Em defesa dos Calvões deste mundo

Tiago Freire
Jornal Económico, 2015.11.04

Calvão da Silva, o novíssimo e eventualmente efémero ministro da Administração Interna, teve uma estreia em grande.
Calvão da Silva, o novíssimo e eventualmente efémero ministro da Administração Interna, teve uma estreia em grande.
De galochas, atolado no lamaçal da baixa de Albufeira, enfrentou os microfones e as câmaras dos jornalistas. A situação não era fácil, e o ministro acabou criticado e crucificado pelas suas palavras. E o que disse ele? Duas coisas que ficaram na memória mediática colectiva e nestes tempos de fácil indignação digital. A primeira foi que nestas ocasiões os comerciantes devem lembrar-se “que é bom reservar sempre um bocadinho para no futuro ter seguro”. Tirando o tom algo paternalista, a declaração não é errada nem tem nada de mal. A segunda, que ainda enfureceu mais alguns do que a primeira, foi a linguagem bíblica do ministro. Falou da “fúria demoníaca da natureza”; defendeu que “Deus nem sempre é amigo, também acha que de vez em quando nos dá uns períodos de provação”; e disse que o homem falecido “entregou-se a Deus e Deus com certeza que lhe reserva um lugar adequado”. 
O resultado? Calvão da Silva foi de imediato amarrado no pelourinho do facebook e fustigado violentamente pelos activistas do teclado.
O problema de Calvão da Silva é falar de Deus sendo de direita (se fosse de esquerda a coisa até passava), tal como o problema de Isabel Jonet é falar dos pobres sendo de direita (toda a gente sabe que isso é preocupação exclusiva e inalienável da esquerda). Mas o grande problema de Calvão da Silva é ter ideias, ter convicções, é expressar quem é e como vê o mundo. 
É óbvio que não quero um governante que exerça as suas funções, num Estado laico, com base em crenças religiosas. Mas não é disso que se trata. O castigo ao novo ministro é aquele que reservamos para quem ousa pensar, falar ou agir de forma própria, ou seja, diferente.
Em Portugal admitimos tudo aos nossos governantes: que sejam incompetentes, que mintam, até que roubem. Só não admitimos que sejam diferentes, que fujam ao guião. Num país embebido numa mediocridade neutra, conservadora, institucional e mole, os Calvões serão sempre alvos, tal como os Álvaros, cujo grande crime foi dizer que devíamos exportar o nosso pastel de nata (que por acaso é um produto magnífico e com sucesso fora de portas). 
Independentemente da questão política, eu gosto dos Calvões. Como gosto dos Álvaros, como gosto dos Ulrichs (o seu “aguenta, aguenta”, deturpado até à exaustão, só existiu porque ele se atreve a falar para além do ‘core tier 1’). Passei a gostar mais de Miguel Relvas depois do seu absurdo playback grandolado, tal como os célebres corninhos de Manuel Pinho foram um grito de libertação num ‘statu quo’ engravatadinho e estagnado. 
A exigência para cima é salutar. Deve é ser centrada naquilo que realmente interessa, e não nesta vácua censura de estilo. 
Até lá, continuaremos a ser mal governados mas com uma compostura impecável.
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