sábado, 28 de fevereiro de 2015

O génio de António Costa

Inês Teotónio Pereira
ionline 2015.02.28


O líder do PS cometeu o erro de palmatória para quem aposta tudo no embrulho e nada no conteúdo: falou. Para chineses, é certo, mas falou
Ninguém sabe bem o que António Costa pensa sobre o país, a Europa, a Grécia, o ajustamento, a política social, a vida, enfim. Mas não é por isso que António Costa deixa de ser genial. Aliás, o génio de António Costa é mesmo esse: apostar tudo na imagem e nada no conteúdo. Ora, este génio socialista lembra um dos meus filhos. Este meu filho não estuda nada mas tem a imagem de bom aluno. Não fala muito mas como tem um sorriso encantador é considerado muito bem-educado. É muito reservado e por isso todos o respeitam. No entanto, a verdade é que o miúdo só quer sossego e tem um sorriso cativante. Ponto. Ou seja, a imagem dele não diz o essencial sobre ele e só lhe tem trazido vantagens. 

O meu filho, no entanto, tem um problema que António Costa não tem: o rapaz é escrutinado regularmente. Ou seja, por mais que ele insista em manter-se resguardado, ninguém o deixa. O desgraçado está sempre a ser avaliado, a receber ordens dos pais e, quer queira quer não, é obrigado todos os dias a dar-se a conhecer ao mundo. O meu filho invejaria António Costa se soubesse quem é António Costa. É que António Costa faz o que lhe apetece não fazendo nada. E isto é o sonho de qualquer adolescente. Costa só tem de sorrir e de aguentar a pressão da revelação como se faz nos concursos para Miss Mundo, em que só no dia da eleição é que a vencedora se atreve a desvendar o que pensa sobre os problemas do planeta. Elas, tal como Costa, sabem que podem deitar tudo a perder se abrirem a boca antes da eleição. 

Costa tem a sorte de ninguém o chatear. Nem mais velhos, nem mais novos, nem jornalistas, nem comentadores. A imagem chega e o tempo é escasso para gastá-lo a falar de política, de economia e de coisas chatas. Ora, isto numa primeira análise parece-me injusto quer para os jovens como o meu filho quer para com todos os outros políticos e figuras públicas que não têm uma imagem enigmática. Por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa. É certo que o país nutre de uma certa ternura pelo Professor. Mas é essencialmente isso. Estamos a falar de um professor universitário, de um intelectual, de um político experiente, de um jornalista que fez história que tudo fez para alcançar o estatuto de génio. E no fim o que leva em troca? Tem graça. Foram anos e anos ao serviço da causa pública, da academia, para que tudo se resuma a uma palavra: graça. Injusto. E só por causa da imagem. Imaginemos que o Professor era mais recatado, que não falava tanto e que era contido em matéria de gesticulação. Sim, não tenho dúvidas que em vez da TVI o Professor estaria em Belém. 

Mas esta semana António Costa foi apanhado. O líder do PS cometeu o erro de palmatória para quem aposta tudo no embrulho e nada no conteúdo: falou. Para chineses, é certo, mas falou. Sem saber que estava a ser filmado disse que o país estava melhor do que há quatro anos. O país ficou perplexo: afinal Costa é simpatizante do Governo. O líder do PS numa tentativa de dar o dito por não dito, arranjou uma desculpa do tipo fumei mas não inalei dizendo que uma coisa é defender que as coisas correm bem e outra é dizer que o governo é bom - como se as coisas pudessem correr bem apesar dos governos. Enfim, não se percebeu se Costa queria mentir aos chineses ou se Costa acha mesmo que o Governo é bom. Tenho o mesmo em casa: cada vez que o meu filho é apanhado mete os pés pelas mãos. Só que ele não se espanta quando é apanhado, fica apenas envergonhado e hiberna novamente. António Costa cometeu o erro de dizer o que pensa arriscando o único activo que tem: a imagem. Moral da história: se o secretário-geral do PS continuar a falar arrisca-se a voltar a comentador; já o meu filho arrisca-se a chegar a líder do PS.

O fim das ilusões


28/02/2015 


1. O assassínio de Boris Nemtsov em Moscovo, junto ao Kremlin, caiu como uma bomba nas capitais europeias. Não faltaram adjectivos para o classificar. Não é caso inédito na cena política russa. Mas acontece num contexto inédito das relações entre a Europa e a Rússia.
Antes de Nemtsov, um dos poucos opositores frontais de Putin, o método foi usado para calar de vez outras vozes incómodas num estilo muito próprio do KGB durante a Guerra Fria. Anna Politkovskaia, a jornalista que dedicou a sua vida a denunciar os horrores das guerras na Tchetchénia, foi assassinada à porta de casa. Alexander Litvinenko foi morto em Londres por envenenamento de polónio, quando se preparava para denunciar os assassinos da jornalista. Outros opositores viveram anos na cadeia. Hoje, qualquer veleidade oposicionista é facilmente esmagada. As televisões privadas foram sendo silenciadas. O clima de "ameaça externa" para alimentar o nacionalismo dá ao Presidente russo margem de manobra para silenciar quem for preciso.
2. A morte de Nemtsov faz-nos rebobinar o filme dos últimos 25 anos da relação da Rússia com o Ocidente. Muito novo, foi chamado por Boris Ieltsin para vice-primeiro-ministro para aplicar as reformas económicas necessárias à transição para uma economia de mercado. Foi um tempo de ilusões em que o Ocidente acreditava no caminho inexorável da Rússia para a democracia, mas que se transformou num roubo generalizado das empresas estatais por gente ligada à nomenclatura, enquanto a subida dos preços afectou duramente a vida dos russos. Foi uma década em que a democracia ganhou mau nome, abrindo as portas para a ascensão de Putin. Para Washington ou para as capitais europeias, a Rússia não podia ter outro destino senão o Ocidente. Em 1997, Clinton convidou Ieltsin a integrar o G7, que passou a G8 (até ao ano passado). Foi criado um Conselho NATO-Rússia (que praticamente nunca funcionou) onde as questões de segurança europeia deviam ser tratadas. Bush acreditou que poderia estabelecer uma boa relação com Putin, depois do 11 de Setembro. A Europa acreditou ser possível criar uma parceria estratégica assente numa "comunidade de valores e interesses". A maior crise de sempre da aliança atlântica, aberta pela guerra do Iraque em 2003, levou Gerhard Schroeder e Jacques Chirac a emparceirarem com Putin num famoso "eixo da paz" em oposição aos Estados Unidos. Enquanto Putin destruía a Tchetchénia com uma violência inaudita, Paris e Berlim estavam disponíveis para lhe passar um atestado de bom comportamento democrático.
3. Entretanto, Putin começava a esclarecer ao que vinha. Em 2005 declarou que o fim da União Soviética tinha sido a maior catástrofe do século XX. A estratégia da "vizinhança próxima" para restabelecer a esfera de influência russa traduziu-se numa série de conflitos muito incómodos para o Ocidente, mas que o Ocidente ignorou. Em 2004, a revolução laranja na Ucrânia ainda parecia ser a tendência dominante nessa "vizinhança". Só em 2008, Angela Merkel conseguiu convencer George W. Bush a fazer um intervalo no alargamento da NATO, deixando de fora a Ucrânia e a Geórgia. Para os europeus, falhada a comunidade de valores, ficavam apenas os interesses, que cada país tratou à sua maneira. Mesmo quando, em 2006 e 2009, a Gazprom fechou a torneira do gasoduto que abastecia muitos países europeus de leste através da Ucrânia, o aviso não foi levado suficientemente a sério para obviar à dependência energética da Rússia. Foi precisa a crise ucraniana para que a Europa acordasse para uma realidade para a qual não estava preparada.
Do outro lado do Atlântico as coisas não foram muito diferentes. Obama quis restabelecer uma boa relação com Moscovo (o famoso reset), olhando para Putin como um parceiro na resolução dos conflitos internacionais que tinha em mãos. Mas nunca viu a Rússia (nem sequer agora) como um desafio fundamental ao poder americano no mundo. Se prestarmos atenção às suas declarações desde que começou a crise, a Rússia é sempre tratada como uma potência regional e decadente. O que é verdade, mas não deixa de colocar um tremendo desafio à Aliança e à União Europeia, que Washington não pode ignorar.
4. Hoje sabemos onde estamos. Angela Merkel percebeu depressa que Putin desafiava directamente a ordem europeia do pós-guerra e que não havia diálogo possível com ele. Com Obama, tem conseguido liderar a resposta ocidental, evitando as divisões europeias e transatlânticas, com as quais o líder russo contava. Enfrenta alguma hostilidade interna, onde uma maioria de alemães não quer sequer ouvir falar de um conflito com a Rússia. Gerhard Schroeder lançou um abaixo-assinado apelando a uma nova política para o vizinho de Leste e insistindo na "legitimidade" das preocupações russas com a sua segurança. Putin encontrou alguns novos amigos nos países mais improváveis. Na Hungria ou em Chipre (mesmo que nenhum deles tenha tido a coragem de votar contra as sanções) mas também na Grécia ou na Áustria (ainda a viver o complexo de neutralidade imposto pela Guerra Fria). O Presidente russo tem também feito amigos entre os movimentos extremistas e nacionalistas que emergem na Europa, de Marine Le Pen ao Syriza, passando pelo UKIP ou os nacionalistas austríacos.
A novidade é que a Alemanha, incluindo o SPD, tradicionalmente mais amigo de Moscovo, percebeu que o mundo não se reduzia à geoeconomia. A chanceler não tem grandes ilusões e sabe que o braço-de-ferro vai ser prolongado. A NATO vê-se confrontada com uma ameaça à segurança dos seus membros para a qual não estava preparada. Está a deslocar forças para os países mais vulneráveis, em primeiro lugar os Bálticos, e mantém o controlo do espaço aéreo aliado. Tem de voltar a funcionar como uma força dissuasora suficientemente credível. Mas também deixou claro que a sua responsabilidade se limita à segurança dos países aliados, deixando de fora a Ucrânia. Os aliados europeus sabem que a ameaça russa não vai desaparecer no futuro próximo. A Europa vai ter de apoiar com muito mais meios a estabilização da economia e da democracia de Kiev, de forma a criar uma verdadeira barreira contra qualquer outro destino que não o europeu. Uma democracia a funcionar bem é tudo aquilo que Putin não quer na sua zona de influência. Escreve Josef Janning do ECFR que "teme o soft powereuropeu na medida em que é uma força à qual não tem como responder".
5. Esta Rússia antiocidental e nacionalista levou também a algumas mudanças significativas na geopolítica europeia. A imprensa britânica acusa David Cameron de ter posto em causa o papel do Reino Unido na Europa e no mundo e o seu estatuto de parceiro confiável dos Estados Unidos. Quem lidera a crise ucraniana? Angela Merkel com François Hollande. Quem é o interlocutor privilegiado de Obama? Angela Merkel. É este o preço que Cameron vai ter de pagar com a sua obsessão antieuropeia.
A tragédia do voo MH17 das linhas aéreas da Malásia com 200 holandeses a bordo, foi o sobressalto que fez endurecer a Europa. O assassínio de Nemstov pode ter um efeito semelhante. Seja como for, esta é a nova realidade em que os europeus se têm de habituar a viver, num mundo onde dominam cada vez mais as "políticas de potência" das quais a Europa se desabituou graças à garantia americana da sua segurança.
Gideon Rachman, o colunista do Financial Times, escreveu recentemente um texto com um título apelativo: "Os corações e as mentes dos russos e os frigoríficos". A sua ideia é simples. Os russos que ainda se lembram da Grande Guerra Patriótica sabem o que é ter apenas batatas para matar a fome. Os mais jovens, que não conhecem outra realidade senão a actual, só vêem os frigoríficos vazios. É uma esperança? Talvez.

A dívida cristã à Grécia

Se a herança judaica situa a mensagem cristã no contexto da história de um povo, o pensamento helénico prepara o espírito humano para a compreensão da doutrina de Cristo como verdadeiro conhecimento.

São quatro as razões da minha dívida para com a Grécia. Devo-lhe, em primeiro lugar, uma irmã gémea que, sendo Helena, é 'grega', como o seu nome indica. Em segundo lugar, devo a Aristóteles a sua dialéctica, tema da minha dissertação académica. Devo também, em terceiro lugar, à capital grega o ano em que lá vivi, com a minha família. Mas, sobretudo, enquanto cristão, devo muitíssimo à pátria da filosofia. Se o Cristianismo tem um antecedente histórico, qual é a tradição judaica, de que nasce e de que ele é, na perspectiva cristã, a plena realização, tem também um outro precedente, a que se deve a sua estruturação como verdadeiro saber: o pensamento filosófico grego.
Cristo não surge do nada, nem a religião que nele tem o seu divino fundador nasce por geração espontânea, mas inscrita numa tradição religiosa que ele, bem como os seus primeiros seguidores, assumem. Por isso, não estranha que Jesus de Nazaré seja assíduo nas práticas religiosas judaicas: frequenta, todos os sábados, a sinagoga; peregrina anualmente a Jerusalém; e festeja, com os seus discípulos, a páscoa e as restantes festas religiosas do seu povo.
Mesmo quando o Mestre dá um novo sentido a um preceito da lei, como acontece com o descanso sabático, nunca o faz em ruptura com as Sagradas Escrituras, ou as tradições religiosas da sua nação, mas como um regresso à plenitude do seu sentido original, deturpado por posteriores interpretações humanas. Como ele próprio disse, não veio revogar a lei, nem reformá-la, mas dar-lhe pleno cumprimento.
Mais tarde, os primeiros cristãos questionarão até que ponto são, ou não, em termos religiosos, judeus. A questão surge quando aderem à Igreja os primeiros gentios e alguns crentes entendem que, para além de serem baptizados, se lhes devem também exigir as praxes judaicas. Outros fiéis, pelo contrário, opunham que os ritos cristãos faziam desnecessárias essas práticas, tese que o concílio de Jerusalém ratificaria, emancipando, deste jeito, a fé cristã da sua matriz judaica.
Para além deste precedente histórico, de natureza religiosa, o Cristianismo tem também um antecedente secular: a filosofia grega. Se a herança judaica situa a mensagem cristã no contexto da história de um povo, a quem Deus paulatinamente se revela, o pensamento helénico prepara o espírito humano para a compreensão da doutrina de Cristo como verdadeiro conhecimento, como uma sabedoria que pressupõe, de alguma maneira, os desenvolvimentos especulativos alcançados pelos filósofos helénicos. Os seus conceitos são, com efeito, essenciais para a estruturação do pensamento teológico, que não teria sido viável sem esta pré-história filosófica que, a par da tradição judaica, se pode e deve considerar como antecedente do Cristianismo. Neste sentido, Sócrates, Platão e Aristóteles são também antepassados dos cristãos, de forma análoga a como o são os profetas e patriarcas do Antigo Testamento.
Os primeiros cristãos foram martirizados por não praticarem o culto oficial: as autoridades romanas consideravam-nos ateus, porque não adoravam os seus deuses, nem o imperador. Na realidade, os próprios cristãos não entendiam a sua fé como uma nova religião – não o era, de facto, no sentido em que o eram as mitologias pagãs da antiguidade clássica – mas como um conhecimento, como um saber: a verdade.
A pretensão cristã não é outra do que a de ensinar o que as coisas são, não na sua vertente científica, que cabe à razão estabelecer, mas na sua realidade radical, ou seja, na sua relação com o princípio e o fim. O Cristianismo, ao contrário das religiões greco-latinas, não é um mito, mas uma verdadeira sabedoria. Por isso, Platão e Aristóteles, entre outros, não seguem as versões mitológicas do seu tempo e procuram, por via da filosofia, uma explicação racional da realidade. E, embora pagãos, as suas filosofias servirão de esteio à teologia católica.
Quando Justino, um conhecido e conceituado pensador do século II, adere ao Cristianismo, a autoridade romana pensa que tal se deve a um desvario do ancião filósofo, pois só assim se poderia explicar que um tão prestigiado pensador aderisse, no final da sua vida, a uma seita que adora um carpinteiro judeu crucificado. Quando Rústico, o perfeito romano que o não era só de nome, procura demovê-lo, Justino diz-lhe: "Um homem de bem não abandona a fé para abraçar o erro e a impiedade". Uma cosmogonia pode ser trocada por outra, mas a verdade não pode ser substituída pelo erro.
É à cultura helénica que a Igreja católica deve, em parte, o carácter sapiencial do seu credo. Sem essa ferramenta racional, a fé cristã seria apenas mais uma religião, uma mera opção ou opinião discutível, mais próxima dos mitos antigos do que da ciência. É, em boa parte, graças à filosofia grega e ao seu desenvolvimento especulativo que o Cristianismo é, para além de revelação sobrenatural, verdadeiro saber.  

Não, não... Ya, ya...


José Maria C.S. André «Correio dos Açores»,  «Verdadeiro Olhar»,  «ABC Portuguese Canadian Newspaper», 28-II-2015 
Sabemos como é a vida cristã em terras lusitanas. Vamos menos à Missa, adiamos a confissão. Há poucos padres, poucas vocações e algum escândalo eclesiástico. É verdade que também há conversões na universidade, pelo menos em Lisboa, e que intelectuais, que ridicularizavam a doutrina católica, têm hoje a máxima consideração por ela. Apesar de tudo, em muitos ambientes, o panorama é desalentador, tal como em grande parte da Europa.
Fora a América Latina, que é conhecida na Igreja como o «Continente da Esperança», como vai o resto do mundo? Na Ásia, há uma explosão de conversões, mas a percentagem de católicos ainda é pequena. Em África, a evangelização continua a fazer grandes avanços, mas o continente ainda não é maioritariamente católico. No cômputo global, de 1999 para 2009, houve um aumento de 5000 padres no mundo. Fora da Europa, a evolução mundial mais do que compensa a nossa crise. E nos Estados Unidos?
Anne Hendershott, professora de sociologia na Universidade Franciscana de Steubenville e na Universidade de Nova York e antes na Universidade de San Diego, suspeitou que a tribo dos católicos merecia uma investigação. É normal, os sociólogos andam sempre à procura de grupos estranhos, de modo que lançou a equipa a explorar o filão. Fizeram o trabalho de campo à maneira americana: viajaram, recolheram imenso material. Números, estatísticas, dados. Um esforço enorme!
Recentemente, os resultados foram publicados num livro intitulado «Renewal» (renovação), escrito pela própria Hendershott em co-autoria com Christopher White, um dos seus colaboradores seniores.
Os livros norte-americanos costumam oferecer uma imagem predominantemente negativa da Igreja católica e, em particular, do sacerdócio. Por exemplo, o livro «Why Priests?» conclui que os padres são uma «failed tradition» (sem reparar no contra-senso de classificar como falhada uma tradição que dura há 2000 anos). Outro livro intitula-se «The Death of Priesthood», (o fim dos padres). Outro chama-se «Full pews and empty altars» (os bancos da igreja cheios e os altares vazios). Outro estudo, na mesma linha, é «The emerging Catholic Church» (A Igreja católica que aí vem). A opinião negativa sobre a Igreja parece maioritária e, a julgar pela maioria dos autores, os padres estão para acabar.
Neste contexto, os dados recolhidos por Anne Hendershott e pela sua equipa surgiram como absolutamente surpreendentes. A primeira novidade é que, em vez de enumerar os defeitos da Igreja, a nova investigação compila factos sociológicos. A surpresa vem daí. Teoricamente, a Igreja está em declínio nos EUA; na realidade o número de vocações aumentou em muitas dioceses nos últimos 10 anos, com aceleração crescente.
Outra descoberta é que os principais contestatários são as mesmas pessoas desde o tempo do Concílio; a idade média dos sobreviventes é muito elevada, sobretudo comparada com a média etária dos padres, cada vez mais baixa nos Estados Unidos. Sociologicamente, os velhinhos que gritam pela insurreição estão a encontrar o olhar compadecido das novas gerações, que acha os protestos decadentes. Os que queriam mudar a moral profetizaram durante 50 anos que «os jovens iam abandonar a Igreja»; extrapolaram cientificamente a curva do declínio e prometeram que a Igreja desaparecia se as mulheres não fossem padres. Afinal, as ordenações foram cada vez mais numerosas nos últimos 10 anos. A realidade pergunta aos idosos profetas: «...têm mesmo a certeza?».
O livro «Renewal», de Hendershott e White, procura a explicação para este «volte-face» da Igreja católica norte-americana. Como não é um tratado de religião, mas um estudo sociológico, investiga quem são os «transformational leaders». As estatísticas identificam as dioceses em que houve maior subida de vocações como aquelas em que os bispos são mais inequivocamente claros e fiéis ao Papa, o que levou a descobertas sociológicas inesperadas.
Em geral, em comparação com os políticos, a capacidade de liderança dos bispos é um êxito, sobretudo naqueles bispos que afirmam mais claramente a doutrina da Igreja. Então – pergunta de sociólogo –, isso quer dizer que os bispos têm geralmente carisma de «leaders»? Não! É que este povo católico tem um comportamento sociológico peculiar... Os bispos podem ter uma liderança que inspira e arrasta, mas não têm necessariamente carisma de «leaders» no sentido tradicional, não galvanizam audiências, nem cultivam a oratória, alguns até são tímidos. Ao contrário dos políticos, os bispos mais empolgantes e que atraem mais vocações são os muito claros, muito ortodoxos e corajosos, não os tribunos fantásticos, ou os negociadores habilidosos. É curiosa a hipótese científica apresentada por Anne Hendershott, numa longa entrevista à televisão, a propósito deste livro: o carisma dos bispos não seria comparável ao dos políticos, seria uma espécie de carisma sacramental, uma graça que eles recebem no momento da ordenação episcopal...
Outro dado estatístico. Apesar dos escândalos de 2002, os padres actuais nos Estados Unidos são muito felizes e estão entusiasmados com a sua missão (97%), procuram ser piedosos, têm muita iniciativa, vão ao encontro das pessoas. Este ambiente atrai de tal modo as novas gerações, que os seminários se estão a encher exponencialmente e vários seminários começaram a rejeitar candidatos, por falta de lugar.
Hendershott e White prometeram que está para breve um outro livro. Vão chamar-lhe «Beyond the Catholic Culture Wars» (Para além das guerras culturais católicas). A equipa tem imenso material para publicar e o público quer saber mais, depois do furor do «Renewal».
Na Europa, a crise é devastadora; em todo o resto do mundo, a Igreja está cada vez mais forte.



A Prof. Anne Hendershott, socióloga.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão



Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão
Mt. 5, 24

Pedindo desculpa aqui segue outra vez agora com os links activos

Recebi há dois dias um e-mail de um amigo, mais novo, pai de 3 filhos pequenos, profissão exigente:
Esta semana fui fazer de voluntário no âmbito da iniciativa "40 dias pela vida" que está a decorrer agora durante a quaresma (http://www.40diaspelavida.org/) e reparei que eles este ano estão com muito poucos voluntários.
Fiquei com a impressão que é uma iniciativa pouco divulgada e lembrei-me que a podia divulgar no Povo, razão pela qual lhe estou a enviar este email.
Eu gostei mesmo muito da experiência e fiquei com vontade de voltar e de a recomendar a todos os meus amigos, para além de acontecerem verdadeiros milagres e de se salvarem muitas vidas durante estes dias da iniciativa.
Desafio-me e a todo o Povo a levarem a sério este convite. Podem ter um vislumbre dos milagres quotidianos aqui.
Pedro Aguiar Pinto

Verdades e mentiras

Ver ou não ver

27/02/2015 - 06:21

Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso: para o Ocidente ver – ou não ver.
Com as nossas preocupações domésticas, não nos sobra o tempo para pensar em coisas muito mais sérias como o expansionismo da Rússia.
Vem na Wikipédia, mas convém repetir, que a Rússia é uma federação de 22 repúblicas, 46 regiões autónomas (como a da Madeira) e nove territórios. Pior ainda, tem 160 etnias diferentes, 100 línguas diferentes, quatro grandes religiões diferentes (a ortodoxa, a islamita, a judaica e a budista) e uma enorme variedade de seitas, que constantemente varia e se multiplica. Tudo isto para uma população relativamente pequena de 140 milhões de habitantes. Qualquer pessoa de senso compreenderá que, segundo um velho hábito do século XVIII, chamamos Rússia a um Império que só pode ser governado autocraticamente e onde a democracia está para sempre condenada.
O autocrata de hoje já não é o czar Nicolau II, nem Lenine, nem Estaline, nem Khruschev, nem Brejnev. É um antigo membro da polícia secreta e, por consequência, um dissimulador, um mentiroso, um torcionário e um assassino, que dá pelo nome de Putin e que preside a uma cleptocracia, largamente caótica, a que só a violência e o seu arbítrio garantem uma vaga coesão e uma aparência de Estado. Além disso, na falta de uma legitimidade dinástica como a dos Romanov, ou ideológica como a URSS, Putin precisa, para se ir aguentando, de invocar a legitimidade imperial, principalmente depois da maior derrota que o Império sofreu desde 1613. O que não seria importante, se depois da implosão do comunismo a Rússia não permanecesse a segunda potência militar do mundo.
E se a Europa não se tivesse desarmado, como desarmou, para pagar o Estado social. A Inglaterra, por exemplo, gasta em defesa menos do que 2 por cento do PIB, no momento em que Putin (de resto, provocado pela França e pela Alemanha) embarcou numa política claramente agressiva e revanchista. A Crimeia foi o primeiro objectivo, como já o fora para Catarina, porque o Império fica fechado ao exterior sem um porto de água quente; e o segundo foi parte da bacia do Donetsk, porque a Crimeia não serve de nada sem uma ligação fácil e segura ao coração do Império. Estaline e Hitler perceberam este ponto essencial. Putin também; e não há a sombra de uma dúvida de que não recuará. Como, tarde ou cedo, vai acabar por querer que as repúblicas bálticas voltem ao seu domínio e que a Ásia Central aceite obedientemente a sua ordem. Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso: para o Ocidente ver – ou não ver.

O admirável mundo das greves no metro

 Público 27/02/2015 - 06:40

A frequência com que os trabalhadores do sector dos transportes públicos fazem greves tem qualquer coisa de extraordinário. Basta uma breve visita à página de Internet da Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (Fectrans) para chegarmos ao admirável mundo das greves. Por exemplo, na agenda desta semana da Fectrans, de segunda a sexta, em todos os dias estão marcadas greves na CP e na Carris ao trabalho extraordinário. Na terça-feira houve ainda a greve no metro de Lisboa e ontem estava agendada uma concentração de activistas do sector ferroviário e uma manifestação nacional de ferroviários. Para hoje estava prevista uma outra greve no metro de Lisboa que entretanto foi desmarcada. Só que, no mesmo dia em que o sindicato do Metropolitano desmarca a greve, agenda mais duas para 16 e 18 de Março.
Convém sempre começar pela sacrossanta frase do "não está aqui em causa o direito à greve". Mas a verdade é que no sector dos transportes estamos a assistir ao que parece ser uma banalização deste direito previsto na Constituição. E esse direito, além de colidir com outros igualmente fundamentais, não nos deve inibir de perguntar, e tentar responder: quem é que ganha com tantas greves? Os trabalhadores? Os sindicatos? As empresas? E as reivindicações são justas tendo em conta aquilo que se passa (e se paga) nas restantes empresas públicas?
Sempre que o metro de Lisboa faz greve os seus 500 mil utentes e os restantes moradores da cidade ficam com o dia virado do avesso. São longas caminhadas, são filas intermináveis de trânsito, é o dinheiro que se gasta nos táxis, nos parquímetros, é o chegar atrasado ao trabalho, etc… Aliás, o Tribunal Arbitral, quando decretou a obrigatoriedade da realização de serviços mínimos para esta sexta-feira, chama a atenção para a colisão do direito da greve nos transportes com outro direito fundamental, também ele reconhecido na Constituição: "As necessidades sociais impreteríveis". E a lei reconhece a actividade de transporte ferroviário de passageiros como uma "necessidade social impreterível". Escreve o Tribunal que quando o metro pára estão está em causa a "liberdade de circulação das pessoas, tanto considerando o direito de circulação em si mesmo, como relacionando tal direito com o direito à saúde, o direito à educação ou o direito ao trabalho em sentido amplo (já que o exercício destes direitos depende da possibilidade de acesso a um determinado local)".
Isto quer dizer que um direito fundamental que é a greve não deve ser banalizado para não violentar outros direitos dos cidadãos igualmente fundamentais. O relatório e contas da Metro relativo a 2013 (o último disponível) refere que nesse ano houve 14 pré-avisos de greve (sendo que duas foram desconvocadas), o que correspondeu a 30,405 mil horas não trabalhadas por motivo de greve. Em 2014 (dados ainda não oficiais) terão também sido 14 as greves e este ano já se viu que vamos bem encarrilados para chegar a esse número.
Os utentes não são os únicos prejudicados. Quem faz greve também perde um dia de salário. E mesmo aqueles que recebem o salário desse dia de greve através dos sindicatos têm de descontar previamente para um fundo de greve. Com certeza que o objectivo da greve é (ou deveria ser) que os trabalhadores tenham ganhos a prazo; mas a verdade é que as revindicações dos sindicatos já se tornaram tão difusas e tão banais que perdem a eficácia nas negociações. Já só servem para os sindicalistas mostrarem serviço.
Quem se der ao trabalho de ler os avisos e pré-avisos de greve da Metro de Lisboa no site Fectrans percebe que as revindicações vão variando de semana para semana e englobam quase tudo: Defesa dos postos de trabalho; organização do trabalho, "péssimas" condições de trabalho; cumprimento do Acordo de Empresa; defesa do serviço público; horários, folgas, férias, tempo extraordinário não pago, supressão de postos de trabalho, segurança; reposição dos complementos de reforma; aumento "brutal dos preços", redução da frequência de comboios, aumento do tempo de espera; fim dos "roubos" nos salários e nas reformas; luta contra a subconcessão (privatização), etc…
Qual é o incentivo dos patrões para aceitar essas reivindicações? Pouco ou nenhum. Basta olhar para o relatório e contas da Metro de Lisboa e fazer umas contas de merceeiro: a Metro gasta por ano 46 milhões de euros a remunerar os seus 1490 trabalhadores. O que quer dizer que por cada dia de greve poupa qualquer coisa como 110 mil euros em salários. O reverso da medalha é que com as portas fechadas a Metro não vende bilhetes. Contudo, a verdade é que a grande parte das receitas da empresa é rígida: 44 milhões de indemnização compensatória e 38 milhões de receita com a venda de passes (que o utente paga quer haja greve ou não). Assim sobram 37 milhões de euros de receitas com a venda de títulos ocasionais, o que significa que por cada dia de greve a Metro deixa de facturar 104 mil euros.
Resumindo, num dia de greve a empresa poupa 110 mil euros em salários (sem contabilizar as poupanças com electricidade e noutras despesas de funcionamento) e deixa de facturar 104 mil euros. Não há portanto grande incentivo para que a administração faça alguma coisa para que o utente não fique apeado à porta da estação. É perverso que fazer greve possa beneficiar os patrões e prejudicar apenas os utentes. O Governo aprovou ontem o lançamento dos processos de subconcessão da Metro de Lisboa e da Carris a privados. Pode ser que alguma coisa mude.

«Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão»

Comentário de São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja 
Homilias ao povo de Antioquia, XX, 5 e 6 

Eis o que te proclamo, o que te asseguro, o que te digo com voz tonitruante: Que quem tem inimigos não se aproxime da mesa sagrada nem receba o Corpo do Senhor! Que os que se aproximam não tenham inimigos! Tens algum inimigo? Não te aproximes! Se quiseres fazê-lo, vai primeiro reconciliar-te e depois receberás o sacramento.

Não sou eu que falo assim, é o Senhor quem o diz, Ele que foi crucificado por nós; Ele, para te reconciliar com seu Pai, não recusou ser imolado nem derramar o seu sangue; e tu, para te reconciliares com o teu irmão, nem queres dizer uma palavra e tomar a iniciativa de ir procurá-lo? Escuta o que diz o Senhor a propósito dos que fazem como tu: «Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti…» Ele não diz: «Espera que ele venha procurar-te ou que ele receba a visita de um dos teus amigos na qualidade de reconciliador», nem diz: «Envia-lhe alguém», mas: «Corre tu pessoalmente, vai ter com ele!» «Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão.»

Incrível! Então se Deus não Se dá por desonrado de ver deixado de parte um dom que Lhe era destinado, havias tu de te considerar desonrado por dares o primeiro passo para te reconciliar com o teu irmão? Que desculpa tem semelhante conduta? Quando vês um dos teus membros cortado, não tentas por todos os meios juntá-lo ao resto do teu corpo? Faz também assim com os teus irmãos: logo que vejas que eles estão separados da tua amizade, vai depressa buscá-los, não esperes que eles sejam os primeiros a apresentar-se: apressa-te tu a tentar a reconciliação.

Companhia na solidão



…vinde socorrer-me no meu abandono, porque não tenho ninguém senão Vós, Senhor

Est. 14, 14