terça-feira, 30 de abril de 2013

Quando tanto se fala de consensos é bom recordar

Não é de bom senso um consenso sem senso
António Luís Montiel
Pedagogo (1959-...)

O Estado, figura omnipresente na nossa vida…

30 Abril 2013, 00:05 por Camilo Lourenço | camilolourenco@gmail.com

Portugal não sabe viver sem o Estado. E o Estado não sabe viver sem a "protecção" que a sociedade civil lhe exige. Vem isto a propósito do protesto dos taxistas, ontem em Lisboa. Protesto, recordo, relacionado com os cortes do Ministério da Saúde nas verbas para pagar o transporte de doentes por táxi.
A páginas tantas alguém perguntava a um dos "protestantes" por que estava ali. E a resposta foi elucidativa: na zona onde vive, o seu rendimento cingia-se quase exclusivamente ao "contrato" para transportar doentes não acamados. Agora, com os cortes do Ministério da Saúde, os outros clientes não chegam para lhe rentabilizar o negócio. Ou seja, há um "empresário" que não sabe o que é diversificar o negócio e pensa que o Estado não pode fazer cortes na despesa… porque ele precisa de garantir a sua sobrevivência. E, por isso, decide vir protestar para São Bento.
O problema de Portugal é este: toda a sociedade se queixa que paga impostos vergonhosamente elevados. Mas é a própria sociedade que não aceita fazer o que tem de ser feito para baixar o nível de fiscalidade: cortar despesa.
Se juntarmos a isto o facto de até os partidos da governação (parte do PSD, grande parte do CDS e todo o PS) se mostrarem renitentes a fazer cortes de despesa, percebemos por que somos um país adiado: a sociedade portuguesa é uma sociedade clientelar. Sendo que o máximo denominador comum dessa clientela é o Estado, a instituição que em vez de salvaguardar o interesse geral dos cidadãos salvaguarda os interesses de uma dúzia de "lobbies".
Há forma de mudar este estado de coisas? Há. Pondo alguém a governar a partir do exterior. Mas não é isso que faz a Troika?

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Falar verdade

Miguel Alvim

A epígrafe de Eça de Queirós - "Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia" - já não serve.
A realidade é forte demais para imagens literárias.
O termo fracturas sociais também não serve.
Falemos verdade.
Os deprimentes ensaios sociais - legais da era Sócrates, do crime do aborto liberalizado até à aberração do dito casamento homossexual ou do projecto da adopção de crianças inocentes e desprotegidas por duplas homossexuais são o sinal forte e evidente de um processo imparável de erosão moral - legal, de deriva ateia e pagã de uma comunidade que está a desumanizar.
A crise é isso, muito mais do que PPPs e operações swaps (apesar de que estas falácias são outro aspecto da mesma realidade).
Portugal, a Europa e o Ocidente em geral estão apodrecidos nas suas convicções, princípios e valores.
E pasmam sem soluções.
As soluções para esta crise não se encontram em manuais escolares de boas práticas económicas e financeiras.
Um mundo sem Deus, onde a mais bela e milagrosa criação divina, que é o homem, feito à Sua imagem e semelhança, é objecto de maciça e mentirosa manipulação estatista de alguns poucos muito agressivos e poderosos, que o aniquilam e mesmo matam no seu ser pessoa.
Quem é que já se esqueceu da queda da torre de Babel?
E de que o tempo e o espaço são relativos?
Sem Deus, nada, mas mesmo nada, dá alguma vez certo.
O regresso ao passado é um desastre que vai anunciado pela autocomplacência e pela falta de fé de demasiada gente que anda demasiado distraída.
Portugal tem de mudar de rumo se quiser sobreviver.

A guerra de consensos

Alexandre Homem Cristo, i-online 29 Abr 2013
Um consenso alargado não apaga a identidade dos partidos e não impossibilita o estabelecimento de uma alternativa política
Nas décadas de 1950 e 1960, o Reino Unido foi governado sob aquilo a que se chamou de "política do consenso" ou "contrato contínuo". Independentemente de quem estivesse no poder (Attlee, Macmillan, Wilson), a tomada de decisão era antecedida de uma consulta alargada aos restantes actores políticos, na busca de um entendimento sobre qual deveria ser a acção governativa num determinado sector. Viviam-se tempos excepcionais. No rescaldo da II Guerra Mundial, era fundamental virar a página. Olhando para trás, são muitos os que acreditam que, nos 20 anos que se seguiram ao fim da II Guerra Mundial, essa opção pelo consenso surtiu efeito, evitando crises políticas e consolidando os pilares para o desenvolvimento económico britânico. E, sublinhe-se, nunca este processo resultou no apagar das características que diferenciavam os partidos. Nem nunca se alegou que contribuiria para acabar com as alternativas políticas.
É oportuno relembrar este exemplo histórico para fazer três breves notas. A primeira é que é possível governar através de consensos alargados, mesmo em contextos difíceis. A segunda é que, no Reino Unido, isso aconteceu porque houve uma tomada de consciência de que o consenso era necessário para a melhor defesa do interesse nacional. E a terceira é que a existência de um consenso alargado não apaga a identidade dos partidos políticos, não impede que estes tenham visões políticas diferentes e não impossibilita o estabelecimento de uma alternativa política.
Estas três notas são particularmente importantes no contexto em que o nosso país vive actualmente. Todos falam e discutem a necessidade de consenso político, mas parece que ninguém concorda sobre o que realmente significa esse consenso e quais as implicações (para o país) caso ele não seja alcançado. Sem surpresa, o debate é intenso, mas infrutífero.
António José Seguro recebeu, por parte do governo, uma proposta de diálogo que não soube enquadrar. Seriam verdadeiras as intenções do governo? Ao PS seria pedido que assinasse de cruz os resultados das negociações prévias entre o governo e as entidades internacionais, ou teria realmente um papel activo? E, eleitoralmente, quais as consequências de aceitar sentar-se à mesa com o governo? Com todas estas dúvidas, António José Seguro lidou mal com a incerteza e, claro, com as pressões internas a que tem sido sujeito. Respondeu da pior forma: na sexta-feira à noite, em pleno Congresso do PS, garantiu a impossibilidade de um entendimento.
O erro é dramático. Em primeiro, porque o PS passou meses a queixar-se que o governo não ouvia os seus avisos e, agora, no momento em que o PS é convidado a fazer parte da decisão, afirma que já não quer ser ouvido. Em segundo, porque Seguro rejeitou o diálogo considerando que o PS, querendo ser alternativa política, não pode fazer parte de um consenso alargado. Ora, não existe incompatibilidade - tal como uma coligação não implica uma fusão, também não o implica um consenso alargado. Por fim, o erro é dramático porque, no Congresso dos socialistas, ficou claro que, para o PS, o interesse nacional não prevalece sobre os do partido.
Enquanto o país se entretém a discutir Cavaco Silva, tudo indica que, esta semana, o tal consenso ficou mais longe de acontecer. Ao "que se lixem as eleições" de Passos, Seguro vem dar vivas a eleições, que é como quem diz "que se lixe o país". E, sendo assim, vai mesmo lixar-se.

Ciclo Reforma do Estado | José Ribeiro e Castro | Livraria Férin

Apresentacao Reforma Do Estado

Frase do dia

Os dois artigos que seleccionei para hoje chamam a atenção para o mesmo que, com alguma generalização abusiva, é o assunto da frase do dia. No primeiro, fala-se do trabalho científico de dois professores de Harvard, Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, que dedicaram a sua vasta investigação à questão das crises financeiras e dívida excessiva; um seu artigo recentemente publicado foi contestado por outros investigadores, como habitualmente acontece no meio científico. Este facto é totalmente, mas a agenda política, apesar de simular idoneidade intelectual, defende interesses, não a verdade, e viu nesta investigação complexa uma oportunidade de jogo.
No segundo, conta-se que Alexis Tsipras, o líder do partido da extrema-esquerda grega, decidiu vir a Portugal "comemorar o 25 de Abril". O facto, só por si, não mereceria mais do que um bocejo de tédio, mas a comunicação social achou que o assunto era muito importante.
Parecerá que estamos sujeitos a viver num mundo onde somos sujeitos a estes e a outros tipos de manipulações.
Porém, há pessoas e momentos de pessoas que fazem a diferença e mudam a história.
Recordo os santos que a igreja venera ontem e hoje e que viveram em tempos em que a Europa sofria conturbações ainda mais agitadas do que as que vivemos hoje
S. Luís Maria Grignon de Monfort que viveu a seguir à Paz de Westefalia que encerrou a Guerra dos Trinta. Proponho-vos por isso que o conheçam um bocadinho melhor, bem como a impressão que causou em João Paulo II e, para quem quiser verdadeiramente seguir o seu trilho, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.
Hoje, é o dia de Santa Catarina de Sena que viveu no séc. XIV, num dos períodos mais conturbados da história da Igreja e da Europa. O seu protagonismo mudou a história e, por isso, ela é uma das padroeiras principais da Europa.
Fazer um jornal é uma questão de distorcer as proporções
Bent Falbert
Joranlista dinamarquês, 1947-…)

O discurso da catástrofe

João Carlos Espada, Público, 29/04/2013

Alexis Tsipras, o líder do partido da extrema-esquerda grega, decidiu vir a Portugal "comemorar o 25 de Abril". O facto, só por si, não mereceria mais do que um bocejo de tédio, mas a comunicação social achou que o assunto era muito importante. Em entrevistas várias, o senhor apelou a uma "Primavera mediterrânica" - talvez um bom anúncio turístico, se fosse proferido por outra fonte. De caminho, apresentou um diagnóstico catastrófico sobre as intenções dos governos do Norte da Europa, sempre liderados pela "terrível Alemanha", de transformarem os países do Sul em "novas colónias". A profundidade da análise fala por si, e também não mereceria atenção especial. Acontece, todavia, que este género de discurso catastrofista começa a alastrar, contaminando pessoas e instituições respeitáveis.
Em França, fala-se hoje com naturalidade do "fim do regime". Dois dos maiores semanários do país, Le Point e Le Nouvel Observateur, fazem títulos de primeira página de teor semelhante. "Estamos em 1789?", dizia o primeiro. "Os anos 30 estão de volta?", titulava o segundo. A imprensa em geral fala da crise de confiança no regime, nos recordes de impopularidade do Presidente Hollande (cerca de 75% dos franceses dizem-se descontentes com o Presidente), de um fim de regime iminente.
Estas ideias de "fim de regime" vão também fazendo o seu caminho entre nós. À esquerda e à direita, fala-se fluentemente dos "bloqueios do regime" - um conceito suficientemente indefinido para poder agradar a gregos e troianos.
A esquerda foi tristemente mais longe, ao comparar a situação presente com a dos últimos anos da monarquia constitucional, em que ocorreu o vil assassínio do rei e depois a revolução republicana de 1910. À direita, o tema preferido é o de que este "regime" não permite as reformas modernizadoras necessárias - as quais, curiosamente, nunca são definidas com rigor, para além de uma sempre vaga revisão da Constituição.
Estes discursos, vindo de quadrantes opostos, na verdade convergem e alimentam mutuamente um caldo de cultura antiparlamentar e terceiro-mundista. Em primeiro lugar, não dizem onde e porquê está bloqueado este "regime". Existem opiniões que estão a ser perseguidas? Há partidos proibidos ou impedidos de concorrer a eleições e de apresentar as suas propostas? Há propostas que são excluídas do debate público? Há irregularidades eleitorais? Existe, basicamente, algum movimento de opinião que não consegue exprimir-se ou que não tem oportunidades leais de concorrer com os partidos existentes?
É óbvio que nada disto acontece hoje em Portugal. É óbvio que as opiniões são livres, que as eleições são leais, e que não há nenhum candidato a novo partido político que seja impedido de se constituir. Em que consiste então o bloqueio do que insistem em chamar "regime" actual?
Resta, desta vez à direita, o tema da Constituição. É sabido que a nossa Constituição foi marcada pelo clima revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril e que podia ser com vantagem expurgada de carga ideológica desnecessária. Mas, sejamos rigorosos: existe alguma proposta de reforma estrutural que não tenha sido possível devido à Constituição? Se existe, ela devia estar neste momento a ser tema de fortíssima campanha política por parte dos seus defensores.
Onde estão, todavia, essas propostas? Alguém propôs introduzir o cheque-educação no ensino público e privado, como foi feito na Suécia e está a ser implementado em Inglaterra? Alguém propôs introduzir um cheque-saúde no sistema de saúde público e privado, como também está a ser feito naqueles países? Alguém propôs uma drástica redução dos impostos para relançar a oferta? Há seguramente algumas nobres vozes solitárias, como o Fórum para a Liberdade de Educação, que defendem o cheque-educação. Mas a culpa de essas vozes serem solitárias não está certamente na Constituição, uma vez que a Constituição não proíbe que essas vozes existam.
Por outras palavras, não existe qualquer bloqueio no chamado "regime" político português, como aliás não existe no francês, no grego ou no italiano. Trata-se de democracias políticas e parlamentares, à semelhança da inglesa, da alemã ou da sueca, que são igualmente abertas a novas propostas - desde que elas existam.
A diferença está no seguinte: enquanto em Inglaterra, na Alemanha ou na Suécia, se discutem as propostas políticas de reforma, nos países onde não há propostas políticas de reforma discute-se o "regime".
Trata-se de uma diferença de monta. Nos países em que se discutem reformas, as energias são canalizadas para estudar problemas e testar soluções. Nos países em que se discute o "regime", não há realmente propostas políticas em confronto mútuo. Há basicamente acusações mútuas, teorias conspirativas sobre "bloqueios", apelos míticos a "regimes" alternativos imaginários.
Simultaneamente, em termos de reformas estruturais, tudo continua como dantes. O mais grave, contudo, é que, no entretanto, cresce impune o discurso catastrofista sobre os alegados bloqueios do "regime".

29 de Abril - Santa Catarina de Sena

Sta Catarina de Siena, Doutora da Igreja - Festejada 29 de abril
     Em 25 de março de 1347, Lapa Benincasa deu à luz duas gêmeas em seu vigésimo quarto parto. Uma delas não sobreviveu após o Batismo. A outra, Catarina, tornar-se-ia a glória de sua família, de sua pátria, da Igreja e do gênero humano.
     Giacomo di Benincasa, seu pai, era um tintureiro bem estabelecido, "homem simples, leal, temeroso de Deus, e cuja alma não estava contaminada por nenhum vício"; piedoso e trabalhador, criava sua enorme família de 25 filhos no amor e no temor de Deus. Catarina, a penúltima da família e caçula das filhas, teve a predileção de todos e cresceu num ambiente moral puro e religioso.
     Aos 7 anos de idade Catarina consagrou a sua virgindade a Cristo; aos 16, cortou sua longa cabeleira para evitar um casamento; e aos 18, recebeu o hábito das Irmãs da Penitência de São Domingos.
     Catarina encarou a sua clausura com seriedade e vivia encerrada no seu próprio quarto, onde, por intermédio da oração e diálogo afirmava que estava sempre com e em Cristo. Abandonou a sua cela somente em 1374, quando a peste se alastrou por toda a Europa e ela decidiu cuidar dos enfermos e abandonados, tendo praticado grandes atos de caridade.
    Nesse mesmo ano (1374), teve uma visão e ficou estigmatizada. Na visão Cristo lhe disse que ela trabalharia pela paz, e mostraria a todos que uma mulher fraca pode envergonhar o orgulho dos fortes. Analfabeta, aprendeu milagrosamente a ler e escrever, para poder cumprir a missão pública que Deus lhe destinava.

Sua Missão
     No fim da Idade Média — quando a gloriosa Civilização Cristã já decaía a olhos vistos — a Itália era um aglomerado de reinos e repúblicas que viviam em guerra entre si, ou, em uma mesma cidade, guerra entre facções contrárias. Catarina foi várias vezes chamada a ser o seu anjo pacificador. Assim, viajou ela de Siena para Florença, Luca, Pisa e Roma como pacificadora.
     Em 1375, toda a Itália estava envolvida em graves disputas políticas relativas à volta do papado; organizavam-se milícias nas cidades de Perusa, Florença, Pisa e em toda a Toscana, em revolta contra o poder político do Papa Gregório XI.
     Catarina, mediadora entre o Papa e os conjurados, inicia uma correspondência incessante com o Papa Gregório XI, cheia de piedade e amor filial, cada vez mais premente, em favor dos súditos dos Estados Pontifícios que se tinham rebelado contra ele: "Santíssimo e dulcíssimo Pai em Nosso Senhor Jesus Cristo [...] Ó governador nosso, eu vos digo que há muito tempo desejo ver-vos um homem viril e sem temor algum. [...] Não olheis para a nossa miséria, ingratidão e ignorância, nem para a perseguição de vossos filhos rebeldes. Ai! que a vossa benignidade e paciência vençam a malícia e a soberba deles. Tende misericórdia de tantas almas e corpos que morrem".
     Censurou o rei da França por guerrear contra cristãos e não empenhar-se na cruzada: "Eu peço-vos que sejais mais diligente para impedir tanto mal e para ativar tanto bem, como é a recuperação da Terra Santa e daquelas almas infelizes que não participam do Sangue do Filho de Deus. Desta coisa vos deveríeis envergonhar, vós e os outros senhores cristãos; porque é uma grande confusão diante dos homens, e abominação diante de Deus, fazer a guerra contra os irmãos e deixar os inimigos; e querer tirar o que é dos outros e não reconquistar o que é seu. Eu vos digo, da parte de Jesus Crucificado, que não demoreis mais a fazer esta paz. Fazei a paz e fazei toda a guerra contra os infiéis".
     Catarina, devorada de zelo e amor pela Igreja, ansiava pela pacificação da Cristandade para que, unidos, os cristãos se dispusessem a seguir em uma Cruzada para libertar os Santos Lugares.
     Ela decidiu seguir até Avinhão, cidade onde os papas viviam desde há mais de 70 anos, e apresentar-se diante de Gregório XI para convencê-lo a regressar a Roma, pois isto seria fundamental para a unidade da Igreja e a pacificação da Itália.
     Em Avinhão, diante dos cardeais, Catarina ousou proclamar os vícios da corte pontifícia e pedir, em nome de Cristo Jesus, a reforma dos abusos. Gregório XI a chamara para dar sua opinião em pleno Consistório dos Cardeais. Ela o convenceu a voltar a Roma.
     Em 17 de janeiro de 1377, Gregório XI deixa Avinhão, apesar da oposição do Rei francês e de quase todo o Sacro Colégio. Ele ainda hesita no caminho, e ela o conjura a ir até o fim.
     Mas a paz na Igreja não seria longa. Outra vez a república de Florença revoltou-se contra o Papa, que apelou para Catarina. Rejeitada por aquela cidade, a Santa quase foi martirizada. Gregório XI, gasto, envelhecido, sofrido, não resistiu e entregou sua alma a Deus.
     Os cardeais elegem Urbano VI. Conhecendo Catarina, e vendo nela o espírito de Deus, o novo Pontífice a chama a Roma para estar a seu lado. Não sem razão, pois cardeais franceses, desgostosos com o novo Papa, voltam para Avinhão, anulam sua eleição e elegem o antipapa Clemente VIII. A Cristandade mergulha em nova divisão: o Grande Cisma do Ocidente.
     Catarina tentou inutilmente trazer de volta ao verdadeiro redil os três cardeais, autores principais do cisma. Escreveu a reis e governantes da Europa para trazê-los ao verdadeiro Papa. Catarina escreveu 150 cartas a cardeais, bispos e prelados; e a reis, príncipes e governantes, 39.
     "As angústias que lhe causavam as revelações sobre o futuro da Igreja foram para essa Santa [Catarina de Siena] como uma paixão dolorosa. Ela clamava ao Senhor e pedia graça para essa Igreja, Esposa de seu Divino Filho: `Tomai, ó meu Criador, este corpo que eu recebi de vossas mãos. Não perdoeis nem a carne nem o sangue; rompei-o, lançai-o nas brasas ardentes; quebrai meus ossos, contanto que vos praza de me ouvir em favor de vosso Vigário'".

Doutora da Igreja
     Santa Catarina foi agraciada com o "casamento místico"; recebeu estigmas semelhantes aos de Nosso Senhor e teve uma "morte mística", durante a qual foi levada em espírito ao Inferno, ao Purgatório e ao Paraíso; teve também uma "troca mística de coração" com Nosso Senhor.
     Entre seus inúmeros discípulos, os caterinati, havia membros do clero, da nobreza e do povo mais miúdo. Um deles, São Raimundo de Cápua, seu confessor, foi também seu primeiro biógrafo e quem nos forneceu pormenores de sua impressionante vida.
     "Todos os seus contemporâneos dão testemunho de seu extraordinário charme, que prevalecia ainda em meio da contínua perseguição à qual ela foi sujeita, mesmo da parte dos frades de sua própria Ordem e de suas irmãs em religião".
     Uma das suas obras ditadas, Diálogo sobre a Divina Providência, é ainda hoje considerada um dos maiores testemunhos do misticismo cristão e uma exposição clara de suas ideias teológicas e de sua mística. Este livro compila as revelações - umas sublimes e outras terríveis - feitas por Deus à Santa durante seus êxtases. Seus secretários anotavam suas palavras durante os êxtases a seu pedido.
     Santa Catarina faleceu no dia 29 de abril de 1380, aos 33 anos. Em 1970, Paulo VI declarou-a Doutora da Igreja, sendo a única leiga a obter esta distinção. João Paulo II declarou-a co-padroeira da Europa, juntamente com Santa Brígida da Suécia e Santa Teresa Benedita da Cruz. É Padroeira da Itália. Sua festa comemora-se no dia 29 de abril.

Fonte:  Grandes Santos que Iluminaram o Mundo, Plinio Ma. Solimeo

Conselho de Santa Catarina de Sena sobre a Santa Paciência
     "Deveremos afirmar, então, que nenhum sofrimento é grande? De modo algum. E se a sensualidade se revoltar, lembremos-lhe: 'Atenção, pois o fruto da impaciência é o castigo eterno, que receberás no dia do juízo. É melhor para ti querer o que Deus quer, amar o que Ele ama, ao invés de querer o que preferes e amar o que agrada à sensualidade. Quero que suportes virilmente a dor, já que os sofrimentos desta vida não têm comparação com a glória futura, preparada por Deus aos que o temem (Rom. VIII, 18; ICor. II, 9) e cumprem sua vontade".

(Santa Catarina de Sena. Carta 5, para Francisco de Montalcino)
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Nosso Senhor a Santa Catarina de Sena, sobre o homossexualismo
     "Esses infelizes ... caem no vício contra a natureza. São cegos e estúpidos, cuja inteligência obnubilada não percebe a baixeza em que vivem. Desagrada-me esse último pecado, pois sou a pureza eterna. Ele me é tão abominável que somente por sua causa fiz desaparecer cinco cidades (cfr. Sab. 10, 6). Minha justiça não mais consegue suportá-lo".
     "Esse pecado, aliás, não desagrada somente a mim. É insuportável aos próprios demônios, que são tidos como patrões por aqueles infelizes ministros. Os demônios não toleram esse pecado. Não porque desejam a virtude; por sua origem angélica, recusam-se a ver tão hediondo vício. Eles (os demônios) atiram as flechas envenenadas de concupiscência, mas se voltam no momento em que o pecado é cometido".

(Fonte: "O Diálogo": Edições Paulinas, 1984, pp. 259-260)

Ficção científica

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2013-04-29


No meio do sofrimento económico tivemos uma notícia inacreditável: "Um dos ensaios académicos que têm servido de suporte para boa parte das políticas de austeridade na Europa contém um erro na fórmula do programa informático Excel" (Rádio Renascença, 18/4). Depois de tantos custos, cortes e despedimentos, afinal está tudo errado? Como é possível? Parece mentira!
Parece mentira porque é mesmo mentira. Trata-se de mais uma onda de sobre-excitação mediática sem qualquer significado. Vejamos brevemente os factos que suportam todo o aparato. Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, professores de Harvard, dedicaram a sua vasta investigação à questão das crises financeiras e dívida excessiva. O seu livro de 2009, This time is different, em vias de sair por cá em tradução, foi um clássico instantâneo. Mas ele é apenas um de muitos estudos destes autores, como o artigo "Growth in a Time of Debt", publicado em Maio de 2010 na American Economic Review.
Ter um texto aceite nesta revista, uma das mais prestigiadas do mundo, implica aprovação num exigente processo de revisão. Mas revisão não significa replicação dos resultados. Uma das regras mais básicas do procedimento científico, em qualquer disciplina, é que as investigações empíricas ou laboratoriais sejam passíveis de reprodução posterior, parte essencial da solidez demonstrativa. Havendo normalmente muitos autores na mesma área, o processo de teste acontece naturalmente após a publicação. Agora três economistas, Thomas Herndon, Michael Ash e Robert Pollin, da Universidade de Massachusetts Amherst, apresentaram um ensaio, "Does High Public Debt Consistently Stifle Economic Growth? A Critique of Reinhart and Rogoff", que sugere problemas nas estimativas do artigo original.
Até aqui tudo normal. Deste debate, muito comum, sairá novo avanço na ciência. Mas a agenda política, apesar de simular idoneidade intelectual, defende interesses, não a verdade, e viu nesta investigação complexa uma oportunidade de jogo. De repente deflagou uma espiral de simpificação e exagero. Primeiro o texto original ficou resumido a um número que, os críticos alegam, está mal calculado. Depois, essa taxa de crescimento médio dos países muito endividados passou a ser exaltada como o resultado decisivo para inspirar toda a austeridade mundial. Finalmente, embora o debate ainda mal tenha começado, a imprensa já decidiu quem tem razão.
Tudo isto é um flagrante disparate. Existem evidentemente dezenas de cálculos no texto original de Reinhart e Rogoff, o qual é apenas um entre inúmeros estudos de múltiplos autores sobre o tema. Por importante que seja, a relevância política de uma taxa é mínima. Se a famosa conta tivesse sido feita como agora é proposto, e o crescimento estimado fosse afinal 2,2%, em vez dos -0,1% originais, o impacto disso na austeridade portuguesa seria... nenhum. Não só o número é irrelevante para a conjuntura nacional, mas as razões do nosso aperto são outras.
Nada disto interessa a quem quer impor um resultado por razões de conveniência. A ignorância exultou com o alegado erro dos especialistas. Sem que tenham lido qualquer dos estudos, a simples suspeita bastou para fazer disparar a poderosíssima máquina da retórica sensacionalista, num campeonato de títulos bombásticos: "Rogoffgate: Um tiro no porta-aviões da narrativa da dívida" (Dinheiro Vivo, 17/Abril), "Vítor Gaspar e Carlos Costa citaram estudo com erro no Excel para defender corte na dívida" (Público, 18/Abril).
A verdadeira finalidade nunca foi informar, compreender, resolver problemas, mas polemizar, ridicularizar, divertir. Afinal economia e crise não interessam, preferindo-se confundir para fazer uma boa piada. É triste, mas neste tempo, pretensamente científico e rigoroso, publicações respeitáveis apregoam boçalidades dignas da Idade das Trevas. A única coisa que ainda surpreende é existirem pessoas inteligentes capazes de acreditar na ideia totalmente absurda de a orientação de fundo da política internacional se basear numa única fórmula.

domingo, 28 de abril de 2013

Amai-vos uns aos outros

sábado, 27 de abril de 2013

Frase do dia

A obrigação com a nossa pátria não cessa senão com as nossas vidas
John Adams (2.º presidente dos Estados Unidos da América)
carta a Benjamin Rush 18 Abr 1808

Depois vais ter pena

Inês Teotónio Pereira , ionline 27 Abr 2013
É uma questão de tempo até que fiquemos sozinhos no castelo a falar com as paredes e a chatear os visitantes com as glórias do passado
Quando temos os nossos filhos ainda pequenos não são poucas as pessoas, principalmente mães mais velhas, que nos alertam com uma certa nostalgia: "Aproveita enquanto eles são pequenos… Depois vais ter pena." É uma frase recorrente que é dita sem grandes desenvolvimentos mas sempre me pareceu assim uma coisa siciliana.
A advertência sempre me assustou um pouco. Sempre me fez lembrar uma espécie de anúncio de uma catástrofe que se advinha: "Ui, nem sabes o que aí vem… Depois não digas que eu não avisei." Como se tivéssemos de encher a dispensa de enlatados e preparar-nos para o pior.
Por outro lado, raramente alguém nomeia a desgraça, ninguém nos adianta pormenores sobre esse futuro ameaçador, como uma cigana que nos lê a mão mas não quer entrar em pormenores em relação ao número de desgraças que nos vão acontecer num futuro próximo, assim como ao nosso neto mais velho daqui a 40 anos. São desgraças e pronto, já chega.
Mas aproveitar o quê? A muda de cada fralda, cada birra, o ranho na camisola? É que tudo o resto nós aproveitamos. Aproveitamos as gracinhas, ficamos felizes quando eles aprendem a falar, a andar, a ler, etc. Aliás, nem temos alternativa ou endoidecíamos.
Nunca percebi o que motiva estas pessoas que nos aconselham a "aproveitar", que feridas de guerra transportam: se têm apenas saudades dos tempos em que os seus filhos eram pequenos e se arrependem de não ter aproveitado mais esses tempos ou se além dessas saudades também têm pena que eles tenham crescido. Como se agora, que cresceram, tivessem perdido toda a graça e encanto.
As crianças têm duas particularidades que maravilham os pais: a dependência e a vulnerabilidade. Os nossos filhos quando são pequenos são absolutamente dependentes de nós para tudo e têm-nos como fonte exclusiva de segurança, de motivação e de confiança. Para os nossos filhos pequenos somos mais importantes que os quatro elementos da natureza e não há fogo que nos consiga chamuscar.
Existirem pessoas no mundo que tenham esta ideia divinal de nós é simpático e muito agradável. Apesar de os nossos fãs não serem pessoas minimamente razoáveis, a sensação é muito boa.
Ora tudo isto se perde com idade. Com a idade deles. Conforme crescem os nossos meninos deixam de ser dependentes e vulneráveis. E o princípio do fim é quando eles começam a saber prender o cinto do carro e misturar o chocolate no leite. Acabou, a dissolução do nosso reinado começa aí. Depois é uma questão de tempo até que fiquemos sozinhos no castelo a falar com as paredes e a chatear os visitantes com as glórias do passado. A verdade é que conforme eles crescem a nossa importância vai decrescendo, numa relação inversa tipo défice e crescimento económico. E é nesta fase que aparece a frase: "Aproveita enquanto eles são pequenos… Depois vais ter pena…"
É este o dramático fado da nossa vida de pais: passamos a infância deles a queixar-nos das fraldas, das noites mal dormidas, das doenças, dos gritos, da falta de liberdade e a suspirar pelo dia em que eles nos largam. Quando esse dia chega, temos pena. Como se glória da nossa vida estivesse toda embrulhada em fraldas fedorentas.

Não faz sentido nenhum. Não sei se vou ou não vou ter pena quando os meus filhos já não precisarem de mim para nada, mas  tenho a certeza que nesse dia vou suspirar de alívio: quer dizer que estamos todos a envelhecer e bem. Entretanto, sim, é de aproveitar.

A hipótese que não existe

Gonçalo Portocarrero de Almada, i-online 27 Abr 2013
Um dilema com 2 mil anos: Jesus de Nazaré é Deus ou um impostor?
Conta-se que um nosso contemporâneo tinha péssima voz e ainda pior ouvido. Inconsciente das suas incapacidades canoras e auditivas, arriscava as mais arrojadas escalas, com terríveis resultados. Numa ocasião, um desesperado ouvinte, com escassa predisposição para o martírio, não aguentou mais e gritou-lhe:
- Cale-se! Essa nota não existe!
Uma nota inexistente é, como é óbvio, uma contradição nos termos, mas serve como exemplo de uma hipótese inexistente, como é a tese de que, negando a divindade de Cristo, também o não quer condenar, afirmando que era um bom homem. Ora acontece que, em termos meramente racionais ou lógicos, essa é a única hipótese que não existe.
A historicidade de Jesus de Nazaré não pode ser honestamente posta em causa, mas só os cristãos estão dispostos a reconhecer-lhe a condição divina que a sua fé afirma. Ateus, agnósticos e crentes de outras religiões não o têm por Deus, mas talvez também não por um impostor. Com efeito, até os mais incrédulos são sensíveis à beleza e à sabedoria dos seus ensinamentos e à exemplaridade da sua vida e por isso seguramente estariam dispostos a afirmar que Cristo foi um bom homem, sem se aperceberem da contradição de uma tal conclusão.
Com efeito, a personagem, que a história sagrada e profana conhece como Jesus de Nazaré disse ser Deus e, como tal, não só realizou prodígios - os milagres de que falam os Evangelhos - como aceitou ser adorada pelos homens. Uma tal afirmação só admite duas possibilidades: ser verdadeira ou falsa. Em nenhum dos casos, contudo, é compatível com a tal hipótese de Jesus ser apenas um homem bom.
De facto, se é verdade que Cristo é Deus, Jesus não foi simplesmente um homem bom, mas o ser divino, o próprio Deus encarnado, como afirma a fé cristã. A alguém que o chamou bom Mestre, Ele próprio disse que só Deus é bom. Mas nunca nenhum homem bom se atribuiu a si mesmo a condição divina. S. Paulo, quando confundido com uma divindade pagã, não permitiu que lhe fosse prestado culto. E S. João, quando se quis prostrar diante do anjo que se lhe revelou, foi por este admoestado, porque só a Deus é devida adoração. A mesma que Jesus de Nazaré recebeu e aceitou dos seus discípulos, precisamente por ser Deus. Se o não fosse, uma tal veneração teria sido idolátrica e, como tal, digna da pena capital.
Mas se Cristo não é Deus, tendo dito que o era, só poderia ser um mentiroso. Não cabe a hipótese de que fosse um alienado e, como tal, inimputável, porque nesse caso ninguém do seu tempo, ou depois, o teria tomado a sério, nem para o seguir nem para o condenar. Mas, se fosse de facto uma pessoa falsa, não seria decididamente um homem virtuoso, mas um blasfemo. Foi aliás por esta razão que foi condenado à morte pelo sinédrio. Tinham razão os que exigiram a sua morte, como réu confesso de tamanha ofensa à verdade e à dignidade divina?!
Ante Cristo, só cabem três atitudes: a indiferença dos néscios, o ódio ou a adoração. Os primeiros, como as avestruzes, enterram a cabeça na areia, abdicando da sua condição racional. Os outros, por força da razão, ou reconhecem que Jesus de Nazaré é Deus ou só podem tê-lo por um impostor. A cómoda hipótese do Jesus bonzinho, que daria tanto jeito aos que não se querem comprometer, porque o não querem seguir, nem condenar, pura e simplesmente não existe, como a desafinada nota do mau cantor.
Ou se entende que Cristo é um falsário e um mentiroso e, consequentemente, é justa e razoável a exigência da sua condenação, ou se aceita a sua divindade e se cai a seus pés, confessando: meu Senhor e meu Deus!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Um Jesuíta fala sobre o Papa Jesuíta

UmJesuitAeoPapa by papinto

Menos Estado, melhor Estado

Esta altura do ano é talvez aquela em que se fala mais de política, também talvez, porque a comemoração do 25 de Abril e a proximidade do 1º de Maio, a isso convidem.
Porém, o debate é, a maior parte das vezes, enviesado. Há questões que não se debatem, porque para muitos, que se sentem donos do Estado, se trata de conquistas civilizacionais irreversíveis. O resultado tem sido o aumento de peso do Estado e a sua intromissão em assuntos que não lhe dizem respeito e para os quais esta intervenção não tem hipóteses de ser adequada.
O resultado da omnipresença do estado, para além de caro, como agora constatamos, é muitas vezes totalmente ininteligível. A intenção é seguramente boa, mas a inteligibilidade é uma pré-condição da verdade.
Um abraço do
Pedro Aguiar Pinto

Escola para Obras de Caridade (2º encontro)

Oras-caridade

As leis que temos


«A presente lei aprova o regime jurídico do processo de inventário, altera o Código Civil, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 47 344, de 25 de novembro de 1966, e alterado pelos Decretos -Leis n.os 67/75, de 19 de fevereiro, 201/75, de 15 de abril, 261/75, de 27 de maio, 561/76, de 17 de julho, 605/76, de 24 de julho, 293/77, de 20 de julho, 496/77, de 25 de novembro, 200 -C/80, de 24 de junho, 236/80, de 18 de julho, 328/81, de 4 de dezembro, 262/83, de 16 de junho, 225/84, de 6 de julho, e 190/85, de 24 de junho, pela Lei n.º 46/85, de 20 de setembro, pelos Decretos -Leis n.os 381 -B/85, de 28 de setembro, e 379/86, de 11 de novembro, pela Lei n.º 24/89, de 1 de agosto, pelos Decretos -Leis n.os 321 -B/90, de 15 de outubro, 257/91, de 18 de julho, 423/91, de 30 de outubro, 185/93, de 22 de maio, 227/94, de 8 de setembro, 267/94, de 25 de outubro, e 163/95, de 13 de julho, pela Lei n.º 84/95, de 31 de agosto, pelos Decretos -Leis n.os 329 -A/95, de 12 de dezembro, 14/96, de 6 de março, 68/96, de 31 de maio, 35/97, de 31 de janeiro, e 120/98, de 8 de maio, pelas Leis n.os 21/98, de 12 de maio, e 47/98, de 10 de agosto, pelo Decreto -Lei n.º 343/98, de 6 de novembro, pelas Leis n.os 59/99, de 30 de junho, e 16/2001, de 22 de junho, pelos Decretos--Leis n.os 272/2001, de 13 de outubro, 273/2001, de 13 de outubro, 323/2001, de 17 de dezembro, e 38/2003, de 8 de março, pela Lei n.º 31/2003, de 22 de agosto, pelos Decretos -Leis n.os 199/2003, de 10 de setembro, e 59/2004, de 19 de março, pela Lei n.º 6/2006, de 27 de fevereiro, pelo Decreto -Lei n.º 263 -A/2007, de 23 de julho, pela Lei n.º 40/2007, de 24 de agosto, pelos Decretos -Leis n.os 324/2007, de 28 de setembro, e 116/2008, de 4 de julho, pelas Leis n.os 61/2008, de 31 de outubro, e 14/2009, de 1 de abril, pelo Decreto -Lei n.º 100/2009, de 11 de maio, e pelas Leis n.os 29/2009, de 29 de junho, 103/2009, de 11 de setembro, 9/2010, de 31 de maio, 23/2010, de 30 de agosto, 24/2012, de 9 de julho, 31/2012 e 32/2012, de 14 de agosto, o Código do Registo Predial, aprovado pelo Decreto -Lei n.º 224/84, de 6 de julho, e alterado pelos Decretos -Leis n.os 355/85, de 2 de setembro, 60/90, de 14 de fevereiro, 80/92, de 7 de maio, 30/93, de 12 de fevereiro, 255/93, de 15 de julho, 227/94, de 8 de setembro, 267/94, de 25 de outubro, 67/96, de 31 de maio, 375 -A/99, de 20 de setembro, 533/99, de 11 de dezembro, 273/2001, de 13 de outubro, 323/2001, de 17 de dezembro, 38/2003, de 8 de março, e 194/2003, de 23 de agosto, pela Lei n.º 6/2006, de 27 de fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 263 -A/2007, de 23 de julho, 34/2008, de 26 de fevereiro, 116/2008, de 4 de julho, e 122/2009, de 21 de maio, pela Lei n.º 29/2009, de 29 de junho, e pelos Decretos -Leis n.os 185/2009, de 12 de agosto, e 209/2012, de 19 de setembro, o Código do Registo Civil, aprovado pelo Decreto -Lei n.º 131/95, de 6 de junho, com as alterações introduzidas pelos Decretos--Leis n.os 36/97, de 31 de janeiro, 120/98, de 8 de maio, 375 -A/99, de 20 de setembro, 228/2001, de 20 de agosto, 273/2001, de 13 de outubro, 323/2001, de 17 de dezembro, 113/2002, de 20 de abril, 194/2003, de 23 de agosto, e 53/2004, de 18 de março, pela Lei n.º 29/2007, de 2 de agosto, pelo Decreto -Lei n.º 324/2007, de 28 de setembro, pela Lei n.º 61/2008, de 31 de outubro, pelos Decretos -Leis n.os 247 -B/2008, de 30 de dezembro, e 100/2009, de 11 de maio, pelas Leis n.os 29/2009, de 29 de junho, 103/2009, de 11 de setembro, e 7/2011, de 15 de março, e pelo Decreto -Lei n.º 209/2012, de 19 de setembro, e o Código de Processo Civil, aprovado pelo Decreto -Lei n.º 44 129, de 28 de dezembro de 1961, e alterado pelo Decreto -Lei n.º 47 690, de 11 de maio de 1967, pela Lei n.º 2140, de 14 de março de 1969, pelo Decreto -Lei n.º 323/70, de 11 de julho, pelas Portarias n.os 642/73, de 27 de setembro, e 439/74, de 10 de julho, pelos Decretos -Leis n.os 261/75, de 27 de maio, 165/76, de 1 de março, 201/76, de 19 de março, 366/76, de 15 de maio, 605/76, de 24 de julho, 738/76, de 16 de outubro, 368/77, de 3 de setembro, e 533/77, de 30 de dezembro, pela Lei n.º 21/78, de 3 de maio, pelos Decretos -Leis n.os 513 -X/79, de 27 de dezembro, 207/80, de 1 de julho, 457/80, de 10 de outubro, 224/82, de 8 de junho, e 400/82, de 23 de setembro, pela Lei n.º 3/83, de 26 de fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 128/83, de 12 de março, 242/85, de 9 de julho, 381 -A/85, de 28 de setembro, e 177/86, de 2 de julho, pela Lei n.º 31/86, de 29 de agosto, pelos Decretos -Leis n.os 92/88, de 17 de março, 321 -B/90, de 15 de outubro, 211/91, de 14 de junho, 132/93, de 23 de abril, 227/94, de 8 de setembro, 39/95, de 15 de fevereiro, e 329 -A/95, de 12 de dezembro, pela Lei n.º 6/96, de 29 de fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 180/96, de 25 de setembro, 125/98, de 12 de maio, 269/98, de 1 de setembro, e 315/98, de 20 de outubro, pela Lei n.º 3/99, de 13 de janeiro, pelos Decretos -Leis n.os 375 -A/99, de 20 de setembro, e 183/2000, de 10 de agosto, pela Lei n.º 30 -D/2000, de 20 de dezembro, pelos Decretos -Leis n.os 272/2001, de 13 de outubro, e 323/2001, de 17 de dezembro, pela Lei n.º 13/2002, de 19 de fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 38/2003, de 8 de março, 199/2003, de 10 de setembro, 324/2003, de 27 de dezembro, e 53/2004, de 18 de março, pela Lei n.º 6/2006, de 27 de fevereiro, pelo Decreto -Lei n.º 76 -A/2006, de 29 de março, pelas Leis n.os 14/2006, de 26 de abril, e 53 -A/2006, de 29 de dezembro, pelos Decretos -Leis n.os 8/2007, de 17 de janeiro, 303/2007, de 24 de agosto, 34/2008, de 26 de fevereiro, e 116/2008, de 4 de julho, pelas Leis n.os 52/2008, de 28 de agosto, e 61/2008, de 31 de outubro, pelo Decreto -Lei n.º 226/2008, de 20 de novembro, pela Lei n.º 29/2009, de 29 de junho, pelos Decretos -Leis n.os 35/2010, de 15 de abril, e 52/2011, de 13 de abril, e pelas Leis n.os 63/2011, de 14 de dezembro, 31/2012, de 14 de agosto, e 60/2012, de 9 de Novembro»

Está o PS condenado a ser Governo? E nós a ser governados pelo PS?

José Manuel Fernandes, Público, 26/04/2013

Portugal, para o bem e para o mal, é o Estado, e o Estado que temos confunde-se com o PS que temos. É tão socialista como ele
Os gaulistas foram, durante muito tempo, uma espécie de "donos" da V República francesa. A democracia cristã italiana comportou-se, durante décadas, como se a Itália lhe pertencesse. Esses partidos, que se confundiam com o regime, criavam a ideia da impossível alternância. Mesmo quando momentaneamente eram afastados do poder, havia a percepção de que isso era apenas um acidente de percurso.
Em Portugal é o PS que tem esse estatuto. Em parte por mérito próprio - pelo que fez em 1974/75 -, muito por demérito alheio, mas sobretudo porque o país parece ser o PS. Até hoje, até com António José Seguro, até neste tempo em que o PS é cada vez mais - como se viu em todo o processo que levou ao congresso deste fim-de-semana - um corpus aparelhístico, calculista e ressentido, Portugal não deixou de se sentir a si mesmo como o PS o imagina e moldou.
Houve um tempo em que se disse que o PSD era o "partido mais português de Portugal", mas mesmo que essa definição fosse em si mesma uma tristeza, era sobretudo fruto de uma ilusão. Correspondeu a esse período, curto, de optimismo pequeno-burguês e novo-rico que foi o do cavaquismo, quando se acreditou que o "empreendedorismo" chico-esperto nos tiraria do atraso secular, nos devolveria à Europa e traria amanhãs que cantam. Foi logro que ainda durou menos que o cavaquismo e morreu às mãos doces da "paixão pela educação".
O PS nunca tentou ser o partido do portuguezinho miúdo e desenrascado, sempre assumiu sem complexos a sua vocação de partido dos funcionários médios e medianos, da classe média "trabalhadora por contra de outrem", sendo esse "outrem", de preferência, o Estado. Boa parte do seu sucesso reside precisamente neste ponto. O PS é o partido do Estado e dos seus funcionários, é o partido das funções públicas e de todos os que se encostam ou dependem do Estado, e isto só por si é garantia de sucesso, ou não fosse o "partido Estado", tal como tem vindo a definir Medina Carreira, o maior partido português. É uma base eleitoral imensa.
A hegemonia socialista não deriva apenas da sua liderança na resistência à ofensiva comunista no período revolucionário - começou também na forma como redigiu a Constituição, aliando-se umas vezes à direita, outras vezes à esquerda, e tendo, nos últimos 36 anos, posto e disposto em todas as revisões constitucionais. O PS situou-se assim numa espécie de centro de gravidade do país político e institucional, razão por que nunca foi um partido reformista, apenas um partido situacionista, quando muito incremental.
Estar no centro de gravidade do país permite-lhe beneficiar de um estatuto único: o de, em última análise, ser ele, ou o que ele representa, que diz o que é ou não é aceitável na democracia portuguesa. Ao ponto de não o incomodar, pelo contrário, não conseguir formar alianças à esquerda, pois sabe que essa esquerda lhe dará força quando está na oposição, ao mesmo tempo que a direita lhe fará mimos quando estiver no poder.
O seu domínio é tão forte que é difícil imaginar um debate que não se realize nos seus termos e com a sua linguagem. Com um Governo PS a austeridade chama-se "rigor orçamental", os défices têm a virtude de serem "investimento", recentemente até se conseguiu que as mentiras passassem a ser designadas por inverdades. As dúvidas, mesmo as mais legítimas, sobre a honestidade dos seus dirigentes são "ataques de carácter", o jornalismo de investigação é um "jogo de lama" e os cortes no Estado social nunca passam de um esforço empenhado de "racionalização". Até o autoritarismo puro e duro passa a chamar-se "autoridade democrática".
Orwell explicou-nos, como nenhum outro, que dominar a linguagem é dominar a descrição da realidade, e que fazê-lo é controlar as mentes e os termos do debate político. As modernas "narrativas", que tanto gostam de invocar alguns dos mestres dos jogos de sombra do PS, não são mais do que a versão contemporânea e palatável do "newspeak" do romance 1984. Com uma novidade bem portuguesa: o PS nem precisa de se esforçar muito, pois o "newspeak" nacional, o "newspeak" dos debates na televisão, o "newspeak" do eterno "Prós e Prós" das nossas elites, é o "newspeak" socialista. E as excepções, mesmo quando episodicamente afloram à tona de água, apenas confirmam a regra. Os últimos dois anos são disso prova cabal - basta ver a forma como, este fim-de-semana, o país socialista entronizará um António José Seguro que, malgrado uma inabilidade homérica, conseguiu fazer dos seus temas os temas dessa coisa mole a que chamam "consenso".
Já o disse muitas vezes e volto a repeti-lo: por muito que se elogie o pragmatismo e a arte do equilíbrio, a política não faz sentido sem ideias. E a actual maioria começou a perder no momento em que não percebeu que não lhe chegava utilizar o estado de necessidade para reformar o país, tinha de apresentar outra ideia para o país. O mal começou a ser feito na campanha eleitoral, na qual o PSD, que se esperava estivesse ao ataque, esteve quase sempre à defesa por medo de se achar que era "liberal" - sendo que em Portugal nunca se é apenas liberal, é-se antes "neoliberal" ou "hiperliberal" - e que acabaria com o mitificado "Estado social". O mal continuou a ser feito quando, ingenuamente, Passos aceitou as pressões de Barroso e de Cavaco para não fazer um levantamento exaustivo do estado das contas públicas. Mas o principal mal foi feito por não se assumir que não bastava gerir bem e "cortar gorduras", antes que era necessário repensar as funções do Estado e a sua relação com os cidadãos. E o problema não foi apenas o da falta de coragem e de clarividência para assumir um discurso reformista - o problema foi que, para boa parte do Governo e da maioria, esse discurso nem fazia sentido. De uma forma ou outra, boa parte da actual maioria também adere à narrativa dominante, ao "newspeak" do nosso intocável regime.
Em condições normais, num país menos dominado pelo "pensamento único" estatista e socializante, a emergência económica teria, no mínimo, levado as elites a questionarem a bondade, até a justiça, dos actuais sistemas de protecção social, de saúde ou de educação. Foi isso que sucedeu há vinte anos nos países nórdicos e que levou a profundas alterações do seu modelo social e a uma redução do peso do Estado que permitiu à economia voltar a respirar e a crescer. Não foi isso que sucedeu em Portugal, onde o país e as elites se colocaram, sem hesitação, do lado do PS e da sua recusa de discutir o que quer que fosse mesmo perante a urgência dos quatro mil milhões.
É por tudo isso que o PS tem razões para festejar este fim-de-semana. Este país não vive sem o PS, este país não suporta a ideia de que tem de mudar, este país aceita placidamente que tudo pode continuar como está se se cortarem as PPP e se se diminuir o parque automóvel dos ministérios. No resto não se pode tocar. Ou, para ser mais exacto, só o PS pode tocar.
O grande triunfo do PS - e de Seguro - é que, ao fim de dois anos, o país continua a achar que não é necessário cortar nas funções do Estado e que basta "estimular a economia" para voltar a crescer e, assim, deixarmos de falar de "cortes". Como país pobre podíamos acreditar que era necessário mais esforço e mais sacrifício para sermos um pouco mais ricos, mas não. Preferimos acreditar que se gastarmos dinheiro emprestado nos tornamos, por milagre, mais ricos. É um sinal dos tempos. O tempo áureo das ideias socialistas foi quando se defendia que indo buscar aos ricos se enriqueciam os pobres; agora, quando os nossos "ricos" mal emergem da classe média, o grande projecto socialista é contrair e manter dívidas pois, como um dia disse Mário Soares, o dinheiro "aparece sempre". Já não nos apareceu por três vezes, mas ainda não aprendemos. Há razões para festejar em Santa Maria da Feira.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Eu digo fé. Tu dizes...Sinto que devo muito ao cristianismo

O Laboratório da fé convidou algumas pessoas, crentes ou não crentes, para escreverem um texto sobre a fé. O resultado é apresentado, mensalmente, nesta rubrica intitulada: «Eu digo fé. Tu dizes...». 
O texto que se segue é da autoria do jornalista José Manuel Fernandes.
http://www.laboratoriodafe.net/ 22-04-2013
Nasci, na década de 1950, numa família católica da classe média e, como acontecia nessa época com quase todas as crianças, fui baptizado e segui a catequese até à primeira comunhão, uma cerimónia festiva que vivi intensamente. Continuei depois muito ligado à Igreja da minha paróquia, a do Sagrado Coração de Jesus em Lisboa, beneficiando do activismo de um pároco precocemente desaparecido – o padre Aparício – e da excitação da construção e inauguração de um novo templo, para mais uma igreja arquitectonicamente arrojada, filha do talento de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Continuei assim ligado a grupos que funcionavam junto da paróquia, cheguei a ajudar à missa e fiz, quando chegou a altura, o Crisma. Até que a minha vida mudou.
Quando tinha 15 anos e andava no Liceu Pedro Nunes, em Outubro de 1972, a polícia política da ditadura assassinou um estudante, Ribeiro Santos. Esse evento foi o detonador para o meu envolvimento no movimento associativo dos estudantes e, depois, no activismo político. Fi-lo, como era comum na época, numa organização radical, de inspiração marxista-leninista. De facto, no Portugal de Salazar e Caetano não era difícil que a revolta juvenil desembocasse no radicalismo político. Foi assim que me tornei comunista, mas numa sua versão mais radical – o maoismo –, tal como foi assim que, durante alguns anos (poucos, felizmente) vivi para a revolução – fui, como então se dizia, um "soldado da revolução".
Foi uma adesão total e, por isso, um mergulho num universo dominado por uma ilusão falsamente redentora e totalmente falsa – a ilusão comunista. Mas que era absoluta e impunha uma visão do mundo que se tinha por indiscutível, "científica" e, por isso, materialista. Deus ou a Fé Cristã não tinham lugar nela – não só a religião era vista como o "ópio do povo", como o ateísmo nos surgia como uma espécie de dogma. Foi uma experiência que descrevi numa troca de cartas com D. Manuel Clemente, Bispo do Porto (Diálogo em Tempos de Escombros, Pedra da Lua, 2010): "Bebi o espírito do tempo e, quase sem transição, tornei-me materialista lendo as vulgatas por onde então se estudava o 'materialismo dialéctico' e o 'materialismo histórico'. Esses textos não permitiam que se ficasse no meio da estrada, não deixavam qualquer espaço para a existência de um Ser que não fosse matéria. Não só me tornei ateu, e ateu militante, como tinha dificuldade em entender que aquela explicação do mundo que me parecia evidentíssima e completa não o fosse já para todos."
Como é que isso sucedeu? Fazendo um percurso em que o meu interesse pela Ciência desempenhou um papel importante. Como marxista e materialista, eu achava que a ciência ou já explicava tudo, ou iria explicar, e que não havia espaço senão para a matéria e para as suas forças no nosso Universo. Hoje sei que há graus de incerteza que a Ciência nunca suprirá e que basta isso para não podermos demonstrar cientificamente que Deus não existe. Ou que existe. Foi assim que me tornei agnóstico, aquele que não sabe, o que não tem Fé mas também não se opõe aos que têm Fé. Fi-lo por dúvida genuína e não por conveniência, como hoje está na moda. Como escrevi nessa mesma conversa epistolar com D. Manuel, "por vezes, sobretudo em alguns momentos mais intensos, tenho pena de não ter Fé, mas sinto que ter ou ter Fé não é uma decisão racional", ou seja, que "não posso decidir 'acreditar'".
Muitos ateus militantes não aceitam esta posição de "não saber" – e a partir daqui retomo o essencial do que escrevi num livro recente, autobiográfico, Era Uma Vez a Revolução (Aletheia, 2012).
É essa a posição de Richard Dawkins, o autor de A Desilusão de Deus, que recentemente me disse numa entrevista que só lhe interessava saber que "não é possível provar que Deus existe", que tentar fazê-lo seria uma perda de tempo como a de procurar demonstrar a existência de fadas, pelo que não conseguia "encontrar uma situação em que sentisse que existir Deus era necessário". Dawkins, mesmo sendo capaz de admitir que as religiões podem ter alguma utilidade – "considero-me agnóstico quanto às religiões" –, entende que "a Fé é a grande desculpa para se escapar à necessidade de pensar e de avaliar a evidência factual".
A forma como algumas religiões foram instrumentalizadas ao longo da História para os piores fins poder-me-ia levar a aceitar esta argumentação. Afinal ela casa a mesma evidência científica que eu conheço com uma percepção da evolução da Humanidade que associa religião a obscurantismo. Mas há outro ponto de vista que merece ser considerado: aquele que olha para as diferentes religiões e as vê como formas de assegurar o conjunto de valores e regras de comportamento que permitem às sociedades manter-se coesas. Antes de existirem leis formuladas pelos Estados, havia já regras que as pessoas seguiam voluntariamente ao aderirem a uma religião, regras sem as quais é muito difícil imaginar comunidades humanas estruturadas. Como um dia disse Irving Kristol, "as pessoas precisam de religião. É um veículo para que exista uma tradição moral. Trata-se de um papel fundamental que nada pode substituir".
É de resto muito interessante ler as passagens sobre religião do pequeno ensaio autobiográfico que Kristol escreveu para Neo-Conservatism, The Autobiography of na Idea. Nela ele faz duas distinções importantes. Uma é sobre acreditar ou não na existência de Deus, uma formulação que diz não ter sentido porque o conceito de "existência" não é um conceito divino. Por isso, ele acha que uma pessoa não "acredita" em Deus, antes tem Fé em Deus. "A relação com Deus, escreve ele, não é racionalista", uma formulação não muito diferente da que utilizei nesses meus diálogos com D. Manuel Clemente. "É por isso que as crianças são ensinadas a rezar, em vez de serem ensinadas nas 'provas' da existência de Deus", conclui.
A outra é sobre a importância que os teólogos cristãos dão, na sua interpretação da Bíblia, ao facto de "a natureza humana colocar inerentes limitações ao destino humano". O "pecado original" é, no fundo, uma forma de nos alertar para os nossos limites, limites que decorrem da nossa natureza profunda. Kristol recorda que esta doutrina já chocava com a sua crença num socialismo utópico no curto período juvenil em que foi trostkista (movimento que deixou aos 22 anos). No meu caso, foi a descrença na visão optimista da natureza humana que tinha quando era mais novo que também contribuiu para a minha descrença nas utopias socialistas e progressistas. Essa descrença também me fez reaproximar da religião – mas não de voltar a "acreditar".
Mas há uma outra componente, tão ou mais importante, uma componente moral e cultural. Aqui há uns anos, em conversa com um amigo espanhol muito de esquerda e que nunca perdia uma ocasião para criticar o protestantismo, ele virou-se para mim e disse-me: "Deixa-te de conversas. Nós, os ibéricos, somos todos católicos. Podemos dizer que somos ateus, mas somos católicos. Foi assim que fomos educados". Essa frase, vinda de quem vinha, fez-me pensar. E não me custou a admitir que, pelo menos culturalmente, somos todos católicos. É essa a matriz da sociedade, são essas as referências dos valores que impregnam tanto o nosso quotidiano como o nosso sistema legal.
Esta admissão de um "catolicismo cultural" é, contudo, insuficiente e, a meu ver, pobre. Quando penso naquilo que sou, e que de alguma forma sempre fui, não me posso dissociar dos valores morais que eram e são os da família onde cresci e das comunidades que integrei. E esses valores, que sempre procurei que dessem um sentido moral à minha vida, são valores do Cristianismo. Ao contrário do que admito possa ter acontecido com outras pessoas da minha geração ou mais velhas, nunca vivi o catolicismo como uma doutrina castradora. Os deveres rigorosos que impunha e impõe nunca deixaram de ser os meus, pois nunca acreditei na ausência de referências e sempre valorizei o dever de se ser exigente, sobretudo quando se começa por se ser exigente consigo mesmo. A preocupação com o outro que encontrei no Cristianismo nunca deixou de estar presente na minha vida, uma preocupação que não é apenas com um "outro" abstracto e longínquo – o pobre, o proletário –, antes uma preocupação que começa com as dificuldades concretas dos que vivem a nosso lado. O sentido da compaixão, a preocupação com a lealdade, a noção de que somos seres limitados e imperfeitos e que isso nos exige humildade e resiliência, o princípio da tolerância sem abdicar daquilo em que se acredita e por que se batalha, todos esses valores que me foram transmitidos pela educação católica sempre me deram balizas morais de acordo com as quais procurei e procuro julgar os meus actos, mesmo quando às vezes tenho menos sucesso. É por isso que sinto que devo muito ao Cristianismo, mesmo não tendo Fé.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O Mosteiro Mater Ecclesia, que receberá Bento XVI em breve

Cidade do Vaticano (RV) – Estes últimos dias de abril vêem a finalização das reformas do Mosteiro Mater Ecclesia, que deverá acolher um personagem ilustre nos próximos dias, Bento XVI. É um mosteiro único na cristandade, pela sua localização, carisma e breve, mas antiga história.

O Mosteiro Mater Eclesia localiza-se quase no centro do minúsculo território vaticano, na metade da colina cuja encosta dá para a Basílica, entre a atual Via do Observatório e a antiga muralha leonina. Na sua frente, um exemplar de Corticeira-do-banhado (Erythrina crista galli), árvore comum no Brasil, Argentina e Paraguai.

Era 13 de maio de 1994, nascia a comunidade feminina de vida contemplativa, que assumia uma missão nova, mas ao mesmo tempo antiga. De uma forma inédita, o Mosteiro Mater Ecclesiae, insere-se na longa tradição das mulheres que, desde o Calvário, apoiam, com oração, inicialmente o caminho de Jesus, e depois, os sucessores de Pedro.

De 1994 a 2012, sucederam-se no mosteiro quatro entre as mais conhecidas ordens de clausura: Clarissas, Carmelitas descalças, Beneditinas e Visitandinas. Mesmo que cada uma tenha levado seu próprio carisma e tradição, o fizeram observando as regras e constituições na dependência direta do Papa.

Nos Estatutos de fundação do Mosteiro, desejado por João Paulo II, lê-se que "o objetivo específico desta comunidade é o ministério da oração, da adoração, do louvor e da reparação. Para ser assim, se reza no silêncio e na solidão em apoio ao Santo Padre".

Nos seus 18 anos de vida, resplandeceu no mosteiro a autêntica catolicidade, a riqueza e a diversidade da Igreja. Cardeais, Bispos, religiosos e leigos visitavam cotidianamente o local. Em 2008, o Papa Ratzinger foi até lá. A Priora Beneditina Madre Maria Sofia Cichetti, contou ao L'Osservatore Romano que ele pediu: "com muita humildade e com sofrimento paterno, de rezar em particular por ele, porque, afirmou 'a cruz do Papado às vezes é muito pesada e sozinho não consigo carregá-la' ".

Cinco anos após Bento XVI decidiu assumir diretamente aquela 'missão específica'. E daquele mesmo mosteiro onde tanto se rezou por ele, será ele a rezar pelo seu sucessor e por toda a Igreja.

Os escurinhos e os riquinhos

Público, 24/04/2013

No PÚBLICO de 15 de Abril é de novo referido o caso de uma pobre mãe, Liliana Melo, a quem a Segurança Social, de uma assentada, retirou sete dos seus dez filhos. Pobre e escurinha, como agora se diz. Outro galo cantaria se não fosse pobre, nem escurinha.
Há que admitir que o Estado, em casos extremos, tenha que suprir a ausência ou a ineficiência da família. Se os progenitores não prestam à prole a assistência que lhe é devida, é necessário que alguém o faça, porque o bem dos filhos tem prioridade sobre as expectativas dos pais. Se estes não existem, ou não cumprem minimamente com as suas obrigações parentais, de que são os primeiros e principais titulares, outros terão que assumir essa responsabilidade.
Mas a solução a aplicar, em primeiro lugar, não pode ser a destruição da família natural, por mais disfuncional que seja, porque nenhuma instituição a pode suprir com vantagem. Por isso, urge ajudar os agregados familiares em dificuldades, para que superem as suas limitações. O que Liliana Melo precisava era de alguém que a ajudasse a governar a casa e a educar esses seus sete filhos e não quem lhos tirasse. O que aquelas crianças queriam era alguém que suprisse as carências da sua mãe, que os amava e queria com verdadeiro amor, e não quem, separando-os dela e entre si, destruísse, talvez para sempre, a sua família.
Se Liliana Melo não fosse natural de um PALOP, mas da Lapa ou da Foz, não vivesse num bairro social, mas num condomínio de luxo, é certo e sabido que não haveria Segurança Social que se atrevesse a tirar-lhe os sete filhos. Pelos vistos, a disfuncionalidade familiar é um privilégio dos pobres.
Mas não há famílias de elevados rendimentos económicos igualmente desestruturadas?! Não há meninos ricos órfãos de pais vivos?! Alguns desses "filhos de algo", obrigados à transumância - ora na casa materna, ora na do pai - não carecerão também de apoio social?! Não poderão ser também vítimas inocentes de situações familiares que prejudicam o seu são desenvolvimento?! Por que razão então a Segurança Social, quando são famílias pobrezinhas e escurinhas, usa e abusa do seu imenso poder mas, quando são famílias riquinhas e branquinhas, abstém-se de agir?!
A questão não é nova. Já G. K. Chesterton denunciara algo semelhante, na Grã-Bretanha de princípios do século passado: "Certos doutores e outras pessoas a quem a lei moderna autoriza a ditar leis aos seus concidadãos mais miseráveis, impuseram o cabelo curto a todas as rapariguinhas. A todas as rapariguinhas pobres, quero eu dizer. Muitos hábitos pouco saudáveis são vulgares nas meninas ricas, mas não será tão cedo que os doutores procurarão eliminá-los pela força". E acrescentava, com ousada veemência: "Quando uma crapulosa tirania espezinha homens na lama, [...] o procedimento científico é evidente. Seria demorado e trabalhoso cortar a cabeça aos tiranos, é mais fácil cortar o cabelo aos escravos".
Não duvido das boas intenções - de que, por sinal, está o inferno cheio - da Segurança Social, mas questiono as suas práticas, que parecem ser profundamente injustas para com os mais carenciados, os mais necessitados do seu apoio e também os menos capazes de fazer frente ao seu por vezes despótico poder.
Chesterton ameaçava: "Com a ruiva cabeleira de uma garota da rua, lançarei fogo a toda a civilização moderna". Pelo amor de uma mãe pelos seus filhos e destes pela sua mãe, pela unidade de uma família, qualquer que seja a sua cor, credo ou condição económica, eu também.

Ser feliz

Uma mentira, por mais que se proclame e repita, não passa a ser verdade. Uma das mais frequentes e destruidoras é esta: Tenho direito a ser feliz! E esta mentira instala-se na cabeça de imensa gente a ponto de justificar tanto abandono e sofrimento, tanto acto egoísta. Tudo por um prazer, quase sempre efémero, tornado direito. Com isto avança um mundo doente e em ruptura. Ser feliz não é direito, mas dever! Tenho o dever de procurar a felicidade e só me aproximarei dela fazendo felizes os outros! Mas atenção, felicidade não é ausência de sofrimento.
ONDE HÁ CRISE, HÁ ESPERANÇA
Vasco P. Magalhães, sj
Edições Tenacitas
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terça-feira, 23 de abril de 2013

Natureza

Só o sobrenatural tem uma visão saudável da Natureza. A essência do panteísmo, evolucionismo e das religiões cósmicas modernas está nesta proposição: que a Natureza é nossa mãe. Infelizmente, se olharmos para a Natureza como mãe, descobriremos que ela é uma madrasta. O ponto principal do cristianismo era este: a Natureza não é nossa mãe: a Natureza é nossa irmã. Podemos ser orgulhosos da sua beleza, uma vez que temos o mesmo pai; mas ela não tem autoridade sobre nós; temos que a admirar, mas não que a imitar. Isto dá ao prazer tipicamente cristão nesta terra um estranho toque de leveza que é quase frivolidade. A Natureza era uma mãe solene para os adoradores de Isis e Cibeles. A Natureza era uma mãe solene para Woodsworth ou para Emerson. Mas a Natureza não é solene para Francisco de Assis ou para George Herbert. Para S. Francisco, A Natureza é irmã, e mesmo uma irmã mais nova: uma pequena, irmã bailarina, para nos rirmos dela e para a amarmos"
G. K. Chesterton: Ortodoxia
Ontem foi o dia da Terra, uma iniciativa com mais de 40 anos, iniciada nos Estados Unidos com o nome de Earth Day. Como todos os "dias de" procura lembrar as ameaças a que a Terra está sujeita. Escrever Terra com letra grande tem o risco panteísta de endeusar a Terra. Escolhi, por isso, esta precisa observação de Chesterton, que põe as coisas no seu devido lugar.
Também no domingo foi o dia da Torre dos Clérigos que faz este anos 250 anos. Uma idade "crescda" do ex-libris da cidade onde nasci e que, por isso, assinalo com orgulho bairrista.
A ler:
Um americano em Lisboa João Carlos Espada                explica uma hipótese que pode ser garantia de sobrevivência da Europa: a diversidade
Dar e receber Pe. Vasco Pinto de Magalhães                 porque é que é dando que se recebe
A segunda mentira João César das Neves                       Enquanto a primeira mentira é a ilusão de riqueza em que vivemos, descreve-se aqui a segunda

Hoje ainda pode  assistir á sessão A Fé: o fundamento da Esperança, 21:00 Filipa Ribeiro da Cunha

Um abraço do
Pedro Aguiar Pinto