quarta-feira, 30 de novembro de 2011

T.S. Eliot, ou o cristão no circo pagão

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
8:00 Quarta feira, 30 de novembro de 2011
Em Ensaios Escolhidos, podemos encontrar um texto muito atual de T.S. Eliot: "A ideia de uma sociedade cristã". Este ensaio de 1939 é um ótimo buraco da fechadura para observarmos os dilemas do cristão na sociedade de 2011.
Eliot dizia que o cristão tem de tentar influenciar a sociedade do seu país a um nível pré-político. Ou seja, não estamos perante a defesa de um Estado cristão, mas ante a defesa de uma sociedade cristã, uma sociedade com o seu centro vital amarrado a valores cristãos. Eliot, aliás, afirmava que é mais importante a existência de uma sociedade cristã do que a existência de governantes cristãos. Porquê? Numa sociedade cristã, um político pagão não consegue impor leis anti-cristãs, porque o tecido social não o permite. Ao invés, numa sociedade pós-cristã e pagã, um governo de políticos cristãos já não tem hipótese, pois está rodeado por uma sociedade que despreza o moral cristã.
Portanto, Eliot afirmava que um cristão deve actuar na sua sociedade, porque o cristianismo é a última linha de resistência contra o mau governo, contra o "governo totalitário pagão". Tudo bem? Tudo mal. Eliot já tinha o problema que aflige os cristãos europeus de hoje: a sua sociedade já era pagã. Eliot queixava-se da ausência de fé nas massas, e, como se sabe, esta queixa é recorrente na atualidade. Em 2011, tal como em 1939, a sociedade já não é cristã, logo, o Estado projecta-se através de leis que ferem a ética cristã. Sim, tal como no tempo de Eliot, ainda existe uma "Comunidade de Cristãos", mas já não existe uma "Comunidade Cristã". O processo de descristianização das sociedade europeias, que estava a atingir a maturidade no tempo de Eliot, é hoje uma realidade mais do que madura. Maduríssima. Há muito que não existe um ethos cristão a limitar a ação do Estado e dos governantes.
Ora, quer em 1939, quer neste século XXI, o afastamento das sociedades em relação ao ethos cristão não se deveu apenas às investidas das hordas pagãs. A preguiça, digamos assim, dos cristãos também deve ser considerada enquanto causa da decadência da fé. Em Portugal, por exemplo, há muito católico de sofá e de teclado. Julgo mesmo que os católicos portugueses esqueceram o conselho de Eliot, isto é, pensaram que as leis do Estado protegeriam para sempre o ethos católico. Como todos os portugueses, os católicos portugueses encostaram-se ao Estado, e negligenciaram um ponto fundamental: é preciso fazer catolicismo todos os dias, na rua, nas paróquias, nos bairros, nas associações, no voluntariado, junto das pessoas. A lei não chega.
PS: uma nova geração de católicos portugueses (ainda mais nova do que a minha) está a desbravar caminho neste sentido. Ainda bem.

Ajudemos o Vale d'Acor

O Vale de Acór vai estar presente em várias feiras de Natal com alguns produtos 'de fabrico caseiro para venda':
Já amanhã, dia 1 de Dezembro, no Altis da rua Castilho - conforme anexo-, a 'Entretantos' (grupo de artesanato da prisão de Setúbal), apresenta os seus trabalhos para venda;
De dia 2 de Dezembro a dia 5 de Dez, a partir das 11h da manhã, o Vale de Acór terá banca montada na feira do Campo Pequeno.
No dia 6 de Dezembro, terça-feira haverá uma grande gala de solidariedade também a favor do Vale d’Acór
A não perder!

Gala de Natal 2011

Gala Natal 2011

Christmas Friends 2011

XmasFriends2011-CASTILHO (1)

Fado e identidade

VASCO GRAÇA MOURA
DN 30 Novembro 2011
O fado de Lisboa é um género híbrido e nem sequer muito antigo (Rui Vieira Nery situa as primeiras referências documentais que lhe são feitas no segundo terço do século XIX). Nasce no Brasil e, transplantado para Lisboa, começa por ser dança de bordel e canção de rameiras. Mas, vindo de além Atlântico, mantinha uma relação com as origens africanas da música dos escravos negros e hoje ainda se pode notar nele algum parentesco com a música brasileira, com a cabo-verdiana e com algum jazz. Não tanto porque o encontremos nos exemplos de época numa perspectiva arqueológica do exame de modinhas e lunduns, mas porque a inovação musical que nele se opera tem intuitivamente presente essa relação ou redescobre essas afinidades.
Nas letras populares que, já aclimatado em Portugal, foram sendo cantadas no fado, era natural que se tivesse desenvolvido uma propensão para falar da saudade que, em literatura, anda entre nós com expressão lírica desde os cancioneiros medievais e com expressão teórica desde o rei D. Duarte.
Como canção de Lisboa, nessa primeira época, o fado situava-se num mundo boémio e muito humilde, de varinas e mulheres da vida, artesãos e marujos, e circunscrevia-se a uns poucos bairros pobres (Alfama, Mouraria) e às suas tabernas. Houve também um fado proletário e anarquista, mas que terá deixado de ter eco popular depois das primeiras décadas do século XX.
Tal como o conhecemos, o fado resulta em grande parte da exigência legal de profissionalização dos intérpretes (1927), do aparecimento das casas típicas em Lisboa, da voga do teatro de revista, do apuramento de letristas populares, compositores e instrumentistas, bem como das exigências da nova indústria discográfica. A partir da década de 1930, não exprime preocupações ideológicas (até pelo facto de funcionar uma censura) e explora exaustivamente e com grande intensidade lírica toda uma série de temas ligados ao amor e às suas vicissitudes (ciúme, paixão, saudade, perda do ser amado...), ao Tejo, a lugares e tempos de Lisboa, becos e vielas, capelas e mercados, e também à vida ligada ao rio e ao mar, a que entretanto se juntam modalidades de marialvismo "ribatejano", ligadas à tourada e ao cavalo.
Os poetas populares têm um papel fundamental nessa fase. São da sua autoria muitos dos fados que continuamos a recordar e que, nalguns casos, atingem uma perfeição técnica inexcedível e de elaboração muito sofisticada, sobretudo em jogos e engenhos de forma e de sentido que têm longa tradição na poesia portuguesa. Mas os poetas ditos cultivados (ou gente ligada ao jornalismo) tinham já feito a sua aparição.
E depois, Amália provoca uma revolução, fazendo entrar de pleno a grande literatura nos territórios do fado e forçando os paradigmas musicais a incorporar outros contributos que hoje reputamos essenciais, como o de Alain Oulman.
Entretanto, as técnicas interpretativas evoluíram muito. E hoje a força do audiovisual introduz modelos e alterações de gosto, cria novas competitividades e confron- tos qualitativos, faz tudo isso em tempo real e apela à juventude. O público do fado é cada vez menos composto por saudosistas envelhecidos e sobreviventes das gerações anteriores (que, aliás, têm um papel de enorme relevo na transmissão de um saber, de uma sensiblidade e de um gosto de experiências feitos) e cada vez mais pelas novas gerações, abertas a um grande sincretismo de manifestações musicais.
Os fadistas cantam cada vez mais autores de poesia dita cultivada. A partir de Carlos do Carmo, têm qualificações escolares e académicas que eram impensáveis nos da geração de Amália. Alimentam uma relação muito mais consistente e versátil com o mundo da cultura e das artes. Procuram conjugar tradição, cosmopolitismo e modernidade. Não recuam ante novas experiências e efeitos vocais e instrumentais. Perceberam que o fado é um género aberto e cada vez mais híbrido. Circulam por todo o mundo e dão espectáculos nos lugares mais prestigiados. São muitos. Ajudam a modelar a expressão de uma sensibilidade numa língua com longa e fortíssima tradição literária. Incorporam nos seus fados muito do que somos.
Embora tivesse acabado por utilizá-lo como elemento de propaganda cá dentro e lá fora, o Estado Novo considerava o fado uma canção degenerada e perigosa para a juventude. A esquerda pensava mais ou menos a mesma coisa.
Hoje, que tanta coisa mudou, estará o fado a tornar-se um dos elementos da identidade nacional?

Frase do dia

"Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

30 de Novembro - Santo André

Santo André e S. Tomé
Bernini, Gian Lorenzo
c. 1627
Óleo sobre tela 59 x 76 cm
National Gallery
London, UK

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A menina da fotografia cresceu e chama-se Maria da Conceição Tina

Emigracao

Choque de titãs

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2011-11-28
Este é o momento do ano com maior elevação estético-artística. As negociações à volta do Orçamento do Estado suscitam sempre assombrosos requintes de retórica e prodígios de embuste. Somando agora o dramatismo e urgência da crise, a temporada do OE de 2012 promete ser a melhor de sempre, trazendo até um toque novo. Se por momentos esquecermos o interesse nacional, podemos deliciar-nos com o simples virtuosismo dos raciocínios e excelência da aldrabice.
A democracia portuguesa tem vindo a melhorar sucessivamente a capacidade de pressão dos interesses e grupos organizados. Hoje as suas técnicas de influência e argumentação estão ao nível do melhor do mundo. Todas as principais corporações têm bem oleadas as suas influências partidárias, com poderosos embaixadores junto a cada centro de poder. Nesta altura Parlamento e corredores dos ministérios são palcos de portentos de distorção e aproveitamento. A lista de propostas de alteração ao Orçamento constitui exposição com mais valor artístico que muitos catálogo de museu.
Este ano o tema central é equidade. Muitos pretendem demonstrar a enorme injustiça por apenas alguns sofrerem cortes, como os servidores do Estado nos dois salários, sem tocar no sector privado. Mas verdadeira equidade significaria que os serviços públicos estariam a ser eliminados ao ritmo das falência das empresas, sendo os funcionários dispensados aos milhares sem indemnização, por extinção da entidade patronal. Aí sim, haveria equidade. Olhar apenas para o corte, sem ligar às outras diferenças, é aldrabice digna das melhores antologias.
Os nossos magistrais políticos não se limitam a protestar, mas dizem apresentar alternativas responsáveis para se conservar um dos salários. Todas elas caem sobre as empresas, em particular nos lucros. Também isso é prodígio de distorção. Estamos no meio de uma crise financeira, que necessariamente faz desaparecer o capital. É essa escassez que cria o drama bancário, a queda brutal no investimento e consequente desemprego e recessão. Neste enquadramento qual a solução apresentada? Carregar ainda mais sobre os lucros das empresas e espremer ao máximo aqueles que poderiam poupar e investir. Depois admiram-se da fuga de capitais, colapso da produção e eliminação de emprego. É tão desmiolado que, se não fosse dramático, seria irresistivelmente cómico.
Nunca chegaremos a descobrir se os que dizem estes disparates acreditam mesmo nisso ou sabem da manipulação. Em qualquer caso hoje os partidos estão totalmente minados pelos interesses, servindo como sua correia de transmissão. PCP e BE vivem da fama. Os proletários só estão na retórica, porque as propostas são para a classe média, que lhes dá o voto. O PS, que há anos esqueceu o socialismo em qualquer dos sentidos da palavra, mudaria com vantagem o nome para Partido dos Serviços, mantendo a sigla. Mostrou-o na ruinosa gestão desde 2005 e confirma-o nesta argumentação orçamental. Desta vez os mais aflitos são PSD e PP, divididos entre o sucesso do Governo e a vassalagem aos interesses. Por um lado sabem que só manterão o poder se cumprirem as exigências dos credores, por outro devem o lugar a quem os elegeu.
Para lá das pérolas de controvérsia, a presente edição do festival traz emoção adicional. Trata-se do primeiro confronto público entre a necessidade premente de austeridade e o poder implacável dos interesses. Quem vencerá este embate de gigantes? De um lado temos a inexorável crise financeira que assola todo o mundo e colocou Portugal numa posição de especial fragilidade. É urgente cortar despesa, indispensável mudar hábitos, forçoso reformar o sistema. Do outro está a invencível força dos grupos de pressão, causa determinante da crise, com décadas de dinheiro público esbanjado a favor dos interesses. Agora, invertendo-se a situação, urge desviar deles os custos do ajustamento. Este é o combate histórico e decisivo da actualidade: a troika inevitável enfrenta os grupos intocáveis. O país segue apaixonadamente o choque de titãs.
naohaalmocosgratis@ucp.pt

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Solidariedade: 2950 toneladas de alimentos contra a fome em Portugal

Campanha do Banco Alimentar juntou mais de 36 mil voluntários
Lisboa, 28 nov 2011 (Ecclesia) - O Banco Alimentar contra a fome angariou mais de 2950 toneladas de alimentos durante a campanha realizada em 1615 superfícies comerciais do país, sábado e domingo, com resultados próximos dos obtidos em 2010 (3265 toneladas). Em comunicado, a instituição revela que os géneros alimentares vão ser distribuídos na próxima semana a mais de 2047 Instituições de Solidariedade Social que os vão entregar a 329 mil pessoas com carências alimentares.
A presidente da Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome, Isabel Jonet, citada pela Lusa, refere que “tanto as quantidades recolhidas como o número de voluntários (mais de 36 mil) ultrapassaram todas as expetativas”.
“Em termos de quantidades, os resultados atingidos comparam muito razoavelmente com os melhores alcançados no ano passado por esta altura do ano, pese embora a evidente contração do rendimento disponível e do poder de compra dos portugueses”, refere.
Até domingo, é possível contribuir online para os Bancos Alimentares Contra a Fome, no site www.alimentestaideia.net, uma nova plataforma de recolha de alimentos na Internet.
Através desta modalidade, o doador encontra um conjunto básico de “produtos disponíveis ao preço mais baixo de mercado”, pode ler-se.
O cabaz de família, que pode ser doado a título individual, é constituído por leite, latas de salsichas e de atum, óleo e azeite, num valor total de dez euros.
Na campanha de novembro de 2010, os 17 Bancos Alimentares contra a Fome conseguiram recolher um total de 3265 toneladas de produtos.
Os alimentos recolhidos foram distribuídos por mais de 1800 instituições de solidariedade social, que os entregaram a cerca de 280 mil pessoas com carências alimentares comprovadas, sob a forma de cabazes ou de refeições confecionadas
Os Bancos Alimentares são Instituições Particulares de Solidariedade Social que “lutam contra o desperdício de produtos alimentares, encaminhando-os para distribuição gratuita às pessoas carenciadas”.

Acordos ou tumultos

Por estas horas, a maioria governamental e o Partido Socialista procuram chegar a acordo para alterar o orçamento, de forma a poder acolher algumas das exigências socialistas.
Raquel Abecasis, RR on-line 28-11-2011 6:33
O entendimento, ao que tudo indica, não deverá alterar nada de substancial, até porque as propostas de alteração apresentadas pelos socialistas eram maximalistas, mas qualquer acordo que venha a ser anunciado, só pode ser bem recebido.
A verdade é que, em matéria de diálogo com o maior partido da oposição, Passos Coelho não tem mostrado grandes diferenças em relação a José Sócrates e isso é, não só de lamentar, mas, também, de temer, porque os tempos não estão para mais crises de meninos que estão a brincar aos crescidos.
O “agora eu mando e tu obedeces” é uma brincadeira divertida para crianças, mas não para adultos, muito menos quando se trata de governar um país em sérias dificuldades.
O que lá vai lá vai, o PS já perdeu as eleições, Sócrates já partiu para outras paragens e é fundamental que Passos Coelho perceba que precisa de trazer o PS para as decisões fundamentais, caso contrário, o “papão” dos tumultos com que gosta de nos assustar torna-se uma realidade muito mais provável em Portugal.

Chorar em público

Público 2011-11-28  Miguel Esteves Cardoso

Quando sair este jornal, a Maria João e eu estaremos a caminho do IPO de Lisboa, à porta do qual compraremos o PÚBLICO de hoje. Hoje ela será internada e hoje à noite, desde o mês de Setembro do ano passado, será a primeira vez que dormiremos sem ser juntos.

O meu plano é que, quando me expulsarem do IPO, ela se lembre de ir ler o PÚBLICO e leia esta crónica a dizer que já estou cheio de saudades dela. É a melhor maneira que tenho de estar perto dela, quando não me deixam estar. Mesmo ficando num hotel a 30 passos dela, dói-me de muito mais longe.

O IPO consegue ser uma segunda casa. Nenhum outro hospital consegue ser isso. Podem ser hospitais muito bons. Mas não são como uma casa. O IPO é. Há uma alegria, um humor, uma dedicação e uma solidariedade, bem-educada e generosa, que não poderiam ser mais diferentes da nossa atitude e maneira de ser - resignada, fatalista e piegas - que são o default institucional da nacionalidade portuguesa. É graxa? Para que tratem bem a Maria João? Talvez seja. Mas é merecida. Até porque toda a gente que os três IPO de Portugal trata é tratada como se tivesse direito a todas as regalias. Há muitos elogios que, não obstante serem feitos para nos beneficiarem, não deixam de ser absolutamente justos e justificados.

Este é um deles. Eu estou aqui ao pé de ti. Como tu estás ao pé de mim. Chorar em público é como pedir que nada de mau nos aconteça. É uma sorte. É o contrário do luto. Volta para mim.

Euronews: contra o apagão

Público 2011-11-28 José Ribeiro e Castro

Ando inquieto com o possível fim da emissão portuguesa do Euronews. Não pode ser.
Já em 2002-03, o destino desse serviço andou tremido. Nessa altura, agi nalgumas frentes a partir da posição de deputado ao Parlamento Europeu. E, por várias diligências, minhas e doutros, os problemas resolveram-se: o futuro ficou assegurado no que é o figurino actual.
Hoje, a RTP garante o canal por dois instrumentos: um, a quotização como accionista em 338 mil euros anuais, com direitos de utilização integral do Euronews; outro, um contrato de produção em português, no valor de 1,66 milhões de euros por ano. É este acordo que estará em risco com a falada reestruturação da RTP: diz-se que o canal acaba em Janeiro de 2013, com denúncia até Julho de 2012.
Não pode ser. A lesão aos interesses do português como língua internacional seria de tal ordem que não acredito que isso aconteça. O que está em causa? Três coisas: a nossa língua; a Europa e a ideia que fazemos dela; e o serviço público.
Em primeiro lugar, a língua. Não podemos dizer que o português é a "terceira língua europeia mais falada no mundo" e, depois, apagá-la por inteiro do ecrã no único canal europeu. O apagão do português do Euronews colocar-nos-ia não na segunda, mas na terceira divisão da competição linguística europeia, atrás, pelo menos, de 12 outras línguas: cairíamos de 3º para 13º.
Imaginemos o Euronews emitindo o Presidente da República a presidir ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, no passado dia 9 de Novembro: falou em português e referiu-se à nossa língua. E imagine-se que nós poderíamos ouvi-lo em inglês, em espanhol, em alemão, em francês, em italiano, em romeno, até em russo, em árabe, em turco ou em farsi, mas... não em português! Quando Cavaco recordou que somos a "terceira língua europeia", qualquer espectador desinformado acharia que estaria a mentir ou a brincar.
Segundo, a Europa. Que ideia fazemos dela e de Portugal na Europa? Saímos da União Europeia? Já desistimos da Europa? Então que sentido faz que deixássemos desaparecer a nossa língua do único projecto europeu de notícias, transnacional e comum, um canal oficioso da União Europeia? Que sentido faz destruir o uso do português nessa alameda central, quando por aí passam interesses e valores estratégicos da nossa afirmação na Europa e no mundo, bem como da lusofonia e da sua percepção global? O apagão no Euronews ajudaria a afundar-nos na periferia e na irrelevância.
Terceiro, o serviço público. A consolidação global do português como grande língua internacional é, sem dúvida, uma missão de serviço público - e de primeira linha. Está adequadamente confiada à RTP, estação de serviço público. Não é ela que paga, somos nós que pagamos. E pagamos bem através da RTP, porque, sendo do meio, é o instrumento público mais adequado para agir no projecto comum Euronews, dele extraindo todas as virtualidades - o que, de resto, bem pode ser melhorado. Mas qualquer outro organismo (como o sugerido Instituto Camões) ou departamento, que fosse escolhido para canalizar a comparticipação portuguesa, andaria perdido e seria um estranho no meio, porque estrangeiro à arte. Ou seja, a cooperação com o Euronews está muito bem confiada à RTP - tem é que ser bem feita, com exigência, critério e propósito estratégico.
O Euronews cresceu muito, desde a criação em 1993. Quando da minha última intervenção em 2002-03, já chegava a 125 milhões de lares em 78 países. Hoje, é recebido em 256 milhões de lares em 155 países - duplicou! E há ainda o portal Internet, também em português. Por aqui, avaliamos bem o dano colossal à nossa língua, como língua global, que resultaria do apagão no Euronews. Só o serviço televisivo em português é, hoje, recebido em 98 milhões de lares em todo o mundo. Tem 800 mil espectadores diários só em Portugal, mais do que a CNN, a Sky ou a BBC no cabo. E há, acima de tudo, os países da CPLP e outros a que chega e pode chegar.
Compreendo o aperto em que o país vive; e as medidas de rigor a que a RTP não é excepção. Apoio isso. Mas não pode dizer-se que, prevendo a RTP dispensar 300 pessoas, não há como manter o Euronews. Decidir o fim deste canal corresponderia a subir os dispensados para 333 - são 33 no canal europeu em português.
A austeridade e o rigor têm que ser compatíveis com a preservação de interesses estratégicos do país. Exige-se essa finura. E a nossa língua, língua internacional de comunicação, é um deles - e dos principais. Por isso, confio no fim da resposta a uma pergunta parlamentar minha: "O Governo, conforme assumido no seu programa, assegurará e privilegiará a difusão da língua portuguesa no mundo, independentemente do medium."
Importa garantir que a RTP siga no circuito e tentar negociar melhor com a gestão do Euronews e a Comissão Europeia, pondo em cima da mesa os precedentes do espanhol, do árabe ou do farsi. Mas, se isto não se conseguir e for mesmo impossível assegurar a contribuição financeira via RTP, há que buscar alternativas, como a convocação dos operadores de cabo ao financiamento da produção do canal que também distribuem - mesmo repercutindo o custo nos subscritores, só custaria 75 cêntimos por ano por cliente.
Há que evitar um desenlace totalmente inaceitável: o apagão do português do Euronews. Ninguém pode conformar-se com tal destino. Antes pelo contrário: o caminho é a crescente afirmação e circulação da nossa língua como grande língua internacional.

domingo, 27 de novembro de 2011

Pendure o seu estandarte de Natal para marcar o início do Advento

Queridos amigos,
Aí está o Natal! E com ele mais um ano em que a Plataforma Estandartes de Natal vem convidar a colocar o Estandarte do Menino Jesus no exterior das nossas casas; com este simples gesto daremos o nosso contributo para a recristianização do Natal português.
Este ano, além do tradicional Estandarte do Menino Jesus, existem outros modelos com o Presépio e a Sagrada Família. Podem ver os vários modelos e saber onde adquiri-los em www.estandartesdenatal.org.
Propomos a todos que coloquem os estandartes nas vossas janelas e varandas no dia 27 de Novembro, data que marca o inicio do Advento.
Será uma forma de criar algum impacto visual nas nossas cidades e aldeias e espalhar os mais de 50.000 estandartes já vendidos nos últimos 2 anos em Portugal. Vamos "incendiar" o nosso país com o fogo do Amor do Menino Jesus?

Saudade das saudades - homenagem ao fado


Fado inscrito na lista representativa do Património Cultural Imaterial da UNESCO

in: UNESCO
Fado, urban popular song of Portugal
Inscribed in 2011 (6.COM) on the Representative List of the Intangible Cultural Heritage of Humanity
Country(ies): Portugal
Description
photo
Fado, urban popular song of Portugal
©Kátia Guerreiro 2006 by José Frade
Fado is a performance genre incorporating music and poetry widely practised by various communities in Lisbon. It represents a Portuguese multicultural synthesis of Afro-Brazilian sung dances, local traditional genres of song and dance, musical traditions from rural areas of the country brought by successive waves of internal immigration, and the cosmopolitan urban song patterns of the early nineteenth century. Fado songs are usually performed by a solo singer, male or female, traditionally accompanied by a wire-strung acoustic guitar and the Portuguese guitarra – a pear-shaped lute with twelve wire strings, unique to Portugal, which also has an extensive solo repertoire. The past few decades have witnessed this instrumental accompaniment expanded to two Portuguese guitars, a guitar and a bass guitar. Fado is performed professionally on the concert circuit and in small ‘Fado houses’, and by amateurs in numerous grass-root associations located throughout older neighbourhoods of Lisbon. Informal tuition by older, respected exponents takes place in traditional performance spaces and often over successive generations within the same families. The dissemination of Fado through emigration and the world music circuit has reinforced its image as a symbol of Portuguese identity, leading to a process of cross-cultural exchange involving other musical traditions.

Documents
Decision 6.COM 13.39 

The Committee (…) decides that [this element] satisfies the criteria for inscription on the Representative List of the Intangible Cultural Heritage of Humanity, as follows:
  • R.1: A musical and lyrical expression of great versatility, Fado strengthens the feeling of belonging and identity within the community of Lisbon, and its leading practitioners continue to transmit the repertory and practices to younger performers;
  • R.2: Inscription of Fado on the Representative List could contribute to further interaction with other musical genres, both at the national and international levels, thus ensuring visibility and awareness of the intangible cultural heritage and encouraging intercultural dialogue;
  • R.3: Safeguarding measures reflect the combined efforts and commitment of the bearers, local communities, the Museum of Fado, the Ministry of Culture, as well as other local and national authorities and aim at long-term safeguarding through educational programmes, research, publications, performances, seminars and workshops;
  • R.4: Fado musicians, singers, poets, historians, luthiers, collectors, researchers, the Museum of Fado and other institutions participated in the nomination process, and their free, prior and informed consent is demonstrated;
  • R.5: Fado is included in the catalogue of the Museu do Fado which was expanded in 2005 into a general inventory including also the collections of a wide range of public and private museums and archives.
Inscribes Fado, urban popular song of Portugal on the Representative List of the Intangible Cultural Heritage of Humanity.

Começa hoje o Advento

A Igreja Católica assinala este domingo o início de um novo ano no seu calendário litúrgico, que começa com o chamado tempo do Advento, compreendendo os quatro domingos anteriores ao Natal.
As três primeiras semanas, que recordam especialmente a segunda e última vinda de Cristo à Terra, esperada pelos cristãos para o fim dos tempos, tornam o Advento num tempo penitencial marcado pelo convite à vigilância, arrependimento e reconciliação com Deus.
A partir de 17 de Dezembro a liturgia adventícia, pautada pela cor roxa, acentua a festa do nascimento de Jesus, o Natal, que os católicos assinalam a 25 de Dezembro.
As leituras bíblicas proclamadas nas missas evidenciam as figuras bíblicas do profeta Isaías, de João Batista, precursor de Cristo, e de Maria, mãe de Jesus.
As manifestações do Advento, palavra de origem latina que significa “vinda” ou “chegada”, expressam-se na coroa de ramos verdes com quatro velas, que se acendem aos domingos, bem como na armação do presépio, entre outras práticas.
O tempo do Natal termina a 9 de Janeiro, dia em que o calendário litúrgico evoca o batismo de Jesus.
O diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa coloca em destaque a singularidade do Evangelho de São Marcos que será o evangelista do novo ano litúrgico.
Em declarações ao programa ECCLESIA (Antena 1) a transmitir este domingo, o padre João Lourenço realça que São Marcos “é um Evangelho muito próprio e singular, embora faça parte de um conjunto de três”, os chamados sinópticos (Mateus, Lucas e Marcos).
Segundo o biblista franciscano até à reforma do II Concilio do Vaticano São Marcos “era bastante desconhecido e pouco usado”.
A estrutura do Evangelho de Marcos “é diferente” da estrutura dos outros evangelhos sinópticos porque “não tem a infância de Jesus” e “começa logo com um anúncio de fé”.
Para o padre João Lourenço é fundamental “ter uma chave ou código” para compreender o Evangelho citado porque “é um texto carregado de contraditório”.
Marcos, como os demais Evangelhos, tem uma geografia, mas a deste evangelista tem “uma geografia aberta” que “faz da Galileia uma terra sem fronteiras”, avança.
Segundo o biblista, Marcos faz um “itinerário de fé no meio dos gentios” que lhe coloca essa marca “de expressão de fé de uma comunidade”.

Advento rezado em família (2011)

Advento_2011_Livro 

Calendário do Advento (desdobrável anexo ao "Advento rezado em família")

Advento 2011 Desdobravel Central

sábado, 26 de novembro de 2011

Ciclo de cinema católico - Revelar-Te

CartazRevel_ar-Te2011

Barioná ou o jogo da dor e da esperança

Barioná


De 8 a 23 de Dezembro,
5ªs, 6ªs e Sábados às 21h. e aos Domingos às 16h.

Às 6ªs feiras haverá uma sessão diurna para escolas
(com marcação prévia)

Vendas | Reservas

nas Bilheteiras do Teatro da Trindade:
Horário: Terça: 14h às 20h
Quarta a Sábado: 14h às 22h
Domingo: 14h às 18h
Tel: 213 420 000 | 92 798 28 34
E-mail: bilheteira.trindade@inatel.pt

na TicketLine
Tel: 707 234 234
www.ticketline.sapo.pt

na FNAC

Descontos:

· Associados da Fundação INATEL
· Jovens (-25 Anos)
· Grupos (+10 Px)
· Séniores (+65 Anos)
· Escolas Profissionais de Artes e Espectáculos
· Outros Acordos
· Pin Cultura
· FNAC

Como chegar:

http://maps.google.pt/maps?hl=pt-PT&tab=wl
metro » baixa-chiado
autocarros » 58 . 202 . 790
eléctrico » 28

“O texto conta a história de uma aldeia da Judeia sob ocupação romana.
Conta como, dado que os Romanos tinham decidido aumentar os impostos, o chefe da aldeia, Barioná, exorta os seus concidadãos a ripostar deixando de fazer filhos.
Mas eis que a sua mulher Sara lhe anuncia, que está precisamente grávida - e eis que, exactamente no mesmo dia, da aldeia vizinha de Belém chega a notícia do Nascimento de um outro recém-nascido, “enfaixado e deitado num presépio”, que os Magos e os feiticeiros creditados anunciam como sendo o Messias.
Que irá fazer Barioná? Irá, como pensou inicialmente, matar este recém-nascido, cujo futuro, crucificação e ressurreição foram vaticinados pelo feiticeiro da aldeia? Ou irá, ao invés, converter-se e protegê-lo da violência dos Romanos que, alarmados pela agitação que reina na região, decidiram também suprimi-lo.
Depois de reflectir, Barioná decide proteger a criança. Sacrificando a sua vida e a dos seus aldeões para proteger a do pequeno Messias, ele aguentará os Romanos até que Maria, José e o seu recém-nascido tenham conseguido escapar. E a Sara, que se despede numa derradeira cena comovente, também lhe diz que mudou de opinião quanto a eles e que, por conseguinte, quer que ela dê à luz o seu filho e que lhe diga, à hora da nascença, que o seu pai morreu na alegria!”
Bernard - Henry Lévy in “O Século de Sartre”

De:
Jean Paul-Sartre.
Encenação e dramaturgia: Júlio Martín da Fonseca.
Figurinos: Sílvia Perloiro
Elenco: (Barioná) José Nogueira Ramos, (Sara) Sara Ideias, (Baltazar) José Simão, (Lelius) José Sebastião, (O Publicano/Simão) Gonçalo Sarávia, (O Anjo) Ana Sofia Santos, (O Feiticeiro) Ricardo Abril, (Caifás) Manuel Vieira, (Jerevhá) Nuno Cortez, (Shalam) João Pires, (Paulo) Nuno Torres, (Mulher) Célia Santiago, (Coro/Multidão) Alexandra Pato, Diana Resende, Eduardo Pereira, Hermínia Resende, João Ramos, Maria Muge, Mariana Fonseca, Sofia Caetano e Vitor Procopio.

Produção executiva: Isabel Avillez - Sofia Sá Lima
Produção: Duc in altum | Teatro do Ourives
Apoios: Associação Vale de Ácor
Agradecimentos: Dr. Luís Oliveira Martins; Centro Desportivo Católico de Portugal; Francisco Marques - Théâtre de L’ Arc-en-Ciel; Silvina Pereira - Teatro Maizum
Classificação: M/12

teatrodoourives@gmail.com
Tlm: 91 910 26 70

http://teatrodoourives.blogspot.com/
http://www.facebook.com/Teatro.Ourive

O espantoso boicote a quem quis trabalhar

Aura Miguel
RR on-line 25-11-2011 8:20
Uma das consequências da liberdade alcançada com o 25 de Abril foi o direito à greve. Assim, desde o 25 de Abril, cada um é livre de aderir à greve ou não aderir.
A liberdade é para isso mesmo: para que cada um opte, livremente, pelo quer ou não quer fazer.
Foi o que aconteceu ontem: uns resolveram fazer greve e outros resolveram não fazer greve. Uns e outros estavam no seu direito.
É por isso espantoso que tenha havido grevistas a tentar, por todos os meios, boicotar os que ontem quiseram ir trabalhar.
Ora, 37 anos depois do 25 de Abril, ainda há gente que não percebeu que a liberdade é mesmo para todos, ou seja, que a liberdade pode ser usada também para ir trabalhar em vez de fazer greve.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Banco Alimentar contra a fome

 

Também possível participar via internet em: http://www.alimentestaideia.net/

25 de Novembro - Santa Catarina de Alexandria

Santa Catarina de Alexandria
Estebán Murillo
(1650-1655)
Óleo sobre tela (186x104cm)
Museu de Arte de São Paulo
S. Paulo (Brasil)

Discurso do Papa à Assembleia do Conselho Pontifício para os Leigos

conselholeigos20111125

Estaremos condenados à arrogância da ignorância?

Público 2011-11-25 José Manuel Fernandes
O que me chocou mais na história do vídeo dos estudantes ignorantes foi tentarem justificar o que não tem justificação
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A África é um país da América do Sul? Que disparate, ri-se o país em peso e sem piedade da rapariga da Casa dos Segredos. O tecto da Capela Sistina foi pintado por Miguel Arcanjo? Que ignomínia, protesta o rapaz apanhado em falso, para quem "o papel da revista Sábado foi puramente ignóbil", numa linha de argumentação que até cativou o humorista Bruno Nogueira.
Não duvido que, se andássemos de câmara de vídeo ao ombro e lista de perguntas afiadas pelas ruas, pelas salas de professores, pelos corredores da Assembleia ou por muitas redacções, faríamos com alguma facilidade mais alguns vídeos semelhantes ao que circulou toda a semana na Internet. Mas isso não me leva a desculpar a ignorância que nele se destapa: no total de 100 entrevistados, só cinco acertaram em todas as respostas; de resto, 44 não sabiam quem tinha pintado o tecto da Capela Sistina, 24 falharam o nome da chanceler da Alemanha, 30 não sabiam quem é o presidente da Comissão Europeia, 26 não indicaram qual o maior mamífero do mundo e 24 não disseram que Washington é capital dos Estados Unidos. Tudo isto numa amostra de estudantes universitários.
Inquietante, não? Não tão inquietante quanto o coro de desculpas, o rol de vozes que surgiram por todo o lado a criticar o vídeo. Os mesmos que se haviam rido da ignorância da auxiliar de saúde do concurso da TVI apareciam agora a lamentar a "humilhação" a que tinham submetido os bravos estudantes universitários, numa reacção classista tipicamente portuguesa. O rapaz do Miguel Arcanjo, para além de ameaçar com os tribunais, jurou no seu Facebook que se acha "uma pessoa culta" porque, além de assinante da Visão, no trajecto entre a escola e casa "lê os jornais gratuitos que consegue adquirir". Ainda bem que lê jornais, mesmo se apenas os gratuitos - mas será que isso chega para alguém se considerar "culto"? Não será preciso um pouco mais?
Há aqui qualquer coisa de errado que não deve passar apenas com um sorriso displicente.
Goste-se ou não, o vídeo da Sábado, incluindo o erro numa das perguntas (quando se confundiu símbolo químico com fórmula química da água), é revelador do estado das coisas. Sobretudo da desvalorização da cultura como parte integrante da formação dos indivíduos. É um mal presente na sociedade e no sistema de ensino.
Primeiro que tudo, porque há um segredo que ninguém confessa: não falta por aí quem acredite sinceramente que não tem utilidade nenhuma saber quem pintou a Mona Lisa ou quem escreveu O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Noutros tempos assumia-se que tais conhecimentos pouco adiantavam a quem cavava a terra - e por isso nesse passado dito remoto, como notou Isabel dos Guimarães Sá numa contribuição para a História da vida privada em Portugal, "a generalidade das crianças não era objecto de instrução literária: a principal aprendizagem era ainda a de saber viver de acordo com a sua condição social". Eram tristes tempos esses do século XVI ou XVII, mas a verdade é que se hoje se defende o contrário - e se olha para a educação como o principal motor do elevador social que permite que o destino não seja determinado pelas condições de nascença -, na prática nem sempre isso sucede.
Entre quem estuda parece muitas vezes vingar a ideia de que só vale a pena aprender o que se julga ser útil. Para quê, por exemplo, aprender a tabuada ou mesmo fazer contas de dividir se hoje até nos omnipresentes telemóveis há sempre uma máquina de calcular à mão? Para quê preocupar-se com as datas das batalhas ou com os nomes dos reis se isso está tudo na Wikipédia e não há nada que "googlando" não se descubra? Para quê ler livros se há resumos e PowerPoints? Para quê decorar um poema se existe o karaoke?
Sabemos hoje duas coisas sobre esta forma de pensar. Primeiro que, como notou George Steiner, "se negligenciarmos a memória, se não a mantivermos à maneira do atleta que exercita os seus músculos, ela definha", pelo que é lamentável que "a nossa escola seja de amnésia planificada". Depois que, e recorro desta vez a um marxista, Antonio Gramsci, se "antigamente os alunos alcançavam uma certa bagagem de factos concretos, agora já não há nenhuma bagagem para pôr em ordem", o que tem como consequência que "a escola nova, apresentada como democrática, na realidade está destinada a perpetuar as diferenças sociais".
A indiferença pela perpetuação das diferenças sociais é exactamente o que vemos no estilo chocarreiro como se comentou a concorrente da Casa dos Segredos - a sua fama efémera até a torna uma figura invejável - por contraponto à forma como Bruno Nogueira "recuperou" a honra dos universitários ignorantes. É a diferença entre classe média baixa e classe média remediada.
A educação, em casa ou na escola, deveria, como escreveu o filósofo liberal Michael Oakeshott, ser um "convite para se abstrair por algum tempo das pressões do momento e para ouvir a conversação em que o ser humano, desde sempre e para sempre, tem procurado compreender-se a si próprio". A educação não deve ser uma aprendizagem utilitária onde apenas substituímos a enxada ou a agulha de outros tempos pelo Magalhães ou pela aula prática dos dias que correm. É que uma educação assim, em casa ou na escola, fecha os horizontes em vez de os abrir.
O "eduquês" que o actual ministro da Educação, Nuno Crato, ajudou a desmontar é uma das manifestações mais evidentes do tipo de pensamento que permitiu chegarmos à nossa actual tolerância com a ignorância. Outra dessas manifestações é a obsessão com a "utilidade", uma obsessão que suscitou a D. Manuel Clemente, bispo do Porto, uma interessantíssima reflexão na conferência de abertura da Experimentadesign 2011. "A avaliação geral das coisas em termos de "utilidade" levou a extinguir muitos centros de produção cultural agora considerados "ociosos"- precisamente aquela "metade dos nossos sábios", como Herculano considerava os exclaustrados de 1834", notou nessa ocasião. "Desapareceram então muitos espaços de assim dita "inutilidade", precisamente quando ela seria mais viável a prazo, pela superação progressista de "necessidade"".
Mas a "necessidade" ou a "utilidade", só por si, dificilmente proporcionarão a felicidade. E uma das felicidades maiores será sempre a de procurarmos aprender, sendo que "aprender" passará por "atingir a compreensão do que é sugerido pela vida humana espelhada numa cultura histórica de notável esplendor e lucidez", como também escreveu Oakeshott. Uma cultura que inclui a Capela Sistina e a Mona Lisa, mas também muitas outras obras eternas e supremas sobre as quais - felizmente? - nada foi perguntado àqueles estudantes. Imagine-se só que o questionário também incluía questões sobre a Odisseia ou sobre Shakespeare, sobre os Lusíadas ou sobre o nónio de Pedro Nunes... Jornalista

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Comunicação do bispo de Coimbra aos docentes e investigadores da Universidade

BispodeCoimbra_Universidade

A Mão Invisível

Miguel Alvim
Infovitae, 1550, 24.Nov.2011

Nunca como hoje, na Europa e no chamado Ocidente capitalista, se teve melhor percepção do conceito de “mão invisível”.
Algo está realmente mal e não funciona.
Será na economia?
São os mercados?
Não são.
São as pessoas.
Tudo se passa e se decide nesse “território” básico e natural da moral e da ética que é a pessoa humana.
O mais, são meros desenvolvimentos dessa realidade ontológica preliminar constitutiva.
Como pretender e reclamar uma economia saudável, se as pessoas que precisamente actuam no mercado e nos mercados não são sérias?
Como assegurar a vitalidade da família e o bom funcionamento dos sistemas públicos, da saúde à justiça, da regulação e da supervisão bancária à educação, se as pessoas subvertem, enganam e mentem, desviam e roubam, não zelam, não cumprem, não pagam, não se comprometem, não se esforçam, não amam, não cuidam do outro e abortam?
Os exemplos são múltiplos, mas relevam todos do mesmo sintoma de falha espiritual: do carácter (ou da falta dele), da alma, do bom propósito.
A lei positiva, por si só, não tem qualquer validade para além da meramente formal que resulta de um dado compromisso social no tempo e no espaço, se não for, rigorosamente, o reflexo de um conjunto de princípios e valores humanos imutáveis.
O verdadeiro sentido da “mão invisível” não está tanto no jogo no mercado da oferta e da procura.
São essas operações instrumentais, materiais.
A verdadeira, a única “mão invisível” está no ser e na pessoa boa, recta e responsável.
Mais de 30 anos de socialismo ateu e relativista em Portugal e na Europa deram nisto.
Não se queixem.
Mudem.
E já agora, quando se fala tanto de recursos e riquezas naturais que, supostamente, a Europa não tem: as pessoas bem formadas são os nossos diamantes.
E a nossa melhor energia, eternamente renovável, chama-se Jesus Cristo.

Banco alimentar - 26 e 27 de Novembro

Lisboa, 23 nov 2011 (Ecclesia) - O Banco Alimentar contra a Fome promove, este sábado e domingo, uma nova recolha de alimentos, tanto em superfícies comerciais como através de uma plataforma na Internet.
"De ano para ano, aumenta o número de pessoas com carência de alimentos no nosso país", adverte a instituição.
O canal online, inaugurado em maio, será reativado a partir de quinta-feira, até 4 de dezembro, o que permite ajudar esta instituição “com facilidade e comodidade”, lê-se no site do Banco Alimentar Contra a Fome.
Através desta modalidade, o doador encontra um conjunto básico de “produtos disponíveis ao preço mais baixo de mercado”, pode ler-se.
A Microsoft Portugal decidiu inaugurar o canal de doações online (www.alimentestaideia.net) e ofereceu dois mil cabazes família, num valor total de 20 000 euros, refere um comunicado da instituição, enviado à Agência ECCLESIA.
O cabaz de família, que pode ser doado a título individual, é constituído por leite, latas de salsichas e de atum, óleo e azeite, num valor total de dez euros.
Na campanha de novembro de 2010, os 17 Bancos Alimentares contra a Fome conseguiram recolher um total de 3265 toneladas de produtos.
Os alimentos recolhidos foram distribuídos por mais de 1800 instituições de solidariedade social, que os entregaram a cerca de 280 mil pessoas com carências alimentares comprovadas, sob a forma de cabazes ou de refeições confecionadas
Os Bancos Alimentares são Instituições Particulares de Solidariedade Social que “lutam contra o desperdício de produtos alimentares, encaminhando-os para distribuição gratuita às pessoas carenciadas”.