segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Escola de Pais 2011

ESCOLA DE PAIS2011

Vira-casacas

Os últimos tempos têm sido ilustrativos da irresponsabilidade com que muitos opinadores, comentadores e mesmo responsáveis políticos se comportam diante das dificuldades.
Raquel Abecasis
RR on-line 31-10-2011 7:34
O caminho que temos que trilhar não é fácil, todos o sabíamos há muito tempo. Foi, aliás, por isso que o anterior ciclo político chegou ao fim depois de declarar Portugal incompetente para resolver sozinho os seus problemas.
Nessa altura. o consenso era generalizado sobre a necessidade de mudar de vida, de fazer sacrifícios e de diminuir o célebre “monstro”.
Eis que, agora, alguns dos que mais calorosamente defenderam estas teses, diante da dura realidade, clamam “aqui d’el rei” - os sacrifícios são demais e o Governo é incompetente.
Chegamos à conclusão de que os que emitem opinião se preocupam, sobretudo, em agradar e ser consensuais junto da população, com a irresponsabilidade inerente a quem não tem que tomar decisões, apenas temdo que as comentar.
Acresce que em, Portugal, começa a fazer caminho a ideia de que é comentador independente aquele que está disponível para criticar os que lhe são mais próximos política e ideologicamente.
Em bom português, é bom que se perceba que estes senhores não são mais do que “vira-casacas”, dispostos a mudar de opinião como quem muda de casaco, com um único objectivo: não de ajudar quem os ouve, mas de manter o seu posto nos diversos órgãos de comunicação social .

Armadilha de funcionário

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2011-10-31
Os funcionários públicos têm razão para se sentirem perseguidos, sempre chamados à primeira linha dos sacrifícios. É compreensível que imaginem uma conspiração nacional contra eles e é natural o desânimo, indignação, até raiva de tantos trabalhadores honestos, cumpridores e dedicados à causa pública. Nestes momentos não é fácil fazer uma análise serena e profunda da questão, mas é exactamente agora que é mais necessária. Antes de julgar é preciso entender.
A simples observação numérica mostra logo algo estranho. Nos indicadores da União Europeia vemos que Portugal em 1995, primeiro ano comparável, era o sexto país com maior peso dos salários de funcionários públicos no PIB, 12,5%. Acima de nós só os três nórdicos, França e Áustria; a média dos então quinze era 10,8%. Dez anos depois, em 2005, apesar do alargamento, subíramos para o impressionante quarto lugar, com 13,9%, apenas ultrapassado por Dinamarca, Suécia e Chipre. Aí começou a alegada perseguição. A austeridade do último Governo corrigiu em parte a situação insustentável, mas em 2011 a nossa posição é ainda de 12.º, com 11,5%, bem acima da média dos 27 (10,7%) e de parceiros como Espanha (11,1%), Itália (10,7%), Holanda (9,7%) e Alemanha (7,1%). Temos de descer mais.
A função pública é uma vasta realidade, diversificada e complexa, impossível de resumir em alguns parágrafos. Mas dois problemas básicos dominam a instituição e explicam a referida perseguição. O principal drama dos funcionários públicos não é que ganhem muito, mas que sejam muitos. São imensos, certamente mais de 12% da população activa, valor impossível de suportar. A austeridade nunca consegue actuar nessa dimensão, por ser quase proibido dispensar trabalhadores. Assim é obrigada à alternativa de apertar a remuneração individual que não só é injusta mas ineficaz.
Pior ainda, este problema quantitativo é agravado por uma questão de qualidade. Os funcionários não só aceitaram sem protestar que os seus números explodissem, mas permitiram que fosse eliminada qualquer forma eficaz de avaliação relativa. Na função pública existem os melhores e os piores trabalhadores do País, todos tratados da mesma forma com iguais regalias e segurança. Há funcionários vitais e indispensáveis, de quem depende a operação de serviços essenciais, ao lado de parasitas que tomam café e complicam o trabalho alheio. As prateleiras douradas estão por cima de repartições exemplares.
A nossa função pública tem múltiplos serviços fundamentais e milhares de funcionários solícitos, competentes e sacrificados. Mas, como eles sabem melhor que ninguém, também tem múltiplos departamentos inúteis, ociosos e até nocivos, e graves problemas de carreirismo, burocracia, desperdício e abuso. O simples facto de nem se saber bem o total de servidores do Estado é disso sinal evidente. Entretanto as regras internas implicam que o único incentivo para a eficiência é a consciência pessoal do próprio trabalhador, porque os apáticos ganham o mesmo sem riscos.
As causas destes dois problemas de quantidade e qualidade são variadas, mas o próprio corpo de funcionários está longe de ser inocente. Acima de tudo a culpa cai na responsabilidade directa de governantes laxistas e tíbios, que verteram facilidades e benefícios sobre aqueles que davam corpo à sua acção. É verdade que esses políticos saíram incólumes e hoje muitos gozam reformas de luxo, enquanto os antigos subordinados suportam austeridade. Mas estes não se podem eximir de culpas.
Aliás, ao lado do vaivém dos políticos, supostamente responsáveis pelas decisões, a acção e estabilidade do sistema deve-se precisamente aos servidores do Estado e às suas organizações. Foram eles e elas que assistiram passivamente, senão activamente, ao degradar da situação. Não podem hoje acusar do desastre os sucessivos ministros que serviram. Não só porque ganharam muito com a derrapagem, mas sobretudo porque permitiram em silêncio que a sua actividade tão digna fosse degradada. É esta a terrível armadilha dos funcionários.
naohaalmocosgratis@ucp.pt

Exposição e conferência " A fé na arte"


Fe_na_arte

"Europa trocou crucifixos por abóboras"

TODOS OS SANTOS: VIDA COM DEUS! HALLOWEEN: PAGANISMO! "Europa trocou crucifixos por abóboras!"
O Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, lamentou que a Europa do terceiro milénio troque os seus “símbolos mais queridos” pelas “abóboras” do Halloween. O número dois do Vaticano comentava assim, em 2009, a decisão do Tribunal Europeu de Direitos do Homem, que define a presença do crucifixo nas escolas como uma violação da liberdade religiosa dos alunos e como contrária ao direito dos pais em educarem os filhos segundo as suas convicções.
Claro que, subjacente à expansão do Halloween, está o tentar ofuscar a celebração de “Todos os Santos”: o ofuscar da Luz, da Vida, da Ressurreição, de Deus!
Celebrar o Halloween é celebrar a morte; Celebrar Todos os Santos é celebrar a Vida!
No contexto de campanhas publicitárias da promoção da festa de Halloween, de cada vez mais agressivas, a Conferência Episcopal da França, já no distante ano de 2003, publicou um comunicado para explicar o sentido da festa de "Todos os Santos" e do "Dia dos fiéis Defuntos".
Com a Festa de 1 de Novembro, dia de “Todos os Santos”, a Igreja deseja «honrar os santos “anónimos”, muito mais numerosos que os canonizados pela Igreja, que com frequência viveram na discrição ao serviço de Deus e de seus contemporâneos”, recorda o texto. Neste sentido, declaram os bispos, a Festa de "Todos os Santos" é a festa de «todos os baptizados, pois cada um está chamado por Deus à santidade». Constitui, portanto, um convite a «experimentar a alegria daqueles que puseram Cristo no centro de suas vidas».
A 2 de Novembro, dia de oração pelos defuntos, é proposta uma prática que se iniciou com os primeiros cristãos: a ideia de convocar uma jornada especial de oração pelos falecidos, continuação de "Todos os Santos", surgiu no século X: "A 1 de Novembro, os católicos celebram na alegria a festa de Todos os Santos; no dia seguinte, rezam de maneira geral por todos os que morreram», afirma o documento.
Deste modo, a Igreja quer dar a entender que «a morte é uma realidade que se pode e que se deve assumir, pois constitui o passo no seguimento de Cristo ressuscitado»". Isto explica as flores com que nestes dias se adornam os túmulos, «sinal de vida e de esperança», concluem os prelados.
Tradição das Crianças
A tradição diz que, em Portugal, no dia de Todos os Santos as crianças saem à rua e juntam-se em pequenos grupos para pedir o «Pão por Deus» de porta em porta. Em tempos, as crianças, quando pediam o «Pão por Deus», recitavam versos e recebiam como oferenda pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes, amêndoas ou castanhas, que colocavam dentro dos seus sacos de pano. É costume em algumas regiões os padrinhos oferecerem um bolo, o Santoro. Em algumas povoações chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’.

E o Halloween? A festa de «Halloween» chegou dos Estados Unidos da América, e é agora muito celebrada também na Europa, assinalando-se a 31 de Outubro. A comemoração veio dos antigos povos bárbaros Celtas, que habitava a Grã-Bretanha há mais de 2000 anos. Os Celtas realizavam a colheita nessa época do ano, e, segundo um antigo ritual, para eles os espíritos das pessoas mortas voltariam à Terra durante a noite, e queriam, entre outras coisas, alimentar-se e assustar as pessoas. Então, os Celtas costumavam vestir-se com máscaras assustadoras para afastar estes espíritos. Esse episódio era conhecido como o “Samhaim”. Com o passar do tempo, os cristãos chegaram à Grã-Bretanha, converteram os Celtas e outros povos da Ilha e a Igreja Católica transformou este ritual pagão numa festa religiosa, passando a ser celebrada nesta mesma época e, ao invés de honrar espíritos e forças ocultas, o povo recém catequizado deveria honrar os santos.
A tradição entre estes povos continuou, e além de celebrarem o "Dia de Todos os Santos", os não convertidos ao Cristianismo celebravam também a noite da véspera do Dia de Todos os Santos com as máscaras assustadoras e com comida. A noite era chamada de “All Hallows Evening”; abreviando-se, veio o Halloween.
Que nós, cristãos, celebremos a Vida e não a Morte, não nos deixando enganar e seduzir pela cultura da morte dos que vivem sem Deus!
Comunidade Cristo de Betânea, 29 de Outubro de 2011
facebook.com/cristobetanea.net

domingo, 30 de outubro de 2011

Frase do dia

Apetite, com a intuição de o poder satisfazer, chama-se esperança; o mesmo, sem essa intuição, é desespero.

Thomas Hobbes (1588 - 1679)
Filósofo político inglês

sábado, 29 de outubro de 2011

Frase do dia

Mais vale parecer estúpido e estar calado do que abrir a boca e confirmar as expectativas
A. Lincoln

A Esperança

Relembrei, ouvindo dizer – maravilhosamente – estas palavras de Péguy pelos actores do Teatro do Ourives na celebração do meio século de uma grande amiga.
Parece-me apropriado lembrar que a Esperança não é um estado psicológico, mas uma condição estrutural do homem, porque, como virtude teologal, foi inscrita por Deus no coração do homem. Nestes tempos de desalento, é útil procurarmos dentro de nós o ânimo que nasce da certeza de um futuro bom.

Mas a esperança, diz Deus, cá está o que me espanta
A mim mesmo.
Isso é que é espantoso.

Que essas pobres crianças vejam como tudo isso corre e creiam que amanhã as coisas irão melhor.
Que elas vejam como as coisas corrrem hoje e ceiam que irão melhor amanhã de manhã.
Isso é que é espantoso e é decerto a maior maravilha da nossa graça.
E eu próprio estou espantado.
E é preciso que a minha graça seja efectivamente de uma força incrível.
E corra de uma fonte e como um rio inesgotável.
Desde essa primeira vez que ela correu e desde sempre que ela corre.
Na minha criação natural e sobrenatural.
Na minha criação espiritual e carnal e outra vez espiritual.
Na minha criação eterna e temporal e outra vez eterna.
E dessa vez, oh! Dessa vez que ela correu como rio de sangue, do flanco aberto do meu filho.
Qual não terá de ser a minha graça e a força da minha graça para que esta pequena esperança, vacilante ao sopro do pecado, trémula a todos os ventos, ansiosa ao mais fraco sopro,
Seja tão invariável, se aguente tão fiel, tão direita, tão pura; e invencível, e imortal, e impossível de extinguir; como essa chamazinha do santuário.
Que arde eternamente na lâmpada fiel.
Uma chama tremelicante atravessou a espessura dos mundos.
Uma chama vacilante atravessou a espessura dos tempos.
Uma chama ansiosa atravessou a espessura das noites.
Desde essa primeira vez que a minha graça correu para a criação do mundo.
Desde essa vez que o sangue do meu filho correu para a salvação do mundo.
Uma chama impossível de atingir, impossível de extinguir ao sopro da morte.

O que me espanta diz Deus, é a esperança.
E não volto a mim do espanto.
Esta pequena esperança que tem ar de coisa nenhuma.
Esta mocinha esperança.
Imortal.
Charles Péguy
O Pórtico do Mistério da Segunda Virtude

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Evitar a decadência

Aura Miguel
28-10-2011 7:52
A decadência do homem contemporâneo foi ontem definida pelo Papa, em Assis: resulta da ausência e negação de Deus e realiza-se silenciosamente, de modo subtil e, por isso, perigoso.
Gradualmente, o Homem, em vez de adorar a Deus, passa a adorar o dinheiro, o ter e o poder. Passa a sobrepor o interesse pessoal a tudo o resto, tornando-se cada vez mais violento. E assim se destrói a paz. E, ao destruir a paz, o Homem destrói-se a si mesmo.
É um terrível retrato, perante o qual nenhum de nós está imune, pois, mesmo que teoricamente nos afirmemos do lado de Deus, a Sua ausência no concreto da nossa vida é uma triste possibilidade. Como aqueles que dizem ter de uma religião, mas não praticam...
Está, pois, nas nossas mãos evitar a nossa própria decadência!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O que Deus tem a ver com a Universidade

A Universidade é um lugar onde se ensina o conhecimento universal.
Se uma universidade exclui Deus é porque nada se sabe de Deus ou porque concluiu que nada se pode saber acerca de Deus.
Porém, o conhecimento de Deus faz parte da necessidade de conhecimento do homem.

Ver "The Idea of a University"

Vale d'Acor

Símbolo de confusão, ruína e caos.
No Livro de Josué (Jos 7, 1-26) é o lugar da perdição de Acan sob um monte de pedras
Mas é também, lugar de reconstrução (Is 65, 8-10) e porta da esperança (Os 2, 16-17).
Aquele que disse “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim estará salvo” venceu a morte. No Vale d’Acor está a primeira fila onde podemos testemunhar este milagre da ressurreição.
http://www.a-valedeacor.pt/

The Idea of a University


The Idea of a University

Peregrinos da verdade, peregrinos da paz - discurso do papa Bento XVI em Assis

Dis Cur So Papa Ass is 20111027

Discurso do Papa Bento XVI em Assis no DIA DE REFLEXÃO, DIÁLOGO E ORAÇÃO PELA PAZ E A JUSTIÇA NO MUNDO "PEREGRINOS DA VERDADE, PEREGRINOS DA PAZ"

Ass is 2011

O valor do mal

DESTAK | 26 | 10 | 2011   19.40H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@ucp.pt
Esta crise, como todas, provoca muitas reacções. O pior tem sido a escassez de reacções positivas. Mais dramático que o sofrimento, são as pessoas que deixam a crise tomar conta da sua vida. Talvez por já sermos um país rico, desta vez há demasiada gente a levar a crise a sério. Ela é mais grave que as anteriores, não por estamos a perder mais, mas por ainda não terem começado as anedotas.
A raiva de tantos, o desespero e desânimo de outros, os «indignados» que enchem as nossas ruas, orgulhosos da sua indignação, todas essas atitudes são compreensíveis, até razoáveis. Mas todas assumem a situação como está, aceitando descer ao seu nível. Não a agarram como caminho e instrumento para algo melhor.
O importante na nossa existência não é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece. O que faz de nós seres humanos é a capacidade de nos elevar acima dos acontecimentos até ao sentido dos acontecimentos.
O que está em causa hoje é o valor do mal, um dos maiores mistérios da humanidade. Santo Agostinho explicou isto de forma cristalina ao dizer: «o Deus sumamente bom, de nenhum modo permitiria existir algum mal nas suas obras, se não fosse tão omnipotente e bom para até do mal tirar o bem» (Enchiridion xi). Goethe descreve o diabo como «uma parte daquele poder/que sempre quer o mal e sempre consegue o bem» (Faust I, iii, 1336-37). Mas talvez nos tempos que correm seja melhor invocar Steve Jobs, que sempre disse que o facto de ter sido expulso da Apple em 1985 foi a causa da melhor parte da sua obra.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A literatura não revela a verdade - Análise ao romance "O último segredo", de José Rodrigues dos Santos

Analise_Segredo

Apresentação do Vale d'Acor


terça-feira, 25 de outubro de 2011

O esplendor da presença das coisas

«A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima de uma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros  artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Souza-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do amor e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor (...)».
Descrição por Sophia de Mello Breyner da sua  Arte Poética num texto lido em 11 de Julho de 1964, no almoço de homenagem promovido pela Sociedade Portuguesa de escritores, por ocasião da entrega do grande Prémio de Poesia, atribuído a Livro Sexto.

Acerca do livro do José Rodrigues dos Santos

Uma imitação requentada
- O romance "O último segredo", de José Rodrigues dos Santos numa nota do Secretariado Nacional a Pastoral da Cultura
O romance de José Rodrigues dos Santos, intitulado “O último segredo”, é formalmente uma obra literária. Nesse sentido, a discussão sobre a sua qualidade literária cabe à crítica especializada e aos leitores. Mas como este romance do autor tem a pretensão de entrar, com um tom de intolerância desabrida, numa outra área, a história da formação da Bíblia por um lado, e a fiabilidade das verdades de Fé em que os católicos acreditam por outro, pensamos que pode ser útil aos leitores exigentes (sejam eles crentes ou não) esclarecer alguns pontos de arbitrariedade em que o dito romance incorre.
1. Em relação à formação da Bíblia e ao debate em torno aos manuscritos, José Rodrigues dos Santos propõe-se, com grande estrondo, arrombar uma porta que há muito está aberta. A questão não se coloca apenas com a Bíblia, mas genericamente com toda a Literatura Antiga: não tendo sido conservados os manuscritos que saíram das mãos dos autores torna-se necessário partir da avaliação das diversas cópias e versões posteriores para reconstruir aquilo que se crê estar mais próximo do texto original. Este problema coloca-se tanto para o Livro do Profeta Isaías, por exemplo, como para os poemas de Homero ou os Diálogos de Platão. Ora, como é que se faz o confronto dos diversos manuscritos e como se decide perante as diferenças que eles apresentam entre si? Há uma ciência que se chama Crítica Textual (Critica Textus, na designação latina) que avalia a fiabilidade dos manuscritos e estabelece os critérios objetivos que nos devem levar a preferir uma variante a outra. A Crítica Textual faz mais ainda: cria as chamadas “edições críticas”, isto é, a apresentação do texto reconstruído, mas com a indicação de todas as variantes existentes e a justificação para se ter escolhido uma em lugar de outra. O grau de certeza em relação às escolhas é diversificado e as próprias dúvidas vêm também assinaladas.
Tanto do texto bíblico do Antigo como do Novo Testamento há extraordinárias edições críticas, elaboradas de forma rigorosíssima do ponto de vista científico, e é sobre essas edições que o trabalho da hermenêutica bíblica se constrói. É impensável, por exemplo, para qualquer estudioso da Bíblia atrever-se a falar dela, como José Rodrigues dos Santos o faz, recorrendo a uma simples tradução. A quantidade de incorreções produzidas em apenas três linhas, que o autor dedica a falar da tradução que usa, são esclarecedoras quanto à indigência do seu estado de arte. Confunde datas e factos, promete o que não tem, fala do que não sabe.
2. Chesterton dizia, com o seu notável humor, que o problema de quem faz da descrença profissão não é deixar de acreditar em alguma coisa, mas passar a acreditar em demasiadas. Poderíamos dizer que é esse o caso do romance de José Rodrigues dos Santos. A nota a garantir que tudo é verdade, colocada estrategicamente à entrada do livro, seria já suficientemente elucidativa. De igual modo, o apontamento final do seu romance, onde arvora o método histórico-crítico como a única chave legítima e verdadeira para entender o texto bíblico. A validade do método de análise histórico-crítica da Bíblia é amplamente reconhecida pela Igreja Católica, como se pode ver no fundamental documento “A interpretação da Bíblia na Igreja Católica” (de 1993). Aí se recomenda o seguinte: «os exegetas católicos devem levar em séria consideração o caráter histórico da revelação bíblica. Pois os dois Testamentos exprimem em palavras humanas, que levam a marca do seu tempo, a revelação histórica que Deus fez… Consequentemente, os exegetas devem servir-se do método histórico-crítico». Mas o método histórico-crítico é insuficiente, como aliás todos os métodos, chamados a operar em complementaridade. Isso ficou dito, no século XX,  por pensadores da dimensão de Paul Ricoeur ou Gadamer. José Rodrigues dos Santos parece não saber o que é um teólogo, e dir-se-ia mesmo que desconhece a natureza hipotética (e nesse sentido científica) do trabalho teológico. O positivismo serôdio que levanta como bandeira fá-lo, por exemplo, chamar  “historiadores” aos teólogos que pretende promover, e apelide apressadamente de “obras apologéticas” as que o contrariam.
3. A nota final de José Rodrigues dos Santos esconde, porém, a chave do seu caso. Nela aparecem (mal) citados uma série de teólogos, mas o mais abundantemente referido, e o que efetivamente conta, é Bart D. Ehrman. Rodrigues dos Santos faz de Bart D.Ehrman o seu teleponto, a sua revelação. Comparar o seu  “Misquoting Jesus. The Story Behind who Changed the Bible and Why” com o “O Último segredo” é tarefa com resultados tão previsíveis que chega a ser deprimente. Ehrman é um dos coordenadores do Departamento de Estudos da Religião, da Universidade da Carolina do Norte, e um investigador de erudição inegável. Contudo, nos últimos anos, tem orientado as suas publicações a partir de uma tese radical, claramente ideológica, longe de ser reconhecida credível. Ehrman reduz o cristianismo das origens a uma imensa batalha pelo poder, que acaba por ser tomado, como seria de esperar, pela tendência mais forte e intolerante. E em nome desse combate pelo poder vale tudo: manobras políticas intermináveis, perseguições, fabricação de textos falsos… Essa luta é transportada para o interior do texto bíblico que, no dizer de Ehrman, está texto repleto de manipulações. O que os seus pares universitários perguntam a Ehrman, com perplexidade, é em que fontes textuais ele assenta as hipóteses extremadas que defende.
4. Resumindo: é lamentável que José Rodrigues dos Santos interrogue (e se interrogue) tão pouco. É lamentável que escreva centenas de páginas sobre um assunto tão complexo sem fazer ideia do que fala. O resultado é bastante penoso e desinteressante, como só podia ser: uma imitação requentada,  superficial e  maçuda. O que a verdadeira literatura faz é agredir a imitação para repropor a inteligência. O que José Rodrigues dos Santos faz é agredir a inteligência para que triunfe o pastiche. E assim vamos.

(ler também aqui)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Sem vergonha

Está na moda discutir sobre a responsabilidade criminal de políticos que por causa das suas acções tenham prejudicado gravemente o país.
Raquel Abecasis
RR on-line 24-10-2011 6:17
É discutível se isso deve ou não acontecer, até porque será difícil fazer prova sobre as acções e as intenções.
Mas o mais absurdo é que o país que se anima com esta discussão é o mesmo que convive, pacificamente, com o facto de uma faculdade, a Faculdade de Economia do Porto, escolher como estrela maior do seu firmamento o ex-ministro das Finanças para fazer o discurso de sapiência que assinala o início oficial do ano lectivo.
Mais espantoso é que Teixeira dos Santos aceite e decida falar de cátedra, precisamente sobre a situação caótica em que deixou as finanças do país, nunca reconhecendo isso, obviamente, deixando conselhos para o futuro e avisando que o actual ministro está a fazer o que deve ser feito.
Perante isto, talvez fosse de aconselhar que, em vez de se discutir o tema exotérico da responsabilidade criminal dos políticos, poderíamos começar pelo velhinho tema da “vergonha na cara”, que é o mínimo que deve ter quem nos deixou no estado em que estamos.

A vergonha

DN 20111024
JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Cada época vive valores que considera supremos, descurando os complementares. A França da revolução dedicou-se à liberdade e igualdade, cometendo atrocidades em seu nome, como os imperialistas de Oitocentos deixaram o amor pela glória e honra cair na opressão. As gerações seguintes costumam condenar as tristes consequências das omissões, esquecendo a grandiosidade dos objectivos.
Uma sociedade deve sempre envergonhar-se de tudo o que faz de mal, mesmo se o sacrificou a belos ideais. A pior vergonha cultural não está, porém, nos crimes cometidos em nomes de grandes princípios. A degradação máxima é ser infiel àquilo mesmo que se erigiu como supremo. Robespierre, que assassinou centenas em nome da liberdade, é menos vil que Napoleão, que assassinou a liberdade em nome da liberdade. A maior baixeza é trair o próprio ideal.
A geração actual é herdeira de outras que cometeram terríveis violações dos direitos humanos. A nossa marca de dignidade é ter proclamado esses princípios como referência fundamental. Os futuros certamente terão muito a criticar-nos, como nós o fazemos aos antigos, mas nunca nos poderão tirar a glória dos largos esforços em prol da dignidade, liberdade e realização pessoal de todos os seres humanos. Este é o padrão por que queremos ser julgados, a referência que tomámos como guia.
É verdade que, apesar disso, na era dos direitos humanos permanecem muitas e graves violações. Todas são de lamentar, mas as mais infames são cometidas pelos que juram seguir esses ideais. Os terríveis abusos de Kadhafi, Mugabe e Chávez envergonham menos esta geração que as atrocidades de Guantánamo, defendidas por George W. Bush em nome da lei. Os primeiros atacam os direitos, enquanto o segundo os manipula dizendo defendê-los.
Nem estes casos isolados são os piores. A maior traição, a vergonha máxima seria uma sociedade que, defendendo um princípio sagrado, viesse a aceitar toda ela uma clara violação de tal valor por puro interesse. A situação mais ignóbil seria uma cultura que hipocritamente aceitasse, aberta e assumidamente, a institucionalização daquilo mesmo que jura repudiar, só porque dá jeito. Não é fácil encontrar situações dessas, mas o nosso tempo conseguiu-o. Existem seres humanos correntemente privados por lei dos seus mais elementares direitos, perante a passividade geral e o aplauso de alguns.
Ninguém pode duvidar de que um embrião constitui uma vida humana. E ela pode ser legalmente assassinada. Qualquer que seja o prisma de onde se aborde, o aborto é matar uma pessoa em gestação, violação gravíssima do direito supremo à vida. Alguém que, segundo o Código Civil pode ser perfilhado (arts. 1847.º, 1854.º e 1855.º), receber doações (952.º) e heranças (2033.º), mas a quem não se respeita a mais elementar defesa, e cuja morte é subsidiada pelo Estado. Simplesmente porque essa vida é inconveniente. Aplicada a qualquer outra, tais raciocínios levantariam objecções enfurecidas em nome dos valores actuais. Indignamo-nos pelo menor atropelo à dignidade de alguém, mas isto aceitamos sem problemas.
É verdade que tal incongruência tem razões ponderosas. Neste caso, a sociedade foi apanhada num terrível conflito de referências básicas. Dentro dos direitos humanos, o nosso tempo apregoa acima de tudo a liberdade pessoal. Somos visceralmente contra qualquer limite e opressão. Orgulhamo-nos de combater as tiranias político-económicas, mas existe outra que, sendo de foro íntimo, gostamos ainda mais de desafiar. O império do pudor e decência é muito forte; daí o axioma básico que no campo sexual deve vigorar a mais completa liberdade. Todos os comportamentos voluntários são admissíveis, e até equivalentes, em nome da sagrada liberdade erótica.
O drama surge quando esse ideal choca com os direitos básicos de alguém, que para mais não tem voz nem voto. Nesse confronto, o nosso tempo já fez a escolha. Perdeu o direito à vida. Temos toneladas de elaborações retóricas para justificar a injúria. É precisamente por isso que esta é a nossa maior vergonha.
naohaalmocosgratis@ucp.pt

domingo, 23 de outubro de 2011

Pensamento do dia

"Sê todo em cada coisa. 
Põe quanto és no mínimo que fazes.  
Para ser grande, sê inteiro.
Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive"....
Fernando Pessoa

sábado, 22 de outubro de 2011

22 de Outubro - Beato João Paulo II

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Comemorar, sem medo!

Pela primeira vez, amanhã, a Igreja assinala a festa do beato João Paulo II.
RR on-line 21-10-2011 9:23
Aura Miguel
A data escolhida tem a ver com o início oficial do seu Pontificado. De facto, a 22 de Outubro de 1978, o mundo ficou suspenso quando o primeiro Papa polaco da História nos pediu para não termos medo de acolher Cristo e aceitar o seu poder.
Ora aí está uma boa sugestão para comemorar, amanhã, esta festa em sua honra: escancarar, sem medo, as portas a Cristo!
Peçamos-lhe ajuda para Portugal e os portugueses, para a própria Europa e os outros continentes, para que o poder salvador de Cristo penetre os sistemas económicos e políticos, os vastos campos da cultura, da civilização e progresso. Peçamos-lhe, também, por nós, para não termos medo de abrir o coração a Cristo – única resposta plena ao desejo do Homem.
Tenho a certeza que, no dia da sua festa, o beato João Paulo II estará super-disponível para acolher os nossos pedidos.

Sobre a amizade

Sobre a Amizade

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Filosofia

DESTAK | 20 | 10 | 2011   10.47H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@ucp.pt
Na quinta-feira passada a declaração do Primeiro-ministro sobre o Orçamento foi um grande choque. Quando acabou parece que o país ficou suspenso alguns segundos, sem saber o que dizer. Logo a seguir recuperou o fôlego e as palavras jorraram. «Estado de emergência social», «choque brutal», «austeridade a sério» foram expressões sucessivamente repetidas.
No sábado o silêncio de quinta-feira explodiu em indignação em várias cidades, aliás seguindo o exemplo de outros países, com tumultos que diziam representar a democracia. As palavras de ordem foram muitas e os espíritos andaram exaltados. Faltou a única coisa que faria sentido aqui: uma alternativa.
Ouviram-se acusações, indignação e insultos, culpados e análises. Muitos explicaram teorias e apontaram os terríveis inconvenientes das medidas na nossa vida: estagnação económica, desemprego, falências, vasto drama social. Todos têm razão. O problema é que ninguém, da oposição aos oradores improvisados e analistas de café, apresentou com credibilidade mínima aquilo que se deveria fazer em vez da austeridade.
Todos vivemos por cá nos últimos anos e seguimos a loucura que nos trouxe a este estado. Sabemos porque razão os cortes, apertos e privações nos acompanharão no futuro previsível. Quando o sistema anda mal, não vale a pena gastar esforços a protestar. Temos é de imaginar soluções para sair da dificuldade, cada um pelo seu lado. Em vez de perder tempo a procurar culpados, é preciso enfrentar os problemas com filosofia. Aquela filosofia que José Sócrates anda estudar em Paris.

Uma geração traída


Público 2011-10-20  Pedro Lomba

O meu pai nasceu no dia 18 de Outubro de 1941. Acaba de fazer 70 anos, mais dez do que Cícero tinha quando escreveu De Senectute. Quando penso na geração dele e na idade dele, ocorre-me que não houve nada no século XX português que eles não tivessem visto. A geração do meu pai passou por tudo na rotina frenética destes 70 anos. Foi uma geração imensamente disponível, batalhadora, dividida, na ditadura e na democracia, na guerra e na paz, e hoje talvez continue a ser isso tudo, só que com mais amargura e desencanto.

Quando o meu pai nasceu em 1941, a Europa tinha mergulhado numa guerra planetária a que um Salazar de manhosa filigrana nos poupou. Por isso, e pela idade, talvez não se tenha dado conta lá na província minhota que, quatro anos depois, a contenda diabólica tinha acabado. Mas lembra-se certamente que na mesma província as famílias aprendiam cedo o racionamento. A Europa estava em guerra, o Minho também estava em guerra. Famílias grandes, gigantescas em comparação com um país onde em cada ano já são mais os mortos do que os nascidos, não tinham como educar os filhos senão à custa de sorte e improvisação.

O meu pai, na medida do possível, teve sorte. No Portugal dos anos 40 e 50 era preciso ter padrinhos mais abonados para estudar. Inteligente, bom aluno, foi o primeiro da sua família a pôr os pés na faculdade, porque o Estado Novo, embora expusesse a maioria ao analfabetismo, nunca fechou as portas do ensino aos mais capazes. Mas esse não era ainda o tempo das licenciaturas ao domingo, do fim do serviço militar e dos direitos humanos. Quando em 1961 Salazar exclamou Para Angola rapidamente e em força, o meu pai tinha 20 anos e foi.

A geração do meu pai foi a geração da guerra de África. Pessoas como o meu pai, provincianos, rurais, nada sabiam da política, não pensavam no Portugal multicontinental do regime. Mas estiveram disponíveis quando foram chamados para as comissões africanas, porque acreditavam em velharias como o dever e a sobrevivência. Fiéis ao passado, podem ter aprovado a Europa por estarem convencidos de que viveríamos melhor, mas nunca se tornaram europeístas parolos e deslumbrados.

Como quase toda a gente, a geração do meu pai fez a transição do campo para a cidade, a primeira geração a ocupar os subúrbios das cidades onde as casas eram comportáveis para quem ganhava a vida no Estado e que, entretanto, se encheram de comboios populosos e de adolescentes cuja única cultura é a que aprendem na televisão do big brother. A geração do meu pai resiste aos telemóveis e olha para a Internet com desconfiança. A geração do meu pai nunca comprou casa porque nunca teve dinheiro para isso, mas pode gabar-se de não ter contraído dívidas mastodônticas para os seus filhos e netos.

A geração do meu pai foi a geração que conheceu a fundo o provérbio chinês: não serás homem enquanto não conheceres a pobreza, o amor e a guerra. Uma geração que ainda encarou os filhos como filhos, não como "amigos", mantendo uma distância emocional que não conseguiu vencer. Uma geração que nunca foi a mais qualificada de sempre, que não fez carreiras em partidos políticos, que não teve "mundo", mas nunca perdeu o sentido das proporções. Uma geração sequestrada pelos grandes debates ideológicos do século. Esta foi a geração sem a qual não teria existido a democracia, uns porque lutaram por ela, outros porque foram a bússola de ordem e conservadorismo sem os quais nenhuma democracia prospera.

Pessoas como o meu pai tiveram "convicções". Tiveram acima de tudo bom senso. Tiveram acima de tudo vergonha. Conservadores nos costumes e crentes de que o Estado deve ajudar os mais desfavorecidos, foram eles os "pais" do serviço nacional de saúde. Hoje, contemplam com estranheza um mundo de patos-bravos e oportunistas sanguessugas. Mereciam mais das instituições que serviram. Mereciam melhor que um país de Armandos Varas e Dias Loureiros. Mereciam melhor do que um país falido.

(Com agradecimento ao António de Araújo pela inspiração.) Jurista

O que tem a ver Deus com a Universidade - O contributo de J. H. Newman


Newman

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Confiar no desconhecido

Os tempos não estão para certezas. A começar pelo clima que, definitivamente, já não é o que era e a acabar na nossa vida de todos os dias, que cada vez é mais imprevisível.

Raquel Abecasis
RR on-line 17-10-2011 7:52 
Temos sido confrontados com notícias más sobre o nosso futuro e temos ouvido inúmeras críticas pelo facto de não se ver uma luz ao fundo do túnel.
O mundo manifesta-se pelo facto de os líderes políticos não estarem a ser capazes de enfrentar as circunstâncias e, por isso, não conseguirem pôr fim à crise que se abate, com incidências diferentes, um pouco por todo o mundo - das economias deprimidas às chamadas economias emergentes.
Ninguém vê ou ninguém quer ver o óbvio: o mundo e a economia, por motivos que não conseguimos controlar, está a mudar para uma realidade ainda para nós desconhecida.
Sem aceitar isto, ou seja, que nunca mais vamos viver como antes da crise que começou em 2008, nunca mais acertamos o passo, e o principal erro dos políticos tem sido o de promoverem acções para conseguir o impossível: business as usual ou, os negócios de sempre, como sempre.
Falta só olhar para a realidade e perceber que devemos fazer o melhor que sabemos e confiar que o desconhecido nos há-de trazer algo de bom.
Desde que o mundo é mundo, sempre que o homem achou que controlava a vida deu-se mal e teve que começar tudo do princípio. Provavelmente este é mais um desses momentos históricos.

domingo, 16 de outubro de 2011

A lógica da avestruz

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
Voz da Verdade, 2011.10.16
A LÓGICA DA AVESTRUZ
A conspiração da mentira e da morte na muito rendosa indústria do aborto

A muito puritana mulher do bispo anglicano de Worcester reagiu com indignação à hipótese evolucionista:
Descender dos macacos!? Que horror! Esperemos que não seja verdade mas, se for, pelo menos que não se saiba!
A reverendíssima dama teve uma reacção digna de uma avestruz: este animal, talvez um dos mais estúpidos do planeta, quando pressente um perigo, em vez de o enfrentar, enterra a cabeça na areia.
A julgar pelas novas práticas a seguir no atendimento das candidatas à interrupção voluntária da gravidez, parece que a Inspecção-Geral das Actividades de Saúde pretende que estas mulheres procedam do mesmo modo que a consorte episcopal e as avestruzes.
De facto, depois da inspecção realizada, no ano passado, a 22 estabelecimentos que realizam abortos, por opção da mulher, até às 10 semanas de gravidez, essa entidade oficial recomenda que os «objectos alusivos à infância, ou do foro religioso, sejam removidos dos gabinetes médicos e de apoio psicológico e social, onde é prestado atendimento a estas utentes». A retirada desses objectos é exigida na medida em que os mesmos, segundo o mesmo relatório, podem «interferir com a escolha das utentes».
Como poderia ser chocante para a candidata ao aborto saber a verdade, entende a dita Inspecção-Geral que se deve evitar tudo o que, de algum modo, possa revelar a verdadeira natureza do acto eufemísticamente designado como interrupção voluntária da gravidez. Como? Pois bem, a grávida não deve conhecer o resultado das ecografias, nem de qualquer outro exame médico que comprove a certeza científica da vida humana que em si gera. Também não deve saber que a «interrupção» da dita gravidez mais não é, na realidade, do que o extermínio desse ente, diminuto mas já portador de todas as características próprias do ser humano. Por isso, a sala em que for recebida a desesperada mãe não deve ter «objectos alusivos à infância, ou do foro religioso», porque a sua presença poderia coagir emocionalmente a grávida, coarctando a sua liberdade de pôr termo à vida do seu filho.
Bem vistas as coisas, as titulares do «direito» ao aborto nem sequer deveriam ser atendidas por pessoas, na medida em que estas mais não são, necessariamente, do que ex-crianças, que já foram portanto iguais ao ser que agora se pretende eliminar. Além do mais, se se trata de um competente e honesto profissional da saúde, como são quase todos os médicos e enfermeiros, não poderá negar a vida humana do embrião, nem o seu carácter pessoal, o que também pode ser perturbador para a infeliz mãe. Assim sendo, o atendimento de grávidas nesta situação deveria ser feito por máquinas de reposta automática, que ignorem a verdade que não convém e sejam cúmplices da mentira que interessa afirmar.
Entende-se que, nos gabinetes de atendimento médico e psicológico, é perniciosa a presença de tudo o que possa ser entendido como alusivo à «infância». Mas quem pode negar que, pela janela do consultório, se vejam bebés ao colo das suas mães, ou se oiça o inocente riso de uma criança?! Para evitar uma tal interferência, talvez seja de recomendar que as consultas tenham lugar em salas subterrâneas, hermeticamente fechadas e devidamente insonorizadas.
E, de que cor deveriam ser as paredes destas celas, se se interdita tudo o que seja, ou possa parecer, alusivo ao «foro religioso»? Brancas não, pois é a cor que vestem as noivas no dia em que casam pela Igreja, logo tem um claro sentido cristão. Azul é a cor do céu, portanto apela para o transcendente e, por isso, deve ser também rejeitado. Amarela é bandeira oficial do Vaticano, portanto também não é uma cor admissível. Encarnado é o sangue e, portanto, poderia parecer uma velada alusão ao carácter sangrento da interrupção voluntária da gravidez. Um cor quente e alegre também não se compadece com a natureza do acto a decidir em tal compartimento, uma vez que nenhuma insinuação cromática deve perturbar a triste e fria determinação de quem o Estado tão empenhadamente quer que aborte. Talvez só o preto se deva utilizar nessa câmara ardente, cega e surda, em que só, diante de uma máquina, a mulher poderá, finalmente, decidir «livremente» a interrupção voluntária da sua gravidez.
Num tempo em que o Estado se empenha em dar uma exaustiva informação sexual, que não educação, às crianças, não deixa de ser paradoxal esta aposta na manipulação das mulheres, principais vítimas desta afectada ignorância sobre o que a ciência afirma da vida em gestação e sobre as implicações éticas e psicológicas do acto de abortar. O poder público, ciente da natureza desse dramático desfecho, sabe que só uma mulher enganada e desamparada poderá chegar a uma tão trágica determinação. Pelos vistos, embora a Igreja tenha a fama de obscurantista, é o Estado quem tem o proveito, como responsável por esta conspiração da mentira e da morte na muito rendosa indústria do aborto.
Há dois mil anos, Jesus Cristo falou de alguém que é «homicida desde o princípio (…), mentiroso e pai da mentira» (Jo 8, 44). Ele é o «príncipe deste mundo». Nem mais.
  Gonçalo Portocarrero de Almada

A IDEOLOGIA DO GÉNERO

Isilda Pegado
Voz da Verdade, 2011.10.16

1 – Confrontados com uma crise que parece não ter solução, importa verificar como vivemos e para onde caminhamos. Há como que uma anestesia em que somos embalados e a realidade perde a sua dimensão.
Esta ausência de realismo é hoje mais uma forma de privar o homem da liberdade. E tem um nome – Ideologia do Género.
2 – A ideologia do Género implica uma nova forma de conceber o ser humano e a sociedade. Defende que as diferenças entre homens e mulheres não dependem da natureza sexuada mas foram construídos culturalmente de forma artificial através da história e são a causa da descriminação que a mulher tem sofrido. Propõe-se libertar a mulher e através da eliminação da diferença de género.
3 – Parte de uma antropologia dualista que separa na pessoa a dimensão corporal da psicológica, argumentando que a pessoa é totalmente autónoma e pode construir-se como quiser, segundo o seu desejo. A vontade individual é uma força ilimitada.
É a última rebelião da criatura contra a sua condição como tal. Na verdade, o homem do ateísmo negou a Deus, que lhe podia dizer o que era o Bem e o que era o Mal. O homem do materialismo negou a sua natureza espiritual. Com a ideologia do Género o homem nega o seu corpo. Isto é o Homem julga-se Deus.
4 – Esta ideologia parece, à partida, fácil de rejeitar, mas ela tem uma forma muito subtil de entrar nas pessoas. Por um lado, usa uma forma de linguagem que é uma verdadeira engenharia verbal, onde a manipulação das palavras é o método. Usam-se palavras para significar coisas distintas do seu próprio significado (IVG em vez de aborto; saúde reprodutiva para falar de contracepção e aborto; amor intergeracional em vez de pedofilia ou redução embrionária para eliminar seres humanos na fase de embrião).
Esta engenharia verbal retira ao homem a sua capacidade de julgamento e de decisão livre. É o esvaziamento total das consciências.
Há duas maneiras de compelir as pessoas a agirem contra as próprias convicções e sobre as leis naturais. A primeira é o recurso à força. A segunda é a propaganda sistemática que utiliza a manipulação verbal como instrumento de acção por excelência.
Este tipo de propaganda procura incutir novas crenças nas suas vítimas. No momento em que estas novas atitudes são interiorizadas pelas pessoas, estas passam a acreditar que foi através da sua própria vontade que criaram esta nova forma de actuar, fazendo-a como sua.
A manipulação verbal corta a dignidade humana porque os indivíduos são objectos manobrados e dominados.
A verdadeira realidade é substituída por uma fictícia; a percepção é de facto dirigida a um objecto, mas agora trata-se de uma pseudo-realidade, de forma falsamente real, tornando-se quase impossível discernir a verdade. Ora, uma mentira que nega a verdade objectiva da realidade, opõe-se à característica fundamental do homem, que é a procura da verdade.
Esta manipulação da realidade baseia-se também no relativismo filosófico.
5 – Além disso, os meios de Comunicação Social, as escolas e a política legislativa vão a pouco e pouco introduzindo a Ideologia do Género. A lei molda e orienta comportamentos e a consciência colectiva muda facilmente. Facilmente se identifica o que é legal com o que é bom. Se olharmos para os países europeus que introduziram leis como o aborto livre, casamento entre pessoas do mesmo sexo ou divórcio a pedido, antes das leis serem aprovadas os casos existentes eram raros. Com a nova lei em vigor, rapidamente crescem os números do aborto, casamento gay ou divórcio.
6 – O objectivo dos defensores da Ideologia do Género é a destruição da sociedade, especialmente a partir de tudo o que está relacionado com a sexualidade, a Família e a Vida.
Por isso vemos as leis que banalizam de forma alarmante a identidade sexual. Basta invocar que psicologicamente me sinto diferente do corpo que tenho para logo de seguida poder mudar a minha identidade – mudo o nome de Maria para Manuel e passo a declarar-me homem ainda que fisionomicamente tenha aparência feminina.
7 – Por outro lado, a velha ideia de que para libertar a mulher é necessário acabar com a família e o casamento. Para acabar com uma instituição podemos usar duas formas – ou decretamos o seu fim (por lei) ou vamos equipará-la a realidades diferentes que a esvaziam de conteúdo. É esta a via seguida por aqueles que querem acabar com o casamento e com a família. Estes institutos deixam de ser realidades identificadas.
Por exemplo, podemos dizer que qualquer união pode ser considerada casamento (com 3 pessoas, pessoas e animais, etc., etc.).
8 – A Ideologia do Género defende a radical igualdade entre homem e mulher, e despreza a maternidade que é o mais específico do feminino. A maternidade é vista como algo negativo, algo que degrada e escraviza a mulher e que a impede de realizar-se plenamente.
Por isso defende que os cuidados a prestar aos filhos devem ser entregues a entidades públicas. Basta ver a institucionalização de crianças que cresce exponencialmente, negando-se às famílias os apoios que precisam para cuidar dos filhos. As Leis de Promoção e Protecção de Menores são disso um exemplo claro. Os mais pobres são os mais vulneráveis.
Mas também querem “libertar” a mulher da gravidez, por isso as técnicas da reprodução artificial são tão desejadas, assim como o uso massivo de anticonceptivos. E ainda o direito ao aborto livre chamando-lhe “direitos reprodutivos e sexuais”.
9 – A Ideologia do Género, difundida por grandes Organizações Mundiais, priva a razão humana de reconhecer o real e por isso tornou-se hoje a principal inimiga do homem, da mulher, da família e da sociedade. Rouba ao homem a liberdade porque o manipula ao apagar o real.
Para vencer esta crise do mundo ocidental é necessária uma razão aberta à linguagem do Ser e por isso capaz de conhecer a realidade.

Isilda Pegado
Presidente Federação Portuguesa    pela Vida

sábado, 15 de outubro de 2011

Um coração capaz de escutar

Pe. José Jacinto Ferreira de Farias

A recente viagem apostólica de Bento XVI à Alemanha foi seguramente muito importante para reavivar o fervor da fé e o amor à Igreja naquela nação tão importante na história do Ocidente, em grandes momentos da constituição do que hoje designamos como cultura e civilização cristã. Basta pensar-se na formação da Europa, com o Sacro Império Romano Germânico; na constituição dos Estados modernos, a partir da reforma protestante; e no pensamento filosófico e científico a partir do séc. XVIII especialmente. As grandes nações têm evidentemente momentos de luzes e momentos de sombras, e as sombras são correspondentes de certo modo às luzes. Isto acontece com a Alemanha e acontece igualmente com outras nações, inclusive com o nosso pequeno pais, que tem uma grande história atrás de si, e que o mesmo pontífice Bento XVI ainda muito recentemente veio recordar-nos, apelando a que como comunidade nacional e como pessoas cada um de nós faça um esforço de reconciliação com o passado, entregando-o na misericórdia de Deus, para que possamos viver o presente em paz e olhar para o futuro com esperança.
Não pude ainda ler todos os discursos que Bento XVI proferiu na Alemanha. Aqui gostaria de fazer eco ao que proferiu no Parlamento em Berlim, que considero verdadeiramente notável, pelo apelo que faz directamente aos alemães, mas também a todos os homens de boa vontade, para que sejam recuperados os verdadeiros fundamentos do Direito, como forma de coexistência pacífica entre todos os povos. Deste notável discurso, gostaria de sublinhar apenas dois pontos.
Em primeiro lugar, Bento XVI denuncia os limites de uma concepção positivista da razão e da natureza e, por conseguinte, do Direito, que se tem imposto unilateralmente no Ocidente, e considera que se trata aqui de uma questão urgentíssima, que motivou, assim me parece concluir, não só este discurso, mas também, de certo modo, esta sua viagem apostólica, tendo em conta precisamente a influencia que a Alemanha tem no discernimento intelectual das grandes questões filosóficas e existenciais do homem contemporâneo. A verdade, do homem e da natureza, está muito além de que se possa verificar e experimentar, porque aquilo que facilmente se demonstra não tem valor ou tem pouco valor. A crise actual tem raízes mais fundas, que mergulham na redução positivista da razão e da natureza e, por conseguinte, do Direito.
É neste contexto que Bento XVI aborda a questão da natureza do ponto de vista da preocupação ecológica pelo ambiente. Mas chama a atenção para a urgência de uma nova ecologia que tenha em conta o homem, portanto, de uma ecologia humana, pois o que hoje está em risco é mais do que a sobrevivência de muitas espécies: o risco maior do nosso tempo é a sobrevivência do homem, que corre o risco real e autêntico de, na super-abundância dos bens de produção, não viver verdadeiramente, mas simplesmente vegetar.
Bento XVI está consciente de que, para a superação de uma visão meramente positivista da razão e da natureza, do homem, em última análise, não basta a determinação humana; é algo que é necessário pedir como graça e como dom. Por isso ele enquadra o seu discurso com a oração de Salomão, no dia da sua entronização como rei de Israel (cf. 1Rs 3,9). Quando Deus lhe pergunta o que deseja naquele dia, o jovem rei não pede nem riqueza nem poder, mas um coração sábio – um coração capaz de ouvir, como diz o Papa Bento XVI na sua muito própria expressão alemã -, para que seja capaz de ser justo, de distinguir o bem e o mal.
É precisamente esta sabedoria que nos faz falta hoje e que, seguindo o apelo do Papa, cada um de nós deve implorar de Deus a graça todos os dias.
José Jacinto Ferreira de Farias, scj

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Livres em Deus

RR on-line 14-10-2011 8:48
Aura Miguel
O poder deste mundo odeia a religiosidade. E porquê? Porque tudo o que dá glória a Deus incomoda quem tem pretensões de dominar a vida dos outros.
A razão é óbvia: é que a raiz da verdadeira liberdade dos homens está na ligação ao Absoluto, ao Mistério de Deus que define o rosto, a memória e identidade daqueles que O seguem.
Por isso, o poder tenta arrancar da nossa vida essa raiz, tenta cortar Deus da nossa consciência, especialmente, quando a dimensão religiosa está ligada à nossa História.
O alerta do Arcebispo de Moscovo, que esteve ontem em Fátima, não se aplica só aos russos, nem perdeu actualidade: também nós, hoje, quanto mais enraizados em Deus estivermos mais livres seremos em tudo na vida. Até mesmo para ir contra-corrente, se for caso disso.

Pensamento do dia

Quando um homem descobre as suas faltas, Deus esconde-as. Quando um homem esconde as suas faltas, Deus revela-as, quando as reconhece, Deus esquece-as.
Sto Agostinho

De regresso a casa depois de um tempo de acrescida consciência da misericórdia de Deus, partilho convosco este pensamento do dia, que no-la recorda.
Um abraço com amizade do
Pedro Aguiar Pinto

"Onde há Deus, há futuro" comentário aos discuros do papa Bento XVI durante a visita à Alemanha

CCLPH Mail Anuncio 14 Outubro 2011

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Paz feminina

DESTAK | 12 | 10 | 2011   19.01H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@ucp.pt

Pela primeira vez o prémio Nobel da paz foi entregue a três mulheres. Nas 111 edições desde o lançamento em 1901, o galardão, que ficou por atribuir 19 vezes, foi concedido a 21 organizações (o Comité Internacional da Cruz Vermelha por três vezes) e 101 pessoas, das quais apenas 15 mulheres. Ellen Johnson Sirleaf, Leymah Gbowee e Tawakkul Karman foram distinguidas ‘pela sua luta não violenta pela segurança das mulheres e pelo direito das mulheres em participarem plenamente no trabalho de construção da paz’.
Karman do Yemen teve certamente o prémio mais marcante, como activista dos direitos femininos num país muçulmano. No ano da «primavera árabe», onde tantos gostariam de ver premiados os líderes da mudança, o Comité Nobel preferiu distinguir essa questão particular, nem sempre lembrada.
A ‘dama de ferro’ Ellen Sirleaf, economista de Harvard, é já figura histórica, primeira mulher eleita democraticamente para a presidência num país africano, a Libéria em 2005. Mas a sua compatriota Gbowee foi quem usou armas mais femininas. Em 2002 organizou uma ‘greve de sexo’, seguida por mulheres cristãs e muçulmanas. Este método radical, sugerido pelo ateniense Aristófanes na peça cómica Lisístrata de 411 a. C., conseguiu desta vez forçar negociações de paz na segunda guerra civil liberiana.
Quando essas conversações ameaçavam falhar, ela e 200 colegas bloquearam a sala, ameaçando despir-se se fossem expulsas. Assim o prémio foi dado, não apenas a mulheres, e mulheres que lutaram pelas mulheres, mas que lutaram como mulheres.

2011.10.13 Homilia de Dom Paolo Pezzi na Peregrinação Internacional de Outubro ao Santuário de Fátima

2011.10.13 Homilia – Peregrinação ao Santuário de Fátima
Excelência reverendíssima Dom António [Augusto dos Santos] Marto, bispo de Leiria-Fatima!
Excelências reverendíssimas!
Caros irmãos no sacerdócio!
Caros irmãos e irmãs!
Na primeira leitura de hoje, ouvimos novamente a narração da vocação de Samuel, o grande vidente de Israel, chamado por Deus para vigiar sobre a delicada passagem do povo de Deus a um novo período da sua história: a época dos grandes Reis. O trecho que ouvimos inicia com uma nota de tristeza, de profunda saudade: “O Senhor, naquele tempo – escreve o autor sagrado – falava raras vezes”. Isto significa, na linguagem bíblica, que havia falta de profetas, porque a profecia era a maneira habitual com que Deus continuava a falar ao seu povo: pela voz dos profetas, o Senhor permanecia uma Presença Viva, capaz de intervir e dialogar  com o seu povo sobre os acontecimentos presentes, concretos, da vida do povo. Graças aos profetas a Aliança com Deus não se reduzia à observância da Lei  que Deus tinha entregue a Moisés no Sinai.  Não, Deus não se tinha afastado de Israel, deixando-o a cumprir uma série de preceitos: Ele permanecia presente, continuava a interessar-se pelo seu povo, e precisamente através da voz dos profetas, através das imagens e dos tons das suas palavras, Deus fazia sentir a Israel quanto era real e sério o seu interesse pelo povo da Aliança.
Eis a razão pela qual a ausência  dos profetas era para Israel um sinal de extravio. Será que Deus se esqueceu de nós? Há de facto momentos na história nos quais se pode ter a impressão que Deus se esqueceu do homem. Momentos em que Deus “fica em silêncio”, e a sua voz parece ausente ou abafada por outras. Devemos constatar que é verdade: há momentos na história nos quais o Senhor, por assim dizer, fica em silêncio. Mas isto não significa que se esqueça do homem! Na realidade, também o silêncio de Deus é uma palavra. Melhor – come dizia Inácio de Antioquia  - mesmo os mistérios mais “retumbantes” Deus pronunciou-os no silêncio: a Conceição Virginal, a Incarnação, a Ressurreição … as palavras mais sonoras pronunciou-as no silêncio. E assim, do mesmo modo, também na nossa vida, também na nossa história o silêncio de Deus é sempre carregado de Logos, de palavra, isto é, de significado.
Mas qual? Antes de mais, já o entrevimos meditando sobre a tristeza que transparece das palavras do autor sagrado. Por que se cala Iavé? Porque não foi Ele mas sim o seu povo que esqueceu-se dele. E assim,  precisamente afastando-se, Iavé educa Israel a perceber quanto precisa do Senhor, quanto o povo se vai abaixo se com o coração se afasta dele. Eis então que com o seu silêncio o Senhor nos fala, antes de mais, porque nos faz tomar consciência da necessidade que temos dele. A tristeza, o vazio que toma posse do coração de quem está longe de ti, ó Senhor, é precisamente a primeira palavra com a qual Tu nos chamas, como escreveu de maneira insuperável Agostinho: Fizestes-nos para Ti, ó Deus, e o nosso coração está inquieto enquanto não encontra em Ti a verdadeira paz”.
Mas aquela expressão  - “O Senhor, naquele tempo, falava raras vezes” – além de nos falar da inapagável saudade de Deus que habita no coração do homem, sugere-nos também quanto é importante na nossa vida, mesmo nos momentos em que Deus parece ficar em silêncio, a recordação, a memória das palavras que Deus já nos disse. E deste modo, precisamente no silencio descobrimos antes de mais o valor daquela palavra que nunca falha,  aquela palavra silenciosa que Ele nos dirige em cada instante, com o próprio facto de nos criar a partir do nada, com o próprio facto de nos renovar  no nosso ser em cada instante. Sim, é paradoxalmente no silêncio, quando Deus nos deixa sem outras palavras, que podemos ouvir esta palavra que Ele sussurra nas raízes mais profundas do nosso ser, mas que geralmente não ouvimos, distraídos por causa de muitas outras palavras que parecem mais autênticas e importantes.
E em seguida, depois deste acto de memória, que podemos chamar primordial, existe a memória de todas as outras palavras que Deus nos disse, a memória de toda a história, cheia de acontecimentos, pessoas, rostos, através dos quais o Senhor falou à nossa vida.
A lembrança de Deus! Se nós não cultivamos a recordação de Deus, a memória das palavras que Deus nos disse e continua a dizer no concreto da nossa vida quotidiana, o nosso ser, sem nos apercebermos,  enfraquece, atrofia-se, perde o próprio rosto: porque toda a força  e a certeza do homem está na memória da Aliança com o Deus fiel.
O trecho da Carta de Tiago que ouvimos leva-nos a dar mais um passo: se a escuta da palavra, o dar em nós o espaço para a escuta é a primeira e fundamental tarefa, é necessário também que a palavra de Deus, uma vez ouvida, seja praticada. Na realidade entre escutar e  praticar, entre fé e obras, não há nenhuma oposição nas palavras de São Tiago. Antes, existe uma continuidade: a memória de Cristo – porque Cristo é a Palavra “resumida”, a Palavra em que todas as palavras de Deus se resumem – a memória de Cristo, vivida com fidelidade, torna-se de facto irresistivelmente fermento de mudança da nossa personalidade, impulso para uma nova vida. Um impulso tão irresistível que – como nota São Tiago – só um voluntário e deliberado esquecimento, só a recusa da própria lembrança nos faz parar no processo de mudança. Como um homem que depois de se olhar ao espelho e de ter visto quem é, e de imediato se esquece inexplicavelmente do próprio rosto, assim nos acontece a nós. A razão pela qual a nossa vida parece não se transformar é mesmo esta: a estranha falta de memória, o esquecimento do nosso verdadeiro rosto, que descobrimos só quando olhamos aquele espelho verdadeiro que é o rosto do Senhor,  e nos vemos reflectidos no seu olhar, que nos revela a nós mesmos. Quanto mais eu vivo a memória, a recordação de quem sou aos olhos do Senhor, tanto mais a minha vida se transforma, ao passo que o esquecimento deixa cair a força de lutar, de construir, e leva, enfim, a perder o gosto de viver.
De facto, não é por acaso que todo o poder totalitário – e a nossa história recente o demonstra tragicamente -  teve como fim principal precisamente este: o de remover no povo a memória, a recordação viva da própria história, e especialmente quanto desta história está ligada à dimensão religiosa. Pois é na memória da ligação ao Absoluto, ao Mistério de Deus, que reside  ultimamente a raiz da liberdade dos homens em relação a qualquer poder mundano, e por isso mesmo é esta ligação que o poder deste mundo tem interesse em cortar arrancando-o das consciências. O que o poder deste mundo odeia é mesmo a religiosidade, ou seja, a vida vivida como relação com o Mistério de Deus, como resposta ao Mistério de Deus, Senhor da história.
Para voltarmos  ao acontecimento  de Samuel, que ouvimos na primeira leitura, poderíamos dizer: é a vida vivida como religiosidade que é vocação, isto é, resposta a Deus que chama.
Deus chama-nos: chama-nos à existência dando-nos a vida, e depois chama-nos a servi-lo para colaborar na realização do seu desígno sobre a História. Esta é a verdadeira essência da vida: responder a Deus que nos chama: “Falai, Senhor, que o vosso servo escuta”; “Eis-me aqui, sou a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra” (cfr. Lc 1,38), dirá Maria ao Anjo; e nestas palavras está contido tudo aquilo que é essencial para tornar uma vida realizada, cheia de graça, bem-aventurada: “Salve, ó cheia de graça”, diz de facto o Anjo a Maria. E Ela mesma, na visita a Isabel dirá: “… chamar-me-ão bem-aventurada todas as gerações…” (cfr. Lc 1,28.48).
E nós, hoje, vindo aqui em peregrinação estamos a confirmar uma vez mais que a profecia de Maria é verdadeira. Nós hoje damos o nosso contributo para testemunhar que aquela profecia continua a ser verdadeira: chamar-te-ão bem aventurada.
Nós te agradecemos, ó Virgem, porque voltando para Ti os nossos olhos, nós hoje contemplamos uma vez mais, com admiração e encanto, o essencial para que também a nossa vida se realize: não recusar ao Senhor que chama, o nosso fiat, o nosso sim total.
A este coração do mistério de Maria nos apelam as palavras de Jesus que ouvimos no Evangelho: quem cumpre a vontade de Deus, quem “acolhe e guarda no seu coração” (cfr. Lc 2,19.51) a Palavra de Deus, esse torna-se íntimo do Senhor. Fazendo nossa, acolhendo a vontade de Deus, entramos na intimidade da relação com Deus ou, como diz Tiago, encontramos a felicidade, a realização da nossa vida em caminho.
De  Nossa Senhora nós aprendemos isto. Aprendemos a viver a vida como pertença a Deus, ao Mistério Vivo de Deus.
Perguntemo-nos agora: como é que Maria viveu esta pertença a Deus? Os Evangelhos não nos contam os detalhes. Mas alguma coisa podemos dizer com certeza: Nossa Senhora viveu a própria pertença a Deus no concreto das tarefas quotidianas que tinha para fazer. Nas pequenas ou menos pequenas decisões que tinha para tomar: isto era, para Nossa Senhora, pertencer  a Deus de modo concreto. E isto para nós significa: o pertencer da nossa vida a Deus tem que se desenvolver  nas circunstâncias quotidianas: no trabalho, no estudo, em tudo o que fazemos, quer o que queremos, quer o que temos para fazer, na fatiga e na alegria.
Se, seguindo Maria, vivermos a memória vigilante, activa, do facto de  a nossa vida ser chamada por Deus e que em cada coisa que nos é dado viver estamos a responder a Deus: quando formamos uma família, quando vamos para o trabalho, quando enfrentamos alguma coisa no nosso dia, quando respondemos ao apelo à virgindade, quando entramos no seminário, no mosteiro…, então apercebemo-nos  que é mesmo respondendo ao chamamento que Deus nos faz que cumprimos o nosso desejo de vida, bem além das nossas previsões, percebemos que nos tornamos fecundos, que estamos também nós entre aqueles que edificam o povo de Deus, que somos também nós mães, irmãs e irmãos de Jesus. E que nobreza e gosto de vida sentiremos na nossa existência!
“Os cristãos – disse o Papa Bento XVI na homilia da última Missa Crismal - deveriam tornar visível ao mundo o Deus vivo, testemunhá-Lo e levar até Ele. Somos nós verdadeiramente o santuário de Deus no mundo e para o mundo? Abrimos aos homens o acesso a Deus ou, pelo contrário, escondemo-lo? Porventura nós, povo de Deus, não nos tornamos em grande parte um povo marcado pela incredulidade e pelo afastamento de Deus? Porventura não é verdade que o Ocidente, os países centrais do cristianismo se mostram cansados da sua fé e, enfastiados da sua própria história e cultura, já não querem conhecer a fé em Jesus Cristo? Neste momento, temos motivos para bradar a Deus: «Não permitais que nos tornemos um “não povo”! Fazei que Vos reconheçamos de novo! Fazei que a força do vosso Espírito se torne novamente eficaz em nós, para darmos com alegria testemunho da vossa mensagem!».
Mas, apesar de toda a vergonha pelos nossos erros, não devemos esquecer que existem hoje também exemplos luminosos de fé; pessoas que, pela sua fé e o seu amor, dão esperança ao mundo”.
E o Papa recordou então o Beato João Paulo II, o “grande testemunha de Deus e de Jesus Cristo no nosso tempo, como homem cheio do Espírito Santo” (cfr Bento XVI, Homilia na Missa Crismal 22-04-2011). Em João Paulo II, tão ligado a Nossa Senhora, - Totus Tuus – tivemos um testemunho vivo de um “sim” total e livre à vontade de Deus. O “sim” de João Paulo II é no mundo contemporâneo o eco do “sim” de Nossa Senhora.
Antes de concluirmos, voltemos por um instante àquele momento, ao mistério daquele momento no qual Maria pronunciou o seu “sim”, o seu fiat. O que aconteceu naqueles poucos instantes? No mistério daquele momento, Nossa Senhora teve que intuir que se tratava de um verdadeiro anúncio de Deus. Que através do Anjo era verdadeiramente Deus a falar-lhe. A perturbação de que Lucas nos fala diz-nos que, de certo, nem tudo devia ser claro para Maria. Mas esta intuição foi clara. Assim acontece também em nós. De facto, nenhum de nós é cristão, senão porque de algum modo, por graça, intuiu que Cristo é verdadeiro, a Igreja é verdadeira, o mistério cristão é verdadeiro. Todos tivemos esta intuição.
Então, onde está a grandeza de Nossa Senhora? Na sua simplicidade: Ela disse: “Sim”, e basta. Nós, ao contrário, precisamos sempre de algo diferente. Somos mais complicados. Como se diante da evidência, do poder dos sinais que Deus nos dá para nos ajudar a pronunciar o nosso “sim”, nós encontrássemos sempre razões para sermos cépticos. Maria também podia encontrar razões para ser céptica. Pensemo-la por um instante, permaneceu sozinha em casa, depois  de o Anjo se retirar de junto dela: sozinha diante daquela promessa inaudita que tinha há pouco recebido. Poderia ter dito: “Talvez seja uma ilusão!
E se fosse uma ilusão?” Quantas vezes, diante de umas primeiras dificuldades, dizemos: “não foi verdade, foi uma ilusão!”. Maria está sozinha, também ela tem as suas dificuldades, mas é decidida e fiel. A sua é uma simplicidade cheia de muita força porque permanece fiel, porque se apoia na fidelidade de Deus. Deus é fiel. Até Abraão vacilou, Moisés  tremeu. Maria ao contrario é firme, mesmo na solidão. Maria é uma fortaleza, grande e simples.
Também Bernadette em Lourdes, Lúcia e os Pastorinhos aqui em Fátima experimentaram a mesma solidão, mas foram sustentados pela mesma certeza, foram fiéis. 
Peçamos a Nossa Senhora que nos sustente como os sustentou a eles.
Peçamos-lhe que nos ajude na peregrinação, na nossa decisão de caminhar atrás de seu Filho. Peçamos-lhe que nos faça permanecer na lembrança de seu Filho, aquela memória que nela foi dimensão de cada respiro, alma de cada instante. 
Ámen.
D. Paolo Pezzi, arcebispo de Moscovo