segunda-feira, 31 de março de 2014

Um rapaz de 17 já pode trabalhar, um homem de 50 ainda pode recomeçar

Henrique Raposo
Expresso Segunda feira, 31 de março de 2014

Por vezes, fica a impressão de que as sociedades escolhem o suicídio de forma livre e consciente. Portugal tem sido particularmente assíduo neste guichet. Reparem numa coisa: num passado ainda recente, um português podia começar a trabalhar aos 12 ou 13 anos.  Excessivo? Sim. Mas, de repente, passámos do 8 ao 80 e diabolizámos o ensino profissional que dava a chave do mercado de trabalho a jovens de 17 anos que queriam começar cedo a vida adulta. O meu irmão, por exemplo, começou a bulir aos 17 anos e ainda me lembro dos olhares de reprovação. Parecia que só se podia começar a trabalhar aos 25 ou ainda mais tarde. Ora, a sociedade que recusava o início da vida adulta aos 17 era a mesmíssima sociedade que achava bem que as pessoas se reformassem aos 55 ou 60. Em 2012, cerca de 55% dos reformados da função pública tinha menos de 60 anos.
Repare-se na concepção de sociedade que estava aqui em cima da mesa: apenas 30 anos de trabalho entre os 25 e os 55 e a ideia de que a reforma tinha de chegar cedo. Pior: partia-se do pressuposto de que uma pessoa de 50 anos já estava no final da vida activa. Isto talvez fosse verdade na geração dos meus avós, mas hoje em dia é um absurdo. Com os avanços médicos e a evolução social das últimas décadas, a velhice não chega aos 50 anos. Aos 50, o trabalhador pode estar entediado, mas tédio não é doença incapacitante. Como seria de esperar, esta esquizofrenia que adiava a chegada do jovem e que antecipava a saída do entradote teve consequências desastrosas.
Em primeiro lugar, sem acesso a um ensino especializado, centenas de milhares de jovens limitaram-se a "andar por aí" sem qualquer interesse pela escola e, em consequência, acabaram por cair no mercado de trabalho não-especializado. Em segundo lugar, a segurança social e a CGA estão cheias de reformados que ainda estão na casa dos 50 ou 60 anos. Em terceiro lugar, a sociedade passou a considerar que alguém de 40 ou 50 "já é velho" para recomeçar num segundo emprego. E este é talvez o drama maior, um drama que é o acto final do teatro do absurdo: somos uma sociedade envelhecida, não temos crianças, os jovens são e serão cada vez menos mas exigimos que adiem a entrada na vida adulta até aos 25 ou mais, temos centenas de milhares de desempregados entre os 40 e 60 mas ninguém contrata estas pessoas porque são consideradas velhas. Sim, isto é um suicídio em câmara lenta devidamente sublinhado pela banda sonora melada da modernidade.  Estamos a morrer, mas somos moderníssimos. 

Morreu o Padre Miguel Ponces de Carvalho


MIGUEL PONCES DE CARVALHO

Morreu o formador de estudantes católicos
Assistente religioso da Juventude Universitária Católica (JUC), ajudou a formar várias gerações de estudantes, entre as quais António Guterres, Roberto Carneiro, Pedro e Helena Roseta, Carlos Marques e José Leitão.  
José Pedro Castanheira Expresso, 18:55 Segunda feira, 31 de março de 2014

P. Miguel Ponces de Carvalho, nos anos setenta, quando era assistente da JUC


A Basílica da Estrela, em Lisboa, encheu-se para uma última homenagem ao padre Miguel Ponces de Carvalho, que foi assistente religioso da Juventude Universitária Católica durante os anos sessenta e setenta. Falecido no dia 29, a missa de corpo presente, realizada ao princípio da tarde de 30, foi presidida pelo patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente.
Licenciado em Biologia, com estudos em Medicina, melómano apaixonado e pianista, ajudou a formar várias gerações de estudantes universitários católicos, entre os quais se incluiu o ex-primeiro-ministro António Guterres, os ex-ministros Roberto Carneiro (Educação), Pedro Roseta (Cultura) e Amílcar Teias (Ambiente), ou o ex-candidato presidencial da UDP, Carlos Marques. Privaram ainda com o "padre Miguel", como todos o conheciam e gostava de ser tratado, o ex-alto comissário para a imigração, José Leitão, o cirurgião Queirós e Melo, o ensaísta e professor Onésimo Teotónio Almeida, a ex-vereadora Helena Roseta e nomes ligados às tecnologias, como José Tribolet e Manuel Collares Pereira.
Nascido na Guiné (Bolama), em 1931, viveu ainda na Rodésia do Sul (atual Zimbabwe) e chegou a Portugal com 8 anos. Frequentou o Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, e ingressou na Faculdade de Medicina, ao mesmo tempo que aderia à Juventude Universitária Católica (JUC). Não chegou a concluir o curso porque entretanto decidiu ingressar no Seminário dos Olivais. Foi ordenado sacerdote pelo cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira, em 1958. Professor de Religião e Moral em vários estabelecimentos da capital, regressou à JUC, desta feita como adjunto do assistente diocesano, o padre Reis Rodrigues, futuro bispo auxiliar de Lisboa e um dos prelados mais influentes da igreja portuguesa.
Biólogo e pianista
Em 1964, participou no primeiro Curso de Cristandade, movimento que nunca mais deixou de acompanhar. Nomeado assistente adjunto do Corpo Nacional de Escutas, voltou à universidade para se licenciar em Biologia, após o que ensinou na faculdade de Ciências de Lisboa, na cadeira de História e Filosofia das Ciências. No 25 de Abril ainda estava na JUC e foi com manifesta felicidade que celebrou a queda da ditadura.
Homem extremamente culto, sempre atento ao diálogo entre a fé cristã e a ciência, cultivava o gosto pela música erudita e nunca deixou de ter um bom piano em casa, que fazia as suas delícias.
Em 1984, o cardeal patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, nomeou-o pároco de Campolide, onde esteve 14 anos. Seguiu-se durante sete anos a paróquia de S. Mamede e, por fim, a paróquia de Lapa-Estrela. Foi já o cardeal patriarca D. José Policarpo quem o nomeou cónego.
Por convite do então ministro da Educação, Roberto Carneiro, criou e esteve à frente do Secretariado Entre Culturas. Projeto ambicioso de dinamização intercultural no âmbito das escolas portuguesas, foi muito elogiado pela UNESCO. Mais tarde, criou o "Religare", a designação da Estrutura de Missão para o Diálogo com as Religiões.
Padecendo de vários problemas conjugados de saúde, faleceu no sábado, 29, com 83 anos.


A escola pública é um inferno?



Alexandre Homem Cristo | ionline, 2014,03,31


Não é porque há escolas onde tudo corre mal que o sistema está comprometido. E não é porque há escolas onde tudo corre bem que não há espaço para melhorias
O que se passa nas nossas escolas? Maria Filomena Mónica (MFM), num livro recentemente editado pela Fundação Francisco Soares dos Santos, responde. E a sua resposta não poderia ser mais incisiva: retratou um inferno, identificou factores para o insucesso e concluiu que a escola pública é má. Nada de surpreendente. Afinal, as conclusões a que chega não diferem das que tinha à partida, e que lhe conhecemos de outras intervenções públicas. Conclusões, aliás, alinhadas com as críticas habituais dos que desconfiam das escolas do Estado - a indisciplina reina, a exigência é baixa, os programas das disciplinas são todos péssimos e os miúdos não aprendem sequer o elementar.
Acontece que essas conclusões são muito discutíveis. Principalmente, por três razões. A primeira deriva da própria natureza da obra. Ao basear-se em relatos de uma dúzia de professoras e alunas, MFM sujeita-se a uma certa tentação pelo insólito, na medida em que só é digno de relato o que escapa à norma (i.e. o que não acontece normalmente). Construir generalizações a partir desses relatos é, por definição, abusivo. E apesar de não se tratar de um estudo científico, como aliás MFM tem referido nas suas entrevistas, não se pode deixar de realçar o óbvio: para além de um problema de representatividade da amostra, a obra sofre de um problema de fiabilidade.
A segunda razão para as conclusões serem discutíveis é que prevalece uma certa noção de "colapso" da escola pública, nomeadamente com a escalada da indisciplina e da violência. Essa ideia está, aliás, particularmente explícita no artigo de Carlos Fiolhais sobre a obra ("Público", 2014.03.19). Mas, o conceito de "colapso" sugere uma pioria da escola pública que, de acordo com os dados oficiais, não existe. Por exemplo, a violência nas escolas está a regredir, e não a aumentar - de 3525 ocorrências em 2008/2009 passou-se a 1446 em 2012/2013 (Cf. relatório A Segurança na Escola, DGEEC, 2014). De facto, apesar de serem cada vez mais mediáticos, esses casos não serão cada vez mais frequentes.
A terceira razão para as conclusões serem discutíveis é a mais significativa: estas conclusões não resistem ao contraditório com as avaliações internacionais dos desempenhos dos alunos. Por mais infernal que seja o retrato desenhado por MFM (em que os miúdos "mal sabem ler e muito menos interpretar o que lêem ou construir frases com sujeito, predicado e complemento directo"), o que essas avaliações nos revelam é o contrário: nunca os desempenhos médios dos alunos portugueses foram tão bons. Talvez fosse o momento de começarmos a acreditar mais nas avaliações, e menos nos relatos.
Apesar disto, a obra da MFM tem uma virtude particular. Legitimando parte das conclusões nos relatos de professoras e alunas, a socióloga dá-nos o retrato do sistema educativo imaginado por quem dele faz parte. Se bem que esse retrato nem sempre coincide com a realidade, não deixa de ser útil para percebermos o seguinte: a fonte de tamanha desconfiança com a escola pública estará, possivelmente, nos seus professores e alunos.
Ora, não é porque há escolas onde tudo corre mal que todo o sistema está comprometido. Tal como não é porque há escolas onde tudo corre bem que não há espaço para melhorias. Certezas, há uma. Só se promove a melhoria a partir de diagnósticos correctos. E apesar dos aspectos interessantes da obra, a base do diagnóstico de MFM não o está.

O sofrimento: um mistério que interpela o homem

CapaSofrimentoS.JoãoDeus by papinto

Sobre Adolfo Suárez e uma entrevista de Durão Barroso

JOÃO CARLOS ESPADA Público, 31/03/2014
Numa democracia que é obra comum de partidos rivais, assume particular importância o papel de um árbitro imparcial.
A morte de Adolfo Suárez, o homem que liderou no país vizinho a transição da ditadura franquista à democracia, gerou também entre nós merecidas homenagens de diferentes sectores políticos. Mário Soares observou neste jornal, com a sua clássica sabedoria, que Suárez tinha sido o "anti-Marcelo Caetano". A observação é muito relevante, a mais do que um título.
Em primeiro lugar, o contraste entre Adolfo Suárez e Marcelo Caetano explica em grande parte o contraste entre a transição revolucionária portuguesa e a "transição pactada" espanhola. Edmund Burke costumava dizer que as revoluções são em regra produto de reformas adiadas, e que as sociedades que não têm meios para reformar também não têm meios para preservar. As diferenças entre as transições portuguesa e espanhola ilustram essas observações de Burke. Porque foi capaz de reformar, Suárez evitou a revolução. Porque não foi capaz de reformar, Marcelo Caetano obteve a revolução.
Uma segunda questão importante será discutir os factores explicativos das diferentes transições em Portugal e Espanha. Por outras palavras, porque foi possível a Adolfo Suárez reformar um regime mais ideológico do que o português e porque não foi possível essa reforma num regime mais brando, como o português? Estas são perguntas complexas que devemos propor aos historiadores.
Existe, contudo, uma terceira dimensão que convém não esquecer e que diz respeito à cultura política. O facto de Adolfo Suárez ter sido o "anti-Marcelo Caetano" aliviou em Espanha marcas culturais arcaicas que não foram aliviadas em Portugal. Basicamente, em Portugal, a ausência de uma transição pactada acentuou um arcaico preconceito de propriedade sobre a democracia: o preconceito de que a democracia pertence sobretudo à esquerda e que a direita só a contragosto aceita a democracia.
Trata-se obviamente de um preconceito com alguma razoabilidade, como em regra acontece com os preconceitos. O regime autoritário de Salazar, que Caetano não soube ou não quis reformar, não era certamente de esquerda. O mesmo se aplica ao regime franquista – que foi no entanto reformado a partir de dentro por Adolfo Suárez e pelo rei Juan Carlos.
Mas o preconceito da propriedade da esquerda sobre a democracia não tem qualquer razoabilidade objectiva quando se olha para além do acanhado horizonte ibérico. Na génese dos regimes demo-liberais – sobretudo no mundo de língua inglesa, de onde realmente são originários – não existe qualquer monopólio da esquerda nem da direita. A democracia emergiu nessas paragens como "obra comum de partidos rivais" – uma expressão feliz de Raymond Aron, que lamentava nem sempre isso ser entendido na sua França natal (também ela fértil em arcaísmos rivais).
Em bom rigor, a primeira teorização sobre o papel crucial de partidos políticos rivais no Parlamento, do qual o governo deve emergir e ao qual deve prestar contas, pertence em Inglaterra ao fundador do conservadorismo moderno – Edmund Burke. E a revolução que restaurou um regime parlamentar moderado em Inglaterra, a revolução de 1688, foi na verdade "obra comum de partidos rivais" – os moderados da esquerda e os moderados da direita, por assim dizer.
Este entendimento da democracia como obra comum de partidos rivais esteve presente em Espanha na acção reformadora de Adolfo Suárez e do rei Juan Carlos. E esteve patentemente ausente em Portugal no desempenho de Marcelo Caetano. Foram depois homens como Mário Soares, Sá Carneiro e Freitas do Amaral que restauraram entre nós a visão da democracia como obra comum de partidos rivais. Outro contributo decisivo, certamente involuntário, foi dado pelo arcaísmo de Álvaro Cunhal – que deixou bem claro que a democracia tanto pode ter inimigos à direita como à esquerda, vá-se lá saber quais são os piores.
Estas reflexões ganham expressiva actualidade na sequência da excelente entrevista de Durão Barroso à SIC/Expresso do final da semana passada. A proposta de que o próximo Presidente da República tenha o apoio dos principais partidos políticos parece ter provocado surpresa e escândalo entre nós. Mas, para usar um paralelismo, a proposta só pode ser escandalosa numa cultura política herdada de Marcelo Caetano (& Álvaro Cunhal), não numa cultura política herdada de Adolfo Suárez (& Mário Soares, ou Sá Carneiro ou Freitas do Amaral).
Numa democracia que é obra comum de partidos rivais, assume particular importância o papel de um árbitro imparcial – o rei, em Espanha, o presidente da república, entre nós. Durão Barroso teve uma excelente ideia quando sugeriu que esse árbitro pudesse ser proposto pelos partidos políticos rivais que fazem sua a causa comum da democracia.


Os antigos tinham razão?



Os resultados da nossa experiência libertina são há muito evidentes. Explosão de divórcios e violência familiar, queda catastrófica da natalidade, patologias mentais, sobretudo infantis, pornografia, degradação da mulher, insucesso escolar, marginalidade, droga, exclusão, vício, miséria, suicídio. Da rejeição dos modelos anteriores resultou precisamente aquilo que os nossos antepassados previam. Se lhes tivéssemos perguntado por que razão impunham tantas regras, por vezes asfixiantes, eles certamente responderiam que era para evitar aquilo mesmo em que a nossa sociedade caiu logo que as abandonou. O fósforo e a gasolina João César das Neves

Ensinar Religião, Educar para a liberdade


Guia para a confissão

Confissao

Porque elegemos o Presidente da República por sufrágio directo e universal

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O fósforo e a gasolina

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2014.03.31

Os antigos eram excelentes sociólogos. Os nossos esforços para abandonar os seus ensinamentos apenas serviram para manifestar a sua sabedoria.
Há umas décadas a cultura ocidental, após ter tentado nos séculos anteriores revolucionar religião, política e economia, decidiu abalar a família. A ordem tradicional foi declarada um tabu tacanho e irracional impondo-se, em vez dela, como novidade a libertinagem mais total. Foi formulado um axioma sensual, decretando o prazer venéreo como supremo e absoluto. Cada um faz o que quer e a única regra é a falta dela.
Este fenómeno é estranho a vários níveis. Primeiro porque progresso e técnica pouco ou nada influíram neste campo. O que vem proposto como modernidade são realmente práticas arcaicas. Depois porque a justificação básica é o princípio de "os outros não terem nada" com a nossa vida pessoal. Ora é evidente que isso é precisamente algo em que outros têm muito a ver. Desequilíbrio e ruptura familiar, instabilidade educacional, solidão, depressão e abandono têm consequências muito mais devastadoras do que o comércio, trânsito, poluição ou tabaco, onde a nossa sociedade livre impõe moralismos totalitários e indiscutíveis.
A origem desta tentativa é fácil de entender. Fascinado com as maravilhas da técnica, a humanidade sente-se livre para abandonar velhas regras de comportamento, em geral com atrozes consequências. O progresso trouxe a terrível ilusão de mudanças na natureza humana. Os horrores da Revolução Francesa, União Soviética, etc. resultaram do esquecimento da estrutura social natural. Também a crise financeira global ou os desastres de automóvel vêm do descuido de velhos princípios de prudência. Nada se compara, porém, com o arrasador mito libertino contemporâneo.
Os nossos antepassados sabiam que, dentro de si, o ser humano permanece sempre igual. Apesar do progresso, continuamos a nascer da única forma possível, a respirar igual, comer e andar do mesmo modo, crescendo, amadurecendo, envelhecendo ao ritmo de sempre e, acima de tudo, acabamos morrendo. A evolução técnica é grande mas sempre ressurge a pergunta: "Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?" (Mt 6, 27).
Por isso todas as épocas e culturas rodearam a vida pessoal, o aspecto mais íntimo e decisivo, de muitos princípios e regras. Casamento, procriação, cópula, educação, velhice, herança, são temas fortemente definidos pelo núcleo central de todas as culturas. Até nas tribos selvagens é nas normas familiares que se encontra o mais elevado nível civilizacional. Essas regras sempre sofreram múltiplas rupturas, evoluções, contrastes e conflitos, mas é inegável a sua existência e preponderância. Os motivos sempre foram óbvios: em campo tão delicado e decisivo, os desvios, mesmo pequenos, teriam sempre consequências terríveis. Durante milénios esses temores eram apenas imaginários, porque ninguém o tentara. Hoje tentámos, e vimos que eles tinham razão.
Os resultados da nossa experiência libertina são há muito evidentes. Explosão de divórcios e violência familiar, queda catastrófica da natalidade, patologias mentais, sobretudo infantis, pornografia, degradação da mulher, insucesso escolar, marginalidade, droga, exclusão, vício, miséria, suicídio. Da rejeição dos modelos anteriores resultou precisamente aquilo que os nossos antepassados previam. Se lhes tivéssemos perguntado por que razão impunham tantas regras, por vezes asfixiantes, eles certamente responderiam que era para evitar aquilo mesmo em que a nossa sociedade caiu logo que as abandonou.
A cegueira ideológica ainda nega a evidência, encontrando justificações variadas e falaciosas. O Estado insiste nos supostos "avanços familiares", interferindo com políticas sociais nos âmbitos mais íntimos. O propósito supremo é proteger desesperadamente o precioso postulado lascivo. Pode dizer-se que nisto o nosso tempo confirma o famoso epitáfio irónico: "Aqui jaz o homem que foi com um fósforo ver se havia gasolina no tanque. E havia."

Lealdade



José Maria C. S. André
«Correio dos Açores», 30-III-2014                                                   

A um mês da canonização de João XXIII e João Paulo II, é normal querer saber os pormenores mais pessoais. Se não tivesse sido pelos processos de canonização, algumas histórias nunca se saberiam.
É impossível ler essa documentação sem ficar comovido. Realmente, estes Papas foram grandes santos, de uma humildade e de uma rectidão impressionantes.
Nos processos não encontramos só momentos heróicos protagonizados por eles, descobrimos também, lateralmente, a companhia silenciosa ‒ de uma lealdade compacta ‒ de muitas outras pessoas. Dou um exemplo.
De vez em quando, João Paulo II escapava incógnito do Vaticano para um passeio rápido pelo monte. Não conseguia fazer estas pausas com frequência mas, como o pontificado durou mais de 26 anos, no total foram várias dezenas de saídas.
Vale a pena abrir aqui um parêntese, para se perceber como é que um Papa sai clandestinamente do Vaticano. Primeiro, com antecedência, a Santa Sé comunica o plano ao Estado italiano. Depois, no próprio dia, alguns carros da polícia italiana vão fazer uma vistoria aos locais, umas horas antes de o Papa chegar. Finalmente, sai o carro em que vai o Papa, o secretário e alguns convidados, acompanhado por um carro da polícia italiana e outro de guardas suíços.
O programa que foi seguido mais vezes consistiu em sair logo a seguir à audiência das quartas-feiras, rumo a Tor d'Aveia, a uma hora de Roma, e só regressar ao Vaticano no dia seguinte à tarde. Uma tarde inteira e uma manhã, para passear por aqueles caminhos montanhosos dos Abruzzi!
João Paulo II passava a noite num casarão onde estavam alojados estudantes universitários a terminar teses de doutoramento, juntamente com alguns professores da Universidade Pontifícia da Santa Cruz, dirigida pelo Opus Dei. Ao lado, existe uma escola e um centro de formação para raparigas, também do Opus Dei: elas é que se encarregavam de toda a logística e das refeições. O Papa queria pratos muito simples e algumas vezes apenas um farnel para andar pelo monte, mas as cozinheiras deviam concentrar-se especialmente, porque os polícias italianos ainda hoje se recordam daquelas sopas! Daqueles bifes! Daquelas saladas!...
Os relatos dos universitários que conviveram com o Papa nestas ocasiões são mais sóbrios e mais centrados noutros aspectos. Lembram-se especialmente das conversas e, algumas vezes, de diálogos pessoais.
As raparigas da escola ao lado contam que organizavam ranchos folclóricos para cantar ao Papa, pelos vistos com grande êxito (segundo as próprias), além de dizerem ao Papa, em prosa e em poesia, que rezavam muito por ele e que estavam muito felizes com a sua visita.
No conjunto, contando os funcionários administrativos do Estado italiano, os polícias, os universitários, as alunas da escola e do centro de formação e os guardas suíços, mais de mil pessoas, ao longo de duas décadas, sabiam destas «fugas» de João Paulo II. Todas sabiam que o Papa só poderia manter estes escapes se não se tornassem públicos e todas corresponderam com uma lealdade absoluta. Ninguém disse uma palavra, até estas histórias se conhecerem, durante o processo de canonização. Nenhum polícia contou em casa quem tinha encontrado naquele dia; nenhuma aluna contou aos pais... absolutamente ninguém faltou à lealdade para com o Papa.
É evidente que os Papas sofrem muito, mas também é verdade que têm experiências destas – em certa medida sublimes – de milhares de pessoas que são leais.

domingo, 30 de março de 2014

A pobreza observada

Alberto Gonçalves
DN 20140330

Segundo dados do INE, a taxa de risco de pobreza em Portugal aumentou em 2012 para 18,7%. Dito assim, parece justificado o alarme geral e a presença nas televisões de estudiosos aflitos. Porém, ao acrescentar-se, de modo a acentuar as sombras, que a taxa é a mais elevada desde 2005, obtém-se o efeito inverso ao desejado e a coisa muda de figura. Se não erro, em 2005 os poderes públicos tinham acabado de construir uma resma de úteis campos da bola (e organizado o "melhor Europeu da História"), planeado o TGV e prometido o futuro aeroporto de Lisboa, entre outros desígnios nacionais que nos haveriam de conduzir à felicidade eterna. Os tempos, pois, eram risonhos, tão risonhos que o facto de o número de pobres de então superar o actual não incomodava ninguém, ou quase ninguém. E achava-se importantíssimo lembrar que os portugueses, incluindo os menos afortunados, não são números: são pessoas.
Infelizmente, as pessoas em causa vêem-se transformadas em números logo que os seus alegados paladinos necessitam de agitar estatísticas. As dramáticas condições de vida de perto de dois milhões de cidadãos, de resto uma quantidade relativamente estável ao longo da última década, constituem a garantia de uma vida desafogada para as centenas ou milhares que "combatem" a pobreza como se o salário deles dependesse disso.
E o engraçado é que depende. Não falo dos sindicatos, que há muito desistiram de investir conversa fiada nos desvalidos e passaram a ocupar-se dos funcionários do Estado. Nem falo das organizações caritativas, religiosas ou laicas, as quais, com boas ou duvidosas intenções, conseguem alimentar e vestir quem precisa. Falo das fundações, redes, associações e "observatórios" (?) dedicados, assaz naturalmente, a observar a desigualdade e a pobreza - à distância, claro.
Não gostaria de ofender essas prestimosas entidades, mas desconfio do empenho em salvar os pobres quando os salvadores carecem dos mesmos para se alimentar, vestir, pagar a renda, viajar (os voos para reuniões em Bruxelas são indispensáveis) e, em suma, existir. Se não faz sentido um observador de pássaros pretender dizimar as populações de rouxinóis, estorninhos e toutinegras, também não se compreenderia que os observadores da pobreza desejassem genuinamente a erradicação desta. Ou, se quisermos um exemplo familiar ao capitalismo "selvagem" que tanta indignação suscita, seria estranhíssimo que a Pizza Hut se mostrasse preocupada com o avolumar de apreciadores de queijo derretido.
Donde a perversidade da retórica em voga: espreita-se o "telejornal" e leva-se com "técnicos" autodesignados para "analisar" os pobres (da maneira que se analisa os aminoácidos), enquanto desfiam percentagens que "provam" o respectivo crescimento (a pobreza, nova ou velha, envergonhada ou indecente, escondida ou escancarada, cresce independentemente das circunstâncias). A terminar, lançam meia dúzia de "conclusões", embora sobretudo concluam a urgência em reforçar os apoios às fundações, redes, associações e "observatórios" a que pertencem. A observação da pobreza não pode ficar entregue a pés-rapados.
Entretanto, no mundo real, os pobres melhor ou pior subsistem. Por culpa do azar no berço ou na vida e da ancestral confiança na acção divina ou política, incontáveis (salvo pelo INE) desgraçados andam e sempre andaram por aí, curvados sob o peso da miséria e o olhar estudioso de oportunistas.

Procedei como filhos da luz

<!--[if gte mso 9]> 0 0 1 1113 6345 Instituto Superior de Agronomia 52 14 7444 14.0 <![endif]
Outrora éreis trevas, mas agora sois luz, no Senhor. Procedei como filhos da luz, 
pois o fruto da luz está em toda a espécie de bondade, justiça e verdade – 
procurando discernir o que é agradável ao Senhor.
Efésios 5, 8-10