terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Tempo e prioridades

Um professor diante da sua turma de filosofia, sem dizer uma palavra, pegou num frasco grande e vazio de maionese e começou a enchê-lo com bolas de golfe.
A seguir perguntou aos estudantes se o frasco estava cheio.
Todos estiveram de acordo em dizer que "sim".
O professor então pegou numa caixa de fósforos e esvazio-a dentro do frasco de maionese.
Os fósforos preencheram os espaços vazios entre as bolas de golfe.
O professor voltou a perguntar aos alunos se o frasco estava cheio, e eles voltaram a responder que "sim".
Logo, o professor pegou uma caixa de areia e vazou-a dentro do frasco.
Obviamente que a areia encheu todos os espaços vazios e o professor questionou novamente se o frasco estava cheio.
Os alunos responderam-lhe com um "sim" retumbante.
O professor em seguida adicionou duas chávenas de café ao conteúdo do frasco e preencheu todos os espaços vazios entre a areia.
Os estudantes riram-se nesta ocasião.
Quando os risos terminaram, o professor comentou:
- "Quero que percebam que este frasco é a Vida.
As bolas de golfe são as coisas importantes - a família, os filhos, a saúde, a alegria, os amigos, as coisas que vos apaixonam. São coisa que mesmo que perdêssemos tudo o resto, a nossa vida ainda estaria cheia.
Os fósforos são outras coisas importantes, como o trabalho, a casa, o carro, etc.
A areia é tudo o resto, as pequenas coisas. Se primeiro colocamos a areia no frasco, não haverá espaço para os fósforos, nem para as bolas de golfe.
O mesmo ocorre com a Vida. Se gastamos todo o nosso tempo e energia nas coisas pequenas, nunca teremos lugar para as coisas que realmente são importantes.
Presta atenção às coisas que realmente importam.
Estabelece as tuas prioridades... e o resto é só areia."
Um dos estudantes levantou a mão e perguntou: - "Então e o que representa o café?".
O professor sorriu e disse:
- "Ainda bem que perguntas! Isso e só para lhes mostrar que, por mais ocupada que a vossa vida possa parecer, há sempre lugar para tomar um café com um amigo."

Uma sociedade desumanizada

RR on-line 31-01-2012
Francisco Sarsfield Cabral
Numa sociedade cada vez mais envelhecida e onde enfraquecem os laços tradicionais de família e de vizinhança, o individualismo está a ceifar vidas.
Na semana passada, duas idosas foram encontradas mortas no seu apartamento em Lisboa. Ao contrário de muitas outras pessoas de idade avançada, estas senhoras não viviam em andares altos de prédios antigos onde não existem mais habitantes.
O prédio era habitado por várias famílias. Apesar disso, ninguém se dera conta da tragédia. O que mostra até que ponto é grande o isolamento de velhos doentes que não têm família, nem amigos que os visitem e apoiem.
Só em Lisboa, no ano passado foram encontradas 79 pessoas mortas nos seus apartamentos. Depois do caso que referi, foram encontrados mais idosos mortos em casa.
E este drama macabro não acontece apenas nas grandes cidades. O bispo de Bragança, D. José Cordeiro, mostrou-se “incrédulo e preocupado” com o abandono dos idosos na sua diocese.
Numa sociedade cada vez mais envelhecida e onde enfraquecem os laços tradicionais de família e de vizinhança, o individualismo torna desumanas muitas vidas. Às vezes, até as mata.
É altura de parar para pensar na sociedade que estamos a construir ou a deixar construir.

Janeiro 2012

Terminou o primeiro mês de 2012.
Vou tentar fazer uma síntese das vagas de notícias que dominaram o mês e de que o Povo falou.
Quando chegarmos ao fim do ano e se isto correr bem teremos o ano numa penada…
O ano começou com a Mensagem do Papa para o dia mundial da Paz sobre a Educação dos jovens para a Justiça e para a Paz.
Se ainda não leu e estudou, não deixe de o fazer. Essencial como construção de esperança no futuro.
Logo nos primeiros dias de Janeiro conheceu-se o caso da relocação da empresa mãe do Pingo Doce para a Holanda. A história é mais complexa do que pareceu à primeira vista
Veio a seguir o caso que revelou a pertença (não desmentida) de muitos dos nossos políticos à maçonaria. O Povo fez uma pequena pesquisa e coleccionou esta informação para o dossier Maçonaria.
Para além dos tags que catalogam cada mensagem e que podem ser consultados na margem direita do blog, alguns assuntos merecem ser arrumados por temas para posterior consulta fácil. Para já o único que existe é este da Maçonaria.
Quase ao mesmo tempo começou, melhor reacendeu a discussão no Parlamento sobre as “barrigas de aluguer” (dossier já praticamente organizado).
A 8 de Janeiro terminou a Exposição de Pintura “Natureza Morta na Europa II parte” com o título “Na presença das coisas”. Uma excelente mostra de pintura que aproximou por uns tempos Lisboa das outras capitais europeias. Dou-me conta que, muitas vezes, deixamos passar estas oportunidades sem nenhum motivo realmente válido. Outra exposição itinerante que me parece valer muito a pena ver está no Museu de Arte Antiga até ao dia 25 de Março. É uma exposição sobre escultura-sacra espanhola denominada Cuerpos de dolor).
A meio do mês de Janeiro e antecedendo o acordo de concertação social considerado um avanço histórico, debatia-se a questão da origem da dívida e se se devia ou não pagar.
Entre 19 e 20 de Janeiro ocorreu a discussão e votação da modificação da lei da procriação medicamente assistida (PMA) vulgarmente chamada por barrigas de aluguer porque preconizava a legalização da maternidade de substituição. A movimentação de um pequeno grupo de amigos na Assembleia da República foi acompanhada por um despertar de consciência de leitores do POVO. Nesta sondagem da TSF em 10 horas participaram 600 pessoas. Os deputados receberam centenas de e-mails. Não podemos sabê-lo como resultado. O que é facto é que as propostas do PSD e do PS não foram votadas (as restantes foram votadas e chumbadas), tendo baixado à comissão para apreciação.
A Rádio Renascença e o Fórum para a Liberdade de Educação dedicaram a última semana de Janeiro à educação.
Finalmente, a caminho de uma actividade profissional tive a oportunidade de visitar mais uma exposição itinerante, desta vez no Museo do Prado em Madrid: O Hermitage no Prado.

Barrigas de aluguer



segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O teste definitivo

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2012-01-30
Os temas da família são os que mais dividem o nosso tempo. Numa época que aceita pacificamente a liberdade, mercado e democracia, antes tão controversos, é nas questões do casamento, nascimento e morte que se travam os combates culturais. Mas aí existe um teste decisivo.
Portugal anda há muito a reboque das posições extremistas do Bloco de Esquerda. Em poucos anos a legislação saltou de uma atitude equilibrada no quadro mundial para soluções radicais na ponta do espectro. Até há meses a explicação podia ser a vacuidade de valores e oportunismo táctico do Governo Sócrates, cuja irresponsabilidade aliás foi geral. Mas esta explicação conveniente e simplista deve ser abandonada. Vigora um governo diferente e a situação, não só não melhorou, mas agravou-se.
O edifício legal antifamília, abusivamente construído pela maioria socialista, mantém-se intocado sem perspectivas de revisão. Pior, permanece toda a prática administrativa e financeira que aproveita esses diplomas para ir subsidiando o aborto, minando o casamento, prejudicando as famílias numerosas, anulando a liberdade educativa. Sobretudo, foi dada continuidade à cavalgada infame, abrindo-se agora a porta a filhos de mães múltiplas.
Perante tal realidade muitos alarmam-se ou desesperam, mas sem justificação. Vivemos uma vaga cultural, como tantas que as gerações anteriores enfrentaram. Hoje é a defesa da família, há cinquenta anos a empresa livre, há cem o voto das mulheres, há duzentos a extinção da escravatura. Em todos os casos havia uma linha ideológica que parecia dominante, imparável, avassaladora, mas que o tempo se encarregou de esgotar. No embate, o choque surge insuportável e definitivo, e muitos cedem, desviam-se, fogem. Depois, como nas violentas ondas do mar, tudo se esfuma.
Um exemplo nosso serve bem de ilustração. A 11 de Abril de 1975 CDS e PPD assinaram, junto com PCP, FSP, PS e MDP/CDE, o "Pacto MFA-Partidos", que preconizava a "continuação da revolução política, económica e social iniciada em 25 de Abril de 1974, dentro do pluralismo político e da via socializante". Hoje, quando sociedade sem classes e a ditadura do proletariado são personagens de pantomima, parece grotesco que partidos responsáveis tenham caído aí. Mas quem viveu esses tempos dramáticos entende-o bem. Daqui a 37 anos os mesmos partidos envergonhar-se-ão das actuais cedências no campo familiar, tanto quanto hoje se sentem embaraçados pelos compromissos do Verão quente.
Como lidar com uma vaga cultural? Esbracejar face à onda é tolice e fugir cobardia. Devem evitar-se a atitude apática e facilitista, que escamoteia a gravidade do tema em nome da paz podre, e o fanatismo intolerante, que transforma essa gravidade em agressão. Nestas discussões vitais existem três exigências básicas. Primeiro ter ideias claras e opiniões firmes, ao nível da importância do assunto, com argumentos sólidos e elaborados para as suportar. Depois respeitar sempre os opositores, por mais chocantes que sejam as suas posições, procurando um diálogo sereno e profundo. Acima de tudo, deve reinar a certeza que no fim a verdade triunfará. Lutamos, não pelo futuro que só pode ser melhor, mas pelas vítimas pontuais de um mal sem hipóteses.
O Pacto MFA-Partidos não teve consequências por ser parte da vaga marxista que já se aproximava do fim, após rugir há cem anos. Mas os ataques à família ainda crescem imparáveis para o auge. Será a tibieza do actual Governo mais parecida com os Acordos de Munique de 29 de Setembro de 1938, em que o tímido Neville Chamberlain cedeu à violência triunfante de Hitler, precipitando como cúmplice a futura catástrofe?
A onda lasciva está mais perto do fim do que parece. Já chegou à velhice a geração do amor livre, Woodstock e Maio de 68. E será a velhice mais longa e solitária de sempre. Com uma pesada herança de famílias desfeitas, filhos e netos alheios ou não nascidos, promiscuidade, traição, luxúria, enfrenta agora o teste definitivo. As gerações seguintes aprenderão depressa esta triste lição.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico

Sinais dos tempos

Estamos quase no fim do primeiro mês do ano que foi anunciado como o ano difícil.
Se não fossem histórias como esta que podia ter acontecido a qualquer um de nós, facilmente nos iríamos iludindo de que estava tudo bem. O flagelo do desemprego é a coisa com mais graves consequências quer colectivas quer pessoais, porque destrói a pessoa e o seu amor próprio. Em Espanha, por onde acabei de passar, o desemprego atinge 22,5% da população activa. Um número impressionante. Porém, para quem passa, ou para quem vive longe de circunstâncias dessas, é como se nada se passasse.
Em três compactos artigos, Vasco Pulido Valente, historiador, descreve a sequência de eventos que inevitavelmente nos conduziram ao ponto onde estamos. Um análise com a qual não é obrigatório concordar, mas da qual muitos apreciarão a competência.
É possível empurrar as coisas para que fiquem melhores. Dois exemplos:
- Pacheco Pereira faz perguntas pertinentes que , de outro modo cairiam no esquecimento e
- Este grupo de portugueses, profissionais de diferentes ofícios, resolveu juntar-se para investigar e expor o desperdício da administração pública. Se feito com ponderação pode ser um trabalho valioso.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Este país gasta muito dinheiro mal gasto

Público, 2012-01-29
Luís Francisco
São dois Ruis e uma Bárbara, todos na casa dos 30 anos e a viver em Lisboa. Recusam a lógica do não se meter e dizer mal "deles" nas conversas de café. Criaram um blogue para denunciar os gastos despropositados da administração pública. Estão cheios de trabalho.

Estes três juntos podiam constituir um daqueles painéis de comentadores políticos em que as nossas televisões e a blogosfera são férteis. Dois homens e uma mulher, três áreas diferentes de especialização, mas complementares para analisar a temática que se propuseram abordar. Segundo as suas próprias palavras, cada um votou num partido diferente nas últimas eleições. Mas Bárbara Rosa, Rui Abreu e Rui Oliveira Marques não são um painel. Aliás, eles abominam tal coisa. O que eles fazem não é opinar. Eles investigam e denunciam. Há nove meses, criaram um blogue para expor casos de gastos desnecessários ou escandalosos na administração pública.

Chamaram-lhe Má Despesa Pública. Porque "tinha de ser": "O nome é óbvio. Ainda pensámos noutros, mais bonitos, mais artísticos, apelativos. Mas este é que é o nome certo!" Bárbara, jurista, 32 anos; Rui Abreu, 34 anos, arquitecto; Rui Marques, 32 anos, jornalista. Ela é de Viseu, eles de Lisboa (o primeiro) e de Braga (o segundo). Todos vivem e trabalham na capital, embora dois deles em regime free-lance.

Decidiram aplicar o seu tempo a praticar o "dever cívico" de escrutinar as despesas dos organismos públicos. Vasculham o portal onde são publicados os contratos por ajuste directo e descobrem "pérolas" como os 1,25 milhões de euros pagos pela Câmara Municipal de Oeiras por uma escultura de Pedro Cabrita Reis ou os cinco mil euros pagos pelo presidente do Inatel, Vítor Ramalho, para ser entrevistado pela revista País Positivo, que por acaso até é distribuída como encarte publicitário pelo PÚBLICO.

Como é que surgiu esta ideia? Rui Marques é o primeiro a explicar: "Já nem nos lembrávamos... Estivemos a falar nisso antes da entrevista. Teve que ver com uma notícia sobre a renovação da frota da Carris, há menos de um ano. Percebemos que faltava um projecto on-lineque congregasse tudo o que se vai escrevendo na imprensa, mas que fica esquecido logo dois dias depois. E rapidamente descobrimos que havia muitos exemplos que não vinham na imprensa e que nós podíamos dar a conhecer."

Isso foi, portanto, há menos de um ano... "O blogue foi criado a 1 de Abril, o Dia das Mentiras. E muitas das coisas que lá vêm parecem mentira...", especifica Bárbara. Rui Abreu puxa a conversa para um tom mais sério: "A ideia fundamental é que isto, ao contrário do que sempre se ouve nas conversas de café, não é "nós" e "eles". "Eles" são quem gasta o nosso dinheiro!"

O "governante gastador"
Não será difícil aos menos desatentos formar a convicção de que os nossos titulares de cargos públicos têm demonstrado uma notável capacidade para gastar o dinheiro que não lhes pertence de forma que muitas vezes roça a completa irresponsabilidade. Mas o que hoje se diz amanhã já foi esquecido, na voragem incessante da informação. E os portugueses gostam muito de comentar, mas envolver-se... dá trabalho. Fora dos aparelhos partidários há um claro défice de cidadania.

Foi assim que estes três jovens urbanos olharam para a situação. E não se resignaram. Decidiram agir. "É o nosso dever cívico", diz Bárbara. "Participar na vida do Estado é um dever. A cidadania não é só ir votar de quatro em quatro anos, ou de dois em dois!" Para eles, tornou-se óbvio que era preciso fazer mais. "O que é estranho é não haver mais gente a fazer isto. Os partidos, os media... gasta-se muito tempo e espaço, e caracteres, no bate-boca da Assembleia da República, por exemplo, e faz-se pouca investigação", acusa Rui Marques.

O outro Rui gosta de abordar as coisas num tom mais global. É ele quem avança a seguir com a ideia de que, em Portugal, o que temos é "o governante gastador, em vez do governante gestor". E isso explica que "ninguém calcule quanto vai custar a manutenção da infra-estrutura que se mandou construir, ou faça planos sobre a sua futura utilização". É como se a inauguração fosse "o último acto e não o primeiro". Como eles andam sempre com as mãos nesta massa, Rui avança logo com um exemplo: "A Parque Escolar, por exemplo. As novas escolas têm ar condicionado, mas os aparelhos estão desligados e as salas de portas abertas. Porquê? Porque o ar condicionado ligado faz disparar as contas da electricidade e as escolas não têm dinheiro para sustentar essa despesa..."

O retrato do país que obtemos no blogue fica, muitas vezes, perigosamente perto do surreal. Por estes dias, os três vigilantes do Má Despesa Públicaviraram-se para o Banco de Portugal. E revelaram, por exemplo, que o nosso banco central decidiu gastar 245 mil euros em serviços de consultoria financeira durante dois meses e há outros 190 mil destinados a consultoria em matéria de gestão geral. "Algo de errado se passa na capacidade da equipa do banco", concluem.

Denúncias que dão notícia
Esta ironia, garante Bárbara, é muitas vezes a única maneira de lidar com assuntos dolorosos, quanto mais não seja para a nossa carteira. "É rir para não chorar..." Mas eles não querem opinar. Para isso já há para aí muita gente. "Damos a notícia. Divulgamos informação que é pública, mas com uma triagem. Tentamos ser o mais crus possível, só dar atenção aos factos. Acho mesmo que a parte mais dura do trabalho é tentar guardar para nós as nossas opiniões sobre despesas que falam por si."

Uma forma de encontrarem esse equilíbrio é filtrarem o trabalho em conjunto. "Toda a gente "pesca" [vasculha os contratos], mas só se publica depois de debatermos e chegarmos a um consenso", explica Rui Abreu. Embora sem entrar em detalhes, ele é o único que assume já ter sido prejudicado devido à forma como toma posições públicas de denúncia. Mais do que recusarem o medo de poderem vir a pagar pela sua irreverência, o que os caracteriza é mesmo a sensação de que não pensam, sequer, nisso.

"O senhor de Santa Comba já morreu há muito tempo", ironiza Bárbara. E, embora tenha deixado "muita herança", diz Rui Abreu, nenhum deles concebe que, "em democracia", falar abertamente sobre o que o poder anda a fazer com o nosso dinheiro possa ser uma actividade com riscos envolvidos. Para mais, esta é a primeira vez que dão a cara. Os textos do blogue não são assinados, não porque algum deles tivesse receio de assumir o que escreve, mas porque a intenção era não assumir protagonismo. "Nunca foi essa a ideia", assegura Rui Marques.

Seja como for, a sua actividade começou a dar nas vistas. O blogue tem cerca de 130 mil visualizações e há 1300 seguidores no Facebook. Alguns deles serão jornalistas... "O impacto do que escrevemos só pode ser maior se houver notícias dos casos que relatamos", assumem. E já houve. Algumas até sem citarem a fonte, o que os deixa aborrecidos.

Mas eles sabem que estão a ser ouvidos. Quando denunciaram os planos de construção de um parque de estacionamento subterrâneo em Baião, receberam esclarecimentos, "de grande nível", da autarquia e do gabinete de arquitectos envolvido. Uma leitora do blogue escreveu ao presidente da Câmara de Cascais sobre a intenção da autarquia de gastar 120 mil euros em estudos para aquilatar da opinião dos munícipes sobre o desempenho dos autarcas e foi-lhe comunicado que o projecto fora cancelado...

O regabofe de 2009
Serão excepções. Tal como a generalidade dos portugueses, os poderes públicos não gostam de ser questionados. Azar deles. "Nós queremos promover o debate. E, curiosamente, quanto mais pequeno é o lugar ou instituição que denunciamos mais facilmente obtemos reacções", explica Rui Abreu. "Acreditamos que as pessoas podem reagir e pressionar os poderes", completa Bárbara.

De fora do seu raio de acção ainda fica muita coisa. As regalias dos titulares de cargos e postos de topo, por exemplo. "É muita burocracia para obter respostas. Não está à distância de um clique e isso impede-nos de ir mais longe", explica Bárbara. Pior ainda é o caso das fundações, que não estão obrigadas por lei a publicar os seus contratos.

Mas eles porfiam. E vão revelando contas estranhas da Madeira (dois meses depois descobriu-se o buraco orçamental), a estranha paixão dos organismos públicos por agendas e calendários, a dimensão das despesas da Presidência da República, as empresas pagas para prestarem serviços que não aparecem feitos, as extravagâncias de alguns autarcas, as irresponsabilidades de outros, a aparente inimputabilidade de quase todos.

Fazem-no sem qualquer bandeira que não "a cidadania", ao contrário de outros grupos - contra as portagens, os recibos verdes, as propinas -, que têm uma causa, uma agenda própria. Numa altura em que as pessoas se mostram receptivas a denúncias, eles admitem que os melhores casos de gastos estapafúrdios podem estar no passado (2009, ano de duas eleições, foi fértil), uma vez que a austeridade limita a capacidade de gastar mal.

Mas eles encontram sempre alguma coisa. E pegam, irritando muita gente e incomodando ainda mais. Rui Marques recorda uma: "O presidente do Inatel chegou a dizer que a nossa denúncia tinha por trás interesses de privatização ao serviço de determinado grupo económico... Parece uma coisa de Hollywood: procura-se uma grande conspiração e afinal são só três tipos que não vêem novelas."

Sinais dos tempos

José Ribeiro e Castro
Avenida da Liberdade
29-Jan-12
Há bocado, estacionando o carro no Campo Grande, abeirou-se de mim uma pessoa a pedir. Acontece muitas vezes. Às vezes, ligo; outras vezes, nem por isso. Hoje, prendeu-me a atenção. 
Pedia-me ajuda, que tinha fome. Pedia-me uma moeda, para almoçar. Dei-lhe esmola. Reparei que estava relativamente composto. Tinha bom aspecto. Estava envergonhado. Falava baixo. A medo. Perguntei-lhe: «Está desempregado?...» Disse-me que sim, com as lágrimas nos olhos: «As pessoas olham para os cabelos brancos e acham que já não sabemos trabalhar.»
Perguntei-lhe se já tinha procurado ajuda nas instituições sociais. Que sim: «Fui à Junta de Freguesia e mandaram-me à Misericórdia. Fui à Misericórdia e mandaram-me à Segurança Social. Fui à Segurança Social e mandaram-me para a Junta de Freguesia...» Insisti ainda: «Então e o Rendimento Social de Inserção?» Disse-me que seriam 95 euros por mês... E fiquei até sem saber se os recebia, ou não.
Perguntei-lhe se era dali. Que não: «Não, senhor doutor. Vivo na Charneca da Caparica. Tenho que andar por aí, a ver se encontro quem me ajude.» 
Depois, perguntou-me ele: «Não é o Dr. Ribeiro e Castro?» Respondi-lhe que sim. Disse que me conhecia da televisão e mais umas coisas simpáticas. Achou-me muito mais magro e quis saber: «Não está doente, pois não?» Disse que não. Comentou: «Ah! Ainda bem.»
Perguntei-lhe qual era o seu ofício e que idade tinha. Respondeu-me: «Era cortador de carnes, mas o talho teve que dispensar pessoal.» E disse-me que tinha 58 anos. De novo com as lágrimas nos olhos, sussurrou: «Às vezes, sinto-me de tal maneira que me passam umas coisas pela cabeça...»
58 anos é também a minha idade. Dei-lhe uma palmada no braço. Desejei-lhe boa sorte. 
Tempos difíceis, estes. Muito difíceis.

Esquerda e direita (I, II e III)

Esquerda e direita (I)
Público 2012-01-27
Vasco Pulido Valente

Lendo e ouvindo na televisão o dr. Mário Soares, mesmo a criatura mais desprevenida pode ver na história daquela vida exemplar (e de certa maneira fascinante) a história do socialismo desde o confuso fim da II Guerra até aos melancólicos dias por que passa hoje, na impotência e na esterilidade. Como dizia o outro, o tempo tem marés; e à primeira vista Soares foi sempre levado pela maré certa. Entre 1950-55 e 1970, bem antes da crise do petróleo, a Europa (ainda sem aspas) parecia finalmente ter conseguido resolver os problemas de uma era: havia crescimento, pleno emprego e um Estado social, que não parava de se expandir e de se aperfeiçoar. McMillan (de resto, um conservador) resumiu o milagre numa frase: " You have never had it so good ." Pouco antes da catástrofe.

Quando chegou o "25 de Abril", ainda se tentava por aqui e por ali resistir à evidência. A América, enterrada no Vietname, deixara de ser o banqueiro universal. Na "Europa" (agora já com aspas) o crescimento diminuía e o desemprego aumentava. Pior do que isso, o Estado social, orgulho do socialismo (e da democracia-cristã), esse "modelo" que a velha esquerda exibia triunfante à inigualitária América, começava a falhar: por falta de financiamento e de eficácia, por excesso de burocracia, pelo peso de uma carga fiscal cada vez maior. E, sobretudo, porque não se conseguira limitar e ano a ano absorvia, como é óbvio, em nome de altíssimos sentimentos, funções de uma indefinição utópica ou de irresponsabilidade radical, que dinheiro nenhum seria capaz de sustentar.

Para usar o calão da época, o Portugal de Salazar e de Caetano era um país do Terceiro Mundo, quando o socialismo e a "social-democracia" chegaram ao governo e, para se legitimar, decidiram construir um Estado social como na "Europa", no preciso momento em que pela "Europa" inteira o Estado social se ia pouco a pouco e se tornava um obstáculo à transformação e desenvolvimento da economia. Os "fundos" de Bruxelas disfarçaram transitoriamente esta cega corrida ao suicídio. Mas não duraram o suficiente. E, a seguir, veio o desespero e, com ele, o recurso sistemático ao empréstimo, como se a vida acabasse amanhã. Não vale a pena comentar onde esse caminho nos levou. O que vale a pena perceber é que a política do PS (e também, à sua maneira, do PSD) assenta nesse facto básico. Como se verá.



Esquerda e direita (II)
Público 2012-01-28
Vasco Pulido Valente

O Estado Social foi inchando e com ele, inevitavelmente, a burocracia que o sustentava e que, fornecendo emprego à classe média, em certa medida o supria. Mais grave do que isso, o Estado Social invadiu áreas que nunca antes tutelara e o próprio progresso tecnológico (por exemplo, na medicina) o obrigou a entrar em outras, que pouco antes não existiam. Os partidos, tanto na administração central como na administração local, tiveram de aceitar esta nova realidade. Para ganhar uma eleição, era preciso apresentar "obra" e o número de "obras" que se inauguravam em campanha aumentou prodigiosamente: a educação e a saúde, o betão, os transportes, tudo o que alguém ou algum grupo reclamava com alguma persistência e força. A ficção de que Portugal se tornara de repente um país próspero alimentou a fantasia de uma espécie de Providência pública cada vez mais benévola e extensível.
O PSD de Cavaco ainda conseguiu preservar um certo equilíbrio. Daí em diante, o PS, excepto por um ou outro intervalo de lucidez, abriu o saco e não quis saber quem lá metia a mão, à sombra largamente mítica da "solidariedade" e da "justiça". Não faltaram avisos. Barroso até disse na Assembleia que Guterres nos deixara "de tanga". E os prognósticos na "Europa" e na América pioravam de ano para ano. O rei ia nu. Mas que podia fazer o PS, excepto ignorar a realidade e persistir na importância e na primazia do Estado Social? A sua identidade era essa; e a sua natureza. Não havia maneira de ignorar o que esperavam dele.

Quando a catástrofe finalmente chegou, só lhe ficava um papel: resistir à mudança. Lutar contra cada "corte" e defender cada benefício - com razão ou sem ela. Como antes já lutara Álvaro Cunhal, pelas "conquistas" constitucionais do PREC, que não valiam nada excepto para ele. É este o papel que hoje desgraçadamente cabe ao pobre Seguro, com a sua suavidade e a sua modéstia, enquanto a facção de Sócrates lhe tenta atrapalhar a vida e continua a berrar por um chefe morto; e os peritos da seita seriamente aconselham a "federalização" da dívida, como se não soubessem que a "Europa rica" a pés juntos recusa essa habilidade patética. Tarde ou cedo, o mundo acabará por engolir o PS, como engoliu o PC. Afinal que tem ele para oferecer ao país, sem dinheiro e sem crédito político (ou bancário), e sem sequer a simpatia e o apoio dos velhos companheiros de Soares? A "indignação" que o despreza? Ou a "rua" que não o segue?
Esquerda e direita (III)
Público 2012-01-29 Vasco Pulido Valente

OPSD percebeu primeiro (se "perceber" é a palavra) o desastre que se aproximava. Por várias razões. Primeiro, porque sempre esteve mais ligado aos "negócios" do que o PS. Segundo, porque parte do seu pessoal económico e financeiro vinha de empresas ou da banca. E, terceiro, porque uma parte da geração que chegou ao governo durante Cavaco e a seguir ao "cavaquismo" se formara na América e, bem ou mal, absorvera a ortodoxia americana. Ainda por cima, o PSD - excepto pelo curto intervalo de Barroso e de Santana Lopes - vegetou quase quinze anos na oposição, inteiramente imerso numa guerra civil interna que paralisou o partido e por um pouco não o destruiu. Apesar disso, no meio dessa longa trapalhada, houve tempo para descobrir que a situação de Portugal se tornava pura e simplesmente insustentável.

Só que o PSD (ao contrário do CDS), estava ligado às suas clientelas na administração central e, sobretudo, na administração local, e não tinha grande espaço de manobra. Ou, pelo menos, não tinha o espaço de manobra que a crise e o memorando da troika mais tarde lhe abriram. O que, de resto, não lhe resolveu os piores problemas. Parcialmente responsável pela paternidade do Estado Social e da burocracia a que na altura Cavaco chamou "o monstro", o PSD não podia inverter de repente a sua posição tradicional e anunciar que se convertera por iluminação celeste a uma versão indígena do neoliberalismo. Neste aperto, que dura até hoje, foi dando uma no cravo e outra na ferradura, à espera que da mistura acabasse tarde ou cedo por sair qualquer coisa de bom.

Infelizmente, não contou com a sociedade portuguesa. Uma sociedade rural que passou para uma soi-disant sociedade de serviços, sem nunca verdadeiramente se industrializar. Uma sociedade dependente do Estado, desde "a sopa do convento", agora não por acaso ressuscitada. Uma sociedade parada e conformista, que odiava (e odeia) o individualismo e a mudança ("indivíduo" continua a ser um termo pejorativo em Portugal). E uma sociedade que sempre se queixou em vão da falta de uma iniciativa privada, que não aparecia ou morria depressa. O Governo de Passos Coelho não viu, e persiste em não ver, o país real e julga que o transformará, restabelecendo a liberdade, a concorrência e a inovação na economia. Sucede que Portugal não é a América, nem a Europa do Norte. Não se cria uma cultura com uma retórica emprestada e meia dúzia de leis. Depois da dívida e do orçamento, ficará o país do costume: obediente e resignado, com vaga esperança de um milagre improvável.

Sète

Canal Royal

sábado, 28 de janeiro de 2012

Girona

Fotos de Girona
Esta foto de Girona es cortesía de TripAdvisor

O Hermitage no Prado


The Hermitage in the Prado (até 25 de Março)  compra de bilhetes on-line

Pietá (O Hermitage no Prado V)

Pietá
Paolo Varonese
(1576-1582)
Óleo sobre tela (147x115)
Museu Hermitage
S. Petersburgo

Senhora com chapéu preto (O Hermitage no Prado IV)

Kees van Dongen
(1908)
Museu Hermitage
S. Petersburgo

Põr do sol (irmãos) (O Hermitage no Prado III)

Caspar David Friedrich
(ca. 1835)
óleo sobre tela 26x31 cm
Museu Hermitage
S. Peterburgo

Paisagem azul (O Hermitage no Prado II)

Paul Cezanne
(1903)
óleo sobre tela 102 x 83 cm
Hermitage, S. Petersburgo
Russia

Perguntas que não levam a parte nenhuma

Público 2012-01-28 José Pacheco Pereira
 
Do "desvio colossal" ao silêncio sobre a privatização das rádios públicas e ao falhanço das últimas manifestações de "indignados"

1. POR QUE RAZÃO É QUE CONTINUAMOS SEM SABER SE HOUVE "DESVIO COLOSSAL" OU NÃO?

Com o início deste Governo deu-se algo de muito parecido com o início do Governo Sócrates de 2005 e muito parecido com o Governo Barroso de 2003: na retórica política encontrou-se um "facto-pretexto" destinado a justificar uma inflexão de medidas prometidas em campanha eleitoral. Barroso descreveu um país de "tanga" deixado por Guterres em que o "choque fiscal" seria impossível, embora fosse uma promessa central da campanha eleitoral. Sócrates encontrou no défice virtual convenientemente calculado pelo Banco de Portugal o modo eficaz de esquecer as suas promessas eleitorais de baixar os impostos. Passos Coelho encontrou no "défice colossal" o argumento para cortar metade do subsídio de Natal, que explicitamente jurara não fazer durante a campanha.

Compreende-se como estes argumentos são centrais nos mecanismos de legitimização política. Sem um forte motivo, não haveria maneira de manter a face perante os eleitores ainda bem lembrados por uma memória demasiado viva dos debates eleitorais. Mas eu referi tratar-se de "factos-pretexto", ou seja, tem que ter alguma factualidade. O relatório Constâncio sobre o défice veio a revelar-se muito pouco credível nos seus critérios, mas cumpriu a função legitimadora. O "desvio colossal" exerceu o mesmo papel, mas parece agora contestado por entidades independentes como "facto". Ou seja, a UTAO, muito gabada pela desmontagem que fez dos números orçamentais de Sócrates, agora vem pôr em causa a tese governamental PSD-PP. Ficamos assim sem saber ao certo o que se passou e não é de todo irrelevante tirarmos uma conclusão mais segura. O PS vai desejá-lo, porque isso o iliba, o PSD opor-se-á, porque isso o compromete. Eis uma pergunta que não terá pernas para andar, até porque muitos economistas com um papel central no discurso pró-governamental já se comprometeram com a justificação do abandono das promessas em nome do "desvio colossal".

2. POR QUE RAZÃO NINGUÉM FALA EM PRIVATIZAR AS RÁDIOS PÚBLICAS?

A televisão é o grande instrumento de poder na comunicação social e por isso é normal que a atenção política se centre na privatização anunciada de parte da RTP e no desenho futuro ainda por conhecer da empresa estatal. Mas surpreende-me o silêncio e ausência de discussão sobre o facto de, no universo da comunicação social pública, haver um importante sector de rádio: vários canais de rádio tradicionais, e vários na Internet. Ora todos os problemas que se colocam com os canais televisivos da RTP colocam-se com ainda mais agudeza na rádio, onde a oferta privada é mais sólida e importante e não custa nada aos contribuintes. Temos a Rádio Renascença, ou a TSF, só para ir a dois exemplos influentes de um universo de rádios privadas numeroso e activo, cobrindo todas as formas de música, clássica, ligeira, portuguesa, fado, rock, e um jornalismo de qualidade, agressivo e competitivo.

O que é que justifica existir um pesado sector comunicacional de rádios públicas? A resposta é certamente a mesma que é dada para os canais televisivos da RTP: à esquerda, ideologia da superioridade do público sobre o privado; à direita poder, manter um braço armado na comunicação social que depende de escolhas políticas.

3. POR QUE RAZÃO FALHARAM AS ÚLTIMAS MANIFESTAÇÕES DOS "INDIGNADOS"?

A comunicação social tem estado relativamente silenciosa sobre o estrondoso falhanço das últimas manifestações "indignadas", como se não houvesse nada a perguntar, nem nada a analisar. O mesmo se diga da patética manifestação contra Cavaco Silva, que nem sequer 200 pessoas reuniu, apesar de ter sido abundantemente anunciada na comunicação social, incluindo a televisiva. Ora tenho para mim que qualquer manifestação hoje que mereça a simpatia benevolente da comunicação social (como aconteceu com os exemplos referidos) que tenha menos de alguns milhares de pessoas obriga a analisar não apenas os factores de atracção em que se baseia o apelo, mas também os factores de repulsão que afastam as pessoas.

A primeira manifestação da chamada "geração à rasca" (a designação de "indignados" era ainda muito minoritária) foi um grande sucesso. Mas é o caso típico de uma manifestação unanimista, que desde a JSD à extrema-direita, de grupos de "artistas" à extrema-esquerda, do PSD ao BE ao PCP, teve todo o mundo e ninguém a apoiar e uma comunicação social activa e ultra-simpática a divulgá-la. Só quem não era patriota é que não saía à rua. Ah! E havia um pequeno pormenor - era contra José Sócrates no clímax da sua impopularidade. Tinha que ser um sucesso e foi, mas gerou a ilusão de que poderia dar origem a um novo tipo de movimentos, o que também entusiasmou muitas redacções sempre prontas a encontrar "novos" movimentos sociais e depreciar os "antigos".

Mas o sucesso da segunda manifestação só existiu enquanto se esteve longe do folclore das "assembleias populares" em frente ao Parlamento e deveu-se ao mais antigo dos movimentos sociais, a CGTP, mais o PCP. Foi isso que encheu as avenidas e foi isso que se rarefez, quando as tropas disciplinadas dos sindicatos e do PCP se recusaram a participar nas cenas excitadas de grupos que acham que o povo são eles e que podem fazer um soviete a brincar nas escadas da Assembleia. Já aqui se percebeu que estavam em jogo factores de rejeição e que essa rejeição foi do vanguardismo mimético da cena entre o hippiee o leninista, no meio de tendas de campismo e lixo, que se pretendeu montar sob o arrogante nome de "assembleia popular".

Por isso, a terceira manifestação foi um falhanço completo. Sem a CGTP, ficou apenas o folclore, alguns genuínos indignados e uma extrema-direita que usa a mesma linguagem dos radicais indignados e por isso estava lá por direito próprio. O mesmo se pode dizer da protomanifestação da "moedinha para o Cavaco", um ainda maior falhanço, apesar da publicidade na comunicação social, em que a todos os outros factores de rejeição se acrescenta o facto de os jornalistas gostarem muito do engraçadismo, mas a maioria das pessoas, mesmo irritadas com Cavaco Silva, não acharem bem o gozo com a figura do Presidente.

Como é que isto vai continuar? Um pequeno número de protoleninistas e anarquistas vão tentar provocar incidentes, como se esses incidentes revelassem qualquer "luta de classes", os "artistas" vão continuar a fazer cenas de rua, e tudo isto só ultrapassará a paisagem do Camões e da Rua do Carmo, se a CGTP e o PCP quiserem. Até agora não quiseram. Historiador

AS PERGUNTAS QUE SE VÃO SEGUIR:

Por que razão é que Obama, mesmo quando faz mal, faz bem?

Por que razão os blogues têm cada vez menos importância?

Por que razão a comunicação social dá importância a coisas sem importância nenhuma?

O lago em Montgeron (O Hermitage no Prado I)

O lago em Montgeron
Claude Monet

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Gémeos

Galinhas felizes

27-01-2012 8:54 RR on-line
Aura Miguel
Há quem perca a casa por causa da crise, mas as galinhas europeias têm que ter um ninho, um poleiro e terra para esgravatar e desgastar as unhas.
A decadência da Europa está aí, à vista de todos e com problemas sem fim: crise financeira, endividamento das famílias, insolvências, desemprego, fome.
Há famílias que perdem a sua casa por causa das dívidas. É grande a desorientação sobre as prioridades, há muita confusão sobre os valores da família e educação... Já para não falar na solidão e desespero de tantos, nos idosos que morrem abandonados, nos rostos tristes ou apreensivos de muitos que se cruzam connosco, no desencanto que nos espera no próximo futuro.
Mas a razão destas minhas palavras sobre a decadência da Europa não tem a ver com o que disse até agora, porque problemas sempre os haverá. Tem, sim, a ver com a maneira como as nossas instituições, nomeadamente, ao nível europeu, enfrentam tudo isto.
Então não é que ontem mesmo a Comissão Europeia ameaçou multar Portugal por não cumprir uma directiva com indicações fundamentais para galinhas felizes?! Sim: a Europa quer galinhas poedeiras felizes e quem não lhes der um espaço com 750 cm2, uma cama, um ninho, um poleiro e terra para esgravatar e desgastar as unhas será multado...

Contrastes

Vivemos num mundo de contrastes!
O comentário de hoje de Aura Miguel fala-nos de galinhas felizes, fazendo-nos notar que, num tempo em que muita gente perde emprego e casa, a Comissão Europeia ameaça multar vários países, entre os quais Portugal, por não porem em prática uma directiva comunitária sobre bem-estar animal.
Também nesta semana Francisco Sarsfield Cabral, nota que a ineficácia dos serviços sociais acaba por também prejudicar aqueles que quer ajudar.
Ainda, segundo João César das Neves, a CGTP,  ao abandonar a mesa das negociações, parecendo ter ficado bem na fotografia, prejudicou os trabalhadores seus associados, que diz defender.
O que falta é razoabilidade, isto é, não basta ter razões (as galinhas precisam de ser bem tratadas, os menos favorecidos devem ser apoiados pela sociedade e os sindicatos devem defender os interesses dos trabalhadores); é preciso ter razões adequadas.

A alternativa é um mundo de regras comentado com desencanto por T. S. Elliot:

“…um mundo que procura inventar sistemas sociais tão perfeitos a tal ponto que os homens já não teriam necessidade de ser bons.”

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Silêncio e palavra

Os homens sábios falam porque têm alguma coisa para dizer; os tontos falam porque têm que dizer alguma coisa
Platão

Desde que li esta sábia frase de Platão pela primeira vez, que me confronto frequentemente com a pergunta que me coloca do lado dos sábios ou dos tontos.
Vem isto a propósito da espantosa e sábia mensagem que o papa Bento XVI nos envia com vista ao próximo dia mundial das Comunicações Sociais que tem por título: “Silêncio e Palavra: caminho de evangelização
Está cheia de frases preciosas organizadas, como nos tem habituado, numa sequência lógica e especialmente clara. Vale muito a pena ler.
Deixo esta que me tocou especialmente:
Calando, permite-se à outra pessoa que fale e se exprima a si mesma, e permite-nos a nós não ficarmos presos, por falta da adequada confrontação, às nossas palavras e ideias.

Bem-estar dos animais: Comissão insta 13 EM, entre os quais Portugal, a aplicarem a proibição relativa às gaiolas de galinhas poedeiras

Agro-portal, 2012-01-26
Através de uma carta de notificação formal pedindo informações, a Comissão Europeia convidou hoje a Bélgica, a Bulgária, a Grécia, a Espanha, a França, a Itália, Chipre, a Letónia, a Hungria, os Países Baixos, a Polónia, Portugal e a Roménia a tomarem medidas para superar as deficiências na aplicação da legislação da UE em matéria de bem-estar dos animais e, mais especificamente, a aplicar a proibição de gaiolas «não melhoradas» para galinhas poedeiras, em aplicação desde 1 de Janeiro de 2012, tal como previsto pela Directiva 1999/74/CE.
A decisão política da proibição de gaiolas «não melhoradas» foi adoptada em 1999. Os Estados-Membros tiveram 12 anos para assegurar uma transição harmoniosa para o novo sistema e aplicar a directiva. No entanto, até agora, e não obstante os apelos reiterados da Comissão, os Estados-Membros acima mencionados não alcançaram uma conformidade adequada com o direito da UE.
A Directiva 1999/74/CE exige que, a partir de 1 de Janeiro de 2012, todas as galinhas poedeiras sejam mantidas em «gaiolas melhoradas», com mais espaço para fazer ninho, esgravatar e empoleirar-se, ou em sistemas alternativos. Nos termos da directiva, só podem ser utilizadas gaiolas que prevejam, para cada galinha, pelo menos 750 cm² de superfície da gaiola, um ninho, uma cama, poleiros e dispositivos adequados para desgastar as garras, que permitam às galinhas satisfazer as suas necessidades biológicas e comportamentais.
A plena conformidade dos Estados-Membros com os requisitos da directiva é essencial. É evidente que os Estados-Membros que não cumpram as suas obrigações legais não só geram consequências para o bem-estar dos animais, como também podem dar origem a distorções no mercado e a uma concorrência desleal. Os Estados-Membros que ainda autorizam a utilização de gaiolas «não melhoradas» colocam em desvantagem as empresas que investiram na conformidade com as novas medidas.
Assim, na sequência da acção hoje adoptada pela Comissão, os Estados-Membros em causa dispõem de um prazo de dois meses para responderem à carta de notificação formal nos termos dos processos por infracção da UE. Caso não reajam de forma satisfatória, a Comissão enviará um «parecer fundamentado», solicitando aos Estados-Membros em causa que tomem as medidas necessárias para dar cumprimento à directiva no prazo de dois meses.

Os Filhos da Mentira

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
O milagre da multiplicação dos pais e das mães
Jesus Cristo fez o milagre da multiplicação dos peixes e dos pães, mas a igualdade de género faz mais: multiplica, desgraçadamente, os pais e as mães.
Se uma criança pode ter duas «mães», a verdadeira e a falsa, já que não pode ter sido gerada por ambas, pode ter ainda mais. Com efeito, se a verdadeira mãe morre, ficando a filha ao cuidado da falsa e a dita «viúva» casar com outra, também esta será, pela mesma razão, «mãe» da menor, portanto sua «mãe» duplamente falsa. Se aquela «viúva» morrer e lhe sobreviver a pessoa com quem casou, em segundas núpcias, pode esta, a dita «mãe» duplamente falsa, por sua vez casar com uma nova mulher, que será portanto a quarta «mãe» da criança em causa, ou sua «mãe» triplamente falsa. Portanto, se mãe verdadeira há só uma, falsas podem ser três, ou muitas mais!
O mesmo se diga dos «pais». O finlandês Juha Jämsä, casado com o pai de três filhos, que têm mãe, também quer ser «pai» deles: se o conseguir, os ditos terão simultaneamente três «pais» legais: dois progenitores mais um falso pai. Se a mãe voltar a casar com um homem, ainda podem ter quatro: uma mãe e três «pais»!
E se dois homens casados quiserem adoptar um órfão? Não é possível, porque a lei não o permite. Que fazer? Basta dar prioridade ao «interesse da criança», em detrimento da «ideia antiga» de que a adopção deve imitar a «reprodução biológica». Quer isto dizer que um menor deveria poder ser adoptado por um clube de futebol, por um rancho folclórico ou por uma esquadra da PSP. Genial, não é?
E, ainda, se uma mulher quiser ter um filho, mas não casar? Não pode porque, segundo a actual legislação, a procriação medicamente assistida só é viável a pedido da mulher e do seu marido. Mas – contradizem os activistas da ideologia de género – é uma «violência» obrigar uma mulher a casar, ainda por cima com um homem, para que possa recorrer à fecundação artificial! Se for, também o será que, para casar ou conceber, precise de alguém… Se a geração é um direito individual, invente-se então a reprodução assexuada!
Dois conceitos a distinguir: matrimónio e filiação. São cônjuges os casados, são progenitores os pais. O marido da mãe não é, necessariamente, o pai dos filhos dela, nem a mulher do pai é, por força, mãe da geração dele. Por isso, o marido da mãe que não é pai, é padrasto; e madrasta a mulher do pai, que não é mãe. Substituir padrasto ou madrasta por «pai» ou «mãe» é mentir ao filho sobre a sua identidade e filiação.
Há quem entenda que é a competência parental que conta e não a consanguinidade. Mas então, a adopção deveria ser concedida a equipas de especialistas: quinze «pais» peritos em puericultura, culinária infantil, pedopsiquiatria, línguas estrangeiras e dança substituiriam, com vantagem, pai e mãe, ou duas «mães» ou «pais» menos versáteis.
Mais ainda: se é a competência que interessa e não o parentesco, então mesmo o filho do casal natural, pai e mãe à antiga portuguesa, não deveria ser dado aos seus progenitores, como exige a ideologia de cariz biologista, mas entregue ao Estado, que depois o adjudicaria aos que provassem ser os «pais» mais aptos. Assim sendo, todos os cidadãos portugueses que quisessem «ter» geração, mas não «ser» pais, deveriam provar as suas aptidões parentais em exames nacionais: ser-lhes-iam depois dadas as crianças disponíveis, consoante as suas notas. Logicamente, o primeiro classificado teria direito ao bebé do ano.
Foi à revelia da vontade popular que Portugal entrou no restricto grupo dos países que apostaram na falsificação da família e do matrimónio naturais e, pelo menos 62% dos portugueses, não quer que casais do mesmo sexo possam adoptar menores.
Os recém-nascidos têm direito à família de que e em que nasceram: ao pai e à mãe que os geraram. Só a sua inexistência, ou manifesta incapacidade, pode legitimar a sua substituição por pais adoptivos. Mas nunca dois «pais» ou duas «mães», um verdadeiro e outro falso, porque uma mãe não é outro pai, nem o pai uma outra mãe. Além do mais, o pai do filho de duas «mães», como a mãe do filho de dois «pais», não podem, nem devem, ser excluídos da relação parental.
Esta não é, apenas, mais uma causa fracturante, mas uma questão aberrante. A adopção por casais do mesmo sexo é contrária à dignidade humana e ao superior interesse das crianças. Contra este mal maior, há que defender, sempre, o bem do indefeso menor.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

CGTP

25 | 01 | 2012   17.12H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@ucp.pt
A zanga pública entre as centrais sindicais, que já mete tribunais, é insólita mas pode ter vantagens para a CGTP. Compreende-se que, na pureza dos seus ideais socialistas, a Intersindical não consiga descer a negociar com o vil patronato e o Governo lacaio. Todos temos alguém a quem recusamos ceder e transaccionar.
O problema é que, para lá das posturas mediáticas, existem problemas reais e influentes.
A opção de abandonar a sala fica bem na fotografia mas deixa tudo em aberto. Tendo os seus representantes ficado de fora, os trabalhadores da CGTP são também afectados pelo acordo assinado ou, se não o for, por aquilo que o Governo legislar sozinho. Por isso a posição de virgem ofendida que a Central costuma ter na concertação social, por muito justificada que seja, sai cara aos interesses dos membros.
O momento nacional é grave, e toda a indignação é perfeitamente compreensível. Mas depois de descarregar os nervos, é preciso voltar à vida e enfrentar a triste situação, como todas as suas indignantes circunstâncias. Mais, é preciso compreender que, se os sacrifícios são inelutáveis, há muitas maneiras de partilhar esses custos pelos vários grupos. Aí só aproveita quem estiver à mesa da negociação.
Os «dirigentes da CGTP-IN, não socialistas» que incentivaram João Proença da UGT a negociar o acordo (Antena 1, 19/Jan.) podem ter estragado a pose política da sua Central, mas contribuíram para a sua finalidade, mostrando que lá também há pessoas inteligentes e preocupadas com a vida real dos trabalhadores.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Educar é um risco

A Renascença promove, em associação com o Fórum para a Liberdade de Educação, uma semana da educação, no período de debate da reforma curricular apresentada pelo ministro da Educação para o ensino básico e secundário. Educar é um risco porque é sempre uma proposta à liberdade de cada um. O que está em causa de imediato é uma reforma curricular, mas o que está em jogo verdadeiramente passa por uma reforma de atitudes. 
A começar pela educação na família.
Proponho como reflexão ontológica esta intervenção de D. Manuel Clemente no Congresso do Ensino Superior , no passado mês de Novembro sobre a tarefa da educação que, em última análise, consiste em extrair (e-ducere) do outro o que ele de melhor tem.
É um tema vital para o nosso futuro colectivo de que ninguém se pode sentir excluído. Até porque a educação é uma tarefa pessoal de toda a vida. 
Estejamos, por isso, atentos ao debate que vai acontecer durante a semana na Rádio Renascença.

Silêncio e palavra: caminho de evangelização

msgcomsoc2012

A ineficácia dos apoios sociais

RR on-line 24-01-2012 9:04
Francisco Sarsfield Cabral
Despesas sociais em Portugal têm sido menos eficazes na redução da pobreza do que noutros países europeus.
A redução do défice orçamental a que Portugal está obrigado tem uma consequência perversa: limita as verbas do Estado para apoios sociais, numa altura em que a pobreza aumenta por causa da austeridade. Parece a quadratura do círculo, que agrava a situação dos mais desfavorecidos.

Mas há maneiras, se não de ultrapassar, pelo menos de atenuar este problema. Uma delas, que já aqui referi e está vias de concretização, é uma maior união de esforços entre entidades privadas e públicas no campo social.

Outro caminho é aumentar a eficiência dos apoios sociais. O economista Miguel Gouveia mostra, num artigo publicado no último número da revista "Brotéria", que as despesas sociais em Portugal têm sido menos eficazes na redução da pobreza do que noutros países europeus. “Muitos países gastam menos do que Portugal em políticas sociais, mas obtém maiores reduções na taxa de pobreza”, afirma M. Gouveia.

Há, portanto, que investigar as raízes da actual ineficácia. Para, com menos dinheiro, se conseguir em Portugal um mais efectivo ataque à pobreza.

O dinheiro e a educação dos filhos

Pe. Rodrigo Lynce de Faria
«Por muito que me esforce, não consigo evitar que a minha casa se encha de coisas inúteis. Quando as vi pela primeira vez — tenho de o reconhecer — não duvidei de que eram necessárias. Com o passar do tempo, pelo contrário, vejo que poderia viver perfeitamente sem ter comprado muitas dessas coisas. O problema é que no momento não me lembro disto. Ou melhor, até me lembro, mas convenço-me de que necessito mesmo daquilo — e compro.
«Gostaria, sinceramente, de aprender a comprar com mais sensatez. Ainda mais agora que estamos a viver uma séria crise económica. Há tanta gente a passar necessidades! Gostaria de ter um estilo de vida mais simples, mais austero. No fundo, mais cristão. E ensinar esse estilo de vida aos meus filhos. Dou-me conta de que o excesso de bens estragou-lhes um pouco a educação. A minha mulher pensa o mesmo. E também estamos de acordo em que o exemplo é o primeiro modo de educar. Acho que ainda estamos a tempo de mostrar-lhes na prática que é possível viver melhor com menos coisas».
Palavras de um pai de família que nos fazem pensar. A ideia de consumir com mais ponderação parece estar na mó de cima. Sobretudo em virtude da crise que estamos a atravessar. Muita gente tem o desejo real de controlar melhor as suas despesas. Seria uma pena, no entanto, que fosse somente por este motivo. O consumo prudente não é uma simples medida para economizar — é uma condição fundamental para sermos felizes! Oxalá estas circunstâncias sejam um momento ideal para redescobrirmos isso.
Necessitamos do dinheiro para viver. Disso, ninguém tem dúvidas. Mas identificar a capacidade de gastar com a felicidade é um erro funesto. Uma vida feliz está muito mais relacionada com a qualidade das nossas relações com Deus e com os outros do que com as coisas que tenhamos ou que possamos vir a ter. Para um cristão — e também para qualquer pessoa sensata — não se trata somente de reduzir o consumo, mas de aprofundar em como vai a nossa relação com os bens materiais. Descobrir modos de usá-los como aquilo que são: instrumentos, não fins. Pedir a Deus que o nosso coração não se apegue àquilo que por definição é passageiro e caduco.
O dinheiro não garante a qualidade de vida. Nem garante, evidentemente, a qualidade da educação. Quantas vezes, na educação dos filhos, o problema não é a falta de dinheiro mas o excesso dele? Quantos pais enchem os seus filhos de presentes porque não têm tempo para estar com eles? Talvez a motivação para actuar deste modo seja boa — longe de mim pôr isso em causa! No entanto, não é um modo correcto de educar. Na educação, o tempo não se pode substituir pelo dinheiro nem pelos presentes.
O dinheiro mal gasto estraga a educação dos filhos — e estraga a capacidade dos pais para educarem correctamente. Quantos pais dizem que é preciso ter poucos filhos — um, no máximo dois — para poderem gastar mais com eles e dar-lhes assim uma melhor educação! Mais tarde, dão-se conta de que essa atitude complicou — e muito! — a educação dos seus filhos. Começam a pensar que os filhos teriam sido mais bem educados com menos dinheiro e mais irmãos.

Semana da Educação

Parceria FLE e Rádio Renascença
Ao longo desta semana, que é a última para o debate público sobre a revisão curricular proposta para o ensino básico e secundário, os ouvintes e cibernautas da Renascença vão poder reflectir sobre alguns dos temas que estão em discussão.

Entre segunda e sexta-feira, vão ser lançadas questões para o futuro da educação em Portugal: deve ou não haver liberdade de escolha da escola? Até que ponto deve haver autonomia nas escolas? Como deve ser feita a avaliação dos alunos?

Estes são alguns dos temas que vão estar em debate, que vão ser complementados por reportagens. Esta é também a semana para ouvir o testemunho de muitos portugueses que por esse mundo fora vivem e convivem com outros sistemas educativos.

Esta sexta-feira, dia 27 de Janeiro, o presidente do Fórum para a Liberdade de Educação, Fernando Adão da Fonseca, vai estar na Renascença para responder a estas e outras dúvidas que possa ter.

A sessão de perguntas e respostas passa na antena da Renascença a partir das 12h00 desta sexta-feira. Para deixar as suas questões, entre neste link e siga as instruções. A Renascença irá seleccionar posteriormente as perguntas que vão ser colocadas.

Se preferir ler e colocar directamente a sua pergunta a Fernando Adão da Fonseca, envie as suas dúvidas, acompanhadas do nome e do número de telemóvel, para online@rr.pt

Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos
Art.º 26º da Declaração Universal dos Direitos do Homem

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Frase do dia

Razão é a consciência da realidade segundo a totalidade dos factores
Luigi Giussani
Razoável é portanto, olhar para a realidade não omitindo nada, um esforço de uma vida inteira, uma educação.
Não é razoável ser parcial, olhar apenas para uma parte, ser preconceituoso, ser superficial, generalizar sem fundamento, justificar acções por razões secundárias.
Dois exemplos de irrazoabilidade demonstradas na imprensa de hoje:
João César das Neves no Diário de Notícias usa o mito histórico do mar tenebroso que construiu monstros, ameaças e colossos como referência para comparação com as dificuldades financeiras de hoje. O medo de uns e outros resulta de não olhar para a realidade com a razão, isto é, considerando todos os factores.
Nuno Pacheco no Público ilustra a incompetência do Acordo Ortográfico que se esqueceu de incluir regras que evitem a confusão. Confusão é o resultado de olhar para a realidade de modo parcial e superficial.
Finalmente, para perceber o que realmente aconteceu na passada sexta-feira, na votação “das barrigas de aluguer”, o melhor mesmo é ler a história contada por José Ribeiro e Castro.
Olhar para os santos, muito especialmente para os dois santos mártires lembrados ontem, S. Vicente, padroeiro, principal de Lisboa e sábado, Santa Inês, é uma parte importante desta educação de olhar a realidade segundo a totalidade dos factores; só assim, se pode, paradoxalmente, ganhar a vida, perdendo-a.

O novo mar tenebroso

DN 2012-01-23
João César das Neves
O passado tem sempre boas lições. Por isso, nestes tempos de crise financeira global há muito a aprender com os erros dos marinheiros da época dos Descobrimentos.
A opinião actual sobre mercados financeiros cai facilmente no mito do "mar tenebroso". Como nos primórdios da aventura marítima, as notícias e comentários económicos estão cheios de monstros míticos, ameaças assombrosas, colossos maléficos. Das bolsas às agências de rating, dos bancos às multinacionais, não faltam candidatos a serpentes marinhas do mundo creditício. Serão essas análises erradas? Como os oceanos, as transacções financeiras incluem muitos dramas e imprevistos. Surgem tormentas e calmarias, ventos e naufrágios, piratas, escorbuto e indígenas hostis. Mas esses graves problemas são sempre acidentes, erros e crimes estritamente humanos, não aberrações acéfalas e perversas, como o Adamastor ou o Mostrengo que a lenda constrói.
Passado o susto, quando chegavam a terras longínquas, um segundo erro dos nossos navegantes era interpretar à portuguesa essa realidade exótica. Muita da incompreensão intercultural vinha de quem queria ver uma aldeia minhota nos aluviões indianos. Também hoje grande parte dos erros crassos nasce da simples confusão entre situações financeiras incomparáveis.
Um exemplo disto está nas conversas sobre o valor das acções na bolsa. Há anos que a minúscula cotação de alguns bancos e grandes empresas de referência é por cá tema de chacota ou preocupação, sem que se coloque a pergunta óbvia: se estão tão baratos, porque não são comprados? De facto, por muitos problemas que tenham, os seus activos devem valer muito mais que o apregoado. Mas quem comprasse todo o capital acessível nunca mandaria na empresa, que tem os estatutos blindados. Isto mostra como na Europa continental as bolsas são muito diferentes das anglo-saxónicas.
Grande parte do desenvolvimento mundial das últimas décadas advém das extraordinárias inovações financeiras, que se espalharam pelo mundo na globalização dos últimos 25 anos. O acesso ao capital é sempre decisivo para as empresas e a tradição bolsista americana não só o facilita muito, mas permite uma afectação eficiente dos activos, punindo quem os desperdiça e desviando o dinheiro para actividades produtivas. As finanças são um instrumento excelente mas, sempre baseadas na confiança, são também muito frágeis. Os ganhos conseguidos foram espantosos, sobretudo nos mais pobres, China, Índia e microcrédito. Mas a crise mostra que o crédito é como os automóveis: grandes vantagens com muitos acidentes.
A Europa acordou tarde para as novidades. Só com o projecto do euro a União veio aproveitar progressos que já eram antigos noutros lados. Mas fê-lo à europeia, sem deixar que os mercados ameaçassem a influência das élites económicas. O resultado é evidente: o euro nunca atingiu o dinamismo da zona dólar e ainda suporta uma instabilidade maior.
Um terceiro erro dos antigos exploradores era o oposto do anterior, pois a estranheza das diferenças culturais ocultava muitas semelhanças de comportamento. Um paralelo actual pode ver-se no drama do endividamento das famílias.
As dificuldades financeiras de bancos, empresas e governos têm sido tratadas através de fundos e outros apoios que aliviam a urgência e permitem um ajustamento razoável. Mas no que toca aos créditos pessoais ninguém apresenta respostas. Nesta questão, que gera enormes dramas familiares e afecta crescentemente o nosso panorama bancário, as coisas são resolvidas a quente e à bruta.
Soluções adequadas, paralelas às usadas nos outros sectores, estão bem analisadas tecnicamente por especialistas (ver, por exemplo, www.bridges-advisors.com/ pt-pt/blogs.asp). Falta apenas vontade dos bancos e autoridades para encontrar mecanismos que permitam gerir e aliviar, de forma equilibrada, a carga de dívidas que afoga tantas famílias.
No meio da confusão da crise mundial renascem velhos erros. Os tempos mudam, mas a natureza humana permanece. Por isso, o passado tem sempre boas lições.