sábado, 31 de outubro de 2015

Espanha: Celebrar a santidade e não o dia das bruxas

Blanca Ruiz, ACIDigital


Crianças vestidas de anjos durante a celebração de Holywins, Alcalá de Henares, (Espanha)..

A gargalhada de Álvaro Cunhal

Rui Ramos | Observador | 30/10/2015

Eis que, após quarenta anos, o PCP pode regressar ao poder com as ideias e os métodos de sempre. Se ouvirem por estes dias uma grande gargalhada, é de Álvaro Cunhal. Esta é a sua vitória póstuma.

Durante quarenta anos, acreditámos em Portugal que um governo participado ou apoiado pelo PCP ou pelo BE só poderia significar duas coisas: ou eles tinham mudado, ou o regime ia mudar. Mas eis que chega António Costa e nos anuncia que o PCP e o BE não mudaram, e que o regime também não vai mudar com a ascensão deles ao poder. Vale a pena pensar nisto.
De que o PCP e o BE não mudaram, não há dúvida: esta semana, votaram em Bruxelas contra o Tratado Orçamental, enquanto em Lisboa o PCP mandava a CGTP cercar a Assembleia da República no dia da apresentação do programa de governo. A mão dada ao PS também não é surpresa. Há quarenta anos que o PCP tenta arrastar o PS para uma “maioria de esquerda” (expressão inventada pelo PCP), e nunca como agora o PCP e o BE precisaram tanto do poder: o PCP, para conservar os seus sindicalistas, ameaçados pela concessão dos transportes públicos; e o BE para tentar fixar, com os recursos do Estado, uma base de apoio volátil. Mesmo assim, o BE insiste nas suas “condições” e o PCP tem-se recusado a ir além da proposta de Álvaro Cunhal no relatório ao VIII Congresso do PCP em 1976: o PCP apoiará todas as medidas que forem favoráveis aos “trabalhadores”, e rejeitará todas as outras. Porquê? Porque o PS, por conveniências pessoais do seu secretário-geral, está disposto a tudo, o que pela primeira vez permitiu ao PCP e ao BE imporem os seus termos.
Desse ponto de vista, estamos perante a vitória póstuma de Álvaro Cunhal. Durante décadas, todos os sábios deste mundo e do outro lhe recomendaram que imitasse os chamados “eurocomunistas” de Itália, Espanha e França. Cunhal ignorou essa amável sabedoria e conservou-se fiel à ditadura soviética, não apenas até ao fim, mas depois do fim. E eis que, após quarenta anos, o PCP pode regressar ao poder com as ideias e os métodos de sempre. Se em Portugal soar por estes dias uma grande gargalhada, é de Cunhal.
Muito bem, dir-me-ão: mas não é isto sinal de uma democracia madura, reconciliada, quarenta anos depois do PREC? De facto, não estamos em 1975. Mas em 1976, também já não estávamos em 1975. A partir de 1976, o objectivo do PCP não era repor Vasco Gonçalves no governo, mas manter as suas “conquistas”. Acontece que Mário Soares, o PSD e o CDS, com mais ou menos zelo, decidiram adaptar o país aos padrões ocidentais. A integração europeia representou essa vontade e esse esforço. Foi esse projecto de mudança – e não apenas os “compromissos internacionais” — que o PCP e o BE sempre recusaram. Um governo do PS nas mãos do PCP e do BE agravará despesas e impostos até onde contribuintes e credores do Estado aguentarem, mas suspenderá as reformas no país. É essa a questão.
O problema português é que demasiada gente (empresas, corporações, classes profissionais, etc.) vive de “rendas”, isto é, de rendimentos que dependem unicamente do poder político. São estas as clientelas com que os oligarcas contam para exercer influência ou para ganhar eleições. O ajustamento de 2011-2014 abalou o sistema. Caíram grupos financeiros, o sindicalismo do sector público viu-se ameaçado, e a justiça expôs a promiscuidade político-empresarial. A eventual “maioria de esquerda” será, no fundo, o último e desesperado esforço de sobrevivência daquele regime que, antes da crise, era encarnado por Ricardo Salgado, a CGTP e José Sócrates. Para oxigenar o velho sistema, os oligarcas confiam no BCE, nos fundos estruturais e na máquina fiscal. E para impedirem reformas, confiam no PCP e no BE: em 1975, eles foram uma ameaça aos poderes então dominantes; agora, pelo contrário, são a sua garantia.

Peregrinação por Portugal

Portugueses,
Facebook, 20151031
Fizemos hoje a peregrinação por Portugal.
Fomos 14 e andamos cerca de 20 quilómetros. Depois de nos apresentarmos, partimos de terço na mão, e rezamos o Rosario várias vezes. Não tivemos nem quisemos ter tempo para conversar, para pedir pelas nossas intenções. Foi um dia de oração e penitência totalmente dedicado à nossa Pátria. Cantamos alguns cânticos de Fátima que falam sempre de Portugal.
Dedicamos cada terço inteiramente por cada um dos políticos envolvidosno imbróglio em que estamos metidos e pedimos aos santos com os seus nomes que intercedessem por eles. Foi bom saber que todos eles têm nomes de santos. Assim começamos por pedir a S. Jerónimo pelo Jerónimo de Sousa, a Sta. Catarina de Sena que intercedesse pela Catarina Martins, a St. António pelo Antonio Costa, a S. Paulo pelo Paulo Portas e a S. Pedro pelo Pedro Passos Coelho. Pedimos muito a intercessão do Arcanjo S. Miguel, Anjo de Portugal e da Paz que nos afastasse do todo o mal.
Foi bom, foi muito bom! E cada passo, cada dor, cada subida e cada descida, tudo foi oferecido a Deus para reparar tanto mal. Estava prevista uma chuva intensa,...nem um pingo nos molhou. Sentimos o caminho aberto e o sorriso de Nossa Senhora contente com o nosso sim.
Fomos poucos mas também sabemos que é na fraqueza que se manifesta a grandeza do nosso Deus! É por isso nos sentimos privilegiados.
Levamos Portugal no coração e bandeira sempre erguida. No fim na capelinha deixamos recados e fomos à missa!
Que dia bem passado.
Termino deixando a oração que o Anjo ensinou aos Pastorinhos e que tantas vezes rezamos no caminho:
"Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos, peco-Vos perdão pelos que não crêem, não adoram, não esperam e não vos amam"


Tanta hipocrisia!

Maria de Fátima Bonifácio
ionline 31/10/2015

O famoso “acordo” ainda está em laboratório. Quanto mais o tempo passa, mais Costa é obrigado a ceder. O PCP há-de espremê-lo até à última das concessões. Tremendismo?! A ver vamos.

Confesso que deixei de acompanhar com pormenor o sórdido enredo da política nacional, criado por António Costa com o único e exclusivo propósito de chegar a primeiro-ministro e, deste modo, salvar a pele e manter-se à frente do PS. Uma vez desencadeado, Bloco e PC são os Judas em cujas mãos depositou o futuro próprio, e, o que lhe importa muito menos, o do partido. Costa odeia o Bloco, o Bloco odeia o PC, e o PC odeia e despreza ambos. O Bloco espera “pasokisar” o PS, o PCP espera destruí-lo. Mas lá vai Costa, cantando e rindo.
No meio da barulheira infernal que se instalou, a que me tenho poupado o mais possível, chegou-me todavia o coro de lamentações e indignações levantado contra o discurso do Presidente da República de 22 de Outubro. Discurso alegadamente vingativo e “divisionista” (um termo caro ao PC), um discurso que perpetrara a suprema heresia de excluir do sistema político a sua componente comunista e bloquista. Sobre esta falácia, Francisco Assis já disse tudo no seu artigo de há dias, no «Público»; e na imprensa, houve jornalistas profissionais que explicaram, pacientemente, a Constituição: esta prevê dois momentos em que o PR detém poderes discricionários: a dissolução do Parlamento, a indigitação do primeiro-ministro.
Mas há muito mais que justifica plenamente as palavras firmes e claras de Cavaco Silva, aliás hoje reiteradas na cerimónia da posse do segundo governo de Passos Coelho. Palavras claras, um género caído em desuso num país político que adoptou o eufemismo como língua franca de todas as facções, de que a verdade e a sinceridade foram banidas para dar lugar à ambiguidade como norma e como método: a cada momento, ela permite reinterpretar o que chegou a ser dito, mas já não interessa que continue a ser dito. Ou seja, a ambiguidade, a expressão equívoca, são os instrumentos privilegiados de uma política radicalmente oportunista, que só aos poucos, e mesmo assim ainda ambiguamente, confessa os seus fins. O Partido Socialista, enquanto grande partido democrático e definidor da fronteira da liberdade, está podre, enfermo de doença grave e com toda a probabilidade letal. É uma questão de tempo. A menos que arrepie caminho – se for a tempo.
Cavaco Silva, em 22 de Outubro como ainda hoje, falou claro e disse o suficiente. Os visados, ou, num plebeísmo, os que enfiaram a carapuça, com excepção de verdadeiros ingénuos, que os há, fingiram-se ofendidos, indignados, aviltados e sei lá que mais – tanta hipocrisia !
O Presidente limitou-se a tirar as consequências de uma lição que todos aprendemos na instrução primária: é impossível somar pêras com laranjas e tangerinas. Pêras, laranjas e tangerinas são entidades heterogéneas, irredutivelmente distintas entre si. As pêras são o PS, as laranjas são o PC, e as tangerinas são o Bloco, umas tangerinas que brotaram de um originário tronco comum – o marxismo-leninismo – mas que continham, e contêm, um aditivo trotskista que as diferencia do vetusto tronco incontaminado da ortodoxia. Estaline liquidou o trotskismo: o próprio Trotski, já refugiado no México, foi aqui mandado assassinar por Estaline a golpes de picareta na cabeça. Depois desta “guerra civil”, na realidade e em essência mais propriamente um conflito de natureza específica que atravessa e dilacera uma família e respectiva parentela, apartando-a em grupos irremissivelmente inimigos e antagónicos, ninguém se reconcilia. Daqui nasce o ódio entre o PC e o Bloco, que têm velhíssimas contas a ajustar e cuja competição não tardará a derrubar Costa, se este vier a ser empossado primeiro-ministro. (Santana Lopes, no CM de hoje, deixa uma dúvida a pairar.)
O PS – as pêras – não abdicou expressamente, até ao momento em que escrevo, da sua natureza democrática, atlantista e europeísta, nem proclamou que rejeitava as obrigações decorrentes da nossa pertença à Europa e ao Euro, vertidas em vários documentos com diversos estatutos jurídicos, mas todos eles solenes e vinculativos. Todos eles têm a assinatura do Partido Socialista Português e comprometem, obrigam Portugal.
O Bloco defende a preparação do exit português do euro, possivelmente da Europa, mas, de momento, coloca essas insuperáveis divergências entre parêntesis e fecha-os olhos como se não existissem e fosse possível abstrair delas. Porém, Jerónimo de Sousa, ontem à noite na SIC foi taxativo: essas “diferenças” existem e não desaparecem só porque fingimos que não vemos e não ouvimos – “estão lá”. O PS finge; o Bloco finge; mas o PC não finge e pelo contrário recorda-as e sublinha-as. As pêras, as laranjas e as tangerinas não se podem somar. Ou seja, os deputados podem-se somar – mas aquilo que representam não pode. Logo e por consequência, a soma aritmética de deputados não corresponde a nenhuma maioria política com um mínimo – um mínimo – de homogeneidade. Os deputados continuarão ser os deputados do PC, os deputados do Bloco, os deputados do PS, três partidos incompatíveis e que “não se somam”. Não há volta a dar-lhe.
Esta semana Jerónimo repetiu pela enésima vez o programa verdadeiro do PCP, para além das exigências imediatas e pontuais de aumento dos salários, reposição das pensões, revisão das leis laborais, reforço da Intersindical e da contratação colectiva. Nos dois últimos casos não chamou as coisas pelos nomes e nem era preciso: toda a gente sabe ao que se referia.
Mas, como relembrou Jerónimo, o programa do PC transcende imensamente estas reivindicações de conjuntura. Resume-se em três palavras: autarquia (auto-suficiência) para Portugal; até mesmo numa: isolacionisnmo. Salazar diria: “orgulhosamente sós”. O PC diz: sós, orgulhosos e pobres, soberanos ! Como ? Saindo da Europa e do Euro, voltando ao escudo, nacionalizando, quer dizer, expropriando os bancos, os seguros, as empresas ditas estratégicas e as telecomunicações. Depois de tudo descapitalizado e de bancarrota ou inflacção venezuelana – soberanos, o escudo pode ser desvalorizado à vontade – Portugal recairia na ancestral miséria, igual ou maior ainda, de que já começara a erguer-se nos últimos anos do salazarismo e no marcelismo.
As telecomunicações, claro: um programa destes exige censura, a liquidação da imprensa e das televisões privadas e livres, e uma polícia política. Nunca em lado nenhum o “socialismo real” (e não há outro) dispensou estes instrumentos.
O Presidente da República sabe isto e muito mais. Sabe o que qualquer português letrado e maior de idade sabe ou deveria saber. Infelizmente, a clamorosa ignorância histórica e política de alguns dos nossos mais jovens opinadores, mesmo de colunistas estupendos, leva-os a pensar que a história do Mundo começou depois da queda do muro de Berlim, e que a história de Portugal começou depois do fim do PREC, lá para finais dos anos setenta do século XX. Acontece que, do ponto de vista que agora nos interessa, a história começou, para Portugal e para o Mundo, em 1917, ano da revolução bolchevique na Rússia.
O famoso “acordo” ainda está em laboratório. Quanto mais o tempo passa, mais Costa é obrigado a ceder. O PCP há-de espremê-lo até à última das concessões, para que o desesperado aspirante a primeiro-ministro mais rapidamente dê cabo de Portugal.
Tremendismo?! A ver vamos.

Sínodo da Família: uma benção para o mundo

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Observador 31/10/2015 

Cabe ao Papa explicar como a pastoral da misericórdia se articula com a fé da Igreja, como manter que um matrimónio válido seja preterido por união posterior, mantando o princípio da indissolubilidade

O processo ainda não está concluído, mas já se pode dizer que o Sínodo sobre “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização” foi uma experiência positiva, não só pelo facto de todas as conclusões, mesmo as mais polémicas, terem sido sufragadas por dois terços dos padres sinodais, mas também porque o relatório final melhorou substancialmente o “instrumentum laboris”, isto é o texto de trabalho elaborado a partir das conclusões da assembleia extraordinária de Outubro de 2014.
Ao contrário do que sucedia no anterior texto que, segundo George Weigel, era “biblicamente anoréctico”, as conclusões do último Sínodo expressam uma mais madura reflexão teológica. De forma mais assertiva, reafirmou-se a doutrina da Igreja sobre o matrimónio e a eucaristia e renovou-se o apelo conciliar à santidade. Os membros desta assembleia sinodal insistiram também na necessidade de um atendimento pastoral específico para com as famílias e casais em situações difíceis. Reafirmaram ainda que a geração é uma bênção de Deus e louvaram o exemplo dos casais felizes e das famílias numerosas, agentes prioritários da evangelização.
Outro capítulo, sobre o qual as conclusões deste Sínodo foram especialmente esclarecedoras, respeita à aplicação da doutrina da Igreja, ou seja, à pastoral familiar. Com efeito, estudou-se a relação entre a consciência individual e a verdade, excluindo-se que aquela possa substituir, ou contrariar, os ensinamentos revelados por Cristo. Neste sentido, sublinhou-se que a actividade pastoral deve estar em sintonia com o magistério eclesial, sendo inviáveis soluções locais ou regionais contrárias à doutrina da Igreja, que é una e universal. Embora ciente de que, em alguns países, a lei civil equiparou ao casamento natural outras uniões, o Sínodo entendeu que só aquele é verdadeiro matrimónio e, em consequência, o único que pode fundar uma autêntica família. Harmonizaram-se os conceitos de verdade revelada e de misericórdia divina, na teoria e na prática pastoral.       
Muito embora a última assembleia sinodal tenha sido mais afirmativa e pacífica do que a precedente, é também verdade que se fizeram sentir diversas correntes interpretativas da doutrina e da tradição eclesial. Por um lado, um sector significativo do episcopado europeu e norte-americano, tendo em conta as circunstâncias de muitos dos seus fiéis, sugeriu tolerar uma segunda união, permitindo aos cônjuges recasados o regresso à prática sacramental da confissão e da comunhão eucarística, que na actualidade não lhes é permitida. Por outro, muitos bispos do resto do mundo reagiram contra essa hipótese, na medida em que a consideram contrária à indissolubilidade matrimonial e à doutrina, também revelada, sobre a eucaristia. O relatório final do Sínodo aponta para a manutenção da doutrina da Igreja mas, ao mesmo tempo, apela para uma atitude mais flexível em relação aos fiéis que se encontram em situação matrimonial irregular.
Cabe agora a Francisco a última palavra, provavelmente através de uma exortação apostólica pós-sinodal. Uma das questões que o papa deverá solucionar é a que respeita à forma como a pastoral da misericórdia se conjuga com a fé da Igreja. Ou seja: como manter que um matrimónio válido seja preterido por uma união posterior, sem contrariar o princípio irrevogável da indissolubilidade?! Ou ainda: como admitir à comunhão eucarística um fiel que, embora canonicamente casado com uma pessoa, vive maritalmente com outra quando, segundo o ensinamento paulino e a prática da Igreja, se proíbe a eucaristia a quem se encontra nesse estado?! Como fez notar o Cardeal Arinze, se a esses fiéis se permite aceder à comunhão eucarística, não poderiam também comungar todos os cristãos cuja vida contradiz os princípios evangélicos como, por exemplo, os solteiros que vivem maritalmente?!  
Para ultrapassar este impasse, alguns padres sinodais apelaram à noção de discernimento, ou seja, a um acto prudencial que, em cada caso, o pastor competente deveria realizar sobre a situação concreta de um fiel, permitindo-lhe, ou não, a prática sacramental. Mas, como se tem dito, uma tal solução poderia levar ao casuísmo e a uma relativa confusão sobre a questão, com pastores mais rigoristas a negarem o que outros, mais permissivos, autorizariam. Sem um critério uniforme, perder-se-ia também a unidade doutrinal da Igreja, resultando um enfraquecimento do magistério pontifício e o esvaziamento do próprio sínodo. Se assim fosse, seriam na prática indiferentes as recomendações pontifícias, ou as conclusões sinodais, pois, em qualquer caso, prevaleceria o que, em cada diocese, o bispo decidisse.
A procissão ainda vai no adro porque o resultado das duas assembleias sinodais, extraordinária e ordinária, reunidas em Roma em 2014 e 2015, respectivamente, só será conhecido quando for publicado o documento em que Francisco decidirá, com carácter definitivo, quais as conclusões a introduzir na pastoral católica. Aos fiéis caberá então, em coerência com a sua fé, acatar a decisão pontifícia.
De todos os modos, é já possível registar com satisfação que a pluralidade eclesial se uniu na comum exaltação do dom da família e do mistério do amor matrimonial, entendido como a união indissolúvel entre uma mulher e um homem, de per si apta para a geração. Todos os fiéis, de acordo com as suas próprias circunstâncias, são chamados a viver em família, porque a Igreja é família e cada família cristã uma igreja doméstica. Tal como, na Santíssima Trindade, onde a pluralidade das pessoas não obsta à unidade substancial, também cada família deve ser, na diversidade dos seus membros, uma experiência de comunhão no amor que o próprio Deus é.

Halloween: mera diversão? Pois quem se diverte mesmo é o diabo!

ALETEIA,29 DE OUTUBRO DE 2015

Pe. Aldo Buonaiuto, exorcista italiano: “Por trás das brincadeiras, a obra do diabo”
Das brincadeiras do Halloween para o ocultismo há só um pequeno passo, afirma o pe. Aldo Buonaiuto, da Comunidade Papa João XXIII. Ele é exorcista e coordenador de um serviço de ajuda a vítimas do ocultismo. Todo mês de outubro, a linha 0800 desse serviço toca sem parar.
Este é um relato de poucos dias atrás:
“Ligou uma mãe desesperada, que tinha descoberto as mentiras do filho, um rapaz excelente, sincero, que, de repente, mudou de círculo de amizades. Ela descobriu que o rapaz tinha profanado um cemitério… Eu falei com o rapaz. Por que você fez isso? E a primeira palavra foi Halloween. Chorando, ele me falou da forte persuasão dos novos amigos. No começo parecia tudo uma brincadeira, um jogo. Depois, ele descobriu que eles estavam agindo a sério; que todos eles acreditavam mesmo naquilo que estavam fazendo. E ele não conseguia se livrar deles”. O episódio quase banal revela como é fácil entrar nesses circuitos. Mas, “especialmente para um jovem, não é fácil sair deles, por vergonha, medo e tantas dinâmicas típicas dessa idade”.
O pe. Aldo Buonaiuto acaba de lançar, na Itália, o livro “Halloween: Lo scherzetto del diavolo” (A brincadeira do diabo – título livremente traduzido; a obra ainda não está disponível em português), que examina aspectos históricos e sociológicos desse fenômeno dito cultural.
Segundo ele, a famosa frase “doçura ou travessura?” vem de outra: “oferenda ou maldição?”, de origens celtas e usada em sacrifícios ao deus da morte, Samhain, para propiciar um bom inverno. Embora este significado mais recôndito fique escondido sob a pátina comercial, “o Halloween continua sendo a festa mais importante dos satanistas, envolvendo ocultismo, esoterismo, magia, bruxaria”. Por trás das máscaras, o pe. Aldo vê “a obra insidiosa do diabo, uma rasteira indireta para derrubar suas vítimas”. A mídia faz o resto: “As crianças de hoje nem sabem que existe a festa de Todos os Santos, mas sabem, porque isso é incutido até nas escolas, que existe o Dia das Bruxas – ou Halloween”.
E quanto à memória dos falecidos?
“Sequer é comparável. O Halloween exalta o espiritismo, o mundo invisível ligado às forças demoníacas. O Dia de Finados está ligado à crença na vida eterna, na ressurreição do corpo. As religiões têm respeito pelos mortos. O Halloween não tem. Ele ultraja os mortos”.
“Não se pode banalizar este fenômeno. Para muita gente, é só um momento de diversão, mas, para os satanistas, a participação indireta também conta: quem se fantasia está de certa forma exaltando o reino do mal. Que pai quer ver seu filho de rosto desfigurado, sem os olhos, gotejando sangue? Qual é a diversão nisso? O que se esconde de verdade por trás desse fenômeno que leva a considerar esse tipo de coisa como normal?”.
O exorcista está convicto:
“A nossa sociedade não precisa de Halloween, de monstruosidade, de imagens agressivas e violentas do macabro e do horror. Esta sociedade não precisa das trevas. Nossos filhos precisam da luz. Por que não oferecemos a eles a festa dos santos? Esta é que é uma beleza! É um grande desafio numa sociedade que se devota às coisas ruins para torná-las normais”.
Daí o convite: preparar festas temáticas sobre as vidas dos santos. E um apelo aos sacerdotes, professores e catequistas:
“Tenham a coragem de testemunhar a fé desses grandes heróis, os santos e beatos, que têm muito a transmitir para esta sociedade. Abram as portas das paróquias não para abóboras vazias, mas para festas belas! O Dia de Todos os Santos é uma grande oportunidade para sermos quem somos: filhos da luz!”.

Resistir à javardice

Inês Teotónio Pereira
ionline, 20151031

Não tinha eu começado a jantar e já a minha página de Facebook, redes sociais e sites sinalizavam pessoas a cuspirem ódio, insultos e javardices.
“Nogenta” (o gê não é gralha) , “fascista”, “imbecil”, “vómito”, “cabra”, “anormal”, “gaja que devia estar na cozinha”, “vê lá onde andas com os teus filhos...”, “alguém devia tirar os filhos a esta gaja”, “esta devia ser esmurrada no meio da rua”, “dePUTAda”, etc. E assim vai a extrema-esquerda. 
Mas comecemos pelo princípio. Fui à Voz do Operário ao lançamento da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa e quando cheguei a casa resolvi escrever a seguinte piadinha na minha página de Facebook: “Só o Prof. Marcelo para me levar a um sítio com operário no nome”. Ou seja, e passo a explicar a piadinha, operário é um termo usado e abusado pela esquerda radical autoproclamada dona e defensora da classe operária.
Ora, sendo o prof. Marcelo de direita (digo eu), foi engraçado ter escolhido esta prestigiada instituição – com “operário” no nome – para lançar a candidatura. Fazendo uma interpretação alargada da minha ida, também é engraçado, sendo eu de direita, ter ido a um sítio com “operário” no nome – ligado à esquerda, portanto. Uma piadinha inocente – pois não ataco nem desprezo ninguém; no máximo sem graça, confesso – por ser inteligível a muitos, nomeadamente aos autoproclamados defensores da classe operária.
Ora, não tinha eu começado a jantar e já a minha página de Facebook, redes sociais e sites sinalizavam pessoas a cuspirem ódio, insultos e javardices. Até deputados da nação da extrema-esquerda, como Miguel Tiago, do PCP, alinharam e alimentaram no Facebook o massacre a um direito constitucional que me assiste, que é o do bom nome. Alguns atreveram-se até a publicar fotografias dos meus filhos e a divagar sobre a minha família.
A javardice e a ordinarice chegou a tal ponto que até o representante da nação resolveu exercer autocensura e eliminar a javardice que provocou na sua própria página. Em nome da democracia, da decência? Tenho dúvidas. 
Vai daí, dediquei várias horas do meu sábado a bloquear pessoas no Facebook, a denunciar insultos na internet e fiquei, confesso, sem vontade de voltar a escrever. “Tu vê lá... Tens filhos e esta gente é maluca,” avisaram-me amigos. “Não podes sujeitar os teus filhos a lerem coisas destas sobre a mãe, tens de ter cuidado.” A intimidação resultou. Retirei a piadinha do Facebook, bloqueei maníacos e fiquei na dúvida se voltaria a escrever mais uma linha onde quer que fosse. 
Portugal é um país de brandos costumes, dizem. Mas não é.
Basta ver as caixas de comentários de qualquer colunista para se perceber que não é. Como diz Henrique Raposo, as caixas de comentários são as novas portas dos urinóis públicos: ali tudo é permitido, do vómito ao palavrão, das ameaças à intimidação. Mas não é só aí: em todo o lado, esta gente insulta, intimida e ameaça, e não precisa de uma razão, basta-lhes um nome. O insulto é um direito equivalente à liberdade de expressão e não precisam de uma ideia para despertar. 
No meu caso, a coisa agrava-se e é flagrante. E não é pela minha influência (duvido que a tenha); o meu problema é fútil, tem a ver com um cliché que a extrema-esquerda odeia. E a ela basta-lhe o cliché. Ou seja, esta gente tolerava-me se eu fosse de direita mas ateia; permitiam a minha existência se eu renunciasse ao apelido do meu paizinho ou do meu marido; não me insultavam tanto se eu fosse, apesar de tudo, a favor da adopção por casais homossexuais, por exemplo. Mas não sou, desculpem. É tudo mau, portanto: católica, de direita, “parideira fascista” (outro mimo pelo número de filhos que tenho) e, ainda por cima, não renuncio a apelidos. Ou seja, o ódio que desperto tem fundamento na estupidez. 
Tudo isto é grave porque revela que a liberdade de expressão e de opinião não é, e cada vez é menos, uma evidência: a sua tolerância depende do titular e o seu exercício é limitado pela intimidação. É apenas um direito condicionado à coragem de o exercer. No meu caso, os meus filhos são o meu principal argumento: é exercendo a minha liberdade que lhes ensino o seu real sentido. Com mais ou menos coragem, com mais ou menos insultos. 

Não há dinheiro para pagar mais socialismo


Ainda que continue a não haver uma reflexão crítica séria sobre o modelo de Estado Social, importa que se reconheça pelo menos que não há dinheiro para pagar mais socialismo do que o que já temos.

Margaret Thatcher, num dos seus mais brilhantes aforismos, sintetizou o modo de actuação dos governos socialistas explicando que eles acabam sempre por esgotar o dinheiro dos outros (“They always run out of other people’s money”). O sábio aforismo de Thatcher aplica-se na perfeição à situação de Portugal, ainda que boa parte dos políticos portugueses pareça não estar consciente disso.
Essa falta de compreensão é particularmente grave porque o problema não vem apenas de 2011, nem sequer de 2000. Na verdade, nas últimas quatro décadas de democracia a insustentabilidade tem sido o padrão dominante no âmbito das finanças públicas. O gráfico seguinte, que agradeço a Jorge Costa, ilustra bem este ponto ao apresentar o saldo corrente, ou seja: a diferença entre despesas correntes e receitas correntes, do Estado português ao longo das últimas seis décadas.
grafico_jorge_costa
Em quatro décadas de democracia, o Estado português apresentou um saldo corrente negativo em 80% dos anos. Mais: a maior parte desses défices correntes foram em valores muito significativos em proporção do PIB. Ou seja, o regime tem vivido sistematicamente empurrando dívidas para as gerações futuras, dívidas essas que não têm qualquer contrapartida em activos já que não estão associadas a despesa de investimento.
A prática de legar aos filhos e netos sucessivos défices correntes tem sido de tal forma transversal e reiterada que se pode considerar um dos pilares desta terceira república. De tal forma que, tragicamente, o único travão que se tem revelado eficaz é, precisamente, a falta de dinheiro. Só mesmo a secagem das fontes de financiamento obriga a alterar políticas e, mesmo assim, apenas o mínimo necessário para manter o modelo vigente. Não obstante a propaganda partidária e o ruído mediático, a verdade é que a coligação PSD-CDS que governou o país nos últimos quatro anos ficou aquém da troika e muito aquém do que o país precisava em termos de contenção da despesa pública e de reforma do Estado.
Como muito bem resumiu João César das Neves em artigo recente: “No Orçamento, depois de tanto esforço, atingiu-se apenas o limite máximo do intervalo permitido. Pior, a indiscutível redução do défice foi conseguida sobretudo à custa de medidas contingentes e temporárias, com poucas reformas na máquina. Preferiram-se cortes em salários e pensões, que na campanha todos os candidatos se propuseram eliminar. Por isso a tão falada consolidação orçamental está ainda muito longe. Por sua vez, o lado privado da situação financeira não é mais favorável. As empresas continuam descapitalizadas, os bancos permanecem frágeis e a taxa de poupança das famílias encontra-se no mínimo histórico. A conjuntura só é boa se comparada com a anterior.”
Apesar de ter ficado aquém da troika, é justo (e realista) reconhecer que o executivo liderado por Pedro Passos Coelho foi ainda assim além do que teriam feito quaisquer das alternativas governativas no contexto partidário português. E que só isso evitou um colapso do Estado português que estava iminente em 2011 e que o país seguisse a via da Grécia.
Quem em 2015 contribuir – seja por que forma for – para colocar Portugal a seguir essa via será co-responsável pelos resultados desastrosos que não é difícil antecipar. Ainda que nos próximos anos continue a não haver em Portugal uma reflexão crítica séria sobre o modelo vigente de Estado Social, importa que os responsáveis políticos reconheçam pelo menos que não há dinheiro para pagar mais socialismo do que o que já temos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Cristianismo

Se você está à procura de uma religião que o deixe confortável, definitivamente eu não lhe aconselharia o cristianismo.

C. S. Lewis

Um erro sem desculpa

VASCO PULIDO VALENTE Público 30/10/2015

Se por causa do Governo de António Costa as condições gerais da economia piorarem, agravando a pobreza da sociedade e do Estado, o PC perderá o que tem.

Já muito mais tarde, por volta de 1990, conheci pessoas que tinham trabalhado com Álvaro Cunhal durante o PREC e durante os primeiros governos constitucionais. De tudo o que me contaram, o que mais me espantou foi o facto de Cunhal persistir em acreditar que o regime estabelecido era (para usar o calão da seita) uma “democracia avançada” e não uma “democracia burguesa” como em toda a Europa. Ao que parece, Álvaro Cunhal fundava esta inesperada ideia na Constituição, que no preâmbulo falava em “socialismo” e dava por adquiridas as leis laborais de 1975, a reforma agrária, as nacionalizações “irreversíveis” e outras maravilhas. Como considerava a Constituição eterna e a sociedade imutável, não pensou na fragilidade do equilíbrio em que assentava a sua consoladora visão das coisas.
Os desgostos não tardariam a chegar. Mas, pensando bem, para quem conhecia a história da ortodoxia comunista desde 1917 as fantasias de um pequeno chefe num país distante tinham, e continuavam a ter, dezenas de precedentes. Para compreender Jerónimo de Sousa, é preciso compreender isto. O PCP não está condenado pela “austeridade” do Governo de Passos Coelho. O PCP está condenado pela sociedade em que hoje vai vivendo, reduzido a uma velha área de influência geográfica, constantemente ameaçada, e aos sindicatos dos transportes, de que o Estado, contra a razão e o bom senso, ainda é proprietário. A aliança de Jerónimo de Sousa com o PS é uma aliança defensiva, um episódio já obscuro da “luta pelas conquistas de Abril”, condenado tarde ou cedo a falhar como sempre sucedeu.
O PC resolveu pagar ao PS com o seu apoio (muito condicionado, de resto) a revogação das leis laborais da coligação, a permanência dos transportes na esfera pública e algum alívio transitório para aqueles a quem Jerónimo quase deixou de chamar “trabalhadores” e trata agora por um eufemismo burguês, particularmente equívoco: “Os mais frágeis”. Volta assim à política de cegueira e de imobilismo que o distinguiu desde Novembro de 1975. Só que desta vez corre um risco muito mais grave. Se por causa do Governo de António Costa as condições gerais da economia piorarem, agravando a pobreza da sociedade e do Estado, o PC perderá o que tem; os benefícios que o PS lhe der; e também na enxurrada o persistente respeito dos portugueses pela sua fidelidade e si próprio: um erro sem desculpa.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Assunção Cristas e a questão de Deus

A falsa tese da marginalização política da extrema-esquerda

FRANCISCO ASSIS Público 29/10/2015

O PS, como já aqui o referi na semana passada, não pode deixar-se aprisionar por compromissos impeditivos da prossecução de uma acção reformista de que o país notoriamente carece.
1. A comunicação presidencial da semana passada teve, entre outras, a consequência nefasta de consolidar a ideia de que ao longo dos últimos 40 anos se viveu num regime de apartheid político com a exclusão dos partidos situados à esquerda do PS. Com o apoio activo de alguns sectores do Partido Socialista – nuns casos por pura má-fé, noutros por manifesto desconhecimento da nossa história democrática – os partidos da extrema-esquerda têm vindo a impor a tese segundo a qual foram objecto de uma ostensiva marginalização parlamentar de carácter não democrático. Ora isso pura e simplesmente não é verdade. E não só não é verdade, como constitui um monumental embuste directamente filiado na tradição leninista e estalinista de falsificação primária dos fenómenos históricos. Que aqueles que ainda hoje se reconhecem nessa tradição política se dediquem a tais práticas não pode constituir motivo de especial surpresa; que haja sectores do Partido Socialista dispostos a aderir acriticamente a tal tipo de procedimentos e até a participarem entusiasticamente neles já é razão para uma reacção indignada. O conceito de “arco da governação” nunca teve, da parte de quantos perfilham os princípios e valores de natureza demo-liberal, um significado ontológico ou sequer normativo. Tão-pouco ele resultou de uma vontade premeditada de exclusão de quem quer que fosse do debate político nacional. E de tal forma assim foi que em bom rigor essa exclusão jamais se verificou. Senão vejamos: os deputados do PCP e do Bloco de Esquerda – uns logo desde o início da Segunda República e os outros mais recentemente – contribuíram para a tomada de decisões parlamentares da maior relevância pública. Foram determinantes para derrubar governos, concorreram para a aprovação de legislação de inegável importância, participaram activamente no processo de fiscalização da acção executiva. Carece por isso de qualquer fundamento a proclamação em voga de que esses partidos vão agora ser resgatados a uma espécie de condição de clandestinidade parlamentar a que estariam votados.
Ao longo destes 40 anos a extrema-esquerda estabeleceu como verdade axiomática o princípio de que a direita começava na sua própria fronteira e que, no fundo, não haveria substanciais diferenças entre o PS, o PSD e o CDS-PP. Recordemos como fundamentavam tal afirmação. No 25 de Novembro, o PS, aliado à direita e a sectores conservadores das forças armadas, tinha interrompido um processo revolucionário destinado à edificação de uma verdadeira sociedade socialista; ao liderar o processo conducente à adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, o PS desvelava a sua genuína natureza de partido empenhado na consolidação de um modelo de sociedade situado nos antípodas do modelo autoritário e colectivista preconizado pelos seguidores da ortodoxia leninista pró-soviética; ao participar activamente em sucessivos processos de revisão constitucional, visando a depuração da lei fundamental de uma ganga pró-marxista manifestamente alheia aos caminhos democraticamente escolhidos ao longo de sucessivos actos eleitorais, o PS foi identificado com os adversários dos “valores de Abril”.
Perante tudo isto não é de espantar que a extrema-esquerda nunca tenha votado senão contra todo e qualquer projecto de Orçamento do Estado apresentado pelos vários governos socialistas e nunca tenha manifestado a mais ligeira aproximação sempre que estiveram em causa votações relacionadas com a adesão e participação de Portugal no projecto europeu. Bem pelo contrário. Nessas ocasiões usaram de uma retórica extremista com o intuito de apoucar as legítimas opções feitas pelo Partido Socialista. Fizeram-no impiedosamente, atacando o esforço bem sucedido de construção e ampliação do Estado social que constitui património da nossa democracia e factor de promoção da liberdade e da igualdade. Como tal, só é possível extrair uma conclusão séria: a extrema-esquerda parlamentar optou deliberadamente – com uma legitimidade, de resto, inatacável – por um acantonamento político impeditivo de qualquer participação não só na esfera estrita da governação, como no horizonte mais vasto de definição das grandes prioridades nacionais. Não foi excluída: auto-excluiu-se em nome da fidelidade a um modelo de regime e de organização económica e social claramente repudiado pela maioria dos cidadãos portugueses. Tentar inverter a situação releva de despudorado cinismo político. Seria bom que alguns actuais deputados do Partido Socialista que andam por aí levianamente a proferir barbaridades olhassem com mais rigor para a história do partido que conjunturalmente representam.
2. Há quem, mesmo reconhecendo todas estas divergências passadas e não embarcando nesta operação de falsificação histórica, saliente como muito positiva a possibilidade agora entreaberta de celebração de um acordo governativo de incidência parlamentar entre os vários partidos da esquerda. Um dos argumentos mais respeitáveis que têm sido utilizados é o de que só com esta aliança será possível garantir a preservação do Estado social, o qual se teria transformado num alvo prioritário a abater por parte dos partidos da direita. Se no passado, em nome da defesa da liberdade e da consolidação da democracia representativa, se justificara um entendimento preferencial com esses partidos, agora, pelo contrário, dever-se-ia privilegiar um diálogo à esquerda em nome do princípio premente da igualdade. O argumento enferma pelo menos de duas insuficiências notórias. Desvaloriza absolutamente a importância das divergências permanecentes à volta de questões tão importantes como a política europeia e desconsidera a necessidade de adopção de políticas económicas centradas na preocupação de atracção do investimento e do estímulo à iniciativa empresarial. O PS, como já aqui o referi na semana passada, não pode deixar-se aprisionar por compromissos impeditivos da prossecução de uma acção reformista de que o país notoriamente carece. Essa acção reformista tem de se manifestar desde logo no âmbito do Estado social como condição necessária à sua salvaguarda. Basta recordar como a extrema-esquerda reagiu aos ímpetos reformadores exibidos por Correia de Campos e por Maria de Lurdes Rodrigues nas áreas da Saúde e da Educação para percebermos o alcance desta afirmação. Como se sabe, ambos foram acusados de tenebrosos intentos neoliberais, quando apenas visavam garantir a viabilidade e a modernização do Estado social nas áreas que tutelavam. Nessa altura, pelo menos, a separação de águas era clara.
No ambiente de crispação que estamos a viver é difícil impor os pontos de vista de quem continua a pensar que é ao centro que se podem alcançar os entendimentos verdadeiramente virtuosos de que a sociedade portuguesa precisa. Não é isso, porém, razão para desistirmos de lutar por aquilo que estamos convencidos ser o caminho mais correcto a trilhar por um partido de centro-esquerda como é o Partido Socialista.

O que está mal no mundo

"Agora (para reiterar o meu título) isto é o que está mal. Isto, é a enorme e moderna heresia de adaptar a alma humana à medida das suas condições em vez de mudar as condições humanas à medida da alma humana"

G.K. Chesterton: 
"What's Wrong With the World," Part Two, Ch. IV ─The Insane Necessity

Tradição

Pedro Candeias
Expresso curto, 2015.10.29

A política é um ponto de vista e quem disser o contrário está a ver mal. É um bocadinho como no futebol, sobretudo, o nossso futebol. Pegue em dois lances iguais e ponha-se dos dois lados da barricada: quando é favor do nosso clube, é claro que é penálti, que só pode ser penálti, de certezinha absoluta que é penálti, e que quem não a vê é porque é cego ou não quer ver. E, quando a falta é contra, está mais do que visto que não é penálti, que nunca na vida pode ser penálti, de certezinha absoluta que não é penálti, e que quem a vê é porque anda a ver coisas a mais.

Ora, vem isto a propósito da palavra 'tradição', que tem sido jogada de um lado para o outro desde 4 de outubro, conforme o efeito que se espera obter dela quando usada num argumento. Lembra-se do que disse a direita sobre a possibilidade do PS/BE/PCP poderem formar Governo? Era coisa pouco tradicional. Lembra-se do que disse a direita sobre a eleição do Presidente da AR? Coisa pouco tradicional. E sabem o que fez agora o PS? Apelou à "tradição parlamentar" para recusar plenários antes da discussão do programa de Governo. A tradição já não é o que era; a tradição é o que se quer que ela seja.

Não é um jogo

Paulo Tunhas
Observador 20151029

Como desviar os olhos e aguentar o que se passa quando nos estão, pura e simplesmente, por interesses pessoais e de facção, a lixar a vida? Quando as regras que normalmente nos orientam são rompidas?
Em tempos políticos mais ou menos normais, o que quer que isso seja, as considerações morais não desempenham um papel por aí além, a não ser quando, ritualmente, os políticos são criticados por falharem num tipo ou outro de promessas (quase sempre em matéria de impostos). Aí acontece-lhes verem-se acusados do feio acto de mentir. Também há a pergunta cíclica: “Comprava-lhe um carro em segunda mão?”. Mas, somando tudo, é coisa pouca. Felizmente, diga-se de passagem. A pregação moral é um labor cansativo e, para as almas mais dubitativas, costuma deixar um sabor amargo na boca.
Há, no entanto, circunstâncias em que o juízo político não pode, por menos exaltada que uma pessoa seja, deixar de se acompanhar por um juízo moral. A nossa situação actual é um exemplo disso. Não pretendo falar por enquanto da terrível trapalhada em que António Costa nos anda a meter, já nos meteu, nem na reacção de matilha que o acertado discurso do Presidente suscitou à esquerda e nas franjas do costume da direita. Sobre o personagem de António Costa, Viriato Soromenho Marques disse, de resto, o essencial: António Costa corre “o risco de ser visto como o único caso da III República de um secretário-geral que em vez de se tornar primeiro-ministro depois de ganhar as eleições quer ser primeiro-ministro para se manter secretário-geral, mesmo depois de as ter perdido”.
Resta que é uma questão interessante a de saber o que é que quase obriga uma pessoa pacata, em circunstâncias particulares, a misturar considerações morais aos juízos políticos. Porque é que, em certos casos, coisas geralmente separadas, vocabulário político e vocabulário moral, se unem quase fatalmente? Porque é que, em determinadas situações, um juízo político despido de considerações morais é um juízo político falso e enganoso, que falha a realidade ou não a ilumina, antes a obscurece?
Provavelmente, porque a própria realidade política é, nesses casos, vítima de uma subversão que deve ser denunciada, e falar dela sem a denunciar, limitando-nos a aceitá-la como algo normal, é, como se diz, representar Hamlet sem o príncipe. O juízo político tem de reagir a essa subversão da realidade política, particularmente quando ela é perfeitamente intencional e premeditada. Aceitá-la sem uma tal reacção é que seria anormal. E na denúncia de uma situação desse tipo o vocabulário moral surge quase inevitavelmente, até porque expressa mais facilmente a nossa reacção espontânea à situação.
Falar de uma subversão da realidade política é usar uma fórmula muito geral. Mas é propositado. Mencionar que uma tal subversão é o produto de uma intenção política consciente é também propositadamente geral. Não interessa ainda referir turpitudes particulares. O que interessa mesmo, é importante repetir, é tentar perceber porque é que, em certos casos um juízo político desacompanhado de considerações morais é, quase por definição, um juízo político falso.
A necessidade de reagir à subversão da realidade política é uma razão. Há gestos que não se podem deixar passar em silêncio, porque correspondem a algo muito próximo de um um corte abrupto com o nosso quadro normal de expectativas. Não de expectativas mais ou menos conjunturais, por mais respeitáveis que sejam (mais ou menos dinheiro, modo de vida), mas de expectativas por assim dizer estruturais, respeitantes a certas regras que ordenam o nosso quadro político. Uma segunda razão será talvez a de que essa subversão traz consigo o sentimento de um perigo certo e iminente. O perigo é existencialmente visto como uma ameaça arbitrária à nossa integridade e a reacção mais elementar ao arbitrário é uma reacção que apela à moral. O perigo que vem do arbitrário força a um juízo político com componentes morais. Em parte, admito, por fraqueza e sentimento de impotência: mas nós somos criaturas frágeis.
Finalmente, a subversão da realidade convida-nos a distinguir, banalmente, a decência da manifesta falta dela. E a distinguir, concomitantemente, entre quem cai dentro da primeira categoria e quem cai dentro da segunda. Não é matéria opcional ou de gosto. Resulta da necessidade espontânea de nos orientarmos na ordem política e de saber quem é susceptível de alguma confiança e quem não é. O juízo político tem de exprimir essa necessidade espontânea, tem de distinguir tipos de atitudes que, em última análise, revelam tipos de carácter distintos. A alternativa é o cinismo puro e simples.
É claro que há sempre a velha possibilidade da indiferença. E, para quem tiver estômago para isso, essa possibilidade é uma tentação efectiva. Até porque falar em nome da moral não é, como disse, um prazer propriamente dito, e porque há, sem dúvida, várias coisas de beleza maior, entre as quais, se se tiver sorte, as do trabalho e do amor.
Mas como desviar os olhos e aguentar impassivelmente o que se passa quando nos estão, pura e simplesmente, por interesses pessoais e de facção, a lixar a vida? Quando as regras que normalmente nos orientam são rompidas, quando nos colocam conscientemente numa situação de perigo, quando o pudor, que é, à sua maneira, uma categoria política, é agressivamente deitado pela borda fora? Desviar os olhos é difícil. Desviar os olhos, na nossa situação presente, e é a altura de voltar à situação presente, é particularmente difícil. Se calhar, são tempos interessantes. Mas é permitido não apreciar particularmente os tempos interessantes, sobretudo quando é fácil prever como vão acabar.
Porque o que se está a preparar, mesmo que um Governo de António Costa dure só oito meses ou coisa assim, vai-nos trazer complicações sem fim e, muito provavelmente, fazer voltar a troika a estas paragens. Pode-se, é claro, pretender que nada se passará deste modo e que o melhor dos mundos virá aí, com muito mais dinheirinho nos bolsos. Claro que é possível pensar assim. As capacidades mentais da espécie manifestam, às vezes, grandes limitações. Ulisses, de retorno a Ítaca, disfarçado de mendigo, já se surpreendia com a displicência e a ignorância dos pretendentes de Penélope quanto ao destino que os aguardava.
Essa cegueira roça, também ela, um defeito moral, um defeito de moral política, porque releva de uma manifesta vontade de não-ver que compromete a nossa existência colectiva. A outros, o prazer de apreciar o maquiavelismo da jogada, ou, mais modestamente, a esperteza do embuste, como se tudo não passasse de um jogo. É que não é um jogo. E é imoral fingir que é.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Três desabafos politicamente incorrectos

José Manuel Fernandes |Observador 28/10/2015

A OMS alerta contra comer carne? Pois vou continuar a comer. Cai mal ser anticomunista? Pois é tão justo como ser antifascista. Temos de acolher os refugiados? Sim, mas não quero uma Europa islamizada
Vivemos num tempo de interditos. Há coisas que se podem dizer e outras que se devem omitir. Quem quer que ande um pouco pelas redes sociais ou pelas caixas de comentários dos jornais sabe do que falo. Por isso, mesmo correndo o risco de chocar, não resisto a três desabafos, sobre três temas muito diferentes. Todos mereceriam maior desenvolvimento, mas para já fica o essencial.
1. Os alimentos cancerígenos.
Acho profundamente irresponsável a forma como a OMS divulgou esta semana as suas conclusões sobre as características cancerígenas das chamadas “carnes tratadas” e “carnes vermelhas”. Mas não só: começo a estar saturado com a obsessão de se ser tão saudável, tão saudável, que só se pode morrer de saúde a mais. Porque morrer, morreremos sempre: o Livro do Genesis é tudo menos uma obra científica, mas é certeiro quando nos reduz aos limites da nossa condição humana: “Recorda-te que és pó e em pó te hás-de tornar”.
A OMS foi irresponsável e alarmista porque limitou-se a dizer que esse tipo de alimentos tinham, ou podiam ter, características cancerígenas sem acrescentar nada sobre o grau de risco envolvido – que é baixo, incomparavelmente mais baixo do que fumar, por exemplo. Pior: sem dizer que a proteína animal integra da nossa alimentação desde sempre e que esse tipo de carnes têm na sua composição vitaminas e minerais que nos fazem falta.
Conheço muitos vegetarianos que se dão bem com a sua opção, tal como conheço fundamentalistas que andam por aí com ar macilento e triste. É com eles. Tal como é comigo seguir uma velha máxima da minha avó: “perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe”. 
Não ficarei cá para semente – ninguém ficará – e sinto que muitas vezes estamos a esticar a vida para além do que seria natural, e que com esta mania de tudo ter de ser saudável abrimos as portas às fúrias regulamentadoras dos gramas de sal no pão, dos graus de pimenta onde calhar, das dosagens dos conservantes nas bebidas e, não tarda nada, das horas de fermentação de um queijo ou dos dias em que se pode deixar um presunto no fumeiro. Pelo caminho que vamos, é só uma questão de tempo.
Aqui há uns tempos alguém se insurgia aqui no Observador por estarmos a criar gerações de crianças “totós”. É pior do que isso: estamos a transformar-nos numa sociedade de “totós”, cheia de medos e incapaz de desfrutar as alegrias e os prazeres simples da vida. Como as que temos às refeições, sobretudo naquelas onde passamos o tempo a falar de outras refeições e outras comidas.
2. O milhão de eleitores excluídos.
Vai por aí uma enorme preocupação por existirem em Portugal um milhão de eleitores que, votando em determinados partidos, seriam como que “excluídos” do nosso sistema político. Felizmente a questão não é essa – não é em Portugal como não é na França, onde a percentagem de “excluídos” (os eleitores da Frente Nacional) ainda é mais elevada. A questão é que esses eleitores, ao fazerem livremente as suas escolhas eleitorais, sempre optaram por se auto-excluir de soluções de governo que respeitem os valores do resto dos eleitores – que são a maioria.
Já estou a ver gente aos saltos por estar a comparar o banimento assumido da Frente Nacional – em nome do que se designa como “frente republicana” – com aquilo que sempre se passou com os nossos partidos de extrema-esquerda. “Não tem nada a ver”, indignar-se-ão.
Não tem nada a ver? A Frente Nacional é banida porque tem comportamentos xenófobos e um programa que recusa a integração dos que são diferentes. Ou seja, tem um programa que a coloca à margem dos consensos que sustentam as nossas sociedades abertas e tolerantes. Como é fácil arrumá-la na extrema-direita (apesar de um programa económico iliberal e estatista, muito semelhante ao das esquerdas), ninguém protesta.
Já quando toca à extrema-esquerda, tudo passa a ser diferente. Eles são “generosos”, “solidários”, ele querem sempre o bem dos pobres e dos desvalidos. Logo, fecha-se os olhos a tudo o resto. À sua intolerância e sectarismo. À forma como também eles recusam e combatem as nossas sociedades abertas. Ao egoísmo com que defendem os interesses corporativos dos grupos que representam.
Pior: fecha-se os olhos a grande parte dessa extrema-esquerda – o PCP, mas também a facção UDP do Bloco – continuar a defender ideias revolucionárias que, sempre que foram postas em prática, resultaram na destruição das liberdades, na pobreza e em perseguições que provocaram mais milhões de mortos que o nazismo (isso mesmo, por muito que custe acreditar). Tal como se fecha os olhos à ausência de liberdades e à pobreza da Cuba castrista e, agora que faltou o dinheiro do petróleo, à Venezuela bolivariana
Para mim, que com a mesma idade com que António Costa entrou para a JS (15 anos) me envolvi em movimentos antifascistas e ainda passei uma noite preso, para mim que vi por dentro o que são as organizações comunistas, para mim que li e estudei muito sobre a forma como pensam e como agem os marxistas-leninistas de sempre, ser anticomunista é tão natural e saudável como ser antifascista, ou anti-Frente Nacional. Mais: sei, porque aprendi, pratiquei e depois vi como, um pouco por todo o lado, a sua arte é o disfarce pois a sua força é a ortodoxia, a sua “certeza de estarem do lado certo da História” e, por isso, desprezarem todos os demais.
Mesmo assim têm muitos eleitores? É verdade, têm demasiados eleitores. Mas quando se lhes dá a mão ainda podem ficar com mais. Quando se copia o seu discurso, baixam-se as defesas e confundem-se os cidadãos (exactamente o mesmo, mas de forma simétrica, se passa com a adopção das bandeiras da Frente Nacional e de outras organizações semelhantes por políticos da direita democrática que deviam ser mais responsáveis, mais corajosos e mais determinados).
Por tudo isso não me venham com a lengalenga de que se quer excluir do jogo democrático um milhão de eleitores – os partidos que os representam é que não querem juntar-se, sem segundas intenções, com lisura, sem chantagens, ao jogo democrático. Fazem-no, continuam a fazê-lo apesar do nevoeiro que criaram, porque nunca desistiram de ser revolucionários, algo que nem sequer escondem nos seus programas. Eles não querem melhorar as sociedades em que vivemos, eles querem construir sociedades utópicas que sempre foram prisões dos povos. Eles não jogam pelas nossas regras, apenas tiram partido das nossas regras, da nossa tolerância e do nosso apreço por aquilo que mais detestam: o pluralismo, o apreciar que existam pessoas que pensam diferente, e se exprimem de forma diferente.
3. Não se pode duvidar da boa causa dos refugiados.
Quando vi pela primeira vez a imagem da criança afogada numa praia da Turquia não hesitei um segundo: como é que a podemos divulgar o mais depressa possível no Observador? É importante que todos saibam o que se está a passar, que os mortos não são estatísticas – têm nomes, rostos, famílias, um seu mundo, por pequeno que ele ainda seja. E assim fizemos, dando àquele drama particular todo o destaque que merecia.
É evidente que a tragédia que de que aquela fotografia era um potente símbolo só podia e pode suscitar a nossa compaixão. Não duvido que temos deveres de solidariedade. A brutalidade do Viktor Orban choca-me. O gesto generoso de Angela Merkel sensibilizou-me – e reforçou a convicção de que ela é a única grande estadista da Europa contemporânea, algo que um dia todos reconhecerão. E quando vejo as imagens quase bíblicas daquelas colunas de refugiados a cruzarem os campos dos Balcãs só posso interrogar-me sobre os horrores de que eles fogem.
Contudo…
Contudo esta não é toda a realidade. Nós estamos no outro lado da Europa, o problema lá longe, mas há muitas questões que temos de colocar. Que mesmo os líderes mais moderados, até os mais à esquerda, desses países já estão a colocar (vejam como a Áustria, governada por um socialista, também vai erguer a sua vedação fronteiriça…).
Uma coisa é dizer que a Europa necessita de sangue novo, por causa da sua demografia e da sua economia. Outra é pensar que é fácil integrar centenas de milhares (milhões?) de pessoas de culturas diferentes, mesmo contrastantes, sobretudo quando essas pessoas não mostram vontade de ser integradas.
A Europa não é como o “melting pot” americano, que mais do que uma mistura de culturas é uma matriz – e um patriotismo constitucional – que molda os que chegam à terra do Tio Sam à sua imagem e semelhança (e mesmo assim isso está a mudar com imigração de tantos hispânicos). Não é essa a nossa tradição, bem pelo contrário: a Europa é o continente onde o nacionalismo foi, até há bem pouco tempo, o motor de sucessivas e gigantescas limpezas étnicas e transferências forçadas de populações em nome… da paz (quem duvide, que leia “Pós-Guerra”, do insuspeito Toni Judt).
Pior, porventura muito pior e muito mais decisivo: quantos dos refugiados que nos batem à porta querem ser europeus? Quantos aceitam os nossos valores? E quantos, pelo contrário, chegam para exigir que sejamos nós a adoptar, ou pelo menos a tolerar, os seus valores e os seus hábitos, muitos deles detestáveis e retrógados?
A verdade inconveniente é que há aqui peças que não encaixam. E um mal-estar que não pode deixar de explodir mais tarde ou mais cedo. Isso já é visível em muitas cidades europeias, mas preferimos fingir que o voto em certos partidos populistas é só uma aberração, quando na verdade é a expressão de um sentimento de desconforto que pouco ou nada tem a ver com as velhas divisões ideológicas do passado.
É muito bonito e muito fácil falar de uma política de portas abertas, sobretudo se forem as portas dos outros. É muito fácil condenar mesmo movimentos pacíficos como o Pegida alemão, que se manifesta de velas na mão e só diz alto o que muitos sussurram em privado: que não deseja a islamização da Europa. Eu também não desejo. Eu também a acho perigosa. E por isso não posso deixar de pensar que a melhor forma de lidar com o problema dos refugiados não é abrir-lhes as portas, é criar condições para os acolher o melhor possível em zonas protegidas mas o mais próximo possível do seu ponto de origem – até para que possam regressar a casa logo que possível.
Sempre houve migrações, constantes migrações, na história de Humanidade. Quando se transformaram em avalanches acabaram mal. E às vezes nem foi necessário tanto. Não há gesto mais bonito e cristão do que estender a mão – mas isso não implica estar disponível para levar logo uma bofetada. Não é altura nem fenómeno face ao qual se possa, piamente, oferecer a outra face. O melhor é mesmo controlar as fronteiras, por muito duro que isso possa parecer hoje. Mas se não o fizermos agora podemos não gostar nada, mas mesmo nada, da Europa de amanhã.