terça-feira, 31 de março de 2015

De Jesus a Judas, de Maria aos ladrões. As figuras da Páscoa

RR online 31-03-2015 11:39 por Filipe d'Avillez

Jesus é a figura principal da Páscoa, mas há muitos outros que desempenham papéis importantes.

Jesus 
Jesus Cristo é mais do que uma mera figura da história da Páscoa, mais até do que a sua figura principal: Jesus é a Páscoa. 
Tal como os judeus celebravam naquela data a abertura do Mar Vermelho que lhes permitiu escapar por entre as águas ao exército do faraó, Jesus, pela sua morte e ressurreição, permite à humanidade escapar ao domínio da morte, restaurando definitivamente a relação com Deus.
"Cristo carrega a cruz". Quadro de Eustache Le Sueur


Também a ressurreição não é apenas mais um detalhe da vida de Cristo. Sem ela, como diz São Paulo, toda a fé é vã e a vida de Jesus resume-se a mais uma história de um autoproclamado messias falhado, como tantos outros de tantas épocas da história. 
Não existem provas históricas do evento, como não existem de que não tenha acontecido. Aos cristãos basta a fé nos Evangelhos e na tradição recebida dos Apóstolos. Mas uma coisa parece certa: alguma coisa aconteceu, historicamente falando, que mudou aqueles homens que tinham aderido a Jesus. Alguma coisa os impeliu a darem-se totalmente por Ele, pregando a sua ressurreição e a sua vida até ao ponto do sacrifício das suas próprias vidas por Ele. 
Foi a Páscoa que aconteceu na vida daquelas pessoas e que continua a acontecer na vida de cristãos hoje. 


Maria, mãe de Jesus


Maria vai surgindo ao longo dos Evangelhos, sempre com uma presença discreta, desde o momento em que dá o seu "sim" ao anjo da Anunciação. 
Embora não seja referida muitas vezes, pelas indicações que existem, calcula-se que Maria acompanha Cristo, vivendo com Ele e com os seus discípulos e, ao contrário de tantos destes, é das poucas pessoas que não O abandona mesmo na hora da morte. 
Segundo os evangelistas, Maria estava aos pés da cruz quando Jesus foi crucificado, recordando talvez a profecia de Simão, aquando da apresentação do menino Jesus no Templo, 33 anos antes: "Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações." 
Dirigindo-se a Maria, Simão completou: "E uma espada transpassará a tua alma". 
Tal como outros mistérios e eventos da vida de Cristo, Maria guarda tudo isto no seu coração, sem entender verdadeiramente, até que no domingo seguinte a ressurreição torna-se a chave que permite compreender tudo o resto. 
A tradição cristã coloca ainda Maria com os apóstolos quando Jesus faz descer sobre eles o Espírito Santo, enchendo-os de coragem e fé para anunciar a Boa Nova a todos os povos. 

Maria Madalena


Maria Madalena era claramente uma pessoa muito próxima de Jesus e essa proximidade manteve-se até ao final. Quando praticamente todos tinham abandonado Cristo, só ela, o apóstolo João, Nossa Senhora e a sua irmã, é que permanecem aos pés da cruz. 
Maria Madalena volta a destacar-se no relato bíblico no Domingo de Páscoa por ser a primeira pessoa a chegar ao túmulo. Em três dos Evangelhos são várias as mulheres que vão ao sepulcro para tratar do corpo de Jesus. Fazem-no só no domingo de manhã porque na sexta-feira não teriam tempo antes do pôr-do-sol, altura em que começavam a observar as disciplinas do sábado, que as impediam de exercer esse tipo de trabalho. 
Mas no Evangelho de São João só se refere Maria Madalena e nessa narrativa consta que ela encontrou o sepulcro aberto e vazio. A discípula começou a chorar, porque pensava que alguém tinha roubado o corpo de Jesus. É a chorar que encontra um homem que pensa ser o jardineiro, a quem pergunta onde colocaram o seu mestre. 
Basta que Cristo pronuncie o seu nome e imediatamente Maria o reconhece por quem é. Atirando-se aos seus pés, recebe de Jesus uma ordem: "Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que eu vou subir para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus". 

Pedro



Homem de entusiasmos, São Pedro aparece frequentemente nos Evangelhos a dizer ou a fazer a coisa errada, embora com a melhor das intenções. As narrativas da Paixão e da Páscoa não são excepção. 
Esta faceta revela-se logo na Quinta-feira Santa, quando Jesus começa a lavar os pés aos seus discípulos. Pedro, sem compreender, recusa o gesto de forma imperativa. Jamais! Mas quando Jesus lhe explica que se não lhe lavar os pés Pedro não poderá acompanhá-lo no Reino de Deus, o apóstolo muda de discurso e diz que, nesse caso, que lhe lave não só os pés mas também as mãos e a cabeça. 
Mais tarde, no Jardim das Oliveiras, Pedro é o único que reage com violência quando Judas chega com o seu séquito para mandar prender Jesus. Puxando da espada, corta uma orelha a um dos guardas. É aqui que Jesus o repreende, deixando para a posteridade uma das expressões mais usadas na Bíblia: "Quem vive pela espada, morre pela espada". 
Pedro segue então com João para tentar ver para onde levaram Jesus e aí, apesar de horas antes ter garantido que preferia morrer do que trair o seu mestre, nega-o três vezes, tal como tinha sido previsto. 
Então, Pedro desaparece de cena e só reaparece no Domingo de Páscoa, a correr para o túmulo de Jesus, depois de as mulheres terem dito que o corpo de Cristo não está no sepulcro. 
Diz uma tradição antiga que São Pedro ficou com canais cravados na cara, de onde escorreram as lágrimas de arrependimento que chorou por ter negado Jesus, mas certo é que essa infidelidade foi a última, e mesmo quando foi crucificado, o apóstolo pediu para o pendurarem de pernas para o ar, por não ser digno de ter uma morte igual à de Cristo. 

João


De todos os discípulos de Jesus, São João era o mais novo e, por isso mesmo, aquele de quem se esperava menos responsabilidade. Mas acaba por ser o único que permanece perto de Jesus mesmo até ao fim. 
Quando Cristo é preso, a maioria dos discípulos foge, mas João e Pedro ficam perto dele, acompanhando-o até ao palácio onde estava a ser interrogado pelos sacerdotes. 
Mas quando Jesus é elevado na cruz, Pedro já desapareceu de cena e dos discípulos só João permanece para acompanhar as mulheres mais próximas de Cristo. 
Do alto da cruz, Jesus pede ao discípulo para cuidar da sua mãe e a ela para encarar João como seu filho. 
João volta a aparecer em cena na manhã de Páscoa. Quando as mulheres dizem que o corpo de Jesus desapareceu do sepulcro, João e Pedro correm para lá para ver com os seus olhos. 
João, sendo mais novo, chega primeiro mas, numa clara referência à primazia de Pedro entre o grupo, não obstante o facto de ter negado Jesus dias antes, o discípulo mais novo espera e deixa-o entrar primeiro. 
É nessa altura que encontram as ligaduras removidas e o túmulo vazio, começando verdadeiramente a acreditar que Cristo ressuscitou. 

Judas



Na história da Páscoa, Judas é sem dúvida o vilão. 
A atitude dos fariseus e dos sacerdotes é justificada pela sua preocupação em evitar uma rebelião, a de Pilatos pelo medo de represálias por parte dos seus superiores. Mas Judas é simplesmente um traidor. 
O discípulo de Cristo não se limita a entregar o amigo, lucra com isso. Trinta moedas de prata é o preço indicado no Antigo Testamento para compra e venda de escravos, o que tem um simbolismo importante. 
Depois de ter saído da Última Ceia para ir ter com os sacerdotes, Judas lidera um grupo de homens armados que encontra Jesus no Monte das Oliveiras e o prende. O sinal usado por Judas para mostrar quem é Jesus é um beijo, precisamente um gesto de amizade e intimidade. 
A história de Judas contrasta com a de outras figuras da Bíblia, como o Bom Ladrão e São Pedro, que se arrependem dos seus pecados e acabam reconciliados com Jesus. 
Judas não é capaz de pedir esse perdão e acaba por ceder ao desespero, matando-se. 

Simão de Cirene



A Bíblia fala pouco de Simão de Cirene, dizendo apenas que ele foi obrigado pelos guardas a ajudar Jesus a carregar a cruz. 
O facto de ter sido obrigado e não se ter oferecido parece retirar valor ao acto e, se fosse só por essa ajuda involuntária, dificilmente se perceberia porque é que ele ganhou tanta importância na tradição cristã. 
Mas há um detalhe aparentemente menor mas que poderá ter toda a importância. Na tradição do Médio Oriente, as pessoas tendiam a ser identificadas em referência ao seu pai. Mas, no Evangelho de São Marcos, Simão de Cirene é apresentado como "pai de Alexandre e de Rufino". 
O facto de serem mencionados os filhos é entendido como indicação de que eles eram conhecidos dos primeiros cristãos e isso, por sua vez, é visto como prova de que Simão de Cirene se teria convertido, pelo que os seus filhos eram também cristãos. 
Ora, a confirmar-se esta teoria, Simão de Cirene passa a ser visto sob outra luz: como alguém que, apesar de ter entrado para a história de Jesus involuntariamente, acabou por ser de tal forma transformado por Ele que mudou radicalmente de vida. 

Verónica 



Na história da Paixão, Verónica é a mulher que limpa a face a Jesus quando ele está a caminho do Calvário para ser crucificado. 
A história, contudo, não é referida na Bíblia, pertencendo unicamente a tradições posteriores. Estas tradições são até elaboradas, havendo uma que identifica Verónica com a mulher doente, que se curou quando tocou na orla do manto de Jesus. 
A história de Verónica está ligada também a uma relíquia. Consta que no pano que foi usado para limpar a cara de Cristo ficou marcada, milagrosamente, a sua imagem. 
Verónica tem também um valor simbólico importante, representando as mulheres de Jerusalém que se comoveram e choraram por Jesus, mostrando assim que a condenação popular não foi universal e que ainda havia quem se compadecia de Cristo. 

Nicodemos



A Bíblia apresenta muitas vezes Jesus em oposição aos fariseus e aos sacerdotes, mas sabemos também que Cristo, em termos de crenças, era da facção dos fariseus e Nicodemos comprova também que alguns destes acreditavam nele. 
Nicodemos só aparece no Evangelho de São João e a sua história é claramente de conversão. 
No terceiro capítulo, o fariseu vai ter com Jesus para discutir os seus ensinamentos. Quando se apresenta nota-se claramente que vem com boa vontade e disposto a acreditar em Cristo. Mas é importante o detalhe que diz que ele faz a visita de noite, provavelmente com medo de ser visto pelos outros fariseus. 
Já quando Jesus é julgado diante do Sinédrio, Nicodemos é dos únicos que tem coragem de levantar a voz em sua defesa. De nada serve, mas pelo menos não fica calado. 
Mais tarde, depois de Cristo ter sido crucificado, precisamente na altura em que era mais conveniente disfarçar a sua fé, Nicodemos assume-a e é ele quem leva os óleos e os perfumes para tratar o cadáver de Jesus. 
Um detalhe interessante é a quantidade de perfumes e óleos levados, que pesavam mais de cem libras. Segundo São João, isto só seria expectável para uma funeral real, sendo interpretado por isso como um símbolo da crença na realiza divina de Jesus. 

Os dois ladrões



O Novo Testamento não nos diz, mas, segundo a tradição, os nomes de dos dois ladrões crucificados com Jesus eram Dimas e Gestas. 
A passagem relativa a estes dois homens é uma das mais marcantes de toda a Paixão. Jesus é crucificado juntamente com ladrões, comprovando que está mesmo a ser tratado como um criminoso. 
De certa forma os dois ladrões representam a humanidade. Todos pecadores, os homens olham para Cristo no auge do seu sacrifício e reagem de duas maneiras diferentes. 
Uns gozam e criticam, como fez Gestas: "Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e a nós". Mas outros comovem-se e convertem-se, como fez Dimas: "Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez. E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino." 
Dimas tem ainda a particularidade de ser a única pessoa a quem Jesus garante a salvação, quando responde: "Ainda hoje estarás comigo no reino do meu Pai", uma promessa que revela como até os maiores pecadores se podem salvar, caso se arrependam e se convertam antes da morte. 
A Igreja de tradição siríaca, no Médio Oriente, pegou nesta história e criou um poema chamado "O ladrão e o querubim", que consiste de um diálogo entre Dimas e o anjo que guardava a porta do paraíso. O homem comparece, conforme Cristo lhe prometera, no próprio dia, mas, uma vez que Jesus ainda não ressuscitou (e a humanidade ainda não foi redimida), o querubim continua a ter ordens para não deixar entrar ninguém. 
Os dois discutem longamente e a cena termina quando Dimas retira uma cruz e mostra que é com essa autoridade que ele exige entrada. Perante a força do símbolo da Cruz, o querubim cai prostrado no chão e Dimas entra para o paraíso. 
Noutra história apócrifa, conta-se que a Sagrada Família foi abordada por ladrões quando se dirigia ao Egipto para fugir aos soldados de Herodes. O bando seria liderado por Dimas e Gestas e, apesar de Gestas não mostrar piedade pela situação da família, Dimas acaba por intervir e impedir o assalto. 

Pilatos




Pôncio Pilatos é uma figura central da história da Páscoa. 
Enquanto representante do Imperador em Jerusalém, só ele tem o poder de condenar Jesus à morte, conforme pedem os sacerdotes. 
Jesus é por isso apresentado ao governador e os dois mantêm um dos mais interessantes diálogos de todo o Novo Testamento. 
Quando Jesus afirma que quem é da verdade escuta as suas palavras, Pilatos concentra em apenas uma frase toda a mentalidade relativista que, para a Igreja, marca a sociedade moderna: "O que é a verdade?" 
Noutra altura Pilatos puxa dos seus galões e informa Cristo que ele tem o poder de o libertar ou mandar matar, mas a resposta de Jesus esvazia-lhe completamente o ego: "Nenhum poder terias sobre mim se não te tivesse sido dado de cima". 
E é precisamente isso que Pilatos comprova com o seu comportamento. Apesar de acreditar na inocência de Jesus, essa convicção não se sobrepõe ao medo que sente tanto da multidão como dos seus superiores. Tem poder, mas não sabe usá-lo a favor do bem – um problema bem actual. 
As referências a Pilatos atingem o seu clímax quando, vendo frustrada a sua última esperança de conseguir a libertação de Jesus pelo facto de a multidão ter preferido soltar o salteador Barrabás, o governador manda vir um recipiente com água e lava, literalmente, as suas mãos do crime que está prestes a acontecer. Nesse momento se vê de que serve, realmente, o poder de que tanto se gabara poucos minutos antes. 
Pilatos fica, por isso, bastante mal visto nos relatos evangélicos. Mas existe a possibilidade de ter havido alguma redenção. Algumas igrejas orientais, nomeadamente a Etíope e a Arménia, consideram que Pilatos acabou por se arrepender, converter e morrer mártir por Cristo, uma tradição que não existe, contudo, na Igreja Católica. 

Sumo-sacerdotes



A Bíblia refere dois sumo-sacerdotes que conspiraram para mandar matar Jesus: Anás e Caifás. Nestes dois líderes do judaísmo de então concentra-se toda a elite religiosa de Jerusalém no tempo de Jesus. 
A situação dos sumo-sacerdotes não era nada invejável. Sabendo que os romanos temiam uma insurreição, que esmagariam sem piedade, os sumo-sacerdotes vêem a chegada triunfal de Jesus com a maior preocupação. Para eles trata-se de apenas mais uma figura messiânica. 
Não obstante, o Evangelho deixa claro que os sacerdotes tomaram conscientemente a decisão de mandar matar um homem inocente para daí retirar um "bem maior": poupar o povo a um massacre e São João atribui a Caifás a expressão: "É conveniente que um só homem morra pelo povo". 
Neste plano dos sumo-sacerdotes, Judas é uma personagem-chave. É ele quem, estando por dentro do grupo mais próximo de Jesus, está em posição de o trair no seu momento de maior vulnerabilidade. 
Jesus é preso na madrugada de Sexta-feira Santa e conduzido ao Sinédrio, onde se reuniam os líderes religiosos dos judeus. Sabendo que ele era inocente, os sacerdotes arranjam falsos testemunhos, mas acaba por ser com base nas palavras de Jesus, que diz ser Filho de Deus, que o condenam por blasfémia. 
Mas em Israel, naquela era, o monopólio da pena capital pertencia aos romanos e é por isso que os sacerdotes entregam Jesus a Pôncio Pilatos e arranjam forma de garantir a presença de uma multidão que recuse a sua libertação, levando à sua crucificação pública. 
Os Evangelhos apresentam ainda a hipocrisia dos líderes religiosos que obrigam Pilatos a sair do seu palácio, no qual não podem entrar para não se tornarem impuros e, por isso, não poderem celebrar a Páscoa. 
A grande preocupação de Caifás, Anás e o seu séquito – seguir a letra da lei mesmo enquanto condenam à morte um inocente – é assim sublinhada. 

Multidão



Os Evangelhos contam que quando Jesus entrou em Jerusalém foi recebido de forma triunfal pela multidão, que o aclamou como rei. 
Bastam alguns dias para que outra multidão se reúna para pedir a crucificação de Jesus. É esta multidão que, confrontada com a possibilidade de libertar Cristo ou Barrabás, opta pelo salteador e exige que Jesus seja morto. 
Mas seria a mesma multidão? Este é um assunto que motiva grande discussão entre os estudiosos da Bíblia. Por um lado, a história revela a facilidade com que as pessoas são manipuladas quando se encontram em grupo (e, nesse sentido, é uma lição intemporal). Mas outra teoria é de que se trata de grupos completamente diferentes. 
À chegada a Jerusalém Jesus teria sido saudado e aclamado essencialmente por pessoas que, como ele, vinham da Galileia e que poderão mesmo ter viajado juntos para a grande festa na capital. Eram pessoas que já conheciam Jesus e o seu ministério de três anos. Esta tese é suportada pelo Evangelho de São Mateus, que diz o seguinte: 
"E toda aquela multidão, que o precedia e que o seguia, clamava: Hossana ao filho de David! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hossana no mais alto dos céus! Quando ele entrou em Jerusalém, alvoroçou-se toda a cidade, perguntando: Quem é este? A multidão respondia: É Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia." (Mt. 21, 9-11) 
Ora, se Jesus era desconhecido em Jerusalém ao ponto de a maioria do povo ter de perguntar quem ele era, então é natural que a multidão que o aclamou fosse constituída de facto por galileus que o conheciam já. 
Já o povo que se concentrou para apelar à sua morte, segundo esta teoria, seria composta por gente local, sobretudo pessoas arregimentadas pelos sumo-sacerdotes que procuravam a morte de Jesus. 
Seja como for, os gritos da multidão naquela Sexta-feira Santa é a representação máxima da rejeição da luz e da verdade por parte dos israelitas, tal como São João refere no início do seu Evangelho: "Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam." (João 1,10-11) 

Fontes das imagens: 
Maria e Pilatos: iluminuras etíopes; Dois ladrões: iluminura do Evangelho de Rábula; Nicodemos: pintura de Henry Ossawa Tanner; Sumo-sacerdotes: "Jesus diante do Sinédrio", de Alessandro Mantovani; Pedro: pintura de Guercino; Simão de Cirene: imagem exposta na Galeria Nacional do Zimbabué; Verónica: estátuta no Vaticano de Francesco Mochi; Multidão: ícone moderno copta

Padre que reabilita toxicodependentes diz que "homem é mais do que uma ficha médica"

RRonline 31-03-2015 20:59 por Aura Miguel 

"Homem é mais do que uma ficha médica"

A Associação Vale de Acór dedica-se há 21 anos a recuperar toxicodependentes. Em todos eles, pobres ou ricos, há uma coisa em comum: "querem fugir à dor e ao sofrimento", diz o fundador da associação, Pedro Quintela.
É um padre com uma vasta experiência de acompanhamento de casos difíceis, de gente esmagada pelo consumo de drogas e outras atribulações da vida. Pedro Quintela fundou há 21 anos a Associação Vale de Ácor, em Almada. Diz que o ambiente de uma comunidade é regenerativo: "O homem ultrapassa muito o que diz o boletim clínico do próprio homem." 
A Associação Vale de Acór é uma instituição particular de solidariedade social, sem fins lucrativos, que trabalha desde 1994 no âmbito da recuperação de dependentes. 
"Todos temos dentro de nós uma capacidade regeneradora", diz o padre da diocese de Setúbal em entrevista ao programa "Terça à Noite", da Renascença. 
O método da Associação Vale de Acór aposta na logoterapia. Quintela explica porquê: "O que nos cura não é mexer muito no passado, como as correntes freudianas; não é a pretensão sobre o presente, como dizem outras correntes. Aquilo que me pode libertar do que está a acontecer de negativo e destrutivo, é encontrar para a vida um significado, um sentido". 
O padre sublinha a urgente necessidade de olhar para a pessoa no seu todo, sem a reduzir aos seus problemas ou erros. Recorda o caso do Joaquim, que "veio de um hospital público para morrer, com uma patologia irreversível e que hoje ainda lá está". 
"Mais importante do que a tragédia pessoal é a absoluta consciência destas pessoas de que precisam de salvação", afirma.
Ouvir a entrevista integral aqui

Forever youg

Afonso Reis Cabral | Observador 31/3/2015

Não há dia sem que o discurso dos eternos jovens nos perturbe. Os 30 são os novos 20, os 40 os novos 30, os 50 os novos 40. Só a minha avó não tem o privilégio de os 100 serem os novos 90.
Embora façam parte do ofício, desconfio dos adjectivos. Demasiadas vezes fogem à essência das coisas. São excesso em relação ao que é puro. Em especial quando os desbaratamos, cravados nas palavras ao acaso. Têm o efeito de parecerem belos, pouco mais. Crescem na maneira comum de falar, de expor as coisas, e a certa altura deixamos de nos entender.
Os que mais me incomodam são aqueles que vêm às costas da idade. Jovem. Tomemos como exemplo 25 anos. Os 25 anos que hoje faço. Caminho para fora de jovem, e é normal e bom que isso aconteça. Aliás, é inevitável. Mas em 25 anos nasce e morre um burro; fazem-se filhos e livros, mais livros do que filhos; ao ritmo de passeio daríamos pelo menos uma volta ao mundo, isto se não parássemos num sítio bonito; e a oliveira de Santa Iria da Azóia, indiferente ao caminho dos anos, deixa cair um ramo. A lista continua, e poderia não acabar. Mas em 25 anos, desgraçadamente, não conseguimos sair da Terra do Nunca.
Sim, pouca vida, talvez não chegue para a saber de cor, mas já é demasiada para caber num único adjectivo. (Nem imagino o que sentirão os que chegaram ao outro lado da idade, quando lhes atiram «idoso» para cima.)
Mais do que jovens, agora somos adolescentes até muito tarde. Explico-me mal. Agora somos vistos como adolescentes até muito tarde. Tarde de mais. Será mau uso do adjectivo ou mau uso da realidade? Não estou certo de que o problema esteja na linguagem, apesar de esta abranger tudo. Talvez seja reflexo de uma sociedade envelhecida e infantilizada. Os dois não jogam bem. Ou até de uma sociedade esquecida.
Vemos a juventude como bálsamo, oásis. Paraíso perdido. Esquecemo-nos de que a vida tem durezas em qualquer idade e que a sabedoria nem sempre vem com os anos. Ao mesmo tempo, desconfiamos da juventude. Achamo-la saída da Casa dos Segredos. Confundimos jovens com imbecis. Com incapazes. A imaturidade torna-se excesso de zelo. É este o mal de falhar os adjectivos, de forçá-los a um estereótipo.
E depois dá nisto: Peter Pans de 35, 40, 45. A dada altura deixa de fazer sentido usar adjectivos. Nós próprios, do lado de cá, caímos no ridículo de nos acharmos de facto adolescentes, embora tenhamos 20, 25, 30 anos. Retardamos a maioridade, pensamo-nos pequenos, delegamos, entregamos esse bem na mão dos outros. Deixamo-nos levar. Acreditamos mesmo que continuamos teenagers. Não há dia sem que o discurso dos eternos jovens nos perturbe. Os 30 são os novos 20, os 40 os novos 30, os 50 os novos 40. Só a minha avó não tem o privilégio de os 100 serem os novos 90.
A vida é tão diversa que não permite reduções. Com certeza teremos menos experiência, mas o ser humano, na sua estrutura, a determinado momento (quando ao certo não sei, certamente mais cedo do que se supõe) ultrapassa as limitações, e também os privilégios, do adjectivo jovem. Acontece que esse limiar é mais e mais uma bola, e nós crianças atrás dela. Chegamos perto, damos-lhe um pontapé e a ela foge-nos. Menorizamo-nos quando nos deixamos fechar num adjectivo. Prefiro a liberdade.
Depois há ser-se jovem de outra forma. Essa esconde-se do adjectivo. É a única que vale a pena. Claro que quero ser jovem para sempre. Felizmente isso não depende da idade.

Maternidade

Ana Kotowicz
ionline 31 Mar 2015

A história de Rachel Reeves passou despercebida em Portugal. Se nas eleições de 7 de Maio os Trabalhistas formarem governo, é muito provável que Rachel, 36 anos, se torne ministra. Poucos dias depois irá de licença de maternidade. O nascimento está previsto para Junho  e Rachel admitiu que se lhe for oferecido um cargo no governo aceitará. Com o mesmo à-vontade, garantiu que irá gozar a licença.
Os Conservadores entraram em polvorosa – Cameron distanciou-se  e diz não ver problema algum em ter uma grávida no governo – e Rachel foi apelidada de tudo. “Mulher estúpida” foi um dos mimos, quando foi posta em causa a sua capacidade de ser ministra e mãe ao mesmo tempo. As mulheres não são todas iguais, mas as decisões que tomam sobre carreira e maternidade servem sempre para serem julgadas.
As que juntam o maior número de dias possível para tratar dos filhos são mães-galinhas. As que voltam logo  ao trabalho são egoístas. Estamos em 2015. O que as mulheres ganharam, depois de anos de luta foi o direito à escolha. Susana Díaz vai governar a Andaluzia e fez campanha grávida do primeiro filho. Angelina Jolie retirou os ovários para evitar que os filhos percam a mãe para o cancro. Sisa Abu Daooh vestiu-se de homem durante 40 anos para poder trabalhar e alimentar a filha. As mulheres não  são todas iguais e as suas decisões espelham essa diferença. O que deveríamos discutir é por que razão ser pai e ministro ao mesmo tempo nunca é um tema controverso. 

Terça-feira Santa

«Darás a vida por Mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo, sem que Me tenhas negado três vezes».  
Jo 13, 30


«Em verdade te digo: não cantará o galo, antes de Me teres negado três vezes!»

Comentário de Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja 
Tratado sobre São Lucas 10, 49-52, 87-89

Irmãos convertamo-nos: tomemos cuidado para que não ocorram entre nós disputas de precedência para nossa perdição. É verdade que os apóstolos discutiam entre si (cf Lc 22,24), mas isso não é desculpa para nós: é um convite a tomarmos cuidado. É certo que Pedro se converteu no dia em que respondeu ao chamamento do Mestre, mas quem pode afirmar que a sua própria conversão foi repentina? 
O Senhor dá-nos exemplo. Nós tínhamos necessidade de tudo; Ele não precisa de ninguém e, no entanto, apresenta-Se como mestre de humildade, servindo os seus discípulos. 
Pedro, rápido de espírito, mas ainda frágil nas disposições do corpo (cf Mt 26,41), foi prevenido de que iria negar o Senhor. A Paixão do Senhor encontra imitadores, mas não iguais. Assim, não censuro Pedro por ter negado o Senhor; felicito-o por ter chorado. Uma coisa vem da nossa condição humana, a outra é um sinal de virtude, de força interior. 
Mas, se nós o desculpamos, ele não se desculpou. 
Preferiu acusar-se do seu pecado e justificar-se com uma confissão, em vez de agravar o seu caso com negações. E chorou. 
Pedro chorou, mas não se desculpou. Quem não se pode defender pode lavar-se: as lágrimas lavam as faltas que nos fazem corar quando as confessamos de viva voz. 
As lágrimas confessam a falta sem tremer ; as lágrimas não pedem perdão e, no entanto, obtêm-no. 
Boas lágrimas, as que lavam a falta! E aqueles para quem Jesus olha sabem chorar. Pedro negou uma primeira vez e não chorou, porque o Senhor não estava a olhar. Negou uma segunda vez, ainda sem chorar, pois o Senhor ainda não estava a olhar. Negou uma terceira vez; Jesus olhou para ele e ele chorou amargamente. Olha para nós, Senhor Jesus, para que saibamos chorar os nossos pecados.

Novo alento

Anteontem, na sessão de encerramento do Meeting Lisboa conheci o Miguel Araújo, fundador dos Azeitonas. Despertou-me a atenção o facto de procurar nas suas letras cantar a normalidade, o português médio, o José Faria dos Santos. Porém, o que o intrigava era como é que no meio desta banalidade geral todos encontravam como que por feitiço, sempre um novo alento
Ontem, ao ler o artigo do José Manuel Fernandes no Observador dei-me conta que, na sessão de sábado da manhã em que tinha participado, lhe tinham perguntado "se sabia explicar o contraste entre o país… onde muita gente andava a tentar dar a volta à vida e muitas empresas estavam a reinventar-se para voltarem a crescer, e o país … todos os dias retratado na generalidade da comunicação social, um país sempre a anunciar a catástrofe iminente ou a lamentar mais uma desgraça". O debate que daqui resultou, diz José Manuel Fernandes, "alterou o estado de espírito algo sombrio com que entrara naquela enorme tenda junto do CCB onde decorria esse evento, o Meeting de Lisboa". Entendi isto como sendo o José Manuel Fernandes a dizer que tinha saído do Meeting "com um novo alento".
Hoje ao entrar na Tapada da Ajuda, onde trabalho, a chegada visível da Primavera deu-me "um novo alento".
Hoje foi o funeral de um agrónomo com notoriedade pública, o Engº Armando Sevinate Pinto, e que foi também, um homem livre, corajoso e que nunca sacrificou a sua liberdade de expressão às conveniências. 
À saída, um colega confidenciou-me que, apesar de serem politicamente adversários, tinha um enorme respeito pela liberdade de pensamento e de acção do Armando Sevinate Pinto. Saí dali "com um novo alento".
Qual é então o feitiço?
A beleza da natureza que desperta do sono do Inverno, o entusiasmo dos jovens que procuram dar a volta à vida mesmo em circunstâncias difíceis e a percepção de que a humanidade verdadeira não passa sem ser reconhecida são sinal de uma realidade positiva que tem a sua raiz no presente mas é também promessa de futuro. 
É esta promessa de futuro que identifico como o novo alento do homem normal cantado pelo Miguel Araújo.
Neste início de Semana Santa o drama da paixão e morte de Jesus seria um desalento se Jesus não tivesse ressuscitado?, pergunta Paulo Rangel

E se Jesus não houvesse ressuscitado?

PAULO RANGEL Público 31/03/2015

De toda a iconografia cristã, a Pietà é a representação simbólica que mais me diz, que mais me marca. Por muito que isso pareça herético ou blasfemo, interroga-me e interpela-me mais profunda e intimamente do que a cruz. Talvez porque a cruz se vulgarizou e banalizou e a sua omnipresença, em todos os formatos possíveis, não é de molde a suscitar – pelo menos, nos exemplares mais convencionais e repetidos – surpresa, espanto ou admiração.
Quando digo Pietà, digo toda e qualquer Pietà, por princípio. Na cabeça de muitos, estará seguramente – e como poderia não estar…? –, a escultura vaticana de Miguel Ângelo.
E, no entanto, afloram-me ao espírito e ao coração duas outras incarnações da Pietà. Uma, assaz conhecida, que há muitos anos encontrei no Museu Van Gogh de Amesterdão. E que, desde então, nunca mais deixou de me obcecar: a Pietà segundo Delacroix, de Vincent Van Gogh. A espaços, decerto em momentos mais introspectivos ou mais intimistas, defronto-me e deparo-me com ela; quero sempre regressar à sua presença, voltar à sua contemplação. Mesmo que em gravura ou em imagem furtiva e furtada de computador, quero ainda e sempre – e mais uma vez – inebriar-me com o seu mistério.


Outra, muito mais discreta, sem intenção sagrada, desprovida quiçá da perfeição artística: a escultura de homenagem ao soldado desconhecido que habita o Neue Wache na Unter den Linden em Berlim. Uma mãe e um soldado, nada mais. O Neue Wache, ainda sem a mãe e o seu filho morto, serviu todos os regimes e homenageou, primeiro, as vítimas das guerras napoleónicas; depois, as vítimas de toda e qualquer a guerra; a seguir, as vítimas do fascismo e do militarismo; finalmente, as vítimas da guerra e da simples tirania. Não há viagem que tenha feito a Berlim, pelo menos até hoje, em que não tenha lá parado uns instantes, uns minutos, uns instantes minutos. E apenas para me confrontar com aquela mãe e o seu filho morto, esculpidos por Käthe Kollwitz, expostos ao óculo de luz natural e à força desgastante dos elementos – evocando decerto o óculo do Panteão de Roma, em que habitam todos os deuses e não cabe humano nenhum.
Ali, em Berlim, na “Nova Guarda”, não há Deus, nem deuses, mas sobeja humanidade, sobeja Pietà. Há mãe, há filho, há braços, há pernas, há vestes, há colo, há morte.
Nesta dicotomia, que é falsa e que pode ser perigosa, “cruz versus pietà”, invoca-se também um retorno às origens, a uma certa pureza dos sentidos, dos sensos e dos sisos iniciais. É bem verdade que a cruz – a crucificação como pena – começou por ser humilhação, degradação, vexação. É bem verdade que há algo de profundamente subversivo na adoração de um Deus condenado, humilhado, exposto à maior das fragilidades, morto do modo mais atroz, sucumbido perante o poder religioso, político e militar. E neste sentido a cruz – que era escândalo para os judeus e loucura para os gentios (1 Coríntios, 1, 23) – é um símbolo perfeito do cristianismo e da sua mensagem: os últimos são os primeiros, os humilhados serão exaltados. A execução do Nazareno é, por conseguinte, a realização supina do seu ensinamento, da sua pedagogia, do seu anúncio: o primeiro foi o último e, tendo sido o último, pôde e pode ser primeiro.
A passagem desse húmus inicial para uma cristandade de regime e para uma apologética do cristianismo transformou a percepção da cruz. A cruz, onde outrora residia o sofrimento, a paixão, o padecimento, passou a ser vista como a glorificação, a vitória, o triunfo. E com a sua disseminação – mesmo física e material – foi-se também vulgarizando e banalizando até na sua dimensão simbólica. De uma hipóstase perfeita da mensagem de Jesus e do seu ensinamento transmutou-se num instrumento de uma estética triunfalista e exaltante ou num artefacto de tal maneira presente que corre o risco de ser reduzido à invisibilidade e à indiferença.
Já a Pietà, conservando Cristo morto, no regaço da mãe, é o momento de total desamparo e da mais absoluta humanidade de Jesus. É o momento mais humanamente humano de Jesus, com Jesus despido, exangue e inerte, à nossa inteira mercê. Nela está a intimidade do abandono, o ventre da desolação, o útero da compaixão, o colo dos seres últimos, de todos os seres últimos.
A Pietà figura o Jesus morto, sem que nada se saiba ou quando nada se sabe sobre a sua ressurreição. É o momento em que, no despojamento e na desolação, se descobre que, ainda que não houvesse ressurreição, a vida e o ensinamento de Jesus tinham valido a pena. Acredito na ressurreição de Jesus e sei que isso é de novo loucura, bizarria e extravagância para o mundo. Mas amo também o momento em que da ressurreição, aqui ou a caminho de Emaús, nada sabíamos.
Se a cruz inaugura a teologia, a Pietà funda a humanologia. Em Jesus morto, jacente nos braços da mãe, há sentido. No Jesus morto, habita o sentido

segunda-feira, 30 de março de 2015

Voz da Polónia recorda em Lisboa valores euro-atlânticos

JOÃO CARLOS ESPADA Público | 30/03/2015

Sikorsky reafirmou as suas convicções europeístas e atlantistas.

Passou injustamente despercebida entre nós a visita do Presidente do Parlamento polaco a Portugal, na semana passada. Na Europa central e de Leste, bem como no Reino Unido ou na Alemanha, Radek Sikorsky é uma figura reconhecida pelo grande público, frequentemente ouvido pelos jornais de referência. Entre nós, acaba de receber um doutoramento Honoris Causa pela Universidade Nova de Lisboa. Foi uma oportuna ocasião para reafirmar os valores europeístas e atlantistas que há muito distinguem Sikorsky e a sua Polónia natal.
Isso mesmo foi sublinhado por Nuno Severiano Teixeira, Vice-reitor da Nova, na sua apresentação do laureado. Sikorsky destacou-se como líder estudantil nos anos de 1980-81, quando o movimento Solidarnosc abalou a ditadura comunista na Polónia. A declaração da Lei Marcial por Jaruzelsky, em 1981, levou-o ao exílio no Reino Unido, onde se licenciou na Universidade de Oxford. São conhecidas várias peripécias divertidas da passagem de Sikorsky pelo Canning Club e pelo Bullingdon Club daquela Universidade, onde conheceu David Cameron, actual primeiro-ministro britânico. Em 1987, Sikorsky adquire a cidadania britânica. Será jornalista da Spectator e do Observer, destacando-se em várias reportagens de guerra, designadamente no Afeganistão.
Com o início da transição polaca à democracia, em 1989, Sikorsky regressa à Polónia e vai assumir várias responsabilidades governativas: secretário de Estado da Defesa (1992), secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros (1998-2001), Ministro da Defesa (2006, quando tem de renunciar à cidadania britânica para poder assumir o cargo), Ministro dos Negócios Estrangeiros (2007-2014) e Presidente do Parlamento (desde 2014).
Num breve intervalo, entre 2001 e 2006, vive nos EUA, onde lidera a New Atlantic Initiative, com sede no American Enterprise Institute, uma instituição que visa promover a aliança atlântica entre a Europa e a América. Foi nessa qualidade que participou duas vezes no Estoril Political Forum, uma das quais acompanhado por sua mulher, Anne Applebaum, que lançou no Estoril o seu livro Gulag — um impressionante estudo sobre os campos de concentração soviéticos.
Ao discursar em Lisboa, na passada quarta-feira, Sikorsky reafirmou as suas convicções europeístas e atlantistas, prestando homenagem ao comprometimento de Portugal com os mesmos valores. Citando Edmund Burke e Karl Popper, Sikorsky sugeriu dois pilares desses valores que raramente são citados em conjunto: auto-controlo e liberdade.
Na sua célebre crítica à Revolução Francesa, o liberal Edmund Burke argumentou que não pode haver liberdade duradoura se os povos não souberem assumir voluntariamente limites sobre os seus próprios caprichos e apetites. Por outras palavras, a liberdade entendida como licença acabará por minar a própria liberdade.
Edmund Burke imortalizou esta ideia crucial na célebre passagem, citada por Sikorsky: “Nenhuma sociedade pode existir sem que um poder de controlo sobre a vontade e o apetite exista nalgum lugar; e quanto menos esse poder vier de dentro, tanto mais ele terá de vir de fora.”
Sikorsky recordou então que as nossas sociedades livres distinguem-se das despóticas porque submetem todas as vontades particulares a regras gerais — regras da lei, por oposição ao capricho da vontade dos poderosos, e regras gerais de boa conduta, por oposição ao capricho do apetite de cada um.
Foi esta proposta de convivência civilizada fundada em regras gerais que a União Europeia estendeu às suas vizinhanças a Leste e a Sul. Mas, quando polacos e portugueses olham para Leste e para Sul — quando em conjunto olhamos para Leste e para Sul, sublinhou Sikorsky — o que encontramos é o paradoxo da tolerância enunciado por Karl Popper:
“A tolerância ilimitada conduzirá ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada até aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra os ataques dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância será destruída com eles.”
Este paradoxo da tolerância enunciado por Popper só pode ser resolvido — argumentou Sikorsky — se as nossas sociedades livres reafirmarem os seus valores e mostrarem que estão decididas a defendê-los. O argumento foi oportunamente retomado por António Rendas, Reitor da Universidade Nova, ao encerrar a sessão:
“Nos nossos dias, a Europa está tão preocupada em adquirir e preservar direitos que está em risco de esquecer como manter valores. As universidades foram, em parte, uma criação da civilização europeia para defender e manter valores.”

Não há horas novas

MIGUEL ESTEVES CARDOSO Público | 30/03/2015

Ir atrás do tempo é uma das poucas liberdades que nos restam.

A sério: esta hora que nos tiraram contribuiu para a alegria de alguém? Existe ainda algum agricultor que se esteja disposto a afirmar publicamente que ganhou com a troca meramente superficial das horas?
Haverá uma única planta no mundo que olha para o relógio para crescer ou deixar-se ficar? Haverá um único agricultor que trabalhe e funcione segundo a hora oficial? Não acredito.
Quem dá e tira vai para o inferno. O nosso planeta está preso numa viagem permanente e previsível que nos dá as estações dos anos, os meses, as semanas e as horas.
O artifício estúpido de "dar" ou "tirar" uma hora é a manobra mais escusada e estúpida desde que o tempo começou. Envolve-se numa contabilidade imaginária, mas não menos parôla ou palerma por causa disso, segundo a qual, uma semana depois de ter chegado a Primavera, podemos acordar mais cedo.
Na verdade física e climatérica das coisas,  quanto melhor é o tempo menos precisamos de dormir. A mudança de hora é estúpida porque parte do princípio que não somos capazes de acompanhar as horas regularmente diferentes do nascer e do pôr do sol. Isto é, opôe-se à mais fácil e natural das aceitações: que o tempo é como é - e nós não podemos fazer mais nada senão navegar dentro dele.
A hora nova - o British Summer Time, hi hi - é uma presunção politicamente correcta com cada vez menos defensores. É preciso rejeitá-la: é o próprio universo que o exige.
Ir atrás do tempo é uma das poucas liberdades que nos restam.

A conspiração do Governo para aumentar a pobreza

Alexandre Homem Cristo
OBSERVADOR 30/3/2015
Deixámos de distinguir o argumento sério da teoria da conspiração. Está assim o debate público. A economia cresce e o desemprego baixa, mas só uma coisa anima as hostes: Passos quer aumentar a pobreza
Lê-se e ouve-se que Passos Coelho tem como desígnio ideológico aumentar a pobreza e abalar os alicerces do Estado Social. Que, no Governo, se conspira para elevar ao máximo o estrago social de cada medida política sobre os portugueses. Que aquilo que tantos ingénuos qualificam de erro ou incompetência é, na realidade, a mais maligna das mestrias: o objectivo não é andar para a frente, mas voltar para trás. Por isso, o arranque do ano escolar não correu mal – foi sabotado por Nuno Crato para fragilizar a escola pública e elitizar o ensino. Por isso, o caos na plataforma Citius não foi um acidente – foi planeado por Teixeira da Cruz para enfraquecer o sistema judicial. E, por isso, o caos nas urgências durante o pico da gripe não se deveu a condições anormais para a época – foi promovido por Paulo Macedo para fragilizar o serviço nacional de saúde e incentivar o recurso a privados.
Tudo isto é ridículo e soa à alienação característica das ideias conspirativas? Sim, é e soa. Mas, por mais que custe aceitar a nossa sorte, esta tese que converte erros de governação em actos deliberados de demolição do Estado não está limitada às mal frequentadas caixas de comentário no facebook. Está no debate parlamentar, está nos jornais, está nas televisões, é repetida sucessivamente por políticos e comentadores. No último debate do Estado da Nação, Jerónimo de Sousa assegurou: “há quem considere que este Governo é incompetente. Nós consideramos que não, não é uma questão de incompetência: é uma questão de opção. Foi sempre, desde a primeira hora, um objectivo central deste Governo aumentar a exploração e o empobrecimento dos portugueses”. Há tempos, na RTP, Raquel Varela argumentou: “este homem sem qualidades Passos Coelho conseguiu – não tem incompetência nenhuma, isso é completamente falso, isso é uma grande desculpa de uma oposição incompetente – fazer tudo o que se tinha proposto fazer; e nós passámos de dois milhões de pobres para três milhões”. E, há dez dias, no Expresso e mais subtil, Pedro Adão e Silva asseverou: “inscrever a desigualdade no tratamento dos cidadãos, seja na relação com o fisco, na protecção social, na educação ou na saúde, é o grande propósito deste Governo. Não nos iludamos, a incompetência e o desleixo com que os membros do Governo se relacionam com os serviços são particularmente eficazes na deslegitimação da acção do Estado.”
Nenhuma das acusações merece discussão. É sempre assim com teorias de conspiração. Dão voz aos medos e preconceitos do povo, são simples de explicar, populares e impossíveis de rebater – quem opta por acreditar no irrazoável não está disponível para aceitar a razão. Mas sendo inútil discuti-las, vale a pena destacar que estas acusações estão generalizadas no debate. Que não são excepção, são a regra. E que isso diz mais acerca do estado do país do que dezenas de estatísticas e relatórios internacionais.
Deixámos de distinguir um argumento sério de uma teoria da conspiração, já não estranhamos o que é estranho, tratamos de modo igual o que é diferente. Assim está o debate político – afastado do conteúdo das medidas, do impacto dos programas, das leis, do que é real, do que deve ser a busca pelo bem-comum. E assim está o debate público – formado por comentadores obedientes a narrativas partidárias e a radicalismos que valem likes e partilhas no facebook. Inevitavelmente, assim estamos nós. A economia pode crescer e o desemprego baixar, mas a única coisa que anima as hostes é que Passos Coelho quer aumentar a pobreza.

Romaria das Festas de Santa Eufémia

Em dia de romaria
Desfila o meu vilarejo
Ainda o galo canta o dia 
Já vai na rua o cortejo

O meu pai já está de saída
Vai juntar-se aquele povo 
Tem velhas contas com a vida
A saldar com vinho novo

Por mais duro o serviço
Que a terra peça da gente
Eu não sei por que feitiço
Temos sempre novo alento

A minha mãe, acompanhada
De promessas por pagar
Vai voltar de alma lavada 
E joelhos a sangrar

A minha irmã quis ir sozinha
Saiu mais cedo de casa
Vai voltar de manhãzinha
Com o coração em brasa

Por mais duro o serviço
Que a terra peça da gente
Eu não sei por que feitiço
Temos sempre novo alento

A noite desce o seu pano
No alto deste valado
O sagrado e o profano
Vão dançando lado a lado

Não sou de grandes folias
Não encontrei alma gémea
Há-de haver mais romarias
Das festas de Santa de Eufémia


Com 0,5% do seu IRS pode ajudar...

Um simples gesto na altura de preencher a sua declaração de IRS pode ajudar muito estas associações.
No quadro 9 do anexo H (ver figura) assinale com uma cruz como indicado e sob o campo NIPC (Número de Identificação de Pessoa Colectiva) escreva o NIPC da instituição da sua escolha.


Povo recomenda:

Associação Família e Sociedade                                                 NIPC:  506858049
Ajuda de Berço                                                                       NIPC:  504296442
Apoio à Vida                                                                                 NIPC:  504706942
APECEF - Associação para a Educação, Cultura e Formação   NIPC:  505230658
Banco Alimentar contra a Fome                                                   NIPC:  504335642
BIPP                                                                                             NIPC:  508908507
Centro Social Sagrado Coração de Jesus                                   NIPC:  500846359
Convento dos Cardaes                                                                NIPC:  500809038
Caritas Diocesana de Lisboa                                                       NIPC:  500910227
Fundação Gonçalo da Silveira                                                   NIPC:  507002130
Vale d'Acor                                                                                   NIPC:  503079677