quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Bom Ano de 2015


Todos os anos neste dia se fazem balanços e propósitos. Com votos de um bom ano de 2015, chamo a atenção para o que acontece no artigo de João César das Neves e sobretudo que o que acontece não é inimigo dos nossos planos como pode parecer deste cartoon Balanço de 2014. Os planos pedem sempre mudança, mas é preciso ter consciência que a mudança só acontece verdadeiramente se acontece em nós  Ano Novo, Vida Nova?
Boas entradas e votos de que nos possamos acompanhar uns aos outros ao longo do novo ano
Pedro Aguiar Pinto

Balanço de 2014

Que farei com este tempo?

JCN31dedezembro2014 by papinto

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Vinte e seis missionários da Igreja Católica assassinados em 2014

RR online 2014.12.30


Este ano, 17 padres, um religioso, seis religiosas, um seminarista e um leigo foram mortos no decurso do seu trabalho missionário. 30-12-2014 19:26 por Ana Lisboa

Durante o ano de 2014 pelo menos 26 agentes pastorais da Igreja Católica foram mortos, segundo a Fides, agência noticiosa do Vaticano. O número é superior ao de 2013, com 23 mortes, e ao de 2012, com 13 assassinatos.

Pelo sexto ano consecutivo, a América Latina é o continente onde se registaram mais crimes. Segue-se África que registou sete mortes, a Ásia e a Oceânia com duas mortes cada e um na Europa.

A maioria das mortes aconteceu após violentas "tentativas de assaltos".

A Fides manifesta ainda a sua preocupação com a situação de "muitos outros operadores pastorais sequestrados ou desaparecidos", como três sacerdotes raptados na República Democrática do Congo, em Outubro de 2012, ou o jesuíta italiano Paolo Dall'Oglio, na Síria (2013), e o padre Alexis Prem Kumar, raptado a 2 de Junho, no Afeganistão.

O último caso relatado é o do padre Gregorio López Gorostieta, sequestrado no México por uma organização criminosa, a 21 de Dezembro. O seu corpo foi encontrado sem vida no dia de Natal, em Tlapehuala.

O Papa Francisco enviou uma mensagem ao bispo local e aos familiares do sacerdote, manifestando a sua "firme condenação de tudo o que atenta contra a vida e a dignidade das pessoas".

Para além dos que foram assassinados, há ainda uma série de agentes pastorais missionários que perderam a vida por doença, no decurso do seu trabalho. É o caso de vários religiosos e leigos ao serviço de organizações católicas nos países afectados pelo vírus do ébola.

As 26 vítimas
O México foi novamente dos países mais perigosos para religiosos. Lá perderam a vida o padre Rolando Martinez Lara, morto no decurso de um assalto; o seminarista Samuel Gustavo Gómez Veleta, raptado e assassinado; o padre José Acuña Asención Osorio, cujo corpo foi encontrado num rio; o padre John Ssenyondo, encontrado numa vala comum juntamente com outros cadáveres; e o padre Gregorio Lopez Grosotieta, raptado e assassinado.

Na Venezuela foram assassinados os salesianos padre Jesus Erasmus Plaza Salessi e o irmão Luis Edilberto Sanchez Morantes, por jovens que assaltaram o colégio, e o padre Reinaldo Alfonso Herrera Lures.

Nos Estados Unidos morreram os padres Eric Freed e Kenneth Walker, ambos assassinados em circunstâncias que indiciam assaltos violentos. O mesmo se aplica ao padre Gilbert Dasna, morto no Canadá.

Um sacerdote, Andrés Duque Echeverry, foi assassinado na Colômbia. O padre Juan Francisco Blandon Meza, foi morto por um homem desequilibrado, na Nicarágua e no Perú o padre Alfonso Comina Zevallos, foi assassinado na sua casa paroquial.

Três missionários, as irmãs Lucia Pulici, Olga Raschietti e Bernadetta Bogian morreram no Burundi.

Na República Centroafricana, palco de violentos confrontos interreligiosos este ano, o padre Christ Forman Wilibona foi assassinado numa barricada montada por rebeldes muçulmanos e Paul-Emile Nzale morreu, juntamente com outras pessoas, num ataque à sua paróquia.

A irmã Mary Paule Tacke, foi raptada e assassinada na África do Sul e outra freira, Clecensia Kapuli, morreu no decurso de um assalto, na Tanzânia.

Apesar de toda a violência e perseguição aos cristãos que se tem verificado no Médio Oriente, o único caso confirmado de um agente pastoral da igreja assassinado teve lugar na Síria e envolveu o jesuíta Frans van der Lugt, raptado por homens armados e assassinado.

Na Malásia a irmã Juliana Lim morreu depois de ter sido violentamente agredida.

Duas pessoas morreram na Papua Nova Guiné. O padre Gerry Maria Inau e o leigo e ministro extraordinário da comunhão identificado apenas como Benedict morreram durante uma visita pastoral, ao que tudo indica vítimas de violência tribal.

Por fim, apenas uma pessoa morreu na Europa. O padre Lazzaro Longobardi sucumbiu a violentas agressões nos arredores da sua residência paroquial.

Tempo


Não há poder maior no mundo que o do tempo: tudo sujeita, tudo muda, tudo acaba.

Pe. António Vieira


Ano Novo, Vida Nova?

O fulano e o cidadão

 Público  30/12/2014 - 02:57
São já três os problemas substanciais levantados a propósito da prisão preventiva de Sócrates que não me agradam nem um bocadinho.
Quem tem razão é o grande Mário de Carvalho: o género humano continua a ser demasiadas vezes confundido com o Manuel Germano. E vice-versa. A pátria é um verdadeiro Beco das Sardinheiras – muito pouco dada à reflexão sobre os princípios e muitíssimo dada à fulanização das questões. A recente discussão acerca dos direitos de José Sócrates enquanto preso preventivo é um excelente exemplo disso mesmo, e é precisamente pelo facto de toda a gente saber aquilo que eu penso dele enquanto fulano que se torna tão importante vir agora defender aqui os seus direitos enquanto cidadão.
Os amigos de José Sócrates não lhe têm facilitado a vida: há uma espécie de guarda pretoriana do regime, de Mário Soares a Almeida Santos, que está tão convencida da superioridade democrática socialista que acaba a dizer as maiores barbaridades a coberto de uma indignação nebulosa, cujo objectivo prático é a defesa de um tratamento de privilégio para os amigos. Mas se este posicionamento é inadmissível e deve ser criticado com veemência, não devemos cair no extremo oposto, e ignorar as manifestas injustiças do sistema de prisão preventiva só porque a pessoa em causa se chama José Sócrates e – ironia das ironias – as actuais regras que regem as medidas de coacção terem sido por ele aprovadas enquanto primeiro-ministro.
São já três os problemas substanciais levantados a propósito da prisão preventiva de Sócrates que não me agradam nem um bocadinho. Em primeiro lugar, a proibição de conceder uma entrevista presencial ao Expresso, com o argumento de que as suas respostas poderiam condicionar o depoimento de testemunhas. Seria um argumento atendível, não fosse o facto de o segredo de justiça ser diariamente violado e os jornais estarem pejados de pormenores sobre a investigação – será que isso não condiciona o depoimento das testemunhas e da opinião pública? A partir do momento que o segredo de justiça inexiste e Sócrates pode estar um ano inteiro em prisão preventiva, o seu direito à palavra não pode ser atropelado.
Segundo aspecto: as visitas da família. Neste caso, terá sido José Sócrates a recusar um tratamento de excepção, mas convém ficar claro que ele deveria tê-lo. A família de José Sócrates, em particular os seus dois filhos menores, têm todo o direito de visitar o pai sem terem de passar pelo calvário dos microfones e das câmaras de televisão. O Correio da Manhã já prometeu em editorial que não filmará os filhos, mas deveriam ser os próprios serviços prisionais a providenciar para que isso acontecesse. Os tratamentos de excepção justificam-se para situações de excepção, e aqui não se trata só dos direitos de Sócrates – trata-se do direito de dois menores poderem visitar o pai sem serem importunados por isso.
terceira questão prende-se com o dilúvio de encomendas que parece ter-se abatido sobre a cadeia de Évora e a histriónica denúncia de António Arnaut acerca do livro que voltou para trás. Um advogado só ter descoberto agora as regras das prisões portuguesas é bastante ridículo, mas o facto de um preso preventivo só poder receber uma encomenda por mês é mais do que ridículo – é totalmente inaceitável. Inaceitável num condenado, e ainda mais inaceitável num preso preventivo, que dentro do sistema judicial tem o estatuto de presumível inocente. Só reparámos nisto porque o preso em questão se chama José Sócrates? Sim, é verdade. Mas o sistema não passa a ser subitamente mais justo por causa disso.

Papa Francisco: grande mentira fazer crer que existem vidas indignas de ser vividas

Cidade do Vaticano (RV) - É uma grande mentira fazer crer que certas vidas não são dignas de ser vividas: é o que escreve o Santo Padre na Mensagem para o Dia Mundial do Enfermo, a ser celebrado em 11 de fevereiro de 2015 com o tema "Sapientia cordis". "Eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo", extraído do Livro de Jó (29, 15).

"O tempo gasto junto do doente é um tempo santo. É louvor a Deus" – afirma o Papa Francisco –, "que nos configura à imagem do seu Filho", que "não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida para resgatar a multidão" (Mt 20,28).
Abordando o tema em questão na perspectiva da sabedoria do coração, Francisco fala do "valor do acompanhamento", muitas vezes silencioso, que nos leva a dedicar tempo aos enfermos que, "graças à nossa proximidade e ao nosso afeto, se sentem mais amados e confortados".
Ao invés – exclama o Pontífice – "que grande mentira se esconde por trás de certas expressões que insistem muito sobre a 'qualidade da vida' para fazer crer que as vidas gravemente afetadas pela doença não mereceriam ser vividas!"
Às vezes – observa o Papa Francisco – o nosso mundo esquece o valor especial que tem o tempo gasto à cabeceira do doente, porque, obcecados pela rapidez, pelo frenesim do fazer e do produzir, "esquece-se a dimensão da gratuidade, do prestar cuidados, do encarregar-se do outro". No fundo, pondera o Papa, "por trás desta atitude, há muitas vezes uma fé morna", que esqueceu a palavra do Senhor que diz: "a Mim mesmo o fizeste" (Mt 25, 40).
Por isso, Francisco recorda mais uma vez "a absoluta prioridade da 'saída de si próprio para o irmão', como um dos dois mandamentos principais que fundamentam toda norma moral e como o sinal mais claro para discernir sobre o caminho de crescimento espiritual em resposta à doação absolutamente gratuita de Deus" (Exort. ap. Evangelii gaudium, 179).
A caridade precisa de tempo, prossegue a Mensagem. "Tempo para cuidar dos doentes e tempo para os visitar. Tempo para estar junto deles". Mas é preciso não tornar-se como os amigos de Jó, que "escondiam dentro de si um juízo negativo acerca dele": pensavam que a sua infelicidade fosse o castigo de Deus por alguma culpa dele.

Pelo contrário, continua o Papa, "a verdadeira caridade é partilha que não julga, que não tem a pretensão de converter o outro; está livre daquela falsa humildade que, fundamentalmente, busca aprovação e se compraz com o bem realizado"A experiência do sofrimento – escreve Francisco – "só encontra a sua resposta autêntica na Cruz de Jesus, ato supremo de solidariedade de Deus para conosco, totalmente gratuito, totalmente misericordioso. E esta resposta de amor ao drama do sofrimento humano, especialmente do sofrimento inocente, permanece para sempre gravada no corpo de Cristo ressuscitado, naquelas suas chagas gloriosas que são escândalo para a fé, mas também verificação da fé" (cf. Homilia na canonização de João XXIII e João Paulo II, 27 de abril de 2014).
Então – prossegue o Santo Padre – "também as pessoas imersas no mistério do sofrimento e da dor, se acolhido na fé, podem tornar-se testemunhas vivas duma fé que permite abraçar o próprio sofrimento, ainda que o homem não seja capaz, pela própria inteligência, de o compreender até ao fundo".
O Papa Francisco recorda, portanto, os muitos cristãos que também hoje testemunham, não com palavras, mas com a sua vida radicada numa fé genuína, ser 'olhos para o cego' e 'pés para o coxo'! Pessoas que estão próximas dos doentes que precisam de uma assistência contínua, de uma ajuda para lavar-se, para vestir-se, para alimentar-se.Esse serviço, especialmente quando se prolonga no tempo, pode tornar-se cansativo e enfadonho. É relativamente fácil servir por alguns dias, mas é difícil cuidar de uma pessoa durante meses ou até mesmo durante anos, inclusive quando esta não é mais capaz de agradecer. Todavia – afirma o Papa Francisco –, é um "grande caminho de santificação". (RL)

Crónica de Natal (4): 1975, o ano de todos os retornados

20 anos depois, na sua casa da Rodrigo da Fonseca, o velho africano de Sumbe pede: "não me falem de Angola, não quero saber"; e contudo, durante anos, frequentou a tertúlia dos angolanos ao Rossio. 

A conversa passa-se na varanda de uma vivenda algures na província do Quanza-Sul, numa cidade hoje chamada Sumbe (então Novo Redondo). Diz o militar recém-chegado da metrópole ao cunhado: "tira daqui o teu dinheiro, vende a casa, isto vai rebentar". Responde o outro: "esta é a terra onde nasci meu caro, os meus filhos são do planalto, os netos crescerão angolanos e os meus ossos cá apodrecerão – só morto saio da minha terra".
No ano de 1975 ocorreu uma das maiores e mais rápidas transumâncias humanas de que há memória: mais de meio milhão de pessoas deixaram casas e haveres e voltaram a uma terra de que boa parte delas não partira. O êxodo foi também um dos que se fez a maior distância, dos fundos de África à Ocidental praia lusitana.
O cunhado do militar não saiu de Sumbe até não ter outro remédio: os sul-africanos aproximavam-se e quase todos os europeus (eufemismo usado para evitar que me acusem de racismo) já tinham partido. Ao chegar ao exílio, desabafou: "só restava eu".
De Angola veio o maior contingente, Moçambique foi logo a seguir, em muito menor número os exilados de Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, e foi tudo. Não foi tudo:  acompanhou a ponte aérea – e a marítima, em muitos casos – um sofrimento que nenhuma notícia transmitiu fielmente, porque em Portugal, na velha metrópole, viviam-se dias de chumbo, e a comiseração pelo mal alheio, mesmo de compatriotas distantes, era bem escasso.
Vi com meus olhos visto o seguinte: algures em Janeiro de 1975, após os Acordos de Alvor (como os adjectivar?), um unimog (julgo) estacionou na Praça Maria da Fonte, antiga dos muatas, cerca do mercado do Kinaxixi. Dele desembarcou um grupo de soldados. Experiência efémera de integração, o contingente compunha-se de 2 membros de cada um dos movimentos de libertação e de 2 soldados portugueses. Destacavam-se estes, em comparação com os africanos, pelos cabelos compridos, barba por fazer e o geral estado de abandalhamento inspirado no PREC metropolitano. Portugal no seu pior?
Sobre a descolonização portuguesa foram muitas as vozes e poucas as nozes. Marcelo Caetano: "não é tão fácil (descolonizar) em territórios onde se formaram grandes e prósperas sociedades (…) já desenvolvidas economicamente (…) Em sociedades assim (…) não é possível de um dia para o outro levantar as tendas e partir, abandonando tudo a que se criou amor, – para quê…?"; Mário Soares em entrevista ao Der Spiegel em 1974: "P- O que será dos brancos que não querem ficar em África? Em Moçambique já se iniciou entre os brancos um grande movimento de fuga. R – É verdade. Mas estou certo que 2 anos após a independência e quando as instituições do País funcionarem razoavelmente, haverá mais portugueses em Moçambique que hoje…"; e a reivindicação: Nem mais um soldado para as colónias! De tudo um pouco se ouviu e, a cada cabeça, sua sentença. Ainda hoje, realce-se.
Mas não é a questão política que quero evocar. É o aspecto humano da descolonização. A ponte aérea. A noite de Luanda em que os aviões da Tap sobrelotados foram alvo de tiros provenientes dos musseques vizinhos e levantaram em quase total escuridão, rumo a Norte. Os caixotes nos cais, milhares. As casas abandonadas, as famílias dispersas. O medo. O medo.
20 anos depois, na sua casa da Rodrigo da Fonseca, o velho africano de Sumbe pede: "não me falem de Angola, não quero saber"; e contudo, durante anos, frequentou a tertúlia dos angolanos ao Rossio. Nos dias do fim, já quase não saía de casa, leu-me de um papel amarrotado um poema: "Parado junto à praia a olhar o mar,/Sozinho é da família o último membro./Arrasta-se a semana, a não passar,/Nos dias ainda frescos de Setembro.//Sem mais para fazer cruza a cidade/Num caminhar sem rumo desgarrado/E a cada passo entranha-se a saudade/E o chão que pisa é chão do seu passado.//Da áfrica mãe despede-se, o seu filho/Regressará a um país de que não veio./Cultivará batata e vinha e milho//e não mais o café do seu destino,/e nunca mais os trópicos no seio/papaia ou mandioca. Só pepino…". Perguntei quem o escreveu, sorriu sem responder… morreu semanas depois.
Ao chegar à metrópole, angolanos, moçambicanos e os outros foram rotulados de retornados… mesmo os que nunca tinham posto pé em solo europeu. Foi criado o IARN, uma espécie de administração pública só para eles. Instalados em campos de férias e muitos outros locais, a maioria trazia no bolso apenas os 5 mil escudos dados pelos governo e no coração saudades do solo vermelho, do cheiro a terra. Do cacimbo pleno e dos horizontes rasgados. Do mítico raio verde que poucos entreviram, mas alguns viram. Ao chegar, foram recebidos como intrusos: eles eram os que tinham vivido a explorar os africanos, à tripa forra; pois agora que penassem, podia lá ser que viessem roubar os empregos aos de cá. Mas depressa foram aceites e poucos anos depois já ninguém falava dos retornados: cruzamo-nos todos os dias com eles sem sequer saber que o são e, se o soubermos, é-nos indiferente. Caso raro nas descolonizações, pois o estigma do explorador cola-se quase sempre à pele dos antigos colonos, como acontece com os "pied noir" da antiga Argélia francesa (tão perto de casa…).
"Tive alguns colegas negros no liceu, tipos espertos, mas eram uma excepção, a maioria não passava da primária ou dos primeiros anos", conta um amigo expatriado, como prefere ser chamado. "Não havia uma classe média africana, pelo menos ainda não". Saber se teria chegado a haver é interrogação de impossível contra factual sujeita a todas as especulações.
Nos últimos anos, finalmente, começaram a ser publicados livros e histórias muitas sobre a descolonização e o seu mais humano e pungente resultado: os retornados. Irá Portugal finalmente acertar mais esta conta – e pesada que é – com o seu passado e os fantasmas que o povoam?
Em 2015 passam 40 anos sobre o regresso a casa daqueles que não lhe pertenciam. Espero que este seja o ano em que lembramos o Ano de Todos os Retornados.
Professor da Universidade Católica – Instituto de Estudos Políticos

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Pode a democracia eleger o mesmo homem durante 40 anos?

RR 29-12-2014 16:48 por Raquel Abecasis

Na democracia portuguesa a longevidade de Alberto João Jardim é caso único, mas ele não é o único a querer desafiar todas as regras de longevidade. Pode, mas não deve. A prova disso é a Madeira. Alberto João Jardim foi eleito ao longo de 40 anos para líder do PSD regional e ao longo de 37 para presidente do Governo Regional. E no final o que fica? Sobretudo cansaço, muitas críticas por alegado desvirtuamento das regras democráticas e uma ilha, que, apesar do desenvolvimento histórico a que assistiu no tempo da democracia – passou de ilha pobre e triste para uma das regiões mais desenvolvidas do país e um dos maiores pólos de atracção turística -, olha para si própria com complexos, vergonha e medo de falar. 2015 ainda não começou, mas já é um ano histórico para o arquipélago da Madeira. Quarenta anos depois, a democracia consegue eleger um novo líder. Seja ele quem for, o passo adulto da democracia madeirense é já uma certeza: Alberto João Jardim vai-se embora e deixa o caminho livre a quem vier por bem. Neste novo ano, a Madeira retoma o seu orgulho e Alberto João Jardim procura o seu lugar, iniciando um caminho muito mais difícil do que seria de esperar se tivesse usado a sua habilidade política para saber afastar-se a tempo e horas, podendo assim ambicionar ao justo reconhecimento do povo madeirense e a um lugar mais alto na política a que poderia ter ambicionado se tivesse saído mais cedo. Em política é tão importante saber entrar na hora certa, como perceber o momento em que nos devemos afastar. É também para isso que servem os partidos e neste caso o PSD foi inimigo de Alberto João Jardim. Provavelmente por medo do seu carisma e da sua frontalidade, os vários líderes do partido resistiram sempre a convocá-lo para outros voos. Foi um erro que a Madeira pagou caro e que agora vai fazer penar o homem da Madeira nos discretos corredores do parlamento lisboeta. Na democracia portuguesa a longevidade de Alberto João Jardim é caso único, mas ele não é o único a querer desafiar todas as regras de longevidade. Talvez o caso presente possa servir de lição para outros líderes da nossa praça.

Alguém disse liberalismo?


    A conversão do deputado Carlos Abreu Amorim tem justificado algumas lições sobre o liberalismo e a sua oportunidade. Como acontece com todos os outros "ismos", o liberalismo — no singular — só existe em teoria. Na história, nunca houve um liberalismo, mas vários "liberalismos", como Oliveira Martins notou no "Portugal Contemporâneo", que continua a ser o grande livro sobre a experiência liberal portuguesa do século XIX. Foram liberais o duque de Palmela, Passos Manuel, Costa Cabral, Fontes Pereira de Melo, e basta este rol de nomes para sugerir a diversidade do "liberalismo" histórico, porque é evidente que o "progressista" Passos Manuel e o "conservador" Costa Cabral não foram liberais da mesma maneira. Liberalismo era então como a "democracia" hoje: um rótulo de que quase toda a gente se procurava apropriar, e até ter o exclusivo. Mais de um século depois, é precisamente o contrário no actual regime democrático: hoje, nenhum político se diz liberal, e os que aparentemente o eram já deixaram de o ser, como Carlos Abreu Amorim, a quem a aparição de Ricardo Salgado terá feito perder a fé.
    Em teoria, podemos chamar liberalismo à preferência por um Estado e uma sociedade fundados na independência individual do cidadão, o que pressupõe um poder limitado e o reconhecimento de uma esfera privada. Historicamente, o "poder limitado" resultou do uso ilimitado do poder para redesenhar instituições, e a delimitação de uma esfera privada começou frequentemente com agressões às crenças da maioria da população, como sempre que foi necessário reduzir uma religião colectiva a uma simples fé pessoal. Em sociedades como a portuguesa, tudo passou pelo "despotismo da liberdade", como pitorescamente se dizia no século XIX. É verdade, mas também é verdade que os Estados e as sociedades assim formatados geraram muito mais do que o relógio de cuco da anedota de Orson Welles: por exemplo, a liberdade de imprensa. Por mais constrangimentos que lhe possamos encontrar, é mais real nos regimes de inspiração liberal do que em qualquer outro tipo de sistema.
    Para que serve o liberalismo teórico? A mim serve-me, por exemplo, para perceber que o chamado Estado social pode ser um meio de dar oportunidades a muita gente, mas é também uma via para reduzir populações inteiras à condição de utentes controlados por burocracias anónimas. Mas há coisas para que não preciso para nada do meu liberalismo. Por exemplo, para compreender que os políticos correm um risco demasiado grande ao assumir compromissos que não podem pagar, que a defesa do crédito é hoje a melhor maneira de evitar uma ruptura social, ou que convém fazer crescer a riqueza, e que neste momento os mercados abertos da globalização são a via mais adequada para esse fim. Para perceber isto, não preciso do liberalismo.
    No entanto, é este o sentido que liberalismo tem no debate político português. Chama-se "liberalismo" à urgência de equilibrar as contas do Estado ou à necessidade de, numa época de endividamento e desemprego, tornar a economia competitiva internacionalmente — como se só aos "liberais" pudessem ocorrer essas opções. É por isso que na Europa, todos os governantes são acusados de "liberalismo", estejam à esquerda ou à direita: Passos ou Rajoy, mas também Renzi ou Hollande. Não interessa o que cada um deles é ou diz que é: basta que diminuam um subsídio ou façam uma reforma, mesmo contrafeitos, para passarem a ser "liberais".
    Este uso indiscriminado de liberalismo não corresponde, como é óbvio, a um diagnóstico, mas a um embuste: as oposições tratam assim de impor uma identidade ideológica às operações de equilíbrio do Estado social e de estímulo da economia, de modo a fazer crer que são apenas um mero capricho doutrinário, sem qualquer outra razão de ser. Somos assim convidados a acreditar que o mundo é como é apenas porque os "liberais" mandam, e que portanto bastará afastar os "liberais" para que outro mundo — de abundância sem custos para ninguém — seja imediatamente possível. Não, isto não é um debate. É apenas demagogia e desonestidade.

    Deixem o Capitão Haddock beber


    Tem qualquer coisa de hipócrita esta nossa obsessão em limar os defeitos de heróis da nossa juventude, ou aperfeiçoar as suas histórias e aventuras, para que tudo esteja adequado ao consumo dos tempos modernos. Lembrei-me disso neste Natal, quando uma das crianças da família recebeu um livro de aventuras d'Os Smurfs ("O Ataque da Mosca Bzz"). É que, nessa aventura, cada Smurf picado pela tal mosca transforma-se num Smurf mau e vê a sua cor alterar-se de azul (cor natural dos Smurfs) para roxo (cor dos Smurfs maus). Ora, quando eu li essa história, os Smurfs maus eram negros-carvão. Mas, entretanto, alguém terá visto aí um inaceitável incentivo ao racismo.
    Basta uma breve pesquisa pela internet para constatar que, ao longo dos anos, têm sido dezenas as alterações às histórias de banda desenhada e aos filmes infantis, variando consoante o país onde são publicadas. O Lucky Luke deixou de fumar, trocando o cigarro na boca por uma palha. Os irmãos Dalton, os seus eternos inimigos, nunca mais foram alvejados pelos tiros dos revólveres. Nas aventuras do Pato Donald no Oeste, as armas deixaram de ser apontadas a outras personagens, e só se apontam dedos em forma de pistolas. Nas suas aventuras na África negra, os indígenas trocaram os dentes afiados por um sorriso perfeito e, claro, deixaram de ser canibais. O Tio Patinhas viu a sua aventura na América banida porque os índios eram demasiado semelhantes entre si (o que foi visto como uma forma de racismo). E o Capitão Haddock, veterano marinheiro, alcoólico temperamental e parceiro de aventuras de Tintim, deixou de beber.
    Ora, este tipo de censura dificilmente poderia ser mais hipócrita, na medida em que não é feito a pensar nos mais jovens. É feito para satisfazer (e impor) os nossos preconceitos de adultos.
    De facto, não é plausível que alguém comece a fumar para imitar o Lucky Luke ou anseie andar aos tiros por causa de uma aventura do Pato Donald. Da mesma forma que nenhum jovem se inicia nos shots de whisky por inspiração do Capitão Haddock, ou adere ao racismo por causa de um Smurf roxo ou negro-carvão – de resto, para uma criança, há mesmo diferença?
    Este tipo de censura é para nós, adultos, que vivemos obcecados com o politicamente correcto e que identificamos em qualquer pequena característica pessoal ou social a promoção de vícios morais – racismo, violência, alcoolismo. Daí esta tentação justiceira de reescrever tudo o que está escrito, tornando-o aceitável aos nossos padrões modernos: o vilão tem de ser branco, porque se fosse negro era racismo; o herói não pode beber nem fumar, porque isso é dar um mau exemplo; as minorias étnicas têm de ter bom ar, porque senão é xenofobia.
    O que hoje se produz (na televisão ou na animação) é, geralmente, assim: um conjunto de clichés para não ofender ninguém. O que antes se produzia não era e, eventualmente, ofendia algumas almas sensíveis. Agora tudo tem sido alterado para reposição dos nossos valores. Na verdade, não é algo que surpreenda, visto que, com a globalização e a cultura de massas, a tentação é a de agradar a todos (evitando irritar alguém). Surpreendente mesmo é o critério: quem vê problema nos cigarros do Lucky Luke não o vê na Miley Cyrus (que tem milhões de adolescentes a seguir os seus passos) a cantar nua enquanto lambe bolas de metal.
    Entre tanta hipocrisia, a maior de todas é esta: achar-se que isto é o reflexo de uma sociedade mais tolerante. Pelo contrário: a obsessão pela tolerância (sob a máscara do politicamente correcto) tornou, em muitos aspectos, a nossa sociedade mais intolerante. O Capitão Haddock que o diga.

    Alegria


    Pode-se ficar alegre consigo mesmo durante certo tempo, mas a longo prazo a alegria tem de ser compartilhada por duas pessoas.

    Henrik Ibsen
    (1828-1906)
    dramaturgo norueguês