quinta-feira, 30 de abril de 2015

Por uma profunda cultura de vida

30-04-2015 18:30 Nota de abertura RR online

Num hospital de Lisboa, está uma menina de 12 anos, grávida de cinco meses. A gravidez é o resultado da violação pelo padrasto. Trata-se de uma situação dolorosamente íntima, mas, com a serenidade possível, é necessário separar estas duas realidades: gravidez e violação.
Nos hospitais, o que move, diariamente, milhares de homens e mulheres é a defesa da vida – a vida de um bebé por nascer, de um idoso ou de um moribundo. 
Mas os profissionais da vida também são confrontados com indesejáveis dilemas. 
Num hospital de Lisboa, está uma menina de 12 anos, grávida de cinco meses. A gravidez é o resultado da violação pelo padrasto. 
Trata-se de uma situação dolorosamente íntima, mas, com a serenidade possível, é necessário separar estas duas realidades: gravidez e violação. 
No que respeita à violação, o maior escândalo é saber-se que a imensa maioria das agressões sexuais a bebés e crianças acontece dentro da falsa protecção das suas casas, na discrição de uma porta fechada e no silêncio cúmplice e continuado de tantos adultos. Eis uma realidade que importa não ignorar. 
A gravidez, essa, gera uma outra vida, uma vida própria de alguém inocente que para desenvolver-se precisa do corpo daquela que já é mãe. De facto, aquela menina já é mãe daquele bebé que uma simples ecografia pode indicar se é menino ou menina. 
A Associação Apoio à Vida, instituição que a Renascença acompanha desde o seu início, já colocou à disposição desta menina o seu Centro de Acolhimento Temporário e promete ajudá-la de forma a evitar a interrupção da gravidez. 
Resta uma pergunta difícil: se um tal apoio não for aceite, quem vai acolher e acompanhar seriamente esta menina de 12 anos, violada, grávida durante cinco meses e afectada por decisões tão violentas? 
E resta também uma conclusão: sem uma profunda cultura de vida não se previnem outras violações de outras crianças e o aborto poderá continuar a matar vidas por nascer.

Decidir

Inês Dias da Silva | 2015.04.30

É preciso ter sangue frio para decidir por outro. Ponderamos os prós, os contras, os nossos interesses pessoais à mistura porque normalmente não os conseguimos calar, e mais ou menos objectivamente, tentamos decidir pelo bem do outro. Às vezes conseguimos e outras vezes nem por isso.
Hoje de manhã, por exemplo, o meu filho de 6 anos teve dispensa para chegar mais tarde às aulas por ter participado ontem até tarde num espetáculo da escola. Eu pensei que seria bom ele descansar mais, Deus sabe como foi bom para mim. Acabei por o levar duas horas mais tarde, aborrecido comigo e preocupado pela aula que estava a perder.
Graças a Deus não tive ainda que decidir se uma criança de 12 anos deve abortar ou não uma criança fruto de abuso. Mas já tive que decidir se um filho meu deveria ter apoio ventilatório em contexto de várias infecções respiratórias tendencialmente fatais. Havia pressa para decidir, já que o miúdo estava em agonia, ouvimos com abertura a opinião médica expressa na altura e em comissão conjugal, decidimos.
Mas assumo que não é fácil. O que é que é melhor? Viver em agonia respiratória os anos seguintes, sempre ligado a uma garrafa de oxigénio e a um ventilador, ou morrer e não respirar de todo. Pensando bem, a segunda hipótese seria provavelmente mais conveniente para todos. Eu poderia voltar a trabalhar fora de casa, coisa que gosto muito de fazer e deixei para cuidar do meu filho. Já podiamos ir fazer aquela viagem com os mais velhos, sem preocupações. E o nosso filho já não tinha que estar doente e seria uma "estrelinha no céu" sempre connosco, porque nós assim decidimos.
No entanto, o nosso filho sobrevive ainda. Não voltei a trabalhar, não fizémos a viagem, e hoje estou junto à cama dele, junto à sua rampa de Oxigénio, junto ao seu ventilador, em mais um dos seus inúmeros internamentos no Hospital de Santa Maria, 9 pisos acima de onde a menina de 12 anos receberá a solução que os médicos decidiram para o seu problema dramático. Aqui no 8o piso, encontram-se crianças doentes crónicas a lutar pela sua vida. Uma vida com limitações e dependēncias, no entanto as crianças continuam a lutar por ela, com um esforço inimaginável. Cá em cima a Comissão dos Doutores ainda não foi chamada a decidir. Os pais tão pouco. São as crianças que decidem, e enquanto tēm forças para lutar, decidem sempre pela vida. E isto edifica e esclarece os adultos. Mas apenas os adultos que as acompanham, que caminham com elas, e que por isso aprendem com elas a tomar decisões cada vez mais acertadas.
A Comissão decidiu ontem pela menina de 12 anos pela primeira vez, temos afinal que lhes dar o desconto, se decidirem menos bem. O tempo dirá. Mas arrisco a dizer que a Comissão não estará lá para aprender, quando o tempo disser. Estará a mãe, estará com algum azar da menina, o mesmo padrasto, estaria lá o Apoio à Vida, se fosse chamada a sua intervenção.
Hoje aprendi com o meu filho de 6 anos que não devo nunca decidir pelo seu atraso aos compromissos. Já o devia saber. Hoje decidi mal. Para a próxima decidirei melhor. 

Drones no shopping

JOÃO TABORDA DA GAMA | Público, 2015.04.30

No meu tempo aeromodelismo não era mainstream, nem geoestratégia. Aeromodelismo era uma reportagem cíclica no fim do Telejornal, ou no meio do programa do Totobola, às quartas, alternando com peças sobre taxidermia. A modalidade era apresentada e mostravam-se imagens de uns sujeitos à roda à roda, tipo lançamento do martelo mas com um avião na ponta, tudo com ar domingueiro, e que terminava invariavelmente com uma entrevista ao Júlio-Isidro-praticante-de-voo-circular--controlado. Também havia os aviõezinhos telecomandados, vendidos a preços de carros a sério, naquele tipo de lojas que parece ser para crianças mas não é, templos de bricolagem frequentados por uma tribo habitual, masculina, que fala numa língua própria e que afasta toda a gente, sobretudo qualquer criança curiosa. Brincadeiras para o papá.
Mas tudo mudou e agora aeromodelismo são drones e há drones por todo o lado, nos centros comerciais, nas listas de prendas das festas de anos, nos natais, nas lojas e nas salas de estar das famílias mais insuspeitas.
Uma das primeiras interrogações que isto levanta é a de saber qual a lei que se aplica ao Zezinho de 10 anos que vai para o meio da rua comandar o seu drone Parrot 2.0. No fundo é saber se são precisas mais leis, ou se as que temos bastam. E já se ouve um clamor, ai se ele usa a câmara para filmar os vizinhos do terceiro no quarto, ou se o brinquedo cai no A4 do vizinho do quinto, ou se entra pela farmácia a dentro e destrói o expositor de calicidas. Sem ter pensado muito, não me parece que sejam necessários grandes monumentos jurídicos para lidar com o Zezinho e o seu drone que o pai lhe deu no Natal (até porque neste ano o Natal calhava com a mãe).
O baixo custo do equipamento não trouxe a felicidade apenas ao Zezinho, mas também a exércitos de soldados e cientistas que contam hoje com estes gadgets no seu labor. Esta utilização não recreativa das burocraticamente chamadas "aeronaves remotamente pilotadas" está difundida mas não é coisa bem resolvida (como se diz na linguagem das relações). São os drones que matam em missões de segurança, que vigiam e protegem de ameaças externas ou internas, que gerem colheitas, distribuem comida, ou contam leões-marinhos.
O uso militar de drones em especial levanta profundas questões éticas e morais, filosóficas, psicológicas. Verdadeiras questões, muitas sem resposta certa ou errada, inquietações em cima de toda a inquietação existencial do tema bélico. A possibilidade de seleção individualizada de pessoas a abater é boa, ou má? A guerra passa a assassinato? Mas não o era já antes? Se houver guerras justas, as guerras através de drones podem ser consideradas justas? Não sendo tripulados, ou pelo menos não sendo tripulados presencialmente, existirá espaço para o arrependimento, para a contramotivação do soldado? Para evitar erros? Deixarão os drones espaço para a rendição (aqui a questão é também jurídica)? Os pilotos de drones, a milhares de quilómetros de distância dos seus alvos, também sofrem de stress de guerra.
O debate à escala global é intenso, tão intenso quanto a força do fenómeno - os drones vieram para ficar. Estando o mundo inteiro a discutir o que se deve fazer com os drones, o que deixar dentro e fora da lei, e sendo inegável a sua valia tecnológica e científica, talvez fizesse sentido Portugal considerar tornar-se um polo de de-senvolvimento de soluções de ponta nesta matéria, conjugando o impulso público necessário com a criação de um quadro legal incentivador e não castrador. Há território desertificado bom para testes, não existe ameaça terrorista e temos bom clima (não ia ser eu o primeiro a considerar uma solução de crescimento para Portugal sem usar o argumento do clima). Podíamos também ser um bom exemplo na utilização de drones para gestão da segurança pública, do congestionamento das cidades, na gestão dos recursos marinhos. Se é apenas para tratar do drone do Zezinho, mais vale ficarmos quietos.

Criança de 12 anos violada pelo padrasto foi autorizada a abortar

ALEXANDRA CAMPOS Público 30/04/2015 - 11:10

Especialistas do hospital consideram que há o risco de a menina sofrer danos psíquicos irreversíveis se a gravidez prosseguir.
Nota do editor: e se a gravidez terminar não há risco de a menina sofrer danos psíquicos irreversíveis?
A menina de 12 anos que está grávida de cinco meses depois de alegadamente ter sido violada pelo padrasto vai poder interromper a gravidez. Tomada por uma equipa multidisciplinar de especialistas do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde a menor está internada, a decisão terá contado com o aval do Ministério Público da Amadora que está a acompanhar o caso.
A polémica decisão que visou salvaguardar “o superior interesse da criança” não foi tornada pública pelo hospital, que assim quis proteger a "privacidade" da menina e a "confidencialidade" médica, mas o Diário de Notícias e o Correio da Manhã divulgam-na esta quinta-feira, citando fontes judiciais.
O hospital adiantara apenas, em nota de imprensa, que a decisão foi tomada pela “direcção clínica da instituição e por pediatras, pedopsiquiatras, obstetras, psicóloga e assistentes sociais” que analisaram em conjunto “o contexto inerente à criança”. Acrescentara que a equipa levou em conta “os aspectos clínicos, éticos, jurídicos e sociais que decorrem da situação em causa” e tomou uma decisão “considerando o superior interesse da criança”.
De acordo com o Código Penal, uma gravidez resultante de violação pode ser interrompida até às 16 semanas, mas admite-se o aborto até às 24 semanas se existirem razões para crer que o nascituro sofrerá de grave e incurável doença e não se estabelece qualquer prazo se estiver em causa a grave e irreversível lesão física ou psíquica da mulher. 
Terá sido justamente o risco de danos irreversíveis para a saúde psíquica da menina o motivo invocado para justificar a decisão da equipa de especialistas do hospital. A criança fica agora a cargo dos pedopsiquiatras que a acompanharão em todo o processo, soube o PÚBLICO.
Com uma história de vida muito atribulada, a menina foi levada para o hospital por funcionários da escola que frequenta quando estes perceberam que estava grávida.
Com apenas três anos, ela foi retirada à família (por outros motivos) e passou um ano e meio numa instituição. Acabou por regressar a casa, onde, com cerca de seis anos, teria sido já abusada sexualmente pela primeira vez pelo padrasto. Na altura, a polícia chegou a investigar a situação, mas o caso foi arquivado porque a criança negou. As primeiras relações sexuais com penetração terão começado aos dez anos e continuaram sem que ela dissesse nada a ninguém, segundo fonte da investigação.
Agora, face à prisão preventiva do padrastro que foi decretada após primeiro interrogatório judicial, e perante a constituição da mãe da menina como arguida, por se ter mantido em silêncio face aos abusos, a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens da Amadora abriu um processo de promoção e protecção de menor em risco.
Este caso é fora do comum porque, além da idade da menina (completou recentemente 12 anos), ela está grávida de mais de 20 semanas, o que significa que ultrapassou o prazo previsto na lei portuguesa para poder abortar por ter sido vítima de violação.
Quanto ao padastro, com 43 anos,  a Directoria de Lisboa e Vale do Tejo da Polícia Judiciária que o deteve no fim-de-semana destacou que “os abusos já decorriam desde há dois anos” e que o suspeito tem “antecedentes por crimes de idêntica natureza”.  
A mãe da menor, que está com termo de identidade e residência por alegada conivência com os abusos sexuais perpetrados pelo companheiro, arrisca-se a ser condenada se se provar que sabia da situação.
Citado pela Rádio Renascença, o Ministério Público confirmou que está a acompanhar este caso. Em resposta escrita, a Procuradoria-Geral da República adianta que há duas diligências em curso: um inquérito no Departamento de Investigação e Acção Penal e um processo de promoção de protecção, que corre no Tribunal de Família e Menores.

A força do TINA


30/04/2015 - 05:03

Convém começar por aceitar o que não podemos mudar, para depois mudar aquilo que podemos.


TINA, que é como quem diz, “There Is No Alternative”, é um acrónimo que teve grande popularidade durante os anos de Margaret Thatcher à frente do governo britânico, e foi depois recuperado no decorrer da crise de 2010 para sublinhar algo tão simples quanto isto: não há uma verdadeira alternativa ao caminho de austeridade em países profundamente endividados como o nosso, totalmente dependentes de financiamento exterior para fazer face às obrigações mais elementares. Estando o país nas mãos dos credores, a margem de manobra para lutar contra as políticas que nos são impostas de fora é pouco mais do que nula. Daí o TINA. Ou, na língua de Camões, o NHA – Não Há Alternativa.
No entanto, os críticos das políticas da austeridade esforçaram-se ao longo dos últimos anos para transformar o TINA numa espécie de grau zero do pensamento político – invocar a ausência de alternativas seria equivalente a uma suspensão da democracia, seria um acomodamento derrotista aos ditames da troika, seria uma rendição inaceitável à ideologia neoliberal. Embora tenha sido por causa da troika que o país não faliu, e sendo bastante óbvio que sem o auxílio de um programa de resgaste a inevitável bancarrota teria arrasado toda a economia, muito boa gente parece, ainda assim, não se ter dado conta deste óbvio paradoxo: as almofadas internacionais que hoje impedem a falência de um país e os efeitos dramáticos de uma Grande Depressão são as mesmas que possibilitam aos partidos políticos mais extremados acharem que elas são dispensáveis e opressoras.
Para me queixar de um corte numa mão é preciso que o braço ainda lá esteja, mas quando estamos perante uma mão que sangra, dizer ao seu dono “repara na sorte que tiveste em não ter ficado sem o braço” é um discurso insensível e pouco eficaz. Daí as dificuldades mediáticas e políticas do TINA. Mas, claro está: não é por um discurso ser difícil que o seu conteúdo deixa de ser verdadeiro, e a melhor forma de nos apercebermos disso é quando um partido como o Syriza faz o favor de chegar ao governo e embater com a realidade – aí, o TINA volta a mostrar toda a sua força, e o NHA de “Não Há Alternativa” transforma-se num néon piscante por cima da cabeça de todos os países com as contas públicas em desordem.
NHA, NHA, NHA seria, aliás, um bom resumo das negociações da Grécia com os seus parceiros europeus. Por um lado, porque o senhor Varoufakis parece ter muito mais estilo do que substância, sendo acusado de se limitar a arrastar as negociações e a esgotar a paciência dos seus colegas, um dos quais já o classificou como “gastador de tempo, jogador e amador”. Por outro, porque aquilo que o Syriza tem ouvido dos parceiros é a necessidade de continuar a impor a austeridade, o que implica atirar com as suas promessas eleitorais para o fundo do mar Egeu. Não, não há alternativa – a não ser, claro, sair do euro, algo que a esmagadora maioria dos gregos recusa de forma peremptória.
O mal que isto faz à Grécia está na proporção do bem que faz a Portugal. Não espanta, aliás, que o entusiasmo do PS com o Syriza se tenha evaporado, e o programa económico de Mário Centeno e companhia esteja dois metros à esquerda do PSD e dois quilómetros à direita do Bloco e do PCP. Quem ainda sonha com amanhãs que cantam não deve ter ilusões: atinar com o TINA é tão-só abandonar o estado de negação e dar um passo para sair do buraco. Convém começar por aceitar o que não podemos mudar, para depois mudar aquilo que podemos.«

O valor da Vida



Se a vida humana não tem preço, nós comportamo-nos sempre como se alguma coisa ultrapassasse, em valor, a vida humana, mas o quê?
Antoine de Saint-Exupéry
(1900-1944)
____________________________

O caso que tem enchido páginas de jornais e minutos de telejornal – a menina de 12 anos engravidada pelo padrasto, internada no Hospital de Santa Maria – merece, em primeiro lugar, a nossa oração, mas também, o nosso juízo e a nossa acção.
Nem de propósito, o Público de hoje seleccionou a frase de Saint-Exupéry sobre o valor da vida humana (em cima), colocando a questão nos seus verdadeiros termos – a vida humana tem tal dignidade que não tem preço.
Aparentemente, o Hospital já decidiu. Ontem, uma equipa multidisciplinar de especialistas reuniu-se para decidir sobre uma eventual "interrupção" ou não da gravidez. Os jornais de hoje trazem ninformações desconexas. A informação que o hospital disse que não iria ser pública é hoje publicada no Diário de Notícias e no Correio da Manhã, mas não no Público.
Todas os comentários que se foram ouvindo e lendo, faziam de conta que não havia outra criança.
A decisão pelo aborto, parecendo salvar a vítima, fará duas vítimas, esquecendo que diante do mal, só o bem pode salvar.
Toda a gente acha que ser mãe aos 11 anos é uma insconsciência e uma barbaridade, mas se calhar fazemos bem em ouvir quem, no Apoio à Vida, todos os dias, dá a estas mães o apoio à vida que trazem dentro de si.
Ajude-nos a salvar duas crianças! Junte-se a este Grupo no Facebook.
Nossa Senhora do Ó rogai por nós!
Pedro Aguiar Pinto


“MÃE AOS 11 ANOS? QUE INCONSCIÊNCIA! QUE BARBARIDADE!”

Isabel Feio, Maria Capaz, 2015.02.06
O número de pacientes na sala de espera da Maternidade Alfredo da Costa ultrapassava o aceitável. Após consultar a agenda, dei indicação para chamarem a primeira paciente do dia. Assim que abri a porta do consultório vi uma miúda de olhar cabisbaixo acompanhada de uma senhora que se apresentou como sendo sua mãe. Ambas de etnia africana. O que vos vou contar passou-se há mais de 15 anos.
Ainda antes que eu tivesse oportunidade de cumprimentar a filha, já a mãe se apressava a falar sem dar qualquer espaço a um primeiro contacto entre mim e a Maria – nome que utilizarei por ser facilmente identificável entre tantas outras. Lembro-me vagamente das palavras da mãe – ecoavam em som de fundo em ruído de baixa frequência. Enquanto isso, continuei em busca do olhar da Maria.
O ruído de fundo continuava a impor-se entre nós. Baixei-lhe o volume e pedi-lhe para se manter em stand-by na sala de espera. Mas não. Puxou da antena e continuou a transmitir sem mudar de frequência: “Vou entrar com a minha filha! Tenho de ser eu a falar senão a Doutora não vai perceber o que é preciso fazer! É uma situação muito urgente, Doutora!”.
Engelhei a testa e convidei-a a desligar o som. Pedi-lhe para deixar a coluna em cima da cadeira da sala de espera. Sem tirar a ficha da tomada, continuou: “A minha filha foi violada à noite num jardim e ficou grávida. Já fui ao serviço de Assistência Social da Maternidade para que faça o desmancho. Disseram-me que não era lá que resolvia o problema e que teria de vir aqui a uma consulta para o poder fazer”.
A Maria mantinha-se sentada com o olhar preso ao chão. Como se procurasse nele um buraco onde se pudesse refugiar do medo, refugiar do ruído que tanto incomodava. Encarei de novo a mãe que percebeu no meu olhar o desenho de uma cabine de som onde a sua música não seria audível. Deixei-a em difusão ao fundo do corredor.
Fechei a porta do gabinete e o ruído – que até então ocupava todo o espaço – deu lugar a um silêncio apenas interrompido pelas lágrimas que deslizavam pelo rosto da Maria até serem amparadas pela sua pequena língua. Uma língua que ambas percebíamos sem necessidade de usar palavras. Uma nitidez que a linguagem oral não permitia. A mão e o olhar serviram de intérpretes. Segurei-lhe a mão. Mantivemo-nos assim uns instantes até a Maria conseguir levantar o olhar em direcção ao meu. Entrámos numa esfera só nossa. Sem o ruído habitual que a atormentava.
“Posso ajudar-te, Maria?”, traduzi o que o seu olhar assustado me pedia. “Se quiseres, podes responder com o olhar. Basta que o baixes sempre que a resposta for “sim” e que o levantes se a resposta for “não”. Aceitas?”, baixou o olhar. Estava assim iniciada a travessia.
“Maria, vi na tua ficha de inscrição que tens 11 anos. Confirmas?”, o seu olhar para baixo indicou-me um “sim”. Na verdade, comparando o desenvolvimento do seu corpo com o das miúdas caucasianas da sua idade, dificilmente alguém lhe daria menos de 16, 17 anos. “Será que preferes manter-te em silêncio sobre o que aconteceu?”. O olhar manteve-se em baixo, no “sim”. Era porém crucial perceber se o que a mãe contava era ou não verdade, bastava isso. Os contornos eram secundários. Pelo menos nesta fase.
“Maria, posso assumir que é verdade o que a tua mãe contou?”, lentamente o seu olhar foi levantando em nítido esforço; como se o “não” tivesse o peso de uma rocha presa à alma. Assim que o ergueu, deixou-o cair. Estava encontrada a distância que separava a verdade da Maria da mentira da mãe.
Os minutos passavam entre lágrimas de medo e outras tantas de raiva. Mantive-a segura pela minha mão de modo a evitar a queda no abismo para onde a empurraram sem qualquer hipótese de fugir.
Senti que estava chegado o momento de parar a consulta para que não se sentisse invadida, por mais alguém, no seu tempo e privacidade. “Maria, que achas de nos voltarmos a encontrar daqui a uns dias? Posso marcar nova consulta?”. “Sim”, respondeu. Foi a primeira vez que ouvi a sua voz. Uma voz tão doce quanto o olhar e simultaneamente tão frágil quanto este.
“Combinado, Maria. Vou escrever o dia e hora neste cartão e cá estarei à tua espera. Farei o possível para que te sintas apoiada em tudo o que precisares. Sem pressas nem pressões.” Despedimo-nos e só depois abri a porta para o corredor onde a esperava o ruído estrondoso que a iria acompanhar até à próxima consulta.
Na vez seguinte já trazia um olhar diferente: o olhar de quem muito me tinha a dizer desde que não tivesse que me dizer muito. A mãe, pelo contrário, insistia em querer dizer muito sem nada me dizer. Apenas a pressa de me querer fazer acreditar numa história mal contada. Tocava viola a solo. Em Dó. Um dó desafinado. Desatinado. Aos poucos meteu a viola no saco e seguiu. Deixou de tocar em Si mas mantinha a Maria presa na tecla de Ré. Sem Sol.
“Parece-me que ambas têm verdades e vontades diferentes, Maria. Mas acredito em ti. Serás tu a dizer o que gostarás que aconteça, o que queres e não queres para ti.”
Nisto o silêncio é interrompido por uma voz trémula: “Nem os gatinhos se afogam…”. Desatou a chorar ao mesmo tempo que olhava para mim como que a pedir um abraço de compreensão, suficientemente contentor do seu desassossego. “O companheiro da minha mãe…”, soluçou. Percebeu no meu olhar e no apertar da minha mão contra a sua, que entendi a mensagem.
Qual guarda-costas, peguei em todas as minhas armas e fui à luta pela vontade da Maria. À luta por uma vida. Na realidade, duas. Assim estivesse ela preparada para o que queria.
Para trás ficava a violação pelo padrasto. Pela frente o tempo que restava de gravidez.
As palavras, o tempo e as consultas foram passando entre nós. A força, essa, ia crescendo a par. A barriga também. Éramos três partes a uma só voz. Uma voz distinta de (quase) todas as outras. Corríamos contra o tempo. Já a capacidade maternal da Maria corria a favor dela e do bebé. Dos dois.
As vozes avolumavam-se a favor do “não” à maternidade da Maria: “Que inconsciência! Que barbaridade! Uma criança de 11 anos não tem capacidade para ser boa mãe! Tem de se interromper a gravidez ou dar o filho para adopção! Há muitos casais à espera de adoptar um bebé e dar-lhe tudo o que ele precisa!”, afirmavam em uníssono a mãe e vozes acólitas.
A elas juntaram-se mais uns quantos “pareceres credíveis”, diziam-me. Nada disso me demoveu de seguir em frente com a vontade da Maria após avaliar a sua capacidade maternal. Já os autores dos ditos “pareceres credíveis” nem nunca a tinham visto. Muito menos ouvido. As únicas ondas de rádio que captaram vinham da voz da mãe.
Apesar do número crescente de vozes contrárias, chegou-me uma que se impôs perante todas as outras: a voz de Coimbra de Matos – Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e meu grande Mestre. O seu parecer confirmou e reforçou o meu. Tive-o e foi decisivo.
Os meses passaram e as restantes vozes foram perdendo fulgor. Já a nossa mantinha-se determinada e focada num único sentido: a vida conjunta entre a (boa) mãe e o filho desejado. Um filho feliz por não ser afastado da mãe. Mãe é mãe. E quando há possibilidade de a termos connosco, amando-nos, desejando-nos, abraçando a nossa vida, nada nem ninguém a substituirá. Não há melhor colo nem melhor olhar do que o de uma mãe que deseje verdadeiramente um filho…
Passados nove meses, o bebé nasceu e, com ele, o sorriso da Maria. Duas vidas que trocavam vida entre si. Apenas uma coisa os separou: o bebé nasceu com citomegalovirus – o que fez com que permanecessem afastados, por alguns dias, em enfermarias contíguas. Numa delas os bebés que apresentavam uma patologia que os obrigava ao afastamento da mãe. Na enfermaria ao lado, as mães mantinham a esperança que tudo corresse bem.
Numa das minhas visitas diárias ao bebé e à Maria, a enfermeira-chefe chamou-me e disse: “Doutora Isabel, há tantos anos que trabalho na Maternidade e nunca vi uma mãe que tão bem distinga o choro do seu filho de todos os outros!… As outras mães levantam-se sempre que ouvem o choro de um bebé receando que seja o seu. A Maria só se levanta quando é o filho. Reconhece-o sem hesitar”. Também eu sorri. Sorri com a sensação de dever cumprido.
Assim que o bebé recuperou, e tal como já estava combinado com a Maria, foi ao seu colo para uma instituição de apoio a mães menores e sem ter de deixar de estudar. Seguiu feliz. Feliz por estar perto do filho e longe do ruído. Longe também de olhares preconceituosos e saberes duvidosos. Para trás ficou o terror com que se confrontava diariamente num silêncio desesperado e sem qualquer defesa.
Pela frente uma vida a dois. Uma vida feliz com o filho que tem hoje mais idade do que a Maria quando a conheci. Um sorriso franco que os liga entre si e ao melhor que a vida tem para lhes dar.
Cada caso é um caso. Não há dois iguais. Há que estar sempre receptivo a avaliar cada um deles por si. Sem pré-conceitos. Sem pré-julgamentos a atrapalhar a lucidez. Apenas vontade de dar voz à verdade, não cedendo a interesses alheios nem a atitudes que, essas sim, são da maior inconsciência e barbaridade. A Maria foi mãe. É mãe. Uma Mãe Capaz.

Diante do Mal, Só o Bem Pode Salvar.

José Maria Duque
Nós os poucos, 2015.04.29

A notícia de uma rapariga de 12 anos que, após anos de abusos e violações pelo seu padrasto, se encontrava grávida de cinco meses, encheu o país de dor e revolta. Todo o drama nos parece incompreensível e inaceitável. 
Como é possível um adulto fazer tal barbaridade a uma criança? Mais ainda um adulto que tinha responsabilidades sobre a criança. Como é possível que a mãe não tenho feito nada? Como pode não ter reparado que a sua filha estava grávida? Como é possível que na escola só tenham reparado quando a gravidez já ia nos cinco meses? E os serviços sociais, que já tinham tirado a criança à família uma vez, como é que não fizeram nada antes? Os mesmo serviços sociais que são tão velozes a tirar crianças as mães só porque estas são pobres, como não repararam numa criança que já tinha estado ao seu cuidado e que foi violada durantes anos? E por fim, como é possível que um horror destes aconteça numa sociedade civilizada? Como é que a nossa sociedade é incapaz de defender as suas crianças?
E para estas perguntas não há nenhuma resposta que nos satisfaça. Nada pode justificar a destruição da infância de uma criança sem que ninguém tenha feito nada para a defender. Eu não sou capaz sequer de começar a imaginar o sofrimento desta criança de doze anos, que viu a sua vida desfeita pela violência e pela negligência dos adultos. Como poderá ela voltar a confiar em alguém, se todos aqueles que a deviam defender a atacaram e ignoraram?
Porém, o mal não se cura com o mal. O mal só pode ser curado pelo bem. Aquilo que a violência e a negligência destruíram não poderá ser reconstruído através de mais violência.
Tenho visto muitos comentários que defendem que a criança deve abortar, que é o melhor para ela. Eu contudo não percebo como é que a destruição de outra vida inocente pode ser uma ajuda para esta criança.
Sobretudo quando se sabe que fazer um aborto nesta altura é tão ou mais perigoso que o parto. Aos cinco meses já existe uma alta probabilidade de a criança sobreviver fora da barriga da mãe. A diferença entre uma criança de 5 meses, uma de 9 e um recém-nascido é peso e tamanho.
Por isso se o parto eventualmente pode representar um perigo, a verdade é que o aborto ainda mais, uma vez que inclui matar a criança e depois tirá-la de dentro da mãe.
Mas o que mais custa compreender é como é que é possível defender, com tanta naturalidade, a morte de uma criança inocente. Neste caso só há dois inocentes, a pobre criança que foi violada e a criança que se encontra dentro dela.
Como é que num país onde a Constituição afirma que a vida é inviolável é possível defender a morte de um inocente de cinco meses. Se no princípio da gestação ainda pode existir alguma confusão, dado que o bebé ainda não tem tudo que necessita para viver autonomamente, aos cinco meses ninguém tem dúvida de que se trata de uma vida humana.
De facto, existem crianças que nasceram aos cinco meses de gravidez. E que cresceram normalmente. A criança que está por nascer neste caso já tem cabeça, olhos, pés, mãos, pulmões, coração. Já ouve, já sente calor, frio, incomodo. Já sente dor!
Como é que a morte dessa criança pode trazer um bem para esta história tenebrosa? Como pode servir para curar a sua mãe-criança? Como é que morte de um inocente pode trazer justiça? Como é que num país onde não há pena de morte, o único que pode ser condenado a esse fim é o inocente?
Compreendo a dor e a revolta que este caso provoca. Mas continuo a afirmar que a única coisa capaz de curar o mal é o bem. Tentar curar a injustiça e a dor de que foi alvo esta criança de doze anos, com uma nova injustiça, com um novo mal, nunca poderá melhorar a situação. Se de facto a criança acabar por abortar, a sua dor e o seu trauma não irão encontrar consolo algum. O único resultado será que este horrendo drama irá produzir mais uma vítima.
P.S.: A imagem corresponde a um bebé às 22 semanas de gestação, o que equivale ao quinto mês.. A imagem foi retirado do site net-bebes.com.

A outra criança

Nesta história da criança de 12 anos grávida de 5 meses do padastro, há várias observações óbvias. Primeiro a de que o padastro deve ser punido exemplarmente por violar durante dois anos uma criança ao seu cuidado. Em segundo lugar, que a criança deve ter acesso ao melhor apoio psiquiátrico possível de forma a minorar o impacto desta situação no seu bem-estar futuro. Isto é evidente para todos.
O que choca nesta história é o aparente consenso no destino a dar à outra criança envolvida (a mais pequena, no útero). Uma criança que está a 2/3 meses de sobreviver fora do útero, e que não teve culpa nenhuma na forma como foi concebida, merece ser abortada porquê? Que raio de opinião pública aceita isto sem pestanejar?

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Hospital decidiu se criança grávida aborta ou não, mas não divulga decisão

ALEXANDRA CAMPOS Público 29/04/2015 - 17:06

Especialistas do Hospital de Santa Maria avaliaram caso de menina de 12 anos grávida do padastro. Mãe foi constituída arguida por não ter denunciado abusos sexuais.
Menina de 12 anos violada por padrasto pode ou não abortar?
O futuro da menina de 12 anos que está grávida de cinco meses depois de alegadamente ter sido violada pelo padrasto foi esta quarta-feira decidido por uma equipa multidisciplinar de especialistas do Hospital de Santa Maria (Lisboa) onde está internada, mas a decisão sobre uma eventual interrupção ou continuação da gravidez não vai ser divulgada.
A decisão foi tomada pela “direcção clínica da instituição e por pediatras, pedopsiquiatras, obstetras, psicóloga e assistentes sociais” que analisaram em conjunto “o contexto inerente à criança”, explicou, em nota de imprensa, a directora clínica do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (em que o Santa Maria está integrado), Margarida Lucas.
Esta equipa levou em conta “os aspectos clínicos, éticos, jurídicos e sociais que decorrem da situação em causa” e tomou uma decisão “considerando o superior interesse da criança”, assegurou. O CHLN escusa-se a prestar esclarecimentos adicionais, alegando o “respeito pela confidencialidade médica" e a protecção da privacidade da criança”. A menina foi levada para o hospital por funcionários da escola que frequenta quando estes perceberam que estaria grávida.
Este é  um caso fora do comum porque, além da idade da menina (completou recentemente 12 anos), ela está grávida de mais de 20 semanas, o que significa que ultrapassou o prazo previsto na lei portuguesa para poder abortar por ter sido vítima de violação.
De acordo com o Código Penal, uma gravidez resultante de violação pode ser interrompida até às 16 semanas, mas admite-se o aborto até às 24 semanas se existirem razões para crer que o nascituro sofrerá de grave e incurável doença e não se estabelece qualquer prazo se estiver em causa a grave e irreversível lesão física ou psíquica da mulher. A legislação não estabelece qualquer distinção entre menores e adultas.
Se há especialistas que consideram que não é possível interromper a gravidez no caso desta criança, por estar ultrapassado o limite das 16 semanas, há outros que defendem que se poderá invocar a primeira alínea do artigo 142 do Código Penal (despenalização da interrupção voluntária de gravidez). Esta não especifica qualquer prazo quando está em causa um risco grave e irreversível para a saúde física ou psíquica da mulher.
A menina tem uma história de vida atribulada, tendo sido retirada à família quando tinha cerca três anos e passado um ano e meio numa instituição. Acabou por regressar a casa, onde, com cerca de seis anos terá sido já abusada sexualmente pela primeira vez pelo padrasto. Na altura, a polícia chegou a investigar a situação, mas o caso foi arquivado porque ela negou. As primeiras relações sexuais com penetração terão começado aos dez anos e continuaram sem que ela dissesse nada a ninguém.
Em comunicado, a PJ adiantou na segunda-feira que foi a Directoria de Lisboa e Vale do Tejo que deteve o padrasto da menina, de 43 anos, e sublinhou que ele está “fortemente indiciado” pela prática de crimes de abuso sexual de crianças. “A investigação apurou que os abusos já decorriam desde há dois anos, sendo que dos mesmos resultou a actual gravidez da vítima”, revelou ainda a PJ. O suspeito tem “antecedentes por crimes de idêntica natureza e cometeu os factos na residência que partilhava com a vítima e a mãe desta”, acrescentou. 
Entretanto, a mãe da menor foi constituída arguida com termo de identidade e residência por alegada conivência com os abusos sexuais perpetrados pelo companheiro ao longo de dois anos, adiantou esta quarta-feira o "Diário de Notícias". Caso se prove que sabia dos abusos sexuais e que permaneceu calada, arrisca-se a ser condenada. Ainda assim, ignora-se se o poder de representação parental lhe foi retirado, em parte ou não totalidade. Caso continue a ser a representante legal da menina, terá a última palavra face ao parecer dos especialistas do Hospital de Santa Maria. De acordo com o Código Penal, no caso da interrupção voluntária de gravidez não punível em menores de 16 anos, o consentimento deve ser dado por um representante legal.

Ir. Lúcia «instrumento nas mãos de Deus»

Ricardo Perna | Família Cristã Sexta-Feira, 13 Fevereiro 2015

Dez anos sobre a morte da Vidente de Fátima

Passam dez anos sobre a morte da Vidente de Fátima, a última dos três pastorinhos. Razão para a conversa com a Ir. Ângela Coelho, vice-postuladora da causa da canonização da Ir. Lúcia de Jesus. Uma conversa longa, mas entusiasmante, com uma das maiores conhecedoras da figura da Ir. Lúcia e da sua importância na história de Fátima e do mundo.
Dez anos depois, qual é o legado que a Ir. Lúcia deixa?
Deixa vários. Aquele que mais me surpreende, agora que contacto mais com ela na intimidade dos seus escritos, é uma mulher profundamente fiel a Deus tantos anos, e à missão que Deus lhe deixou, que foi difundir os pedidos de Nossa Senhora em Fátima, nunca baixar os braços até que ela achasse que os pedidos de Nossa Senhora foram cumpridos, de acordo com a vontade do Céu. Esta fidelidade numa vida cheia de peripécias e dificuldades, muita coisa que foi acontecendo, por vezes sem ela querer. Esta fidelidade, para nós, consagrados, que vivemos este Ano da Vida Consagrada, é isso mesmo: um modelo de fidelidade à vocação. Outro legado é a sua santidade muito particular. Não há dúvida que a Ir. Lúcia é uma Carmelita, e é no Carmelo que vai desenvolvendo os últimos traços da sua espiritualidade. Mas também toda a gente sabe que a espiritualidade que ela vive no Carmelo foi a que foi deixada pela Mensagem de Fátima. À medida que vamos lendo os seus escritos, mesmo os últimos que publicou, vamos vendo uma mulher profundamente trinitária. Uma visão correta da Mensagem de Fátima, que, por Maria, somos conduzidos ao centro do mistério cristão, que é a Santíssima Trindade, e do nosso deus que se faz presente em Jesus Cristo.
É uma vida que não é fácil. Se os pastorinhos Francisco e Jacinta têm uma vida curta, que fica como testemunho, a vida da Ir. Lúcia é mais longa, mais cheia de peripécias e dificuldades...
Sim, e isso suscita-nos uma série de reflexões interessantes. O Francisco e a Jacinta, com vidas tão curtas, conseguem condensar toda a espiritualidade da Mensagem de Fátima, que está lá. Eles, em muito pouco tempo, viveram as linhas de força da Mensagem de Fátima. A Lúcia tem uma outra história, uma outra missão e um outro tempo.
Ela é muito atenta ao que se vai passando na Igreja, como todas as carmelitas e religiosas de clausura, mais do que possamos pensar. É uma mulher muito inserida na vida eclesial, com uma vida cheia de peripécias, que vêm das visitas que recebe, que não são as visitas normais de uma carmelita. Ela é visitada pela família, mas depois por cardeais, bispos, chefes de estado, embaixadores, um conjunto de gente que a visita, sobretudo após a II Guerra Mundial e a Guerra Fria, vindos dos países de Leste, sobretudo os que podem começar a viajar, e que trazem ao seu coração de carmelita o sofrimento humano. Aquela mulher transportou no seu coração todo o sofrimento de todas as pessoas que a visitaram. Eu pude contar, assim por alto, 50 cardeais, prefeitos de Congregações como a Doutrina da Fé, do Clero, da Causa dos Santos, muitos bispos, sobretudo os que vêm a Fátima presidir às peregrinações internacionais.
Visitas que são pedidas por Lúcia?
Não, ela nunca convida ninguém para a visitar, é tudo por iniciativa de quem a deseja visitar. E ela regista tudo isto. A partir dos anos 40 ela passa a ter outro ministério, que é o ministério epistolar. Ela recebe milhares e milhares de cartas. Mais de 60 mil de certeza absoluta. Ela começa a guardar, por iniciativa dos superiores da Ordem, mas algumas ela queima, por respeito à privacidade dos autores.
E o que é que essas cartas continham?
Estas cartas trazem o sofrimento pessoal das pessoas. Chegam a ir peregrinações inteiras da Irlanda, Espanha, Itália e França que, além de Fátima, passam em Coimbra. Nós não nos apercebemos, mas Coimbra começa a ser lugar de peregrinação de quem vem a Fátima, e deixam-lhes saco cheios de pedidos. Ela lê-os todos, com ajuda de alguém que auxilia nas traduções, e que reza por aquilo tudo. Nós não fazemos a mínima ideia do que é uma senhora com mais de 70 anos a receber 60 mil cartas, não temos noção. Ela leva este ministério de oração muito a sério, mas sabe, e isto é muito bonito, que as pessoas a procuram não por causa dela, mas por causa de Nossa Senhora. Ela nunca esqueceu que é um instrumento nas mãos de Deus, um instrumento para que a misericórdia de Deus vá passando neste mundo tão magoado e tão frio. Isto para mim é um dos traços da grandeza da Ir. Lúcia.
A vida longa da Ir. Lúcia acaba por ser uma pedra basilar no espalhar da Mensagem de Fátima pelo mundo inteiro. As cartas, os encontros, fortalecem e espalham a mensagem...
Bom, eu aí tenho de responder Sim e não (risos). A dada altura, a Santa Sé pede à Lúcia que não fale muito da Mensagem de Fátima, e ela obedece. Por isso, acho que muitas destas conversas não foram bem sobre a Mensagem de Fátima. Ela não regista o que fala, só com quem se encontra e que reza pelas suas intenções. Essas indicações serviram até para a proteger, porque ela foi constantemente invadida por jornalistas, por curiosos, gente com boa intenção e com má intenção.
Por outro lado, acho que ela difundiu a mensagem de Fátima pela sua fidelidade escondida, pela sua oração, pelo seu sacrifício, e isto sim, é espalhar Fátima, por aqueles modos que parecem pequenos, ineficazes, mas nós já sabemos que o nosso Deus é assim: transforma algo pequeno, que aos olhos do mundo não é nada, em algo eficaz.
A revelação dos segredos de Fátima tornou-se, para muitos, a essência de Fátima. Para outros, eram meros "atestados de credibilidade" para aquilo que foi logo dito na altura, que era o mais importante. Lúcia foi sempre clara nesta distinção?
Muito clara. Aliás, há uma altura em que, pelo testemunho das Irmãs com quem converso e do Pe. Kondor, fica entristecida. Dizia «estão à procura do que não sabem, e o que não sabem é tão pouco, e não dão atenção ao que já se sabe, e o que já se sabe é que é o importante». A Lúcia mostrava-se mesmo triste por esta característica dos seres humanos, que é a busca do sensacionalismo. Como era o segredo que não se sabia, era o que se pretendia saber. Para muitos seria uma curiosidade sadia, mas para a maior parte era só uma curiosidade porque não sabiam. Ela dizia «olhem para o que já está publicado, está lá tudo», e de facto está lá tudo. Já estava o sofrimento da Igreja, o do Papa. O Anjo também era conhecido, assim como longo sofrimento da Igreja e o apelo à tríplice penitência do povo também já lá estava implícito, pelo que não havia nada de drástico no segredo que faltava revelar. Aliás, foi por isso que muitos ficaram «ah, foi só isto?», quando o souberam. «Se as pessoas procurassem viver o que já sabem, não teriam tempo para andar a descobrir o que não sabiam», dizia.
Quando era criança, a Lúcia é enviada para as Doroteias em Vilar. Foi por desejo próprio, ou por necessidade de ser protegida de tudo o que tinha sucedido?
Vai para Vilar para receber educação, mas também porque D. José a queria proteger. Aquele fluxo de gente que iniciou em 1917 nunca mais parou, nunca mais, até ao dia de hoje. Há 100 anos, no início, não há uma única operação de marketing para espalhar a Mensagem. Portanto, é um movimento que se inicia, e se, em outubro de 1917, já tínhamos 70 mil pessoas na Cova d'Iria, que vieram a Fátima e interrogaram os videntes até à exaustão, em 1921 a saúde física e psicológica da Lúcia está em risco, simplesmente porque a vida dela não é normal. Havia os crentes, os que a chamam de santa porque viu Nossa Senhora, os que a chamam de mentirosa, porque anda a enganar o povo, e isto é muito para uma criança de 14 anos. É muito engraçado que, desde 1921, Fátima fica sem os seus três principais protagonistas. Francisco morre em 19, Jacinta em 20 e Lúcia sai em 21, e a Mensagem continua. Portanto, não há nada que eles pudessem ter feito para alimentar o aumento do número de peregrinos, já que dois morrem e uma sai e é isolada do mundo. Isto é bonito. É Deus a tentar mostrar os verdadeiros protagonistas desta história, que sou eu, o Ricardo e todos os que vêm a Fátima. Eles foram os primeiros, que nos deixaram um testemunho e que foram instrumentos de transmissão, mas depois partem, porque aqui o que se passa é o encontro de Deus com cada um de nós que se aproxima com esta presença maternal de Nossa Senhora, e que está aqui para nos acolher, a esta humanidade deprimida, assustada, sem sentido, com muitos medos. Isto é tão real que a Lúcia rapidamente sai de cena, porque Fátima é entre Deus e nós.
Prova disso é que Lúcia faleceu há 10 anos e isso não significou diminuição de visitantes ou intenções, pelo contrário...
Eu creio que continua a aumentar, e até 2017 isso irá manter-se, e não é pela Lúcia. Ela rapidamente passou para um papel "secundário", ou seja, com um protagonismo ao estilo de Deus, escondido. Ela torna-se pequenina, silenciosa, escondida, e é assim que Deus faz as maravilhas. Deus escolhe o que é fraco aos olhos do mundo para confundir os fortes, e às vezes os pequenos para falar aos grandes. A Lúcia fica escondida no Carmelo e de lá, naquele silêncio, grita mais alto do que eu quando vou de microfone na mão a fazer conferências (risos).
Um protagonismo que a pode levar à canonização
Este protagonismo escondido não evita que a Igreja, depois da sua morte, queira colocá-la na galeria dos santos...
Não é só a Igreja, é o santo povo de Deus. Não sei se se recorda do funeral da Lúcia, mas foi impressionante. O país parou, as televisões mostraram o funeral, e depois a trasladação. O funeral de uma carmelita que viveu escondida toda a vida foi um acontecimento nacional. Foi luto nacional no dia 15 de fevereiro de 2005. E se for ler o decreto do Diário da República do luto nacional, assinado por Jorge Sampaio, vê que diz que foi a responsável pela deslocação a Portugal de inúmeros peregrinos de todo o mundo. E no funeral é o povo que se exprime pela sua fé, e é por isso que pode ser santa.
Mais santa mesmo pela fé que pela história, já que andou "desaparecida" da história...
Fisicamente sim, não tem nenhuma intervenção, mas escondida sim. A insistência dela junto dos Papas para que consagrassem o mundo ao Imaculado Coração de Maria teve impacto na história. Teve é de uma forma escondida. Vamos precisar de mais alguns anos de distanciamento para entendermos na totalidade toda esta intervenção. Vão fazer falta estudos e investigação, principalmente quando houver acesso às fontes, mas repare, já há muitos historiadores que não hesitam em colocar, com uma visão objetiva, o ano de 1984, em que há essa consagração, como o princípio de uma série de fenómenos que aconteceram sobretudo na Europa de Leste, que culminam com a queda do Muro de Berlim e esta liberdade que a seguir surge. E esta consagração foi insistentemente pedida por esta humilde carmelita a todos os Papas. Sim, porque ela corresponde-se com todos os Papas. Aliás, escreve-se com Papas, santos, e com pessoas mais humildes, desconhecidas...
Neste momento, ainda estamos na fase diocesana do processo...
Sim, estamos. Há dois grandes momentos: a recolha de todos os seus escritos e o escutar das testemunhas. Os escritos falam-nos da Lúcia diretamente, a partir do que ela escreve, e os testemunhos falam-nos indiretamente, a partir do que os outros observam. E estas duas características são fundamentais.
Que tipo de testemunhas estamos a falar?
Irmãs que conviveram com ela, sacerdotes que conviveram com ela, os médicos e pessoas de família. São testemunhas de 1º grau, que viram a Lúcia e que a viram agir durante muitos anos. A médica acompanhou-a muitos anos, viu como ela viveu a doença, são tudo testemunhas oculares. O mais difícil são mesmo os escritos dela. Primeiro houve a recolha, em que pedimos às pessoas que tivessem recebido cartas dela que nos enviassem cópias das mesmas, fomos investigar os arquivos onde haveria registos dela: no Porto, Coimbra, nos Arquivos do Vaticano, nos lares por onde passou. Esta fase foi morosa, porque falamos de cerca de 11 mil cartas enviadas por ela. As que ela recebeu são mais de 60 mil recolhidas nos últimos 35 anos apenas, a partir de 1970. Imagine quantas vidas esta carmelita não tocou em toda a sua vida...
Ela guardava-as na cela?
Os superiores davam-lhe uma mala e ela ia colocando lá dentro. Todas essas malas foram guardadas pelos superiores. Mesmo assim, sempre que o conteúdo era mais sensível e podia pôr em causa o bom nome da pessoa que escrevia, ela destruía-as. Das que ela coligiu fomos recolhendo de toda a sua vida. Essas 11 mil dizem respeito a toda a sua vida. Ela guardava cópia de todas as comunicações, inclusive das cartas com o Papa.
Então, estamos a terminar a fase diocesana no processo. O que podemos esperar, se é que podemos, para 2017, ano do centenário?
Eu não gosto de dizer nada, porque há tantos fatores envolvidos diferentes que não podemos controlar, é difícil dizer alguma coisa.
Mas é possível que, em teoria, o decreto das virtudes heroicas esteja pronto em 2017?
Sim, isso é possível.
Mas uma possível beatificação não?
Isso é mais difícil. O relato de milagres atribuídos à Lúcia tem de ser posterior à publicação do decreto das virtudes heroicas. Repare, o Santo Padre pode beatificar e mais nada. Eu, pessoalmente, não conto com isso, com uma canonização por dispensa de milagre, embora seja possível.
Bom, mas esquecendo essas, só poderemos esperar o decreto?
Que possa estar pronto o decreto das virtudes heroicas é bastante possível. Nós trabalhámos bem e muito, e estamos a preparar tudo para que siga durante este ano de 2015 a informação para o Vaticano.
Por outro lado, e se o meu desejo de canonização é imenso e profundo, pois acredito na santidade dela, e do Francisco e da Jacinta, e no bem que farão à Igreja, falando da Lúcia, é também por esse bem que acho que o processo deve ser bem feito, ainda que demore mais tempo que aquele que desejaríamos. Por um lado, a seriedade com que se estudam estas coisas é muito importante. Prestamos um serviço à Igreja, porque a candidata foi bem estudada, à Lúcia, porque estudámos e sabemos, sem dúvidas, que ela é santa, e à Mensagem, porque a sua atividade está relacionada. E isto precisa de tempo, e só o tempo ajuda muitas vezes.
Não sendo ainda possível registá-los como provas para beatificação ou canonização, têm recebido relatos de graças e milagres?
Sim, e isso vem ajudar-nos muito, principalmente no que diz respeito à fama de santidade. Ainda que, neste momento, não possamos introduzir nenhum, agradecemos que nos enviem esses relatos precisamente porque eles manifestam uma coisa importante: o povo de Deus acredita que a Lúcia é santa, é a chamada fama de santidade.
Portanto, adivinha-se, pela devoção que as pessoas têm à Lúcia, que a parte mais difícil será mesmo esta diocesana, porque depois milagres acontecerão...
Eu espero que sim, mas isso só Deus poderá saber. Primeiro foi esta parte diocesana, agora vem a parte romana, com a elaboração da Positio, embora aí os fatores a controlar sejam menos. Depois o milagre é Deus quem o faz, a partir do pedido de alguém que se sentiu tocado pela serva de Deus, Lúcia de Jesus, ou dos beatos Francisco e Jacinta. Não sou eu, postuladora, quem faz milagres. É Deus que, num contexto de fé de uma pessoa que pede uma graça por intercessão de Lúcia de Jesus, atua.
E dessas graças que já receberam, alguma se poderia qualificar como milagre, caso pudesse ser colocada a análise?
Já recebemos pelo menos duas graças que poderiam entrar nessa categoria de milagre. A Lúcia é uma pessoa que está muito viva na cabeça das pessoas. Neste momento não estamos preocupados com eles, por causa do que já falámos há pouco, mas são bastante consistentes. Um é no Portugal e outro no estrangeiro.
Porque é que as pessoas se devem ligar à figura da Ir. Lúcia, nesta altura em que passam 10 anos da sua morte?
Porque Lúcia, enquanto esteve na terra, teve uma grande capacidade de escuta presencial e lida, e não desvalorizou nenhum pedido. Desde o casal que não pode ter filhos, à senhora que perdeu o emprego, à igreja que foi destruída, a Lúcia acolheu tanto o sofrimento, do mais humilde jardineiro do Carmelo ao Santo Padre. É impressionante, as pessoas ficariam comovidas se soubessem quantas pessoas diferentes se cruzaram com a Ir. Lúcia de Jesus. Como escutou na terra, acredito que também hoje no Céu ela continua a escutar, porque nada do que era humano lhe passava ao lado. Porque o mundo é o caminho para Deus. Depois, porque ela está muito "pertinho" de Deus, se é que é possível dizermos isso. E porque eu tenho a sensação que, como a Lúcia nunca Lhe disse que não na terra, Deus também não lhe vai dizer que não a nenhum pedido que ela Lhe faça.