domingo, 31 de agosto de 2014

Mistérios da fé: os Zés que fazem falta


Enquanto lisboeta regozijo-me por José Sá Fernandes ter a seu cargo os jardins. Suponha-se que lhe tinham dado rédea livre para as estátuas, cruzes, bibliotecas pejadinhas de livros ultrapassados?
O carácter messiânico da esquerda que quer sempre ser mais esquerda, mais pura e que passa a vida a garantir que agora é que vai ser produz a nível internacional fenómenos como Hollande (são dignos de uma antologia da fé os títulos da imprensa portuguesa após a eleição de Hollande) e, numa pequena escala, gera fenómenos como José Sá Fernandes que assim que passam das palavras aos actos se assemelham àqueles balões que mal saem das mãos do vendedor para as da criança começam a perder gás. (Ainda não me recompus dos cinco euros que dei por um balão Hello Kitty na precisa semana em que se descobriu que a dita afinal não é uma gata mas sim uma menina e para meu azar o balão também descobriu que não quer ser balão e está para ali mais vazio que os nossos bolsos depois de pagarmos os impostos com que este governo mais liberal de sempre nos presenteia.)
Pois o nosso Zé, o tal que nos garantiam fazia falta, é uma dessas figuras. Agora deu-lhe para embirrar com os buxos da Praça do Império: "estão ultrapassados" diz a assessoria de imprensa do vereador que, talvez no entusiasmo de finalmente ter algo para comunicar, importou para a jardinagem um conceito da propaganda totalitária: só se conserva o que está de acordo com a ideologia dominante. O passado e o não conforme apagam-se. Cortam-se. Deixam-se secar.
Felizmente para nós que o vereador Sá Fernandes tem o pelouro dos jardins e assim só lhe sobram os buxos da Praça do Império e, daqui lhe lanço o meu repto, terá também de intervir nas hortas da capital, pois terá de admitir o senhor vereador que nisto de hortas citadinas, mais a mais biológicas, Salazar foi precursor. O senhor vereador já pensou que em cada lisboeta que planta verduras por essa capital fora se esconde um manhoso português sempre a dizer que tem saudades do campo, que na sua aldeia é que se está bem mas que depois não despega daqui nem por nada? Eu se fosse ao senhor vereador instituía um exame de anti-salazarismo aos candidatos a hortelões, para avaliar das suas intenções progressistas, porque sem essa avaliação corre-se o risco de cada pé de couve que medra na capital se transformar numa ode ao pretérito chefe de Governo, para todos os efeitos patrono honorário das hortas nesta Lisboa que desde o rinoceronte que el-rei D. Manuel I, o Venturoso de seu cognome, mandou ao Papa Leão X, já viu tanta coisa que nada a espanta. Nem sequer o senhor vereador!
De qualquer modo enquanto lisboeta regozijo-me por José Sá Fernandes ter a seu cargo os jardins. Suponha-se que lhe tinham dado rédea livre para as estátuas, cruzes, azulejos, bibliotecas pejadinhas de livros ultrapassados e demais símbolos doutros tempos? Não havia picaretas nem fogueiras que chegassem! Imaginem o que seria de nós se o vereador olhasse com olhos de ver para a fachada dos Jerónimos? Para a Torre de Belém? Para a esfera armilar que está no pelourinho da Praça do Município?… Lisboa tornar-se-ia num imenso Chão Salgado ou, numa versão mais épica, numa Cartago após a passagem de Cipião: todo o vestígio do passado seria apagado.
Assim com os buxos a coisa é mais fácil e menos aparatosa. E sobretudo talvez finalmente o senhor vereador consiga fazer alguma coisa. Porque por assim dizer o senhor vereador é uma espécie de personificação do inconseguimento, palavra do afecto da presidente do nosso parlamento e que colocou meio país a tremer quando, no 10 de Junho, Cavaco Silva desmaiou e já todos nos víamos no sarilho do inconseguimento de Assunção Esteves ter conseguido ser Presidente da República, facto que transformaria num detalhe a rasoura que Sá Fernandes prepara aos buxos da Praça do Império. Mas deixemos essa terrífica visão presidencial no domínio do hipotético, que já temos agasturas que nos bastem, e voltemos ao nosso Zé que fazia falta, agora senhor vereador.
Que me recorde, o Zé enquanto vereador começou por querer criar uma marca de vinho e de azeite da capital. Nesta versão empreendedora também cogitou comercializar as amêijoas e as corvinas do Tejo. Estávamos então em Agosto de 2007. Para trás tinha ficado a fase em que Sá Fernandes era tão só advogado e se dedicava de alma e coração às providências cautelares que por pouco transformaram o Marquês de Pombal em campo santo. Aliás por alguns meses o terreno da Rotunda foi mais sagrado que o solo de Meca. Na santíssima graça do Senhor e também por abençoada intervenção da fraternidade devota do marquês, o Zé tornou-se vereador e Lisboa pode voltar a ser perfurada à vontade sem que a tribo do Zé e seus Zezinhos tivesse frémitos de agonia de cada vez que um martelo pneumático toca o alcatrão da capital. (Igualmente abençoado com a infinita graça de 18,1 milhões de euros foi o consórcio responsável pela obra e que colocou a Câmara de Lisboa em tribunal por causa das obras paradas no túnel do Marquês de Pombal. Mas note-se que os lisboetas até ficaram agradecidos por só terem pago 18,1 milhões de euros de indemnização, pois, como pressurosamente os jornalistas escreviam, a Câmara até conseguira poupar 6,5 milhões no acordo que fez com o dito consórcio, já que o tribunal fixara o valor da multa em 24,6 milhões de euros. Não sei se o Zé vereador participou nestas reuniões em que se tratava das multas provocadas por Zé impugnador ou se andava no Tejo em busca das corvinas. Mas estou em crer que o consórcio deve ir a Fátima todos os anos rogar para que Nossa Senhora, que tanto pode, dê muita saúde ao senhor vereador e sobretudo para que este quando deixar as presentes funções se dedique de novo às saudosas e benfazejas providências cautelares.)
É certo que o executivo municipal não acompanhou o Zé nos negócios da agricultura e da pesca. Assim o nosso Zé virou-se para o ar e em Fevereiro de 2008 anunciou a Parada do Vento. A mesma começou por ter uma designação apropriadamente em inglês, Wind Parade 2008, e constava de 25 torres eólicas, com a altura de quatro andares, que iriam ser instaladas junto da segunda circular, no Jardim Amália Rodrigues, no Parque Recreativo dos Moinhos de Santana, no Alto da Serafina, no Parque da Belavista, na Avenida da Índia, nos Olivais, na Piscina Municipal da Boavista, na Avenida Calouste Gulbenkian, junto à Cordoaria Nacional e na Avenida Padre Cruz. A Wind Parade surgia apadrinhada pelas European Wind Energy Association, Sustainable Energy Europe e Associação Portuguesa de Energias Renováveis que nestas coisas o nosso Zé arranja sempre muitos nomes para o apoiar. O vereador Sá Fernandes sabia de fonte certa que cada turbina, por ano, pouparia até 2,15 toneladas de CO2 e daria um rendimento de 2184 euros. Em Março, as turbinas já estavam reduzidas a quinze. Afinal Lisboa tem ventos que chegam e sobram, mas estes não correm de modo a produzir energia. Pouco depois a Wind Parade ficou transformada num evento simbólico em que se colocariam apenas algumas turbinas, para que o cidadão a elas se habituasse. E por fim nem isso.
Após esta desfeita que lhe foi pregada pelos ventos, o vereador voltou de novo à terra. E virou-se para os jardins. O Príncipe Real – aí está uma designação toponímica ultrapassadíssima pois já não existindo em Portugal príncipes menos se entende que se distingam os príncipes uns dos outros! – foi uma das vítimas das intervenções do Zé que de fazer falta no executivo estava nesta fase quase a tornar-se no Zé que o executivo já não podia ver e sobretudo não queria que fosse visto. O subsolo parecia ser um local apropriado a energia criativa do vereador. Em boa verdade o pavimento de alcatrão do Jardim do Príncipe Real não tinha problema algum mas Sá Fernandes entendeu que o mesmo devia ser substituído por um saibro estabilizado, feito à base de pó de vidro reciclado. Garantia então o vereador que só quem tivesse "memória curta" não veria as melhorias no piso. Se por melhoria se entender um irrespirável terreiro de pó no Verão e um lamaçal no Inverno pode falar-se em melhoria. Dado que ninguém confirmava a melhoria, antes pelo contrário, a CML optou por pulverizar o pavimento com uma espécie de cola que evitaria a libertação do pó de vidro no ar. Resultado: o piso do Jardim do Príncipe Real, que nesta fase parecia um campo experimental da guerra química, abateu e rachou.
E então Sá Fernandes desgostoso com o Tejo que não lhe deu amêijoas nem corvinas, triste com a Tapada da Ajuda que não produzia azeite nem vinho, traído pelos ventos que não geraram energia, malquisto com o solo da capital que qual praga bíblica ora se desfazia em pó ora se fendia, virou-se para os buxos da Praça do Império. Não trata deles. E pronto! Desde que Gomes da Costa nos finais do século XIX resolveu adequar à sua visão da História os quadros dos vice-reis da Índia e demais notáveis da nossa História que ornamentavam o Palácio do Governo na Índia portuguesa que não se via uma coisa assim. O militar, que havia de chegar a Presidente da República, não satisfeito com as representações pouco grandiosas desses nossos preclaros antepassados, avançou de pincel para os quadros e, mais barba menos armadura, compôs-lhes as vetustas figuras com a mesma resolução que depois o notabilizaria na guerra e nos golpes de Estado. O resultado foi mais devastador para a memória do Império que o arranque dos buxos dos brasões que o senhor vereador se propõe agora levar a cabo: ao certo não se sabe quem é quem naquela sucessão de heróis que nos olha, severa e atónita com o despautério, em 75 painéis, 42 dos quais recriados a gosto por aquele que anos mais tarde se tornaria no marechal Gomes da Costa.
Ora não há-de o senhor vereador ser menos que Gomes da Costa. Ele criou-nos um imbróglio histórico com as barbas de Afonso de Albuquerque e chegou a Presidente da República. O senhor vereador que por esse seu percurso também me parece talhado para mais altos voos quer alterar os brasões. Por mim, como lisboeta que sou, estou por tudo: se já paguei a obra anunciada num túnel, mais a multa pela providência cautelar e ainda a nova obra no mesmo túnel, porque não hei-de agora pagar o desbaste dos buxos mais as plantinhas que os irão substituir? Desde que não os substitua por aqueles calhaus e três pés de bambu que agora ornamentam tudo que é jardim e que a mim me destrambelham os nervos, tudo bem. E já agora, se findo este mandato municipal pensa voltar ao activismo das providências cautelares avise para o mail que segue abaixo porque nesse caso eu monto um consórcio e vou dedicar-me às obras públicas com as quais espero que o senhor vereador então já advogado volte a embirrar. Ou então montamos uma empresa de jardinagem.
Como o senhor vereador calculará eu sou uma mulher conservadora, logo nutro uma forte embirração para com as áreas mais rentáveis da jardinagem, a saber o cultivo de produtos alternativos ao tabaco. (Valha a verdade também já estamos os dois um bocado velhos para andarmos a brincar aos hippies, coisa que feita a consabida excepção aos Rolling Stones só é esteticamente aceitável até aos vinte e poucos anos.) Mas não digo que não à produção de buxos. Com formatos actualizados e ultrapassados.
A sério, o futuro de José Sá Fernandes preocupa-me. Porque, assim como assim, nós vamos ter sempre de aturar e sustentar os Zés que os messiânicos de serviço colocam no andor. E convenhamos que na galeria dos candidatos a tal lugar José Sá Fernandes até nem é dos piores. Nem o que nos causará mais dano. Perigosos são aqueles que se serviram dele e que agora o largam como coisa descartável que é e já andam por aí noutras procissões com outros que garantem fazer falta no andor.

Muita tabuleta ele vai ter de apagar

FERREIRA FERNANDES
DN 29 agosto 2014

A Praça do Império tem brasões florais das ex-colónias no jardim. O vereador Sá Fernandes quer que sejam eliminados porque brasões de ex-colónias "estão ultrapassados". É um critério e está bem defendido:ex quer dizer estar ultrapassado. Mas brasões e tabuletas existem também para lembrar coisas que acabaram. Se vamos acabar com tudo que acabou, a Praça do Império vai na enxurrada, aliás como o seu autor, Cottinelli Telmo, que também tem praça. Outra: a Rua Cidade de Salazar, no Bairro das Colónias. Parece um buraco negro: já não há colónias, nem Salazar, nem Cidade de Salazar (hoje chama-se Ndalatando). O problema é que se vamos por aí também há argumentos para acabar com a Praça da Alegria. Mas se acabamos com coisas que acabaram ou que dizem coisas com que não gostamos hoje, caímos naquilo de o apetite vir com o comer. O Beco da Ré vira Beco da Arguida. O Beco do Carrasco parece morar em Estado Islâmico. O Beco das Beatas pode ser contestado nas duas versões, contra o tabaco e o proselitismo religioso. A Avenida da Igreja merece um ponto de ordem: qual? A Triste-Feia lembra uma cidadã a quem os rapazes de Alcântara lançavam "que focinho de porca!" - queremos mesmo lembrar isso? O Jardim das Pichas Murchas (em São Vicente de Fora) faz contrapropaganda a conhecido produto farmacêutico. A Travessa do Fala-Só é inaceitável em tempos democráticos. À Avenida Mouzinho de Albuquerque só pergunto: foi justo o que se fez a Gungunhana?

Salamanca: a escola do universo

VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
DN 2014.08.31
Quando nos aproximamos de Salamanca, a cidade banhada pelo Tormes, o seu casco histórico, Património Mundial desde 1988, brilha como uma seara de trigo debaixo do sol. Há muito para ver. Mas o coração espiritual da cidade palpita entre o Convento Dominicano de Santo Estêvão (que está unido à igreja plateresca consagrada ao mesmo santo) e a universidade. Foi aqui que no dealbar do século XVI nasceu a famosa Escola de Salamanca, que foi a semente das modernas teorias do direito internacional (na altura "direito das gentes"), em profunda ligação com uma doutrina igualitária e universalista dos direitos humanos. Perto do convento ergue-se a estátua do fundador da escola, Francisco de Vitoria (1483-1546), o académico brilhante que nas suas Lições de 1539, dedicadas aos "Índios" e ao "Direito de Guerra", destruiu a boa consciência dos conquistadores, mostrando que o império que Espanha construía no Novo Mundo era baseado em títulos ilegítimos. Fundado na violência e não no direito natural. Os navegadores portugueses e espanhóis haviam oferecido à humanidade a verdadeira dimensão geográfica do planeta, colocando a América no mapa, e cartografando a África meridional profunda e os mares austrais. Em Salamanca nasceu a Escola Ibérica da Paz. Através de mestres espanhóis e portugueses, na sua maioria intelectuais dominicanos, jesuítas e franciscanos, foi levada a cabo a tarefa de integrar um mundo desmesurado e alteroso, debaixo de uma ordem moral, jurídica e política que permitisse a paz, em vez da guerra, a justiça em vez da opressão. Ao contrário do racismo para com os povos não europeus, que tutelaria a Conferência de Berlim (1885), em Évora, Coimbra ou Valladolid propunha-se o respeito e a igualdade entre todos os seres humanos. Em Salamanca começou a esperança de um dia podermos ser cidadãos do mundo. De pleno direito.

«Priest holes» (esconderijos de padres)


José Maria C. S. André
«Correio dos Açores», «Verdadeiro Olhar», 31-VIII-2014

Chegou a altura de o povo britânico conhecer a sua história, é o que agora pensam os historiadores do Reino Unido. Não basta ler o que há escrito? J. J. Scarnbrick, Christopher Haig, Eamon Duffy, Diarmaid MacCulloch e outros académicos dizem que a história foi distorcida, ao serviço de uma mensagem, e é preciso recuperar as fontes. Tudo muda. Os novos livros fazem lembrar as obras antigas monumentais do Lingard, do Milner, ou a síntese do Cobbett, geralmente desprezadas como «propaganda católica».
O impacto deste novo olhar sobre os últimos quinhentos anos de história é imenso, porque, em certo sentido, é a própria identidade deste Povo que está em causa. Além disso, o movimento «revisionista» não é uma moda extravagante, é a unanimidade dos principais especialistas. Dizia-me um professor da universidade que a história do Reino Unido já não volta atrás, depois do revisionismo. Começa a aparecer um «pós-revisionismo», mas nada que ponha em causa aquela ruptura com a história habitual. 
Ao mesmo tempo, é interessante notar que os revisionistas são revisionistas por razões científicas. Em geral, não alteraram as suas convicções religiosas. Alguns já eram católicos ou converteram-se ao catolicismo, mas a maioria continua a achar que o catolicismo é uma religião de pobres e italianos. O surpreendente – reconhecem os historiadores – é que esses marginais tenham realizado coisas tão extraordinárias, apesar de séculos de perseguição. Tiveram um papel determinante na educação e ainda hoje são maioria nas áreas da enfermagem e do apoio social, além de que produziram figuras de primeiro plano no âmbito da cultura.
A nova visão da história tem facetas inesperadas e até divertidas do ponto de vista turístico, como os «priest holes». A maioria já desapareceu, mas ainda se conservam muitas centenas, que se podem visitar. Estes buracos são cavidades no interior das paredes, ou poços por baixo do soalho, para esconder os padres que iam, de casa em casa, celebrar a Missa. A polícia vigiava (numas épocas mais do que noutras) e o jogo era a sério. Os disfarces e os sistemas para alimentar os padres dentro do buraco eram variados e imaginativos. Um passo em falso significava morte. Porque, desde o tempo de Henrique VIII, houve o cuidado de considerar que o catolicismo não era uma religião mas uma traição à pátria. Assim, evitava-se reconhecer a perseguição religiosa e as penas eram mais pesadas e sem apelo.
Li relatos de católicos ingleses que viajavam ao estrangeiro e ficavam escandalizados pela pressa com que se celebrava a Missa, mesmo em Roma. Imagino que estivessem habituados a Missas pouco frequentes, às escondidas, celebradas por um padre saído do «priest hole», alimentado através da gaveta da cómoda.
Ser padre, naquela época, era complicado. Os rapazes ingleses tinham de fugir do país para ir estudar para um seminário, em Roma, em França, em Espanha, na Bélgica. Até em Lisboa havia um seminário, na Travessa dos Inglesinhos, que funcionou até 1973. Para as famílias não serem perseguidas, os estudantes mudavam de nome, mal desembarcavam no continente. Em Roma, S. Filipe de Neri ajoelhava na rua, quando passava em frente do colégio dos ingleses e honrava-os como se tivessem sido mártires. Terminada a formação no seminário e ordenados, os padres regressavam clandestinamente à sua ilha e, de casa, em casa, dedicavam-se a atender os católicos. Às vezes, a coisa acabava mal. Mas, enquanto durava, era bom.
Os católicos ingleses nunca sabiam quando podiam voltar a confessar-se e assistir à Missa, de modo que queriam saborear esses momentos. No Continente, a Missa era tão rápida! Nem dava tempo para a pessoa se concentrar. Pelo menos, é o que os ingleses achavam.


Padres do Colégio dos Inglesinhos, em Lisboa, acabados de ordenar pelo Núncio Apostólico, no princípio dos anos 60.

sábado, 30 de agosto de 2014

Cabeças duras


João Pereira Coutinho, Correio da manhã, 30.08.2014 00:30

O vereador lisboeta José Sá Fernandes, talvez amuado por ninguém lhe passar bola há muito tempo, gostaria de remover os brasões coloniais do jardim da Praça do Império, nos Jerónimos.

A coisa não faz sentido, diz o vereador, que gosta de abolir as coisas que não fazem sentido na cabeça dele.
Por mim, esteja à vontade. Mas alguém devia informar a criatura que apagar a história material que o país foi construindo desde 1143 implica escavacar Portugal inteiro e todos os símbolos que poluem a paisagem com vícios e ganância, segundo o alarve anacronismo do vereador. Se as nossas desventuras coloniais só terminaram formalmente em 1999, com a devolução de Macau, Portugal devia apenas conservar o que foi construído daí para a frente, em democracia, e sem contaminações coloniais ou 'fascistas' de qualquer espécie. No fundo, um país desértico em que só se salvava o Túnel do Marquês e pouco mais.

Eles & Elas

  • Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada | ionline 2014.08.30
Apesar de, na aparência, a nossa sociedade ser machista, na realidade são elas que mandam!
Não é pacífica a relação entre homens e mulheres, pelo menos desde Adão e Eva. A crer no relato bíblico, foi a mulher que obrigou o homem a comer o fruto proibido e, desde então, elas nunca mais deixaram de mandar. Aliás, é por isso que nos fazem crer que vivemos numa sociedade machista… 
Se não, vejamos. Um homem que considera as mulheres menos aptas para o exercício de um cargo ou profissão é, obviamente, machista. Mas, se uma senhora tecer a mesma opinião em relação aos cavalheiros, ninguém a acusará de feminista que, por sinal, não é o contrário de machista, nem a sua versão feminina, que não há. Com efeito, ser machista é sempre um insulto, algo política e socialmente incorrecto, porque pressupõe uma atitude prepotente e desrespeitadora dos legítimos direitos do outro sexo. Mas ser feminista é uma virtude, porque se entende que é nobre defender os direitos das minorias ou dos mais necessitados, embora as mulheres não sejam propriamente nenhuma minoria, nem muito menos seres descapacitados.
Se uma mulher, que injustamente discrimina os homens, não é machista, uma vez que esta designação é exclusivamente masculina, o que é?! A verdade é que nem sequer há um termo para designar com propriedade este eventual machismo feminino! E, se um sujeito defender os direitos políticos e sociais das senhoras, é feminista?! Não parece, porque, como já se disse, esta honrosa designação é exclusiva das mulheres. Logo, nenhuma mulher pode ser tão má quanto são maus os machistas, nem nenhum homem pode ser tão bom como as feministas. 
Em tese, também poderia haver um machismo bom e um feminismo mau. De facto, seria louvável aquele acto de afirmação do sexo masculino que não infamasse o seu contrário, como deveria ser censurável aquele feminismo que fosse depreciativo do sexo masculino. Deveria ser assim, mas não é. Porquê? Não quero ser machista, mas …
Muitos privilégios da condição feminina não são extensivos aos homens: a consorte do rei é rainha, como as plebeias Letícia de Espanha, Sílvia da Suécia e Sónia da Noruega. Mas o marido da rainha só é príncipe, como Filipe de Edimburgo, Bernardo da Holanda ou Frederico da Dinamarca, mesmo quando já eram príncipes pelo seu nascimento, como é o caso dos dois primeiros. A mulher de um presidente da República é a primeira dama, mas o marido de uma chefe de Estado não é coisa nenhuma. Será justa esta discriminação?! Será machismo exigir que o marido da rainha seja rei e o cônjuge da presidente seja 'o primeiro cavalheiro'?!
Tempos atrás, combateu-se a desproporção entre homens e mulheres em certas profissões, criando-se quotas para o acesso feminino a esses postos de trabalho. Hoje verifica-se análoga disparidade, mas em sentido contrário: já há mais médicas e juízas, por exemplo. Contudo, ninguém defende, que eu saiba, lugares cativos para machos …
Talvez seja hora de abandonar os preconceitos feministas, mas sem ressuscitar serôdios machismos ultramontanos. Impor restrições, por razão do sexo, no acesso aos cargos políticos, ou outros, é perverter a ordem da justiça, porque o único critério válido para o exercício de funções, públicas ou privadas, deve ser o mérito dos candidatos, qualquer que seja o seu sexo. Não faz sentido que ninguém seja preferido, ou preterido, por esse motivo. Na realidade, seria humilhante que alguém ocupasse um determinado cargo, só por ser mulher, ou homem, porque, mais do que o sexo, vale aquilo que cada um é.
Não é que eu seja machista mas, pelo sim pelo não, dou graças a Deus por me ter chamado para a única profissão que elas nunca poderão exercer! Mas tão excelsa é a condição feminina que, quando chegou a plenitude do tempo, foi uma mulher que deu à luz o próprio Deus! (Gal 4, 4).

Os sentidos do acaso

José Luís Nunes Martins
ionline 30 Ago 2014 


Buscamos o sentido da nossa vida em cada dia. Acreditamos que ele existe, que se esconde e se revela… que o acaso é apenas a explicação mais pobre para as coincidências. Convencemo-nos que quando dois acontecimentos ocorrem um depois do outro, ou o primeiro foi a causa do segundo ou, pelo menos, terá tido nele alguma influência.
Quando sucede algo de muito bom, tendemos a repetir o que o antecedeu na esperança de que o mesmo volte a acontecer. Como se tudo fosse repetível, bastando premir o botão certo para obter o resultado desejado.
Apesar da ilusão, trata-se de uma admirável vontade de sentido. Uma espécie de intuição que garante que todos os acasos serão apenas partes de algo que (ainda) não conseguimos alcançar. E isto é bom.
A fé que temos no mundo altera-o, porque nos permite ver para além de nós… torna-nos mais atentos e dedicados. Quando nos sentimos ao leme dos acontecimentos, isso motiva-nos e mantém-nos mais concentrados. E os resultados, claro, são melhores.
Mas, na verdade, nunca ninguém conseguirá testar o que teria acontecido se não tivesse feito o que fez, ou se tivesse feito o que não fez.
Um dos perigos das crenças é que não se submetem à razão. Quando algo de concreto entra em contradição com as nossas convicções mais íntimas, preferimos ficar com aquilo em que acreditamos… reforçando-o ainda mais. Mesmo depois de saber a verdade, poucos são o que mudam as suas certezas!
Cabe-me a humildade de aceitar o mundo tal como ele é: enorme; cabendo ao mundo a humildade de me aceitar tal como sou: um pequeno criador e descobridor de mundos.

O cabo das tormentas


Inês Teotónio Pereira | ionline 2014.08.30
Nós, pobres pais, só sabemos ser pais de crianças. Ser pai de jovens é uma contradição.
Dizia-me um amigo, num tom ligeiramente exasperado, a propósito das primeiras saídas à noite do filho de 15 anos: "Se ele se lembra de fazer um terço das asneiras que eu fiz quando tinha a idade dele, desfaço-o e ponho--o de castigo para sempre". Eu, tal como o meu amigo, também tenho pânico da juventude dos meus filhos. A juventude deles é uma espécie de Cabo das Tormentas dos pais: não fazemos ideia dos monstros que lhes podem aparecer , mas sabemos que para continuar a viagem temos de passar por lá. O meu amigo está quase a virar o Cabo e está compreensivelmente aterrado. Ele sabe que a sua passagem teve alguma dose de sorte e que o facto de não ter naufragado algures na viagem, tem tanto de fortuna quanto de sapiência. E agora, tal como D. Manuel temia pelo destino das suas naus, também ele teme pela chegada do filho a bom porto. E o pior é a sensação de impotência. Ele sabe que há pouca coisa que possa fazer para garantir a segurança da cria. Resta-lhe os desabafos e as ameaças que não vai conseguir cumprir.
A juventude dos nossos filhos é a nossa prova de fogo, é quando ela chega que mostramos verdadeiramente aquilo que valemos: se somos de facto crescidinhos o suficiente para lidarmos com a situação ou se não passamos de adultos infantis e sem maturidade para enfrentar o desafio. É nesta fase que se exige o impossível aos pais, ou seja, que não façam nada porque não há nada que se possa fazer. Ora, nós não nascemos para ficar quietos a ver os nossos filhos crescerem. Não faz parte da nossa natureza paternal sermos meros espectadores da vida dos nossos filhos. Nós temos de saber, temos de ver, temos de intervir, de condicionar e de manipular cada um deles. Os filhos são nossos e como tal nós controlamos as vidas deles. Desde que eles são bebés que é assim. Não sabemos ser de outra maneira.
Enquanto eles são crianças o poder é todo nosso. Os pais são pais absolutos: ordenam, consolam, controlam e dispõem dos filhos como querem. Até nos casos em que os pais deixam que sejam os filhos a mandar em casa é por opção; são os pais que querem que eles mandem. É uma espécie de delegação de poderes. Eu ainda vivo nessa paz. Eu quero, posso e mando e eles, coitados, obedecem. Mas eu sei que um dia, um Verão, uma festa, um amigo, um acontecimento qualquer será o gatilho que vai fazer com que um deles saia da casca. De repente, a criança vai passar a ter vida própria e eu passo a ter um papel muito pouco relevante na vida dele. Por mais que queira e deseje, não o vou poder controlar. E isso aterroriza-me. Não estou preparada para abrir mão do meu poder e de conceder liberdade plena a nenhum dos meus filhos. Não saber tudo o que se passa na vida de cada um deles inquieta-me. Sim, tenho medo.
Pois, eu sei que é preciso confiar neles, deixá-los crescer, blá, blá, blá. Mas isso é teoria, na prática dói. E dói porque todos nós já passámos por lá e sabemos perfeitamente que não éramos de confiança. Quando os nossos pais nos diziam que confiavam em nós, encarávamos o voto de confiança como uma espécie de carta branca para a asneira. Entre as hormonas, a ansiedade de viver cada dia como se o mundo fosse acabar no dia seguinte e as certezas absolutas que nos toldavam o juízo, tudo podia acontecer.
Nós, pobres pais, só sabemos ser pais de crianças (e mesmo assim). Ser pai de jovens é uma contradição. É quase uma impossibilidade. Eles têm vontade própria, são determinados perante a maior estupidez, são teimosos e até têm uma linguagem própria. Eles querem e podem, enquanto que na infância eles querem mas só podem se nós deixarmos. Na juventude a nossa vontade é apenas indicativa. E ser pai é mandar.
Li uma reportagem no "Público" que revelava que existe um número considerável de crianças que nunca subiu escadas. Os pais têm medo que elas caiam por isso não arriscam e como podem impedir, impedem. E as criancinhas não têm sequer liberdade de darem uns trambolhões de vez em quando. Basicamente não sabem cair. Isto mostra até onde nós pais estamos dispostos a ir: não temos limites. Ao pé de nós, quaisquer serviços secretos ou polícia política são um grupo de nabos.
Mas a juventude dos nossos filhos troca-nos as voltas e limita de forma drástica os nossos poderes. O nosso poder tem os anos contados e acaba quando eles passam de crianças a jovens. Nós pais não preparamos os nossos filhos para a vida, nós só preparamos os nossos filhos para serem jovens, para eles passarem o Cabo da Tormentas. O resto da vida é mesmo deles. Por isso é que é tão importante que eles aprendam a subir escadas o quanto antes, enquanto a queda é apenas um bate cu.

O islão e nós

VASCO PULIDO VALENTE Público, 30/08/2014 - 00:59
O Ocidente é o inimigo universal das forças que dominam o mundo muçulmano, não pode arbitrar ou conciliar, tanto mais que não conhece ou não percebe as sociedades em que se acha na obrigação de intervir.
Nem os milhares de funcionários que na América tentaram convencer Bush que não era uma boa ideia invadir o Iraque, nem os conselhos de fora, nem sequer a própria evidência das coisas conseguiram impedir o desastre da invasão. Bush passou por cima de tudo e, de caminho, arrasou o equilíbrio precário que a Inglaterra e a França tinham imperialmente estabelecido na região depois da I Guerra Mundial. No fim, quando se retiraram as tropas do Ocidente, ficou o que devia ficar: uma guerra civil étnica e religiosa, que pouco a pouco alastrou a uma boa parte do mundo muçulmano, com o apoio e a colaboração das colónias de refugiados nos países mais tolerantes da Europa. Como se viu agora com a morte de James Fowley, o Londanistãorealmente existia e colaborava com os militantes no terreno.
O "Estado Islâmico" (EI) - ou ISIS ou ISIL – reúne a facção mais radical da "jihad" (a guerra santa) e, apesar de recente, já se distinguiu pela sua crueldade e primitivismo. Nada que nos deva espantar. As guerras da Reforma cristã, sem chegar à brutalidade do EI, não ficaram como modelo de "limpeza" ou de respeito pela vida humana. A fé não inspira mansidão. A violência da Europa até meados do século XVII, numa velha e venerável civilização, não deixou por isso de ser violência. Ainda há anos, a Alemanha (ou o povo alemão) considerava a "guerra dos 30 anos" como a maior catástrofe da sua história. Não é de esperar que o islão leve menos tempo e use de meios mais doces para pôr a sua casa em ordem, se algum dia conseguir essa inimaginável proeza.
Ao contrário do que Obama supõe, no meio da confusão instalada, não lhe compete defender uma etnia contra outra ou uma seita contra a seita do lado. O Ocidente é o inimigo universal das forças que dominam o mundo muçulmano, não pode arbitrar ou conciliar, tanto mais que não conhece ou não percebe as sociedades em que se acha na obrigação de intervir. O que o Ocidente pode é fazer um esforço para isolar a área e os países que se envolveram na luta pelo Califado ou pelo Iraque ou qualquer ambição de vingança e conquista. E também pode tomar as precauções necessárias para que a "jihad" não penetre no seu território ou descaradamente o use como base de recrutamento e centro de operações. A "missão" da Europa como da América acabaram. Para sempre. Basta que mostrem uma "neutralidade" pacífica e sensata e se armem para não encorajar aventuras do próximo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

As lulas cor-de-rosa e a sustentabilidade

HENRIQUE PEREIRA DOS SANTOS Público, 29/08/2014 - 12:46
Grande parte dos prazos dos alimentos que usamos não servem para grande coisa.

Quando vejo uma receita de cozinha pela primeira vez, e quero experimentar, gosto de a seguir à risca. A principal razão é ser um mau cozinheiro, cozinho porque alguém tem de o fazer, de maneira que para saber se a receita é boa, ou não, o melhor é fazê-la depender, o menos possível, do cozinheiro.
Quando entrei no supermercado vi, numas promoções, um ketchup, mas não da marca referida na receita, de maneira que não o comprei. E quando passei pela peixaria, ainda olhei para as lulas, mas precisava de trabalhar e não poderia perder muito tempo a arranjá-las para o jantar, de maneira que as deixei ficar.
Como raramente compro ketchup, e o supermercado de vez em quando muda as coisas de sítio, acabei por não comprar nenhum, porque não vi onde estava e sempre poderia fazer um molho de tomate.
Cheguei portanto a casa, a pensar na receita das lulas cor-de-rosa, mas sem as lulas e sem o cor-de-rosa.
Não gosto da paranóia higienista que nos obriga a deitar fora alimentos, e a prepará-los de formas totalmente insustentáveis.
Acabei por pegar numa carne que há algum tempo estava congelada, num pacote de leite fresco cujo prazo tinha passado há um mês e numas natas cujo prazo tinha passado há quinze dias, pensando que tudo isso daria um toque de acidez ao cozinhado que, se eu dissesse que era do crème fraîche, passaria por coisa chique e não por alimentos fora de prazo.
O dito leite e as natas eram para o molho das lulas, que no fundo era um molho branco, uma coisa sobre a qual, do ponto de vista da sustentabilidade, tenho sentimentos mistos: por um lado, os lacticínios industriais são do menos sustentável que há; por outro, um molho branco facilmente estica uma carne, peixe ou legumes, que dariam para duas pessoas, numa refeição para oito.
O molho branco clássico é feito com leite, mas a possibilidade de fazer variações é quase infinita, substituindo, no todo ou em parte, o leite por outro líquido. O que uso mais vezes são as águas de cozedura, seja do que for, peixe, bacalhau, legumes, mariscos, o que se queira. Aumenta-se o sabor e aumenta-se a sustentabilidade, ao substituir o leite por um líquido que muitas vezes consideramos lixo.
A gordura clássica, à qual se junta a farinha, é a manteiga, mas também aqui se pode usar outra, em função dos objectivos culinários ou de sustentabilidade. A que uso mais frequentemente, como substituto, é o azeite.
A verdade é que as lulas cor-de-rosa, que fiz sem lulas e sem cor-de-rosa (na verdade, se tivesse tempo, teria feito o molho de tomate, muito mais barato e sustentável que o ketchup), não ficaram mal, com os tais produtos fora de prazo.
Não gosto da paranóia higienista que nos obriga a deitar fora alimentos, e a prepará-los de formas totalmente insustentáveis, só porque alguém achou que o Zé Tavares não sabe matar e preparar uma galinha para fazer uma cabidela, que ele próprio criou e que os seus clientes gostariam de poder comer no seu restaurante.
Não me passa pela cabeça defender o uso de produtos fora de prazo que possam trazer problemas de saúde sérios, mas um leite estragado é só um leite estragado, pode saber mal (se não for usado no doce misterioso, porque, nesse caso, em que a receita diz para se talhar voluntariamente o leite com vinagre, não sabe nada mal), mas não é nenhum perigo para a saúde.
Grande parte dos prazos dos alimentos que usamos não servem para grande coisa. Tal como hoje desprezamos as partes menos nobres dos animais, das plantas, das águas de cozedura, deitamos fora muita comida que podemos perfeitamente usar, ou na forma mais simples (cheirar, olhar e tocar são ferramentas que se aprende a usar para perceber se os produtos estão em condições, não correndo riscos com o que pode ser verdadeiramente sério) ou em preparações que contam com as características de alteração dos alimentos.
O iogurte não é mais do que leite fermentado, por exemplo, ou seja, estragado, se quisermos ser puristas.
Se pensamos que por volta de 25% dos alimentos que compramos vão para o lixo, talvez deixemos de achar absurdo olhar para o que deitamos fora, e pensar se o meio pêssego que ainda se aproveita, depois de retirada a parte meio apodrecida, não pode ser usado numa vinagreta para temperar a salada, mesmo que não sirva para ir à mesa.
É que os recursos usados para produzir, transportar, transformar, vender, cozinhar o que deitamos para o lixo ainda vão fazer falta um dia destes.

Palavras esquecidas


Suzana Toscano
ionline 2014.08.29
Aquele que leva uma vida sem mancha(...); aquele cuja língua não levanta calúnias nem causa prejuízo a ninguém; aquele que não falta ao juramento (...). Quem assim proceder não há-de sucumbir para sempre."
Livro de Salmos 15(14),2-3.3-4.5.
Apesar de tudo nos parecer tão fugaz, o desejo de permanecer é um dos maiores impulsos que dita o comportamento. O desejo de permanecer no poder, no coração dos que amamos, no círculo de amigos ou enquanto parte de um ambiente de trabalho, de um clube ou de um partido. É o desejo de permanecer que nos move, que nos obriga a trabalhar mais, a ser atentos e generosos ou a lutar contra o que nos pode ameaçar. É também esse desejo que nos impele à mudança, quando não é para fugir mas para procurar, para evoluir a partir das referências que transportamos. Em tudo isto lá está o sentimento de resistir a sucumbir...Permanecer significa continuar lá mesmo depois de termos saído, mas isso só acontece quando a nossa marca é de valor e não de força ou de destruição. Pode-se possuir muita coisa, pode-se mesmo dominar e impor, mas não é isso que faz vencer a circunstância ou a passagem do tempo e nos torna dignos de permanecer na memória dos outros ou nos espaços que integram. Para existir para além de cada momento é preciso lembrar as palavras que, como as do salmo, às vezes parecem esquecidas.
Escreve quinzenalmente à sexta-feira. Autora do blogue Quarta República ( http://quartarepublica.blogspot.pt)

As reuniões de jovens pelo Facebook e a outra pobreza

PEDRO AFONSO Público, 29/08/2014 - 00:30
O problema reside na incapacidade que muitos destes jovens têm em planear o futuro e adiar a gratificação.
Recentemente ficámos surpreendidos com um encontro de centenas de jovens no Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa, convocado através do Facebook e que terminou com cinco agentes e um jovem de 15 anos feridos, e com dois jovens acusados de resistência e coação à autoridade.
A abordagem de qualquer fenómeno desta natureza é sempre parcial e incompleta, pois cada um destes jovens mobilizados para estas ações através do Facebook tem um percurso de vida único. Além disso, é provável que nestes grupos haja vários jovens "normais" e bem adaptados. Mas afinal o que pode explicar alguns comportamentos antissociais? O que pensam estes jovens? O que sentem? Quais são as suas expectativas sobre a vida?
Quando na infância e na adolescência não se reúnem um conjunto de condições para um normal desenvolvimento psíquico existem sempre consequências. A personalidade é habitualmente afetada, transformando-se nalguns casos numa personalidade doente e perturbada. Neste contexto, estes jovens têm grandes dificuldades de adaptação à sociedade, as relações interpessoais são problemáticas, têm reduzida tolerância à frustração, o que juntamente com a pressão do grupo e alguma impulsividade pode explicar (mas não justifica) alguns comportamentos antissociais observados.
O que pensam estes jovens? Uma grande parte destes jovens pensam essencialmente num assunto: o presente. A satisfação dos desejos imediatos, encontra-se muito ligada à cultura consumista e hedonista. A preocupação está muitas vezes em obter o último gadget ou a roupa da moda. Mas não existe propriamente um comportamento desviante nisto, pois todos nós somos um pouco assim. O problema reside na incapacidade que muitos destes jovens têm em planear o futuro e adiar a gratificação. Esforçar-se hoje para ser recompensado amanhã. Esta é uma característica fundamental para se transitar de uma personalidade imatura para uma personalidade matura. Infelizmente, muitos não são ajudados, nem motivados, para adquirirem esta importante competência social.
O que sentem estes jovens? Por experiência profissional posso afirmar que muitos destes jovens sentem falta de amor, pois têm graves carências afectivas. Dentro de si próprios persiste um enorme sentimento de revolta e rancor. Por vezes mistura-se ainda um sentimento crónico de vazio interior. Assim, basta um pequeno rastilho para surgir a agressividade e a violência. Mas o problema também tem outra dimensão. A nossa sociedade tem promovido nos últimos anos, junto dos jovens, uma cultura afectiva epidérmica, superficial, onde tudo é sexualizado e erotizado. Por esse motivo, nota-se um autêntico analfabetismo emocional, bem visível pelo fato de atualmente muitos jovens não disporem sequer de um vocabulário diversificado para expressarem as suas emoções. Tudo se resume ao "gosto", "não gosto", "desejo-te", "já não significas nada para mim". Para os mais desatentos, bastará assistir a alguns reality shows para se comprovar este fenómeno que não é mais do que a promoção da estupidificação afetiva da sociedade.
Uma boa adaptação social obriga a que possamos compreender os nossos sentimentos. As nossas emoções também se pensam e isso é essencial para o autocontrolo, tão útil na nossa vida. Sem autocontrolo não somos verdadeiramente pessoas livres, já que ficamos escravos das nossas emoções. É nesta base que assenta o conceito de inteligência emocional e que pode ser desenvolvido em qualquer um de nós.
As expectativas sobre a vida de vários destes jovens são muito baixas e a sua existência está frequentemente centrada no aqui e agora. Se perguntarmos a alguns deles qual é o seu projeto de vida, a resposta habitual é o silêncio. Se insistirmos na pergunta, a reposta surge num tom enfadado: "nunca pensei muito sobre isso". Esta é a maior pobreza: ser jovem e não conseguir pensar no futuro.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

28 de Agosto - Santo Agostinho

Santo Agostinho no seu gabinete de trabalho
Sandro Boticelli (1480)
Fresco (152 x 112 cm)
Igreja Ognissanti
Florença

"Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu, lá fora, a procurar-Vos! Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo e eu não estava Convosco! Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria, se não existisse em Vós. Porém, chamastes-me, com uma voz tão forte, que rompestes a minha Surdez! Brilhastes, cintilastes, e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes Perfume: respirei-o, a plenos pulmões, suspirando por Vós. Saboreei-Vos e, agora, tenho fome e sede de Vós.Tocastes-me e ardi, no desejo da Vossa Paz"

As modernas ilusões democráticas

  • Maria Fátima Bonifácio | Observador | 2014.08.28

A "representação" política é largamente uma ficção, mas uma ficção útil, a melhor que se descortinou até hoje para tentar harmonizar os interesses contraditórios que dividem todas as sociedades.
No início dos anos 70 do século XIX, Oliveira Martins, no rescaldo de um golpe miliar que reeditou a tradição anterior a 1851 de remover governos pela amotinação ou pela intervenção militar, escreveu bombasticamente: "O sistema parlamentar acabou em Portugal." O interessante é notar que em seu entender este veredicto se aplicava ao país independentemente do recurso à violência política, que em si mesma constituía uma negação democrática. A razão da intensa instabilidade política e governativa que marcou o século era outra, e bem simples: "Os representantes da nação não representam nunca nem as aspirações nem a vontade do país." O rei e a sua coterie de "rotativos", como se chamava aos dois partidos que alternavam no poder, dispunham, à sombra das disposições constitucionais, do destino de 4 a 5 milhões de portugueses, esmagadoramente analfabetos e, por conseguinte, presas fáceis das maquinações eleitorais que, com uma só excepção, davam a vitória nas urnas invariavelmente ao governo em funções.
Ao tempo em que Martins escrevia, as formas mais escabrosas de fraude eleitoral já haviam caído em desuso entre nós, substituídas, aqui e ali, por inocentes chapeladas mas, sobretudo, por um acordo entre os "marechais" dos partidos, que combinavam entre si as vitórias ou derrotas na maioria dos círculos eleitorais. O discernimento dos eleitores não melhoraria com a prática introdução do sufrágio universal masculino por Fontes Pereira de Melo, em 1878. Martins não tinha sobre esta matéria uma opinião muito original: "a grande massa da população rural (que) não conhece e por isso não pode usar do direito de eleição que tem", um mal que só teria remédio quando a sociedade se transformasse numa "associação de cidadãos cientes e dispostos ao governo de si próprios, que isso e só isso é a democracia." Este ideal, porém, era entre nós, por ora, utópico – "Impossível", decretou Martins há 150 anos. Aliás, desde a chamada "revolução" liberal de 1820 que a restrita elite portuguesa se queixava da impreparação dos nativos para o regime constitucional, que exigia, para que fosse genuíno, um grau de politização e cultura que não estava ao alcance dos portugueses.
Rodrigo da Fonseca, que Martins acusou de "cínico" e "corruptor", para além de que passou à História como um "céptico" lendário, tinha afinal uma opinião mais optimista sobre as capacidades de homens analfabetos. Perguntados um a um, individualmente, sobre o que mais convinha ao seu bem-estar e ventura, poucos saberiam responder ao certo; mas nas suas manifestações colectivas, o "instinto do povo" raramente se enganava. Talvez fosse uma antiga condescendência paternalista. Mas o importante é que Rodrigo, um impecável liberal, não era turvado pela ideologia democrática que no século XIX contagiou muita gente culta com a crença na possibilidade de os homens se governarem realmente a si mesmos – a crença no auto-governo.
A história do século XIX, apesar de sangrentas e malogradas tentativas para depositar o poder na cabeça e nas mãos de cada um, não enterrou a nostalgia do que fora a essência do sonho da democracia directa, ou seja, o desejo de ser governado por um poder visto como nosso, cujos actos emanassem da nossa vontade e correspondessem, assim, às nossas aspirações e necessidades pessoais. A Democracia Representativa, uma engenharia destinada a conciliar a consideração do Interesse Público e Geral com um sentimento (mínimo) de participação política, justificado por regulares consultas eleitorais conducentes à formação de Parlamentos, pelo direito de petição e associação, pela faculdade de criação partidária e pela liberdade de imprensa, revelou-se uma fonte de frustrações e decepções, que conduziu à progressiva desqualificação da classe política, alvo de uma repugnância não muito diferente da que envolvia os desprezados políticos do séc. XIX. As elevadas abstenções eleitorais confirmam um crescente desinteresse pela coisa pública, fomentado pela fatal incapacidade de elegermos governos em que nos possamos rever pessoalmente – como se fôssemos nós que "lá" estivéssemos.
E eis que, chegados à época em que emerge uma geração da qual se diz que é "a mais bem preparada de sempre", Oliveira Martins poderia repetir, incluindo agora as grandes massas urbanas, o que citei no início deste texto. A ilusão democrática – a ilusão representativa – não apenas não desapareceu como adquiriu nova vida, a avaliar pelo constante queixume de que os governos não passam de emanações de partidos que nos enganam com promessas falsas e apenas tratam dos seus interesses. A crítica tem razão de ser, embora não corresponda em absoluto à verdade. Mas falta compreender que a "representação" política é largamente uma ficção, mas uma ficção útil, a melhor ou menos má que se descortinou até hoje para tentar harmonizar os interesses contraditórios que dividem todas as sociedades. É frustrante? Será (para quem tenha ilusões), mas protege-nos da ditadura de "vanguardas" que fatalmente usurpam o poder em regime de democracia directa, e depois tiranizam as maiorias que lhes abriram o caminho e confiaram o mando. Foi assim nas Grandes Revoluções modernas, de Robespierre a Pol-Pot, foi assim na República Espanhola e até, em boa medida, na Iª. República Portuguesa.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Rezemos pelo Diogo, irmão do nosso querido Pe. Duarte

senzapagare, 27.08.2014


Quem puder reze pelo Diogo, que morreu hoje, para que Nosso Senhor o acolha na Sua infinita misericórdia.

O Diogo foi brutalmente atacado por ser um cavalheiro, defendendo uma amiga dos abusos de "animais" que frequentam a noite lisboeta.

Quem o matou também precisa de oração, para que perceba o crime hediondo que cometeu e se arrependa. 

Também é importante que seja feita justiça, e que o sistema judicial perceba se as penas que aplica são suficientes para dissuadir barbaridades como esta.

Por último, é preciso rezar pela família do Diogo, que tem sido um grande exemplo, para que continue a deixar-se envolver pelo amor de Deus, mesmo no meio de todo este drama.


Requiem aeternam dona ei, Domine. Et lux perpetua luceat ei. 

Requiescat in pace. Amen.

27 de Agosto - Santa Mónica

O testemunho de fé e perseverança de Santa Mônica geraram frutos de eternidade e santidade para sua família e para a Igreja.

Zenit Horizonte, 27 de Agosto de 2014 (Zenit.org) Fabiano Farias de Medeiros 
"O coração de teu filho não está ainda preparado, mas Deus determinará o momento. Vai e continua a rezar: é impossível que se perca um filho de tantas lágrimas". Esta frase dita por um bispo à Santa Mônica norteia a vida e missão desta que nasceu em Tagaste na África por volta do ano 332. Seus pais a confiaram aos cuidados de uma senhora que a educou nos fundamentos da fé cristã e forte disciplina.
Aos dezessete anos casou-se com Patrício que era pagão e infligia à Mônica muitos constrangimentos, maus tratos e traições. Mônica tudo suportava em silêncio e profunda oração na qual suplicava a conversão do esposo. De seu matrimônio nasceram Agostinho e Navígio e Perpétua. As orações de Mônica alcançaram de Deus a graça de ver no ano 371 seu esposo ser batizado. Um ano depois Patrício veio a falecer.
Mônica tomou então as rédeas da educação dos filhos tendo em Agostinho a grande missão, pois o jovem era impetuoso e havia sido enviado para a cidade de Cartago para estudar filosofia e lá ficou inebriado com os vícios e envolvido com as heresias maniqueístas. As notícias advindas de Cartago inquietavam o coração de Mônica que era consolada por Deus na oração e pelos padres e bispos que a acompanhavam em seu sofrimento. No ano 384, Agostinho que já se formara professor em retórica, foi ensinar em Milão e sua mãe foi ao seu encontro.
Em Milão tiveram a oportunidade de conhecer Santo Ambrósio e Agostinho, por meio das pregações e sermões do Santo, foi abandonando os ideais maniqueístas e abrandando o coração para acolher a fé católica. No ano de 387, na festa da Páscoa, Agostinho foi batizado. Mônica pode então contemplar o fruto de suas orações. Assim dizia ela: "E a mim, o que mais pode me amarrar à terra? Já obtive meu grande desejo, o ver-te cristão católico. Tudo o que desejava consegui de Deus".
Acometida de uma enfermidade, Mônica faleceu no dia 27 de agosto de 387 em Óstia, Roma. No ano de 1153 o Papa Alexandre confirmou o culto a Santa Mônica declarando-a Padroeira das Mães Cristãs.
(27 de Agosto de 2014) © Innovative Media Inc.

Proporções do amor

MIGUEL ESTEVES CARDOSO Público, 27/08/2014 
Partilhar, quando se ama, é um verbo positivo, no pior e mais negativo sentido matemático e romântico.
Nos últimos dias, o mar nas furiosas praias de Colares tem conseguido correr com as ondas, sem ser as mais pequenas, só para refrescar as testas.
Tem sido novo e misterioso nadar na Praia das Maçãs e na Praia Grande sem hipótese de susto ou de medo.
Só a Maria João tem faltado, durante as poucas horas que passa, divertida, com a divertidíssima mãe dela. Escrevo "só" no sentido dramático e poético de António Nobre e não como sinónimo do britânico "apenas".
Nadando sozinho, sem a Maria João, percebo que partilhar, quando se ama, é um verbo positivo, no pior e mais negativo sentido matemático e romântico.
Quando se partilham coisas que se têm de dividir entre pessoas - horas do dia; sangrias; charutos; fatias de presunto - quanto mais pessoas, menos fica para cada um de nós.
Mas quando é a partilha que dá valor à amizade e ao amor perde-se por não poder partilhar qualquer prazer que se é obrigado a sentir sozinho.
Posto em palavras mais simples: a qualidade de nadar na bonança do mar aumenta quando a partilho com o meu amor e diminui quando não posso partilhá-la com ela.
A partilha acaba por ser uma multiplicação. Entre 0 e 100, sendo 0 o inferno e 100 o paraíso, nadar sozinho é 40 e nadar com quem se ama é sempre 100. Não poder nadar, nem sequer sozinho, nem sequer é zero: são cem graus negativos.
As coisas materiais diminuem quanto mais se distribuem. É esse o bem e o mal delas. As coisas ideais crescem quanto mais se concentram.

Senhor jihadista, posso ter a Grã-Bretanha de volta? Obrigada.

  • Maria João Marques
OBSERVADOR | 27/8/2014
A UE decidiu tolerar o barbarismo e a opressão como sinal de (imagine-se) liberdade. O barbarismo pagou-nos com redobradas atenções.
Sou anglófila até à medula. Contado depressa: adoro all things british. O folclore da finest hour, a forma como valorizam a excentricidade, o Yes, Minister e o Fawlty Towers, as livrarias e os autores curiosos que descubro nas livrarias (de fugida, nomeio a Charlotte Mendelson e o autor sino-americano de policiais Qiu Xiaolong), a Tate Modern, as latas de chá da Fortnum & Mason (e estou eternamente grata à East India Company por ter surripiado os arbustos do chá à China para os cultivar no norte da Índia e no Ceilão), as capas para ipad da Smythson, o Colin Firth.
Bom, tudo, tudo, não. Na verdade a Grã-Bretanha tem algo dentro de si verdadeiramente funesto. Algo cuja mais recente manifestação ocorreu algures pelo Iraque quando um londrino decapitou um inocente americano em frente a uma câmara de filmar. E que gerou ondas de choque, ai Jesus, como é possível que na Europa rica, democrática, tolerante, das Luzes germinem jihadistas? Cameron interrompeu até por uns dias as suas férias na Cornualha (região que também adoro e admito até uma leve paixoneta por St Ives, que seria o meu local de veraneio de eleição não achasse eu uma anedota fazer férias ditas de praia em locais como Moledo ou S. Martinho do Porto que, afinal, são vários graus de latitude a sul de St Ives) para, presume-se, curar a arritmia dos membros do governo por tão inesperada notícia de que há malucos extremistas in the making em Londres.
Eu percebo o escândalo com o assassino de James Foley, mas escapa-me a parte da surpresa. Na verdade até diria que foi algo laboriosamente cultivado pelas autoridades britânicas. Lembremo-nos, por exemplo, do documentário de 2007 do Channel 4 que exibia casos claros de discursos de ódio e incitações à violência e ao crime em mesquitas britânicas. O que fez a polícia? Atacou o Channel 4 por representar mal aquilo que se vive nas inócuas mesquitas da ilha e pretender desinquietar as populações e roubar-lhes o sentimento de segurança (que, como se vê, é mais precioso para as autoridades britânicas do que a própria segurança).
É sabido e mais que documentado que muitas mesquitas britânicas são centros de radicalização, incitamento ao ódio e violência e recrutamento de jovens desequilibrados para uma guerra que têm a falta de pudor de chamar santa. Douglas Murray, na Spectator, faz um resumo dos casos envolvendo jihadistas britânicos que as boas consciências herculeamente ignoraram. Quem avisou que este caldinho seria calamitoso foi apelidado de islamofóbico e intolerante. E quem cala, consente, não é?
Na Grã-Bretanha discute-se – agora – com afã o que fazer para estancar esta colheita de extremistas. Assume-se que quem viaja para locais de guerra o faz com motivações terroristas e pede-se prova do contrário? Tira-se a cidadania a jihadistas apenas com cidadania britânica? Espero que não enveredem pelo caminho da vigilância orwelliana da NSA, mas desejo que de vez se esclareça que um clérigo defendendo que se bata na mulher e na filha se não se quiserem cobrir, que se chicoteiem os gays, que há glória em matar infiéis, não está a exercer o direito à liberdade de expressão ou religiosa, está a incitar e a promover o crime e isso deve ser, em si mesmo, um crime. E que não se premeiam os locais do crime se estes se mascaram de locais de culto. Outra: que tal não permitir a exaltação e exibição das mortes e da violência islâmicas nas redes sociais?
França e Bélgica proibiram o símbolo da anulação dos direitos humanos das mulheres que os muçulmanos orgulhosamente impõem ao seu lote feminino: a burca. Os Estados Unidos têm maioritariamente um Islão conservador mas em paz com o país. A Grã-Bretanha, entregue a tanta tolerância multicultural, consegue albergar duas tendências islâmicas particularmente anacrónicas (os deobandi e os wahhabitas), ser um centro europeu de mutilação genital feminina, ter um número crescente de crimes ditos de honra e de casamentos forçados aplicados às raparigas muçulmanas que teimam em se ocidentalizar, permitir que nas comunidades muçulmanas a legislação britânica seja ostensivamente ignorada e substituída pela dos países de origem dos imigrantes. E é o maior produtor e exportador europeu de jihadistas. Sem ser picuinhas, diria que até ver o resultado não é animador.
Mas não é certo que seja desta que se enxotem as avestruzes. Já começou a campanha a vender que o extremismo islâmico não tem nada a ver com o Islão. Mehdi Hasan garante-nos que os europeus que se juntaram ao ISIS não passam de doidivanas que leram umas coisas na diagonal sobre o Islão e até os terroristas do 11 de setembro não eram bem muçulmanos porque tinham namoradas e vidas sexuais. (Que isto de ser um crente maltrapilho é só para as outras religiões, os jovens muçulmanos são imunes às tentações da carne). Mas mesmo que tal fosse verdade – e todas as mesquitas britânicas locais salubres – ficaria sempre por explicar a razão de todos os enjeitados sociais escolherem lutar e matar em nome do Islão e não, sei lá, do animismo.
Em vez de dizer a quem execra o nosso modo de vida mas quer impingir-se por cá 'para leste do Dnieper e para sul do Mediterrâneo, se faz favor', a UE decidiu tolerar o barbarismo e a opressão como sinal de (imagine-se) liberdade. O barbarismo pagou-nos com redobradas atenções.