quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Precisa-se: Explicador de democracia para o PS

Maria João Marques
Observador 30/9/2015

Que o PS se prepara para truques palacianos de assalto ao poder, mesmo sem qualquer legitimidade democrática, é um dado adquirido. Tal como a claríssima veia antidemocrática de muita gente do PS.
Quando era criança, nos tempos antes da queda do Muro de Berlim, uma das minhas perplexidades de infância era o facto, relatado por pai e irmãos, de a Alemanha que se chamava República Democrática Alemã ser, afinal, não democrática. E de a Alemanha democrática não ter nada de democrático no nome.
Anos mais tarde convenci-me que este paradoxo toponomástico se devia ao cinismo comum dos regimes comunistas de colocar no nome o contrário da realidade nomeada. Mais ou menos como Sir Humphrey Appleby, da série Sim, Senhor Ministro aconselhava ao ministro Jim Hacker: quando nos queremos livrar de alguma política bem-sonante mas que desagrade aos desígnios do político, é colocá-la no título do documento que a institui e gastar o resto das linhas e páginas com outra coisa qualquer.
Só há poucos anos – e através de uma observação quase científica dos dirigentes do PS – percebi que há um conflito na definição de ‘democracia’ e de ‘democrático’ (já aqui elaborei sobre o assunto). Nas democracias tradicionais costuma-se considerar que a legitimidade dos governos vem dos votos obtidos em eleições livres e universais. É um raciocínio simples, que esperaríamos estar ao alcance até das almas socialistas (pelo menos António Costa tem espalhados pelo país cartazes dizendo ‘É o seu voto que decide’): quem tem mais votos ou quem elege mais representantes, governa. Tocqueville divagou até sobre a democracia como a ditadura da maioria.
Mas isso é para as democracias consolidadas, nada que obscureça o fino e apurado pensamento político dessas grandes mentes do PS, de Jorge Coelho a Porfírio Silva. Por cá não somos picuinhas com essa dos votos legitimarem (e os cartazes de Costa são só para enganar os tolos). Por cá a legitimidade para governar vem, qual Antigo Regime de Deus para o Rei, de alguma energia cósmica de alguma galáxia muito, muito distante para o PS.
Foi por isto que durante esta legislatura tivemos Mário Soares e a tropa fandanga que o rodeia (e os acenos concordantes e enternecidos de todo o PS) a apelar constantemente à violência popular contra o Governo e o Presidente da República democraticamente eleitos. Porque para Soares e tropa fandanga, a legitimidade para governar e presidir não vem dos votos. Vem da aprovação de uma espécie de Conselho dos Guardiães iraniano de socialistas, laicos e republicanos que concedem a sua aprovação a quem ganhou eleições. E quando essa aprovação se esvai, tais eminências esperam que Presidente demita a correr o governo que incorreu no desagrado dos donos da democracia. (Isto, claro, se o governo, que se quer temente aos Anciãos, não se demitir – como faria um governo decente – de imediato.) Como ao Presidente não há quem demita, é sugerir com sonsice à população que se lhe dê pancadaria se ousar sair dos seus aposentos. Só anda na rua quem o Conselho dos Guardiães socialistas, laicos e republicanos deixam. Que não haja aí algum espevitado que pense que pode usufruir do espaço público só porque paga impostos ou é cidadão nacional.
Neste sentido, que um governo de coligação tenha terminado o mandato foi um enorme passo para a normalização democrática. Que o tenha feito no meio da gritaria de Soares e tropa fandanga, ainda mais marcante torna o feito. A legitimidade para governar vem do voto, não vem dos anciãos do PS. Temos isto a agradecer a Cavaco Silva. (E lembremos que em 2004, para Sampaio, contou mais a manutenção do ascendente do do PS.)
Foi também pelo direito divino estelar do PS que nos últimos dias temos assistido às tendências ditatoriais de António Costa. Quando se aventou que a coligação poderia ter mais mandatos na AR do que o PS, tendo este mais votos, os socialistas logo clamaram que o que interessa é o número de votos. Quando as sondagens começaram a apresentar a coligação à frente do PS com distância razoável, algo mais surreal sucedeu. Costa fez saber que, ganhando ou perdendo as eleições, ele pretende governar.
Os eleitores que tenham paciência, mas o candidato Costa meteu na cabeça que é o homem providencial para salvar o país (que tenha aplaudido todas as políticas que faliram o país também é um mero detalhe, e quem liga a detalhes?), as eleições são um formalismo (enfim, as boas gentes do PS têm de suportar estes formalismos de vez em quando para fingirem ardor democrata), mas, vamos lá falar a sério, quem decide quem é o próximo primeiro-ministro é o capricho de António Costa. Oh caro eleitor, não levou a sério o cartaz do PS que contém a cara de António Costa e a tal frase ‘É o seu voto que decide’, pois não? Ou foi crédulo a esse ponto?
Que o PS se prepara para truques palacianos de assalto ao poder, eventualmente de acordo com a letra da lei mas sem qualquer legitimidade democrática, é um dado adquirido. Outro dado adquirido que temos de começar a esmiuçar é a claríssima veia antidemocrática de muita gente do PS. Se perderem as eleições não sei o que lhes recomende. Se cursos de ciência política se abstinência na escolha de líderes egomaníacos.

Do Evangelho de hoje

«Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus»
Lc 9, 62

Quando volta a troika?

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN20150930

Uma questão central das eleições é: quando voltaremos a ter um programa de ajustamento? A história não tem de se repetir, mas a primeira vez que o FMI cá veio, em Maio de 1978, foi obrigado a regressar cinco anos depois, em Outubro de 1983. Com o último programa assinado em Maio de 2011, falta um ano para se repetir a recaída.
As razões de um regresso da troika vêm da situação económico-financeira. A dimensão das dívidas, pública e privada, a fragilidade bancária e o fraco crescimento impedem de descartar o agoiro. Portugal, apesar das indiscutíveis melhorias dos últimos anos, está muito longe de estar curado da doença. Em Maio de 2014, com o fim do programa, saiu dos cuidados intensivos, sem pedir nova ajuda externa. Confundir isso com alta hospitalar é um erro crasso.
Estamos, e continuaremos alguns anos, em situação muito precária, não apenas orçamental mas privada. As empresas, regressadas ao crescimento em inícios de 2013, não registam um dinamismo garantido, tal como os bancos mantêm indolência preocupante. O défice público permanece acima dos 3% do PIB, o máximo permitido no euro, podendo disparar ao menor percalço. Até as famílias, que tinham reagido notavelmente no início da crise com um aumento de poupança, esqueceram a parcimónia, regressando a valores de taxa de aforro à volta de 5%. Isso é cerca de metade do nível dos nossos parceiros europeus, todos muito mais ricos do que nós e com menos dívidas para pagar. O cenário não permite alívios e facilidades.
A situação é complexa, mas perfeitamente sustentável, desde que enfrentada de forma séria, atenta e corajosa. Mas este segundo elemento inspira as principais ameaças. Portugal não precisaria de novo tratamento se tivesse juízo, mas não parece inclinado para aí. Deste modo os verdadeiros motivos para a eventualidade de novo aperto financeiro são políticos.
Paradoxalmente, aqueles que mais dizem abominar a troika são quem mais contribui para acelerar o seu regresso. Os discursos eleitorais insistem em visões ingénuas, irresponsáveis ou abertamente irrealistas, mostrando desconhecimento básico da situação. Por outro lado, o resultado da votação pode, ele próprio, criar um enquadramento que dificulte a tomada das medidas que evitariam a queda.
A primeira razão, eminentemente retórica, nasce da recusa em considerar a realidade concreta do país. Negando a situação, é impossível seguir as estratégias adequadas, tornando plausível a recaída que forçará novo programa de estabilização. Aqui os erros de análise e argumentações enganadoras podem ser arrumados em dois conjuntos principais.
O primeiro, mais extremista, recusa-se até a aceitar a existência de problemas próprios à sociedade, atribuindo as dificuldades exclusivamente a erros de políticas ou intervenções externas. Ouvindo muitos analistas exaltados, parece que, se não existissem euro, troika, governo, austeridade ou Alemanha, Portugal seria próspero e feliz. As culpas do sofrimento são todas alheias, sem que as nossas famílias e empresas tenham cometido o menor erro. Esta é a atitude de esquecer a doença, acusando a terapêutica pelo estado do enfermo.
A alternativa, mais moderada mas igualmente falaciosa é, apesar de admitir a gravidade da situação, dizer que depois de tanta austeridade está na altura de inverter o tratamento. Equivale a exigir do médico uma mudança de terapêutica apenas porque a actual já dura há muito tempo, sem avaliar as reais condições do paciente. A qualidade da medicação avalia--se pela evolução da doença, não pela dimensão da dose. É verdade que tivemos três anos de fortes cortes, mas todos os indicadores mostram que ainda estamos longe da cura. Qualquer consideração da situação do país mostra como é sumamente arriscado aliviar a vigilância e recomeçar as facilidades.
Soma-se a isto a possibilidade de, após as eleições de domingo, surgir um quadro político de instabilidade governativa ou, pelo menos, um executivo fraco e precário. Isso constitui uma diferença importante face à situação anterior, em que uma maioria absoluta garantia uma clareza de decisão e solidez executiva. Se entramos em clima de incerteza e fragilidade política, com ministros fracos à pesca de apoios populares, ficam comprometidas de vez as duras reformas ainda necessárias. Esse é o ambiente mais propício a uma nova emergência financeira, que obrigue a outro programa de apoio internacional.
Portugal fez avanços importantes nos últimos anos, como é reconhecido por todos os estudos sérios. O alívio é agora o maior inimigo.

Os temas fracturantes e o PS (2)

Corta-fitas,  Vasco Mina, em 27.09.15
Os temas fracturantes são exatamente o que querem significar: questões que dividem as opiniões, fraturando a sociedade em duas ou mais partes. Muitas vezes (para não dizer sempre) são acompanhados de abordagens ideológicas da sociedade o que os torna ainda mais fracturantes e com uma elevada carga emocional. Deveriam ser amplamente debatidos e, para alguns deles, colocar à decisão dos portugueses, ou seja, recorrendo ao referendo. Não é esta a opção do PS pois no seu programa eleitoral toma ( e destaco a frontalidade) a opção da defesa de soluções sem qualquer debate prévio. Ou seja, o PS assume o compromisso de:
1) Eliminar a discriminação no acesso à adoção e no apadrinhamento civil por casais do mesmo sexo. Ou seja, o pleno acesso ao regime de adoção por parte de casais homossexuais.  Retomando a argumentação do recente debate em torno de legislação apresentada na AR sobre a co-adoção, sou dos que defende o direito da criança (que deverá prevalecer sobre o direito de um casal homossexual) a ter um pai e uma mãe. São vários os estudos que apontam neste sentido e muitos os psicólogos e técnicos que acompanham crianças desprotegidas que igualmente defendem esta posição. Reconheço e respeito a argumentação dos casais homossexuais mas dela discordo. Saliento que muito recentemente foi publicada legislação (ver artigo de Teresa Anjinho publicado no Expresso de  19 de Setembro) que é, de alguma forma, uma reforma estrutural no que à criança diz respeito: adoção, proteção das crianças e jovens em perigo e regime tutelar cível. São três leis fundamentais que careciam de revisão e que agora foram reformadas e tendo presente os principais destinatários : as crianças institucionalizadas. Ora o PS em nada se refere à necessidade da reforma agora traduzida na legislação e coloca em situação de paridade casais homossexuais com casais heterossexuais. Ora em Dezembro do ano passado (e segundo o mesmo artigo já citado) encontravam-se cerca de 400 crianças em condições de adotabilidade e cerca de 1800 candidatos em lista de espera para adotar. Para o PS os casais homossexuais não deverão ser descriminados nos processos de adoção, ou seja, terão igual prioridade à dos casais heterossexuais. O que não concordo e por isso sou contra esta proposta eleitoral socialista.
2) Eliminar as restrições de acesso, que ainda subsistem na lei, às técnicas de procriação medicamente assistida por casais do mesmo sexo e por mulheres solteiras. Faz sentido apoiar e dar condições de acesso às técnicas de PMA (procriação medicamente assistida) aos que por opção própria escolheram vidas familiares que, por natureza, são não reprodutivas? Em minha opinião não faz e por isso deverão votar PS os que defendem esta solução.
3) Melhorar o regime da identidade de género, nomeadamente no que concerne a necessidade de previsão do reconhecimento civil das pessoas intersexo.  Segundo os defensores deste conceito “A natureza não decide onde a categoria "masculina" termina e a categoria "intersexo" começa ou onde a categoria "intersexo" termina e a categoria "feminina" começa. Os seres humanos é que decidem.” Sem comentários! Os que defendem o reconhecimento civil  deste novo registo deverão votar PS

Escolher

Maria João Avillez
Observador, 2015.09.29

Fui-me espantando de vez para vez, não era este político que tinha na cabeça quando tudo isto começou, em Maio de 2015, no jardim da Ribeira das Naus. Que esquisito. Tanto nevoeiro que entrou.

“Está a entrar o nevoeiro” dizia alguém há dias, sentado na esplanada duma praia do norte, com a mesma certeza com que diria ao amigo, “olha, vem ali o Manel”. Sabia que o dia se estragara de vez. O nevoeiro no PS também entrou de vez, dando-lhes cabo dos dias.

Os socialistas, coisa extraordinária, sempre acharam que tudo lhes seria fácil, era deixar passar o tempo e cortariam a meta em primeiro lugar. E não era até tão “barato”? Bastar-lhes-ia dizer mal de tudo, do governo, da governação, das medidas, da “direita”, da troika, e claro, de Passos Coelho, o bombo da festa sem direito a uma só folga (de bombo); tão entretidos andavam neste “malhar em tudo” que também malharam no país, sem reparar que há portugueses que estranham ou se envergonham, não gostam disso. Deram-se ao luxo de exibir os Galambas deste mundo como estrelas alumiadoras do caminho, porque o “centrão” já era deles (e com quem havia o centro de estar nesta altura das coisas, perguntavam eles, senão com o PS?) E finalmente tão seguros se encontravam das suas equivocadas certezas que se distraíram de país: Portugal coincide pouco e encaixa mal naquele “país” que o PS vitupera aos gritos (porquê sempre aos gritos?) feito quase exclusivamente de desemprego, infelicidade e fome. Não repararam que não era. Enredados no tédio – ainda faltava mais de um ano – e no nojo – da coligação –, perderam de vista Portugal.
O PS não compreendeu que o país – uma grande parte dele, pelo menos – não gostou da austeridade, mas cumpriu-a, engolindo “sacrifícios” e penas, por perceber que não havia volta a dar-lhe.
O PS não viu (mas os portugueses viram) que devagarinho se está a sair do pior da crise, mesmo que só do pior. Sucessivos índices económicos dão aparentemente razão ao governo, quando (sem gritar) sustenta que já há frutos da sementeira atirada ao tão árido solo português de 2011 (e quem dava um chavo por aquela terra e aquele chão?).
O PS não alcançou que se há colheitas que prometem hoje melhores dias para amanhã, isso foi obviamente feito com a colaboração dos portugueses e não por um solitário governo, maldosamente a caminhar “para além da troika.”
Distraídos de país e enganados de estratégia, não houve “diferença”, um factor politicamente crucial, como se sabe. Os socialistas contentaram-se em achar que a “diferença” eram eles, e que isso chegava. Bastava-lhes deitar ácido sulfúrico sobre a coligação e pronto.
Faltou essa indispensável “diferença”, traduzida na esperança de uma mudança para melhor. Isso que, muito mal comparado, trouxe consigo Obama quando, portador de todas as esperanças e diferenças, entrou vibrantemente no palco de Washington (e imaginem que sempre gostei de Costa e nunca de Obama, é assim a vida).
Lembro-me de Francisco Sá Carneiro e de Cavaco Silva a fazerem isso, eu estava lá. Vi, in loco e ao vivo, a capacidade de produzir esse indefinível ímpeto interior capaz de arrebatar um eleitor, acordar um “instalado”, ou retirar um indeciso da sua ilha deserta. Não tenho visto António Costa a ser capaz de nada disto. (E porque anda ele tão só? Para onde foi o PS?)
Anda por aí, nos “mentideros” mais politizados ou informados, um debate e não ocioso: Costa já era “este” político que agora nos entra casa dentro aos saltos ou… o que é que (lhe) aconteceu?
Note-se que a pergunta é a favor do líder do PS, ninguém a faria a propósito de um qualquer Marinho Pinto, ou perderia tempo com um político de segunda.
Como indiscutivelmente pertenço ao grupo do “o que é que lhe aconteceu?”, tenho pasmado com tanto erro no diagnóstico e tão pouco recomendáveis terapias. A escassos metros e minutos do desfecho do seu combate decisivo, insisto: “o que é que lhe aconteceu”?
Talvez muito simplesmente isto: é de outra geração política, tem ideias feitas, segue padrões velhos, usa instrumentos políticos (e pessoas!) datadas, recorre a manhas que não interessam a um eleitorado que passou o Cabo das Tormentas, nem interpelam um país que está a mudar de cultura, mesmo que quase imperceptivelmente.
Cometendo o imperdoável erro político de se achar por antecipação o dono do eleitorado central, abriu as janelas à esquerda da esquerda, começando logo por extraordinariamente marcar presença no Congresso do “Livre” no Outono de 2014. E depois, em Janeiro de 2015, por irresponsavelmente perder a cabeça com a vitória do Syriza, exibindo publicamente o seu júbilo de adolescente. E depois por anunciar vetos a Orçamentos desconhecidos e recusas a acordos políticos por definir. Fui-me espantando de vez para vez, não era este político que tinha na cabeça quando tudo isto começou, em Maio de 2015, no jardim da Ribeira das Naus.
Que esquisito. Tanto nevoeiro que entrou.
Se a este estado de coisas juntarmos a terrível crise da social-democracia tão penalizada recentemente, sem discurso, sem espaço, sem pontos cardeais e à procura de uma saída de socorro, concluir-se-á que resta pouco folêgo a esta família portuguesa, socialista e desunida.
Quer dizer que o PS já perdeu as eleições? Não. Quero apenas dizer que o nevoeiro estacionou, baixo, espesso, sobre o partido. Mas até às 18 horas e cinquenta e nove minutos do dia 4 de outubro, tudo é possível porque estamos a falar de política. O que eu quero dizer, isso sim, é que quem disse (aos socialistas) que era fácil ganhar estas eleições (e com que prosápia se comportaram!) se enganou com estrépito e alarde.
Escolher não é uma brincadeira de crianças. Tudo isto torna o progresso e o sucesso de Costa muito difíceis. Ele agravou as dificuldades, entrando em cena pela esquerda alta – quando é ao centro que as eleições se ganham.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A esquerda odeia mesmo a democracia

António Ribeiro Ferreira, ionline, 2015.09.29

O verniz de socialistas, comunistas, bloquistas e afins desesperados está a estalar. O povo, afinal, não passa de um verbo de encher para esta gentinha bem pensante e caviar.

Verdade é como o azeite num copo de água e vem sempre ao de cima. O ditado é velho, a frase foi dita há dias por António Costa, secretário-geral socialista e candidato a primeiro-ministro. Por uma vez tem toda a razão. Quando o seu camarada Correia de Campos, ex-ministro da Saúde de Sócrates, afirmou que o povo era estúpido se desse a vitória à coligação do PSD e CDS estava mesmo a falar verdade. Não é uma metáfora, como a morte aos traidores do MRPP, é mesmo o que pensam os camaradas socialistas.

O povo, reformados, trabalhadores, rurais, desempregados, comerciantes, pequenos e médios empresários, é estúpido se não vota nas mentes brilhantes de esquerda, que ontem como hoje se imaginam a vanguarda bem pensante, a elite que conduz à felicidade suprema um bando de pobres energúmenos que vivem à conta da misericórdia de uma esquerda que inventou um estado social e que todos os dias arranja leis, portarias e regulamentos para evitar que fujam do redil e caiam na desgraça. A esquerda trata os cidadãos em geral como indigentes mentais, irresponsáveis, a quem foi dado o privilégio de votar na esquerda.

Se fogem a esse desígnio são evidentemente estúpidos que mordem a mão a quem lhes dá de comer. Mas se os socialistas, instalados nas suas mordomias e acostumados a viver à grande à custa do Estado em bons lugares na administração pública e no seu sector empresarial, insultam o povo, os comunistas, pais e mães destes renegados socialistas, vão ainda mais longe e tratam os reformados como uns miseráveis cobardes que pensam votar em quem lhes cortou as pensões.

Esta gente, de facto, quando chega a hora da verdade perde o verniz e mostra a sua verdadeira face. Esta gente, no fundo, só aceita a democracia quando o voto do povo miserável e mesquinho, dos trabalhadores que verdadeiramente desprezam, os leva ao poder. Nas suas mesquinhas cabecinhas, formatadas há muitos anos por uma cultura totalitária e fascista, o povo é meramente instrumental. O que lhes interessa de facto é o poder e o prazer de mandar na vida de milhões de cidadãos impondo regras e conceitos que aprenderam em clássicos do marxismo, do leninismo, do maoismo, do estalinismo, das sociais-democracias recicladas do socialismo real que continuam a adorar no fundo das suas almas.

Estúpidos, cobardes, ignorantes, imbecis. Para a esquerda bem pensante e caviar deste país muito mal frequentado, melhor, cada vez mais mal frequentado, o povo é uma entidade abstracta que serve de assunto a serões interessantes e bem regados em bonitos apartamentos ou andares recuperados nos centros das cidades.
Para esta gentinha de esquerda, o povo dos autocarros, dos barcos do Tejo, do metro, dos campos, das fábricas, das pensões de miséria, das cantinas sociais, dos centros de dia, dos lares de idosos é uma escória estúpida se na hora do voto não der o poder a quem bebe litros de vinho, de champanhe, de caipirinhas em longas noites de debates profundos sobre a igualdade, a pobreza, os salários baixos, o desemprego, a emigração, os refugiados e, claro, o pensamento brilhante do Papa Francisco, o novo ícone da esquerda.
Como diz o desesperado Costa, a verdade é como o azeite num copo de água e vem sempre ao de cima. Para desespero da esquerda que odeia a democracia quando os votos do povo não lhe dão o poder, a verdade, como o azeite, pode de facto vir ao de cima na noite de 4 de Outubro. E Costa, agarrado a esta esquerda, pode muito bem ir por água abaixo. Boa sorte. 

Campanhas negras

Blasfémias, 29 SETEMBRO, 2015
by 
A campanha do PS submergiu, de há duas semanas, numa campanha negra de casos e casinhos contra o governo. É um erro grave, que em boa parte explica o fracasso deste partido nas sondagens. Porque, quem estava decidido a votar nos partidos do governo, não é com estas tretas que mudará de voto: por fidelidade partidária, por acreditar que estes «factos» não passam de campanha, ou as duas coisas juntas, não haverá desvios de voto significativos por causa disto. Em contrapartida, em relação aos indecisos, com quem o PS deveria estar preocupado, também não é por salientar os deméritos alheios que o PS conseguirá evidenciar as suas excelsas qualidades. Os indecisos querem ser convencidos a votar em alguém e não propriamente a não votar em terceiros. Não por acaso, o PS continua a descer nas sondagens, enquanto a Coligação mantém as intenções de voto há semanas. Alguém sensato que lembre aos estrategas do PS os resultados da última campanha negra em eleições portuguesas. Precisamente a que opôs Santana Lopes a José Sócrates. Pode ser que aprendam alguma coisa para as próximas eleições.

O mistério de António Costa

Rui Ramos
Observador 29/9/2015

Para a nossa oligarquia política, a simples possibilidade de uma derrota de António Costa é algo de incompreensível. A "austeridade" afinal não foi má? Terá sido a Grécia? O Sócrates? Não percebem.
Porque é que António Costa perdeu as eleições? A resposta, como é óbvio, é que ainda não perdeu. Mas é essa a pergunta que já toda a Lisboa oligárquica faz, muito impressionada pelas sondagens e pelos azares da campanha. A Europa tem-nos dado este ano motivos suficientes para desconfiarmos de primeiras impressões em campanhas eleitorais. Mas para a nossa oligarquia política, a simples possibilidade de uma derrota de Costa já é algo de incompreensível. E isso não apenas à esquerda, como à direita, porque a oligarquia é oligarquia antes de ser de esquerda ou de direita.
A primeira razão de perturbação é esta: um governo que corta rendas e muda hábitos tem de perder eleições. Este foi, durante décadas, um dos pilares da sabedoria oligárquica, e a explicação da abstinência reformista do regime. A imaginação dos nossos oligarcas deriva de leituras liceais dos anos 60 e 70: a si próprios, gostam de se imaginar a partir dos Maias  de Eça de Queiroz, sofisticados e espirituosos; ao “povo”, imaginam-no a partir dos Gaibéus de Alves Redol: uma massa terceiro-mundista e dependente, que cabe à oligarquia dirigir e alimentar. Com cuidado: é que quando falta comida e sossego, o povo morde — porque “as pessoas não percebem”. Daí que a “austeridade” só pudesse ser uma receita de derrota. E daí também que fosse possível conceber o regresso ao poder, como fez Costa, pelo expediente de repetir que a culpa das dificuldades é só dos mauzões “neo-liberais”. Costa devia neste momento circular de andor nas ruas do país. Alguma coisa aconteceu: é agora a oligarquia que “não percebe”.
A segunda razão está implícita na primeira: a oligarquia política é dona do país, e a democracia é o regime através do qual o povo é convidado a reconhecer esse senhorio. Ora, é difícil imaginar oligarca mais fácil de identificar do que António Costa. Costa cresceu ao colo do regime. Não houve dirigente do PS nos últimos trinta anos que não o tivesse posto num qualquer altar. Costa dá-se com toda a gente, da direita à esquerda. Chama-se a isso, em linguagem oligárquica, ser “consensual”. Passos não é assim. Andou na JSD, mas veio da província. Tirando Marques Mendes, nenhum líder do PSD lhe deu a mão e houve mesmo quem o tivesse perseguido. Não consta que fale com muita gente. Para a oligarquia, é um intruso, um “desconhecido”, como insinuou Costa. A frieza com que se permitiu tratar Ricardo Salgado, o banqueiro do regime, é a prova. No momento em que Costa apareceu, o país, como o cão de Ulisses, tinha obrigação de reagir. Que se passa? Os portugueses já não veem televisão?
No país da oligarquia, Ricardo Salgado ainda deveria ter um banco (com o dinheiro dos contribuintes), um ex-primeiro ministro nunca poderia ter sido preso, e um membro honorário da Quadratura do Círculo teria de estar à frente nas sondagens. A oligarquia está confusa. Querem ver que, afinal, a “austeridade” não foi tão má como os próprios oligarcas andaram a dizer? Terá sido a Grécia? O fantasma de Sócrates? As fatalidades do euro? Ou a culpa é toda do Costa, esse eterno hesitante? Tudo passa pela cabeça aos nossos oligarcas. Menos uma coisa: a hipótese de o povo os ter percebido, a começar pelo fracasso e fuga de 2011.
No seu desespero, os oligarcas de esquerda e de direita que cercam António Costa já admitem tudo, por exemplo, um resultado que lhes permitisse, mesmo perdendo, governar com o apoio do PCP e do BE. Pouco lhes importa a crise político-constitucional. Para a oligarquia, o regime vale menos do que o seu poder e a sua influência.

Socialismo

Se o governo conseguisse criar empregos e educar crianças, o socialismo teria funcionado

George Gilder (1939 - …)
Economista americano, fundador do Discovery Institute

Poema eleitoral

José Miguel Pinto dos Santos
Observador 28/9/2015, 10:05

Mestre Zhuang ficou famoso pelo seu discurso em que recusou um convite para ser primeiro-ministro, onde comparava ministros a bois de engorda e os corredores do poder a antros de depravação.
Zhuangzi (c.369—286 aC) não é uma referência óbvia para as próximas eleições legislativas. Está distante de mais de nós no espaço e no tempo: era chinês e morreu há já muito tempo. Era filósofo, um dos mais importantes da sua geração e da sua escola, e se fosse grego seria categorizado como cínico, uma versão sínica de Diógenes de Sinope (412—323 aC), um campeão em impopularidade. Era de vida austera por convicção política e filosófica, um superlativo de José Mujica, e para mais era também poeta, tendo escrito boa parte da sua crítica ao confucionismo e ao mohísmo em verso.
No entanto, Mestre Zhuang não era uma nulidade na arte da política e na gestão das finanças públicas, numa nação onde o engenho no governo, conjuntamente com a boa administração do erário real, sempre foi considerado a disciplina mais importante e elevada. Em prova disto conta-se que, tendo ouvido el-rei Wei (?—329 aC), do estado de Chu, do discernimento e competência de Zhuangzi, lhe terá pedido para se tornar primeiro-ministro do seu governo, tendo-lhe para tal oferecido, em sinal inicial de gratidão, título nobiliárquico e mil libras de prata. Um dos motivos da fama de Mestre Zhuang, entre gerações posteriores daqueles menos ligados a filosofias e mais atentos ao que é episódico na vida política, é o seu discurso de rejeição ao convite e ao presente. Depois de comparar ministros a bois de engorda e os corredores do poder a antros de depravação, termina dizendo aos dignatários reais: “Ide-vos embora depressa e não me conspurcais mais com a vossa presença. Prefiro chafurdar num charco de lama a emporcalhar-me com os humores e caprichos da real corte. Firmemente me decidi a nunca mais aceitar qualquer cargo para assim poder gozar mais livremente da minha própria carga”.
Para por em perspetiva esta recusa será bom considerar que a carreira política, na China do século quarto antes de Cristo tal como no Portugal de hoje, era uma daquelas que melhor podia assegurar o gozo da materialidade da vida, isto apesar de todos os riscos que o seu exercício envolvia. O poder de por e dispor e a capacidade de requisitar e gozar de um ministro eram contrabalançados muito tenuemente pela possibilidade futura e incerta de uma demissão por um capricho do soberano, seguida de acusação de corrupção, prisão, e outras experiências mais dolorosas. Tal lá como cá.
Parece pois apropriado e oportuno, neste período eleitoral, uma pequena infusão da sabedoria de Zhuangzi, que poderá relembrar algumas verdades básicas ao nosso soberano aparente, o povo, e aos candidatos a ministros do soberano. Não sob a forma de um programa, que o soberano não teria paciência para ler, mas de um poema eleitoral, sem lirismos de promessas mas com o realismo de cauções, fresco hoje como há 2400 anos atrás:
Gong-Wen Xuan viu um funcionário real manco,
Que, consequência da má fortuna política,
Mais não tinha que o apoio de um pé.
“Que tipo de homem é esta monstruosidade?” perguntou ele,
“De quem é a culpa? Do Céu, ou do Homem?”
“Do Céu”, respondeu o outro.
“Quando o Céu me deu a vida,
Desejou que me destacasse dos outros,
Enviou-me para o governo,
Para me poder distinguir.
Olha como sou diferente: um só pé”
O faisão dos pântanos,
Tem de saltar dez vezes,
Para debicar um grão,
E tem de dar cem passos,
Para engolir um gole d’água.
Mas nunca pede que lhe deem guarida num galinheiro,
Embora lá pudesse ter tudo o que poderia desejar.
Prefere correr e pular,
Procurar por si o seu sustento,
A viver engaiolado.
(Zhuangzi, Volumes Interiores, 3-3)
Mestre Zhuang escreveu este poema, do princípio ao fim, a pensar nos candidatos a ministro. A lembrar-lhes que as teias do poder são uma prisão tipo galinheiro. No entanto parece que ele pode servir igualmente bem para inspiração ao povo soberano no próximo ato eleitoral. O voto é a arma do povo. Mas depois de votar o povo fica desarmado e indefeso, também ele numa gaiola, preso por políticas que o alimentam com apoios ao investimento, subsídios de reinserção e reformas douradas, como dourado é o milho para galináceos. Preso, por algum tempo…
Professor de Finanças, AESE

Por que não me vou abster

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 29/09/2015 - 05:05

O PS avaliou mal o descontentamento do eleitorado flutuante, moderado e centrista, que é aquele que faz ganhar as eleições.
António Costa perdeu a minha abstenção no dia em que disse que não viabilizaria o orçamento do governo no caso de perder as eleições.
Se é certo que Costa nunca teria o meu voto, porque o seu PS ainda é em larga medida o PS de José Sócrates, a minha abstenção era muito fácil de obter. Há precisamente um ano, após ele ter vencido as primárias do PS, escrevi: “Com Seguro, eu seria obrigado a votar PSD. Agora, pelo menos, já me posso dar ao supremo luxo de votar em ninguém.” Foi esse supremo luxo que António Costa me roubou – e desconfio que não foi só a mim.
Conheço demasiadas pessoas que há seis meses juravam não votar em Passos e que entretanto mudaram de ideias, não porque a economia esteja espectacular ou porque tenham sido recentemente descobertas encantadoras qualidades no cerebelo do primeiro-ministro, mas porque a estratégia de Costa deu o empurrão que faltava à direita desiludida para colocar de novo a cruz no quadrado da coligação.
Eu votei em António Costa nas últimas eleições autárquicas, e fi-lo com toda a convicção. Sempre elogiei o seu excelente trabalho à frente da Câmara de Lisboa, acho que tem boas capacidades executivas e acredito que é o melhor candidato a São Bento que o PS tem para oferecer. Acho também que tem lidado da melhor forma possível com a questão Sócrates, que acertou ao ir buscar Mário Centeno e que foi sério na apresentação de um programa económico detalhado – coisa que a coligação, lamentavelmente, dispensou.
Mas a um programa centrista, António Costa contrapôs com assustadora frequência um discurso de esquerda radical. À sua direita, ofereceu mapas Excel; à sua esquerda, ofereceu elogios ao Syriza e discursos anti-austeridade. Adivinhem qual deles ficou no ouvido dos portugueses. Vá lá saber-se porquê, Costa preferiu ir tentar roubar 100.000 votos à sua esquerda em vez de ir à procura de mais de meio milhão de votos à sua direita. Ora, só mesmo o Homem Elástico consegue abraçar em simultâneo Mário Centeno e Jerónimo de Sousa. António Costa não é o Homem Elástico.
O PS avaliou mal o descontentamento do eleitorado flutuante, moderado e centrista, que é aquele que faz ganhar as eleições. Houve pequenas decisões simbólicas que deram a 600 ou 700 mil votantes um sinal completamente errado. Será que o centro quer mesmo a reposição dos feriados? Será que o centro quer mesmo o regresso a uma semana de 35 horas de trabalho? Será que o centro quer mesmo a diminuição do IVA na restauração? Será que o centro quer mesmo que seja o Estado a encontrar uma solução para os lesados do BES? Será que o centro quer mesmo que António Costa assuma o chumbo de um orçamento que desconhece? Será que o centro acredita mesmo que o PS está mais próximo do PCP do que do PSD? Esta mistura de demagogia política com medidas que convidam o país a regressar a um passado do qual ele quer fugir a sete pés é tudo aquilo que o PS deveria ter evitado.
Muita gente acusa o PSD de não ter uma perspectiva para o futuro, e isso é em boa parte verdade. Mas as acusações patéticas de “ultra-liberalismo” têm um efeito contraproducente: dão a ideia de que a coligação, bem ou mal, está a tentar encontrar um caminho alternativo, enquanto o futuro do PS é perigosamente parecido com o passado. Não tenho a menor dúvida de que a esmagadora maioria dos portugueses está descontente com o sítio onde está. Mas isso é radicalmente diferente de querer ir para o sítio onde o PS os quer levar.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Um guia para os perplexos


Como é que a coligação pode ter hipótese de ganhar esta eleição? As sondagens ainda podem mudar? Esta é a história que eu acho que sei contar com alguma segurança. Qual é a vossa?


“Como é possível que a coligação governamental possa chegar a estas eleições sem ser castigada eleitoralmente?”
A coligação vai ser castigada eleitoralmente. Vamos imaginar que no dia 4 tinha os 38% que o agregador do Popstar lhe dá neste momento. Presumindo que a participação eleitoral não muda muito de 2011 para 2015, isto implicaria que a coligação perderia 700.000 votos, 1 em cada 4 dos votos de 2011. Desde 1974, PSD+CDS só tiveram menos em conjunto nas eleições de 2005. Perdas acima dos 12 pontos percentuais para um governo só tivemos de 1983 para 1985 para os partidos do Bloco Central (mas isso foi no ano do PRD), de 1991 para 1995 para o PSD, e de 2002 para 2005 para a coligação PSD/CDS. Claro que, se tiver algo mais perto dos 41% que a Católica lhe atribui neste momento, as perdas serão menores. Mas mesmo assim seriam cerca de 550.000 votos, 1 em cada 5 dos de 2011.
“OK, mas mesmo assim como é possível que a coligação tenha hipótese de ganhar esta eleição, depois de quatro anos de austeridade?”
Quatro anos de austeridade sob este governo talvez seja esticar um pouco a coisa. A medida convencional de ajustamento orçamental é a mudança no défice estrutural, o défice calculado em relação ao PIB potencial, retirada a componente cíclica (sei que há controvérsias mas para este efeito não fazem grande diferença). A evolução ao longo dos últimos anos na Europa do Sul foi descrita há pouco tempo num artigo da Bloomberg:
PM1
Primeiro, note-se que a austeridade já vinha de 2009 para 2011. Segundo, sendo certo que se acentua claramente de 2011 para 2012, desacelera de novo até 2014 e – surpresa – inverte de 2014 para 2015, segundo as previsões. O FMI anda-se a queixar há uns tempos, mas o PM já explicou que são uns grandes pessimistas.
“OK, mas isso é demasiado abstracto. As medidas tomadas inicialmente geraram mesmo assim uma espiral recessiva, não foi?”
Não, não foi. O gráfico abaixo mostra, no eixo y da direita, a taxa de desemprego (fonte). A partir de Fevereiro de 2013, o desemprego começa a descer.
PM2
Do lado direito vemos as intenções de voto do conjunto PSD+CDS (até Maio) e da coligação pré-eleitoral PSD/CDS (a partir daí). Os partidos de governo perdem continuamente até Setembro de 2012, perdem ainda mais de forma súbita nesse mês (toda a gente sabe porquê), atingem o ponto mínimo em Julho de 2013 (também toda a gente sabe porquê), e a partir daí mantêm-se mais ou menos estáveis. Não deve ser um acaso.
Podemos também olhar para o crescimento do PIB (por trimestre, real, em relação ao trimestre anterior, fonte) e veremos mais ou menos o mesmo:
PM3
“OK, mas as pessoas não andam a ver dados económicos em sites do Eurostat ou do BCE. O que importa é a percepção que têm, e essa não melhorou.”
Melhorou sim, pouco mas melhorou. O gráfico abaixo mostra o valor médio das respostas à pergunta “Como avalia a situação actual da economia portuguesa”, numa escala de 1 (muito má) a 4 (muito boa), do Eurobarómetro. De Novembro de 2013 para Junho de 2014 subiu, e continuou a subir.
PM4
Vê-se o mesmo quando se olha para a resposta à pergunta “Quais são as suas expectativas para os próximos doze meses: os próximos doze meses serão melhores, piores ou iguais, no que diz respeito à situação económica em Portugal?” (fonte).
PM5
E vê-se também quando se olha para a confiança do consumidor (fonte):
PM6
Em suma, a coligação sangra até Julho de 2013, mas a partir daí estanca. Na verdade, a pergunta que apetece colocar é por que razão a coligação não recuperou mais. Não sei a resposta a essa. O desemprego melhora, mas sabemos que em parte devido à criação de emprego e em parte devido à emigração e emprego precário. O crescimento foi positivo, mas modesto. As percepções da economia a a confiança do consumidor melhoraram, mas ainda estão do lado negativo. O primeiro ministro e o vice-primeiro ministro continuam extremamente impopulares (se encontrarem no país cartazes onde eles aparecem digam, sim?). A confiança no governo aumentou, mas continua a níveis muito baixos. Os pensionistas são uma parte muito importante do eleitorado do PSD, mas foram um alvo preferencial. Etc. Eu não sei a resposta, mas aqui o que importa é que a pergunta certa talvez não seja bem a que muita gente tem colocado.
“OK, mas mesmo com isto tudo, o PS chegou a ter as eleições na mão. Como é possível que esteja em risco de as perder?”
A pergunta aqui também parte de um pressuposto errado. O gráfico abaixo mostra a evolução das estimativas do agregador de sondagens no Popstar, nomeadamente de intenção de voto no PS, na coligação (ou soma PSD+CDS) e a diferença entre as duas:
PM7
O PS foi recuperando apoio ao longo da legislatura até à segunda metade de 2013. Perdeu apoio durante a luta interna pela liderança, e voltou a recuperá-lo. Mas a maior margem que o PS alguma vez teve sobre a coligação foi de 3 (três) pontos, durante breves períodos, durante as lideranças quer de Seguro quer de Costa. A última vez foi no fim de Julho de 2015. O PS nunca teve estas eleições na mão. Ou melhor: só as esteve enquanto a PSD e CDS não tinham ainda decidido ir juntos a eleições. Ou seja, vendo bem, nunca teve.
“Mas então, o que tem impedido o PS de subir?”
Não sei. Parte da resposta já teremos visto: o que impede o PS de subir será em parte o mesmo que impede a coligação de descer. Quanto ao resto, só posso oferecer um pouco de especulação informada. Em 2011, no estudo pós-eleitoral do ICS, quase dois em cada três eleitores, e metade dos que simpatizam com o PS, diziam que o PS era “muito” ou “extremamente responsável” quer pela situação da economia nessa altura quer pelo resgate. Veremos no inquérito pós-eleitoral de 2015 em que medida isto ainda é verdade, mas é possível que uma coisa destas não se desfaça facilmente. O caso britânico mostra que há momentos históricos em que se instalam “gaps” na percepção de competência económica entre partidos, que esses “gaps” demoram muito tempo a ser vencidos e que, no caso britânico, esse “gap” instalou-se com a crise económica a favor dos Conservadores e ampliou-se com os primeiros sinais de retoma em 2013. Em Portugal as sondagens não perguntam nada disto (queixas aqui), mas é possível que tenhamos algo semelhante e que isso dite um “tecto” ao crescimento do PS que seria sempre difícil de vencer.
“Os resultados da eleição ainda podem ser diferentes daquilo que as sondagens têm estado a dizer?”
Claro. Ainda só conhecemos as últimas sondagens da penúltima semana de campanha. Em 2011, o PSD teve quase 39% na eleição, quase mais 4 pontos do que lhe davam as sondagens nessa penúltima semana. O PS teve 28%, quase menos 6 pontos do que lhe davam essas sondagens. Mudanças desse calibre, num sentido ou noutro, podem ou ampliar muito a vantagem da coligação ou, pelo contrário, anulá-la. Dito isto, não me recordo de eleições legislativas desde 1991 (antes disso não vale de todo a pena olhar para sondagens) em que um partido que estivesse à frente nesta altura tivesse perdido a eleição. Mas há sempre uma primeira vez para tudo.
Esta é uma história possível sobre esta legislatura. Outros contarão outras, focadas nas personalidades e actuação dos líderes, acidentes de campanha, discurso político, cobertura dos media, etc. Eu acho isso tudo perfeitamente legítimo. Mas esta é a história que eu acho que sei contar com alguma segurança. Qual é a vossa?
* Texto originalmente publicado no Margens de Erro.

Costa, o “extremismo” dos outros e a sua impossível quadratura do círculo

José Manuel Fernandes | Público, 20150928

Costa repete e repete-se: ou ele ou a "direita radical". Mais o "extremismo ideológico". Estranho: será assim tão "extremista" devolver os cortes em 4 anos (PaF) em vez de 2 (PS)? Ou apenas prudente?
Porque tem um PS um discurso tão histriónico, por vezes até radical? Numa campanha disputada taco-a-taco com a coligação, porque se afasta o PS da sua matriz moderada e repete frases feitas que pouco o distinguem, aos olhos do eleitorado, do PCP ou do Bloco?
Há uma bengala retórica que me faz especial confusão: a ideia de que tudo o que se passou nos últimos anos não foi senão uma consequência do “radicalismo ideológico” de Passos Coelho, do seu “neoliberalismo sem limites”, ou mesmo do seu “ultra-liberalismo”. Ouvimos repetir esta ideia por todo o lado, e interrogamo-nos: será “radicalismo ideológico” defender a devolução dos corte salariais em quatro anos (como faz a coligação) em vez de dois? Será “ultraliberalismo” propor uma reforma da segurança social (o famoso plafonamento) que segue linhas abertas pelos socialistas há quase 20 anos, quando Guterres mandou elaborar um Livro Branco? Será “neoliberalismo sem limites” querer prosseguir a reforma do IRC, baixando progressivamente a sua taxa, uma reforma acordada com os socialistas há apenas dois anos?
Fica-se baralhado. Numas eleições em que a proposta mais arriscada, do ponto de vista do financiamento do Estado Social, é a dos cortes na TSU, uma ideia do PS, por que motivos se carrega na tecla do “radicalismo ideológico” quando vêm à baila propostas que correspondem a políticas consensuais noutros Estados europeus, todos com sistemas de proteção social mais fortes do que o nosso? Há plafonamento nas pensões em Espanha, em Itália, em França, para citar só alguns exemplos. Há liberdade de escolha na educação na Suécia, na Holanda ou no Reino Unido. Houve reformas do IRC com grande sucesso em países periféricos com necessidade de atrair investimento externos, como a Irlanda. É tudo isto “neoliberalismo” tomado de freio nos dentes?
Mas há mais. Depois de quatro anos de grandes dificuldades (sendo três deles de troika), nem a escola pública desapareceu nem o Serviço Nacional de Saúde entrou em colapso. Porque se diz então na campanha que é isso que está a ser preparado, sobretudo quando os cenários macroeconómicos em cima da mesa, em especial o do PS, não permitirão dar mais dinheiro a estes dois sectores? Acharão mesmo que é crível, que os eleitores vão nisso? Há quatro anos foi o grande mote da campanha de Sócrates, mas já então não resultou. Porque pensam que pode resultar agora, sobretudo depois de não ter ocorrido a “destruição do Estado Social” que então se anunciava?
Há, na minha perspectiva, duas explicações possíveis para esta deriva retórica da campanha socialista. Uma, de que se fala cada vez mais, é a de que o partido encara mesmo a possibilidade de pedir apoio (ou coligar-se) com o PCP ou com o Bloco apesar de apresentar um programa que, pelo menos no papel, está muito mais longe das propostas desses dois partidos do que das propostas da coligação. Quero crer, sinceramente, que o PS não cairá nesse desvario, não abrirá a Caixa de Pandora de um experimentalismo de consequências imprevisíveis, colocando-se à mercê de partidos como o PCP ou o BE – um PCP e um BE que são hoje aquilo que sempre foram no que dizem, defendem e propõem.
A outra explicação, a que prefiro, é que os socialistas portugueses estão como os seus parceiros europeus, isto é, sem reais soluções alternativas para as crises que vivemos e, por isso, sobem o tom do discurso para evitar o desconforto do confronto com a realidade. Fogem sobretudo do seu programa, que parece ter peste desde que António Costa embatucou no momento de explicar o corte nas prestações sociais do sistema não contributivo.
Há exactamente uma semana um colunista do Financial Times, Wolfgang Münchau, um europeísta que facilmente situaríamos no centro-esquerda, reflectia precisamente sobre os “desconcertantes fracassos do centro-esquerda na Europa”. Uma das coisas que notava nesse seu texto é que, quando parecia que a “crise final do capitalismo global” lhe estava a ser entregue de bandeja, verificou-se que não sabia o que fazer com ela. Por todo o lado, os partidos socialistas e social-democratas “acudiram aos bancos em vez de os nacionalizar. Impuseram a austeridade. Não tiveram nada de original para dizer”.
Na verdade, não tiveram então nem têm hoje. O programa de Centeno não é mais do que uma tentativa de “inventar” dinheiro para um clássico estímulo económico keynesiano, dinheiro que antes os socialistas iam buscar aumentando os impostos e, depois, contraindo empréstimos. Suspeito que Keynes, que nunca foi socialista, bem pelo contrário, deve estar a dar voltas no túmulo com o uso que fazem das suas ideias…
Desta feita a ideia de Centeno é pedir emprestado às pensões do futuro, pelo que o problema do seu plano é este ficar aquém da expectativa, como quase sempre aconteceu no passado: sem o milagre do crescimento restará apenas mais um buraco financeiro, e mais uma dívida a pagar pelas gerações mais novas sob a forma de pensões ainda mais desvalorizadas.
Na última semana, num almoço com correspondentes estrangeiros, perguntaram-me se este plano não poderia ser a “quadratura do círculo” dos dilemas do centro-esquerda, a descoberta do Graal há tanto tempo procurado. Respondi-lhes que não acreditava nesse milagre, quer por esse plano macro-económico continuar a ser muito semelhante aos que são regra por toda a Europa, quer por não responder ao verdadeiro pesadelo dos socialistas: vivermos numa economia global. É isso que verdadeiramente lhes estraga as contas e compromete as políticas.
Há dez, quinze anos, discutia-se se a globalização não iria tornar os países pobres ainda mais pobres – era essa tese da esquerda em geral; agora percebeu-se que a globalização não só retirou milhares de milhões de pessoas da pobreza, como está é a ser uma dor de cabeça para os países mais ricos. Ou para boa parte deles.
Portugal é um bom exemplo dos efeitos dessa globalização, pois em vez de se tornar uma economia mais aberta com a adesão ao euro, tornou-se uma economia mais fechada alimentada artificialmente por juros baixos, consumo interno e uma ilusão de crescimento. Sabemos no que isso deu, e agora também sabemos que, no momento de aperto, somos capazes de mudar muito depressa, como mudou o nosso sector exportador. Sempre fomos peritos em fazer das tripas coração, só que este ambiente económico mais aberto e mais competitivo dá-se mal com as velhas receitas do centro-esquerda.
É por isso que o verdadeiro problema dos socialismos moderados europeus não é a rigidez do Pacto Orçamental, é antes a rigidez mental que os impede de admitir que, para não empobrecer num mundo globalizado, é necessário que a economia e as empresas estejam sempre a mudar e a melhorar, o que implica muito mais flexibilidade (e precariedade) do que no nosso mundo protegido e relativamente rico de há duas ou três décadas.
A globalização trouxe, e continua a trazer, mais justiça ao mundo, estando as desigualdades a diminuir à escala global – mas para as receitas tradicionais dos socialistas dos países desenvolvidos teve um efeito pior do que o céu a cair sobre a cabeça dos gauleses da aldeia do Astérix.
A desorientação é tão grande que se chega ao ponto de recuperar uma linguagem quase bélica, como fez a semana passada o ministro francês da Economia, Emmanuel Macron, curiosamente um reformista execrado pela ala esquerda do seu partido. Falando em Londres, defendeu num discurso que passou despercebido em Portugal a ideia de que se devem mudar os tratados europeus para fazer da Zona Euro uma “união de transferências”, isto é, uma federação onde os países mais ricos financiem generosamente os mais pobres e menos produtivos. Macron sabe que, no dia em que isso acontecesse, a Alemanha bateria com a porta, pelo que fez uma comparação trágica: disse que a guerra do euro será como a Guerra dos Trinta Anos, opondo calvinistas a católicos e ilustrando isso com os habituais argumentos anti-alemães. Não sei se teve bem noção do que estava a dizer, mas na Alemanha a Guerra dos Trinta Anos é vista como uma catástrofe de dimensões tais que só foi superada, em destruição, pela II Guerra Mundial. E os cálculos de quanto custaria ao país uma “união de transferências” apontam para um peso orçamental semelhante ao das odiosas “compensações de guerra” decididas em Versailles no final de I Guerra Mundial. Era difícil tocar de forma tão canhestra em temas tão sensíveis, e logo dois ao mesmo tempo.
Não consigo pois imaginar uma maior mistura de propostas explosivas e paralelos incendiários. Mas identifico bem a origem da ideia, de resto na linha das propostas de mutualização da dívida: se já não há nos nossos países riqueza para redistribuir, então redistribuamos pelos “católicos do sul” a riqueza dos “calvinistas do norte”. Quando aqui chegamos é altura de ficarmos realmente preocupados.
António Costa, depois de tantos meses a namorar a ideia da renegociação da dívida (renegociação que afectaria antes do mais os nossos parceiros europeus), deixou cair o tema porque sabe que não pode parecer-se com o Syriza (e porque Centeno não é Varoufakis, bem pelo contrário). Só que isso deixou-o ainda com menos argumentos de campanha.
Além, claro, do fantasma de uma “direita radical”, ameaça de que fala como um disco rachado, um disco rachado, um disco rachado…