sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ajuda à Peregrinação a pé a Fátima (8 a 13 de Outubro)

Caros Amigos,

Como já vem sendo habitual pedimos apoio para constituir equipas para levar e servir as refeições da Peregrinação a pé a Fátima que iremos iniciar no próximo dia 8 de Outubro. Assim, mais uma vez, apelamos à generosidade de todos, disponibilizando o vosso precioso tempo. Agradecemos o envio de um e-mail com o vosso nome, número de telemóvel e local onde vão ajudar para Joana Queiroz Jqueiroz@apsi.org.pt. Depois de termos as equipas constituídas, enviaremos um e-mail com indicações mais precisas.

Dia 8.10 (Sábado) – Almoço - 1 pessoa para trazer o almoço de Lisboa até Alverca (estar em Alverca às 13h/13h30m) e esperar para trazer as vasilhas de volta

Dia 8.10 (Sábado) – Jantar – Vila Franca de Xira – Escola Secundária Alves Redol – Equipe de 7 pessoas para servir o jantar (estar em Vila Franca pelas 18:30 h para pôr mesas e preparar as coisas) + 1 pessoa para trazer o jantar de Lisboa até Vila Franca de Xira (estar em Vila Franca pelas 20h00m) e depois trazer as vasilhas de volta.

Dia 9.10 (Domingo) – Almoço – Azambuja – Bombeiros – Equipe de 6 pessoas para servir o almoço (estar em Azambuja pelas 12h para pôr mesas e preparar as coisas) + 1 pessoa para trazer o almoço de Lisboa até Azambuja (estar em Azambuja pelas 13h30m) e depois trazer as vasilhas de volta.

Dia 10.10 (2ª. Feira) – Almoço – Santarém – Centro de Apoio Social – Equipe de 7 pessoas para servir o almoço (estar em Santarém pelas 12h para pôr mesas e preparar as coisas) + 1 pessoa para trazer o almoço de Lisboa até Santarém (estar em Santarém pelas 13h/13h30) e depois trazer as vasilhas de volta.

Dia 10.10 (2ª. Feira) – Jantar – Vale Figueira – Equipe de 4 pessoas para servir o jantar (estar em Vale Figueira pelas 19h para ajudar a servir o jantar) + 1 pessoa para trazer o jantar de Lisboa até Vale Figueira (estar em Vale Figueira às 20h) e depois trazer as vasilhas de volta.

Dia 11.10 (3ª. Feira) – Jantar – Minde – Pavilhão de Apoio ao Peregrino Ana Sonsa – Equipe de 7 pessoas para servir o jantar (estar em Minde pelas 19h para pôr mesas e preparar as coisas) + 1 pessoa para trazer o jantar de Lisboa até Minde (estar em Minde às 20h) e depois trazer as vasilhas de volta

Dia 12.10 (4ª. Feira) – Almoço – Boleiros – Salão Paroquial – Equipe de 6 pessoas para servir o almoço (estar em Boleiros pelas 11h30m para montar as mesas, pô-las e preparar as coisas) + 1 pessoa para trazer o almoço de Lisboa até Boleiros (estar em Boleiros às 12h30m) e depois trazer as vasilhas de volta

O nosso muito obrigado,

Joana Queiroz e Pedro Aguiar Pinto

30 de Setembro - S. Jerónimo

S. Jerónimo penitente
1634
Jusepe de Ribera
Óleo sobre tela 78 x 126 cm
Museo Thysen-Bornemisza
Madrid

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Passos, um homem de sorte no reino dos Oh! Oh!

Público 2011-09-29 Helena Matos
Passos Coelho é o primeiro líder do PSD que pode governar sem ter de pedir desculpa por não ser socialista

Ontem, numa pequena notícia do PÚBLICO, dei de caras com a ilustração do estado de graça de Passos Coelho. Relatava ela que, feitas as contas, os trabalhadores da CML afectos a uma obra em Alvalade trabalham quatro horas por dia. Como o pessoal destacado para esta obra em Alvalade reportava a um serviço sito na Rua do Arsenal, o tempo de trabalho restante era ocupado com idas e vindas do Arsenal a Alvalade para almoçar, pegar ao trabalho e largar o trabalho. Perante este e outros casos, uma autodenominada Comissão para a Promoção das Boas Práticas (o nome que dão a estas estruturas deve sair de um manicómio) propusera que, face à "crise que o país atravessa e à fraca produtividade de alguns trabalhadores da Câmara de Lisboa", "os operários e outros funcionários do município e das empresas municipais passarem voluntariamente à situação de licença sem vencimento de longa duração para poderem exercer funções na câmara, ou fora dela, como tarefeiros contratados." Diria alguém recém-chegado que boa prática seria que a produtividade passasse a ser superior e que se o trabalho é em Alvalade não se vai picar ponto e almoçar ao Arsenal ou vice-versa.

O que tem o estado de graça de Passos Coelho a ver com isto? Tudo. Durante décadas, cada vez que alguém tentava alterar a legislação que permite estes absurdos começava o coro dos "Oh! Oh!". Eram os Oh!"s muito indignados dos sindicatos com o que imediatamente definiriam como ataque brutal aos direitos dos trabalhadores; os Oh! de enfado dos líderes do PS e do PSD perante as controvérsias e a má imprensa que este tipo de alterações sempre gera; e os Oh! reflexivos de um politólogo, dois sociólogos e três psicólogos sobre a desumanização do mundo capitalista bem patente na tentativa de alteração legislativa. Aqui chegados, o ingénuo que tentara mudar o que quer que fosse já se tinha dito e desdito e, para que a polémica acabasse mais rapidamente, até introduzia uma possibilidade de passear ainda mais de cá para lá no regulamento que em má hora pensara alterar.

Neste momento, sabemos que não podemos continuar assim. Esta crise teve a virtude de mostrar que quem paga as contas da baixa e da alta produtividade são os portugueses e estes não conseguem pagar mais passeios entre Alvalade e o Arsenal. Logo, Passos Coelho beneficia deste sentimento de inevitabilidade e também da imposição externa de um plano: as grandes mudanças em Portugal nunca resultaram de um debate ponderado, do voto ou de um esforço de racionalidade, mas sim de uma imposição. Logo, se o seu Governo não perder o tino, Paulo Macedo não sofrerá o calvário de Leonor Beleza, Vítor Gaspar não será acusado de ter a obsessão do deficit e Nuno Crato pode muito bem ser o primeiro ministro da Educação a não sair da 5 de Outubro como um derrotado. (A propósito de Educação, os prémios pecuniários aos melhores alunos suspensos por Nuno Crato eram uma excelente iniciativa de Lurdes Rodrigues: os melhores devem ser premiados e fazer com o prémio o que entenderem).

Mas, para lá deste estado de verdadeira graça, graça porque resulta não da tolerância dada aos recém-chegados ou da boa imprensa, mas sim de algo muito mais profundo - a nossa desgraçada situação e a necessidade de acreditarmos que vamos sair dela -, Passos Coelho é o primeiro líder do PSD que, na qualidade de primeiro-ministro, pode governar sem ter de pedir desculpa por não ser socialista. Este complexo de inferioridade político e cultural dos sociais-democratas levou e leva a que, uma vez no Governo, fujam da ideologia como da peste e apostem em mostrar a bondade das suas posições através da construção de obra ou então aprovando programas e legislação de cariz socializante.

Não por acaso, foi um ministro socialista, Maldonado Gonelha, que declarou ser necessário partir a espinha aos sindicatos e foram socialistas os líderes que nos mandaram meter o socialismo na gaveta e pediram ajuda externa para Portugal. Se não fossem socialistas, seriam dados como politicamente inapresentáveis, tal como agora sucede com Jardim. Esta atitude de quem não tem de pedir desculpa por ser quem é, aliada à forma como encaram o poder, fez dos socialistas a família política com mais condições para reformar Portugal. Podiam tê-lo feito em 2005. Infelizmente, falharam.

As eleições de 2011 deram a vitória ao PSD. Não creio que a única coisa que se deve exigir a Passos seja que governe. Passos tem a oportunidade de fazer mais: pode clarificar ideologicamente a política portuguesa transformando o PSD de um partido que se legitima através do perfil dos líderes que são sérios e fazem obra (Cavaco Silva) ou que aposta no mito do bom aluno que vai executar exemplarmente o programa da troika e salvar Portugal (ele mesmo, Passos Coelho) num partido que não tem vergonha de não ser de esquerda. A democracia, que é muito mais importante que a crise, ficava agradecida. Ensaísta

O comendador sem comenda

Público 2011-09-29 Pedro Lomba

As duas enormidades que passo a enunciar envolvem verbas diferentes e pessoas diferentes em peso e estatuto. Mas são ambas um impiedoso retrato de como o Estado português é, no limite, apropriável por pessoas particulares.

A primeira, que ainda não está inteiramente fechada, é o aumento da verba que o município de Lisboa - entidade, como sabemos, numa robusta situação financeira - se prepara para votar em benefício da Fundação Mário Soares. Além dos 50 mil euros anuais que resultam do protocolo assinado em 1995, a vereadora da Cultura da câmara propõe uma contribuição adicional de perto de 15 mil euros (Correio da Manhã, 28-9). Aparentemente, ninguém percebe a razão para esta súbita e crescente generosidade do executivo de António Costa. Trata-se de um problema simbólico. Sempre supus que, em época de cortes e contracção, seríamos todos obrigados a viver com menos. Manifestamente, há quem vá acabar por viver com mais. A oeste nada de novo.

O segundo caso é, obviamente, bem mais grave. Fundações privadas financiadas, no essencial, pelo Estado tornaram-se a última e promíscua moda do regime. O caso mais espantoso de desvergonha é o da Fundação Arte Moderna e Contemporânea - Colecção Berardo, mais conhecido como o Museu Colecção Berardo, que se instalou no Centro Cultural de Belém em Lisboa, em 2006, através da ocupação total do seu centro de exposições.

O negócio da Fundação Berardo foi inconcebível, relembre-se. Num processo em que se envolveu directamente o primeiro-ministro Sócrates, o Estado português albergou na Fundação do CCB a famosa colecção do Sr. Joe Berardo, uma figura que, em Portugal, passa estranhamente por "empresário", a troco de condições ruinosas para o interesse público. Muita gente protestou na altura. O Presidente da República promulgou contrariado, tornando públicas as suas objecções (e vê-se agora como tinha razão). O deputado João Semedo, do Bloco, chegou a classificar o negócio como um "mecenato ao contrário": era o Estado que financiava a fundação de Berardo e não o "benemérito" que nos oferecia a sua filantropia.

E, na verdade, analisados os estatutos da fundação, era o horror. Além das despesas de funcionamento da fundação, a contribuição financeira a que o Estado se obrigou envolvia a transferência, através do Ministério da Cultura, de uma verba anual avultada para um fundo de aquisição de obras de arte que só terminará em 2015.

Claro que, depois deste incrível favor, deu-se a troca de poder pelo poder, porque, quando foi preciso que Berardo, através de um financiamento especial que lhe foi concedido pela Caixa Geral de Depósitos, entrasse no golpe da tomada do BCP - hoje um assunto mais do que público -, o especulador declarou-se mais do que presente.

Tudo isto só podia ter um mau epílogo. Hoje, o Sr. Berardo tornou-se um dos mais célebres devedores do banco público. Está com a corda na garganta. Em Janeiro de 2009, o Diário Económico noticiava que Berardo entregou a colecção como garantia aos bancos que o ajudaram na compra de acções do BCP. A mes-ma colecção cujo fundo de aquisição o Estado todos os anos financia. Se pensarmos duas vezes, percebemos a absoluta imoralidade de tudo.

Parece agora que o Sr. Berardo, que volta e meia enxovalha pessoas a quem acusa de crimes e torpezas, não consegue pagar os salários deste mês da sua fundação, pelo que decidiu acusar ontem a fundação do CCB de ter um "saco azul" no estrangeiro, dardejando os membros do conselho de administra-ção do centro com várias "honrarias". A fundação já respondeu e, é preciso dizer, é bem feito para Mega Ferreira, que ficou mudo em 2006 e agora está a ser atacado com brutalidade.

Porque aquilo que interessa ao Sr. Berardo é isto que ele diz: "Se querem poupar nas despesas das fundações, era melhor a Fundação Berardo e o CCB se juntarem". Nada mais oportuno. Resolvia-se de uma vez o seu problema. Infelizmente, não se resolvia o nosso, nem o dos bancos, que, numa manobra irresponsável, lhe emprestaram há anos o que agora não têm. Jurista

A sentença cardinalícia

António Bagão Félix
CM 2011-09-29
O senhor Cardeal deu mais uma entrevista. Nela, disse que "ninguém sai da política com as mãos limpas".
Sou católico apostólico romano. Activamente. E tenho respeito e consideração por D. José Policarpo. Mas fiquei estupefacto com a afirmação, surpreendente, injusta e perigosa.
Surpreendente, vinda de quem bem sabe sopesar as palavras para exprimir fielmente o seu estruturado pensamento.
Injusta, tratando como igual o que é diferente. Na coisa pública, como no trabalho, na empresa, até na Igreja, há bons e maus exemplos. Reconheço que o maior escrutínio exercido sobre os políticos se justifica, pois actuam em nome e com os recursos do povo. Mas, se há quem tenha enriquecido através da política, há também quem tenha empobrecido. Se há quem seja pouco sério, há também quem se dedique com probidade absoluta. Se há quem trafique poderes, há também quem actue virtuosamente com a integralidade do carácter.
Perigosa, porque estas generalizações abusivas alimentam o imaginário popular de que "os políticos são todos iguais": corruptos, arrivistas, mandriões ou incompetentes.

Não pagamos!

DESTAK | 28 | 09 | 2011   18.42H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
O Estado português está a cortar a despesa pública. Esta frase só pode ser piada. «Cortar despesa» é coisa que o Estado português nunca fez em 850 anos de história. É verdade que tem falado muito nisso. Pode até dizer-se que é a coisa que mais tem falado ao longo dos séculos. Mas cortar a despesa, cortar não cortou. Nunca!
Às vezes a despesa desce por si mesma, como aconteceu aos juros no caminho para o euro. Outras surge uma ditadura que trata disso, com João Franco ou Salazar. Mas deixada a si mesma, em liberdade, nunca a despesa pública portuguesa desceu.
É verdade que a troika está a criar uma espécie de «ditadura financeira» no meio da democracia: ou se reduzem os gastos ou não há mais dinheiro. Será que isto chega para que finalmente se possa ver este fenómeno cósmico de o Estado português cortar despesa? Promessas são muitas e duras, mas isso é costume. Até agora «descer despesa» teve apenas o significado clássico em linguagem orçamental: subir impostos.
Ah, é verdade, e também há aquele truque canónico que parece mesmo descer despesa mas não é: o Estado não paga as contas. Trata-se de uma forma de criar dívida pública informal, usando os fornecedores como caixa económica. Assim gasta menos: os bancos queixam-se que o seu único problema de solvabilidade é o sector público não pagar o que deve, milhares de pequenos fornecedores são estrangulados por dívidas a cobrar do erário público, a Ordem dos Advogados ameaça processar o Estado por pagamentos em atraso das defesas oficiosas. Mas cortar a despesa, cortar não cortou.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Um testemunho emocionado das JMJ

Pe. Luis Miguel Hernández
O momento mais impressionante da semana passada em Madrid por ocasião das JMJ foi para mim a vigília do Sábado à noite. A chuva e a trovoada contrastaram com o severo Sol espanhol, que nos acompanhou durante os dias passados na cidade. Mas, sobretudo, viu-se a verdade deste evento de maneira exemplar.
Cheguei ao aeródromo de Cuatro Vientos por volta das 16 horas, acompanhando um grupo de mil e duzentos universitários do Movimento de Comunhão e Libertação [uns 100 portugueses; uma dúzia de Alverca]. Já o nosso primeiro impacto ao chegar foi desarmante: o rio contínuo de jovens era mais do esperado e, na planície, ao tentar alcançar o sector E6 que nos tinha sido assignado, apercebemo-nos de que teria sido impossível entrar nele. A pesar de cada sector estar preparado para acolher umas 40 mil pessoas, e a distância ao palco ser já notável, parecia infinita a multidão de colchonetes e sacos-cama, mochilas e pessoas que os carregavam. Tivemos de nos instalar sobre uma pista de aterragem, próximos duma das saídas do campo militar, onde (acho eu) já não estava previsto alojar peregrinos. E os voluntários diziam-nos que ainda havia muita gente que esperava para entrar nas portas.
Uma vez encontrado o lugar para passar a noite, donde víamos de longe um écran grande como uma unha e ouvíamos pouco (se não fosse pelos rádios), ficámos a descontrair procurando os amigos, preparando os nossos mais ou menos sofisticados leitos e jantando alguma coisa antes da vigília com o Santo Padre. Sem saber o que se estava a aproximar, alegrámo-nos quando algumas nuvens cobriram o riguroso Sol madrileno. Os bombeiros, divertidos a banhar com as mangueiras os peregrinos mais acalorados, tiveram de ir embora.
Pelos altifalantes e pelo rádio anunciam que está a chegar Bento XVI. Percebe-se também pelos gritos de longe: «Esta é a juventude do Papa», canta-se, uma espécie de hino que nos acompanhou em cada encontro. Começam também outros gritos: são as primeiras pessoas a quem o vento está a levar os bonés, o lixo amontoado ou até o saco-cama. De facto, chegam algumas inesperadas lufadas de vento, que nos apanham por surpresa.
Enquanto o Santo Padre dà umas voltas pelos diferentes sectores e se aproxima do palco principal, ajudamo-nos a recolher todas as nossas coisas em pequenos montes, que os mais expertos e generosos cubrem com plásticos ou com lona e depois, não se sabe como chegou até cá, com uma vedação de metal.
Vivemos o momento com grande entusiasmo: enquanto que nos dias anteriores assistimos nas ruas à cerimónia de chegada e à via sacra, sabemos todos que o momento central das Jornadas é esta vigília e a Missa dominical. Esperamos do Papa palavras de conforto, de encorajamento, de fé. Já nos convidou a escutar a voz de Cristo, não como uma voz entre muitas, mas enraízando a nossa existência na busca da verdade. Sugeriu-nos que Deus nos quer responsáveis, inteligentes e livres, para poder falar com Ele e amá-Lo. Mas ainda aguardamos alguma sugestão, como fazer num mundo em que todos e tudo dizem o contrário.
Alguns trouxeram um impermeável ou um polar, mas eu não tenho nada para me cubrir. Sento-me com um chapéu-de-chuva numa mão e com um megafone na outra. Assim poderei traduzir do espanhol para aqueles que não têm rádio ou não conseguem ouvir. Terei à minha volta três ou quatro centenas de pessoas. Os rostos, cinzentos como o céu, olham para mim desejosos de ouvir. Por enquanto, não posso reproduzir os belíssimos cantos que escuto, e que durante a semana nos acompanharam numa liturgia sempre essencial, mas muito bem cuidada. Também ouvimos no fundo o hino desta JMJ: «Firmes en la fé, caminamos en Cristo».
O Papa é recebido segundo o protocolo, cumprimenta as autoridades e agora escuta cinco perguntas colocadas por jovens de todo o mundo: enquanto vou repetindo pelo megafone, a chuva cresce de intensidade de vez em quando, mas aumenta também a tensão para ouvir: são perguntas muito profundas. Um rapaz inglês, convertido, pergunta como ser fiel na procura da verdade; um jovem noivo fala do seu iminente casamento, e de como a moral da Igreja parece por vezes difícil de se viver; uma rapariga pede uma ajuda para permanecer fiel aos ideais que lhe fazem trabalhar em projectos de desenvolvimento, nos quais não vê frutos...
Acabadas as perguntas, a ventania chega também ao palco e ao próprio Santo Padre. Voam os papéis dele, e vemos pelo écran como é coberto por dois ou três chapéus-de-chuva. Aproximam-se dele os secretários e contaram-nos que disse: «Se os jovens ficam, eu também». Que grandeza humana! Alguns grupos de jovens cantam de novo, outros batem palmas; outros permanecem numa espera silenciosa. E Sérgio, sentado ao pé de mim, diz: «Rezemos juntos». Assim pomo-nos a rezar o terço. Era tão grande a minha impotência, que me pareceu uma voz providencial que me apelava à verdade do momento: «Santo Padre, estamos nas tuas mãos... Santa Maria, rogai por nós pecadores... Senhor, somos teus».
No rádio, informam que caiu a estructura duma das entradas ao aeródromo, um dos écrans gigantes e que talvez também o som já não funcionasse. A polícia está espantadíssima, porque não se produz o caos e ninguém sai do seu lugar (ao passo que num festival ou estádio qualquer, uma trovoada destas teria causado mortos, asseguram).
Depois de três dezenas, parece que o Papa recomeça a falar: «Caros amigos, obrigado pela vossa alegria e pela vossa resistência! O Senhor, com a chuva, mandou-nos muitas bênçãos...». Descontrai e toda a gente ri. Mas, num repente, salta as respostas às perguntas anteriores e começa as orações que dão lugar à adoração eucarística. O discurso estava preparado, mas não vai fazê-lo. Quer passar directamente ao tempo de silêncio perante o Sacramento, ao qual convida a todos. E quase dois milhões de jovens, os mesmos que tinham gritado, cantado, feito festa e invadido a cidade de Madrid, agora ficam em silêncio absoluto.
Foi incrível: tinha todos prontos a ouvi-lo, e não pronunciou o seu discurso para nos dizer quem é o verdadeiro protagonista das JMJ, quem é o verdadeiro centro da vida do Papa e a quem dirigir-nos não só hoje, mas sempre. Bento XVI, transparente da Presença bondosa de Deus.
Não houve um só coma etílico em toda a semana, diziam estupefactos os serviços de emergência da sanidade de Madrid. Porque, diante da verdade e da beleza destes dias, ninguém queria esquecer nem sequer um instante.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Um Estado que proíbe a cruz na parede também não é neutro

Público, 2011-09-27 Entrevista de António Marujo a Joseph Weiler
Judeu convicto, especialista em Direito Constitucional, Joseph Weiler defendeu perante o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos o direito de a Itália ter crucifixos nas paredes das escolas e o direito da França a não os ter. E diz que esse pluralismo europeu é que é bom. Ganhou por 15-2

Tinha acabado cinco horas de aulas, pediu apenas um prato de batatas fritas, que foi petiscando enquanto conversava. Joseph Weiler, nascido em 1951, é um judeu convicto. O que não o impediu de defender a possibilidade de haver (ou não) crucifixos nas paredes das escolas. Virou a opinião do tribunal, dos anteriores 17 a favor de retirar os símbolos religiosos da parede, para uns claríssimos 15 contra. Apenas dois juízes mantiveram a decisão anterior. E adverte: nem a Itália nem a França são neutros em matéria religiosa. Mas ambos devem educar para o pluralismo.

Especialista em Direito Constitucional europeu, Weiler é professor da Católica Global School of Law, da Universidade Católica Portuguesa, e, por isso, vem a Portugal várias vezes por ano.

Tem publicado Uma Europa Cristã (ed. Princípia). E publicará, até final do ano, um livro sobre o processo que condenou Jesus à morte. Nele defende que "o sentido de justiça, na civilização ocidental, provém do julgamento de Jesus", explica ao P2. O Papa disse, no seu último livro, que os judeus não foram responsáveis pela morte de Jesus. Weiler, judeu, irá dizer o contrário. E explicar porquê.

Defendeu o crucifixo nas salas de aula italianas...
Tive uma vitória famosa, 15-2...

Defendeu essa posição como jurista ou como judeu e crente, em solidariedade com outra fé?
Depois da decisão, recebi centenas de emails. Muitos diziam "obrigado por defender o crucifixo". Muitos outros, vindos da comunidade judaica, perguntavam: "Como pode o filho de um rabi defender o crucifixo?" A todos, aos que me felicitavam ou que me condenavam, respondi o mesmo: "Não defendi o crucifixo. Defendi o direito da Itália a ser Itália e o direito de França, onde a cruz é proibida, a ser a França."

Ou seja, a possibilidade de leis diferentes...
Acredito no valor do pluralismo nas relações entre a Igreja e o Estado, que existe na Europa, onde temos vários modelos: o modelo francês, o britânico, o alemão, etc. Isso é parte da força da civilização europeia. A decisão da câmara, por 17 contra zero, dizendo que a Itália estava a violar a Convenção Europeia por ter uma cruz nas salas de aula, parecia-me tão drástica que forçaria todos a ser como França. Isso parecia-me completamente contra o pluralismo e tolerância que existe na Europa.

E escreveu o editorial no European Journal of International Law...

Sim. Dizendo que era uma decisão terrível. Como podia o tribunal decidir que a tradição na Grã-Bretanha, na Alemanha, em Malta, na Grécia ou na Dinamarca era contra os direitos humanos e a Convenção Europeia de Direitos Humanos? Perguntaram-me se queria ir ao tribunal. Concordei, com uma condição: seria pro bono, não queria que dissessem: "Olha o judeu, por dinheiro até é capaz de defender a cruz". [ri] Decidi fazê-lo, porque acreditava que era a atitude certa.

Não foi só a Itália a defender essa posição.
Oito estados intervieram, convidando-me. A Itália defendeu a própria posição. O facto de ser judeu é irrelevante. Sou constitucionalista praticante e tal parecia-me errado, no âmbito da Convenção Europeia de Direitos Humanos. Há duas coisas mais importantes, que me parecem erradas, no âmbito da Convenção e que me ajudaram a reagir: estou verdadeiramente cansado do argumento, repetido à exaustão, de que o Estado é neutro, em matéria religiosa, quando não permite o crucifixo na parede.

E não é assim?
Tentei convencer a câmara de que esse é um argumento errado. Se o Estado quer que a cruz esteja na parede, não é neutro. De certa maneira, é tomar uma posição sobre a importância do cristianismo na identidade do país. Ou seja, há algo na identidade do país que se quer valorizar com a cruz na parede e essa não é uma posição neutral.

Mas quando o Estado, como em França, proíbe a cruz, não está a ser neutro. Porque não há uma parede nua, vazia. Qualquer coisa pode ser colocada na parede: se amanhã houver uma maioria comunista, podem dizer que em todas as escolas tem que haver uma foice e um martelo.

Podem?
Sim, e não há nada na Constituição que o impeça: pode ter uma fotografia de Karl Marx na parede, pode ter um sinal de paz, uma posição ecológica... De facto, em todas as escolas primárias de França, está escrito: Liberté, egalité, fraternité - o slogan mobilizador da Revolução Francesa.

Eu gosto disso, mas não é neutral. Se for monárquico, não é neutro, seguramente. Qualquer símbolo é permitido nas paredes: Karl Marx e Groucho Marx; o sinal de paz, a foice e o martelo, o símbolo "nuclear não". Há apenas um que não é permitido: a cruz, um símbolo religioso. Como é que isso é neutro?

Nem a estrela de David nem o crescente islâmico...
Sim... As crianças podem ir para a escola e usar uma t-shirt com uma fotografia de Che Guevara, podem ter escrito Love and Peace, podem ter um insulto a George Bush, qualquer posição política ou ecológica, podem levar o triângulo cor-de-rosa pelos direitos dos gays. A única coisa que não podem levar é a cruz, a estrela de David e o crescente.

Nem podem vestir o chador...
Não... Isso não é ser neutro, é dar uma mensagem clara às crianças: tudo é permitido, excepto um símbolo religioso.

Na minha arguição, não disse que a França viola a Convenção Europeia por ter essa regra. Na tradição europeia, o Estado laico é uma opção respeitável. Mas não pretendam que seja neutro. Ele diz que tudo é permitido, excepto a cruz ou a estrela de David, e está a dar uma mensagem sobre religião.

No sistema italiano, apesar da cruz, há um dever educacional de respeitar os ateus e outras religiões. No sistema francês, onde se proíbe a cruz nas paredes mas se permite tudo o resto, há o dever de explicar aos estudantes que, apesar de se permitirem todos os símbolos excepto os religiosos, se deve ensinar o respeito pelos crentes. Nenhum dos sistemas é neutro. Em ambos está implícita uma espécie de preconceito. E em ambos é tarefa do sistema educativo contrabalançar as coisas para que a escola não ensine o preconceito mas a tolerância.

Esse era o seu primeiro argumento...
O segundo era: acreditamos na autodeterminação como direito fundamental. Acreditamos no direito de os britânicos serem britânicos e de os irlandeses serem irlandeses. A razão por que temos a Irlanda independente da Grã-Bretanha, em 1921, é porque os irlandeses são diferentes dos ingleses.

Como podemos imaginar a identidade irlandesa sem o catolicismo? No preâmbulo da Constituição irlandesa, diz: "Acreditamos que o Divino Senhor Jesus Cristo é a fonte de todo o dever, justiça e verdade." Isto é o que são os irlandeses. O que vamos dizer-lhes? Não permitimos um sentido de nacionalidade que tem um tal conteúdo religioso?

O que é bonito na Europa, mesmo apesar da Constituição irlandesa, é que não há discriminação por causa da religião. Um judeu pode ser primeiro-ministro. Como um muçulmano ou um ateu. E aceitará que é impossível falar da identidade irlandesa sem o catolicismo e a cruz. Para o bem e o mal.

Mas é possível também que as sociedades mudem?
Mas compete às sociedades mudar. Na minha arguição - que é curta, eu só tinha 20 minutos -, dizia que, se um dia os ingleses decidirem deixar de ter o Anglicanismo como religião oficial, podem fazê-lo. Não é um país religioso, a maior parte dos britânicos não é religiosa. Mas faz parte da sua identidade.

Os suecos mudaram a Constituição e decidiram que a Igreja Luterana deixaria de ser a religião estabelecida no país. Mas foram eles que definiram a sua identidade sueca, não foi Estrasburgo. Não compete a Estrasburgo dizer que eles não podem ter uma cruz na bandeira. Eles deixaram de ter a Igreja oficial mas mantiveram a obrigação de o rei ser um luterano. O símbolo do Estado tem que ser um luterano.

Na sua arguição, afirmou também que este é um conflito entre o direito individual e o Estado. No caso italiano, tratou-se precisamente de uma mãe ofendida pela presença da cruz...
Em muitos casos, temos um conflito entre diferentes direitos fundamentais. O hino nacional inglês é uma oração: "God Save the Queen", dá-lhe vitórias e glórias. Na escola, canta-se o hino nacional. E se houver um estudante que diz "sou ateu, não creio em Deus e não quero cantar uma oração"? O direito individual estará comprometido se a escola forçar esse estudante a cantar o hino nacional e se o ameaçar de expulsão. Ninguém pode ser forçado a fazer um acto religioso, uma oração, mesmo quando não acredita...

Pode ser um republicano...
Claro, não tem que dizer "Deus salve a rainha". Isso eu aceito. Mas não aceito que esse estudante ou a sua mãe digam que mais ninguém deve cantar o hino. É um compromisso simpático: ele tem o direito de ficar em silêncio, os outros o direito de cantar. E todos têm direito à liberdade religiosa.

A minha mãe cresceu no Congo Belga. A única escola para brancos era um convento católico. Os pais dela fizeram um acordo com as freiras: cada vez que elas dissessem Jesus, a minha mãe diria Moisés. É um bom compromisso.

Não podemos permitir que a liberdade de [ter ou não] religião ponha em causa a liberdade religiosa. Temos que descobrir a via média. E essa é dizer não, se alguém quiser forçar outro a beijar ou a genuflectir perante a cruz. Mas, se houver uma cruz na parede, direi aos meus filhos que vivemos num país cristão. Somos acolhidos, não somos discriminados. A Dinamarca tem uma cruz na bandeira, a Inglaterra e a Grécia igual. Vamos pedir que, por causa da liberdade religiosa, tirem a cruz das bandeiras? Absurdo!...

É por causa disso que fala de argumentos iliberais?
Sim, porque o ponto de vista liberal é, muitas vezes, iliberal. As pessoas falam de liberdade religiosa, mas, de facto, muitas vezes é cristofobia. Não é neutralidade, é antes porque não gostam do cristianismo e da Igreja. Sei porquê: a Igreja tem uma história complicada...

É também por causa disso?
Claro. Compreendo, mas não devemos mascarar os factos. Vivemos numa sociedade em que algumas pessoas são religiosas, outras não. A questão é como vivemos juntos. Não podemos pretender que, se negarmos todas as religiões no espaço público, isso é neutro. É o que faz a França, mas não é o único modo de o fazer.

Então deveria ser possível ter uma cruz na sala de aula e educar os estudantes para o pluralismo?
Absolutamente. Seria uma lição de pluralismo. Porque diríamos: apesar de ter uma cruz na sala de aula ou uma cruz nas bandeiras, permitimos que um primeiro-ministro seja muçulmano ou judeu. A Itália teve primeiros-ministros, generais e ministros judeus.

Na Grã-Bretanha, o chefe de Estado é o chefe da Igreja, há uma Igreja de Estado, o hino nacional é uma oração. Quem diria que o país não é tolerante? É o país de eleição para muitos muçulmanos emigrantes. O facto de haver uma identidade religiosa e uma prática de não-discriminação é um sinal de uma sociedade pluralista e tolerante.

De certa maneira, a Grã-Bretanha com a cruz é mais pluralista e tolerante do que a França, sem a cruz. Porque na Grã-Bretanha, apesar de afirmar a identidade religiosa do Estado, é não discriminatória em todos os aspectos da vida. Financia escolas anglicanas, mas também católicas, judias, muçulmanas e seculares. Os países laicos financiam escolas seculares, mas não escolas religiosas. Quem é mais tolerante e pluralista?

Evocou a herança cristã da Europa, debatida a propósito da Constituição Europeia. Se ela tivesse avançado, também devia referir a herança judaica e muçulmana e a Revolução Francesa?
Deveria ter uma referência às raízes cristãs.

E judaicas e muçulmanas. Na Península Ibérica, por exemplo...
Na Europa, também há vegetarianos. É uma questão de grau. Temos que mencionar judeus, muçulmanos, baha"ís? Eu também falaria de raízes judaicas e muçulmanas na cultura hispânica. Mas, na Europa, a maior parte é cristã. Não falaria de raízes cristãs no Egipto, mesmo havendo uma minoria cristã no país.

De um ponto de vista cultural, o cristianismo jogou um papel decisivo na definição da civilização europeia. Para o bem e para o mal. As raízes cristãs são também a Inquisição, judeus queimados. Quando eliminamos as raízes cristãs, obliteramos também a memória das coisas más que a cristandade fez.

Não há uma cidade na Europa sem uma catedral, onde o museu não esteja cheio de pintura sacra. E os direitos humanos não derivam apenas da Revolução Francesa, derivam da tradição judaico-cristã. Porque queremos negar isso? O que se vê no Prado, no Museu Gulbenkian? Madonna con bambino... Isso não é a Europa? É um absurdo.

É possível coexistir a laicidade francesa e outros modelos?
Claro, essa é a riqueza da Europa. A Europa lidera pelo exemplo, não pela força. Gostaríamos que por todo o mundo houvesse democracias pluralistas e tolerantes. Que possibilidades há de persuadir alguns países muçulmanos a abraçar o pluralismo se dissermos que a religião deve ficar na esfera privada?

Podemos dizer à Arábia Saudita: podem tornar-se uma democracia, reconhecer os direitos humanos e manter a vossa identidade muçulmana. Reparem no que se passa na Grã-Bretanha, reparem no pluralismo europeu: há um modelo francês, um britânico, um grego. Não somos apenas como os franceses.

Tem amigos entre os católicos conservadores, mas também defende os direitos dos homossexuais, o que não é simpático para esses católicos...
Que posso eu fazer? Vieram ter comigo, quando começaram a falar dos direitos dos homossexuais. A questão não era o casamento homossexual, mas porque têm os homossexuais de ser discriminados? Não há razão para isso.

Mesmo hoje, ensino os meus alunos como crente, mas digo-lhes: ninguém deve perder o emprego por ser homossexual, a ninguém deve ser negado alojamento por ser homossexual. Nos campos nazis, exterminaram os judeus e os homossexuais. Não posso esquecer isso.

Imagens do papa em Madrid (2011)

EL PAPA EN ESPAÑA 2011

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

As três lições da crise

JOÃO CÉSAR DAS NEVESDN 2011-09-26
Há três anos, o mundo mudou. A falência do Lehman Brothers e as semanas incríveis que se lhe seguiram criaram uma nova realidade económica. Este é o mito oficial, mas de facto as coisas não são assim. O mundo continua mais ou menos como era: sempre em mudança. Esses momentos de tensão apenas nos relembraram algumas lições que andavam muito esquecidas, e que são também muito úteis no actual momento da crise nacional.
A primeira coisa que aprendemos é que a humanidade não consegue evitar cair em períodos de delírio colectivo. Por mais sofisticadas que sejam as leis e instituições, por mais avançada que esteja a civilização e a sociedade, uma euforia será sempre imparável; até ao colapso fatal. A história regista múltiplas bolhas especulativas, alimentadas por ilusões infantis. Este tempo tecnológico, com sofisticadíssimos mercados de hipotecas e derivados, esqueceu a lição e caiu de novo na esparrela. Temos de admitir que se trata, não de uma doença evitável, mas de um traço de carácter da raça humana que sempre ressurgirá.
Mas o mal tem cura. Os últimos anos também mostraram que a política económica, se não consegue evitar a crise, possui meios que lhe reduzem muito as consequências. O maior choque financeiro de sempre acabou com efeitos muito inferiores ao previsto. Os actuais sofrimentos sociais, indiscutivelmente violentos, nunca atingiram a justamente anunciada derrocada estrutural.
A terceira lição, que domina a situação presente, é o valor da solidariedade, pois conflitos e suspeitas podem criar recaídas. A luta partidária no Congresso americano gera a incerteza que já levou à histórica descida do rating soberano. Na Europa, após o endividamento excessivo de alguns, que constituiu forte quebra de solidariedade dentro do euro, vive-se hoje a dificuldade de encontrar uma solução solidária que salve o projecto comum.
Portugal é um dos protagonistas da crise global. Apesar de alheio ao subprime americano que precipitou o estoiro original, a fragilidade da sua "década perdida" acabou por colocá-lo no centro do segundo episódio, o dominó das dívidas soberanas. Agora, enfrentando a difícil terapêutica de ajustamento, as mesmas três lições são muito úteis a cada um dos três grupos nacionais: público, governantes e analistas.
A euforia que alimentou a nossa bolha foi mais longa e subtil que a americana. O País viveu acima das suas posses durante quinze anos, desde que a candidatura ao euro lhe deu acesso a crédito fácil. Agora, a mesma tolice da facilidade manifesta-se na frase mais repetida: "Portugal tem de cortar despesa, mas aqui é injusto." Ora é precisamente aí, e em todo o lado, que se deve cortar até doer. Só assim voltaremos a ser um país equilibrado.
Os novos governantes vêm embuídos de espírito reformador e apostados em cumprir o forte programa de austeridade. Mas só terão êxito se conseguirem evitar cair nos dois extremos fatais: ser capturado pela máquina ou triturado por ela. Um ministro só consegue resultados através do seu ministério. A fraqueza dos antecessores acabou dominada pelos interesses instalados, criando a espiral de dívida. Agora é preciso retomar o propósito do bem comum, mas sem hostilizar os mecanismos públicos que o servem. É preciso emagrecer o Estado, não só para perder peso mas para ser mais eficaz.
Finalmente, todos temos de aprender a lição da solidariedade. Aqui, o pior veneno são as pomposas análises que repetem vir aí forte conflitualidade nacional. Tais afirmações, além de irresponsáveis, são simplistas. Explosões sociais acontecem, não quando se perde muito mas quando não há mais nada a perder. A maioria dos portugueses, apesar do que sofre, sabe que não deve arriscar o resto em aventuras tolas.
Nos últimos três anos, o mundo reaprendeu três coisas: que quem faz tolices perde, que já sabemos tratar as crises e que no mundo globalizado estamos todos no mesmo barco. Portugal tem agora de mostrar ao mundo o valor dessas lições, vencendo o desafio da austeridade para lançar o próximo ciclo de progresso.
naohaalmocosgratis@ucp.pt

domingo, 25 de setembro de 2011

Visita do Papa Bento XVI à Alemanha


25 de Setembro


24 de Setembro
23 de Setembro
22 de Setembro
19 de Setembro

As melhores imagens da visita do Papa à Alemanha


25 de Setembro - S. Firmino

San Fermín
Escuela quiteña, tercer cuarto del siglo XVIII
Óleo sobre lienzo, 90,5 x 72,5 cms
Pamplona. Colección particular

O Sentido Religioso, de Luigi Giussani

in: http://viverintensamenteoreal.blogspot.com/2011/09/o-sentido-religioso-de-luigi-giussani.html
Lisboa: Verbo, 2000 (1984), pp. 210, 15,00€ Este é o primeiro livro duma trilogia conhecida como o «PerCurso», palavra que joga com dois significados: um curso de aulas sobre várias matérias e um itinerário em contínuo crescimento. Enquanto que este volume dedica a sua atenção ao homem e à sua abertura ao transcendente, os outros dois falam de Jesus Cristo e da Igreja.
Mas, atenção, devemos eliminar da palavra «religioso» tantas imagens e preconceitos que a ligam a antigas superstições ou a práticas sentimentais ou devotas, só para aqueles «que têm essa sensibilidade». Com efeito, este texto nasce a partir de aulas no secundário (o seu Autor só redigiu os apontamentos dos seus alunos), e pretende ajudar a compreender que essa dimensão é própria de todo ser humano, independentemente das suas crenças ou práticas.
Uma análise das palavras mais repetidas no texto, ao contrário do que poderíamos esperar, levava-nos a descobrir que estas são «razão», «liberdade», «realidade», «homem»... E que, portanto, duma forma mais experiencial que filosófica, é de nós que se está a falar.
Um livro que mudou a vida de muitas pessoas: a não perder.

sábado, 24 de setembro de 2011

Os gregos

 Público 2011-09-24 José Pacheco Pereira
O problema com os gregos é que quase tudo o que se pode pensar, eles pensaram-no primeiro e muitas vezes melhor

Passei os últimos meses com os gregos, não com os modernos, mas com os antigos. Podia dar-me para pior, haverá sempre alguém que o diga. Podia, mas não era a mesma coisa.

Como há vários milénios de gregos "antigos", fico-me com algumas incursões nos séculos quinto e quarto, onde habitam a maioria dos gregos que nós conhecemos, mas que deixa de fora o mundo homérico e mais tarde os bizantinos. No centro desta fase da história grega estão várias guerras, contra os persas, a guerra do Peloponeso e, por fim, a resistência frustrada contra Filipe da Macedónia. Nestes meses de convívio grego vi e ouvi as aulas de Donald Kagan em Yale (mais de 30 horas, pelo menos), e li o seu livro sobre a guerra do Peloponeso, assim como vários textos de Tucídides e Xenofonte que vinham de arrasto. Ler por arrasto, por contágio, é uma das formas mais eficazes de ler. Não está mal.

Tudo isto parece nos nossos dias muito snob, porque ler os clássicos hoje passa por ser presunçoso e acredito que pareça arrogante para quem só lê a literatura contemporânea mais ou menos romanesca, feita de metros e metros de papel pintado nas livrarias com autores muito gabados no Jornal de Letras. Mas, na verdade, até um deputado camiliano como Calisto Elói conhecia o seu Tucídides e, em linhas gerais, um aluno do liceu no século XIX sabia alguma coisa sobre a história grega e latina. Já para não falar de um homem culto do século XVIII que sabia muita coisa sobre os gregos desta época e muito provavelmente lia em grego e, certamente, em latim. Não precisava de ser um literato de grande craveira, apenas um amador de poesia daqueles que na Arcádia Lusitana usavam pseudónimos de pastores de Teócrito e reuniam sob um lema latino bem apropriado para os nossos dias: "Inutilia truncat", acaba com as inutilidades.

O problema com os gregos é que quase tudo o que se pode pensar, eles pensaram-no primeiro e muitas vezes melhor. É por isso que quem os frequenta, ou quem "vive" com eles (como a grande professora Maria Helena Rocha Pereira disse um dia), quase que não precisa de sair desses séculos de milagre, para poder pensar os atribulados dias de hoje.

Os problemas que Donald Kagan, que é um dos grandes especialistas da guerra do Peloponeso, suscita nos seus livros e nas suas aulas não nos são alheios, apesar de o autor, como historiador, ser particularmente sensível aos anacronismos historicistas - pensar que nós e os gregos somos semelhantes, por exemplo -, insistindo no facto de o mundo grego concreto ser radicalmente estranho para um contemporâneo. Um caso que Kagan explora de forma excelente é o da democracia ateniense, mais tarde copiada por outras democracias como a tebana.

Os críticos modernos da democracia grega clássica insistem que essa democracia deixava de fora as mulheres, os escravos, os estrangeiros originários noutra polis que viviam na Ática e os muito pobres. Kagan dá os argumentos necessários para mostrar que se pode discutir a democracia ateniense sem a considerar diminuída por exclusões que, em muitos casos, se mantiveram praticamente até meados do século XX, como é o caso das mulheres. Quanto aos escravos, eram poucos e o seu estatuto em Atenas estava longe de se poder comparar com as sociedades como Esparta (onde uma população inteira estava escravizada) ou no Sul dos EUA. Dito isto, o que era radicalmente novo e, como tal, permanece único até aos nossos dias é mesmo a forma democrática de poder. Foi sobre ela, aliás recusando-a, como já tinham feito homens como Platão e Aristóteles, que os revolucionários americanos construíram a forma de democracia a que podemos chamar moderna.

Porém, por ridícula que possa parecer a comparação, é a essa forma de democracia que os participantes das "acampadas" de Lisboa e Madrid, os communards de Paris em 1871, ou os utópicos da "democracia electrónica" em rede, ou os demagogos brasileiros que colocam cartazes dizendo que "precisamos de médicos e professores, mas não precisamos de vereadores", pretendem chegar. Os atenienses reunidos na colina do Pnyx representam o ideal daquilo que hoje chamamos democracia directa para a distinguir da representativa, e que para os gregos era apenas "a democracia".

No Pnyx podiam regularmente reunir-se alguns milhares de atenienses, homens adultos detentores da cidadania e aí decidir sobre tudo, após ouvir quem quisesse falar. Kagan, usando uma comédia de Aristófanes, relata como os atenienses eram recolhidos das suas distracções, quase sempre animadas discussões políticas no agora, que atrasavam o início da assembleia, com uma corda pintada de fresco cujo arrastamento os obrigava a apressarem-se sob pena de ficarem com a roupa manchada. Lá chegados, cinco, seis mil, em média, sentavam-se no chão e participavam durante várias horas em debates que não conheciam limite de tema nem de tempo. É verdade que as cinco centenas de cidadãos que formavam o conselho, escolhidos à sorte, podiam sentar-se nuns bancos de madeira, mas o princípio da assembleia era o da isegoria, igualdade de discurso, todos tinham o mesmo direito de falar e todos votavam. Claro que as coisas nem sempre são assim, havia diferenças sociais entre os oradores reconhecidas pelos ouvintes e quem falava melhor e mais alto tinha um maior poder de persuasão. Mas a mesma personagem de Aristófanes, irritado com a demora no início da reunião, promete vaiar os oradores e utilizar outros métodos pouco elegantes para os punir de o terem deixado tanto tempo sentado no chão.

As reuniões no Pnyx não eram amáveis mesmo para os poderosos, que sabiam que não tinham nenhuma garantia de ver as suas propostas aprovadas nem de escapar às flutuações de opinião. Como não havia cargos que não fossem ali escolhidos e como podiam ser revogados em qualquer altura, mesmo os generais vitoriosos, talvez os mais influentes personagens no mundo grego, tinham que se esforçar para convencer os seus concidadãos de que era necessário fazer uma nova expedição militar, declarar guerra ou fazer a paz, e no caso de guerra, que recursos estavam disponíveis. Uma das grandes forças da democracia ateniense, que Kagan compara favoravelmente à democracia moderna, é que os mesmos homens que votavam uma declaração de guerra eram aqueles que nela iriam combater como soldados. Os soldados de infantaria, os célebres hoplitas que, organizados em falanges, venciam todas as batalhas contra forças muito superiores, eram em Atenas os mesmos lavradores que na assembleia decidiam sobre o seu próprio destino e eram os estrategos que os comandavam.

Os homens que lá estavam na encosta do Pnyx decidiam tudo, praticamente não havia "representação" do seu poder, e desconheciam distinções entre os poderes legislativos, executivos e judiciais, exercendo-os a todos. Kagan salienta que as decisões conhecidas, tomadas pelos atenienses nestas reuniões, parecem ser de um modo geral sensatas e moderadas, numa sociedade que evitava a todo o custo as decisões radicais, e na qual a violência política durante os períodos democráticos era rara. E outra característica era evitar tomar decisões sobre a propriedade, em particular nunca tendo aceite qualquer perdão de dívidas, o que podia ser, à primeira vista, a mais popular das decisões. Porém, os historiadores salientam que esta experiência democrática coexistiu com um período de estabilidade económica e social, mesmo quando acompanhado por intensa actividade militar. A guerra do Peloponeso, colocando gregos contra gregos, com causas e razões muito semelhantes às dos conflitos do século XX, acabou, no entanto, por corromper este equilíbrio e acelerar o fim da polis e a decadência da democracia. Na verdade, até aos dias de hoje, nunca mais houve qualquer experiência democrática deste tipo.

O segundo momento em que a democracia foi repensada a sério, por gente que tinha poder para transformar as suas decisões em actos concretos e assim modelar um regime político, foi com os fundadores dos EUA. Estes conheciam muito bem os seus "gregos" e tinham sido educados a ler as biografias de Plutarco que incluíam muitos dos homens que fizeram esta Grécia, quer os mais conhecidos como Temistocles, Péricles ou Demóstenes, quer os que já há muito esquecemos como Pelópidas, um dos dois grandes generais tebanos. Do seu conhecimento do mundo antigo veio a grande reflexão que afastou a democracia moderna do modelo da democracia directa ateniense. Mas isso é outra história e fica para outra altura. Historiador

Homilia do Papa na Praça da Catedral de Erfurt

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Praça da Catedral de Erfurt,
Sábado, 24 de Setembro de 2011
Amados irmãos e irmãs
«Louvai o Senhor em todo o tempo, porque Ele é bom»: assim cantámos antes do Evangelho. Sim, temos verdadeiramente motivos para agradecer a Deus com todo o coração. Nesta cidade, se recuarmos com o pensamento até 1981, o ano jubilar de Santa Isabel, há trinta anos – eram os tempos da República Democrática Alemã –, quem teria imaginado que o muro e o arame farpado nas fronteiras cairiam poucos anos depois? E, se recuarmos ainda mais – cerca de setenta anos – até 1941, até ao tempo do nacional-socialismo, durante a Grande Guerra, quem seria capaz de predizer que o chamado «Reich milenário» ficaria reduzido a cinzas apenas quatro anos mais tarde?
Amados irmãos e irmãs, aqui na Turíngia, na República Democrática Alemã de então, tivestes de suportar uma ditadura «pardacenta» [nazista] e uma «vermelha» [comunista], cujo efeito sobre a fé era parecido com o que tem a chuva ácida. Desse tempo, há ainda muitas consequências tardias a debelar, sobretudo no âmbito intelectual e no religioso! Hoje, a maioria das pessoas nesta terra vive longe da fé em Cristo e da comunhão da Igreja. Mas as últimas duas décadas mostram também experiências positivas: um horizonte mais largo, um intercâmbio para além das fronteiras, uma certeza confiante de que Deus não nos abandona e nos guia por caminhos novos. «Onde há Deus, há futuro».
Todos nós estamos convencidos de que a nova liberdade ajudou a dar ao homem uma dignidade maior e a abrir novas e variadas possibilidades. Do ponto de vista da Igreja podemos assinalar, com gratidão, muitas facilitações: novas possibilidades para as actividades paroquiais, a restauração e o alargamento de igrejas e centros paroquiais, iniciativas diocesanas de carácter pastoral ou cultural. Mas diante de nós surge, naturalmente, a pergunta: estas possibilidades trouxeram-nos também um crescimento na fé? Não será talvez preciso procurar o fundamento da fé e da vida cristã a um nível mais profundo que o da liberdade social? Houve muitos católicos resolutos que permaneceram fiéis a Cristo e à Igreja, precisamente na difícil situação de uma opressão exterior. E nós, onde estamos hoje? Aquelas pessoas aceitaram arcar com desvantagens pessoais, para viverem a própria fé. Quero aqui agradecer aos sacerdotes e aos seus colaboradores e colaboradoras de então. De modo particular, quero recordar a pastoral dos refugiados imediatamente depois da II Guerra Mundial: então muitos clérigos e leigos realizaram grandes coisas para atenuar a penosa situação dos prófugos e dar-lhes uma nova Pátria. Por fim, dirijo um sincero agradecimento aos pais que, no meio da diáspora e num ambiente político hostil à Igreja, educaram os seus filhos na fé católica. Queria recordar, com gratidão, as Semanas Religiosas para as crianças durante as férias, e também o trabalho frutuoso das Casas para a juventude católica Sankt Sebastian, em Erfurt, e Marcel Callo, em Heiligenstadt. Especialmente em Eichsfeld, houve muitos cristãos católicos que resistiram à ideologia comunista. Queira Deus recompensar a todos abundantemente pela perseverança na fé. O corajoso testemunho e o viver pacientemente com Ele, a paciente confiança na providência de Deus são como uma semente preciosa que promete fruto abundante para o futuro.
A presença de Deus manifesta-se sempre, de maneira particularmente clara, nos Santos. O seu testemunho de fé pode, também hoje, dar-nos a coragem para um novo despertar. Aqui pensemos sobretudo nos Santos Padroeiros da diocese de Erfurt: Isabel da Turíngia, Bonifácio e Kilian. Isabel veio de um país estrangeiro, da Hungria, para Wartburg na Turíngia. Levou uma vida de intensa oração, associada com a penitência e a pobreza evangélica. Regularmente, descia do seu castelo até à cidade de Eisenach para lá cuidar pessoalmente dos pobres e dos doentes. Foi breve a sua vida nesta terra – chegou apenas à idade de vinte e quatro anos –, mas o fruto da sua santidade dura pelos séculos. Santa Isabel goza de grande estima também entre os cristãos evangélicos; pode ajudar-nos a todos a descobrir a plenitude da fé, a sua beleza e a sua profundidade e a sua força transformadora e purificante, e a traduzi-la na nossa vida diária.
Para as raízes cristãs do nosso país, remete também a fundação da diocese de Erfurt, no ano 742, por São Bonifácio. Este facto constitui simultaneamente a primeira menção escrita que há da cidade de Erfurt. O Bispo missionário Bonifácio viera da Inglaterra e fazia parte do seu estilo de trabalho agir em unidade essencial e estreita ligação com o Bispo de Roma, o Sucessor de São Pedro. Sabia que a Igreja deve estar unida ao redor de Pedro. Veneramo-lo como o «Apóstolo da Alemanha»; morreu mártir. Dois dos seus companheiros, que partilharam com ele o testemunho do sangue pela fé cristã, estão aqui sepultados na catedral de Erfurt: são os Santos Eoban e Adelar.
Antes dos missionários anglo-saxões, tinha já trabalhado na Turíngia São Kilian, um missionário itinerante que provinha da Irlanda. Juntamente com dois companheiros, morreu mártir em Würzburg, porque criticara o comportamento moralmente transviado do duque da Turíngia, lá residente. E, por fim, não quero esquecer São Severo, o Padroeiro da Severikirche, aqui na Praça da Catedral: no século IV, era Bispo de Ravena; no ano 836, os seus restos mortais foram trazidos para Erfurt, para enraizar mais profundamente a fé cristã nesta região. Com efeito, a partir destes mortos partia o testemunho vivo da Igreja que perdura no tempo, da fé que fecunda cada época e nos indica o caminho da vida.
Perguntemo-nos: que têm em comum estes Santos? Como podemos descrever a faceta particular da sua vida e compreender que nos diz respeito e que pode influir na nossa vida? Os Santos mostram-nos, em primeiro lugar, que é possível e que é bom viver em relação com Deus e viver esta relação de modo radical, colocando-O em primeiro lugar e não reservando para Ele apenas qualquer canto. Os Santos põem em evidência o facto de que foi Deus que tomou a iniciativa de Se dirigir a nós. Nós não poderíamos chegar a Ele e nem tender, de qualquer forma, para aquilo que é desconhecido, se Ele não nos tivesse amado primeiro, se não tivesse vindo ao nosso encontro primeiro. Depois de ter vindo já ao encontro dos Patriarcas com as palavras do chamamento, Ele mesmo Se mostrou a nós em Jesus Cristo, e n’Ele continua a mostrar-se a nós. Também hoje, Cristo vem ao nosso encontro, fala a cada um, como acaba de fazer no Evangelho, e convida cada um de nós a escutá-Lo, a aprender a compreendê-Lo e a segui-Lo. Este convite e esta possibilidade foram valorizados pelos Santos: reconheceram o Deus concreto, viram-No e escutaram-No, foram ao seu encontro e caminharam com Ele; deixaram-se, por assim dizer, contagiar por Ele e, a partir do íntimo de si mesmos, propenderam para Ele - no diálogo contínuo da oração - e d’Ele receberam a luz que lhes desvendou a vida verdadeira.
Essencialmente, a fé é sempre também um acreditar junto com os outros. Ninguém pode crer sozinho. Recebemos a fé, diz-nos Paulo, através da escuta. E a escuta é um processo que requer o estar juntos de modo espiritual e físico. Somente na grande comunhão dos fiéis de todos os tempos que encontraram a Cristo e foram encontrados por Ele, posso crer. O facto de poder crer devo-o, antes de mais nada, a Deus que Se dirige a mim e, por assim dizer, «acende» a minha fé. Mas, de um modo muito concreto, devo a minha fé àqueles que vivem ao meu redor e que acreditaram antes de mim e acreditam juntamente comigo. Este grande «com», sem o qual não pode haver qualquer fé pessoal, é a Igreja. E esta Igreja não se detém diante das fronteiras dos países; demonstra-o as nacionalidades dos Santos que mencionei: Hungria, Inglaterra, Irlanda e Itália. Daqui se vê como é importante a permuta espiritual, que se dilata através da Igreja inteira. Sim, para o desenvolvimento da Igreja no nosso País foi, e continua a ser, fundamental que acreditemos juntos em todos os Continentes e aprendamos uns dos outros a acreditar. Se nos abrirmos à fé integral ao longo de toda a história e nos seus testemunhos em toda a Igreja, então a fé católica tem um futuro, mesmo como força pública na Alemanha. Ao mesmo tempo as figuras dos Santos, de que falei, mostram-nos a grande fecundidade de uma vida com Deus, a fecundidade deste amor radical a Deus e ao próximo. Os Santos, mesmo onde são poucos, mudam o mundo. E os grandes Santos continuam a ser forças transformadoras em cada tempo.
Assim as mudanças políticas do ano 1989, no nosso país, não foram motivadas apenas pelo desejo de bem-estar e liberdade de ir e vir, mas, e de modo decisivo, pelo anseio de veracidade. Este anseio foi mantido desperto, para além do mais, por pessoas que se devotaram totalmente ao serviço de Deus e do próximo e estavam dispostas a sacrificar a própria vida. Tais pessoas e os Santos recordados dão-nos a coragem para tirarmos proveito da nova situação. Não queremos esconder-nos numa fé apenas privada, mas queremos administrar responsavelmente a liberdade alcançada. À semelhança dos Santos Kilian, Bonifácio, Adelar, Eoban e Isabel da Turíngia, queremos ir, como cristãos, ao encontro dos nossos concidadãos e convidá-los a descobrirem connosco a plenitude da Boa Nova, a sua presença, a sua força vital e beleza. Então seremos semelhantes ao famoso sino da catedral de Erfurt que se chama «Glorioso». É considerado o maior sino medieval do mundo que oscila livremente. É um sinal palpável do nosso profundo enraizamento na tradição cristã, mas também um sinal para nos pormos a caminho empenhando-nos na missão. O referido sino tocará também hoje no fim da Missa solene. Possa servir-nos de estímulo para, a exemplo dos Santos, tornarmos visível e audível o testemunho de Cristo no mundo; para tornarmos visível e audível a glória de Deus e, desse modo, viver num mundo onde Deus está presente e torna a vida bela e rica de significado. Amen.
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Praça da Catedral de Erfurt

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Opção de vida ou de morte

Aura Miguel
RR on-line 23-09-2011 12:51
A decisão de permanecer ou não na Igreja é, disse ontem Bento XVI, uma questão de vida ou de morte.

Alguns olham para a Igreja apenas exteriormente, como se fosse uma multinacional. Outros consideram-na com certos interesses, como se fosse uma associação desportiva ou cultural e quando esses interesses não se realizam, criticam-na.
Seria bom, disse ontem o Papa, em Berlim, que os descontentes se interrogassem sobre o que significa pertencer à Igreja. É que pertencer verdadeiramente significa permanecer em Cristo, mesmo quando isso custa, quando é difícil e até contrário aos nossos planos. Porque na Igreja haverá sempre peixes bons e maus, haverá trigo e joio, misturados, mas Cristo é a garantia de vida e ele nunca nos abandona, garantiu Bento XVI.
A nós, compete optar se queremos permanecer nele ou não. O Papa recordou ainda como Cristo é a videira e nós os ramos. Fora dela, os ramos secam e morrem. É mesmo uma opção de vida ou de morte.

Encontro com os representantes do Conselho da "Igreja Evangélica na Alemanha"

ENCONTRO COM OS REPRESENTANTES DO CONSELHO
 DA «IGREJA EVANGÉLICA NA ALEMANHA»
DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
Sala do Capítulo do ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt
Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011
(Vídeo)

Ilustres Senhoras e Senhores!
Ao tomar a palavra, quero antes de mais nada agradecer cordialmente esta oportunidade de nos encontrarmos aqui. A minha particular gratidão vai para Vossa Excelência, amado Irmão Presidente Schneider, que me deu as boas-vindas e, com suas palavras, me acolheu no vosso meio. Com toda a franqueza do seu coração, Vossa Excelência exprimiu abertamente a fé verdadeiramente comum, o desejo de unidade. E nós sentimo-nos felizes ainda porque considero que esta assembleia e os nossos encontros são celebrados também como a festa da fé que temos em comum. Além disso quero agradecer a todos pelo vosso dom de podermos conversar juntos como cristãos aqui, neste lugar histórico.
Para mim, como Bispo de Roma, é um momento de profunda emoção encontrar-vos aqui, no antigo convento agostiniano de Erfurt. Como acabámos de ouvir, Lutero estudou teologia aqui. Aqui foi ordenado sacerdote. Contra a vontade do pai, abandonou os estudos de jurisprudência para estudar teologia e encaminhar-se para o sacerdócio na Ordem de Santo Agostinho. E a incentivá-lo neste caminho não era um pormenor ou outro; o que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que constituiu a paixão profunda e a mola da sua vida e de todo o seu itinerário. «Como posso ter um Deus misericordioso?»: tal era a pergunta que lhe atravessava o coração e estava por detrás de cada pesquisa teológica e de cada luta interior. Para Lutero, a teologia não era mera questão académica, mas a luta interior consigo mesmo, que, no fim de contas, era uma luta a propósito de Deus e com Deus.
«Como posso ter um Deus misericordioso?» O facto que esta pergunta tenha sido a força motriz de todo o seu caminho, não cessa de maravilhar o meu coração. Com efeito, hoje quem se preocupa ainda com isto, mesmo entre os cristãos? Que significa a questão de Deus na nossa vida, no nosso anúncio? Hoje a maioria das pessoas, mesmo cristãs, dá por suposto que Deus, em última análise, não se interessa dos nossos pecados e das nossas virtudes. Ele bem sabe que todos nós não passamos de carne. Se se acredita ainda num além e num juízo de Deus, praticamente quase todos pressupõem que Deus terá de ser generoso e, no fim de contas, na sua misericórdia ignorar as nossas pequenas faltas. A questão já não nos preocupa. Mas, verdadeiramente são assim pequenas as nossas faltas? Porventura não está o mundo a ser devastado pela corrupção dos grandes, mas também dos pequenos, que pensam apenas na própria vantagem? Porventura não é ele devastado por causa do poder da droga, que vive, por um lado, da ambição de vida e de dinheiro e, por outro, da avidez de prazer das pessoas que a ela se abandonam? Não está ele porventura ameaçado por uma crescente predisposição à violência que não raro se dissimula sob a aparência de religiosidade? Poderiam a fome e a pobreza devastar assim regiões inteiras do mundo, se estivesse mais vivo em nós o amor de Deus e, derivado dele, o amor ao próximo, às criaturas de Deus que são os homens? E poderiam continuar as perguntas nesta linha. Não, o mal não é uma ridicularia. Mas não seria forte, se verdadeiramente colocássemos Deus no centro da nossa vida. Esta pergunta que desinquietava Lutero – Qual é a posição de Deus a meu respeito, como apareço a seus olhos? – deve tornar-se de novo, certamente numa forma diversa, também a nossa pergunta, não académica mas concreta. Penso que este constitui o primeiro apelo que deveremos escutar no encontro com Martinho Lutero.
 Depois é importante também isto: Deus, o único Deus, o Criador do céu e da terra, é algo de diverso duma hipótese filosófica sobre a origem do universo. Este Deus tem um rosto e falou-nos. No homem Jesus Cristo, Ele tornou-Se um de nós: verdadeiro Deus e, simultaneamente, verdadeiro homem. O pensamento de Lutero, a sua espiritualidade inteira era totalmente cristocêntrica. Para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura era «aquilo que promove Cristo». Mas isto pressupõe que Cristo seja o centro da nossa espiritualidade e que o amor por Ele, o viver juntamente com Ele, oriente a nossa vida.
Ora poder-se-ia talvez dizer: Está bem, mas o que é que tudo isto tem a ver com a nossa situação ecuménica? Porventura não será tudo isto apenas uma tentativa de iludir, com uma inundação de palavras, os problemas urgentes onde se esperam progressos práticos, resultados concretos? A respeito disto, respondo: a coisa mais necessária para o ecumenismo é primariamente que, sob a pressão da secularização, não percamos, quase sem dar por isso, as grandes coisas que temos em comum, que por si mesmas nos tornam cristãos e que nos ficaram como dom e tarefa. O erro do período confessional foi ter visto, na maior parte das coisas, apenas aquilo que separa, e não ter percebido de modo existencial o que temos em comum nas grandes directrizes da Sagrada Escritura e nas profissões de fé do cristianismo antigo. Para mim, isto constitui o grande progresso ecuménico dos últimos decénios: termo-nos dado conta desta comunhão e, no rezar e cantar juntos, no compromisso comum em prol da ética cristã face ao mundo, no testemunho comum do Deus de Jesus Cristo neste mundo, reconhecermos tal comunhão como o nosso comum e imorredouro alicerce.
É certo que o perigo de a perder não é irreal. Queria brevemente fazer notar dois aspectos. Nos últimos tempos, a geografia do cristianismo mudou profundamente e continua a mudar. Perante uma forma nova de cristianismo, que se difunde com um dinamismo missionário imenso, por vezes preocupante nas suas formas, as Igrejas confessionais históricas ficam muitas vezes perplexas. Trata-se de um cristianismo de escassa densidade institucional, com pouca bagagem racional, sendo ainda menor a bagagem dogmática, e também com pouca estabilidade. Este fenómeno mundial – que me é continuamente descrito pelos bispos de todo o mundo – põe-nos a todos perante esta questão: Que tem a dizer-nos de positivo e de negativo esta nova forma de cristianismo? Em todo o caso, coloca-nos novamente perante a pergunta sobre o que permanece sempre válido e o que pode ou deve ser mudado, perante a questão relativa à nossa opção fundamental na fé.
Mais profundo e, no nosso país, mais inquietante é o segundo desafio para toda a cristandade; dele quero agora falar-vos: trata-se do contexto do mundo secularizado, em que temos hoje de viver e testemunhar a nossa fé. A ausência de Deus na nossa sociedade faz-se mais pesada; a história da sua revelação, de que nos fala a Escritura, parece colocada num passado que se distancia sempre mais. Porventura será preciso ceder à pressão da secularização, tornar-se moderno através duma mitigação da fé? Naturalmente, a fé deve ser repensada e sobretudo vivida hoje de um modo novo, para se tornar uma realidade que pertença ao presente. Para isso ajuda não a mitigação da fé, mas somente o vivê-la integralmente no nosso hoje. Esta constitui uma tarefa ecuménica central, na qual nos devemos ajudar mutuamente: a crer de modo mais profundo e vivo. Não serão as tácticas a salvar-nos, a salvar o cristianismo, mas uma fé repensada e vivida de modo novo, através da qual Cristo, e  com Ele o Deus vivo, entre neste nosso mundo. Tal como os mártires do período nazista nos aproximaram uns dos outros e suscitaram a primeira grande abertura ecuménica, assim também hoje a fé, vivida a partir do íntimo de nós mesmos, num mundo secularizado, é a força ecuménica mais poderosa que nos reúne, guiando-nos para a unidade no único Senhor. E por isso Lhe pedimos a graça de aprender de novo viver a fé, para assim nos podermos tornar um só.

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Celebração ecuménica na igreja do ex-convento dos Agostinianos de Erfurt

CELEBRAÇÃO ECUMÉNICA
DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
Igreja do ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt
Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011

Amados irmãos e irmãs no Senhor!
«Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em Mim, por meio da sua palavra» (Jo17, 20): assim disse Jesus ao Pai,no Cenáculo. Intercede pelas futuras gerações de crentes. Estende o olhar, mais além do Cenáculo, para o futuro. Rezou também por nós. E reza pela nossa unidade. Esta oração de Jesus não é algo simplesmente do passado. Ele está sempre diante do Pai, intercedendo por nós, e é assim que Ele, nesta hora, está no meio de nós e nos quer atrair para dentro da sua oração. Na oração de Jesus, encontra-se o lugar interior da nossa unidade. Tornar-nos-emos um só, se nos deixarmos atrair para dentro de tal oração. Todas as vezes que nos encontramos, como cristãos, reunidos na oração, esta luta de Jesus relativa a nós e com o Pai em nosso favor deveria tocar-nos profundamente no coração. Quanto mais nos deixarmos atrair nesta dinâmica, tanto mais se realizará a unidade.
Porventura ficou desatendida a oração de Jesus? A história do cristianismo é, por assim dizer, o lado visível deste drama, no qual Cristo luta e sofre connosco, seres humanos. Sem cessar Ele tem de suportar o contraste com a unidade, e todavia não cessa jamais de realizar-se também a unidade com Ele e, deste modo, com o Deus trinitário. Devemos ver ambas as coisas: o pecado do homem, que se nega a Deus fechando-se em si mesmo, mas também as vitórias de Deus, que sustenta a Igreja não obstante a sua fraqueza, e atrai continuamente homens para dentro de Si aproximando-os assim uns dos outros. Por isso, num encontro ecuménico, não devemos só lamentar as divisões e as separações, mas também agradecer a Deus por todos os elementos de unidade que conservou para nós e incessantemente nos concede. E esta gratidão deve ao mesmo tempo tornar-se disponibilidade para não perder, no meio de um tempo de tentação e de perigos, a unidade assim concedida.
A unidade fundamental consiste no facto de acreditarmos em Deus, Pai omnipotente, Criador do céu e da terra; de O confessarmos como Deus trinitário – Pai, Filho e Espírito Santo. A unidade suprema não é solidão duma mónada, mas unidade através do amor. Acreditamos em Deus, no Deus concreto. Acreditamos no facto que Deus nos falou e Se fez um de nós. Dar testemunho deste Deus vivo é a nossa tarefa comum no momento actual.
O homem tem necessidade de Deus, ou, pelo contrário, as coisas continuam bastante bem mesmo sem Ele? Quando, numa primeira fase da ausência de Deus, a sua luz continua ainda a enviar os seus reflexos e mantém unida a ordem da existência humana, tem-se a impressão de que as coisas funcionem bastante bem mesmo sem Deus. Mas, à medida que o mundo se afasta de Deus, vai-se tornando cada vez mais claro que o homem, na petulância do poder, no vazio do coração e na ânsia de prazer e felicidade, «perde» progressivamente a vida. A sede de infinito está presente no homem de modo inextirpável. O homem foi criado para a relação com Deus e precisa d'Ele. Neste tempo, o nosso primeiro serviço ecuménico deve ser testemunharmos juntos a presença de Deus vivo e, deste modo, dar ao mundo a resposta de que tem necessidade. Naturalmente, deste testemunho fundamental de Deus faz parte, de maneira absolutamente central, o testemunho de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que viveu no nosso meio, sofreu por nós, morreu por nós e, na ressurreição, abriu de par em par a porta da morte. Queridos amigos, fortaleçamo-nos nesta fé! Ajudemo-nos mutuamente a vivê-la! Trata-se de uma grande tarefa ecuménica, que nos introduz no coração da oração de Jesus.
A seriedade da fé em Deus manifesta-se na vivência da sua palavra. No nosso tempo, manifesta-se, de modo muito concreto, no empenho por aquela criatura que Ele quis à sua imagem: o homem. Vivemos num tempo em que se tornaram incertos os critérios de ser homem. A ética foi substituída pelo cálculo das consequências. Perante isto, devemos, como cristãos, defender a dignidade inviolável do homem, desde a sua concepção até à morte: nas questões desde o diagnóstico de pré-implantação até à eutanásia. «Só quem conhece Deus, é que conhece o homem» – disse uma vez Romano Guardini. Sem o conhecimento de Deus, o homem torna-se manipulável. A fé em Deus deve-se concretizar-se no nosso empenho comum pelo homem. Fazem parte de tal empenho pelo homem não só estes critérios fundamentais de humanidade, mas sobretudo, e de forma muito concreta, o amor que Jesus Cristo nos ensina na descrição do Juízo Final (Mt 25, 31-46): o juiz divino julgar-nos-á segundo o modo como nos comportamos para com aqueles que estão próximo de nós, para com os mais pequenos dos nossos irmãos. A disponibilidade para dar ajuda nas necessidades deste tempo, mesmo para além do próprio ambiente de vida, é uma tarefa essencial do cristão.
Como disse, isto vale antes de mais nada no âmbito da vida pessoal de cada um. Mas vale depois também na comunidade de um povo e de um Estado, onde todos nós devemos cuidar uns dos outros. Vale para o nosso Continente, sendo nós chamados à solidariedade na Europa. E vale, enfim, para além de todas as fronteiras: hoje a caridade cristã exige o nosso empenho mesmo pela justiça no mundo em toda a sua vastidão. Sei que muito se faz, da parte dos alemães e da Alemanha, para tornar possível a toda a humanidade uma vida digna do homem, e por isso quero aqui exprimir uma palavra de viva gratidão.
Por fim quero ainda acenar a uma dimensão mais profunda da nossa obrigação de amar. A seriedade da fé manifesta-se também e sobretudo quando esta inspira certas pessoas a colocarem-se totalmente à disposição de Deus e, partir de Deus, também dos outros. As grandes ajudas tornam-se concretas só quando, num lugar, vivem aqueles que estão totalmente à disposição do outro e, deste modo, tornam credível o amor de Deus. Pessoas assim são um sinal importante para a verdade da nossa fé.
Nas vésperas da minha visita, falou-se diversas vezes de um dom ecuménico do hóspede que se esperava da visita em questão. Não é preciso especificar os dons mencionados em tal contexto. A propósito, quero dizer que isto – como na maioria dos casos se apresentava – constitui um equívoco político da fé e do ecumenismo. Quando um Chefe de Estado visita um país amigo, geralmente a sua vinda é antecedida por contactos das devidas instâncias que preparam a estipulação de um ou mesmo vários acordos entre os dois Estados: ponderando vantagens e desvantagens chega-se a um compromisso que, em última análise, aparece vantajoso para ambas as partes, de tal modo que depois o tratado pode ser assinado. Mas a fé dos cristãos não se baseia numa ponderação das nossas vantagens e desvantagens. Uma fé construída por nós próprios não tem valor. A fé não é algo que nós esquadrinhamos e concordamos. É o fundamento sobre o qual vivemos. A unidade não cresce através da ponderação de vantagens e desvantagens, mas só graças a uma penetração cada vez mais profunda na fé mediante o pensamento e a vida. Assim nos últimos cinquenta anos, e particularmente desde a visita do Papa João Paulo II há trinta anos, cresceram muito os pontos comuns, facto este de que podemos apenas sentir-nos agradecidos. Apraz-me recordar o encontro com a comissão guiada pelo Bispo [luterano] Lohse, na qual nos exercitamos juntos nesta penetração de modo profundo na fé mediante o pensamento e a vida. A quantos colaboraram para isso – nomeadamente, na parte católica, o Cardeal Lehmann – quero exprimir vivo agradecimento. Não menciono outros nomes; o Senhor conhece-os todos. Todos juntos podemos apenas agradecer ao Senhor os caminhos da unidade por onde nos conduziu e associarmo-nos com humilde confiança à sua oração: Fazei que nos tornemos um só, como Vós sois um só com o Pai, para que o mundo creia que Ele Vos enviou» (cf. Jo 17, 21).

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Convento dos Agostinianos em Erfurt

Não tapemos o sol com uma Madeira

Público 2011-09-23 José Manuel Fernandes
Alberto João Jardim cometeu uma falta imperdoável, mas houve e ainda há muitos outros pecadores sem perdão

Algures no Atlântico, numa ilha com menos habitantes do que a do concelho de Gondomar, ou de Vila Franca de Xira, ou de Odivelas, ou de Famalicão, avançam os projectos de dois museus de arte contemporânea. A poucos quilómetros um do outro. Um deverá custar 13 milhões de euros. O outro está orçado em sete milhões. De caminho até há projecto do atelier de Óscar Niemeyer. Como pano de fundo, umas eleições regionais. Só que esta ilha não é a Madeira "despesista": é São Miguel, nos Açores. Um dos projectos é promovido pelo Governo Regional (PS), o outro pela Câmara de Ponta Delgada (PSD). Tudo em Portugal, no ocaso deste ano de 2011, o ano em que a troika chegou. Estarão a gozar connosco?

É fácil, é barato e acredita-se que dá milhões: vamos lá todos zurzir em Alberto João Jardim. Sobretudo agora, que o homem está atordoado pela descoberta de falta indisfarçável e de pecado imperdoável. Poupo por isso adjectivos, e não por falta de vontade ou receio de excessos: afinal, de uma das vezes que lhe desapertaram os cordões da bolsa (quando o Governo de Guterres aprovou uma indecorosa alteração à Lei das Finanças Regionais), chamei-lhe "tiranete do Funchal" e, por conta disso, respondi em tribunal (onde fui absolvido, devo sublinhar). E poupo os adjectivos porque temo os efeitos da distracção: é que, enquanto se atiram pedras ao bobo da corte, tende-se a esquecer outros vilões e a nem reparar noutros excessos. Como o dessa súbita paixão açoriana pela arte contemporânea.

A Madeira é uma ilha esburacada por um frenesim de obras públicas lançadas com o argumento de que gerariam, por milagre insondável, o desenvolvimento económico. Mas o continente é, ao mesmo tempo, a região da Europa com mais auto-estradas por habitante, vias rápidas onde só parecem circular os automobilistas que desejam fugir ao rosário de rotundas em que se transformaram as antigas estradas nacionais. Por causa das omissões da Madeira, tivemos de corrigir nalgumas décimas percentuais os défices do passado - por causa das auto-estradas para lado nenhum, teremos de acrescentar vários pontos aos défices futuros. Basta pensar que, ainda esta semana, soubemos que as Estradas de Portugal viram a sua dívida passar de 909 milhões em 2008 para 2000 milhões em 2010, devendo chegar aos 4256 milhões em 2015. São 500 milhões de dívida a mais todos os anos, e sem construir mais estradas novas, tudo fruto da engenharia financeira de José Sócrates e Mário Lino. É por isso que, apesar de não ser adepto de que se tratem em tribunais problemas que são políticos, nesta discussão estou mais com Medina Carreira: "Estamos com as baterias contra o dr. João Jardim (...), mas temos muita gente que à frente dele devia sentar-se no banco dos réus; as pessoas que puseram este país no estado em que está deveriam ser julgadas", como ele disse na Figueira da Foz.

Se é difícil seguir o ritmo torrencial das declarações de Alberto João Jardim, vale a pena atentar no documento que produziu para demonstrar os bons resultados da sua governação. São cinco páginas de números, mas houve uns que me prenderam a atenção: os relativos ao rendimento per capita na região. Em 1990, este correspondia a 69 por cento da média nacional, hoje está nos 132 por cento. Poderíamos dar os parabéns aos madeirenses se não soubéssemos que este resultado foi, em grande parte, conseguido graças às transferências do continente. O que levanta um problema: justificam-se essas transferências? (E justificam-se nos Açores, onde esse índice está nos 96 por cento, valor que contrasta com os 81 por cento da Região Norte?) É que, à custa da tese da "insularidade", pagamos no continente 23 por cento de IVA e, na Madeira, só se paga 16 por cento. O IRS também é mais baixo, os combustíveis são mais baratos, há dispensa de taxa da RTP e, mesmo assim, os funcionários públicos beneficiam de um bónus salarial. (Nos Açores, o regime fiscal é igualmente mais favorável e, este ano, foi a única região do país onde os funcionários do Estado não viram os seus salários diminuir). É por estas razões financeiras, e por todas as razões políticas do mundo, que divirjo radicalmente dos que dizem que não se pode pôr em causa o actual modelo de autonomia regional. Claro que se pode pôr em causa. Mais: que se deve pôr em causa. (E que, de passagem, se deve esquecer de vez a mirabolante conversa da regionalização do continente.)

Não deixa de ser curiosa a fúria de certos cristãos-novos da prudência orçamental. É que são os mesmos que, no PS, no PCP e no Bloco, escarnecem da "obsessão do défice" e criticam a "tirania da dívida". No entanto, como notou Pedro Pita Barros, professor na Faculdade de Economia da Universidade Nova, numa crónica no site Dinheiro Vivo, a situação na Madeira "não é mais do que o resultado das políticas por eles preconizadas - dar rédea solta à despesa pública, que esta se multiplicará, e combater o desemprego através do emprego como funcionário público - esta foi a "receita" para o crescimento da Madeira". Depois de milhões e milhões em estradas, túneis, portos e subsídios a clubes de futebol e para o fogo-de-artifício, depois de uma generosidade sem fim na criação de emprego público, a Madeira só é comparativamente rica porque beneficiou das nossas transferências, pois não gerou um modelo económico novo e mais vigoroso. Quando em Portugal as mesmas vozes pedem para se iludir o acordo com a troika e esquecer (ou aliviar) a austeridade, a lição mais importante da Madeira "é que a capacidade de gerar dívida pública (e a ir escondendo) não traz a prazo crescimento económico sustentado", como escreveu Pita Barros. Exacto.

E, já que estamos a debater modelos económicos, é bom ir aos clássicos e saber do que falamos. Ora aquilo de que falamos é de "um pobre simpatizante das correntes keynesianas" que defende que "são necessárias medidas anti-recessivas" para estimular a "procura efectiva" e aumentar o emprego, o que pode ser feito através de "despesas públicas que compensem a retracção do investimento privado". As palavras são de Alberto João Jardim e lêem-se num elucidativo artigo que podemos encontrar no site do Governo Regional da Madeira: "Eu, keynesiano, me confesso". Ora eu, que não sou keynesiano, temo que aqueles que agora se distraem com indignações serôdias esqueçam que há muito para fazer (sem ser apenas na Madeira) para repor o país na linha. Por essas e por outras é que sigo com inquietação as notícias sobre as hesitações em torno da ligação em alta velocidade a Espanha. Mesmo com dinheiros da Europa, investimento público só se for sustentável. No Funchal ou no Poceirão.

Consta que o Presidente da República e o primeiro-ministro decidiram não pedir uma auditoria às contas da Madeira. É pena. Tal como foi pena não se ter feito uma auditoria aos deves e haveres da República quando este Governo tomou posse. Parece que se tem medo de destapar mais buracos e assim incomodar a troika e os mercados - o que infelizmente não deixaria de suceder. Lamento imenso. Lamento sobretudo pelo que isso revela de limitações à nossa soberania: conduziram o país a tal estado que até a verdade política e o apuramento de responsabilidades estão hoje a ser sacrificados. A Madeira, de novo, só nos vem recordar um problema bem maior. Jornalista