domingo, 31 de março de 2013

Manhã da Resurreição

Os discípulos Pedro e João correm para o Sepulcro na manhã da Ressurreição
Eugène Brunand (1898)
óleo sobre tela (83cm x 135 cm)
Musée d'Orsay 
Paris

Homilia do Domingo de Páscoa

Porque procurais entre os mortos aquele que está vivo?


Um abraço do
Pedro Aguiar Pinto

O misterioso caso do sepulcro vazio

Gonçalo Portocarrero de Almada, ionline 30 Mar 2013
O mais famoso enigma policial mundial
Hércule Poirot alisou o bigode e fez cara de caso e, valha a redundância, o caso não era para menos. Sentados à sua volta estavam, entre outros, os melhores detectives de todos os tempos: Sherlock Holmes, na companhia do indefectível Dr. Watson, Miss Marple, Arsène Lupin e ainda – pasme-se! – o Padre Brown. Poirot levantou-se, pigarreou e disse:
- Madame, messieurs. Estamos aqui para resolver o maior enigma da história da humanidade. O único caso que nenhum detective, até hoje, conseguiu resolver pela razão e que só as célulazinhas cinzentas de todos nós poderão solucionar: o misterioso caso do sepulcro vazio!
Feita esta introdução, naquele tom cerimonioso e um pouco pedante que era próprio do detective belga, o inspector Japp deu a conhecer o caso: um homem, de pouco mais de trinta anos, fora morto e sepultado, tendo sido depois colocados guardas à entrada do sepulcro. Ao terceiro dia, sem que ninguém tivesse violado a sepultura, o corpo desaparecera misteriosamente.
Sherlock Holmes, que não se separava nunca da sua lupa, garantiu aos presentes que ninguém tinha entrado no sepulcro, durante o tempo decorrido entre a morte e o desaparecimento do cadáver, porque não havia quaisquer pegadas. O Dr. Watson, por sua vez, asseverou que a certidão de óbito era clara e conclusiva quanto à morte, provocada por colapso cardíaco fulminante, depois de longa agonia.
Teria o corpo sido roubado pelos familiares ou amigos do defunto? – alvitrou Arsène Lupin. Mas a hipótese não tinha cabimento, uma vez que foram eles próprios que descobriram a sua ausência. Outros seus amigos estavam tão confiantes de que lá estava o cadáver, que tinham regressado à sua terra de origem, supondo tudo definitivamente acabado. Mesmo que alguns quisessem roubar o corpo, não teriam podido faze-lo, dada a existência de guardas armados, impedindo o acesso.
E se tivessem sido os próprios soldados a retirar o corpo? Arriscavam a própria vida e não ganhavam nada com isso – acrescentou o Capitão Hastings, o fiel colaborador de Poirot. Aliás, foram os próprios guardas que, para não serem responsabilizados pelo desaparecimento, puseram a correr o rumor de que, enquanto dormiam, tinham sido os amigos do morto que tinham roubado o cadáver. O que, como é óbvio, não podiam saber se, efectivamente, estavam a dormir!
- Elementar, meu caro Hastings! – disse Sherlock Holmes.
- E a senhora, Miss Marple, que tem a dizer? – perguntou Hércule Poirot.
- Bem, há um aspecto que ainda não foi referido mas que não escapou à minha intuição feminina. No sepulcro, depois de desaparecido o cadáver, encontrou-se no chão a mortalha, que estava vazia, por assim dizer. Parecia como se o corpo dela se tivesse libertado, sem que ninguém o tivesse tirado de lá! Estranho, não é?!
- Sem dúvida! A propósito do sudário – acrescentou Poirot – é curioso que nele tenha ficado gravada uma imagem, apenas esboçada, da vítima.
- Não foi pintada – acrescentou Japp – mas impressa, como se um objecto incandescente tivesse atravessado o pano. Dir-se-ia uma explosão de luz e de energia extraordinária …
No canto da sala, o Padre Brown parecia alheado da discussão. Desgranara já as contas do rosário, que levava sempre no bolso da sotaina puída. A bem dizer, não sabia porque estava ali, entre os maiores detectives mundiais, ele que era apenas um pobre pároco de aldeia. Passara nesse dia várias horas a confessar e, por isso, estava cansado. Distraidamente abriu o velho breviário, recheado de pagelas, e leu, como que num murmúrio: «Porque procurais entre os mortos Aquele que está vivo?» (Lc 24, 5). E um raio de alegria e de esperança iluminou o mundo.
Santa Páscoa!

sábado, 30 de março de 2013

Homília do Santo Padre Francisco na vigília pascal

HOMILIA DO SANTO PADRE FRANCISCO
Basílica Vaticana
Sábado Santo, 30 de março de 2013
Amados irmãos e irmãs!
1. No Evangelho desta noite luminosa da Vigília Pascal, encontramos em primeiro lugar as mulheres que vão ao sepulcro de Jesus levando perfumes para ungir o corpo d'Ele (cf. Lc 24, 1-3). Vão cumprir um gesto de piedade, de afeto, de amor, um gesto tradicionalmente feito a um ente querido falecido, como fazemos nós também. Elas tinham seguido Jesus, ouviram-No, sentiram-se compreendidas na sua dignidade e acompanharam-No até ao fim no Calvário e ao momento da descida do seu corpo da cruz. Podemos imaginar os sentimentos delas enquanto caminham para o túmulo: tanta tristeza, tanta pena porque Jesus as deixara; morreu, a sua história terminou. Agora se tornava à vida que levavam antes. Contudo, nas mulheres, continuava o amor, e foi o amor por Jesus que as impelira a irem ao sepulcro. Mas, chegadas lá, verificam algo totalmente inesperado, algo de novo que lhes transtorna o coração e os seus programas e subverterá a sua vida: vêem a pedra removida do sepulcro, aproximam-se e não encontram o corpo do Senhor. O caso deixa-as perplexas, hesitantes, cheias de interrogações: «Que aconteceu?», «Que sentido tem tudo isto?» (cf. Lc 24, 4). Porventura não se dá o mesmo também conosco, quando acontece qualquer coisa de verdadeiramente novo na cadência diária das coisas? Paramos, não entendemos, não sabemos como enfrentá-la. Frequentemente mete-nos medo a novidade, incluindo a novidade que Deus nos traz, a novidade que Deus nos pede. Fazemos como os apóstolos, no Evangelho: muitas vezes preferimos manter as nossas seguranças, parar junto de um túmulo com o pensamento num defunto que, no fim de contas, vive só na memória da história, como as grandes figuras do passado. Tememos as surpresas de Deus. Queridos irmãos e irmãs, na nossa vida, temos medo das surpresas de Deus! Ele não cessa de nos surpreender! O Senhor é assim.
Irmãos e irmãs, não nos fechemos à novidade que Deus quer trazer à nossa vida! Muitas vezes sucede que nos sentimos cansados, desiludidos, tristes, sentimos o peso dos nossos pecados, pensamos que não conseguimos? Não nos fechemos em nós mesmos, não percamos a confiança, não nos demos jamais por vencidos: não há situações que Deus não possa mudar; não há pecado que não possa perdoar, se nos abrirmos a Ele.
2. Mas voltemos ao Evangelho, às mulheres, para vermos mais um ponto. Elas encontram o túmulo vazio, o corpo de Jesus não está lá… Algo de novo acontecera, mas ainda nada de claro resulta de tudo aquilo: levanta questões, deixa perplexos, sem oferecer uma resposta. E eis que aparecem dois homens em trajes resplandecentes, dizendo: «Porque buscais o Vivente entre os mortos? Não está aqui; ressuscitou!» (Lc 24, 5-6). E aquilo que começara como um simples gesto, certamente cumprido por amor – ir ao sepulcro –, transforma-se em acontecimento, e num acontecimento tal que muda verdadeiramente a vida. Nada mais permanece como antes, e não só na vida daquelas mulheres mas também na nossa vida e na nossa história da humanidade. Jesus não é um morto, ressuscitou, é o Vivente! Não regressou simplesmente à vida, mas é a própria vida, porque é o Filho de Deus, que é o Vivente (cf. Nm 14, 21-28; Dt 5, 26, Js 3, 10). Jesus já não está no passado, mas vive no presente e lança-Se para o futuro; Jesus é o «hoje» eterno de Deus. Assim se apresenta a novidade de Deus diante dos olhos das mulheres, dos discípulos, de todos nós: a vitória sobre o pecado, sobre o mal, sobre a morte, sobre tudo o que oprime a vida e lhe dá um rosto menos humano. E isto é uma mensagem dirigida a mim, a ti, amada irmã, a ti amado irmão. Quantas vezes precisamos que o Amor nos diga: Porque buscais o Vivente entre os mortos? Os problemas, as preocupações de todos os dias tendem a fechar-nos em nós mesmos, na tristeza, na amargura… e aí está a morte. Não procuremos aí o Vivente! Aceita então que Jesus Ressuscitado entre na tua vida, acolhe-O como amigo, com confiança: Ele é a vida! Se até agora estiveste longe d'Ele, basta que faças um pequeno passo e Ele te acolherá de braços abertos. Se és indiferente, aceita arriscar: não ficarás desiludido. Se te parece difícil segui-Lo, não tenhas medo, entrega-te a Ele, podes estar seguro de que Ele está perto de ti, está contigo e dar-te-á a paz que procuras e a força para viver como Ele quer.
3. Há ainda um último elemento, simples, que quero sublinhar no Evangelho desta luminosa Vigília Pascal. As mulheres se encontram com a novidade de Deus: Jesus ressuscitou, é o Vivente! Mas, à vista do túmulo vazio e dos dois homens em trajes resplandecentes, a primeira reação que têm é de medo: «amedrontadas – observa Lucas –, voltaram o rosto para o chão», não tinham a coragem sequer de olhar. Mas, quando ouvem o anúncio da Ressurreição, acolhem-no com fé. E os dois homens em trajes resplandecentes introduzem um verbo fundamental: lembrai. «Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galiléia (...) Recordaram-se então das suas palavras» (Lc 24, 6.8). Este é o convite a fazer memória do encontro com Jesus, das suas palavras, dos seus gestos, da sua vida; e é precisamente este recordar amorosamente a experiência com o Mestre que faz as mulheres superarem todo o medo e levarem o anúncio da Ressurreição aos Apóstolos e a todos os restantes (cf. Lc 24, 9). Fazer memória daquilo que Deus fez e continua a fazer por mim, por nós, fazer memória do caminho percorrido; e isto abre de par em par o coração à esperança para o futuro. Aprendamos a fazer memória daquilo que Deus fez na nossa vida.
Nesta Noite de luz, invocando a intercessão da Virgem Maria, que guardava todos os acontecimentos no seu coração (cf. Lc 2, 19.51), peçamos ao Senhor que nos torne participantes da sua Ressurreição: que nos abra à sua novidade que transforma, às surpresas de Deus, que são tão belas; que nos torne homens e mulheres capazes de fazer memória daquilo que Ele opera na nossa história pessoal e na do mundo; que nos torne capazes de O percebermos como o Vivente, vivo e operante no meio de nós; que nos ensine, queridos irmãos e irmãs, cada dia a não procurarmos entre os mortos Aquele que está vivo. Assim seja.
© Copyright 2013 - Libreria Editrice Vaticana 

Homilia da Vigília Pascal

O blog do Povo faz hoje 5 anos


Faz hoje 5 anos que o Povo passou a residir também em forma de blog. Este post comemorativo lembra o que eram as nossas preocupações há 5 anos – o dossier quente era a facilitação do divórcio por via de um projecto-lei do governo Sócrates. Já na altura estávamos adormecidos. O regresso à memória destes tempos ainda só fala dos prejuízos materiais. Será difícil trazer à memória os prejuízos morais. Na escuridão de Sábado Santo tenderemos a dizer que os "fracturantes avanços civilizacionais" – aborto, educação sexual nas escolas, divórcio na hora, casamento entre pessoas do mesmo sexo, … - dificilmente serão recuperados. Porém, este é também o dia em que nasce a esperança.
Pedro Aguiar Pinto

Sábado Santo: vivendo no limiar

29 de Março de 2013 Bruce Epperly

Sábado Santo é um dia em que nada acontece, nada é garantido e nada se espera. É o dia em que Jesus está morto no túmulo, é um dia enquadrado pela angústia de Sexta-Feira Santa e a celebração da Páscoa. Sábado Santo é um dia entre, um tempo entre o desespero e a esperança quer para os primeiros discípulos de Jesus quer para nós.
É claro que nenhum dos discípulos de Jesus esperava a ressurreição. Talvez imaginassem uma restauração divina no fim da história, mas não no meio do tempo. Jesus estava morto e teriam que esperar a revelação do Reino de Deus para o encontrarem outra vez. Sábado Santo é o abismo: é a experiência da negação, se o nada pode ser experimentado, o abismo sem imagens do não conhecer, o vale de lágrimas sem esperança de cura.
No Sábado Santo não há garantias de que a vida será melhor, que a doença será curadas, que a criança perdida volte a casa, que a esperança regresse e que Deus seja real outra vez. Nós precisamos de um milagre – uma ressurreição – mas não podemos forçá-la, garanti-la ou assumi-la. A ressurreição acontece, como apaixonar-se ou aliviar o luto, quando menos se espera ou quando se acha que o amor passou ao largo. Mas quando acontece, descobrimos que a nossa taça está cheia mesmo que tenhamos ainda que pernoitar no vale das sombras.
É isto que quer dizer viver num tempo limiar, no deserto sem bússola, mapa ou caminho.
Sem Sexta-feira Santa, a Páscoa torna-se superficial e predizível. Embora seja difícil, devemos procurar colocarmo-nos no lugar dos primeiros discípulos de Jesus. Devemos chegar à Páscoa sem esperança ou, ao menos, agnósticos acerca da divina providência e da sua possibilidade de mudar as nossas vidas. O Sábado Santo é um testemunho de esperança e um convite a persistir – tal como o apóstolo Tomé – apesar de todas as dúvidas. Ao fim e ao cabo, Tomé é um herói da fé: ele foi o único entre os primeiros seguidores que falhou a ressurreição. Quando regressou à companhia dos amigos ouviu histórias fantasiosas sobre a ressurreição; mas o Cristo vivo não lhe apareceu. Agnosticismo era a resposta apropriada; mas Tomé faz uma coisa espantosa, fica com os extáticos seguidores de Jesus, embora não seja capaz de partilhar a sua alegria. Ele viveu no abismo do agnosticismo, esperando contra a esperança um encontro com Jesus. Quando Jesus apareceu, Tomé transforma-se. Ele torna-se o apóstolo peregrino, cuja fé o leva à Índia onde transmitiu a boa nova a sacerdotes hindus e monges budistas. Talvez, só quem tivesse passado pela experiência psicológica e espiritual de Sábado Santo pudesse lidar com a complexidade das tradições de fé da Índia.
Abraçar o Sábado Santo é um acto de fé. Na espiritualidade liminar, confiamos em Deus apesar do silêncio, da incerteza, da oração não respondida, do falhanço, do envelhecimento e da morte. Acreditamos que há uma Presença subtil em acção – semelhante à germinação das sementes na terra negra – apesar da nossa incapacidade de O experimentarmos. O Sábado Santo lembra-nos que a jornada da fé envolve momentos de alegria e de intimidade e também momentos de ausência aparente e silêncio. A ressurreição é a nossa esperança, agora, mesmo quando não a podemos esperar ou quando não conseguimos imaginar de que modo Deus triunfará assegurando que podemos responder à nossa debilidade. No suspense do liminar, esperamos poder fazer a experiência de Deus outra vez e com ela, a coragem de sermos seus cooperadores na salvação do mundo
(tradução e adaptação de Pedro Aguiar Pinto)

O primeiro post do Povo há 5 anos

O projecto-lei que o PS se prepara para apresentar, "simplificando" o processo de divórcio foi alvo nos últimos dias de vários comentários.
Parece-me útil estarmos preparados para mais este debate que irá agitar a sociedade portuguesa (se não estivermos já todos adormecidos).
Seleccionei vários artigos que me pareceram úteis, mesmo que não sendo totalmente coincidente com os pontos de vista de alguns.
De modo a não inundar a vossa caixa de correio, aproveitei a circunstância, também favorecida por um fim de semana mais sossegado, para dar início a uma ideia que já bulia há muito tempo.
Criei um blog http://o-povo.blogspot.com/ onde as mensagens do Povo também passarão a residir; além disso, poderei, tal como faço agora, colocar lá outros textos ou artigos que poderei ou não sinalizar no Povo. O tempo dirá como tudo irá acontecer.
Para já, sobre esta questão, são estes os artigos que poderão ler carregando nas respectivas hiperligações:

O novo casamento Vasco Pulido Valente no Público de 28 de Março de 2008
Casamentos Ana Margarida Craveiro no blog Atlântico
Acabe-se com o casamento! E com os contratos  Nuno Pombo no blog Incontinentes Verbais
Vícios e virtudes João Miranda no DN de 29 de Março de 2008
Ainda mais divórcio um artigo gentilmente enviado por Pedro Vaz Patto
Divórcio: Igreja está contra "sentimentalização do amor" notícia na página do Bloco de Esquerda, www.esquerda.net em 20080328

Espero que esta nova modalidade possa ser útil a todos os que formam o Povo

Obrigado pela vossa companhia
Pedro Aguiar Pinto

P.S. (post-scriptum) – Abaixo o artigo do Diário de Notícias que dá a notícia da iniciativa do PS e das reacções de membros da Igreja Católica


Divórcio abre nova guerra entre maioria PS e Igreja, Diário de Notícias, 20080328

Bispo porta-voz da hierarquia fala em projectos "facilitistas"
Está à vista um novo conflito entre a Igreja Católica e a maioria socialista. Depois da despenalização do aborto, agora será a vez do divórcio.
Pressionado pelo Bloco de Esquerda, o PS prepara-se para apresentar um projecto-lei que "liberaliza" o divórcio litigioso, reduzindo para um ano (ou menos) o período de separação de facto para um divórcio ser decretado, mesmo quando um dos cônjuges não o autoriza.
Questionado pelo DN sobre as iniciativas legislativas do Bloco de Esquerda e do PS, o bispo D. Carlos Azevedo, porta-voz da conferência episcopal, falou em "facilitismo".
"Não se pode considerar o facilitismo seja algo construtor de uma sociedade melhor", prosseguiu o bispo. "O facilitismo não ajuda as pessoas. E a lei tem uma função pedagógica nisso, ajuda as pessoas a pensarem bem antes de darem o primeiro passo."
Segundo o porta-voz da conferência episcopal, o "matrimónio é uma instituição da sociedade", "já existia antes da Igreja". Portanto, o "Estado tem obrigações para com essa instituição", ou seja, "deve defender a união entre as pessoas". "O serviço da fidelidade tem uma dimensão social - por exemplo, na educação das crianças - e nisso o Estado é responsável", considerou o prelado. "Não podemos armar o desejo em lei."
"Sentimentalização do amor"
Para o padre Duarte da Cunha, ex-responsável, durante dez anos, da Pastoral da Família na diocese de Lisboa, o que está em causa nas iniciativas do Bloco de Esquerda e do Bloco de Esquerda é uma "sentimentalização excessiva do amor". "O amor é uma construção permanente, não é algo que se sente um dia e no outro não", afirmou ao DN o sacerdote, também professor de teologia, filosofia e antropologia do matrimónio na Universidade Católica, além de especialista em políticas de família e orientação e mediação familiar.
"Estamos perante uma cultura da desistência", acrescentou, dizendo ainda que os diplomas estão "imbuídos de uma cultura individualista" perante a qual "a família corre o risco de se desagregar".
Para o padre Duarte da Cunha, estes diplomas são o sinal de um "uma sociedade que não cuida de si". O sacerdote associa a iniciativas à "desagregação" da família e depois fala da "violência dos jovens". "Não são só casos de polícia, são também um problema de família, dado que os jovens estão cada vez mais sozinhos." Contesta, por outro lado, a ideia do divórcio a pedido (ontem chumbada na Assembleia da República): "Só se pensa na liberdade do que se quer divorciar. E onde está a liberdade do que não se quer divorciar."

"Divórcio na Hora"

As tomadas de posição destes dois prelados face às iniciativas legislativas na Assembleia da República surgem na sequência lógica de outras recentes. "É quase uma promoção ao divórcio", disse o presidente da conferência episcopal, D. Jorge Ortiga, perante a iniciativa do "Divórcio na Hora" (erradamente enquadrada no Simplex, sendo na verdade uma iniciativa privada que aproveita as facilidades do Cartão Único). "Não há amor sem sofrimento e sem dor", disse ainda o bispo.

Ouvir

Inês Teotónio Pereira , ionline em 30 Mar 2013
O nosso objectivo como pais é o mesmo que o dos Jesuítas: evangelizar os nossos filhos, ou seja, educá-los, segundo a linguagem parental

Uma das coisas que faz que os Jesuítas sejam diferentes é a sua capacidade para ouvir. Qualquer sacerdote jesuíta é um especialista nato nesta arte. Eles acumulam quinhentos anos de audições consecutivas, foram centenas de anos a ouvir de tudo em várias línguas e em todo o mundo. A técnica é simples: ouvir, ouvir e ouvir com toda a paciência, ganhar assim confiança e depois, pumba, evangelizar. O plano tem mostrado eficácia: só S. Francisco de Xavier evangelizou tanta gente quanto S. Paulo himself. A lógica é nunca fazer juízos de valor. Ouve-se sem julgar. Ouve-se mais do que se fala. Faz-se uma pergunta ou outra, tal e qual a dialéctica socrática, e encaminha-se a pessoa para chegar às mesmas conclusões, a concordar connosco. Mas através do seu próprio raciocínio, dando apenas um empurrãozinho ou outro, que é sempre acompanhado de interrogações. Por isso é que qualquer sacerdote jesuíta acha muito mais interessante passar uma tarde a conversar com um ateu do que com um católico cheio de certezas absolutas. Por isso é que os Jesuítas são tão brilhantes a ensinar, pois ensinam a pensar, e por isso é que no mundo inteiro, ateus e crentes, se renderam ao Papa Francisco.
Quando as crianças aprendem a falar não se calam. Falam pelos cotovelos, inventam histórias, divagam sobre tudo e mais alguma coisa, fazem perguntas chatas, difíceis e impossíveis e só querem ser ouvidas. Querem que nós as oiçamos com atenção, que mostremos interesse e façamos uma pergunta ou outra só para espevitar o diálogo e para revelar interesse na conversa. Qualquer criança prefere dez minutos de audição dos pais a uma hora de televisão.
Só que, convenhamos, isso é uma chatice. Ouvir os nosso filhos é entendiante. Nós não somos padres e muito menos temos a pretensão de evangelizar o Japão. Já temos problemas que cheguem. Por isso, e não por mal, temos muito pouca disponibilidade, paciência e feitio para ouvir os nossos filhos. Quando eles crescerem logo se vê: as conversas serão certamente muito mais interessantes e no mínimo farão sentido.
No entanto, o nosso objectivo como pais é o mesmo que o dos Jesuítas: evangelizar os nossos filhos, ou seja, educá-los (segundo a linguagem parental). Também queremos que eles sigam o bom caminho, que sejam pessoas íntegras, trabalhadoras e realizadas, que sejam felizes e que tornem felizes aqueles os rodeiam. Então como é que fazemos isso? Não sabemos.
É essa a nossa grande angústia. Como é que isso se faz? Como é que concilio a sua protecção com a sua liberdade? Até onde é posso exigir que ele tenha boas notas? Até onde lhe posso restringir a liberdade? Com que idade é que ele pode ter Facebook? E telemóvel? E a disciplina, somos severos de mais ou de menos? Quando é que posso começar a deixá-lo sair sozinho com os amigos? E controlo ou não controlo os amigos? E quando é que o posso deixar em casa sozinho? Será que ele mente? Será que o conheço bem? E será que ele é feliz? Terá ele confiança em mim? Sei lá!
Não ouvir os nossos filhos desde que eles aprendem a falar é investir no seu silêncio. Se passamos anos a dizer "agora não" porque na verdade nos falta vocação e tempo para os ouvir, quando queremos saber como eles são, como eles estão e quem eles são pode ser tarde de mais. E o pior é que calá-los demora apenas meia dúzia de anos. Por isso é que mais que educá-los temos de ser nós a educar-nos para aprender a ouvi-los. Ou a médio prazo estamos estamos todos tramados.

A dureza da fé

José Luís Nunes Martins, ionline 30 Mar 2013

Quase sempre se reza num vazio, sem luz e num silêncio próprio de um deserto, onde praticamente nada se vê, ou se deixa ouvir. Esta ausência de resposta acaba por alimentar muitas vezes o temor de que possamos estar, afinal, absolutamente sós.
Mas cuidarmos do bem de alguém não implica estarmos onde essa pessoa nos possa ver ou ouvir... Cuidar do maior bem de alguém não passa por lhe falar constantemente.
A fé é a certeza convicta do que não se vê – mas é também a base da desconfiança que faz tremer a terra que nos segura os pés. Nunca foi, nem será, uma apólice contra todas as dúvidas, desgostos e sofrimentos.
A fé faz com que se sinta, sem sentir, como que... um sopro na face... e com ele se aprende que existem forças que não se veem... outras, mais fortes ainda, nem se sentem. O vento, tal como o amor, não se conhece senão pelo que faz. Nunca ninguém o viu, mas também nunca ninguém o pôs em causa.
Só se ama em silêncio. Mesmo quem se pode ver. Ama-se com o que está aquém das palavras. Ama-se com a presença. Ama-se com a vida.
Jesus não é o herói de nenhum conto de fadas. Está aqui, mesmo que ninguém O veja. Sempre por perto, mesmo de quem não acredita. Num silêncio onde paira a absoluta certeza de que nos amará até ao fim, ou seja, para sempre.
Viveu, morreu e ressuscitou. Mas ressuscitar não é voltar a este mundo, é passar a viver, para sempre, num outro de que este faz parte.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Górgias na RTP

João Miguel Tavares ´Público, 29/03/2013

VÍTOR - Diz-me, Sócrates, por que decidiste colocar um fim ao teu silêncio?
SÓCRATES - Acaso um homem não tem o direito de falar, Vítor? Todas as coisas têm o seu tempo. Há tempo para calar, e há tempo para falar. Este é o tempo para falar.
VÍTOR - Dizes bem, Sócrates. E é admirável ouvir da tua boca o sétimo versículo do terceiro capítulo do Eclesiastes, sobretudo porque isto é a Grécia e tu estás a citar a cultura hebraica. Mas todos sabemos que tu não és ateniense nem grego, mas um cidadão do mundo.
SÓCRATES - Assim é, Vítor.
VÍTOR - Responde então, Sócrates, a esta questão: é também este um tempo para a guerra e um tempo para o ódio, como está escrito no versículo seguinte?
SÓCRATES - Espera um pouco, Vítor, que já vou falar do Presidente da República. Antes disso, como homem sábio que és, suponho que já terás escutado a narrativa dos meus adversários, que me querem atribuir todas as culpas pelo estado do país. Esta narrativa - e fixa esta palavra porque a vou repetir muitas vezes - é apenas uma mistificação grosseira, que tem origem em três embustes. Queres saber que embustes são esses, Vítor?
VÍTOR - Claro, Sócrates. Quais são?
SÓCRATES - Então vou dizer-te, mas por favor não me interrompas, que isso deixa-me irritado. O primeiro embuste consiste em não atribuir à crise internacional todos os males do país. O segundo embuste consiste em dizer que foi o anterior Governo que nos conduziu à ajuda externa. E o terceiro embuste consiste em dizer que o actual Governo só está a cumprir o memorando assinado pelo Governo anterior. Já escutaste estes três embustes, Vítor?
VÍTOR - Já escutei esses três argumentos, Sócrates. Hesito em classificá-los como embustes. Não encontras qualquer veracidade em tais teses? Entendes nunca ter errado?
SÓCRATES - Por Zeus, ó Vítor! Só o facto de fazeres essa pergunta já te torna cúmplice da narrativa única. Permite-me, então, contraditar essa narrativa, porque a verdade é irrefutável. É agora altura de seres tu a responder. Se eu me encostar a uma coluna do Parthenon para repousar após uma festa deliciosa, dirias que cometi um erro, Vítor?
VÍTOR - Claro que não, Sócrates.
SÓCRATES - E se com esse meu acto provocar a derrocada do edifício, que se encontrava em estado de grande precariedade? Nesse caso já errei, Vítor?
VÍTOR - Naturalmente.
SÓCRATES - Mas se o acto é o mesmo, como é que numa situação ele é um erro e na outra situação não o é? Não te parece que há aqui uma contradição?
VÍTOR - Assim parece.
SÓCRATES - Estás familiarizado com a ideia latina de mens rea, Vítor?
VÍTOR - Receio não estar, Sócrates. Isto é a Grécia.
SÓCRATES - Ao menos sabes que nada sabes, Vítor. Já não é mau. Dizem os latinos: "Actus non facit reum nisi mens sit rea". "O acto não é culpável a não ser que a mente seja culpada." Percebes o que isto quer dizer?
VÍTOR - Creio que sim, Sócrates. Mas a que propósito vem isso?
SÓCRATES - A propósito de ser essa a ideia que melhor se aplica às minhas acções, Vítor. Elas podem vir a provar-se erradas a posteriori, mas nunca foram erradas a priori, e por isso de nada sou culpado. Aqui está o que ouvi e considero verdadeiro. Eu só erro se souber por antecipação que estou a errar, e por isso, se se descobrir no futuro que errei no passado, isso não é realmente um erro, já que no passado eu estava certo de estar certo. Logo, nunca erro.
VÍTOR - Mas, Sócrates...
SÓCRATES - Convence-te de que tenho razão, Vítor.
VÍTOR - Mas, Sócrates...
SÓCRATES - Vá, agora não me incomodes mais. Voltamos a ver-nos para a semana.

Não esqueceu nada. Não aprendeu nada

José Manuel Fernandes
Público 29/03/2013

O espectáculo de Sócrates é mais próprio de um circo do que de uma ágora, e a sua mensagem política falha o essencial
O mundo não é um estúdio de televisão. Portugal também não. Felizmente. Mas José Sócrates parece não o ter ainda descoberto. Por isso quarta-feira, o dia do seu anunciado regresso, foi também um dia revelador. Porque, para quem tivesse dúvidas, ficou claro que ao antigo primeiro-ministro se aplica como uma luva o comentário que Napoleão fez sobre os Bourbons: "Não esqueceram nada e não aprenderam nada."
Talvez não fosse preciso dizer mais nada. O político combativo, o "animal feroz", voltou para nos recordar como nunca é capaz de admitir que errou ou de perdoar. Também nos recordou como se pode ser malcriado e arrogante, como se constrói todo um discurso baseado num permanente extremar de posições, na constante instrumentalização dos números e na redução da realidade a um retrato a preto e branco em que o próprio é a única referência e a única preocupação.
Habilidoso neste tipo de exercício, eficaz a impor os seus temas e a sua agenda, alimenta a convicção de que pode bater todos aos pontos quando, na verdade, o que faz é criar um deserto à sua volta, um deserto onde só sobrevivem os seus fiéis. Como espectáculo é mais próprio de um circo do que de uma ágora, mas há quem goste. Agora como mensagem política falha o essencial.
Ancorado no passado, sem nada de novo para dizer, centrado na sua "narrativa" e nas suas obsessões com "embustes" e ajustes de contas, apenas ofereceu como alternativa, ou como visão, um sonoro "parem com a austeridade". Não foi apenas pouco, foi patético: por muito que nos custe a austeridade, ou que Gaspar nos faça pele de galinha, sabemos que recusá-la é uma ilusão. Só Sócrates parece ainda achar que o mundo era perfeito, e o seu Governo excelso, até um banco falir. Já ninguém acredita nisso.
Os Bourbons, quando regressaram a Paris depois do fim do Império napoleónico, acreditaram poder regressar à "doçura de viver" do Antigo Regime. Sócrates, que veio de Paris, não ambicionaria tanto, mas julgou poder reviver o passado e, sobretudo, reescrevê-lo. Mas o país que encontrou é outro. É um país, no mínimo, mais céptico e menos propenso a embarcar no tipo de ilusionismo em que é especialista. Já não encontra quem lhe compre auto-estradas, aeroportos e cheques-bebé, como em 2009.
Sócrates é daqueles que acredita que pode mudar a realidade como quem muda o cenário num estúdio de televisão. Mais: que o pode fazer através do discurso e daquilo a que chama "acção política". Trata-se de um voluntarismo duplamente perigoso. Primeiro, porque muitas vezes mascara a realidade, e fá-lo de forma deliberada. Em nome da criação de "expectativas positivas", falsifica o real no limite da mitomania: o mundo de Sócrates é um mundo que ele mesmo criou, mas em que acredita ao ponto de achar que esse mundo de fantasia é o verdadeiro. Depois, este esforço de modelação da realidade conduz também ao autoritarismo, um das marcas do seu consulado, pois não aceita contraditório.
Ora se o Portugal de hoje já não é o país imaginário das várias "narrativas" do "sucesso", da "competitividade" e da "modernidade", antes um país confrontado com o duro dia-a-dia de estar a pagar a conta de muitos desvarios, a verdade é que o distanciamento face ao discurso irreal não corresponde ainda a uma compreensão plena dos desafios que temos pela frente.
Há quatro realidades muito duras que ainda não digerimos por completo. A primeira é que o país foi de facto à bancarrota. Há quem o tenha dito alto na última semana (Daniel Bessa, Pedro Soares dos Santos), só que poucos o assumem. Tecnicamente, é verdade, o país nunca falhou os seus pagamentos, mas isso é uma ilusão: apenas não o fizemos porque o Estado (no tempo de Sócrates) começou por obrigar a banca portuguesa a financiá-lo e, depois, chamou a troika. Sem isso estaríamos insolventes.
A segunda é que, para evitar a bancarrota formal (que nenhum PEC4 contornaria, diga-se de passagem), tivemos de aceitar ser um país "de programa", a mesma coisa é dizer, um país de soberania limitada. O dinheiro só chega se passarmos nos exames trimestrais, algo que tende a ser esquecido. Tão esquecido que o próximo cheque da troika pode ser atrasado por estarmos atrasados no plano de cortes na despesa pública. Já alguém pensou nas consequências de esse cheque eventualmente não chegar?
A terceira realidade que nos atormenta é a da dimensão da dívida e o tempo que levaremos a fazê-la regressar a níveis comportáveis. Só para recordar os mais esquecidos: de 2005 a meados de 2011 a dívida passou de 90 para quase 170 mil milhões de euros (passou entretanto os 200 mil milhões) e agora vai ter de baixar para o equivalente a 100 mil milhões. É uma geração de austeridade. É um preço enorme a pagar.
A quarta e última realidade é que não vai ser possível levar este barco a bom porto no actual clima de confrontação política, de que a moção de censura do PS é apenas uma manifestação infeliz e, de certo modo, cobarde. Também não creio que possamos confiar num hipotético "pacto de regime" como o sugerido pelo governador do Banco de Portugal: não poderíamos ter um melhor pacto do que PS, PSD e CDS terem assinado o memorando da troika, mas viu-se o tempo que esse consenso sobreviveu. Em Portugal, com a nossa cultura política, a única solução que compromete os partidos é a partilha directa do poder. Previ-o e defendi-o ainda antes das últimas eleições, vejo agora mais gente a concordar. Não sei é se vamos a tempo e muito menos sei como chegar a um governo de base mais alargada sem ter pelo meio uma crise que deite borda fora o que já alcançámos.
E ainda há o problema Europa.
Voltou a estar na moda falar de guerra na Europa. Uns falam dos seus fantasmas, outros evocam 1913, o ano antes da grande tempestade, há até quem receie que algum tresloucado da Europa do Sul se lembre de reeditar um atentado, desta vez contra um ministro da Europa do Norte. Não estou, confesso, demasiado inquieto, mas por uma razão bem prosaica: quase já não há, na Europa, exércitos dignos desse nome. Para já e por agora essa é a nossa principal garantia de que isto não acaba muito depressa e muito mal.
A falta de militares em armas tem sido compensada pela abundância de plumitivos de espírito bélico. Vivemos numa espécie de nova irracionalidade, em que tudo e qualquer coisa passou a ser culpa, sempre e só, da Alemanha e da chanceler Merkel. Voltámos a vê-lo no caso de Chipre: ainda antes de sabermos o que se tinha passado na famosa reunião do Eurogrupo que decidiu a primeira fórmula do resgate, mesmo quando se multiplicavam as versões contraditórias, o único consenso estabelecido foi que o malvado era o ministro Schäuble.
Junto a esta nova irracionalidade vem a retórica incendiária. É só uma questão de escolher o insulto preferido: "huno", "teutão", "fascista", "neonazi", "Hitler de saias" ou o que mais vier à cabeça. Tudo serve para descrever a Alemanha e os seus líderes. Mesmo pessoas sensatas e inteligentes, como Viriato Soromenho Marques, comparam, no plano moral, o resgate a Chipre à chacina dos judeus, como se aquilo que acabou por acontecer - a falência de dois bancos que foram mal geridos - não devesse ser a regra e não a excepção.
Sobram pois os sinais de que o debate europeu se deslocou da realidade e foi substituído pelo preconceito. O que nos obriga a procurar algum realismo. Um bom começo encontrei-o esta semana nas páginas do mais europeísta dos jornais europeus, o Financial Times, onde três dos seus principais colunistas - Martin Wolf, Gideon Rachman e Wolfgang Münchau - pareceram convergir num ponto: não há nem haverá forma de fazer funcionar bem uma união monetária que agrega países com culturas económicas tão diferentes como a Alemanha, a Holanda e a Finlândia, de um lado, e Portugal, a Grécia e o Chipre, do outro. Sendo assim, aquilo que lhes agradeceríamos era que nos começassem a ajudar a encontrar forma de sair do imbróglio em que os "líderes visionários" de há duas décadas nos enfiaram. E que o fizessem antes de alguma coisa de mais grave acontecer.

José Ribeiro e Castro em entrevista ao i. “Esta União Europeia não presta”

Ana Sá Lopes, i-online em 29 Mar 2013
Ribeiro e Castro defende a destituição do presidente do Eurogrupo depois do caso dos depósitos de Chipre
Existem os românticos à moda antiga e os democratas-cristãos à moda antiga. José Ribeiro e Castro faz parte deste grupo, cada vez mais raro no espaço europeu – e que, juntamente com os sociais-democratas, foi responsável pela criação do modelo do Estado social europeu. Talvez seja por isso que muitas das opiniões defendidas por Ribeiro e Castro sobre a questão europeia parecem vindas de outro mundo, no que à direita mainstream diz agora respeito, principalmente quando está no poder. Ribeiro e Castro limita-se agora a ser deputado – Paulo Portas convidou-o para as listas, assinando um tratado de paz entre ambos. As relações entre os dois tinham-se estragado quando Ribeiro e Castro liderava o partido a partir de Estrasburgo – era deputado europeu nessa altura – e tinha um grupo parlamentar fidelíssimo a Paulo Portas, que foi seu antecessor e seu sucessor. O CDS de Portas também não é poupado – mas com menos virulência que a liderança merkeliana da Europa.
Concorda com o que o Presidente da República disse recentemente a propósito da actual situação da Europa, que "o bom senso tinha emigrado para outras paragens"?
Concordo. Há sinais muito preocupantes. Há resposta tardia, resposta errada, violação de princípios na União Europeia. Creio que se pode dizer que esta União Europeia não presta. Tive a curiosidade de ir folhear alguns princípios afirmados logo no preâmbulo dos tratados...
Isso agora parece história da antiguidade...
Um dos princípios fundadores da União Europeia é a coesão e as instituições europeias estão claramente a afastar-se disto.
Estão a desrespeitar os tratados?
Perante uma crise, de facto muito difícil, muito dura, mas autogerada – tem a ver com o euro e os erros da sua instituição, que já têm vindo a ser denunciados. São erros que têm de ser assumidos pelos seus principais construtores. Vivemos num regime do Deustche Euro [euro alemão] e é preciso ter consciência da responsabilidade que houve quando se criou este figurino. Há responsabilidades colectivas quanto à construção da Europa que não podem ser enjeitadas, sob pena de podermos estar a caminhar para um quadro absolutamente catastrófico para todo o continente e que faz regressar fantasmas que gostaríamos que estivessem completamente desaparecidos.
O ex-presidente do Eurogrupo falou recentemente na possibilidade de uma guerra na Europa.
Não é a primeira vez que se fala nisso. Sempre vi com preocupação a conjunção no terreno de alguns ingredientes que, se não tivermos cautela – nomeadamente o regresso à matriz do sonho europeu, a construção efectiva de uma democracia europeia e a ruptura com uma oligarquia que efectivamente nos tem conduzido para este atoleiro –, o projecto europeu poderia entrar em ruptura e pudéssemos voltar ao passado. E o passado que conhecemos não é muito inspirador. Eu quero acreditar no sonho de paz eterna para a Europa, que é o valor fundador da União Europeia. Mas esse valor só é seguro se nós o segurarmos. Se não o segurarmos, ele está em risco. Chamo a atenção para as pessoas que dizem que uma guerra na Europa não é possível. Mas também ninguém imaginava que fosse possível na ex-Jugoslávia! E são povos da nossa Europa, da nossa mesma cultura. Gostamos de apontar o dedo às atrocidades dos outros, mas escondemo-las com pudor quando se passam no nosso continente. A experiência da ex-Jugoslávia é a ruptura de uma federação supranacional.
Acha que o caso de Chipre pode ser um rastilho? Ainda por cima com a Rússia ali ao lado?
Espero que não, mas convém não brincar com a história, nem desafiá-la. Era muito importante que o Parlamento Europeu pudesse ser um factor de coesão e de triunfo das diferenças, de afirmação deste sonho abrangente que eu creio que ninguém quer perder.  Mas temos a Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Chipre a afundarem-se… A Europa entrou em derrapagem a seguir a Maastricht e particularmente quando se aproximou da constituição europeia, que foi um passo maior que a perna, com muito pouco realismo, que criou expectativas que não podia concretizar. A constituição europeia foi concebida a partir de um plano teórico, uma reprodução da Declaração de Filadélfia, uma construção abstracta…
Mas não estão em causa povos completamente diferentes?
Completamente diferentes! Apostou-se na constituição europeia em vez de atender aos problemas que existiam e precisavam de ser atalhados. Foi-se mexer em coisas que não precisavam de ser mexidas, como a rotatividade das presidências. E não se mexeu naquilo em que era preciso mexer: governação económica, que era um grande calcanhar de Aquiles, não se mexeu. Andamos agora, a reboque da crise do euro, a correr atrás do prejuízo, pondo remendos sobre remendos. Inventou-se esta história dos tratados orçamentais para tornear a dificuldade de ratificação. Andamos numa política de esparadrapos e sem uma abordagem global do problema. E sobretudo da construção da democracia europeia, que hoje é uma fantasia. Hoje o que existe é um directório que governa protegido por uma oligarquia.
Não estamos, na prática, a viver em ditadura?
Um pouco. Creio que essas decisões sobre Chipre e a forma como foram tomadas ilustram isso e os perigos disso. Sobre Chipre, uma questão que se pode pôr à cabeça é a da legitimidade destas decisões, quer do ponto de vista das autoridades cipriotas recém-eleitas, quer do ponto de vista das autoridades europeias.
Os alemães vieram imediatamente dizer que a culpa não era deles…
Mas isso é um dos problemas desta Europa, que tem um imperador sem rosto. Nunca é ninguém! É um sistema, é uma espécie de monstro sem olhos, sem boca e sem cara, um bocadinho em sistema de autogoverno, cuja legitimidade democrática é muito… fraca, para ser simpático. Se virmos, a seguir a Maastricht houve o Tratado de Amesterdão, Nice, o Tratado de Lisboa, que ia ser o tratado eterno. Onde isso já vai! Não creio que o debate europeu tenha chegado ao nível em que as pessoas sintam a questão fundamental do rumo político da Europa, se querem ou não querem. Em Portugal, o debate europeu é abaixo de medíocre.
E existe?
Já perdemos dois anos e sabemos que esta questão está em cima da mesa. Há indícios de que a senhora Merkel não sei o quê, de que há uns ministros que reúnem num grupo de reflexão liderado pelo ministro Westerwelle e depois saem uns tratados que são atirados para o parlamento como um facto consumado. Um pouco como a decisão sobre Chipre.
Onde andam os eurocépticos que antigamente existiam no seu partido?
Eu não sou eurocéptico, mas sou crítico desta Europa. Acredito na Europa, acho que é um sonho magnífico, mas mudou de natureza. A Europa hoje está confrontada com forças que a querem reduzir, que são os países triplo A, Alemanha, Áustria, Finlândia… Existe esta clivagem entre a Europa do Norte e a Europa do Sul que é perigosíssima. E é preciso decidir de uma vez: ou sim ou sopas.
Ou sim ou sopas? O que é o sim e o que é o sopas?
O sim é aprofundar a União Europeia e construir a pátria europeia a sério. Senão, é reduzi-la a um formato que convenha a todos. Creio que isso é mais importante que continuarmos numa luta contra a realidade. Às vezes as pessoas dizem que descafeinar a União Europeia é destruí-la. Eu creio que tudo o que seja manter os povos unidos em torno de objectivos que sejam realistas – nem que fosse apenas o Festival Eurovisão da Canção – é importante porque preserva a paz na Europa.
Isso implicava sair do euro?
O problema que se põe é mais do que isso, é a sustentabilidade do próprio euro. Discutir isto nesta altura seria introduzir factores de instabilidade. Mas eu espero que as pessoas que são mais responsáveis, que estão sentadas nos lugares de decisão, tenham isso no seu espírito. Até para defender o euro. Há decisões que carecem de um tipo de legitimidade política que eu creio que hoje ninguém na União Europeia tem. E é isso que me leva a apontar o dedo à Alemanha. Não há autoridade política nas instâncias europeias para se tomarem algumas decisões e isso tem a ver com a própria monstruosidade da construção do euro. Essa questão tem de ser posta aos povos europeus. A Europa anda a fugir dos referendos há imenso tempo! Isto é uma contradição absoluta! Como se reforça a construção política fugindo da política? Há uma contradição institucional entre o que a Europa quer fazer, o que necessitaria de fazer e a legitimidade que tem para o fazer. Em debates no passado já cheguei a dizer que a Europa estava a entrar numa vertigem perigosa, num regime de demofobia, de medo da democracia, de medo do povo.
Defende uma remodelação do governo, como vários dirigentes do CDS já vieram defender em público?
Penso que o governo já devia ter sido remodelado. Lembro o alerta que tenho feito desde os primeiros dias: o caminho a que o país está condenado é tão duro e tão difícil que, em linguagem futebolística, o primeiro-ministro deveria ter um "banco de luxo", dispor de dois ou três possíveis titulares para cada posição, por forma a poder remodelar sempre que fosse conveniente, sem com isso destruir a solidez da equipa ou degradar a sua qualidade. Se a remodelação, como penso, já tivesse ocorrido no início deste ano, o governo e a coligação estariam agora muito mais frescos e fortes para enfrentar não só a moção de censura do PS, mas sobretudo o clima altamente deletério que foi armado em torno do aguardado acórdão do Tribunal Constitucional sobre o Orçamento. Devia ter sido feita no final de Janeiro ou em Fevereiro, respondendo a problemas e desafios que são nítidos há meses. A remodelação poderia ainda ter sido apresentada como correspondendo, na oportunidade, ao lançamento do processo da reforma do Estado – que está encalhada. E hoje estaríamos bem melhor, certamente. Mas o essencial é o que disse: o governo está sujeito a um desgaste tão anormalmente elevado para executar o Memorando da troika que o primeiro-ministro deveria estar pronto para remodelar com bem mais frequência que habitualmente, refrescar a equipa, superar o desgaste, corrigir erros, reajustar a imagem, reforçar o ânimo. Quer o primeiro-ministro, quer a sua equipa deveriam interiorizar isso – parecia-me muito evidente.
Isso é realista?
É, é realista, se os líderes e os dirigentes agem com superior coesão política e em plena consciência das dificuldades do país e da acção governativa neste contexto de emergência. Poder agir daquele modo exige, na verdade, muita coesão. E era isso que poderíamos esperar quando o país foi atirado para a bancarrota, chega um novo governo para cumprir o resgate da troika e que declara a determinação de chegar ao fim da legislatura com pleno êxito e de ir além dela. O discurso feito, lembremo-lo, foi o de "governar para as próximas gerações, não para as próximas eleições". Assim é possível. De outro modo não.
Mas então porque é que criticou o facto de o CDS defender a remodelação?
O que eu critiquei, e critico, é o facto de uma reunião da comissão política do CDS servir de oportunidade para dirigentes, nessa expressa qualidade, reclamarem publicamente a remodelação governamental, quando o discurso clássico é – e bem – o de que isso constitui prerrogativa exclusiva do primeiro-ministro. Para mais, sendo a remodelação exigida dentro de determinado prazo, apontada a alguns sectores específicos, e tudo feito em reunião presidida pelo Presidente do partido. Foi essa a mensagem que passou – e foi o que efectivamente aconteceu. Eu critiquei, e critico, uma reclamação pública com esta oficialidade anormal ou anormalidade oficial, como quiser. Que comentadores mais ou menos próximos do PSD ou do CDS opinem sobre remodelações não causa dano – e vale o que valerem os comentários. Que políticos individualmente, como eu próprio, sem responsabilidades dirigentes, o digam, também não faz grande diferença em termos de coesão da coligação. Mas que dirigentes principais o façam, para mais agindo como porta-vozes, não é a mesma coisa. E não estou nada de acordo com isto. Imaginemos que, ou porque pensem assim, ou por mero tacticismo, altos dirigentes do PSD começavam a alvejar membros do governo do CDS para serem substituídos. Seria o caos e a derrocada. Não pode ser. Creio que o dr. Paulo Portas nem deveria discutir em comissão política estas matérias da composição do governo. Aliás, nem sei se foram exactamente discutidas – só sabemos o que foi dito cá para fora. O presidente do partido é o nosso primo ministeriável ou, como costumo dizer, o nosso "co-primeiro-ministro". Por isso os nomes e a equipa de governo também são, no CDS, assunto de sua prerrogativa exclusiva e estrita competência pessoal, exactamente como para o primeiro-ministro. São questões que só os dois devem tratar entre si, com absoluta lisura e lealdade, sigilo e reserva. E quaisquer conselhos que pretendam devem ocorrer em conversas informais com pessoas de sua confiança – nunca em órgãos partidários como comissões políticas ou conselhos nacionais. Os órgãos do partido servem para discutir política e definir orientações, prever problemas e apontar respostas, o que, por sinal, quase não temos feito no CDS – a comissão política, por exemplo, não reunia há já seis meses, desde Setembro passado, quando deve reunir uma vez por mês. Mas não servem para fazer governos ou discutir a sua composição. Nunca vi uma comissão política a fazer governos, em qualquer partido ou qualquer país. Desfazer governos… isso já vi.
Também acha que são Miguel Relvas e Álvaro Santos Pereira que devem ser substituídos?
Nisso é que eu não entro. Sou deputado da maioria, não quero falar em nomes. Mas deixe-me fazer uma prevenção. Não gosto da campanha intermitente a que o ministro da Economia tem estado sujeito desde o primeiro dia. São remoques vindos da intriga de salão e dos sectores chiques. Às vezes parece que a coisa sossega. Mas volta logo a seguir. Creio que é prova de coragem e de dedicação ao serviço público aceitar ser ministro da Economia no contexto de políticas financeiras imperativas que importam recessão e desemprego. Muitas das críticas que lhe são feitas são objectivamente injustas e totalmente fora de contexto. E receio que isso traga água no bico e esconda outros intuitos. Ainda agora a troika voltou a pôr na agenda a exigência de eliminação das rendas excessivas na energia, ponto em que o governo arrasta os pés e anda em círculos. O ministério de Santos Pereira, que é um independente, já fez umas coisas no ataque a esses interesses bem instalados, mas foi travado – e ficou muito aquém do necessário. A coisa custou a cabeça do ex-secretário de Estado Henrique Gomes, que ficou pelo caminho por não se conformar com as cedências. Receio que possa custar também a cabeça do ministro… 
Acha que este discurso de dirigentes do CDS a exigirem a remodelação tem a ver com o anúncio da moção de censura pelo PS?
Não faço a mínima ideia, mas espero que não. Esta até é uma altura em que, ao contrário, importa exibir solidez e coesão na maioria. Em política como na vida, nunca se deve dar parte de fraco. Também por isso, a oportunidade não me pareceu nada boa para desatar a falar de remodelação. Aliás, o PS nem demorou sequer uma hora a aproveitar e procurar explorar essa brecha. De resto, o PS não tem alternativa nenhuma e faz um discurso completamente fantasioso. O caminho para onde fomos lançados é de facto muito duro e carregado de incertezas e contratempos. Mas importa não mentir aos portugueses e não semear ilusões que seriam fonte de ainda maior frustração. É por essas e por outras que o crédito do sistema político está abaixo de zero e as pessoas estão cada vez mais saturadas de políticos. Se António José Seguro e os socialistas têm a poção mágica, pois que apresentem a poção mágica. Os portugueses agradeceriam essa maravilhosa revelação. Venha ela! E se há outros que, em alternativa às dificuldades do caminho, têm os pozinhos de perlimpimpim, pois que nos mostrem esses milagrosos pozinhos de perlimpimpim. Venham eles! Se há por aí poção mágica ou pozinhos de perlimpimpim, toca a explicar!  Não merecemos menos.
O que pensa das declarações do presidente do Eurogrupo? É aceitável ficarmos sujeitos ao risco nos depósitos?
São afirmações intoleráveis, que semearam desconfiança, incerteza e instabilidade, exactamente o contrário do que é a sua principal obrigação. Se Jeroen Dijsselbloem tem a função de ser um rosto de responsabilidade, mostrou ser a voz e a face da mais confrangedora irresponsabilidade. É espantoso como, no rescaldo das medidas extremas aplicada a Chipre, ele aparece a ameaçar, pela manhã, que isso é um modelo para novos resgates para, logo pela tarde, face à agitação provocada, vir dar o dito por não dito e, no dia seguinte, um porta-voz da Comissão Europeia vir repor a ameaça. Reina a desordem nos crânios de Bruxelas. O sistema bancário é hipersensível e fiduciário, assenta na confiança. Não se pode arrasá-la a partir de cima. O euro foi posto no caminho de se tornar uma moeda maldita. Tem de gerar-se um movimento europeu para substituir Dijsselbloem com a maior brevidade. Sem isso, dificilmente reporemos estabilidade e confiança na Eurolândia. Jeroen Dijsselbloem é, convém lembrá-lo, um trabalhista holandês, ou seja, um camarada socialista de António José Seguro e de José Sócrates. E a mim surpreendeu-me logo à partida que o Eurogrupo aceitasse ser presidido por um ministro das Finanças holandês, que representa um sistema de "pirataria tributária" sobre a economia europeia. Lembra-se da fúria que a competitividade fiscal da Irlanda desencadeia nalguns mandões da Europa? Mas é curioso como os mesmos mandões nada fazem para pôr cobro a um sistema fiscal holandês concebido para ser irresistível para grupos empresariais se deslocalizarem para lá a fim de beneficiarem de um generoso regime de isenções. A tributação baixa em IRC na Irlanda é perfeitamente normal, serve para desenvolver a sua economia produtiva e criar emprego. Nós devemos fazer o mesmo. Já esta política fiscal holandesa é completamente parasitária, agindo sobre holdings – as nossas SGPS ou equivalentes – e atraindo a gestão de posições que são subtraídas ao espaço, digamos assim, da sua tributação natural. Como é que o Eurogrupo aceita ser presidido pelo rosto de um modelo fiscal de corsários? É uma vergonha. Além do mais, o Sr. Dijsselbloem já revelou não estar à altura do cargo e ser pior que um elefante numa cristalaria. Bem andou a Espanha ao não apoiar a sua designação em Janeiro passado. Tem de se arranjar outro antes que seja tarde.

Homilia da Paixão do Senhor

Cristo morto

Cristo morto
Andrea Mantegna (1464-1500)
Têmpera sobre tela 66x81 cm
Pinacoteca de Brera.
Milão

Páscoa

DESTAK | 27 | 03 | 2013   21.55H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@ucp.pt

Celebrar a Páscoa num momento de grande angústia e sofrimento nacional tem um significado muito especial. Porque a Páscoa é a vitória do mal sobre o bem que, depois de consumada, se transforma na apoteose do bem, sem prejudicar aqueles que fizeram o mal.
Cristo morreu e ressuscitou e, depois de ressuscitado, não se vingou de Caifás, Pilatos ou Herodes, e até converteu o perseguidor Saulo no mais influente dos Apóstolos.
O Senhor ressuscitado vence a morte sem destruir os assassinos.
Esta é a prova definitiva do poder do bem. Não porque o bem vence o mal, mas porque o bem, depois de vencido pelo mal, ressurge numa forma que o mal nunca mais poderá atingir, e convida o mal a ser bom.
Por isso nesta Páscoa de grande angústia e sofrimento nacional, o Senhor ressuscitado nos oferece um novo Papa que nos diz: «Não cedamos jamais ao pessimismo, a esta amargura que o diabo nos oferece cada dia; não cedamos ao pessimismo e ao desânimo: tenhamos a firme certeza de que o Espírito Santo dá à Igreja, com o seu sopro poderoso, a coragem de perseverar» (Discurso ao Colégio Cardinalício, 15 de março).
Cristo ressuscitou. E Cristo ressuscitado é maior que a nossa angústia e sofrimento. Santa Páscoa!

Acompanhando Jesus pela Via Sacra de Jerusalém

http://revculturalfamilia.blogspot.pt/, 28-mar-2013
A Via Sacra ‒ também conhecida como Via Crucis, Estações da Cruz ou Via Dolorosa ‒ é uma devoção que consiste numa peregrinação feita em oração e ajudada por uma série de quadros ou imagens que representam cenas da Paixão de Cristo.
A Via Sacra mais conhecida hoje é a rezada no Coliseu de Roma, na Sexta-Feira santa, com a participação do próprio Papa.
As imagens representando as cenas da Paixão podem ser de pedra, madeira ou metal, pinturas ou gravuras.
Elas estão dispostas a intervalos nas paredes ou nas colunas da igreja.
Mas, às vezes podem se encontrar ao ar livre, especialmente nas estradas que conduzem a uma igreja ou santuário. Uma Via Sacra muito conhecida é a do santuário de Lourdes, França.
Nos mosteiros as imagens são muitas vezes colocadas nos claustros.
O exercício da Via Sacra consiste em que os fiéis percorram espiritualmente o percurso de Jesus carregando a Cruz desde o Pretório de Pilatos até o monte Calvário, meditando à Paixão de Cristo.
Dados históricos da devoção
A tradição afirma que a Virgem Santíssima costumava visitar diariamente os locais da Paixão de Cristo.
A Via Dolorosa de Jerusalém foi reverentemente sinalizada desde os primeiros tempos e foi uma meta dos piedosos peregrinos desde os dias do imperador Constantino.
São Jerônimo fala das multidões de peregrinos de todos os países que costumavam visitar os lugares santos e percorriam piedosamente a Via da Paixão de Cristo.
O desejo de reproduzir os lugares sagrados em outras terras, a fim de satisfazer a devoção daqueles que estavam impedidos de fazer a verdadeira peregrinação, apareceu muito cedo.
No século V, São Petrônio, bispo de Bolonha erigiu no mosteiro de São Estévão (Santo Stefano em italiano) um conjunto de capelas com as estações.
O mosteiro ficou familiarmente conhecido como "Hierusalem".
Tal exercício, muito usual no tempo da Quaresma, teve forte expansão na época das Cruzadas (do século XI ao século XIII).
O romeiro inglês William Wey que visitou a Terra Santa em 1458, em 1462 descreveu a maneira usual para seguir as pegadas de Cristo em Sua jornada de dores redentores.

As 14 Estações

A Via Sacra se tornou uma das mais populares devoções católicas.
O exercício da Via Sacra tem sido muito recomendado pelos Sumos Pontífices, pois ocasiona frutuosa meditação da Paixão do Senhor Jesus.
O número de estações, passos ou etapas, da dolorosa procissão do Bom Jesus, nosso Redentor, foi definido paulatinamente chegando à forma atual, de quatorze estações, ou passos, no século XVI.
As 14 estações são as seguintes: (CLIQUE PARA VER)



Em cada estação é feita uma meditação sobre o passo e o costume é rezar também um Pai Nosso, uma Ave Maria e um Glória ao Padre.
O percurso da Via Sacra não deve ter interrupções. Mas é permitido assistir a uma Missa, confessar e comungar em meio ao piedoso exercício.


A indulgência plenária

Não existe uma devoção mais ricamente dotada de indulgências do que a Via Sacra.

As indulgências estão ligadas à cruz posta sobre as imagens que devem ser canonicamente erigidas.
Condições para ganhar a indulgência

Concede-se indulgência plenária a quem pratique o exercício da Via Sacra. Para que este se possa realizar, requerem-se quatorze cruzes postas em série (com alguma imagem ou inscrição, se possível) e devidamente bentas. O cristão deve percorrer essas cruzes, meditando a Paixão e a Morte do Senhor (não é necessário que siga as cenas das quatorze clássicas estações; pode utilizar algum livro de meditação). Caso o exercício da Via Sacra se faça na igreja, com grande afluência de fiéis, de modo a impossibilitar a locomoção de todos, basta que o dirigente do sagrado exercício se locomova de estação a estação.

Quem não possa realizar a Via Sacra nas condições acima, lucra indulgência plenária lendo e meditando a Paixão do Senhor pelo espaço de meia-hora ao menos.

(cfr. d. Estevão Bettencourt, Catálogo das Indulgências)

As sete palavras de Jesus na cruz

As Sete Palavras

quinta-feira, 28 de março de 2013

Homilia do Santo Padre Francisco na Santa Missa da Ceia do Senhor

SANTA MISSA NA CEIA DO SENHOR
HOMILIA DO SANTO PADRE FRANCISCO
Cárcere para Menores "Casal del Marmo" em Roma
Quinta-feira Santa, 28 de março de 2013

Isto é comovente: Jesus lava os pés dos seus discípulos. Pedro não compreendia nada, rejeitava. Mas Jesus lhe explicou. Jesus – Deus – agiu deste modo! O próprio Jesus explica aos discípulos: «Compreendeis o que acabo de fazer? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz» (Jo 13, 12-15). É o exemplo do Senhor: Ele é o mais importante e lava os pés, porque entre nós aquele que está mais elevado deve estar ao serviço dos outros. E isto é um símbolo, um sinal, não é verdade? Lavar os pés significa: "eu estou ao teu serviço". E também nós, entre nós, não é que isto signifique de devamos lavar os pés todos os dias uns dos outros, mas qual é o seu significado? Significa que devemos nos ajudar, uns aos outros. Às vezes, fico com raiva de alguém, de um, de uma... mas deixa para lá, deixa para lá, e se essa pessoa te pede um favor, fá-lo. Ajudar-nos uns aos outros: é isto que Jesus nos ensina e é isto que eu faço, e o faço de coração, porque é o meu dever. Como sacerdote e como Bispo, devo estar ao vosso serviço. Mas é um dever que me vem do coração: amo-o. Amo-o e amo fazê-lo porque o Senhor assim me ensinou. Mas vós também, ajudai-nos: ajudai-nos sempre. Um ao outro. E assim, ajudando-nos, faremos o bem para nós mesmo. Agora realizaremos esta cerimônia de lavar-nos os pés e pensamos, cada um de nós pensa: "Eu realmente estou disposta, estou disposto a servir, a ajudar o outro?" Pensemos apenas nisto. E pensemos que este sinal é uma carícia de Jesus, que Jesus o faz, pois Jesus veio justamente por isso: para servir, para nos ajudar.
© Copyright 2013 - Libreria Editrice Vaticana

Homilia do Santo Padre Francisco na Missa Crismal

HOMILIA DO SANTO PADRE FRANCISCO
Basílica Vaticana
Quinta-feira Santa, 28 de março de 2013
Amados irmãos e irmãs,

Com alegria, celebro pela primeira vez a Missa Crismal como Bispo de Roma. Saúdo com afecto a todos vós, especialmente aos amados sacerdotes que hoje recordam, como eu, o dia da Ordenação.

As Leituras e o Salmo falam-nos dos «Ungidos»: o Servo de Javé referido por Isaías, o rei David e Jesus nosso Senhor. Nos três, aparece um dado comum: a unção recebida destina-se ao povo fiel de Deus, de quem são servidores; a sua unção «é para» os pobres, os presos, os oprimidos… Encontramos uma imagem muito bela de que o santo crisma «é para» no Salmo 133: «É como óleo perfumado derramado sobre a cabeça, a escorrer pela barba, a barba de Aarão, a escorrer até à orla das suas vestes» (v. 2). Este óleo derramado, que escorre pela barba de Aarão até à orla das suas vestes, é imagem da unção sacerdotal, que, por intermédio do Ungido, chega até aos confins do universo representado nas vestes.

As vestes sagradas do Sumo Sacerdote são ricas de simbolismos; um deles é o dos nomes dos filhos de Israel gravados nas pedras de ónix que adornavam as ombreiras do efod, do qual provém a nossa casula actual: seis sobre a pedra do ombro direito e seis na do ombro esquerdo (cf. Ex 28, 6-14). Também no peitoral estavam gravados os nomes das doze tribos de Israel (cf. Ex 28, 21). Isto significa que o sacerdote celebra levando sobre os ombros o povo que lhe está confiado e tendo os seus nomes gravados no coração. Quando envergamos a nossa casula humilde pode fazer-nos bem sentir sobre os ombros e no coração o peso e o rosto do nosso povo fiel, dos nossos santos e dos nossos mártires, que são tantos neste tempo.

Depois da beleza de tudo o que é litúrgico – que não se reduz ao adorno e bom gosto dos paramentos, mas é presença da glória do nosso Deus que resplandece no seu povo vivo e consolado –, fixemos agora o olhar na acção. O óleo precioso, que unge a cabeça de Aarão, não se limita a perfumá-lo a ele, mas espalha-se e atinge «as periferias». O Senhor dirá claramente que a sua unção é para os pobres, os presos, os doentes e quantos estão tristes e abandonados. A unção, amados irmãos, não é para nos perfumar a nós mesmos, e menos ainda para que a conservemos num frasco, pois o óleo tornar-se-ia rançoso... e o coração amargo.

O bom sacerdote reconhece-se pelo modo como é ungido o seu povo; temos aqui uma prova clara. Nota-se quando o nosso povo é ungido com óleo da alegria; por exemplo, quando sai da Missa com o rosto de quem recebeu uma boa notícia. O nosso povo gosta do Evangelho quando é pregado com unção, quando o Evangelho que pregamos chega ao seu dia a dia, quando escorre como o óleo de Aarão até às bordas da realidade, quando ilumina as situações extremas, «as periferias» onde o povo fiel está mais exposto à invasão daqueles que querem saquear a sua fé. As pessoas agradecem-nos porque sentem que rezámos a partir das realidades da sua vida de todos os dias, as suas penas e alegrias, as suas angústias e esperanças. E, quando sentem que, através de nós, lhes chega o perfume do Ungido, de Cristo, animam-se a confiar-nos tudo o que elas querem que chegue ao Senhor: «Reze por mim, padre, porque tenho este problema», «abençoe-me, padre», «reze para mim»… Estas confidências são o sinal de que a unção chegou à orla do manto, porque é transformada em súplica – súplica do Povo de Deus. Quando estamos nesta relação com Deus e com o seu Povo e a graça passa através de nós, então somos sacerdotes, mediadores entre Deus e os homens. O que pretendo sublinhar é que devemos reavivar sempre a graça, para intuirmos, em cada pedido – por vezes inoportuno, puramente material ou mesmo banal (mas só aparentemente!) –, o desejo que tem o nosso povo de ser ungido com o óleo perfumado, porque sabe que nós o possuímos. Intuir e sentir, como o Senhor sentiu a angústia permeada de esperança da hemorroíssa quando ela Lhe tocou a fímbria do manto. Este instante de Jesus, no meio das pessoas que O rodeavam por todos os lados, encarna toda a beleza de Aarão revestido sacerdotalmente e com o óleo que escorre pelas suas vestes. É uma beleza escondida, que brilha apenas para aqueles olhos cheios de fé da mulher atormentada com as perdas de sangue. Os próprios discípulos – futuros sacerdotes – não conseguem ver, não compreendem: na «periferia existencial», vêem apenas a superficialidade duma multidão que aperta Jesus de todos os lados quase O sufocando (cf. Lc 8, 42). Ao contrário, o Senhor sente a força da unção divina que chega às bordas do seu manto.

É preciso chegar a experimentar assim a nossa unção, com o seu poder e a sua eficácia redentora: nas «periferias» onde não falta sofrimento, há sangue derramado, há cegueira que quer ver, há prisioneiros de tantos patrões maus. Não é, concretamente, nas auto-experiências ou nas reiteradas introspecções que encontramos o Senhor: os cursos de auto-ajuda na vida podem ser úteis, mas viver a nossa vida sacerdotal passando de um curso ao outro, de método em método leva a tornar-se pelagianos, faz-nos minimizar o poder da graça, que se activa e cresce na medida em que, com fé, saímos para nos dar a nós mesmos oferecendo o Evangelho aos outros, para dar a pouca unção que temos àqueles que não têm nada de nada.

O sacerdote, que sai pouco de si mesmo, que unge pouco – não digo «nada», porque, graças a Deus, o povo nos rouba a unção –, perde o melhor do nosso povo, aquilo que é capaz de activar a parte mais profunda do seu coração presbiteral. Quem não sai de si mesmo, em vez de ser mediador, torna-se pouco a pouco um intermediário, um gestor. A diferença é bem conhecida de todos: o intermediário e o gestor «já receberam a sua recompensa». É que, não colocando em jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimento carinhoso que nasce do coração; e daqui deriva precisamente a insatisfação de alguns, que acabam por viver tristes, padres tristes, e transformados numa espécie de coleccionadores de antiguidades ou então de novidades, em vez de serem pastores com o «cheiro das ovelhas» – isto vo-lo peço: sede pastores com o «cheiro das ovelhas», que se sinta este –, serem pastores no meio do seu rebanho, e pescadores de homens. É verdade que a chamada crise de identidade sacerdotal nos ameaça a todos e vem juntar-se a uma crise de civilização; mas, se soubermos quebrar a sua onda, poderemos fazer-nos ao largo no nome do Senhor e lançar as redes. É um bem que a própria realidade nos faça ir para onde, aquilo que somos por graça, apareça claramente como pura graça, ou seja, para este mar que é o mundo actual onde vale só a unção – não a função – e se revelam fecundas unicamente as redes lançadas no nome d'Aquele em quem pusemos a nossa confiança: Jesus.

Amados fiéis, permanecei unidos aos vossos sacerdotes com o afecto e a oração, para que sejam sempre Pastores segundo o coração de Deus.

Amados sacerdotes, Deus Pai renove em nós o Espírito de Santidade com que fomos ungidos, o renove no nosso coração de tal modo que a unção chegue a todos, mesmo nas «periferias» onde o nosso povo fiel mais a aguarda e aprecia. Que o nosso povo sinta que somos discípulos do Senhor, sinta que estamos revestidos com os seus nomes e não procuramos outra identidade; e que ele possa receber, através das nossas palavras e obras, este óleo da alegria que nos veio trazer Jesus, o Ungido. Amen.


© Copyright 2013 - Libreria Editrice Vaticana