quarta-feira, 31 de julho de 2013

Autoridade e razão

Pedro Braz Teixeira, ionline, 2013-07-31
Num país em que os argumentos de autoridade valem mais que os argumentos racionais, a asneira é rainha
Em Portugal existe uma estranha originalidade. Embora, como na generalidade dos países, os políticos, como um todo, sejam avaliados de forma claramente negativa, é entre eles que a comunicação social tende a recrutar os seus comentadores.
Antes de mais, convém esclarecer que isso não parece resultar de um enviesamento da comunicação social. Se os portugueses não atribuíssem valor ou interesse a esses comentários, é pouco provável que os órgãos de comunicação contratassem de forma tão esmagadora ex-primeiros ministros e ex-ministros.
A parte mais preocupante desta originalidade portuguesa, que surpreende qualquer analista estrangeiro, é que, demasiadas vezes, esses ex-governantes não deixaram uma obra louvável.
Ou seja, é como se o principal atributo destes políticos comentadores não fosse a qualidade mas a autoridade. A ocupação de lugares de chefia no passado parece conferir a estas pessoas uma autoridade duradoura, que se prolonga no tempo muito para além da posição exercida. O pior de tudo é que este estatuto de autoridade parece quase completamente independente da qualidade da chefia exercida. Mesmo os chefes mais incompetentes e corruptos preservam essa aura de autoridade quando, racionalmente, seria natural concluir que nunca deveriam ter ocupado aquele posto, por manifesta e gritante incapacidade.
Em França, os antigos ministros continuam a ter o título desse cargo, em termos vitalícios. Ou seja, noutros países os ex-governantes mantêm um certo estatuto, mas não são convidados para fazer comentário político.
Esta originalidade portuguesa revela uma outra coisa: a falta de apreço pela inteligência e pela qualidade intelectual, que não será alheia ao baixíssimo nível de escolaridade do nosso país, o pior dentro da UE.
O problema não reside na escassez de intelectuais capazes e disponíveis para reflectir e comentar a actualidade, mas antes na baixa valorização das suas reflexões.
Isto é também flagrante e infelizmente patente na pobreza franciscana do debate público em Portugal. Após a divulgação de um estudo sério, basta a oposição, sob a forma de uma ou duas baboseiras, proferidas por alguém com alguma autoridade, não mais do que um dirigente sindical, para aniquilar aquele estudo.
Esta é também uma das razões explicativas do actual desastre nacional. Um país em que basta uma idiotice de uma figura de autoridade, por menor que esta seja, quer a cretinice quer a autoridade, para destruir uma reflexão aprofundada, está condenado ao maior dos fracassos. Quando os argumentos de autoridade valem mais que os argumentos racionais, a asneira é rainha.
Isto conduz-nos a uma das mais graves debilidades da sociedade portuguesa: a excessiva tolerância à mediocridade, à incompetência e à desonestidade dos chefes. Numa sociedade mais intolerante aos maus chefes, estes são rapidamente afastados, preservando a qualidade das instituições. Em sociedades, como a portuguesa, em que a mediocridade no topo é escandalosamente permitida, há uma terrível contaminação do conjunto das instituições submetidas a chefes tão fracos.
Por seu turno, uma sociedade dominada por medíocres nos lugares de topo, sufocando a qualidade como uma ameaça terrível, que os pode pôr em causa e que é essencial suprimir, só pode ter os piores resultados colectivos.
Acrescentaria ainda que em Portugal há uma dupla desvalorização da razão, por um efeito antigo e outro mais recente. O efeito antigo é o da excessiva reverência à autoridade, referido atrás, que vai para além do mero "respeitinho". A influência mais recente diz respeito à "democratização" da opinião, em que a minha ignorância vale tanto como o conhecimento do outro.
Um dos sinais mais preocupantes é que temos assistido nas últimas décadas, em paralelo, a um aumento da formação dos portugueses e a uma degradação da qualidade intelectual do debate público. É certo que os blogues vieram trazer uma contribuição muito enriquecedora, mas cada vez menos a sua influência se estende a públicos mais alargados.
Director-executivo do Nova Finance Center, Nova School of Business and Economics

A arte do inacabado

Hoje, o Povo interrompe as suas mensagens de e-mail até Setembro.
Estas interrupções no tempo deixam sempre a impressão de que muita coisa fica por fazer, o que nos incomoda, mas quando regressamos não houve grande consequência dessa paragem. Saber lidar com a nossa reacção ao tempo exige grande sabedoria que as férias ajudam a ganhar e de que nos fala hoje o Padre Tolentino.
Boas férias
Pedro Aguiar Pinto
A arte do inacabado
Pe. José Tolentino de Mendonça
Expresso, 20-07-2013
É-nos dito e repetido que o tempo bem aproveitado é um contínuo, tendencialmente ininterrupto, que devemos esticar e levar ao limite. A maioria de nós vive nessa linha de fronteira, em esforçada e insatisfeita cadência, a desejar, no fundo, que a vida seja o que ela não é: que as horas do dia sejam mais e maiores, que a noite não adormeça nunca, que os fins de semana cheguem para salvar-nos a face diante de tudo o que fica adiado.
Quantas vezes damos por nós a concordar automaticamente com o lugar comum: "precisava que o dia tivesse quarenta e oito horas" ou "precisava de meses de quarenta dias". Desconfio que não seja isso exatamente o que precisamos. Bastaria, aliás, reparar nos efeitos colaterais das nossas vidas sobreocupadas, no que fica para trás, no que deixámos por dizer ou acompanhar.
Sem darmos bem conta, à medida que os picos de atividade se agigantam, as nossas casas vão-se assemelhando a casas devolutas, esvaziadas de verdadeira presença; a língua que falamos torna-se incompreensível como uma língua sem falantes no mundo mais próximo; e mesmo que habitemos a mesma geografia e as mesmas relações parece que, de repente, isso deixou de ser para nós uma pátria e tornou-se uma espécie de terra de ninguém.
O ponto de sabedoria é aceitar que o tempo não estica, que ele é incrivelmente breve e, que por isso, temos de vivê-lo com o equilíbrio possível. Não nos podemos iludir com a lógica das compensações: que o tempo que roubamos, por exemplo, às pessoas que amamos procuraremos devolvê-lo de outra maneira, organizando um programa ou comprando-lhes isto e aquilo; ou que o que retiramos ao repouso e à contemplação vamos tentar compensar numas férias extravagantes.
A gestão do tempo é uma aprendizagem que, como indivíduos e como sociedade, precisamos fazer. Nisto do tempo, por vezes é mais importante saber acabar do que começar, e mais vital suspender do que continuar.
Lembro-me que durante anos, numa casa em que vivi, ouvia diariamente o varredor público limpar as folhas caídas do grande lódão, por baixo da minha janela. Ele chegava por volta da 1 da manhã, mais coisa menos coisa. A música da sua vassoura era uma chamada a concluir e a recolher-me. Também eu precisava varrer a minha dispersão e apagar a luz até ao dia seguinte.
Mas até esse exercício de interromper um trabalho para passar ao repouso não nos é fácil, pelo menos em certa idade. Isso implica, não raro, um exercício de desprendimento e de pobreza. Aceitar que não atingimos todos os objetivos que nos tínhamos proposto. Aceitar que aquilo aonde chegamos é ainda uma versão provisória, inacabada, cheia de imperfeições. Aceitar que nos faltam as forças, que há uma frescura de pensamento que não obtemos mecanicamente pela mera insistência. Aceitar porventura que amanhã teremos de recomeçar do zero e pela enésima vez.
Creio que o momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado, não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas condição inescusável do próprio ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo. O inacabado liga-se, é verdade, com o vocabulário da vulnerabilidade, mas também (e eu diria, sobretudo) com a experiência de reversibilidade e de reciprocidade.
A vida de cada um de nós não se basta a si mesma: precisaremos sempre do olhar do outro, que é um olhar o outro, que nos mira de um outro ângulo, com uma outra perspetiva e outro humor. A vida só por intermitências se resolve individualmente, pois o seu sentido só se alcança na partilha e no dom.
José Tolentino Mendonça
In Expresso, 20.7.2013
SNPC 23.07.13

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A cortina e o espelho

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2013-07-29

Nunca ninguém soube a causa, mas na manhã de 1 de Agosto de 2013 realizou-se o sonho de tantos de portugueses: subitamente faleceram todos os políticos nacionais, foi extinta a troika e até Angela Merkel se demitiu.
Os historiadores discutirão durante séculos esta incrível coincidência. No inexplicável desaparecimento da classe política falou-se em epidemia, nos bivalves contaminados das praias e suspeitou-se de terrorismo. A verdade é que quase todos os detentores de cargos públicos, ministros, deputados, magistrados e autarcas, bem como membros das comissões políticas dos dez maiores partidos nacionais foram encontrados mortos ou incapacitados. Os factos internacionais tiveram motivo independente, mas misteriosamente relacionado: a decisão do Tribunal Constitucional Alemão sobre a participação do Bundesbank no BCE levou à demissão de Merkel e suspensão dos programas de ajuda aos países endividados. Acabou a troika.
O significado desta brutal e inesperada cadeia de acontecimentos foi difícil de entender. Até porque na hecatombe morreram igualmente muitos analistas políticos e directores de informação. Mas até o Presidente da República e o professor Marcelo Rebelo de Sousa, miraculosamente poupados, estavam sem explicações ou conjecturas.
O que interessa é que nos vimos livres do mal. Abruptamente desapareceram os elementos a que a generalidade dos cidadãos atribui as origens da crise. Todos sabem que a classe política, além de ser uma vergonha, é a culpada da situação. Por outro lado, as nossas dificuldades económicas vêm unicamente da estúpida austeridade imposta do exterior. De repente a crise acabou.
Ou melhor, a crise foi finalmente olhada na sua verdadeira natureza. Levantada a cortina de fumo mediático, foi possível ver o que realmente interessa, e que discussões, falácias, mentiras e confusões do debate político ocultam. Aberto o pano de cena que cobria o drama nacional surgiu... um enorme espelho: a verdadeira crise somos nós. Ficou então evidente aquilo que com tanto esforço se ocultou durante tanto tempo: afinal o problema produtivo é culpa nossa; o dinheiro esbanjado dos políticos foi gasto connosco; a dívida é de todos. A política é ilusão, o povo é realidade.
Porque os problemas de produtividade e mercado das empresas portuguesas não se resolveram por desaparecer o memorando de entendimento. As despesas exageradas que ninguém quer pagar não se evaporaram com a morte dos que as assinaram. A dívida continuou exactamente como era, e repudiá-la teria as mesmas consequências de ostracização e reclusão do país que sempre teve. A solução da crise, com ou sem ministros e troika, passa, como sempre passou, por cada um mudar de hábitos, trabalhar mais, gastar menos. O resto é fantasia.
Portugal vive um clássico dilema: quer baixar o total de gastos sem reduzir as parcelas. Para iludir o duro ajuste confunde-se mensageiro e mensagem, tratamento e doença. Acusar os que anunciam os cortes de os ter causado ou condenar o FMI pelas dores da terapêutica é não entender a maleita. Aludir a desperdícios e roubos alheios é forma cómoda de evitar as responsabilidades próprias e as poupanças inevitáveis.
Aliás, esta enorme e insólita hecatombe política agravou ainda mais a crise. Não tanto por ausência de decisores e estratégia nacional, mas pela perda dos milhões da troika, a que ninguém deu atenção até faltarem.
O morticínio de 1 de Agosto revelou a Portugal que o mal não vem do Governo mas do país. Afinal a defunta classe dirigente não era estúpida, mentirosa ou corrupta e as organizações externas não nos querem conquistar ou explorar. A economia é que está mal. Descobriu-se de repente que, apesar dos seus muitos erros, políticos e troika eram, mais que causa, alívio da recessão. Os esforços de ministros e Europa, com muitos equívocos e enganos, iam no bom caminho, inevitavelmente doloroso.
Assim, no dia 2 de Agosto começou a lenta nomeação de novas autoridades e a renegociação de um acordo de estabilização. Para resolver a crise.

Londres celebra prince George of Cambridge

João Carlos Espada Público, 29/07/2013
Há cerca de cem anos, o continente europeu preparava-se para entrar numa fase de excitação guerreira em torno de sucessivas promessas inovadoras: proteccionismo e rivalidade entre impérios continentais, primeiro, marxismo e nacional-socialismo, depois. Londres iria receber, nas décadas seguintes, novas vagas de exilados, entretanto perseguidos no continente por cada uma daqueles modernismos rivais.
Imperturbável, Londres usufruía tranquilamente as suas liberdades conservadoras: uma monarquia estável, um Parlamento soberano, sólidos direitos de propriedade, indiscutíveis liberdades sindicais, comércio livre, estritas normas de conduta não escritas, incompreensíveis aos olhos modernistas.
As coisas certamente melhoraram entretanto no continente europeu. Mas Londres continua a viver numa atmosfera singular, dificilmente compreensível pelo racionalismo cartesiano continental. Durante a semana passada, por exemplo, e debaixo de um calor estival surpreendente, o país literalmente entrou em comoção nacional pelo nascimento do "royal baby". A chegada de George Alexander Louis, oficialmente His Royal Highness Prince George of Cambridge, foi celebrada em todo o país, bem como no Canadá, Austrália, Nova Zelândia e até na Índia.
As sondagens mostram enorme apoio popular à monarquia constitucional: 66% apoiam o regime, e os republicanos resumem-se a uns ténues 17%. Três quartos dos inquiridos pensam que o recém-nascido príncipe George será rei - o que significa daqui a não menos de 50 anos, pois ele é o terceiro na linha de sucessão, depois do avô, Carlos, e do pai, William.
A par deste renascimento monárquico, a Inglaterra vive um renascimento do eurocepticismo. Depois de Nigel Lawson e Norman Lamont, dois distintos ex-ministros das Finanças, terem publicado severas críticas ao que consideram o centralismo crescente da União Europeia, dia após dia surgem novas reclamações de devolução de poderes de Bruxelas ao Parlamento de Westminster.
Decidi fazer um inquérito antropológico a esta curiosa tribo insular. Comecei por jantar no Reform Club com vários antigos colaboradores da sra. Thatcher. Este é um dos tradicionais clubes liberais de Londres. Ficou célebre o comentário de uma visitante americana, perante a imponência do edifício e a solene gravidade das normas de conduta do Reform: "Se este é o clube liberal, como será o clube conservador?"
O jantar decorreu numa tmosfera peculiar. Os meus interlocutores acham que a União Europeia é demasiado proteccionista. Que está a fechar-se ao comércio mundial. Que a Suíça faz mais trocas com a China do que a UE. E receiam que a zona euro esteja a condenar os países do Sul da Europa a uma recessão sem fim à vista. Em contrapartida, não culpam a Alemanha. Acham simplesmente que seria melhor regressar a uma Comunidade Europeia mais solta e com mais variedade concorrencial dentro de si: "Um pouco como os clubes de Londres, está a ver?"
Bem, eu estou certamente a ver a ideia, e parece-me interessante: uns clubes são progressistas, outros são conservadores, e cada um governa-se a si próprio - sendo que em todos temos de usar casaco e gravata. Mas ocorreu-me uma pergunta filosófica: como poderemos garantir que os diferentes clubes se respeitarão uns aos outros? Como garantiremos que, uma vez reintroduzida a variedade na União Europeia, os Estados--nação se comportarão como os clubes de Londres, em vez de voltarem a guerrear-se entre si?
A resposta não se fez esperar: "Quanto mais livres, menos razões haverá para os Estados europeus se guerrearem entre si. Foi a crescente integração uniformizadora, gerada pela miragem do euro, que criou as actuais tensões entre o Norte e o Sul."
Isso pode ser bem verdade em teoria, pensei eu, mas não sei se funciona na prática. E, cogitando nestas dúvidas, regressei ao Oxford & Cambridge Club, cem metros ali ao lado. Foi então que descobri uma inesperada comunhão entre os dois clubes: além de ambos não terem ar condicionado, ambos partilham a comoção nacional com o nascimento do "royal baby".
Atrevi-me então a perguntar a um amigo progressista qual era a razão de tamanha comoção nacional com o bebé real. "Bem, mas é óbvio", respondeu-me ele. "É o símbolo da continuidade da ancestral soberania do nosso Parlamento." Depois perguntei a uma amiga conservadora. E a resposta foi igualmente óbvia: "É o símbolo da nossa ancestral soberania nacional e da ancestral soberania da nossa monarquia parlamentar."
Retorqui com uma inescapável pergunta filosófica continental: mas por que razão veneram ambos uma soberania ancestral? A resposta foi quase em uníssono: "Tem funcionado razoavelmente bem, não acha? Por que razão iríamos abandonar uma tradição ancestral que funciona menos mal por uma promessa incerta de perfeição modernizadora?"

domingo, 28 de julho de 2013

Que assim seja!

Ana Soares
Diário de Trás-os-Montes, 28-07-2013

Quando o Verão nos brinda com uma remodelação governamental, com novo aumento do número de desempregados, com a crise a manter-se dramática no seio dos agregados familiares portugueses, com as obras que tanto tempo foram aguardadas mas que coincidentemente são agora realizadas perto das eleições autárquicas, entre outros assunto que nos visitam quotidianamente, resolvi não referir qualquer destes temas na presente crónica.

Após uma ausência forçada por motivos profissionais, achei que deveria partilhar alguns pensamentos sobre um tema positivo, de renovada esperança e que diz respeito à consciência de cada um de nós, sem obviamente pretender impor qualquer crença ou desrespeitar aquilo que para mim é um dado adquirido: o respeito por qualquer religião diferente da minha.

Numa altura de particular crise em todo o mundo, é um bálsamo para a alma ver o sorriso do Papa Francisco, a frontalidade com que Ele aborda os assuntos mais sensíveis da Igreja e a naturalidade com que encara o Papado e aquelas que sempre foram as principais missões da Igreja.

Ouvir o Papa falar da força dos Jovens, do erro de exclusão do que considera serem os dois polos da vida - os mais Velhos e os Jovens, condenado veemente o desemprego jovem e a não audição de ambos- da Felicidade, da Coragem, da Alegria da Fé, dos bons momentos que a vida nos oferece por mais difíceis que sejam os tempos que vivemos é, independentemente da Fé que cada um de nós tem, um discurso que não nos pode ser indiferente no actual contexto internacional. Parece até que num mundo a preto e branco onde o cinzento é tantas vezes já uma terceira cor de alguma esperança, nos impõe um arco-íris que tantos de nós apenas já conseguíamos recordar.

Actualmente decorre a vigésima oitava Jornada Mundial da Juventude no Brasil, país que desde o passado mês de Junho tem sido palco de uma impressionante contestação popular. Ver a naturalidade com que o primeiro Papa latino-americano se dirige a tantos jovens e a uma população que não tem acesso aquilo que são serviços públicos essenciais na maioria dos países desenvolvidos impõe-se num jogo de cadeiras politicamente correcto.

Na verdade, o Papa não se limita a pedir que a Igreja vá ao encontro do povo, é ele o primeiro a quebrar o protocolo e, sempre de sorriso no rosto, a aproximar-se daquele que é o campo de excelência da Igreja: o coração de cada um de nós, sem nunca colocar de parte a laicidade do Estado, que considera fundamental, e o respeito entre as várias religiões.

Fala ainda o Papa dos esquecidos, das regiões da periferia dos países, das grandes cidades e dos centros urbanos que tantas vezes são brindados com o esquecimento e pobreza, de modo incompreensível, apelando à mudança.

Disse hoje o Papa no nosso país irmão Brasil que "O futuro exige de nós uma visão humanista da economia e uma política que realize cada vez mais e melhor a participação das pessoas, evitando elitismos e erradicando a pobreza".

Apenas me resta dizer: "Que assim seja!".

sábado, 27 de julho de 2013

O Papa

ionline, 2013-07-27
Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
Porquê este entusiasmo das multidões pelo Papa? Porquê o fervor das gentes pela pessoa humana do representante de Cristo? Que há, na sua pessoa, que explique esta atracção? Que tem o bispo de Roma - o actual, ou os seus antecessores - que tanto fascina homens e mulheres de todas as idades e condições?
Não será exagerada esta exaltação do ser humano que ocupa a cátedra de Pedro? Não é afinal um simples mortal? Quando à sua pessoa se atribuem poderes mágicos, não se estará a incorrer porventura em superstição? Onde termina o culto da sua personalidade, em princípio aceitável, e começa uma inadmissível idolatria?
Os muçulmanos não veneram o seu profeta, Maomé, nem permitem qualquer representação de Alá. Os judeus não se consideravam sequer dignos de pronunciar o santo nome de Iavé. Até os evangélicos baniram dos seus templos as imagens sagradas e proíbem a devoção aos santos.
O Papa, seja ele quem for, é o máximo representante da comunidade eclesial: o primeiro na honra e no serviço - o servo dos servos de Deus - de uma Igreja muito humana e muito divina, porque é mistério de comunhão no mistério uno e trino que Deus é. O Ser absolutamente transcendente fez-se visível no rosto de Jesus, verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Por isso a religião cristã, mais do que uma doutrina ou uma moral, é Alguém que eleva o homem a Deus e leva Deus ao homem. É na humanidade de Cristo que o próprio Deus se revela e é também através da humanidade do Papa e da Igreja que Cristo se faz presente em cada momento histórico. Pedro é afinal, aqui e agora, a expressão visível em que, para o mundo, se reflecte o olhar vivo, humano e divino, de Cristo, o rosto de Deus.

A pura bondade do respeito

José Luís Nunes Martins
Ionline, 2013-07-27

O valor de alguém revela-se no que essa pessoa é capaz de fazer, e faz, por quem nada pode fazer por ela... de forma crua, a verdade toda aparece aí
Sem respeitar os outros ninguém merece o respeito de si mesmo. Porque só quem respeita o seu próximo é verdadeiramente digno do eminente valor da sua própria vida.
Todo o homem é digno de respeito, sem exceção. Cada um tem a sua excelência ainda que tal não seja evidente, mas é a humildade da razão e da sensibilidade que devem prevalecer, e garantir, que a aparente ausência não significa vacuidade de substância. Há tantos heróis com quem nos cruzamos a cada dia, gente a quem outra gente já sentenciou como... insignificante... esses, que assim julgam tão rápida quanto erradamente, não se respeitam as suas capacidades, como se desprezassem os dons, tomando-os por deformidades.  
O respeito consiste numa postura interior de nos abstermos de tudo quanto possa afetar o outro. Uma espécie de admiração essencial e prévia a qualquer análise ou julgamento, não contendo qualquer elemento afetivo porque se trata de uma obediência a um princípio fundamental e fundante da identidade e das relações humanas.
Somos e seremos sempre responsáveis pelo que respeitamos, pelo que não respeitamos e pelo que impedimos de respeitar... por aquilo que fazemos de nós mesmos, mas também pelo que... não conseguimos ser.
Respeitar não supõe reciprocidade, pois cada ato remete apenas para o seu autor e protagonista... respeitar para ser respeitado é um jogo de quem não compreende que o valor dos atos não depende da reação que eles têm neste mundo.
Se acuso alguém de ser mau homem ou má mulher, mau pai ou má mãe, estou, antes e acima de tudo o mais, a putrefazer-me. A criar-me um monstro do qual arrependimento algum poderá aniquilar... Desprezar alguém, quem quer que seja, é um dos piores pecados contra a própria essência, degrada-a, apodrece-a irreversivelmente... Claro que há muitos argumentos para justificar este tipo de estupidez íntima, afinal é algo tão comum que parece ter-se constituído já uma espécie de contra-sabedoria que funciona como um depósito de razões a invocar por fracos que são incapazes de cumprir a sua alma.
Não há amor sem respeito. É impossível amar a quem não se reconhece o valor absoluto de ser alguém único e importante, tal como é. Infelizmente são muitos os que olham o outro apenas como matéria-prima com potencial de manipulação futura... uma espécie de artistas sem arte que tomam o outro como um meio e não como um fim. Respeitar alguém é querer o seu maior bem. Ajudá-lo a ser, melhor.
Tristemente, há um sem fim de gente que afirma amar sem, na verdade, sequer, respeitar.
Aceitar o outro é tão simples quanto heróico.
Nem sempre os mais respeitados são os mais valiosos, mas os que mais respeitam são, seguramente, os mais respeitáveis.
A quem não se deve a verdade? A ninguém. Nem mesmo àquele que a si mesmo mente e que a ninguém respeita. Haverá alguém que mereça que eu me desrespeite a mim mesmo, desrespeitando-o? Não.
O valor de alguém revela-se no que essa pessoa é capaz de fazer, e faz, por quem nada pode fazer por ela... de forma crua, a verdade toda aparece aí.
Há quem prefira ser admirado mais do que respeitado, quem julgue ser amado quando na verdade é vítima de um qualquer desrespeito crónico...
Há muita gente perdida neste mundo... desrespeitam-se. Julgam ter uma vida com sentido simplesmente porque respiram, e não porque dela são capazes de fazer um instrumento de felicidade.... estes, como todos, merecem o nosso respeito... e a nossa mão.
Afinal, só se julga amado na mentira quem nunca foi amado na verdade.

Os arguidos até podem dizer a verdade!

Saragoça da Mata
Ionline, 2013-07-26
Na prática quotidiana, há nas investigações uma presunção de culpa dos arguidos.Digam a Constituição e a lei o que disserem
Muito se tem falado da necessidade de aproveitar nos julgamentos criminais as declarações dos arguidos prestadas nas fases anteriores dos processos. O argumento é o de sempre: muitas vezes o arguido confessa no início do processo e depois muda de versão. Logo, por pressão das magistraturas, a lei veio acabar com essa "pouca-vergonha".
Mas a questão, para ser séria, tem uma segunda parte: qual o valor dessas mesmas declarações quando, do início ao fim do processo, o arguido sempre manteve a mesma versão dos factos e se declarou inocente? E, na prática, qual a relevância efectiva desta polémica se a realidade lusa é o que é?
É que na esmagadora maioria dos casos em que um arguido presta declarações, o Ministério Público irreleva totalmente a sua versão. Mesmo quando são claramente verídicos os factos relatados, o investigador entende-os sempre como mentirosos, apenas fruto da vontade do arguido de se eximir à "óbvia" responsabilidade criminal. É uma presunção fáctica de culpa.
Conta-se até a história do caso em que apenas em julgamento se detectou haver um erro de identidade quanto ao arguido: o acusado não era o que o Ministério Público queria perseguir.
Perguntar-se-á o leitor: como? É simples. O denunciado chamava-se Zé dos Anzóis. Encontrado pelo investigador um Zé dos Anzóis, constituiu-se o desgraçado arguido e tomaram-se-lhe declarações. Debalde o suposto meliante afirmava desconhecer os factos. Ninguém lhe deu ouvidos. O pobre Zé, homem entrado nos sessentas, bem tentava alertar para o facto de na denúncia se falar de um Zé com metade dessa idade. Para o investigador nada disso fazia sentido: o malandro tentava apenas alijar responsabilidades.
Acusado, o Zé foi sentado no "banco dos réus" e lá repetiu a ladainha. O juiz, homem de bom senso, fez o óbvio: quis ver o bilhete de identidade do arguido. Para espanto geral, o número do documento exibido não coincidia com o número de BI do Zé que havia sido denunciado. Confrontado o queixoso, confirmou ser aquele o Zé "errado". E lá foi o processo arquivado, não sem antes haver um remoque do julgador ao mau trabalho da acusação.
Ora em muitos casos conhecidos do grande público, dado o mediatismo da matéria ou dos intervenientes, os julgadores censuram os erros da acusação, as más práticas de inquérito, as nulidades de prova incorridas pela investigação. Quando não as entorses aos factos para os encaixar em crimes que nunca poderiam estar preenchidos. Aí temos os tribunais a confirmar o que foi a versão de factos dos arguidos ou a sua defesa técnica.
A conclusão é clara: contra o que são os preconceitos do Ministério Público, os arguidos até podem dizer a verdade! Mas nesses casos a comunicação social que fez o serviço de alardear os supostos sucessos das investigações, esquece-se convenientemente de sovar o responsável pelo reviralho processual. Aí se vê que a mediatização inicial não serviu qualquer nobre fim de informar, nem foi exercício de liberdade de imprensa. Foi o que todos sabemos e calamos. Foi apenas mais uma das vergonhas a que cá nos habituámos!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Pronto, já podemos ir de férias. Poderemos?

José Manuel Fernandes Público, 26/07/2013

A crise acabou por ser reveladora e esclarecedora. E por criar uma oportunidade que cabe à maioria aproveitar
Há três semanas, quando a inopinada demissão de Paulo Portas desencadeou a crise política que só agora se encerra, era difícil imaginar que sairíamos dela com um governo remodelado que muitos antevêem mais forte do que o anterior e com uma maioria que parece ter reencontrado alguma da sua confiança política. Paradoxalmente, saímos também com uma oposição mais dividida. Quase tudo ao contrário do que foi previsto, do que até parecia lógico. Como nunca tantos comentadores se enganaram tantas vezes em tão pouco tempo, vale a pena tentar perceber o que se passou. E o que se pode vir a passar.
O momento decisivo
O gesto mais importante de toda esta crise pertenceu ao primeiro-ministro. Foi quando, na noite de 2 de Julho, algumas horas depois de ter sido conhecida a decisão "irrevogável" de Paulo Portas, anunciou: "Não me demito, não abandono o meu país." E acrescentou que não aceitara o pedido do ainda ministro dos Estrangeiros, nem o levara ao Presidente da República. Não era a decisão natural, parecia até ser apenas uma casmurrice, mas foi a decisão que fez a diferença. O Governo não caiu com Paulo Portas, como parecera inevitável, e abriu-se espaço para as negociações entre o PSD e o CDS - as negociações que antes nunca houvera, muito por culpa do próprio Passos Coelho. Para já, a única sondagem conhecida depois do desencadear da crise parece indicar que Passos ganhou e Portas perdeu. O que mostra que há gestos que contam muito em política.
A quarta-feira negra
A reacção dos mercados à demissão de Portas provocou um imenso susto. Os juros da dívida voltavam a disparar, mostrando como a confiança duramente conquistada com dois anos de austeridade podia desaparecer em 24 horas de desvario político. Foi um sinal para a coligação e para os seus líderes insensatos, mas foi também um sinal para o país. Tornou claro que uma coisa são os discursos políticos que prometem um mar de facilidades, outra coisa a realidade de um país que continua a depender de empréstimos externos para financiar o seu dia-a-dia e os seus défices. Um país que ao mínimo sobressalto vê encarecer o dinheiro com que se financia. Foi assim que essa quarta-feira negra ajudou, também ela, a derrotar a ideia de eleições antecipadas.
A promoção a vice-primeiro-ministro
Há quem interprete o resultado das negociações entre o PSD e o CDS e a promoção de Paulo Portas a vice-primeiro-ministro como a prova de que o crime compensa. Afinal o homem que causara a crise ganhava poder, transformava-se quase no primeiro-ministro "de facto". É essa a aparência, pode não ser essa a realidade. Antes, o jogo de Portas era estar com um pé dentro e um pé fora do Governo. E o de Passos era ver se o "entalava". Desse método resultou, por exemplo, o fiasco da "reforma do Estado", que soçobrou numa terra de ninguém. Agora terá de ser diferente. Ao ganhar poder, Portas perde ambiguidade e passa a ter mesmo de fazer, não só dizer. Eu não chamaria a esta troca uma vitória. Para além de que terá de carregar por muitos e bons tempos com a memória pesada de uma só palavra: "irrevogável".
A surpresa do Presidente
Cavaco surpreendeu ao pedir um "compromisso de salvação nacional". Não foi uma opção óbvia, nem fácil, nem facilmente compreensível. Eu próprio fui céptico. E agora não falta quem diga que só serviu para perder tempo. É falso. Uma semana de conversações a três permitiu esclarecer muita coisa - sobre o sentimento dos portugueses, sobre as reais intenções dos partidos, sobre os limites da convergência. Não houve acordo, mas ficámos mais bem informados sobre o que podemos esperar da maioria e da oposição. Curiosamente, mostram as sondagens, também ficámos sem vontade de eleições antecipadas. Por fim, o Presidente pode fazer, com legitimidade reforçada, exigências ao Governo. Não mudando nada - acabámos por ter o Governo que já estava preparado antes do interregno das conversações -, mudou muita coisa. Não era nada claro que isso fosse possível antes de Cavaco nos ter surpreendido a todos.
O tumulto no PS
Até quinta-feira da semana passada um acordo entre o PS e os partidos da maioria parecia possível. No final desse dia a bancada socialista na Assembleia esvaziou-se de repente com a saída de dezenas de deputados que rumaram à Expo, onde António Costa apresentava a sua candidatura a Lisboa. Nessa noite a hipótese de acordo desapareceu. António José Seguro não aguentou a solidão da liderança e não arriscou o passo que teria aproximado o PS do regresso ao poder. Em vez disso veio dizer-nos que apenas negociara a aceitação pela maioria da plataforma eleitoral do seu partido, pois é só isso que consta do documento que divulgou depois de provocar o fim das conversações. Preferiu a facilidade da oposição e o irrealismo de promessas eleitoralistas ao risco de um compromisso. Com isso perdeu no país e perdeu no partido. Perdeu no país, pois este teria apreciado um acordo. Perdeu no partido, porque se percebeu que teve medo e lhe falta autoridade. Curiosamente aquilo que parecia certo - Seguro vir a ser o próximo primeiro-ministro, talvez já em 2014 - tornou-se menos certo. Até porque no PS há uma sombra que volta a pairar, essa sombra que reemergiu num fim de tarde bonançoso sob a pala do Pavilhão de Portugal.
A remodelação
Depois de perder as autárquicas em 1989, Cavaco Silva remodelou. Saíram dois dos melhores ministros - Leonor Beleza e Miguel Cadilhe -, trocados por escolhas mais populares. Sabe-se o que aconteceu em 1991. Desde então que a doutrina recomenda que se remodele depois de umas autárquicas a meio do mandato, e talvez fosse isso que Passos Coelho tinha em mente. Foi obrigado a remodelar antes. Manda contudo a prudência que se seja comedido nas previsões - mesmo naquelas que nos falam dos nomes fortes que entraram para o Governo, o que é uma evidente mais-valia. A margem de manobra dos novos ministros não é muito maior do que a dos antigos, mas aí a sua maior experiência política pode fazer a diferença. O Governo também não ganhou um segundo estado de graça, mas quando a oposição fala de "maquilhagem" está a tomar os desejos pela realidade. É por tudo isso que não será nada irrelevante a discussão, segunda-feira, da moção de confiança.
À espera da troika
A troika regressa em Setembro e também para ela tudo será diferente. Terá pela frente novos interlocutores e, sobretudo, terá pela frente uma realidade política nova. A sétima avaliação correu muito mal e levou muito tempo a fechar. Levou ao limite a capacidade de resiliência da coligação e forçou os limites da austeridade. O desafio da próxima avaliação é o desafio da exequibilidade do Orçamento de 2014. Para conseguir regressar aos mercados daqui por um ano, e então dispensar a troika, Portugal necessita de não ter de pedir mais dinheiro, e é por isso que o caminho é tão estreito. É também por isso que a austeridade não chegou ao fim, até porque algumas reformas importantes ainda não foram feitas. Continua a não haver forma de evitar uma diminuição no peso do Estado. Com mais ou menos défice em 2014.
Agora, o nosso querido mês de Agosto
Há uma pequeníssima possibilidade de as coisas já se estarem a inverter - é para onde apontam os dados mais recentes da economia - e essa é a única verdadeira oportunidade do Governo remodelado. Há também um lentíssimo movimento, na Europa, em direcção a soluções que nos podem ser mais favoráveis. Mas é prudente nem esquecer a grande lição do último Verão, esse louco Agosto em que Portas (depois da sentença do TC) andou a prometer que não haveria mais impostos e Passos foi ao Pontal falar da recuperação em 2013: se sentirem a cabeça a arder, ponham gelo, não façam um discurso.
Estas três semanas não foram perdidas, como acabei de defender. Mas na altura em que os portugueses aproveitam para descansar, o Governo tem de aproveitar para recuperar do susto que se auto-infligiu. Disso depende conseguir cumprir o resto do mandato, algo que se tornou mais provável depois dos altos e baixos deste carrossel de Julho. É um caminho que começa, não o esqueçamos, com o Orçamento de 2014.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Orgulhosamente analógico

Henrique Raposo
Expresso Quinta feira, 25 de julho de 2013

Antes de ler este livro, eu respeitava o João Távora. Respeitava a sua devoção por causas que parecem perdidas: a pátria, o catolicismo, o constitucionalismo monárquico, o Sporting. Admirava a carolice que traça uma linha na areia para dizer "basta" (uma espécie de "No Pasarán", mas em bom). Apreciava a forma como o João assume o preço de estar naquelas margens da sociedade. Como habitante da margem, de outras margens, eu só poderia admirar esta coragem galante. Uma coragem colocada na defesa de princípios analógicos anulados por um tempo demasiado virtual.

Depois de ler este livro, passei a gostar do João Távora, porque boa parte de "Liberdade, 232" entra num campo que me interessa: as memórias. Há muitos patriotas, muitos católicos, muitos defensores da Monarquia Constitucional, mas poucos têm a coragem de assumir a narrativa das suas memórias em redor destes temas, poucos assumem as estórias que dão uma luminosidade concreta às causas em questão. Por exemplo, nos jornais e na bloga já foram publicadas centenas de defesas teóricas do catolicismo e da fé. Sucede que essas teses abstractas e explícitas não têm metade do encanto de uma estória pessoal que ilustra o catolicismo de forma implícita. Estórias como aquelas que o João lança neste livro: as férias de Natal da infância, a pompa desejada da Missa do Galo, a alegria da festa familiar (a "primalhada") durante a ceia de 24 para 25, a ânsia pelos presentes. Por norma, o João recebia carrinhos Matchbox. Custavam 12$50. Nos Natais mais prósperos, o presente era um Meccano.
Não convoco os Matchbox e os Meccano por acaso. Este livro ilumina-se nos momentos em que ilustra o seu discurso com estes pedacinhos de memória. E são tantos: os putos do Casal Ventoso que "davam peras" nos putos de Campo de Ourique (o João e os amigos); os jogos de futebol "dois para dois com guarda-redes avançado"; o fascínio por Yazalde, o Travassos das pampas; os anúncios do chocolate Toddy e os estafetas da Marconi; os cinco tostões que o menino João recebia para o seu governo diário; o verão de 1968 numa Vila Nova de Milfontes que já não volta; Jacinto, o pescador de Milfontes que não acreditava na Lua postiça de Neil Armstrong; uma fuga até Alcântara, o primeiro acto da rebeldia adolescente; os habitantes de Alcântara que diziam "vamos ali a Lisboa"; a carreira n.º 9, a porta de saída de Campo de Ourique, pátria do João; a colecção Vampiro como leitura de casa de banho; as idas a Alvalade no Mini do tio Manel; os tios na guerra; o Natal dos Hospitais e os magalas que mandavam beijos para casa a seguir ao Telejornal; a telefonia dos relatos e dos Parodiantes de Lisboa; as pistolas de fulminantes no Carnaval; as curta-metragens do Charlot que o primo Manel tinha num Super 8; a Gabriela omnipresente nas velhas TV de válvulas; a frescura de Raul Solando e do Zip-Zip; o sentimento de cerco do PREC. E, claro, o apartamento dos avós, que ficava no n.º 232 da Av. da Liberdade. Nesta âncora familiar, o João encontrou, entre outras coisas, o armário dos Tintins.
Ao longo do livro, João Távora diz várias vezes que é conservador. Mas aquilo que define a predisposição conservadora não é este tipo de afirmação explícita. O que define a doçura tranquila do conservador é a capacidade de ver o mundo a partir da rua, do bairro, dos vizinhos, das pessoas e das coisas que nos rodeiam. Felizmente, tal como acabámos de ver, o João revela essa faceta. Ser conservador é deixar de lado os conceitos que nos esmagam com a maiúscula, é deixar entrar em cena os gelados Rajá, as bolachas Maria que se compravam ao quilo, o desejo de "ser o Damas" nas futeboladas, as crónicas do Carlos Pinhão n'A Bola, a almofadinha da bola (custava cinco tostões), as pistas de carros desenhadas a giz, as idas ao Zoo nos sábados de Aleluia, o velho gira-discos onde o João ainda bota vinis a rodar, as matinés de cinema nas ressacas felizes do Natal, a camisola tricotada pela mãe, o Principezinho que esconde uma dedicatória comovente de um pai silencioso. E, bem vistas as coisas, isto não é apenas conservadorismo. A forma como tecemos a percepção íntima das pequenas coisas que nos rodeiam é aquilo que nos define. Diz que é a causa das coisas.

PS: Emérito blogger, João Távora cometeu a imprudência de me convidar para escrever o prefácio do seu livro. Este foi o imprudente resultado. 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Votação da co-adopção adiada

Professor João César das Neves considera que a co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo foi uma "artificialidade criada por questões ideológicas".
24-07-2013 0:49

Algumas dezenas de pessoas juntaram-se esta noite numa vigília de oração frente à Assembleia da República. O objectivo foi marcar um protesto contra a possibilidade de co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo.

"Este problema é mais grave do que o casamento [homossexual] por já ser um fenómeno que vai afectar as crianças", começa por argumentar o professor universitário João César das Neves.

César das Neves considera que "tudo isto foi uma artificialidade criada por questões ideológicas, basta só notar que assim que aprovaram a lei do casamento praticamente não houve casamentos. Não era um assunto. Foi criado artificialmente".

O professor universitário diz ainda que "este é um propósito que faz avançar algumas carreiras políticas, que faz cumprir alguns objectivos, mas não tem nada que ver com a realidade concreta".

"Aa sociedade portuguesa tem outros problemas gravíssimos de que os parlamentares deviam estar a ocupar-se e não estão", critica ainda João César das Neves, um dos presentes nesta manifestação, que foi confrontada com um contra-protesto, a poucos metros, em defesa da medida que está em discussão no Parlamento.

A lei da co-adopção foi aprovada na generalidade em Maio, numa votação polémica, em que vários deputados do PSD estavam ausentes do plenário. Esta terça-feira, os partidos da maioria, PSD e CDS, aprovaram um requerimento que adia para o início da próxima sessão legislativa, em Setembro, a votação final do diploma do PS sobre co-adopção por casais do mesmo sexo.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Pai e mãe e a "co-adopção" homossexual


Houve quem falasse inapropriadamente de "totalitarismo" a respeito das críticas à "co-adopção" homossexual. Mas, já que se falou nisso, convém ter presente que a convicção de que todo o poder está na ponta da caneta do legislador é, essa sim, em si mesma, uma convicção de matriz totalitária.
A ideia de que o Estado pode criar a realidade através do poder da lei é um delírio perigoso, que nos coloca no cimo da rampa de todas as derivas totalitárias. O Direito é fonte de justiça quando limitado pela Humanidade ou subordinado ao Direito Natural, mas fonte de abusos e violências quando se arvora ilimitada omnipotência. As maiores violências começaram sempre, aliás, na própria lei e seu abuso: a pena de morte, a prisão perpétua, a escravatura, tortura, perseguição, expulsões arbitrárias.
As leis de Direito Privado são leis matricialmente narrativas: não conformam a natureza, conformam-se a ela. Não foi sequer um legislador qualquer que inventou os contratos, quanto mais o resto. Os contratos existem, são como são; a lei regula-os. Num Estado de Direito, as leis privadas não criam a realidade, aderem a ela. Regulam, ordenam, mas não criam, nem inventam, muito menos contra a realidade. Se o fizessem, atropelariam a realidade; e seriam de deriva totalitária.
Se todos nascemos de pai e de mãe, é violência extrema privar alguém do direito a ter pai ou do direito a ter mãe. A dupla referência masculina e feminina que é parte da nossa natureza integra a nossa própria identidade pessoal. É o que somos, é o nosso ser.
Por isso mesmo, a generalidade das declarações de direitos humanos e das Constituições modernas (como a portuguesa) inclui o direito à identidade pessoal no elenco dos direitos fundamentais da pessoa humana - sem isso, não somos. E esse direito à identidade é componente principal da dignidade da pessoa humana.
É desse direito fundamental à identidade pessoal que decorre, por exemplo, o dever de o Estado apoiar e promover a investigação da paternidade ou maternidade nos filhos do incógnito. E é desse direito à identidade pessoal que decorre também a noção de adopção do nosso Código Civil (art.º 1598.º) como "o vínculo que [se estabelece legalmente entre duas pessoas] à semelhança da filiação natural, mas independentemente dos laços do sangue."
O projecto da co-adopção homossexual é uma fraude intelectual e uma manipulação jurídica. É uma esperteza: não-saloia, mas sofisticada. Nem tanto sequer pelo que já foi dito - ser a gazua que abre a porta à adopção homossexual em geral - mas pelo resto.
A adopção tem um lado generoso, que é atribuir pai e/ou mãe; mas outro violento, que é tirar pai e/ou mãe. É isso que faz da adopção um instituto tão difícil e tão delicado; e da sua decisão um processo sério, melindroso e complexo.
Quando atribuímos juridicamente uma criança a um pai e/ou uma mãe, estamos a retirá-la definitivamente, de forma irrevogável, a outro pai e/ou outra mãe naturais - a estes e, simultaneamente, a retirá-los também da sua família respectiva, de pertença natural: irmãos, primos, tios, avós que fossem. A geração natural é apagada e substituída, para todos os efeitos, pela filiação jurídica. A genealogia dessa criança é reescrita por inteiro. Para sempre.
Só é possível diminuir levianamente a seriedade e delicadeza real ou potencial dos problemas a considerar, se imaginarmos as crianças de que se trate como res nullius, coisa de nada e de ninguém. Mas nenhuma criança, mesmo a mais só e abandonada, é assim tão nullius: tem uma história e uma realidade. Que lhe pertence e a que pertence.
Adoptar a co-adopção é consagrar que, pela potente força imperial da lei, uma criança pode passar a ser "filha" de pai e pai, sem mãe; ou "filha" de mãe e mãe, sem pai - e, ipso facto, negar-lhe em definitivo o direito a ter uma mãe ou o direito a ter um pai, proibindo-o para todo o sempre.
Não se trata de saber quem cuida de quem, mas de alterar radicalmente a genealogia de uma pessoa, truncando para sempre a sua identidade pessoal. Escusa de buscar, mais tarde, mãe ou família materna, se a não conhecia; ou de procurar pai ou família paterna, que não soubera - essas relações ter-lhe-iam sido apagadas e proibidas para todo o sempre pelo "Direito". Essa criança teria passado a ter, sem apelo, nem agravo, duas mães e duas famílias maternas e nenhuma paterna, ou dois pais e duas famílias paternas e nenhuma materna.
Mesmo o projecto de co-adopção do PS reconhece - e bem - que aquilo que designa de "parentalidade" é dual, isto é, que somos filhos de dois. Está certo.
Mas quem é que disse que são dois? Quem foi esse ominoso criador que determinou que sejam dois, e não quatro, ou cinco, ou n? Garanto que não fui eu. E, não tendo sido eu, essa dualidade parental também não resultou da autoridade da caneta da Dr.ª Isabel Moreira, ou da pena entusiástica do Dr. Pedro Delgado Alves ou do arrobo igualitário da escrita da Dr.ª Elza Pais. Isso resulta de modo inteiramente prosaico da natureza, da biologia, vá lá... do Criador.
A realidade é, de facto, a da dualidade parental; não uma parentalidade qualquer ou indiferente, mas uma dualidade de maternidade e paternidade. Somos filhos de dois, mas não de quaisquer dois - somos filhos de dois, porque somos filhos de mãe e de pai. Será isto homofobia? Não. É a biologia, a natureza. A natureza, não das coisas, mas a natureza das pessoas.
Deputado do CDS-PP.

Co-adopção homossexual? «Isto não faz sentido. Salta aos olhos.»

José Ribeiro e Castro RR 2013-07-23
Adoptar não é cuidar de alguém. Há tanta gente que cuida de outrem, e bem, e com amor e com afecto, e não é pai, nem mãe. Ser adoptado não é só ser amado, e educado, e criado; é ficar filho de. Adoptar é tornar-se pai ou mãe. É genealogia. É ascendência e descendência. É todo o resto da família, materna e paterna. Para sempre. Como na realidade da vida.
Adoptar é suprir a falha da família natural, atribuindo família jurídica (adoptiva) à imagem e semelhança da família natural. Criança que não tem pai e mãe aspira a um e a outra. Pode não os ter porque nunca soube, ou porque foi abandonada, ou por ser tão maltratada que lhes é retirada.  Pode ter-se só pai – e não ter mãe. Como pode ter-se só mãe – e não ter pai. De alguma forma se aspira a preencher a falta ou se preenche a ausência com a memória ou a imagem. Não é um vazio. Não há vazio.
Todos somos filhos de pai e mãe. Somos filhos da dualidade feminino/masculino. Apagar essa dualidade é apagar e confundir o que somos. É a nossa identidade pessoal. Somos ambos e temos direito a ambos. É a nossa natureza humana.
Por isso é que a co-adopção homossexual não faz sentido. Ninguém é filho de mãe e mãe, nem deve ser proibido de ter pai. Ninguém é filho de pai e pai, nem deve ser proibido de ter mãe. «Isto não faz sentido. Salta aos olhos.»

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A democracia assenta em chão firme

22/07/2013
Cada vez que este jornal publica, com uma certa regularidade, os artigos de Laura Ferreira dos Santos a favor da eutanásia, fico perplexo. Muito havia a dizer, mas vou debater apenas o argumento da liberdade e da tolerância em abono da eutanásia (por exemplo, no artigo de 6 de Agosto de 2011).
Quando se diz que uma sociedade tolerante deve proporcionar o homicídio assistido a quem o pedir, invertem-se os dados da questão, porque isso não é um pedido de tolerância mas de colaboração: os defensores da eutanásia pretendem obrigar-nos a satisfazer o desejo de quem quer ser morto. Seria mais razoável que, em nome da tolerância, nos deixassem em paz.
Nos artigos referidos há uma objecção interessante, que aceito, à parte um pequeno sofisma: defender a inviolabilidade da vida humana equivale a impor uma determinada perspectiva sobre a verdade, excluindo outras. De facto, quando a sociedade toma posição em defesa da dignidade humana assume como verdade que o ser humano tem um valor intrínseco, não sujeito a transacção. No entanto, isso não é uma "determinada perspectiva sobre a verdade", é a própria verdade. Aliás, é um elemento de verdade absolutamente fundamental, sobre o qual assenta uma sociedade que se queira justa, livre e tolerante.
Uma sociedade tolerante não é aquela que aceita tudo. Não pode aceitar a guerra da Líbia, a instabilidade do Iraque, ou a violência da China... não aceita o inaceitável. Não derruba os pilares-base da vida social, nomeadamente o princípio de que a vida humana é inviolável. Esta verdade não é negociável, numa sociedade digna. Não é uma perspectiva acerca da verdade, que estejamos dispostos a trocar por qualquer outra.
Colaborar num homicídio, a pedido da vítima ou com qualquer outro pretexto, é contradizer a verdade fundacional de uma sociedade democrática e solidária. Por isso, introduzir a eutanásia é uma subversão tão grave da ordem social, em linha com aquelas contradições do slogan do Ministério da Verdade do inferno orwelliano: "Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força".
Qualquer ordenamento jurídico, por mais bárbaro que seja, reconhece o valor de algumas vidas humanas, por razões de família, de dinheiro, ou de poder. A inovação característica da democracia é proclamar que todas as pessoas, sem excepção, merecem esse respeito e de modo absoluto. A democracia não se fundamenta na afirmação de que todos têm êxito nos negócios, ou de que todos são saudáveis, ou têm notoriedade social. Nem sequer importa o que "têm", mas o que "são". A verdade fundacional da democracia é que o ser humano, pelo simples facto de o ser, possui uma respeitabilidade intocável.
O ponto de partida da democracia é que esta verdade ética não é uma opinião entre outras, mas uma verdade absoluta. No dia em que uma vida humana seja dispensável, quebrou-se o princípio e a vida humana passou a ser um valor relativo. Se uma sociedade aceitar que algumas pessoas sejam mortas (com um critério ou outro, o critério pouco importa), ninguém está a salvo, porque nenhum critério resvaladiço subsiste depois de se derrubar o princípio de que a vida humana é inviolável. Quem revogar este princípio intransponível não espere encontrar noutro lugar a justificação ética para uma democracia solidária.
Embora neste assunto da eutanásia esteja em desacordo com a minha colega da Universidade do Minho, isso não quer dizer que não tenha muita consideração por ela e não estejamos de acordo noutros temas.
Prof. do IST; jmandre@hidro1.ist.utl.pt

Um olhar tranquilo

João Carlos Espada Público, 22/07/2013
Foi realmente em Varsóvia, como sugere o nome destas crónicas, que passei a última semana, na qual decorreram as negociações entre PSD, PS e CDS. Ainda por cima, embora escreva este artigo já em Lisboa, faço-o antes da intervenção que o Presidente da República anunciou para a noite de domingo. O possível leitor deste artigo deve por isso saber de antemão que não encontrará aqui um excitante comentário de última hora.
Mas talvez a última hora nem sempre tenha uma palavra tranquila. E uma certa tranquilidade é seguramente necessária ao prazer da vida democrática. A tranquilidade de poder usufruir de modos de vida livres e variados, não centralmente comandados nem centralmente desenhados, é talvez o argumento mais poderoso a favor das democracias políticas e da economias de mercado.
Tentando apreciar tranquilamente as negociações interpartidárias da semana passada, creio que foi uma experiência muito positiva. Revelou acentuado sentido de responsabilidade por parte dos representantes dos três partidos constitucionais pluralistas. Revelou também disposição dialogante por parte da UGT e das organizações patronais. Essa disponibilidade para o compromisso distinguiu no passado, há quase 40 anos, o milagre português da transição à democracia - depois de uma prolongada ditadura reaccionária e de um processo revolucionário que ameaçou restaurar uma ditadura de sinal contrário.
Nunca será de mais recordar esse espírito de compromisso liberal, democrático e, no sentido inglês, conservador, que salvou a democracia portuguesa. Não será irrelevante que esse espírito de compromisso tenha reaparecido na semana passada.
Talvez não seja também irrelevante que esse espírito de compromisso tenha sido suscitado por um apelo do Presidente da República. Ao contrário das críticas e/ou apelos revolucionários, de esquerda e de direita, que lhe foram dirigidas, eu acho que o Presidente agiu como árbitro e moderador. Sem um árbitro e um moderador acima, mas não contra, os partidos políticos - seja ele um Presidente eleito ou um monarca constitucional - nenhuma sistema parlamentar mostrou alguma vez ser viável. Isso deve ser recordado entre nós, sobretudo no calor das paixões imediatas.
O elemento mais surpreendente da semana passada residiu, em meu entender, na radical ameaça de uma cisão no interior do Partido Socialista, se este chegasse a um "acordo com a direita". Que esta ameaça tenha partido de Mário Soares - um dos homens a quem mais devemos o milagre da nossa democracia contra a dupla ameaça revolucionária da esquerda e da direita - deixou-me perplexo. O respeito pessoal por Mário Soares impede-me de tecer comentários adicionais sobre esta matéria.
Posso, no entanto, compreender que António José Seguro tenha sentido necessidade de romper as negociações com PSD e CDS perante tão graves ameaças do líder histórico do seu partido. É humanamente compreensível, embora tenha um alto custo para o país: um acordo tripartido aumentaria significativamente a nossa capacidade negocial junto dos credores externos. Também não é certo que tenha sido a melhor decisão com vista a reforçar a sua liderança partidária.
Desfeito o acordo que parecia possível, e era certamente desejável, entre PSD, PS e CDS, resta-nos a existência indubitável de uma maioria parlamentar PSD-CDS - que saiu robustecida da vitória sobre a moção de censura da passada quinta-feira. Essa é uma sólida maioria parlamentar, saída de eleições livres, que suporta um Governo emanado dessa maioria. Esse Governo deve poder governar enquanto dispuser desse apoio parlamentar maioritário.
Mas esse mesmo Governo deve moderar a sua autoconfiança, para não dizer arrogância. Tem uma maioria parlamentar, mas revelou sérias debilidades no interior do próprio Governo. Os episódios lamentáveis de duas semanas atrás revelaram sérias tensões entre os dois partidos que compõem o Governo. Parece, por isso, legítimo que o Presidente da República possa ter de exigir garantias de bom comportamento futuro da coligação.
Além dessas garantias, talvez um conselho possa também ser sugerido à maioria: a de que preste atenção às tradições políticas, não apenas aos programas financeiros dirigistas, ou mesmo vanguardistas, emanados de Bruxelas. As tradições políticas que executaram reformas estruturais com sucesso nunca as fizeram somente, nem prioritariamente, em nome de uma engenharia financeira. Fizeram-no sempre em nome de e para as pessoas. Para as libertar de exorbitantes cargas fiscais e burocráticas, para permitir que elas pudessem livremente melhorar a sua condição, das suas famílias, das suas empresas e instituições civis. Sem esse horizonte de esperança, jamais um programa de ajustamento teve sucesso em democracia.
Professor universitário, IEP-UCP e Colégio da Europa, Varsóvia. Escreve à segunda-feira

Sete anos

DN2013-07-22
JOÃO CÉSAR DAS NEVES

Quem se lembra do Verão de 2006? Portugal foi quarto no campeonato do mundo de futebol; a economia crescia 1,4%, o desemprego era 7,4%. Nasciam mais pessoas do que morriam e os casamentos eram o dobro dos divórcios. Só há sete anos. Como tudo mudou tanto!
Dois factos dominaram este período. O mais visível é económico-financeiro: o país, então já atascado em dívida, caiu de bêbado em 2011 e debate-se na terrível ressaca. A coberto desta veio a segunda evolução, mais decisiva: um devastador assalto à cultura e sociedade portuguesas em nome da liberdade sexual, com extremistas capturando e distorcendo elementos centrais da alma lusitana. A bebedeira financeira cura-se em menos de sete anos, mas a investida lasciva será pavorosa por décadas.
Foi no Verão de 2006 que começou a demolição das leis básicas da identidade nacional que trouxeram Portugal de uma posição mundial equilibrada ao extremo desmiolado na regulamentação familiar. A primeira foi a Lei 32/2006 de 26 de Julho da reprodução artificial. Seguiu-se a liberalização e subsidiação do aborto (Lei 16/2007 de 17/4 e Portaria 741-A/2007 de 21/6), banalização do divórcio (Lei 61/2008 de 31/10), educação sexual laxista (Lei 60/2009 de 6/8), casamento entre pessoas do mesmo sexo (Lei 9/2010 de 31/5), mudança do sexo (Lei n.º 7/2011 de 15/3), entre outras.
Enquanto noutros países estes assuntos criavam profundos e longos debates, por cá deu-se o triunfo súbito do fundamentalismo extremista. Embrulhados em manigâncias capitalistas, os Governos precisavam de fingir progressismo na ideologia familiar. A sociedade assustada adoptou a posição cómoda e irresponsável de tolerar a libertinagem. As forças de defesa da família, em particular a Igreja Católica, suportaram derrota atrás de derrota fragorosa.
Deste modo irresponsável, o país alinhou em poucos anos as suas leis básicas por caprichos de fanáticos, ultrapassando a toda a velocidade os países civilizados, alguns dos quais já em sentido inverso. Portugal tornou-se um paraíso mundial de comportamentos desviantes e perversos. Não admira o colapso do casamento, ausência de fertilidade, envelhecimento galopante, multiplicação de patologias sociais. Em 2011 os casamentos foram só mais 34% que os divórcios e houve menos 6000 nascimentos que óbitos. A geração anterior desequilibrou as finanças em quinze anos; esta desequilibrou-se a si mesma em sete.
A História mostra duas coisas. A primeira é que movimentos súbitos, com tal rapidez e profundidade, nunca param antes do abismo. Com extremistas no controlo da dinâmica, a coisa irá até ao absurdo. Sorveremos a infâmia até à última gota. Todos os dias aumentam aqueles que, tendo começado por defender as novidades, agora se arrependem vendo os resultados. Mas a escalada não abranda, atingindo já os temas de requinte, como a co-adopção por casais do mesmo sexo, que em fases anteriores muitos dos próprios activistas prometiam nunca acontecer. A espiral devoradora exige-o, como exigirá as vergonhas seguintes.
Provando que uma loucura nunca fica a meio, a História ensina ainda que casos destes servem de vacina para a humanidade. Quando a Rússia em 1917 aceitou que extremistas dominassem a sua economia, destruiu para sempre o atractivo intelectual do marxismo. Sem essa experiência, hoje o sistema comunista ainda seria perigoso, o PCP não estaria residual nem esconderia a ditadura do proletariado. O desprestígio das ideologias racistas deve-se também ao facto de a Alemanha ter dado em 1933 o poder a esses radicais, revelando ao mundo o seu horror. As sociedades que se deixam controlar por teses aberrantes destroem-se a si mesmas por várias gerações, mas prestam um serviço à humanidade.
Nos sete anos desde o Verão de 2006 Portugal enveredou por caminhos anarquistas nos campos financeiro e familiar. São já bem claros os efeitos dessas opções, mas ainda não se vê o fim do caminho que, pelo menos no segundo, deve demorar mais de sete anos. Resta-nos o consolo de o futuro vir a aprender com os nossos horrores.

domingo, 21 de julho de 2013

SALOMÃO, PRECISA-SE!

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
Público 2013-07-21

Uma falsa solução para um problema que não existe

A co-adopção, mais do que uma questão psicológica ou antropológica, é ética e jurídica. A psicologia e a antropologia são ciências descritivas, que observam as tendências sociais dominantes, mas a ética e o direito são saberes normativos, ou seja, estabelecem os valores e princípios por que se deve reger a vida social.

O que agora está em causa é o reconhecimento social e jurídico de uma filiação não-natural que, de algum modo, viria a consagrar as uniões de pessoas do mesmo sexo ao nível das dos casais naturais. Em termos estritamente conjugais, essa equiparação já existe na lei, desde que se permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas não no que respeita à filiação, porque o parceiro do progenitor não pode co-adoptar, nem duas pessoas do mesmo sexo podem ser adoptantes.

Paradoxalmente, os defensores desta reforma legislativa afirmam, por um lado, a necessidade da criança, filha de um progenitor unido a uma outra pessoa do mesmo sexo, poder ser por esta co-adoptada. Mas, por outro, dizem que, de facto, já há menores que vivem com a mãe, ou com o pai, e o respectivo companheiro do mesmo sexo, numa situação da mais absoluta normalidade e felicidade. Ou seja, querem solucionar um problema que, na prática, reconhecem não existir. Se assim é, porque pretendem então alterar o estatuto legal do parceiro do progenitor se, mesmo sem ser legalmente segundo pai, ou segunda mãe, já pode proporcionar e, segundo eles, de facto proporciona, um tão efectivo bem-estar ao menor?! Ao que parece, a criança é apenas um pretexto para uma conquista ideológica que, na realidade, interessa mais aos ditos companheiros dos pais, do que aos filhos destes.

Dir-se-á que, se o parceiro da mãe, ou do pai, for também reconhecido legalmente como segunda mãe, ou pai, terá responsabilidades parentais que beneficiarão o menor em causa. Mas, para ir buscar uma criança à escola, ou para, na ausência de um progenitor, tomar alguma decisão urgente em relação à sua saúde, não é preciso dar-lhe o estatuto de pai, ou de mãe, que, obviamente, seria falso e, até, potenciador de futuros conflitos familiares.

Com efeito, se já é problemática a regulação do poder paternal em casais desavindos, como será entre um progenitor verdadeiro e o seu duplo?! Uma mãe, ou pai, tem alguns direitos em relação a um seu filho, não por força da sua relação com o pai, ou mãe, mas em virtude da sua própria, pessoal e intransferível parentalidade. Que direito assistiria ao ex-parceiro do pai, ou da mãe, se não fosse progenitor?! O filho tem direitos e deveres em relação aos seus pais, não porque ambos estão casados, ou juntos, mas porque os dois são seus pais, naturais ou adoptivos. Mas, se o menor tiver dois pais, ou duas mães, e estes se desentenderem, será razoável que o direito considere, em pé de igualdade, o verdadeiro pai e o falso pai, a verdadeira mãe e a falsa mãe?! Se, portanto, não são, nem nunca poderão ser, iguais, a que título lhes poderá ser dado o mesmo estatuto legal?! Que legitimidade teria o juiz para favorecer o falso pai, ou a falsa mãe, em detrimento do verdadeiro progenitor? Quer isto dizer que o «pai» ou «mãe», que não é progenitor, é pai e mãe de segunda?! Ou, então, que a relação genética, onde a houver, é absolutamente irrelevante em termos jurídicos?!

A co-adopção não é a solução para um problema, mas muitos problemas para onde não fazia falta nenhuma solução.

Quando duas mulheres reivindicaram, como seu filho, a mesma criança, Salomão, na sua lendária sabedoria, decidiu cortar ao meio a disputada criatura, para assim conhecer a sua verdadeira mãe. Se o parlamento, num gesto de néscia prodigalidade, der a algumas crianças a infelicidade de terem legalmente duas mães, ou dois pais, em breve vão ser necessários muitos Salomões nos tribunais portugueses.


“UM DE NÓS” – Um grande Movimento Europeu pela Vida e pela Família

Isilda Pegado
Voz da Verdade, 21.07.2013
Por toda a Europa está a correr a Iniciativa Europeia de Cidadãos – "UM DE NÓS". Em Portugal está a ser assinada no site www.umdenos.org, nas Paróquias e junto de grupos de cidadãos.
Pretende-se que a União Europeia em todos os programas, acordos, iniciativas e financiamentos respeite a Vida Humana desde a concepção até à morte natural. Por isso, é a vida de cada um de nós que está em causa. Porque se deseja uma Europa mais humana, mais próspera e mais capaz de vencer esta crise em que está mergulhada.  
No passado mês de Junho em Roma no âmbito do Ano de Fé, o Papa convocou os Movimentos pela Vida para as "Jornadas do Evangelho da Vida". Onde estivemos presente. Como foi dito, a Fé implica sempre o reconhecimento da vida. Jesus disse: "Eu vim para que tenhais Vida, e a tenham em abundância". Por isso, para além das catequeses feitas em vários pontos da cidade de Roma, e dos gestos de oração, foi a missa do Papa, na Praça de São Pedro, o momento alto desta consciência de que há um Povo que luta pela defesa da Vida e da Família.
A par dos trabalhos promovidos pelas Jornadas, realizou-se ainda a primeira Assembleia Geral dos líderes dos movimentos que nos 27 países da União fazem e promovem a recolha de assinaturas do "UM DE NÓS".
Durante aquela tarde, em que 27 delegações nacionais (5 minutos para cada) retrataram o que está a acontecer no seu País, ficamos com a convicção de que há um grande movimento Pro-vida e Família em toda a Europa. Há uma unidade que se palpa, que se constrói e se sente. As dificuldades são comuns, os caminhos diferentes, mas o objectivo é o mesmo. Foi a confirmação de que vale a pena o trabalho, a entrega, de que há muito a fazer e de que o nosso tempo é um desafio constante.
Recordo, por exemplo, a alegria do representante da Holanda, onde "UM DE NÓS" é um sucesso graças à unidade que se gerou entre católicos e protestantes. Porque verdadeiramente a defesa da vida é uma questão ecuménica. Ou, a garbosa Polónia que demonstrava, com números, gráficos e folhetos a drástica redução do número de abortos, desde que a lei o proibiu, dizendo também que a par da lei continua a ser necessária nas escolas, nas catequeses, nos media, uma cultura de Vida.
Sendo o objectivo, recolher em toda a Europa, um milhão de assinaturas para a iniciativa "UM DE NÓS", até Outubro de 2013, torna-se cada vez mais exigente o nosso empenho em Portugal (30.000 assinaturas). A dinâmica que se está a gerar levou a que alguns perguntassem já – e depois do um milhão? Isto é, há a clara consciência de que este trabalho é para continuar em unidade por toda a Europa. A cultura da Vida e do Amor encontra agora um novo rumo. O logótipo encontrado é muito feliz por mostrar que esta questão não é apenas de defesa do embrião, de combate ao aborto ou à eutanásia, mas é para defesa de cada "UM DE NÓS".
Defender a Vida e a Família não é uma ideologia, mas é uma exigência carnal. O relativismo e as opções contra a Vida e a Família destroem, anulam, vitimizam e levam ao desânimo e à violência dos homens. 
O egoísmo, o hedonismo e o relativismo que imperam nas nossas legislações atiram a Europa para a crise, a destruição e a incapacidade.
Contudo, há uma vontade determinada por homens e mulheres, com grande letícia, saber e verdade que deseja construir uma cultura de Vida, Amor e Esperança para a Europa e para o Mundo.
Para cada "UM DE NÓS"!

O SURF DE DEUS

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
Voz da Verdade, 2013-07-21Experiência de contemplação e de testemunho da fé cristã

Não sei se o facto do meu ministério pastoral me obrigar a percorrer, com frequência, a estrada entre o Dafundo e o Estoril, à beira-mar, faz de mim um padre na linha … ou, pelo contrário, um marginal!

Mas, a verdade é que não me canso daquele trajecto que, apesar de conhecido como a palma da mão, é sempre de uma surpreendente beleza. Mais do que as pequenas fortalezas costeiras, a contrastar com a imponência do Forte de São Julião da Barra, ou o Bugio, ou ainda os cruzeiros que, de manhã cedo, entram pelo rio e, ao crepúsculo, desaparecem no horizonte, entusiasma-me o espectáculo dos surfistas que, durante todo o ano, se podem ver nalgumas praias.

Ao volante e sempre apressado, quase nunca tenho o tempo que desejaria para uma observação mais prolongada, excepto quando o trânsito está mais lento ou o semáforo me concede alguns segundos de distracção. É então que contemplo, com alguma inveja, aquelas pranchas à tona da água, em velozes ziguezagues entre as ondas, aproveitando a força da maré, em jogos de equilíbrio que parecem danças guerreiras, ou um estranho ballet. O mar, esse espelho de água em que o azul do céu se reflecte, está por vezes calmo mas, em geral, o vento suscita uma considerável ondulação que, nas marés vivas, chega a ser furiosa, ouvindo-se então um bramido assustador, que recorda o mítico Adamastor. À fragilidade do nauta, sem outra defesa que a sua destreza sobre a instável plataforma, assiste apenas o seu saber de experiência feito e, se a tiver, a sua fé. Foi essa a ciência e essa a luz sobrenatural – Lumen fidei, como recorda a primeira encíclica do Papa Francisco – que guiou os navegantes lusíadas que, aventurando-se por rotas desconhecidas, deram novos mundos ao mundo e dilataram a fé.

Neste Ano da Fé e já na iminência de mais umas Jornadas Mundiais da Juventude, quero crer que muitos jovens cristãos sulcarão as marés adversas, com a determinação e a alegria da fé. Para um cristão, esta apaixonante prática desportiva não pode ser apenas uma mera diversão, nem uma exibição egoísta, nem muito menos uma agressiva competição, mas uma escola de vida cristã. Deve ser – porque não? – experiência de Deus na comunhão da natureza, ou seja, oração. E testemunho de fé na vivência da caridade com todos os irmãos.

Quando passo pela praia e vejo o «cardume» de jovens desportistas a surfar, não posso deixar de sorrir e de rezar por quantos navegam pelas tumultuosas águas do mundo, pedindo a Deus que nos conceda a graça de poder ver, um dia, sobre os altares, alguns dos que agora vejo sobre as pranchas. Com quanta alegria e devoção eu rezaria a um santo surfista!

P. Gonçalo Portocarrero de Almada

ORAÇÃO DO SURFISTA

Para rezar antes e depois de ir ao mar

Obrigado, Deus-Pai, pela beleza do mar
E pela grandeza do vento e da maré!
Fazei que sempre vos saibamos amar
E aumentai em nós o dom da vossa fé!

Jesus, que andastes sobre as águas do mar,
Dizei-nos o que outrora mandastes a Simão
Para que sobre as ondas saibamos caminhar
E se o pé faltar, não nos falte a vossa mão!

Espírito Santo, que sois fogo e vento,
Acendei em nós o lume da caridade
Para que aos náufragos demos alento
E ajuda a quem tenha necessidade!

Oh Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe,
Estrela do Mar: sede sempre o nosso norte
Porque quem na vida a seu lado vos tem,
É feliz agora e na hora da sua morte!

Anjos da Guarda, doce companhia,
E vós, bem-aventurados Santos e Santas:
Socorrei-nos e salvai-nos, noite e dia,
Guiai nossas almas e as nossas pranchas!

A melhor parte

«Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.»
Lc 10, 41-42

Não deixem que vos roubem a esperança

Graça Franco

RR on-line 21-07-2013

Esta semana, no Rio, vive-se uma ocasião única para milhões de jovens tornarem bem viva a Luz da fé mostrando como ela é capaz de enformar a leitura das realidades do mundo contemporâneo.

Não deixem que vos roubem a esperança! O grito, lançado aos jovens, por Francisco, antes e depois de se tornar Papa, e que praticamente encerra a sua primeira encíclica, voltará  esta semana a ser recordado aos milhões de rapazes e raparigas de todo o mundo que, já a partir de amanhã, no Rio de Janeiro, irão juntar-se ao novo bispo de Roma e levar a cabo essa gigantesca celebração da fé em que se foram tornando, ao longo das últimas décadas, as Jornadas Mundiais da Juventude.
Vale a pena seguir de perto este acontecimento. A primeira grande viagem catequética de um pontificado que, sendo ainda tão curto, é já dos mais ricos na sua simbologia. Quem consegue imaginar a força transformadora de milhões de jovens não apenas dispostos a ouvir mas decididos a pôr em prática este conselho desafiador e contagiante de não deixar de acreditar em Deus ou seja, de não deixar de acreditar no verdadeiro Amor (Deus Caritas Est).
Impossível não se questionar sobre o porquê de milhões de jovens correrem a ouvir um avô vestido de branco que lhes recorda coisas tão velhas e tão novas como " a importância da família fundada no matrimónio, entendido como união estável de um homem e uma mulher" que nasce do reconhecimento e da aceitação da bondade "da diferenciação sexual" (num discurso que fala de compromissos "para sempre", ao arrepio dos pretensos modernismos paternalistas formatadores do pensamento único da sociedade individualista- hedonista e da civilização do descartável). Mas um "avô" que ao mesmo tempo que apresenta essa proposta radical denuncia e recusa a hipocrisia, o farisaísmo, os "narizes empinados" dos senhores que em vez de anunciarem o Deus da misericórdia o transformam numa caricatura de polícia de costumes. 
Um dos mais preciosos dons do pontificado de Bento XVI foi provavelmente o do seu próprio sucessor, antecipadamente concedido à Igreja na sequência da sua inesperada renúncia. Muito dificilmente alguém poderia encarnar melhor do que Francisco, pelo próprio exemplo, o repto lançado à juventude ainda há poucos dias na encíclica escrita a duas mãos, pelos dois Papas. "Não deixemos que nos roubem a esperança, nem permitamos que esta seja anulada por soluções e propostas imediatas que nos bloqueiam o caminho".
Um repto que passa por experimentar a busca da Verdade, fruindo a alegria do seu encontro na força transformadora do anúncio e da partilha em comunhão com todos os membros da grande família humana formada, a cada momento, por crentes e não crentes. Porque a fé católica não é algo que se possa viver individualmente numa relação de tu a tu no mais recôndito da consciência. Ela exige ser vivida em comunhão, com os outros, em Igreja. Nesse sentido terá sempre de transbordar para o espaço público por mais que a Sociedade pretenda enclausurá-la ou confiná-la comodamente às sacristias.
Esta semana, no Rio, vive-se uma ocasião única para milhões de jovens tornarem bem viva a Luz da fé mostrando como ela é capaz de enformar a leitura das realidades do mundo contemporâneo. Provando à evidência e ao ritmo do samba que essa luz contribui positivamente para a Sociedade e, ao contrário do que muitos se empenham em proclamar, não se traduz numa força retrógrada e castradora do progresso da humanidade mas antes radica no impulso Criador, fonte primeira do genuíno progresso.