sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

As "praxes" e o direito

Saragoça da Matta
ionline, 2014-01-31

Farisaicamente, incriminou-se o bullying nas escolas, o mesmo que sempre se aceitou no ensino superior e agora se repudia sob o peso dos cadáveres do Meco

Perguntem a qualquer pessoa com um mínimo de bom senso o que lhe pareceria o facto de, perante um grupo de pessoas ou em local público, ser insultada, humilhada, ameaçada e fisicamente molestada ou agredida. A resposta, excluída alguma patologia que virá registada nos anais da psiquiatria, será inequívoca: parecer-lhe-á muito mal!
Com efeito, apesar de psiquicamente sermos muito diversos, há um instinto animal que a todos nos domina: o da autopreservação. Que, num ser com dimensão mental e emocional, tem matizes físicos e psíquicos. Por isso a ninguém agrada a exposição ao ridículo, nem o ser fisicamente mal tratado (também aqui excepcionados alguns fetiches sexuais... mas estes, tanto quanto imagino, não abrangem a humilhação pública).
O mais básico e animalesco sentido da autopreservação leva-nos a repudiar qualquer situação de "dor" emocional ou física infligida publicamente. Seja gratuita, seja com causa social.
Precisamente por isso, os castigos públicos foram totalmente banidos. Nas instituições militares, nas de saúde (máxime mental), nas de ensino. Até o poder de correcção que milenarmente integrou o poder paternal foi cerceado ao mínimo.
A inflicção de qualquer tipo de castigo, seja físico ou psicológico, é reprovada pelo sistema jurídico na sua globalidade, gozando de protecção penal. Só o Estado pode punir. Mais: todo o tipo de "abuso" físico ou psíquico causado por quem tenha qualquer domínio sobre a vítima leva a que o crime em causa seja agravado. Assim os professores sobre alunos, os guardas sobre reclusos e até os agentes de autoridade sobre os civis.
Em todas as sociedades civilizadas ocidentais da segunda metade do século xx são condutas criminosas as ofensas à integridade física, as injúrias, o cárcere privado ou sequestro, a tortura, as ameaças e a coacção, e tantos outros comportamentos que contendem com o núcleo essencial de protecção de qualquer ser humano: os próprios corpo e mente.
Com este enquadramento, é óbvio que nunca poderiam ser admitidos nenhuns dos comportamentos que caracterizam as "praxes académicas". As praxes não são - por definição - jogos florais, chás dançantes, marchas, nem cantigas. Não são modo de integrar ninguém, nem festivais de boas vindas. O que caracteriza a "praxe" (e todos os que andaram mesmo numa faculdade o sabem) é, sempre foi, a inflicção de humilhações e castigos por alguns alunos aos seus colegas. Tudo sob o olhar cândido das escolas, funcionários e professores. Não são exercício de liberdade individual, nem de liberdade de associação e reunião.
Digo-o, e sempre o disse! Em paredes da casa em que leccionei 16 anos estão inscritas frases como "recusa a praxe" - imaginarão porquê.
Claro que, farisaicamente, incriminou-se o bullying nas escolas, o mesmo que sempre se aceitou no ensino superior e agora se repudia sob o peso dos cadáveres do Meco. Venha de lá, então, um novo crimezinho "para inglês ver".
"Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Sois como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão!" (Mt 23:27)

Ressaca

Suzana Toscano
ionline, 31 Jan 2014
Depois das Festas, chega a ressaca. Esgotado o tempo da breve visita, os nossos filhos voltam aos países que os acolheram. Estão diferentes e reparam nas nossas diferenças. Chegam cheios de energia, falam da vida que corre longe de nós, não conhecemos o seu dia-a-dia, as roupas que trazem, o novo corte de cabelo. Falam de amigos cujo nome nunca ouvimos, este é daqui, este dali, levam-lhes lembranças deste país curioso, muitos tiveram de ver no mapa onde fica, tiveram bailout? Ah, e como vivem, tão pobres? Guardam na bagagem coisas a que antes não ligavam nenhuma, camisolas tricotadas à mão, marmelada, dá-me aquela receita dos biscoitos. Nós rimo-nos das aventuras e dos novos gostos, perguntamos tudo, conta, conta, ó mãe, não consigo contar tudo, passa-se tanta coisa, onde guardaste aqueles sapatos de que eu gostava tanto, empresta-me o teu casaco, posso levá-lo?, ao menos aqui há sol, mas as pessoas são tão tristes, estão viciadas na crise, que livros tens que eu possa levar, tenho saudades de ler um romance em português.
Depois das Festas partiram e nós ficamos na ressaca desta breve turbulência, encolhidos na nova solidão, privados da sua juventude e dos seus sonhos, a desejar tanto que sejam felizes, mesmo longe de nós, se tem que ser. Felizmente, vem aí a Páscoa.

31 de Janeiro - S. João Bosco

"Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." Assim, de acordo com o Evangelho qualquer cidadão pode ser um bom Católico – isto é, estar do lado de Jesus Cristo e do Papa e fazer o bem aos homens seus companheiros – e ao mesmo tempo do lado de César, nomeadamente, cumprindo as leis da terra, excepto quando os governantes perseguem a religião ou tiranizam as consciências e o pensamento dos cidadãos."
Don Bosco
               
               

DA CONDIÇÃO HUMANA

Miguel Alvim

A clássica partida Portuguesa de negação da realidade continua.
Não somos nada modernos, somos demasiado velhos e parece que já não conseguimos mudar.
Isto a propósito de mais uma batalha que se está a travar no país sobre a agenda dos valores.
Agora trata-se de forçar a aprovação da co-adopção no contexto da relação homossexual.
Como é óbvio, as principais esquecidas nas lutas jurídico-constitucionais, política-mediáticas e de palavras que já se estão a travar, mas nelas sempre invocadas, são as crianças.
Para que conste, e que me lembre, o conceito da co-adopção no contexto da relação homossexual não releva das actividades humanas fundamentais.
Do que aqui se trata é da pura e dura política.
Repito: a luta hoje travada pela co-adopção no contexto da relação homossexual é uma luta política e não tem nada que ver com os direitos das crianças.
Tem que ver com a promoção de alegados direitos dos homossexuais.
Já agora diga-se a verdade.
A ideia de que uma criança pode ter dois pais ou ter duas mães é uma ideia verdadeiramente demoníaca.
E mais ainda, porque os seus defensores a mobilizam como algo normal e bom.
O demónio (por vezes) também consegue ser terrível e horrivelmente normal.
A ideia de que uma criança pode ter dois pais ou ter duas mães é uma ideia que só é "boa" porque é adequada e eficiente no estrito plano político da defesa na cidade da igualdade de alegados direitos dos homossexuais.
De um ponto de vista moral, cultural, biológico e antropológico, do ponto de vista dos direitos de protecção das crianças, a ideia é péssima.
Não há verdade, nem sobrevivência na condição humana sem considerações estritas acerca do bem e do mal.

Um país que perdeu referências morais tem as praxes que merece

José Manuel Fernandes | Público | 31/01/2014

Oexercício de humilhação do outro é o desporto preferido dos talk-shows televisivos, não apenas das praxes académicas.

Este país é assim. Ninguém sabe exactamente o que se passou naquela noite no Meco em que uma onda arrastou para a morte seis jovens estudantes, mas em nome do que talvez se tenha passado discute-se acaloradamente se as praxes académicas devem ou não ser proibidas. É a nossa velha tendência para achar que uma proibição resolve tudo, e que uma lei muda o país e as pessoas. É também a nossa irreprimível tendência para nos indignarmos e nos excitarmos, todos ao mesmo tempo, todos em manada – até quando é para criticar o comportamento de manada que é característico das praxes.
Pessoalmente, detesto as praxes. No meu tempo não havia praxes. O que era bom era que os estudantes formassem grupos de teatro ou, melhor ainda, fossem activistas políticos – afinal, era assim no meu tempo.
Podia continuar a repetir frases como estas. Cansei-me de as ouvir por estes dias. Mas não ia a lado nenhum. Não acho que os ideais radicais de muitos dos jovens que, no meu tempo, combateram as praxes e as "queimas das fitas" – e eu estive entre eles – fossem melhores do que a ausência de ideais de muitos dos jovens de hoje, praxados ou não praxados. Não creio que o autoritarismo e o culto pelos chefes que existiam no interior de muitas das organizações radicais dessa época – lembram-se das pinturas murais com o "grande líder da classe operária, Arnaldo Matos"? – revelassem mais cultura democrática do que os exercícios de submissão que caracterizam as praxes.
O meu ponto é outro e é simples: se queremos, e até devemos, discutir as praxes, então convém que também meditemos sobre o ambiente cultural e moral em que medram os seus excessos condenáveis. O problema não é social, como alguns sugeriram, nem tem nada que ver com a actual crise, pois as praxes até renasceram em Portugal numa época de prosperidade e optimismo económico. O problema é mais depressa moral se pensarmos que alguns dos "excessos" que agora nos horrorizam não são tão distintos como isso de algumas "normalidades" que nos entram casa adentro todos os dias.
Como este jornal recordou no domingo passado, a história das praxes é quase tão antiga como a história da universidade. Era mais frequente em Coimbra, mas isso nem surpreende se nos lembrarmos de que era lá que encontrávamos uma maioria de estudantes deslocados e um campus que é o coração da cidade. O ter-se tornado muito violenta em alguns dos novos estabelecimentos do ensino superior não prova que estes são mais pindéricos e desqualificados, pois há praxes ainda mais violentas em algumas escolas de elite, como nos selectos clubes da Universidade de Harvard, para dar só um exemplo.
Ritual de iniciação, a praxe académica também não é muito distinta de outros rituais de passagem, alguns deles vindos da Antiguidade Clássica. Há praxes em clubes, em empresas, em sociedades secretas, havia praxes nas Forças Armadas, há praxes nos casamentos e entre caçadores e pescadores, e todas elas têm um lado tribal – há um preço a pagar, provas a prestar, para entrar para o grupo – e comportam elementos de humilhação e crueldade. E de afirmação da hierarquia. Não estou com isso a justificar os excessos ou sequer a defender essas muitas e variadas praxes, estou apenas a constatar uma realidade antiga e a lembrar práticas que continuam bem presentes em muitos sectores da sociedade. Os estudantes universitários não são, de repente, as ovelhas ranhosas do Portugal contemporâneo.
 O que nos indigna, e com razão, não são os acidentes – se é que o que se passou no Meco é resultado de um acidente facilitado por um ritual qualquer. O que nos indigna é a alarvidade, o sadismo, o sexismo, a porcaria, a violência. Só é pena que não indignemos também por a alarvidade se ter tornado cultura dominante e aceite, por encher a programação das televisões, por ganhar às vezes estatuto de arte – já vimos tudo, e já vimos como esse tudo, mesmo o que é deliberadamente ofensivo, seja insusceptível de crítica se provier de um "artista" ou de um "performer". É a mesma alarvidade que serve para tornar "engraçada" alguma publicidade ou para dar o toque de "irreverência" a tantas canções e que apenas nos arranca um sorriso condescendente. As bebedeiras das "queimas" também não nasceram de geração espontânea, têm antecedentes da cultura dos shots que são servidos sem limites nem regras nos bares adolescentes de todo o país.
Vivemos numa sociedade onde a boa educação é vista como uma coisa antiquada, onde a ideia de cavalheirismo é vilipendiada como sendo reaccionária, onde o insulto grotesco é mais depressa visto como um exercício de liberdade do que como um abuso, onde a exibição pública das misérias da natureza humana garante audiências no prime-time das televisões, onde se aceita essa estranha "normalidade" de as claques dos clubes só se deslocarem rodeadas por polícias, onde se perdeu a noção de que há uma diferença entre vícios e virtudes e reina um relativismo que faz com que tudo se torne equivalente.
O país que se indigna com o sadismo dos duxes veteranoruns é o mesmo país que fez de um romance de contornos sadomasoquistas (ao que me dizem, pois não o li nem tenciono lê-lo) o maior êxito de vendas dos últimos anos. O país político que se exalta a pedir castigo para os jovens universitários é o mesmo que deixou degradar a linguagem política para um nível em que o insulto se tornou corriqueiro e, às vezes, bem visto e aplaudido. O mesmo sucede no interior de muitas universidades, onde há quem não respeite o direito às opiniões diferentes e passe ao ataque pessoal com armas estilísticas que em nada se diferenciam do esterco utilizado nalgumas praxes (ainda na passada sexta-feira isso aconteceu nas páginas deste jornal).
Há aqueles que acham que uma sociedade se molda a talhe de sucessivas investidas legislativas, e por isso já por aí andam a pedir leis e regulamentos. Eu acredito mais nas pessoas e nos combates culturais e morais. Os excessos que existem são crime e como crimes devem ser tratados. Mas o que nas praxes é reflexo da rasquice dominante e da amoralidade pós-moderna não se ultrapassa a não ser começando por dizer que não toleramos a degradação dos valores da civilidade, uma degradação que nos toca todos os dias. Quem é que, por exemplo, ainda se levanta num transporte público para dar o lugar a uma pessoa idosa? É que isso custa um pouco mais do que o único acto de boa educação que parece resistir entre os portugueses, o de dar aos outros a passagem à entrada do elevador...
Quem pensa que se pode viver bem em sociedade sem valores e sem referências morais, à vontade de cada um, sempre a pensar no prazer imediato e irrestrito, só pode esperar uma sociedade reduzida ao código das praxes. É isso que gostava que também estivéssemos a discutir.
 Uma despedida e um até já
Comecei a trabalhar no que havia de ser o PÚBLICO em Abril de 1989. Em 2009 passei, por escolha minha, a ser apenas colaborador deste jornal. Cumpri, em todos estes 25 anos, muitos dos meus sonhos, e alguns ficaram por realizar. Agora, com 56 anos, decidi aceitar um outro desafio e partir para um novo projecto editorial construído de raiz. É porventura atrevido, mas sinto que vale a pena. Despeço-me pois dos leitores com um até já. Até daqui por umas semanas. Até ao Observador.

Soares Carneiro

Vasco Pulido Valente |  Público | 31/01/2014
António Soares Carneiro morreu na terça-feira passada com 86 anos. Pouca gente o conhecia fora dos meios militares, e em particular do exército, apesar de uma candidatura à presidência da República, que a Aliança Democrática promoveu e apoiou.
Conheci o general Soares Carneiro num almoço discreto em 1980. Duas coisas ficaram logo claras. Primeira, que se tratava de um homem inteligente, sereno e bem-educado. Segunda, que não tinha nada de político e não faria um bom candidato. Foi isso mesmo que eu disse ao primeiro-ministro e a meia dúzia de amigos comuns. Mas Sá Carneiro queria meter a tropa nos quartéis o mais depressa possível, acabar com o Conselho da Revolução (uma espécie tosca de Tribunal Constitucional) e pôr fim à sua própria dependência política de Eanes. Soares Carneiro parecia o homem indicado para esta revolução.
Para seu mal, o general não trouxe para a comissão política da candidatura gente da sua confiança. Talvez não conhecesse civis com o prestígio necessário, e não queria com certeza aparecer ao país como o chefe de uma facção militar. Aceitou por isso as criaturas que lhe mandaram o CDS e o PSD, que mal se conheciam entre si, não compreendiam o sentido daquela aventura e só pensavam nas vantagens que ela eventualmente lhes traria. As sessões da comissão política eram um pandemónio; e logo se percebeu que parte dos seus membros trabalhava para a derrota de Soares Carneiro. Ele, para falar com franqueza, também não ajudava. Assistia à desordem estabelecida com uma extraordinária tolerância e nunca tentou impor a sua autoridade.
Isto sempre me intrigou, até perceber que ele se não sentia com o direito de mandar em civis, como presumivelmente mandava nos militares. A esquerda (ou seja, o PS e o PC) berrava a cada canto que ele era um embrião de ditador "fascista", enquanto ele respeitava meticulosamente as mais simples normas da democracia, sem que ninguém desse por isso e menos se interessasse. Nos comícios, não permitiu que se criasse a gritaria do costume e falava devagar, sem uma única palavra demagógica. Quando perdeu, saiu da vida pública sem um lamento e sem uma ameaça. Uma vez em que por acaso nos vimos, não me disse nada sobre a campanha a que o tinham exposto. Nem sequer guardava um resquício de malícia contra os políticos da AD e afins, que o haviam levado a uma humilhação irresponsável e gratuita. Voltou ao exército, calado, e calado morreu.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Paciência

Quão pobres são os que não têm paciência! Qual é a ferida que se sara sem ser a pouco e pouco?
William Shakespeare
             
               

Praxes ou bullying perigoso?


Defendo que as praxes devem obedecer a um código de conduta.

As mortes de estudantes da Lusófona ocorridas na praia do Meco e o julgamento de ex-alunos do Colégio Militar foram notícias recentes associadas a praxes académicas e que merecem alguma reflexão.
Começo por referir que fui estudante de Medicina em Coimbra de 1987-1993, e fui praxado. Um dia por volta da meia-noite quando regressava a casa, acabei por ser apanhado por um trupe de alunos mais velhos. Foi aplicado o respectivo código da praxe (em Coimbra havia um código da praxe com regras claras) e, atendendo às altas horas da noite, impróprias para um caloiro, fui punido com umas tesouradas no cabelo. No dia seguinte, embaraçado pelo estado ridículo em que ficara o meu cabelo, dirigi-me a um barbeiro que havia na Praça da República, a quem chamávamos o "Pepe rápido"; era assim conhecido, devido à rapidez com que cortava o cabelo. Sentei-me e, quando ia dar uma explicação para a minha triste figura, o barbeiro murmurou, num tom complacente: "Não se preocupe, hoje já é o sétimo!..."
A minha experiência de praxe foi globalmente positiva. Em Coimbra havia uma tradição de praxe académica, com regras, que servia para integrar os caloiros, facilitando que os alunos de diferentes cursos se conhecessem, e deste modo fossem criadas novas amizades. Mas confesso que, por aquilo que tenho visto e lido, muitas das praxes atuais pouco ou nada têm a ver com esse espírito.
Os rituais de praxe são realizados habitualmente em grupo, num ambiente de grande excitação e exaltação colectiva. Neste contexto, os mecanismos dos limites sociais estão enfraquecidos, criando-se condições para o aparecimento de violência física ou psicológica, expressas através de humilhações gratuitas. O perigo reside no risco de alguns veteranos apresentarem mentes psiquicamente perturbadas, encontrando na praxe o ambiente propício para expressarem as suas frustrações pessoais e agressividade, frequentemente com contornos de perversão. Assim, a praxe passa a ser bullying. Muitas das praxes a que assistimos podem ser considerados comportamentos de bullying, já que configuram atos intencionais de agressão física ou psicológica que envolvem uma disparidade de poder entre os agressores e as suas vítimas.
Como estas praxes ocorrem em idades mais avançadas, comparativamente, por exemplo, com a adolescência, a violência dos rituais torna-se não apenas mais sofisticada como também mais perigosa. Se juntarmos a este fenómeno o fato dos rituais da praxe serem muitas vezes realizados sob o efeito desinibidor do álcool (e por vezes drogas), a situação pode adquirir contornos de grande gravidade.
Basta, portanto, que haja um individuo perturbado psiquicamente a liderar um grupo de praxe para que os comportamentos possam adquirir contornos de grande risco e violência. Porém, as perturbações mentais não explicam tudo. Num artigo recente (2013) da revista científica International Journal of Adolescent Medicine and Health, os autores concluem que a evidência científica não suporta a ideia de que a maioria das ações cruéis são intrinsecamente patológicas, no sentido de serem motivadas por perturbações mentais. Por esta razão, apenas as regras morais e as ações legais (e não as intervenções psiquiátricas) poderão dissuadir o ser humano desta forma de crueldade.
Defendo, portanto, que as praxes – como grande parte dos comportamentos sociais – devem obedecer a um código de conduta, devidamente regulamentado, no qual deve ficar claro a proibição de rituais de humilhação gratuita, bem como de condutas violentas que possam colocar em perigo a integridade física dos caloiros ou susceptíveis de provocarem qualquer dano psicológico. Além disso, deve ficar explícito que a praxe deve ser voluntária, sendo que o seu objectivo principal é facilitar a integração dos novos alunos. As regras da praxe poderão ser elaboradas entre os alunos e as respetivas universidades, de forma a poderem ser punidos aqueles que desrespeitarem os princípios da mesma.
A praxe deve ser discutida às claras e regulamentada entre as partes, de modo a evitarem-se situações de bullying que são inaceitáveis em sociedade e que devem ser repudiadas por todos nós.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Os filhos da nação

Alexandre Homem Cristo | ionline | 2014-01-27
Está na hora de os partidos se debruçarem verdadeiramente sobre o desafio da natalidade
Portugal atravessa um inverno demográfico. Os números são inequívocos e têm sido amplamente divulgados, de tal modo que é improvável que alguém (que participe do debate público e político) desconheça a situação. De facto, no contexto da União Europeia, o índice de fecundidade das mulheres portuguesas é o 5.o mais baixo, apenas acima de Letónia, Polónia, Roménia e Hungria. E, se a situação portuguesa se mantiver como está durante os próximos anos, o país perderá até 2030 cerca de um milhão de habitantes - ficando com 41 idosos para cada 100 portugueses em idade activa.
No mesmo sentido, é também improvável que alguém desconheça as eventuais consequências deste inverno demográfico para a organização do Estado e, em particular, para a sustentabilidade do Estado Social. Na educação, por exemplo, a queda do número de alunos implicará a necessidade de menos professores no sistema educativo. Na segurança social, o aumento do número de idosos significará um incremento nos custos (pensões e apoios sociais) a serem suportados pelo Estado. E, na saúde, o envelhecimento da população obrigará a mais cuidados médicos e, forçosamente, a mais despesa.
Assim, com o diagnóstico feito e as consequências conhecidas, resta-nos discutir as soluções. E, nesse aspecto que agora importa, o debate político tem sido pobre, tratando a queda demográfica como uma fatalidade e, convenientemente, como um argumento (por vezes válido, diga-se) para justificar a necessidade de cortes sectoriais. Mas, sendo certo que é essencial o ajuste imediato do Estado face ao envelhecimento da população, esse ajuste é também apenas parte da solução. A outra parte, raramente discutida, consiste em enfrentar o problema demográfico propriamente dito. Isto é, consiste em responder a duas perguntas: por que razão as mulheres portuguesas estão a ter menos filhos? E o que pode o Estado fazer para inverter essa tendência?
Um inquérito recentemente publicado (INE-FFMS, 2013) ajuda-nos a responder à primeira. Quando inquiridas acerca dos motivos para não terem filhos, 67% das mulheres aponta para os custos associados, 48% refere a dificuldade em obter emprego e 33% indica a difícil conciliação entre a vida profissional e a vida familiar. Ou seja, os obstáculos que mais afastam as mulheres da maternidade são económicos e laborais - algo que, conhecendo a realidade nacional, não é surpreendente.
Ora, se assim é, fica claro que a resposta à segunda pergunta deve começar por aí. Mas que medida concreta seria a mais adequada e eficaz? Ninguém sabe ao certo. De resto, as possibilidades são muitas e variadas, e nenhuma é garantia de sucesso. Podem--se criar melhores benefícios fiscais, atenuando os impostos significativamente a quem tem filhos. Podem-se introduzir apoios financeiros directos às mães, para ajudar na sua estabilidade económica. Ou, pode-se, ainda, exigir uma maior flexibilização horária para as mulheres, sem consequências remuneratórias, para que a maternidade não interfira negativamente na sua vida profissional.
Cada uma destas, ou de outras, soluções tem os seus custos e os seus efeitos próprios. E nenhum debate útil pode ter início sem a avaliação prévia desses custos e desses efeitos até conhecer experiências internacionais de casos semelhantes ao português. Está, pois, na hora dessa avaliação ser feita e, mais ainda, de os partidos se interessarem verdadeiramente pelo tema. O inverno demográfico que nos aflige só será uma fatalidade se continuarmos a olhar para o lado.

As coisas estão melhores. Mas resolvemos o problema?

Henrique Raposo
Expresso,  Sexta feira, 24 de janeiro de 2014

O cenário mudou em Portugal. Já sabemos que não vamos ao fundo, algo que não era certo desde 2009. Agora já sabemos que isto vai aguentar, vamos ficar no Euro, não vamos ter uma saída argentina. E Portugal é um reflexo local de um cenário geral mais optimista no Ocidente. O tom do debate nos EUA também já mudou. Contudo, a minha pergunta continua no sítio: será que resolvemos o problema?  Será que combatemos o vício que nos conduziu até esta gigantesca casa de chuto chamada A Grande Crise de 2008-2013? Eu acho que não. A governação dos estados ocidentais e a mentalidade das sociedades continuam centradas no vício do crédito/consumo e numa concepção de dinheiro quase virtual . Em Portugal comemora-se o regresso aos mercados da dívida quando o nosso problema é precisamente o excesso de dívida. Nos  EUA, toda a gente treme quando alguém do FED diz "não, acho que já não vamos injectar quarenta gigabytes de dólares no sistema". Eu não sei fazer uma conta de dividir, mas tudo isto me parece errado, uma fuga para a frente.
Neste sentido, continuo a andar pelas águas do declínio ocidental, pela águas de Dambisa Moyo , por exemplo. Com muita precisão, esta economista afirma que o vício do dinheiro fácil, do crédito e do consumo não criaram apenas uma crise aqui no Ocidente. Criaram, acima de tudo, um abismo entre Ocidente e China. Se as famílias e os estados ocidentais entraram na rota do consumo através da dívida, as famílias chinesas e o Estado chinês desenharam a rota oposta através da poupança e investimento. Nós compramos, eles fazem. Numa segunda fase do argumento, Moyo liga este efeito material (sociedade que consome sem produzir) com uma causa imaterial: o ensino. Os governos ocidentais, garante Moyo, têm sido demasiado complacentes no ensino, e esta complacência lúdica está a ser esmagada pela exigência realista dos asiáticos. Enquanto os petizes indianos decoram a tabuada até ao 19x9 , os nossos pequenos jogam Playstation. Quem é que vai fazer a Playstation do futuro?
Quais são as soluções apresentadas por Moyo? Confrontar as populações com verdades duras: os EUA deviam assumir uma bancarrota parcial; os sistemas de pensões são esquemas de Ponzi que devem ser alterados até porque dependem do endividamento; não podemos continuar focados no consumo, temos de virar agulhas para o investimento e produção; os sistema de ensino têm de sair da letargia anti-Matemática. Mas, acima de tudo, parece-me a solução principal de Moyo passa por uma viragem psicológica e traumática: os ocidentais só vão mudar a sério quando perceberem que já não mandam, quando perceberem que correm o risco de serem ultrapassados de facto pelos gigantes asiáticos. Eu concordo, aliás, concordei antes do tempo. 

Einstein e S. Tomás de Aquino

Ao contrário do que pretende alguma propaganda ateia, Einstein não era ateu. Era panteísta, à maneira de Espinosa.
Encontrei este trecho muito interessante na obra de Max Jammer, Einstein e a Religião:
«Quando G. S. Viereck disse a Einstein, no decorrer da entrevista anteriormente citada, que uma revista de Dublin havia publicado um artigo de um teólogo católico afirmando que a Teoria da Relatividade "apenas confirma os ensinamentos de Santo Tomás de Aquino", Einstein respondeu: "Não li toda a obra de Tomás de Aquino, mas ficarei encantado se houver chegado às mesmas conclusões que a mente abrangente desse grande erudito católico."» Bernardo Motta em Espectadores
               
               

A co-adopção e os filhos de pai incógnito

Com a co-adopção iria "legalizar-se" os filhos deliberadamente "criados" sem pai, ou sem mãe.
1 – Recordo bem a chaga social e o sofrimento que foi para tantos cidadãos, em geral de meios mais desfavorecidos, o estigma do "filho de pai incógnito". O "Antigo Regime" protegia esta figura jurídica para evitar que os "senhores" manchassem a sua reputação ao "dar o nome" à criança nascida da empregada, de quem tinham "abusado".
2 – Logo na Constituição da República Portuguesa aprovada em 1976 os deputados constituintes tiveram a preocupação de acabar com tal forma de discriminação social (art. 36.º, n.º4). E na sequente reforma do Código Civil de 1977 foi alterado o art. 1860.º, que restringia, e agora passou a impor, a "averiguação oficiosa da paternidade". A Revolução de 1974 e consequente alteração de paradigma social teve também como mérito que o Estado se empenha directamente no direito à identificação dos progenitores de cada indivíduo. Tal direito deixou de ser apenas para alguns, e passou a ser também para os menos afortunados. Acabaram (quase) os filhos de pai incógnito. Os testes de DNA também vieram dar uma grande ajuda.
3 – Quando após a Revolução dos Cravos se pôs fim aos filhos de pai incógnito, a grande preocupação era com o filho, ou seja, a criança que tem direito à sua identidade genética e biológica. E na satisfação desse direito deve empenhar-se o Estado, a sociedade e os tribunais. É de tal forma importante este direito que o Tribunal Constitucional (Acórdão n.º 23/2006) declarou a inconstitucionalidade do art. 1817.º n.º 1 do Código Civil que estabelecia o prazo de dois anos após a maioridade, para intentar a acção para investigação da paternidade. Porque o direito a conhecer a sua identidade genética hereditária é um direito fundamental.
Por exemplo, o Código Civil Italiano diz que a todo o tempo pode ser intentada tal acção (art. 270.º). No Código Civil Brasileiro (art. 1606.º), a acção pode ser intentada durante toda a vida do filho. Também o Código Civil Espanhol (art. 133.º) e o Alemão reconhecem que durante toda a vida do filho pode ser averiguada a filiação.
O direito à integridade pessoal, o direito à identidade pessoal (art. 25.º e 26.º do CRP) são direitos fundamentais que implicam também o Direito Fundamental ao conhecimento e ao reconhecimento da paternidade, pois este representa uma referência essencial da pessoa, quer a nível biológico, quer a nível social.
Esta tem sido a posição defendida quer pelo nosso Supremo Tribunal de Justiça, quer pelo Tribunal Constitucional.
4 – Porém, nos últimos anos (poucos) voltámos a ter "filhos de pai incógnito". Agora não pelo medo e imposição do pai, mas pelo "querer da mãe". A mãe decide que quer ter um filho, só seu, cujo pai fique incógnito (dador anónimo) e faz inseminação artificial a partir do banco de esperma para poder gerar a criança que é "só sua".
5 – Tal prática é proibida (art. 6.º, 19.º, 20.º) e até punida (art. 35.º) em Portugal (Lei da Procriação Medicamente Assistida) (Lei n.º 32/2006) aprovada no primeiro Governo Sócrates. Porém, apesar de tal proibição, vemos agora argumentar que a co-adopção por pares homossexuais é uma necessidade porque aquelas "crianças que só têm mãe" precisam de outra mãe. Ou as crianças que, entregues a um homem no âmbito de adopção singular, precisam agora de um outro pai (burla à lei – que proíbe a adopção por pares homossexuais – aprovada em 2010 por uma maioria de esquerda).
Assim sendo, a co-adopção vem reconhecer e legalizar práticas que estão proibidas por lei…
6 – Nenhum ser humano nasce só de um pai ou só de uma mãe. O ser humano nasce numa família, avós, tios, primos.
Quando se opina no sentido de que, caso falte a mãe à criança esta fica sem amparo, o que se está a dizer é que aquela criança não tem família biológica do lado do pai nem do lado da mãe. Apaga-se a história familiar da criança.
7 Contudo, com a co-adopção iria "legalizar-se" os filhos deliberadamente "criados" sem pai, ou sem mãe.
No Estado Novo apagava-se o pai por uma falsa "moral". E agora por que se apaga o pai? Há alguma moral que o justifique?
Querem fazer o favor de nos dizer a quem se destina esta lei da co-adopção?

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

28 de Janeiro - S. Tomás de Aquino

Três coisas são necessárias para a salvação do homem: saber em que deve acreditar; saber o que deve desejar;  saber o que deve fazer
S. Tomás de Aquino


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O poder do preconceito

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2014-01-27


Preconceito e discriminação são influências surdas e poderosas. A sua força vem de cada um, consciente dos preconceitos dos outros, ser sempre cego face aos seus. As injustiças mais infames têm motivos razoáveis para quem as comete. Isso é paradoxal num tempo que defende a igualdade, repudiando racismos e exclusões, e se acha imune a tais desvios. Censurando antigas intolerâncias, caímos descuidadamente em novas. O recente filme O Lobo de Wall Street, de Martin Scorcese, mostra isto num dos grupos mais desprezados e injustiçados de hoje, os financeiros.
Um paralelo clarifica a questão. Em 1990, o realizador apresentou a obra Goodfellas (Tudo Bons Rapazes), a adaptação de Wiseguy: Life in a Mafia Family, de Nicholas Pileggi (Simon & Schuster, 1985), biografia de Henry Hill, um mafioso que depois de preso denunciou os cúmplices. O seu último filme adapta o livro The Wolf of Wall Street (Random House, 2007), autobiografia de Jordan Belfort, um corretor desonesto que na cadeia denunciou os comparsas. Parece autocitação, mas com uma diferença: o crime organizado, tema da primeira história, sendo abertamente ilegal, tem implícita a origem do mal. Mas corretagem é não só legítima, mas útil e necessária.
Assim os delitos de Belfort levantam interessantes problemas éticos, técnicos e conceptuais, que ficam à margem do filme. Este prefere dedicar-se obsessivamente a documentar obscenidades e drogas. Mal somos informados das intrujices dos profissionais, que são o interesse do caso, para se detalhar com requinte à bestialidade dos seus tempos livres. Apesar da flagrante omissão, o enredo aguenta a credibilidade graças ao preconceito generalizado de que em Wall Street são todos aldrabões.
O filme está muito bem feito e o protagonista DiCaprio tem interpretação soberba. Mas o assunto não é corretagem, é deboche; o qual, em si, nada tem que ver com a satirizada indústria financeira. Aliás, a indústria cinematográfica, que faz a crítica, é mais famosa por isso. A este truque subtil e velhaco os autores juntam uma distorção evidente: seria impossível criar e desenvolver qualquer empresa no exigente mundo de Wall Street apenas com ignorantes gananciosos vendendo lixo e cometendo fraudes. A caricatura grotesca das complexas operações só resiste porque o público está disponível para acreditar o pior desse meio, sem se dar conta da injustiça.
As nossas acusações contra os financeiros têm razões válidas, mas, como em todas as xenofobias, nascem da extrapolação das maçãs podres para o pomar. O caso de Belmont é exemplo óbvio. Muito da história do filme é verdadeira e escabrosa, mas ela própria manifesta não só a sua extravagância, mas que o sistema funcionou: menos de dez anos após iniciar operações, a Stratton Oakmont foi banida do mercado em 1996 e os quadros encarcerados. Mas nada nos liberta da certeza de tal aberração ser representativa. O espectador sai da sala convencido de ter visto um retrato fidedigno do sistema.
Discriminar os ricos parece justiça, como a guilhotina da Praça da Revolução. Mas, além de injúrias, ela gera erros. Hoje é impossível declarar alguns factos óbvios e relevantes, como que o sector financeiro é central na economia e no desenvolvimento, e que a sua própria operação exige grande profissionalismo, honestidade e rigor. Afirmar tais verdades suscita, na melhor das hipóteses, um sorriso de incredulidade semelhante ao que na Alemanha há oito décadas implicava o respeito pelos judeus. Aliás, este próprio texto, ao defender as finanças, sujeita-se a censura equivalente à de "amigo dos pretos" na América racista dos anos 1960.
O preconceito é uma influência muito poderosa. Permite até a um criminoso como Belmont que, depois de ganhar fortunas a enganar milhares com loucuras financeiras, ainda faça outra fortuna a narrar as suas orgias, convencendo até um reputado realizador como Scorcese a filmá-las. E no final o réu da paródia acaba por ser o sistema financeiro. O qual sustenta não apenas Hollywood, mas os empregos de todos os espectadores.

Em defesa da ideia de Universidade


Há uma causa comum da autonomia da Universidade e da civilidade do debate no seu interior.

Tenho seguido com perplexidade crescente o chamado debate sobre a chamada política de ciência nacional – recentemente acentuado pelo alegado "corte brutal" de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento da FCT. É um espectáculo penoso, que põe em causa algumas regras essenciais de boa conduta que sempre distinguiram a vida universitária. Quem valoriza a ideia de Universidade e compreende o papel crucial que ela tem desempenhado na civilização ocidental deve prestar atenção – e deve ficar preocupado.
Em primeiro lugar, há o cortejo de intervenções públicas insultuosas de colegas contra colegas e contra instituições universitárias específicas, incluindo neste jornal. É uma primeira crucial regra universitária a ser quebrada. Em vez de argumentos e de respeito mútuo, o debate é manchado por acusações pessoais e insinuações torpes. Esta atitude é totalmente contrária à elevação que deve caracterizar a vida universitária. Sem essa elevação, seria impossível o livre inquérito que deve distinguir a atmosfera da Universidade.
Mas, mais grave do que os insultos pessoais – que ficam exclusivamente com quem os pratica – é a politização ostensiva desses insultos. Um princípio fundamental da vida universitária é que as divergências político-partidárias ficam à porta. Na Universidade não há lugar para ortodoxias políticas. Todos os argumentos são à partida aceites para escrutínio, com base nos seus próprios méritos intelectuais. Não há "ciência proletária", nem "ciência burguesa", nem ciência com adjectivos. Tudo o que há é ciência: um espaço aberto de conjecturas e refutações, de conhecimento tentativo e falível, onde não há lugar a doutrinas políticas oficiais.
Uma das muitas experiências memoráveis que guardei da minha passagem por Oxford foi a intervenção de Ralf Dahrendorf, no início da primeira guerra do Golfo, em 1991. Dirigindo-se aos estudantes e professores do Colégio que dirigia, o St. Antony's, Dahrendorf disse que o país estava em guerra, mas que dentro do Colégio e da Universidade não havia guerra. "Lá fora há uma guerra que é séria, e nós apoiamos os esforços das nossas tropas em defesa da liberdade. Mas é por causa dessa mesma liberdade que dentro do Colégio não há guerra. Todas as opiniões são respeitadas – mesmo as que defendam o inimigo – e todas serão lealmente submetidas à crítica livre e moderada" (cito de memória).
Portugal não está obviamente em guerra. Mesmo que estivesse, segundo Dahrendorf, o espírito de guerra não devia ser admitido no seio da Universidade. Mas, o que nós estamos a assistir, sem estarmos em guerra, é a transposição para o ambiente universitário de uma linguagem de guerra de classes, de guerra civil de classes – que é simplesmente chocante.
É importante recordar que as universidades são das mais antigas instituições da civilização ocidental. Sobreviveram a mudanças de regime, revoluções e contra-revoluções, guerras civis e campanhas de politização de sinal contrário. Onde sobreviveram e sempre que sobreviveram, isso deveu-se a que souberam preservar a sua autonomia e civilidade.
É possível argumentar que essa autonomia foi sendo progressivamente ameaçada à medida que o financiamento das universidades ficou gradualmente mais dependente dos dinheiros públicos – como é o caso dominante entre nós e em vários países da Europa continental. Esta dependência dos dinheiros públicos encoraja o sectarismo. Existindo várias perspectivas em debate, uma das partes recusa a discussão, reclamando do Estado, simplesmente, sempre mais dinheiro aqui e agora.
No entanto, esta é, apenas, a minha opinião particular. Sei que muitos dos meus colegas pensam que a Universidade e a investigação devem ser predominantemente financiadas pelo Estado. Respeito obviamente essa opinião. Mas receio ter de dizer que esses colegas têm uma responsabilidade acrescida na defesa da civilidade do debate actual. O ponto aqui relevante não é o da análise substantiva de políticas para a ciência, onde as opiniões naturalmente divergem. O ponto relevante é a defesa comum, entre colegas com opiniões divergentes, de uma causa comum: a causa da autonomia da Universidade e da civilidade do debate no seu interior.
PS: A British Historical Society of Portugal (BHSP) realizou no passado sábado o seu almoço-palestra anual. Nick Lack recordou eloquentemente a visita do Duque e Duquesa de Windsor a Portugal, no Verão de 1940, e a tentativa nazi de os sequestrar. A abrir a sessão, Clive Gilbert, o Presidente da BHSP, recordou que Portugal celebra este ano o 40.º aniversário da instauração da democracia, e que a sociedade se associa às celebrações. Mas advertiu que não podemos esquecer outro importante 40.º aniversário: o da própria BHSP, fundada em Abril (dia desconhecido) de 1974. Aqui fica o devido lembrete.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Os meus filhos no parlamento

Inês Teotónio Pereira
Ionline, 2014-01-25

Eles sabem que apesar da política, no dia a seguir vão à escola, têm trabalhos de casa e no fim-de-semana levantam-se tarde e podem jogar playstation

As crianças não querem saber nem sabem o que é política. É um tema que obviamente acham entediante. A actualidade política, a composição do governo ou os debates quinzenais são coisas que interessam tanto aos nossos filhos quanto física quântica. Política e física quântica são mais ou menos a mesma coisa: uma enorme e incompreensível seca. Eles não percebem o que é um orçamento rectificativo, qual a questão subjacente aos estaleiros de Viana do Castelo ou qual o sentido da moção de Passos Coelho no que diz respeito à candidatura de Marcelo às eleições presidenciais. No entender deles, não há questões, mas apenas complicações. Complicações incompreensíveis que não fazem qualquer sentido para a sua vida diária. Eles sabem que apesar da política e da polémica do Professor Marcelo, no dia a seguir vão à escola, têm trabalhos de casa e no fim-de-semana levantam-se tarde e podem jogar playstation.
Mas se eles percebem pouco os conteúdos, ainda menos entendem as discussões. Agora imaginem o que é assistir a um debate político travado em chinês. É chinês, por isso só damos atenção aos gestos e ao tom das intervenções, nada mais, o que torna o espectáculo no mínimo cómico. Foi assim que os meus filhos se sentiram no parlamento.
Há uns dias levei-os ao parlamento tal como os professores levam os seus alunos em visitas de estudo. Eles não queriam, é certo, a curiosidade era nula. Mas não tiveram alternativa. Recomendei que tinham de se portar bem, que não podiam correr, gritar nem fazer birras ou ficavam dois anos sem acesso ao computador. E lá foram eles, em filinha, rumo à casa da Democracia. Sentei-os, então, nas galerias a assistirem a um debate sobre a reabertura do troço Covilhã-Guarda na Linha da Beira Baixa. Era o que havia no dia. A criançada não se mexeu. De boca aberta observaram todo o plenário sem emitirem um único som. Expliquei que cada um dos deputados só podia falar três minutos e expliquei onde estavam sentados os diversos partidos, a presidência, quem eram as senhoras sentadas no meio do salão a escrever e quem era o Fernandes Tomás retratado na parede a discursar nos primórdios na Monarquia Liberal. Eles nada.
Meia hora de debate e chegaram as dúvidas: porque é que ninguém está a ouvir quando os senhores estão a falar? Porque é que nós temos de estar calados se está toda a gente a gritar e a falar? Onde é que estão o primeiro-ministro e o Presidente da República? Porque é que toda a gente ultrapassa os três minutos? Onde é casa de banho? Sobre o troço Covilhã-Guarda nem uma questão.
Expliquei tudo. Fui obviamente em defesa dos deputados que não fazem parte da comissão competente do troço Covilhã-Guarda e que por isso não prestavam muita atenção ao debate sobre o tema mas que, certamente, estavam a tratar de outros assuntos respeitantes às suas comissões. "Mas, se não ouviram, porque é que batem palmas?" Pois, é assim.... Também não explorei muito o tema do "ruído na sala" ou os "à partes". Apenas que fazem parte da "dinâmica parlamentar" assim como uma bola de futebol faz parte de um recreio da escola.
Dali fomos almoçar e nunca mais voltámos a falar desta visita ao parlamento. Quanto à política, eles ainda não entenderam bem o conceito, sabem que é qualquer coisa que está entre as discussões técnicas, os "à partes" e o processo que irá levar o Professor Marcelo a candidatar-se a Belém. Qualquer coisa que está entre uma brincadeira de gente grande e a física quântica. O pior é que desta vez não sei se isto passa com a idade.

Da perfeição possível

José Luís Nunes Martins
ionline 25 Jan 2014
Quem tem esperança não fica à espera. A esperança é poética, mas exige ação. O valor de um homem depende do que a sua vontade livre for capaz. Não do que pensa ou do que diz, mas do que faz. Cada gesto é uma criação que expressa, constrói e define... o seu autor.
A esperança de um homem é sempre uma fé em si mesmo, uma confiança no melhor de si, uma convicção de que há uma perfeição possível... num mundo para lá do aparente. É uma resposta a um apelo de bondade, a um desígnio que ultrapassa as barreiras do tempo e do espaço e que é, afinal, a nossa razão de ser, o nosso último fim... o infinito em nós.
Há uma coragem que, resultando da firmeza da alma ante todos os sofrimentos do caminho, nos leva de onde estamos ao que queremos, devemos e merecemos ser. A virtude da criação humana, rumo à perfeição. A espada do amor que se ergue contra o medo... a esperança.
Cada homem é uma vontade de ser verdade e amor. Mas, muitos são os que, tendo a felicidade interior ao seu alcance, a trocam pelos prazeres do momento deste mundo enganador... depois, desesperam dos outros, porque não confiam sequer em si mesmos... são consumidores. Não edificam nada, apenas se destroem, porque os seus sonhos são afinal pesadelos, mentiras, não as verdades que lhes dariam asas para ultrapassar as montanhas do seu egoísmo.
Feliz o homem que, tendo sido chamado pela sua esperança, obedeceu. Saiu, sem saber para onde ia. Na certeza absoluta de que esse era o seu caminho. O caminho para si. O caminho para o céu.

O direito a ter pai e mãe

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
ionline, 2014-01-25

Nenhum homem pode ser mãe, nem nenhuma mulher pode ser pai e cada criança precisa tanto de uma mãe como de um pai

A questão da co-adopção pelo parceiro, do mesmo sexo, de um filho menor, regressou à praça pública e poderá ser, em breve, objecto de um referendo nacional. Entre outros argumentos a favor da referida co-adopção, diz-se que as uniões de duas pessoas do mesmo sexo, sendo uma delas progenitora de filhos à guarda de ambas, são uma realidade que o direito não pode ignorar.
É verdade que o ordenamento jurídico deve conhecer a realidade social que pretende regular e que duas pessoas do mesmo sexo podem ser excelentes educadoras de um filho menor de uma delas. Também é certo que a lei não deve obedecer a preconceitos discriminatórios, nem a exigências religiosas, mesmo quando a sociedade se reconhece maioritariamente cristã. Mas destes princípios não decorre a absoluta autonomia do direito em relação à ordem natural, nem a sua subserviência em relação a qualquer fenómeno social emergente.
A lei não cria a realidade, mas ordena-a para o bem comum, segundo os princípios da justiça social. Não é o ordenamento jurídico que cria o ser humano, tão-só verifica a sua existência e devia reconhecer-lhe os direitos e deveres inerentes. A geração é um processo natural, pelo qual uma mulher e um homem se tornam pais de um filho. O direito deve reconhecer essa filiação e pode, pela adopção, imitar esse procedimento, dando uma mãe e um pai a quem os não tem.
A condição de progenitor é pessoal, não extensiva ao cônjuge, nem a um seu parceiro em união de facto, seja esta entre duas pessoas do mesmo ou de diferente sexo. Só o ser feminino pode ser mãe, seja ela progenitora ou adoptante; como só pode ser pai o ser masculino, progenitor ou adoptante.
Cada criança só tem, verdadeiramente, um pai e uma mãe, naturais ou adoptivos. Que realidade fundamentaria a aberrante noção jurídica de 'segunda mãe', ou de 'segundo pai'?! Que o direito atribua a maternidade e a paternidade a um casal que não é progenitor do menor, mas que o quer adoptar, é razoável, porque essa mulher e esse homem têm, respectivamente, uma aptidão natural e, portanto, jurídica, para a maternidade e para a paternidade. Também é aceitável que se atribua ao cônjuge do pai, sendo mulher, a condição de mãe adoptiva, ou madrasta; ou ao cônjuge da mãe, sendo homem, o estatuto legal de pai adoptivo, ou padrasto. Mas nenhuma mulher pode ser pai ou padrasto, nem nenhum homem pode ser mãe ou madrasta, nem há lugar, na natureza ou no direito, para uma segunda mãe, ou um segundo pai, em simultâneo, que necessariamente seriam uma falsa mãe e um falso pai.
Alegam os defensores da pretendida co-adopção que a existência, ainda que muito minoritária, de uniões de pessoas do mesmo sexo, que coabitam com os filhos de uma delas, é uma realidade a que o direito não pode ser alheio. A verdade, porém, é que nem tudo o que é deve ser como é. A maternidade de algumas adolescentes e o incesto são também reais. Mas tais realidades não tornam razoável a antecipação da idade exigida para o matrimónio, nem a legalização do casamento entre parentes próximos. Se o direito permitisse tais uniões precoces ou incestuosas, não só estaria a reconhecê-las como estaria, sobretudo, a promovê-las, atento o pressuposto de que a lei é um referencial ético. Há gravidezes de mães jovens e uniões incestuosas, mas é justo que o direito as não legitime, principalmente porque os filhos dessas uniões, prematuras ou consanguíneas, seriam as principais vítimas do reconhecimento jurídico dessas indesejáveis realidades sociais.
Mais do que qualquer outro princípio, interessa ao direito a defesa dos mais necessitados, ou seja, das crianças. É sobretudo por elas e pelo seu bem que não se pode permitir esta co-adopção. Não está em causa a bondade, certamente excelente, dos eventuais co-adoptantes, mas o superior interesse das crianças. Não se consinta que os menores, que sofrem a infelicidade de não ter mãe e/ou pai, sejam também privados do amor materno e paterno, que só uma mulher e  um homem, respectivamente, lhes podem dar. 

25 de Janeiro - Conversão de S. Paulo

Eu sou Jesus de Nazaré a quem tu persegues
Actos dos Apóstolos 22, 8

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Adopção por homossexuais


Janeiro de 2014

Novembro de 2013
Junho de 2013




    A tradição

    Vasco Pulido Valente | Público | 24/01/2014

    O sr. Hollande assinou o último certificado de óbito da esquerda, seguindo, como lhe competia, a tradição.

    Com lágrimas, com irritação, com desespero, a esquerda ouviu esta semana François Hollande renunciar ao socialismo. A esquerda tem má memória. Desde o princípio que o socialismo se reduziu a conceder alguns leves benefícios aos trabalhadores, que se foram acumulando, e que se devem em parte considerável à mais pura direita.
    Quem começou esta política foi, de resto, o príncipe Bismarck, antes de 1890, para conter simultaneamente o SPD e o liberalismo alemão que pretendia renascer contra ele. Durante a Grande Guerra (a I), o partido de Lenine e Estaline estabeleceu uma ditadura que se dizia "comunista", mas que no fundo não passava de uma nova tentativa de "modernização" do império do czar, executada com uma particular ferocidade.
    Depois de 1918, ainda apareceram meia dúzia de imitadores. Na Hungria, Béla Kun inventou uma "República Soviética", que durou cinco meses e quase não passou de Budapeste. Em Munique, também foi proclamado o "comunismo", que provocou uma pequena guerra civil e desapareceu em menos de um mês. Pela Europa ocidental, as coisas continuaram na mesma. O trabalhista MacDonald governou a Inglaterra de Janeiro a Novembro de 1924 e, depois, em coligação com os conservadores, de 1929 a 1935, uma aventura que lhe valeu a expulsão do partido. Em Espanha, a URSS tomou o poder por interposta pessoa a partir de 1937 e em 1939 perdeu a guerra. E, em França, Léon Blum conseguiu aguentar um ano, meio paralisado pelos radicais da sua "Frente Popular", mas sempre deixou à "classe operária" o dia de 8 horas, mais duas semanas de férias pagas.
    Em 1945, a Europa de Leste ficou sob a tutela da URSS de que só se conseguiu livrar em 1989. No Ocidente passaram pelo governo, se a América aprovava, dezenas de partidos nominalmente "socialistas", que sobretudo se esforçaram por promover a prosperidade do capitalismo, compensando aqui e ali os trabalhadores com o famoso Estado social, a que se reduziu em última análise a utopia do século e que hoje parece perigosamente perto da dissolução. O sr. Hollande não fez mais do que os seus predecessores. O "socialismo", nas suas muitas variantes, nunca existiu e nunca chegou verdadeiramente a ser a ideologia dominante de nenhum Estado constituído. A retórica de intelectuais sem emprego não substitui a acção, como milhares de vezes se provou. O sr. Hollande assinou o último certificado de óbito da esquerda, seguindo, como lhe competia, a tradição.

    Aquilo que não tem sido dito no debate sobre a “Ciência em crise”

    José Manuel Fernandes, | Público | 24/01/2014 - 01:57

    A Ciência não é apenas bolseiros da FCT, e até devemos perguntar porque há tantos bolseiros "proletarizados".

    Com aquela tendência bem portuguesa para transformarmos tudo num enorme cataclismo, vivemos nos últimos dias a experiência de mais uma "zona de desastre". Desta vez, garante-se, o que está em causa é o futuro da Ciência em Portugal. Como é típico nestas situações, o "consenso" que rapidamente se formou acabou por turvar os termos do debate, que ficou polarizado apenas num dos seus aspectos – desta vez o número de bolsas atribuídas pela FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) – e ignorou todos os demais componentes.
    O ponto de partida para a actual comoção foi a ideia de que teria acabado aquilo a que se chamou "a aposta na Ciência". A prova seria a "diminuição brutal" do número de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento. Na verdade, olhando para os números que este mesmo jornal divulgou domingo passado, e outros que estão disponíveis nas bases de dados públicas, é difícil sustentar a tese de hecatombe.
    Em termos globais, o investimento em Ciência em percentagem do PIB atingiu um máximo de 1,64% em 2009 e em 2012 regressara aos valores de 2008, ou seja, a 1,50%. Estes valores não ficam longe da média europeia de 2,07% e colocam Portugal à frente de todos os outros países do Sul da Europa, incluindo a Espanha e a Itália. Mais: quando olhamos para o detalhe das estatísticas, verificamos que dos 0,14% perdidos entre 2009 e 2012, 0,10% foram perdidos pelo sector privado, o que significa que a quebra no sector público foi de apenas 0,04% (Pordata). Estes indicadores são coerentes com os números fornecidos pela FCT para o nível de investimento público (Orçamento e fundos comunitários): depois de um pico de 452 milhões em 2009, o investimento caiu para 412 milhões em 2011 e recuperou para 424 milhões em 2013 (números provisórios), um valor semelhante ao de 2008 (427 milhões).
    Estes números não nos mostram uma situação de catástrofe, como se poderia deduzir do tom do debate público. Mostram-nos sim que o rápido crescimento do sistema parou em 2009 e que as verbas públicas investidas em Ciência começaram a diminuir ainda no tempo de Mariano Gago, sendo que o investimento total diminuiu mais no sector privado do que no sector público. Isto significa que, se compararmos com outras áreas afectadas pela actual crise, temos de admitir que este sector acabou por ser dos mais poupados.
    Mas se não podemos falar de hecatombe, isso não impede que existam problemas graves. Como o da qualidade da ciência produzida. Ou como o da situação dos bolseiros.
    Uma das "verdades sagradas" do actual debate é a de a Ciência produzida em Portugal ser de alta qualidade. A existência de alguns investigadores, em especial jovens investigadores, que têm obtido prémios internacionais reforça essa percepção. Infelizmente, se há em Portugal muitos centros de excelência, o resultados geral do sistema é pouco mais do que mediano, quando não medíocre. Basta pensar no seguinte: no nosso país existiam em 2012 9,2 investigadores por cada 1000 activos, uma percentagem que nos colocava em quinto lugar na Europa, logo atrás dos países nórdicos. Porém, se considerássemos o indicador compósito do Eurostat para a excelência em ciência e tecnologia (um indicador que integra variáveis como o número de publicações científicas ou de patentes), Portugal caía para 19.º lugar, sendo mesmo o pior dos países do Sul da Europa. Em síntese: temos muitos investigadores mas com baixa produtividade.
    De facto, como disse a investigadora Maria Mota, recentemente distinguida com o Prémio Pessoa, "caímos no risco de achar que, como crescemos imenso, já estamos no topo e não estamos. Já temos muitos indivíduos que estão ao nível dos melhores, mas sobretudo ao nível promissor". Ao comparar-nos com países como a Alemanha ou a Suíça, esta cientista constata que "lá já não há coisas medíocres", ao contrário do que ainda sucede em Portugal. Por isso Maria Mota a defendeu, numa entrevista que deu em Setembro do ano passado, que era "preciso podar, e estaria talvez na altura de o fazer".
    Estas situações de mediocridade não são separáveis do estatuto dos bolseiros, pois os seus problemas são uma das consequências das regras existentes em muitos dos locais onde hoje se faz Ciência. Nesta área, como em muitas outras em Portugal, construímos um país dual.
    De um lado temos os professores e investigadores que, sobretudo nas décadas de 1980 e 1990, encheram os quadros das universidades e, depois, dos laboratórios associados. Muitas dessas pessoas estão hoje envelhecidas, nunca tiveram uma qualidade por aí além, mas são inamovíveis por muitos e longos anos. Toda a gente que conhece o sistema sabe do que falo.
    Do outro lado temos as gerações que têm vindo a ser formadas nos últimos anos, temos centenas de investigadores com mais valor e mais qualificação do que muitos dos que estão instalados, mas que encontram as instituição cheias e sem vagas. Todos os anos, sempre que mais uma coorte de universitários termina a sua formação, o número dos que ficam à porta do sistema aumenta.
    O rápido crescimento do sistema de bolsas de doutoramento e, sobretudo, de pós-doutoramento tornou-se assim não apenas numa tradução do investimento em Ciência, mas numa forma de ir mitigando os problemas de emprego de um número crescente de jovens qualificados. Foi uma solução que só podia acabar mal: quando olhamos para os números verificamos que, mesmo antes da crise, o ritmo de crescimento do número de candidatos era exponencial superior ao ritmo de crescimento das bolsas atribuídas (em 2000 houve 1454 candidatos a bolsas de doutoramento e 309 a de pós-doutoramento, em 2012 foram 4367 a bolsas de doutoramento, três vezes mais, e 2123 a de pós-doutoramento, sete vezes mais). Ou seja, estava a formar-se uma bolha: havia cada vez mais gente à porta do sistema científico, este deixara de poder crescer organicamente, e mais tarde ou mais cedo o Estado deixaria de conseguir continuar a financiar mais e mais bolsas. Foi isso que aconteceu agora. Criara-se entretanto uma espécie de proletariado feito de uma multidão de bolseiros para quem o Estado parece ser o único empregador possível. É um beco sem saída indolor.
    Ao discutirmos apenas o número de bolsas não discutimos o que está na origem das dificuldades. Não discutimos, por exemplo, as razões por que as instituições não se renovam e têm tendência para enquistar, como sucedeu, por exemplo, em alguns dos laboratórios do Estado, outrora centros de excelência e que hoje vegetam por entre lamentos relativos à ausência de quadros com menos de 40 anos. Essa discussão seria sempre mais difícil e incomodaria os parceiros do lado, pelo que é mais fácil pedir, "em nome da Ciência", que se alarguem os quadros mesmo quando não há novas formas de financiamento.
    Mas a falta de perspectivas dos nossos bolseiros não é apenas consequência do anquilosamento de muitas instituições universitárias e científicas – é também fruto da debilidade do sector privado. Em Portugal apenas três por cento dos doutorados encontraram emprego na indústria, o que compara com médias europeias que andarão nos 40%, ou americanas e asiáticas nos 60%. Esta realidade não se muda de um dia para o outro e não deriva apenas de os nossos industriais investirem pouco em inovação e desenvolvimento, pois também são muito poucos os que, tendo concluído o seu doutoramento, arriscam criar as suas próprias empresas. Há bons exemplos, mas são raros. Até porque falta espírito empreendedor e sobram as dificuldades criadas pela burocracia e pela regulação.
    Para além disso continuamos a olhar apenas para o Estado quando há problemas ou falta dinheiro. Mas o Orçamento não dá para tudo. Em 2012 Portugal canalizou para a ciência e desenvolvimento quase 2% do OE (Eurostat), o quarto valor mais elevado da Europa, só superado pela Alemanha, Estónia e Islândia. Isto significa que o défice de financiamento não está do lado dos dinheiros públicos, e que é difícil pedir um esforço ainda maior aos contribuintes. O caminho que está a ser feito pelas instituições que procuram diversificar as suas fontes de financiamento não é por isso apenas necessário e recomendável, tornou-se inevitável.

    Futuro

    Nunca penso no futuro. Ele chega rápido demais
    Albert Einstein

    quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

    Lisboa: Patriarcado destina renúncia quaresmal à «Ajuda de Berço»

    Donativos dos católicos canalizados para construção de cuidados continuados pediátricos

    Lisboa, 23 jan 2014 (Ecclesia) – O Patriarcado de Lisboa anunciou hoje em comunicado que a "renúncia quaresmal" da diocese vai ser entregue este ano à Associação de Solidariedade Social 'Ajuda de Berço', para a construção de uma unidade de cuidados continuados pediátricos.
    A decisão foi aprovada pelo Conselho Presbiteral, órgão constituído por representantes dos padres da diocese, que se reuniu entre terça e quarta-feira.
    A  renúncia quaresmal é uma prática proposta pela Igreja Católica em que os fiéis abdicam da compra de bens adquiridos habitualmente noutras épocas do ano, reservando o dinheiro para finalidades especificadas pelo bispo diocesano.
    A Quaresma, que este ano se inicia a 5 de março, com a celebração de Quarta-feira de Cinzas, é um período de 40 dias, excetuando os domingos, marcado por apelos ao jejum, partilha e penitência, que serve de preparação para a Páscoa, a principal festa do calendário cristão.
    Na primeira reunião do Conselho Presbiteral de Lisboa presidida por D. Manuel Clemente, o patriarca lembrou que é necessário criar uma "disponibilidade espiritual para a evangelização", e uma "coragem", para caminhar numa posição de "contracorrente
    "Se formos coerentes com o que anunciamos, podemos sentir a alegria do Evangelho", e "há muito trabalho a fazer", afirmou, no discurso inicial.
    O Conselho Presbiteral refletiu ainda sobre "algumas questões relacionadas com o tema da família e as dificuldades que surgem na transmissão da fé e dos valores morais".
    O Patriarcado prevê a criação de equipas de pastoral familiar nas vigararias e paróquias da diocese e a constituição de um núcleo de apoio para ajudar nas "situações difíceis com as quais as famílias se confrontam", para além de "um serviço de preparação para o batismo e outro para o matrimónio".
    No final da sessão do Conselho Presbiteral, o patriarca de Lisboa apresentou a proposta de realização de um Sínodo Diocesano, a realizar em 2016, que foi "aprovado por unanimidade e com aclamação".

    Co-adopção: resposta a Fabíola Cardoso


    Cara Fabíola,
    Antes de mais deixe-me dizer-lhe o quanto lamento a sua doença. Não consigo imaginar a dor pela qual a Fabíola e a sua família passaram e provavelmente estão a passar e espero que consiga vencer esta dura batalha.
    Para além disso quero desde já garantir que respeito totalmente as suas decisões sobre a sua vida privada. A maneira como a Fabíola vive e educa os seus filhos não me diz de todo respeito. Não tenho dúvida alguma de que a Fabíola faz o que na sua opinião é melhor para os seus filhos. E como mãe essa responsabilidade é sua e a maneira como a exerce não me diz respeito.
    Contudo, com a carta que escreveu aos deputados, a Fabíola tornou a educação dos seus filhos num exemplo para pedir a aprovação do projecto sobre a co-adopção que está a ser discutido no Parlamento.
    Ora a Fabíola tem todo o direito às suas convicções. Também tem o direito de educar os seus filhos de acordo com elas. Não pode é querer impor aquilo em que acredita ao resto do país.
    Pode acreditar que as crianças não precisam de um pai e de uma mãe. Pode acreditar que é igual ter duas mães ou ter pai e mãe. Não pode é obrigar todos os portugueses a acreditar no mesmo. Como mãe tem o direito e o dever de educar os seus filhos da maneira que lhe parece melhor, não tem é o direito de educar os filhos dos outros.
    Pai e mãe não são iguais, porque homem e mulher não são iguais. Têm os mesmos direitos e a mesma dignidade, mas são diferentes. E essa complementaridade é importante para a educação de uma criança.
    Existem muitos casos onde não é possível a uma criança ter pai e mãe. E em muitos desses casos as pessoas responsáveis pela educação dessas crianças fazem um trabalho extraordinário que lhes permite ter uma vida absolutamente normal.
    Contudo já basta quando são as próprias circunstâncias a ditar que uma criança não tenha pai ou não tenha mãe. Não é preciso que o Estado decida agora que algumas crianças podem ser obrigadas a não ter pai ou mãe caso um dos progenitores assim decida.
    Acredite Fabíola que eu tenho o maior respeito por si, pelas suas decisões e pelas dificuldades com que lida. Contudo não me parece que essas dificuldades devam ter como resultado impor a todos os portugueses a sua ideologia.
    Por isso a Fabíola vai ter de me desculpar. O seu desabafo é legítimo e o seu lamento compreensível, mas espero que o seu pedido não seja ouvido. Porque por muito respeito que tenha pela sua circunstância, nem a Fabíola, nem o Parlamento, nem o Estado têm legitimidade para retirar a uma criança o seu direito a um pai e uma mãe.
    Com os desejos sinceros que tudo lhe corra bem,

    Borlas nunca mais


    Os borlistas são piores do que bullies: são os novos esclavagistas.
    Todos os dias chegam convites para borlas. Para escrever à borla. Para falar à borla. Para ser filmado à borla. Para ser gravado à borla. Não há dinheiro, dizem. Já se sabe como é, explicam. É só por isso que pedem borlas. Se pudessem, adiantam, pagariam o que eles acham que nós merecemos: é muito.
    As pessoas que pedem borlas não trabalham à borla. Recebem dinheiro, têm ordenados, arriscam lucros. Custa-lhes muito pedir que trabalhemos de borla — porque eles não.
    Há quem trabalhe de borla num projecto pelo qual está apaixonado e espera que nós, apesar de os projectos não serem nossos e de nós não estarmos apaixonados por eles, trabalhemos de borla — na esperança de que também nos apaixonemos por ela. Pois sim.
    Até há quem acredite que nos está a fazer um favor, achando que a borla que nos pede é uma maneira de participarmos: uma oportunidade de melhorarmos a (má) "imagem pública" que temos.
    Os piores são os excepcionais. Mandam mails a dizer que sabem que detestamos borlas mas que o convite deles é diferente, por ser tão fascinante. E depois pedem uma borla como todos os borlistas desde que a ideia de o trabalho ser pago foi inventada.
    Será que a palavra convidar perdeu os sentidos? Convidar é o contrário de pedir trabalho. Convidar é aliciar para o ócio e para o prazer. Se o convite envolve despesas (ir a um restaurante) é quem convida quem paga. Agora já é o convidado.
    Os borlistas são piores do que bullies: são os novos esclavagistas.

    Pai e mãe e a "co-adopção" homossexual


    Houve quem falasse inapropriadamente de "totalitarismo" a respeito das críticas à "co-adopção" homossexual. Mas, já que se falou nisso, convém ter presente que a convicção de que todo o poder está na ponta da caneta do legislador é, essa sim, em si mesma, uma convicção de matriz totalitária.
    A ideia de que o Estado pode criar a realidade através do poder da lei é um delírio perigoso, que nos coloca no cimo da rampa de todas as derivas totalitárias. O Direito é fonte de justiça quando limitado pela Humanidade ou subordinado ao Direito Natural, mas fonte de abusos e violências quando se arvora ilimitada omnipotência. As maiores violências começaram sempre, aliás, na própria lei e seu abuso: a pena de morte, a prisão perpétua, a escravatura, tortura, perseguição, expulsões arbitrárias.
    As leis de Direito Privado são leis matricialmente narrativas: não conformam a natureza, conformam-se a ela. Não foi sequer um legislador qualquer que inventou os contratos, quanto mais o resto. Os contratos existem, são como são; a lei regula-os. Num Estado de Direito, as leis privadas não criam a realidade, aderem a ela. Regulam, ordenam, mas não criam, nem inventam, muito menos contra a realidade. Se o fizessem, atropelariam a realidade; e seriam de deriva totalitária.
    Se todos nascemos de pai e de mãe, é violência extrema privar alguém do direito a ter pai ou do direito a ter mãe. A dupla referência masculina e feminina que é parte da nossa natureza integra a nossa própria identidade pessoal. É o que somos, é o nosso ser.
    Por isso mesmo, a generalidade das declarações de direitos humanos e das Constituições modernas (como a portuguesa) inclui o direito à identidade pessoal no elenco dos direitos fundamentais da pessoa humana - sem isso, não somos. E esse direito à identidade é componente principal da dignidade da pessoa humana.
    É desse direito fundamental à identidade pessoal que decorre, por exemplo, o dever de o Estado apoiar e promover a investigação da paternidade ou maternidade nos filhos do incógnito. E é desse direito à identidade pessoal que decorre também a noção de adopção do nosso Código Civil (art.º 1598.º) como "o vínculo que [se estabelece legalmente entre duas pessoas] à semelhança da filiação natural, mas independentemente dos laços do sangue."
    O projecto da co-adopção homossexual é uma fraude intelectual e uma manipulação jurídica. É uma esperteza: não-saloia, mas sofisticada. Nem tanto sequer pelo que já foi dito - ser a gazua que abre a porta à adopção homossexual em geral - mas pelo resto.
    A adopção tem um lado generoso, que é atribuir pai e/ou mãe; mas outro violento, que é tirar pai e/ou mãe. É isso que faz da adopção um instituto tão difícil e tão delicado; e da sua decisão um processo sério, melindroso e complexo.
    Quando atribuímos juridicamente uma criança a um pai e/ou uma mãe, estamos a retirá-la definitivamente, de forma irrevogável, a outro pai e/ou outra mãe naturais - a estes e, simultaneamente, a retirá-los também da sua família respectiva, de pertença natural: irmãos, primos, tios, avós que fossem. A geração natural é apagada e substituída, para todos os efeitos, pela filiação jurídica. A genealogia dessa criança é reescrita por inteiro. Para sempre.
    Só é possível diminuir levianamente a seriedade e delicadeza real ou potencial dos problemas a considerar, se imaginarmos as crianças de que se trate como res nullius, coisa de nada e de ninguém. Mas nenhuma criança, mesmo a mais só e abandonada, é assim tão nullius: tem uma história e uma realidade. Que lhe pertence e a que pertence.
    Adoptar a co-adopção é consagrar que, pela potente força imperial da lei, uma criança pode passar a ser "filha" de pai e pai, sem mãe; ou "filha" de mãe e mãe, sem pai - e, ipso facto, negar-lhe em definitivo o direito a ter uma mãe ou o direito a ter um pai, proibindo-o para todo o sempre.
    Não se trata de saber quem cuida de quem, mas de alterar radicalmente a genealogia de uma pessoa, truncando para sempre a sua identidade pessoal. Escusa de buscar, mais tarde, mãe ou família materna, se a não conhecia; ou de procurar pai ou família paterna, que não soubera - essas relações ter-lhe-iam sido apagadas e proibidas para todo o sempre pelo "Direito". Essa criança teria passado a ter, sem apelo, nem agravo, duas mães e duas famílias maternas e nenhuma paterna, ou dois pais e duas famílias paternas e nenhuma materna.
    Mesmo o projecto de co-adopção do PS reconhece - e bem - que aquilo que designa de "parentalidade" é dual, isto é, que somos filhos de dois. Está certo.
    Mas quem é que disse que são dois? Quem foi esse ominoso criador que determinou que sejam dois, e não quatro, ou cinco, ou n? Garanto que não fui eu. E, não tendo sido eu, essa dualidade parental também não resultou da autoridade da caneta da Dr.ª Isabel Moreira, ou da pena entusiástica do Dr. Pedro Delgado Alves ou do arrobo igualitário da escrita da Dr.ª Elza Pais. Isso resulta de modo inteiramente prosaico da natureza, da biologia, vá lá... do Criador.
    A realidade é, de facto, a da dualidade parental; não uma parentalidade qualquer ou indiferente, mas uma dualidade de maternidade e paternidade. Somos filhos de dois, mas não de quaisquer dois - somos filhos de dois, porque somos filhos de mãe e de pai. Será isto homofobia? Não. É a biologia, a natureza. A natureza, não das coisas, mas a natureza das pessoas.
    Deputado do CDS-PP

    Liberdade de Educação

    Passou ontem o aniversário do nascimento de Antonio Gramsci (22 de Janeiro de 1891 – 27 de Abril de 1937), político e filósofo, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano. Celebremo-lo recordando um seu pensamento que hoje a esquerda tende muitas vezes a esquecer:
    A ESCOLA. «Nós socialistas devemos ser defensores da escola livre, da escola deixada à iniciativa privada e às autarquias. A liberdade na escola é possível somente se a escola é independente do controlo do Estado. (…) Nós devemos fazer-nos defensores da escola livre e conquistarmos a liberdade de criar a nossa escola. Os católicos farão outro tanto onde estão em maioria; quem tiver mais linha tecerá mais pano» (Il grido del popolo).
    (Traduzido de Tempi.it)

    Família: A humanidade precisa de ti - conferência com Padre Gonçalo Portocarrero de Almada

    EJNS by papinto

    quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

    "Foi a Igreja que abandonou a humanidade, ou foi a humanidade que abandonou a Igreja?"

    Esta é a pergunta colocada por T. S. Eliot, o grande poeta e dramaturgo inglês de origem norte-americana, que em 1948 ganhou o prémio Nobel da Literatura com a obra "Quatro Quartetos".
    A frase pertence a uma das suas produções menos conhecidas e mais polémicas, a peça "A Rocha", da qual só uma parte, incluindo as vozes dos seus Coros, Eliot considerou ser plenamente da sua autoria.
    São precisamente "Os Coros de 'A Rocha'" que acabam de ser publicados pela primeira vez em Portugal, numa edição bilingue da editora Tenacitas, que será apresentada hoje, na Faculdade de Ciência Sociais e Humanas (Av. Berna), pelo Crítico Literário Pedro Mexia e pela Professora de Teoria de Literatura Maria do Rosário Lupi Bello.
    Vão ser lidos alguns excertos da obra em português por Pedro Mexia e, no original inglês, por Jeffrey Childs, Professor de Estudos Ingleses e Americanos.

    Comentários de Monsenhor Luigi Giussani aos Coros de "A Rocha" (em inglês)


    A primeira escola dos filhos

    Em certa ocasião, um pai de família começou uma conferência com a seguinte pergunta ao auditório: «Sabem qual é a primeira escola que os filhos devem ter?». As respostas foram muito variadas: um infantário, uma creche, um jardim-escola.
    «Nada disso» ― respondeu o conferencista. «A minha experiência de pai de uma família numerosa ― lá em casa somos dez: a minha patroa, oito filhos e este seu servidor ― é que a primeira e fundamental escola dos filhos é o amor entre os pais. De todas as escolas que conheço é a que melhor ensina a matéria mais importante: ensina a amar. Dessa "cadeira" depende a felicidade dos nossos filhos nesta vida e na futura».
    É do amor mútuo entre os pais que procedem os filhos. No entanto, esse amor não pode permanecer somente no acto gerador inicial. Demonstra-se, sobretudo, nessa geração não biológica que é tão fundamental na vida de qualquer um de nós: a educação.
    E é o amor entre os pais ― que se transmite aos filhos ― a primeira "escola" que educa lá em casa. Não só educa, mas dá coesão, transmite segurança e permite aos filhos crescerem e desenvolverem-se num ambiente saudável. Como alguém disse ― e com razão ― a família é sempre o melhor ministério da educação, da saúde e da segurança social.
    Se há amor entre o pai e a mãe ― amor que se manifesta em detalhes de espírito de serviço todos os dias ― a atmosfera que os filhos respiram é de entrega e de generosidade. E estes dois conceitos possuem uma estreita relação com a capacidade de amar de cada um de nós. Sem entrega e sem generosidade não há amor ― há palavras bonitas, eflúvios sentimentais e nada mais.
    Para se construir um lar amável, acolhedor e formativo é necessário o seguinte "material" fundamental: um pai, uma mãe, o amor entre eles e aos filhos. E o amor manifesta-se ― entre outras coisas ― na dedicação de tempo tanto ao cônjuge como aos filhos. Essa dedicação complementar é responsabilidade dos dois ― não só ou sobretudo da mãe. É bom não esquecer que os filhos, para crescerem harmonicamente, necessitam também da presença, amizade e carinho do pai.
    É verdade que, por motivos graves, Deus dá a sua graça para suprir a forçada ausência de um dos dois progenitores na educação dos filhos. No entanto, o que não está correcto é a inibição ou a renúncia voluntária de um deles por comodismo, excesso de trabalho ou pouca paciência.
    Como dizia S. Josemaria, o primeiro e o melhor negócio dos pais é a educação dos seus filhos. Ser pais é a primeira ocupação das suas vidas e é, ao mesmo tempo, um desafio maravilhoso. Por isso, o amor genuíno leva a antepor a família ao trabalho. Estas duas realidades são importantes na vida de uma pessoa ― mas não estão ao mesmo nível!
    Pe. Rodrigo Lynce de Faria