O grande discurso de Paulo Portas

Henrique Raposo, Expresso, 20151112
A minha relação ideológica com Paulo Portas é como um pêndulo, vai e vem, ora me agrada com uma ideia corajosa, ora me irrita com a “TSU dos reformados” ou com os momentos “irrevogáveis”. E, em termos históricos, Portas nada deve à coerência, já foi tudo e o seu contrário, já foi uma máquina pós-moderna de comunicação engraçadista (peço desculpa pela heresia, mas não sou fã incondicional do Indy), já foi o reacionário das feiras, da lavoura e das patilhas oitocentistas, já foi um libertário e agora está finalmente a estabilizar no conceito de “conservador” anglo-saxónico. Ou seja, a idade fez-lhe bem e está muito longe do fim da sua vida política e/ou jornalística. Aliás, atrevo-me a dizer que o Paulo Portas que interessará no futuro está só agora a nascer. Portas sempre teve talento e graça, mas essa graça servia apenas o seu ego saltitante. Era o embrulho vistoso de uma caixa vazia. Mas, durante os anos da troika, alguma coisa mudou. Encontrou a maturidade, sobretudo depois da chinesice do “irrevogável”. O grande discurso desta terça-feira é o maior sintoma desta mudança. Na terça, Portas adicionou uma nova substância à graça de sempre, resumindo em quinze minutos as grandes preocupações conservadoras e liberais perante a bancarrota política em curso e perante o provável regresso da bancarrota económica.

Em primeiro lugar, Portas relembrou o valor das convenções e dos costumes políticos, que são tão ou mais importantes do que as regras escritas. O partido vencedor das eleições formava Governo e nomeava o Presidente da Assembleia da República: estas duas convenções criavam cordialidade democrática entre centro-esquerda e centro-direita, eram a base de uma tolerância mútua construída ao longo de 40 anos por duas gerações de políticos. E agora, como será? Sem a previsibilidade gerada por estas convenções, como é que voltamos a uma governabilidade estável e legítima neste regime assente numa lei eleitoral que dificulta as maiorias absolutas? Não sabemos. Até porque a outra convenção chave também foi destruída: a exclusão de partidos anti-UE e anti-Nato da governação. Não, não foi o PCP que se aproximou do PS e do consenso europeu, foi o PS que se aproximou do PCP. Repare-se: nada disto seria grave se PCP e Bloco tivessem percorrido nos últimos anos um caminho de moderação e europeização à semelhança do Livre. Mas, como se sabe, esse caminho não foi percorrido. É por isso que os “acordos” entre PS e PCP/Bloco são uma fraude semiclandestina e uma irresponsabilidade histórica do PS: Costa destruiu uma convenção democrática de quarenta anos sem apresentar nada de sólido em alternativa. Como diz Paulo Portas, a máquina institucional está agora partida. De resto, até podemos dizer que a verdadeira “geringonça” é o nosso regime político depois desta jogada de dois desesperados: António Costa e a CGTP. Neste momento, apenas existe uma legalidade sem legitimidade. A legalidade depende de leis e alíneas, a legitimidade depende de convenções praticadas pelos homens ao longo da História. Sem a segunda, a primeira é como um corpo sem alma. Por outras palavras, o governo de Costa é “matematicamente possível, mas é politicamente ilegítimo”.

Depois de laborar sobre a previsibilidade institucional, o Alfa e o Ómega do alfabeto político do conservador, Paulo Portas sublinhou uma visão conservadora para a economia. Não, o país não pode voltar à espiral de consumo interno, que parece ser a obsessão socialista (o que não deixa de ser irónico: socialistas a promover o consumismo capitalista). Essa foi a causa da nossa crise. Não podemos voltar aos défice externos. Um país pequeno como Portugal tem de apostar nas exportações, na poupança e só depois no consumo interno. Caso contrário, entraremos de novo na espiral suicida: “importar” dinheiro para depois importar bens de consumo. Saliente-se ainda que a abertura ao exterior da economia não é apenas uma questão de racionalidade económica, é também um valor moral. A abertura ao exterior é aquilo que distingue um conservador do reacionário das patilhas oitocentistas. O primeiro é cosmopolita e percebe que “as tradições evoluem e as sociedades mudam”, como diz Portas. O segundo é nacionalista e recusa qualquer mudança no status quo. Nem por acaso, é a esquerda que neste momento assume uma posição nacionalista e reacionária, colocando assim um conservador na primeira linha de defesa do europeísmo em Portugal. As voltas que a vida dá: Portas é hoje muito parecido - na coerência política - com Francisco Lucas Pires, um dos alvos do velho Portas engraçadista, egocêntrico e pós-moderninho.
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