaneamente oferecido. Graças a esta gratificante experiência de doente comum, só posso bendizer – que é isso mesmo, dizer bem! – e agradecer. Posso até afirmar, sem nenhum exagero, que, se porventura tivesse recorrido a uma instituição particular, talvez tivesse tido mais comodidades, mas decerto não teria sido, em termos clínicos e humanos, melhor tratado.
Bem-haja o Serviço Nacional de Saúde e quantos, com a sua competência profissional e generosa dedicação, tão bem cuidam e salvam, todos os dias, tantas vidas humanas!
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