Quanto vai durar o Governo de esquerda?

José António Saraiva | 08/11/2015

Os três partidos que vão apoiar o Governo de António Costa (PS, PCP e BE, porque Os Verdes são um adereço) têm naturezas diferentes e têm motivações diferentes.
Comecemos pelas motivações.
A motivação do PS é a sobrevivência do seu líder – e, à boleia desta, conseguir uns milhares de lugares pelo país fora. Toda aquela gente que foi varrida dos lugares há 4 anos tem esperança de regressar. Por isso, nunca tive dúvidas de que a coligação à esquerda seria aprovada pela esmagadora maioria do Partido Socialista. Quem se filia nos partidos do centrão tem sempre em vista conseguir um lugarzinho público…
A motivação do BE é diferente. Os bloquistas não estarão à espera de muitos lugares. O seu objetivo é outro: é uma espécie de ‘certificação de importância’. Tendo crescido muito eleitoralmente, o BE quer agora ter estatuto, quer ser reconhecido pelo regime. E também é evidente que Catarina Martins está deslumbrada pela importância que ganhou, parecendo encandeada pelos flashes das câmaras dos fotógrafos e pela atenção mediática.
A motivação do PCP é outra ainda. Tendo sido ultrapassado pelo Bloco de Esquerda nas eleições, agarra-se a esta entrada na área do poder como a uma boia de salvação. O PCP estava em risco de se tornar irrelevante em termos parlamentares – e assim torna-se de repente decisivo em qualquer votação. A queda do Governo depende dele.
Estas são as motivações dos três partidos. Outra coisa diferente é a sua natureza.
A natureza do PS é a de um partido burguês. Fundado por um bon vivant chamado Mário Soares, é profundamente anticomunista na sua génese. Inscreviam-se no PS aquelas pessoas da oposição ao Estado Novo que não queriam nada com o Partido Comunista. O PS é herdeiro do Partido Republicano, que se distingue radicalmente dos comunistas.
Além disso, ao contrário do PCP, o PS não é um partido operário. É um partido, como se disse, da burguesia, e a sua força decorre do voto e não da presença nas comissões de trabalhadores, nos sindicatos, etc. É um partido de eleitores, que vale pelo número de pessoas que nele votam em cada eleição.
O BE é também um partido de eleitores, mas com estruturas muitíssimo mais frágeis do que o PS. Não tem implantação operária, nem sindical, nem nada. Ora, um partido de esquerda sem implantação operária é um fenómeno conjuntural. Vive muito de lideranças pontuais e do seu mediatismo. Ontem era Francisco Louçã, hoje é Catarina Martins. A sua votação é um carrocel. Já esteve à frente do PCP, já desceu muito abaixo, voltou a subir, pode voltar a baixar. Depende do momento. Aposta tudo na queda do PS e em atrair parte do seu eleitorado mais à esquerda.
O PCP é totalmente diferente dos outros dois. Esse, sim, tem implantação operária. Não é um partido de eleitores mas um partido de militantes e de células. Mantém uma estrutura leninista. Não vale sobretudo pelos votos mas pela sua influência na Intersindical e na implantação nas comissões de trabalhadores, nos sindicatos, etc. Não quer aparecer nas manchetes, como Catarina Martins, quer ter influência no mundo do trabalho.
Por isso, a sua força ultrapassa em muito o seu resultado eleitoral, ao contrário do BE, que depende inteiramente dele.
Ora, como é que estes 3 partidos vão funcionar no apoio a um Governo?
O PS vai apoiar o Governo até ao fim, como é óbvio, porque é um Governo seu e porque, quando cair, lá se vai António Costa e lá se vão os lugares.
O BE também vai esticar ao máximo a continuidade do Governo. Só existindo no Parlamento, com pouca influência fora dele, o BE vai tentar levar o mais longe possível a legislatura. E quando esta acabar, vai atirar as culpas para o PS. Porque o seu objetivo é canibalizar o PS, visto que o eleitorado do PCP é muito estável e disciplinado.
A maior incógnita é o PCP. O qual, ao contrário dos outros dois, não vai transigir nos princípios. A maleabilidade tática dos comunistas é muito pequena. Como Jerónimo já disse, vai votar tudo o que, no seu entender, for a favor dos portugueses, e recusar tudo o que for contra. Ora isto vai provocar, mais cedo ou mais tarde, a queda do Governo, porque obrigatoriamente surgirão medidas que o PCP considerará serem ‘contra os portugueses’ e votará contra.
Assim, prevejo que António Costa vá ver-se muitas vezes entalado entre as exigências de Bruxelas e a inflexibilidade dos comunistas. E a corda partirá por um lado ou por outro. O PCP recusar-se-á obstinadamente a aprovar certas medidas -- e Bruxelas acabará por partir a louça, os juros começarão a subir e a situação tornar-se-á insustentável.
Pelo que tenho observado, duvido que a coligação dure mais de um ano. Note-se que o PS tem de negociar medida a medida, lei a lei, com o PCP e com o BE. Isto é esgotante. E quando as coisas aquecerem começam as greves, as manifestações da CGTP, etc., criando muito mal-estar na coligação. O ódio entre comunistas e socialistas regressará. E quem procurará retirar dividendos dos estilhaços será, como se disse, o Bloco de Esquerda.
Quando o Governo cair, o PCP ficará como dantes e o PS verá o seu eleitorado encolher brutalmente. Porque nessa altura ninguém confiará no Partido Socialista. Os eleitores moderados já não cairão noutra -- e votarão no PSD. Os esquerdistas votarão no BE. E o PS só ficará com os históricos, com os fieis, que não são muitos.
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