quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Meeting de Rimini regista 800 mil visitantes

“A natureza do homem e a relação com o infinito”: tema da edição de 2012
RIMINI, terça-feira, 30 de agosto de 2011 (ZENIT.org) – Foram 113 encontros, 321 expoentes, 10 exposições, 26 espetáculos, graças à contribuição de quase 4 mil voluntários (140 dos quais são estrangeiros). O resultado: quase 800 mil visitantes, de 38 nacionalidades. Estes são os números da última edição do Meeting da Amizade entre os Povos, encerrado no último sábado em Rimini, sobre o tema “E a existência se torna uma enorme certeza”.
O Meeting foi inaugurado com a mensagem do Papa Bento XVI aos participantes, na qual recorda que “o homem não pode viver sem uma certeza sobre seu próprio destino”.
Na inauguração do evento, o presidente da República Italiana, Giorgio Napolitano, sublinhou a necessidade de incentivar os jovens a “falar a linguagem da verdade”, também em tempos de crise.
“Vocês carregam, no tempo da incerteza, seu anseio de certeza – exortou o chefe de Estado. Por tudo isso, representam um recurso humano para o nosso país. Façam que isso valha ainda mais: este é o meu desejo e meu convite.”
Assim se expressou a presidente do Meeting de Rimini, Emilia Guarnieri, na coletiva de imprensa final: “Contando a história do nosso país [em particular na exposição dos 150 anos de subsidiariedade, N. da R.], interrogando-nos sobre a crise e sobre a situação internacional, aprofundando o olhar na cultura do passado e na da nossa época, vimos algo acontecer: que a existência se torna uma enorme certeza”.
“Encontramos pessoas vindas de todas as partes do mundo – acrescentou – para contar a própria experiência, as quais, por uma certeza vivente em sua existência, podem olhar de maneira diferente as situações de crise e enfrentá-las com uma positividade surpreendente.”
Guarnieri citou, portanto, alguns dos numerosos convidados de toda procedência geográfica, cultural e religiosa, todos testemunhas “da amizade entre os povos”: o cardeal Antonios Naguib, o bispo Armiah, o reitor de Al Azhar, Usamah Elabed, e “companheiros de viagem” já históricos do Meeting, como Farouq Wael, Joseph Weiler, Andrew Davidson, John Milibank.
O Meeting de Rímini se confirmou como lugar privilegiado de diálogo inter-religioso, como testemunha a intervenção de Abdel Fattah Hassan, tradutor ao árabe de “O risco educativo”, de Dom Giussani.
A introdução do professor Costantino Esposito, que abordou o tema do Meeting no âmbito filosófico, foi elogiada por Emilia Guarnieri como uma resposta ao “fácil, mas ilusório consolo, por um lado, do naturalismo, segundo o qual tudo seria explicável 'com base em determinados fatores e mecanismos físico-químicos e neuronais', e por outro, do relativismo cultural”.
Guarnieri citou também a presença de muitos católicos – leigos e eclesiásticos – no Meeting: entre eles, o filósofo Fabrice Hadjadj, os cardeais Dionigi Tettamanzi e Robert Sarah, e o custódio da Terra Santa, Pe. Pierbattista Pizzaballa.
Todos eles deram um forte testemunho da sua experiência concreta de Cristo no mundo, coerentemente com o que se fez na exposição “Com os olhos dos Apóstolos”, reconstrução realista do início da pregação de Jesus em Cafarnaum.
Os empresários e políticos que intervieram no Meeting, prosseguiu Guarnieri, “encontraram-se frente a um povo cada vez mais de 'homens sem pátria', isto é, livres; um povo que diz à Itália que esse país não é algo que nasce do alto, nos grandes ateneus financeiros internacionais, mas que nasce da criatividade filha de uma posição humana geradora de homens capazes de desejo, realismo e ideal, única solução para evitar converter-nos em um país para velhos”.
“Pessoas seguras de uma só coisa, essencial, querida por cada um: a própria experiência de homens verdadeiros, seguros e, por isso, irredutíveis a qualquer tipo de poder, porque reconhecem que as forças que mudam a história são as mesmas que transformam o coração do homem. O homem, de fato, não é artífice de si mesmo, mas está marcado por algo de Outro”, concluiu Guarnieri.
Ao término da coletiva de imprensa, anunciou-se Tóquio como sede do próximo Meeting internacional (27 a 31 de outubro de 2011), enquanto o tema da próxima edição de Rimini (19 a 25 de agosto de 2012) será “A natureza do homem e a relação com o infinito”.
(Luca Marcolivio)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Impostos e criação de riqueza

Público 2011-08-29
João Carlos Espada
O melhor contributo dos "ricos" para o bem comum não reside em aumentarem os seus impostos

Depois de Warren Buffet, foi a vez de Liliane Bettencourt apelar a impostos mais elevados sobre os super-ricos, isto é, sobre si própria. A generosidade dos super-ricos surpreendeu num primeiro momento os partidários da luta de classes. Em seguida, lançaram-se numa nova campanha para aumentar os impostos.

Com o devido respeito pela decisão de cada um sobre o que fazer com o que lhe pertence, devo discordar do clima geral da discussão. Não são os impostos a fonte primordial de melhoria da condição de vida do maior número. A riqueza da Europa e do Ocidente - que ainda hoje merece admiração no resto do mundo - não foi produto da redistribuição da riqueza dos ricos para os pobres através dos impostos. Foi produto da criação de riqueza num ambiente de liberdade económica, em regra associada a impostos baixos, justiça célere, e, sobretudo, à ausência de barreiras à entrada de novos competidores.

Esta verdade elementar foi precocemente observada por Adam Smith, já em 1776. E foi mais facilmente corroborada depois disso. Até meados do século XVIII, todos os países eram basicamente pobres, comparativamente à exuberante descolagem económica europeia desde então. Essa descolagem económica, que elevou exponencialmente o nível de vida dos europeus ao longo do século XIX, não podia ter sido obtida pela redistribuição dos ricos para os pobres. Os ricos do início do século simplesmente não sonhavam que pudesse existir a riqueza com que o século terminou. Essa riqueza não existia previamente: ela simplesmente foi gerada, criada, inventada.

Joseph Schumpeter explicou em 1942 (Capitalismo, Socialismo e Democracia) o mecanismo que presidiu a essa extraordinária elevação do nível de vida das pessoas e do número de pessoas (no século XIX, a população europeia cresceu de 150 para 400 milhões). Chamou-lhe "destruição criadora", designando dessa forma o processo de permanente inovação que gera permanentemente novos produtos a custos mais baixos, incluindo velhos produtos também a custos mais baixos.

É isso que constituiu no Ocidente o grande "elevador social", através do qual gerações sucessivas de pessoas comuns têm acesso a bens e produtos que as gerações anteriores não sonhavam obter. Disse Schumpeter: "A rainha Isabel I tinha meias de seda. A proeza do capitalismo não consiste tipicamente em fornecer mais meias de seda às rainhas, mas em colocá-las ao alcance das raparigas das fábricas em troca de quantidades de esforço decrescentes".

Por outras palavras, quando a destruição criadora faz baixar os custos de bens e serviços, ela faz baixar o número de horas de trabalho necessárias para os adquirir. Esta é a chave da democratização do consumo - bem patente, neste final de Agosto, na massificação do turismo.

Por este motivo, o melhor contributo dos "ricos" para o bem comum não reside em aumentarem os seus impostos. Essa é uma contribuição apenas auxiliar, que deve visar a criação de uma rede de segurança pública, abaixo da qual ninguém deve recear cair. (Mas mesmo esse destino dos impostos será incerto, se eles não forem aplicados em regime de concorrência). O melhor contributo dos "ricos" consiste por isso em continuarem a produzir bens e serviços (que sejam voluntariamente escolhidos por consumidores), em concorrência aberta e leal com outros, actuais ou potenciais, produtores.

Por outras palavras, a melhor contribuição para o bem comum reside na liberdade de escolha. A melhor garantia de que um bem ou serviço está a ser produzido da forma mais acessível ao maior número de pessoas consiste na garantia de que esse bem ou serviço não está artificialmente protegido da concorrência e que é voluntariamente escolhido pelos que o consomem.

Esta foi a chave do incrível sucesso da Europa e do Ocidente nos últimos três séculos - uma evidência que nós esquecemos, mas que a China e a Índia compreendem muito bem. Porque a esquecemos, temos hoje dívidas públicas colossais, impostos colossais, despesas públicas colossais, crescimento económico ridículo e desemprego crescente. Entretanto, vamos alegremente discutindo como aumentar ainda mais os impostos - com vista a manter níveis de despesa pública insustentáveis. Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Titular da cátedra "European Parliament/Bronislaw Geremek in European Civilisation" no Colégio da Europa, campus de Natolin (Varsóvia).

Igualdade de género ou falsa identidade

Gonçalo Portocarrero de Almada
Público 2011-08-29
Se se permite, tão facilmente e totalmente grátis, a mudança de género, por que não também a de espécie?

Quem viveu conscientemente o 25 de Abril, talvez ainda conserve, entre outras recordações, a lembrança de uma canção revolucionária em que, a páginas tantas, se badalava: "Uma gaivota, voava, voava, asas de vento, coração de mar. Como ela, somos livres, somos livres de voar".

Como nunca mais ouvi aquela melodiosa voz, temi que, embalada por um tão sugestivo texto, a dita cançonetista tivesse mesmo voado para parte incerta. Ou que, tendo desafiado as leis da gravidade, a experiência lhe tivesse sido fatal. Felizmente nenhuma destas aziagas hipóteses se confirmou, pelo que é de supor que ainda esteja disponível para ser de novo a voz do PREC, ou seja, do processo revolucionário em curso. A sua histórica balada é, com efeito, um magnífico hino à nova e subversiva política da identidade de género em que o anterior Governo, à falta de mais urgente e necessária reforma social, tão entusiasticamente se empenhou, depois de ter empenhado, com indiscutível êxito, o país.

Entende-se modernamente que a identidade pessoal não deve ser aferida por circunstâncias objectivas, como eram antigamente o sexo, a idade, a altura e o peso, mas sim por um acto libérrimo da vontade de cada qual. Assim, se um macho quer ser oficialmente fêmea, o Estado obedece ao capricho do cidadão e falsifica, a seu bel-prazer, o respectivo registo de identidade. Portanto, pela mesma razão, se uma septuagenária, de um metro de estatura e pesando cinco arrobas, quiser ser oficialmente uma menina de vinte anos, de um metro e setenta e quarenta quilos, também deveria poder sê-lo, se de facto se sente tão jovem, alta e leve quanto o dito sujeito se acha feminino. Ou será que o faz-de-conta é válido para o sexo, mas já não para a idade, a altura e o peso?

Mas, se se permite, tão facilmente e totalmente grátis, a mudança de género, por que não também a de espécie?! Se o sexo já não é algo objectivo e predeterminado geneticamente, por que o há-de ser a natureza? Se a mulher pode "virar" homem e vice-versa, por uma simples declaração de vontade, por que não pode ser alguém, como Fernão Capelo, gaivota?!

Quem não gostaria de obter, oficialmente, o estatuto jurídico de ave protegida?! Não passarinho, que releva alguma inferioridade, nem passarão, que sugere algum governante ou administrador de empresa pública, mas pássaro, como a gaivota da canção, para ser livre, livre de voar! Para além da isenção de impostos e a inimputabilidade penal, a condição aviária tem grandes vantagens também ao nível da viação que, neste caso, passa a ser, muito propriamente, aviação.

A estas e outras razões gerais tenho a acrescentar uma gratificante experiência pessoal quase-aviária. No ano passado, ao sofrer um acidente, tive que esperar pela ambulância, no lugar do sinistro, cerca de uma hora. Porém, quando na urgência do hospital me colocaram uma pulseira colorida, fui logo objecto dos mais extremosos e diligentes cuidados médicos. Enquanto ser humano, mereci pouca atenção, mas assim que, graças à bendita anilha, me confundiram com uma ave, beneficiei de imediato da principesca protecção dispensada às espécies em vias de extinção. Uma pessoa pode ser negligenciada e até impunemente morta antes de nascer, mas um animal protegido não pode ser maltratado. Moral da história: humano nunca mais! Ser ave é que está a dar!

Um slogan revolucionário exigia: 25 de Abril sempre! Não chegámos a tanto, mas, de certo modo, pode-se dizer que agora, graças à famigerada igualdade de género, todos os dias são dias de 1 de Abril, porque são dias de mentiras. Talvez não fosse despropositado criar um dia anual da verdade, em que cada qual, mais por via de excepção do que por regra, seja, muito originalmente, o que de facto é. Licenciado em Filosofia e vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família

As forças inimputáveis

DN 2011-08-29
JOÃO CÉSAR DAS NEVES

Uma peculiaridade do nosso panorama político é o peso da extrema-esquerda. Ele não vem dos votos, pois no eleitorado essa área é residual. Os 14% acumulados das últimas eleições, dada a abstenção de 42%, devem representar cerca de 10% do total, nível estável há 20 anos. O fundamento do seu poder é mediático, pela sedução e captura dos jornalistas.
A extrema-esquerda é a coqueluche da imprensa, sobretudo em tempo de crise. Pode-se sempre contar com ela para declarações bombásticas, chocarreiras, insultuosas até, exactamente as que dão boas manchetes. Este facto, se lhe dá enorme influência, cria evidentes problemas conceptuais. A esquerda, ao contrário da direita, sempre procurou legitimidade intelectual e ética em modelos ideológicos. Ela luta de forma científica pela sociedade ideal, projecto que se perde se ficar como mero provocador de serviço.
Nos próximos meses o seu coro de críticas aos sacrifícios nacionais terá sucesso garantido. Mas isso só porque ninguém se lembra de analisar o valor da alternativa. Recusar o plano de estabilização, renegociar a dívida externa e abandonar o euro é uma proposta que, em vez de aliviar a austeridade, aumentá-la-ia violentamente. Além de perder os 78 mil milhões de euros do acordo, faria de Portugal um pária internacional, cortando o acesso a qualquer dinheiro externo. Isso implicaria reduzir a despesa imediata e brutalmente. Os sacrifícios seriam inimagináveis. É espantoso que PCP, BE e afins possam repetir estas ideias até à exaustão sem ninguém as denunciar como disparates monstruosos.
Este padrão é consistente. A extrema-esquerda só se aguenta como força política porque ninguém se dá ao trabalho de escrutinar as suas propostas, ouvindo apenas as queixas. Ninguém como ela se tem dedicado a demonstrar o falhanço dos nossos poderes públicos, em todas as épocas e governos. As suas declarações constituem um longo rol de denúncias de erros ministeriais, abusos do funcionalismo, vícios estruturais. Aliás, nisso têm dado contributos sólidos e válidos ao País. A única conclusão razoável seria o seu repúdio pelo intervencionismo. Só com um Estado mais pequeno e leve se eliminam tais tropelias. Ora o seu programa visa, pelo contrário, aumentar o poder dos mesmos organismos que tanto criticam. Se os nossos responsáveis são tão maus, como dizem a cada passo, porque querem mais activismo público? Se nos órgãos estatais há tantas asneiras, distorções, roubos, como aumentar a sua influência? Serão eles o grupinho de responsáveis puros capazes de reformar toda a máquina?
Pode ser que defendam o intervencionismo porque desconfiam mais de empresários e mercados que de ministros e burocratas. Isso faria sentido. Daí se deduziria que querem uma economia só com pequenas empresas, e mesmo essas sem grande sucesso, para evitar que cresçam. Mas o que acontece é precisamente o oposto. O seu modelo exige empresas ainda maiores que as actuais, só que controladas pelo Estado. O tal que eles asseguram só fazer burrices.
Aquilo que esses partidos censuram ainda mais que a incompetência governativa são as negociatas entre autoridades e grupos económicos. Este é o seu tema preferido. Seria assim de esperar que as suas propostas aumentassem as distâncias e defesas entre esses dois poderes, que tendem a corromper-se mutuamente. Mas ninguém no espectro político advoga maior ligação entre ministros e empresas, acreditando piamente que quando os primeiros controlarem directamente as segundas ninguém terá fins lucrativos, desaparecendo abusos do capital e exploração de trabalhadores e público.
A extrema-esquerda é a única área política que não precisa de ter alternativa credível ou sequer fazer sentido, para ganhar impacto mediático. Basta-lhe gritar alto ou dizer piadas para os jornais lhe darem lugar de relevo. Veremos isso esmagadoramente nos próximos meses. Mas esta origem da sua influência é também o seu maior vício. A política dirige-se apenas ao bem comum. Crítica gratuita em emergência nacional é sabotagem.
naohaalmocosgratis@ucp.pt

29 de Agosto - Martírio de S. João Baptista

Decapitação de S. João Baptista
Amico Aspertini
(s/data)
Óleo sobre madeira
20.7 cm, 29 cm
Fitzwilliam Museum
Cambridge
Reino Unido

domingo, 28 de agosto de 2011

Nestes dias em que Deus parecia existir




Bento XVI é um homem de ideias, um intelectual, alguém cujo espaço natural é a biblioteca, a sala de aulas da universidade, o auditório das conferências. A sua timidez diante das multidões aflora de modo invencível nessa maneira quase envergonhada e quase a pedir desculpa por ter de se dirigir às massas.

Mas essa fragilidade é enganosa pois trata-se provavelmente do Papa mais culto e inteligente que a Igreja tem há muito tempo, um dos raros pontífices cujas encíclicas ou livros um agnóstico como eu pode ler sem bocejar (a sua breve autobiografia é fascinante, e os dois volumes sobre Jesus são mais que sugestivos).
* * *
A verdade é que, ainda que perca fiéis e encolha, o catolicismo está hoje em dia mais unido, activo e aguerrido do que nos anos em que parecia a ponto de desgarrar-se e dividir-se pelas lutas ideológicas internas.

Isto é bom ou mau para a cultura da liberdade?

Enquanto o Estado for laico e mantiver a sua independência face a todas as igrejas, que deve, claro está, respeitar e permitir que actuem livremente, é bom, porque uma sociedade democrática não pode combater eficazmente os seus inimigos – começando pela corrupção –  se as suas instituições não estiverem firmemente apoiadas por valores éticos, se uma vida espiritual rica não floresce no seu seio como um antídoto permanente contra as forças destruidoras, desagregantes e anárquicas que costumam guiar a conduta individual quando o ser humano se sente livre de toda a responsabilidade.

* * *

Durante muito tempo acreditou-se que, com o avanço dos conhecimentos e da cultura democrática, a religião, essa forma elevada de superstição, ir-se-ia desfazendo, e que a ciência e a cultura a substituiriam com vantagem.

Agora sabemos que essa era outra superstição que a realidade se encarregou de fazer em cacos.

E sabemos, também, que aquela função que os livres-pensadores novecentistas, com tanta generosidade quanta ingenuidade, atribuíam à cultura, esta é incapaz de cumprir, sobretudo agora.

Porque, no nosso tempo, a cultura deixou de ser essa resposta séria e profunda para as grandes perguntas do ser humano sobre a vida, a morte, o destino, a história, que no passado tentou ser, e transformou-se, por um lado, num divertimento ligeiro e inconsequente, e, por outro, numa cabala de especialistas incompreensíveis e arrogantes,confinados em fortalezas de gírias e palavras crípticas e a anos-luz do comum dos mortais.

* * *

E, por mais que tantos brilhantíssimos intelectuais procurem convencer-nos de que o ateísmo é a única consequência lógica e racional do conhecimento e da experiência acumuladas pela histórica da civilização, a ideia da extinção definitiva continuará a ser intolerável pelo ser humano comum e corrente, que continuará a encontrar na fé aquela esperança de uma sobrevivência mais além da morte a que nunca pôde renunciar.

Enquanto não tomar o poder político e enquanto o poder político saiba preservar a sua independência e neutralidade diante dela, a religião não só é lícita como é indispensável numa sociedade democrática.

* * *

Crentes e não crentes devemos alegrar-nos por isso com o que aconteceu em Madrid nestes dias em que Deus parecia existir, o catolicismo parecia ser a religião única e verdadeira, e todos como rapazes bons caminhávamos mão dada com Santo Padre em direcção ao reino dos céus.

Versão integral  em baixo: 


El Pais, 2011-08-28
A festa e a cruzada de Mário Vargas Llosa

Pensamento do dia

Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito.
Rm 12,2

sábado, 27 de agosto de 2011

27 de Agosto - Santa Mónica

Cenas da vida de Santo Agostinho. O Santo levado à escola por Santa Mónica
1415
Pietro di Niccolo
Têmpera
Pinacoteca Vaticana 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Os católicos e a política

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
8:00 Sexta feira, 26 de agosto de 2011
Há sempre um ponto que me desgosta em muitos amigas e amigos católicos: é a distância em relação ao debate público e político, é o nojo fácil pela política. Isso é visível, por exemplo, no Facebook. Ali podemos ver milhentas pessoas a assumir com orgulho a identidade católica e, ao mesmo tempo, a desprezar a identidade política. Na secção "religious views", surge triunfante a palavra "católica". Na secção "political views", surge um pobre e fácil "não uso disso" ou um "são todos iguais", etc. Na revista Communio (Setembro 1988), o omnipresente Francisco Lucas Pires escreveu um artigo que é, para mim, a melhor resposta a esta pobreza apolítica de um certo catolicismo.
Nesta prosa, intitulada "Pureza de Coração e Vida Política", Lucas Pires afirma que existem duas maneiras de um cristão lidar com a esfera política. A primeira passa por aceitar que os princípios e regras da esfera política são de "outro tipo" e que, por isso, o cristão só deve ter preocupações com a salvação da sua consciência. Ou seja, o cristão deve criar uma redoma à sua volta, retirando-se assim dos debates da Cidade. Nesta via, o cristão julga-se tão puro, que não quer sujar as mãos na realidade. "Sim, sou muito católico, mas não quero nada com a política, são todos iguais".
Como já perceberam, Francisco Lucas Pires critica esta primeira via, e defende uma alternativa. Para o ex-líder do CDS e inspirador de boa parte do PSD atua l, um cristão tem o dever de lutar na Cidade, tem o dever de fazer opções públicas e políticas. Porque o leigo não é o padre a viver fora da Cidade. O leigo tem de viver no mundo, tem de produzir e/ou participar numa narrativa normativa para a Cidade, mesmo quando essa Cidade é dura e suja. Sim, a política namora com o pecado e com a mentira, mas - precisamente por causa disso - a política é o terreno propício para se apurar a "pureza de coração". Só podemos testar a nossa pureza num mundo imperfeito e duro. A redoma apolítica é uma via fácil e pouco cristão.
Portanto, numa lógica algo parecida à de T.S. Eliot, Lucas Pires diz que o cristão tem de tentar influenciar o espaço público, tem de levar os seus valores cristãos para a Cidade. O cristão não tem apenas de salvar a sua consciência: também tem de salvar a sua cultura. O cristão não é apenas um ser metafísico, também é um ser historicamente situado. No fundo, não deve existir uma separação entre a obediência moral (a Cristo, a Deus) e a vida política e colectiva aqui na Cidade dos homens. Pelo contrário: deve existir uma tensão criadora entre a ética cristã e a realidade política.

Bento XVI em Madrid - Uma edição especial da Agência Ecclesia


Bento_xvi_em_Madrid2011

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Steve Jobs no "commencement" de Stanford em 2005


No dia em que Steve Jobs abandona a direcção executiva da Apple, vale a pena recordar o seu discurso na festa de graduação de Stanford em 2005.
Não é vulgar ouvir um executivo falar de sentido da vida, do efeito pedagógico da consciência da morte e da aprendizagem com o fracasso com histórias da própria vida.


25 de Agosto - S. Luís, rei de França

A Virgem e o Menino adorados por S. Luís, rei de França
Claudio Coello (1665-68)
Óleo sobre tela 229 x 249 cm
Museo del Prado, Madrid

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

24 de Agosto - S. Bartolomeu

O Martírio de S. Bartolomeu
Bernardo Cavallino
(1635)
Óleo sobre tela (205 x 158 cm)
Museo di Capodimonte
Nápoles

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Papa Bento XVI
Audiência geral de 04/10/2006 (© Libreria Editrice Vaticana; rev)
 
Natanael-Bartolomeu reconhece o Messias, Filho de Deus
O evangelista João refere-nos que, quando Jesus vê Natanael aproximar-se, exclama: «Aí vem um verdadeiro Israelita, em quem não há fingimento» (Jo 1, 47). Trata-se de um elogio que recorda o texto de um Salmo: «Feliz o homem a quem o Senhor não acusa de iniquidade e em cujo espírito não há engano» (Sl 32, 2), mas que suscita a curiosidade de Natanael, o qual responde com admiração: «Donde me conheces?» (Jo 1, 48a). A resposta de Jesus não é imediatamente compreensível. Ele diz: «Antes de Filipe te chamar, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira!» (Jo 1, 48b). Não sabemos o que aconteceu debaixo desta figueira. É evidente que se trata de um momento decisivo na vida de Natanael. Ele sente-se comovido com estas palavras de Jesus, sente-se compreendido e compreende: este homem sabe tudo de mim, Ele sabe e conhece o caminho da vida, a este homem posso realmente confiar-me. E assim responde com uma confissão de fé límpida e bela, dizendo: «Rabi, Tu és o filho de Deus, Tu és o Rei de Israel!» (Jo 1, 49).
Nela é dado um primeiro e importante passo no percurso de adesão a Jesus. As palavras de Natanael sublinham um aspecto duplo e complementar da identidade de Jesus: Ele é reconhecido, quer na Sua relação especial com Deus Pai, do qual é Filho unigénito, quer na relação com o povo de Israel, do qual é proclamado rei, qualificação própria do Messias esperado. Nunca devemos perder de vista nenhuma destas duas componentes, porque se proclamarmos apenas a dimensão celeste de Jesus,  corremos  o  risco  de  O  transformar num ser sublime e evanescente, e se ao contrário reconhecermos apenas a Sua situação concreta na história, acabamos por negligenciar a dimensão divina que propriamente O qualifica.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Trabalho versus emprego

João Santos, Publicado i-online 23 de Agosto de 2011   
Há desemprego ou gente que não quer trabalhar? Os estrangeiros foram-se embora, mas muitos portugueses acham-se superiores aos trabalhos que deixaram vagos
O desemprego está também ligado a expectativas erradas
António Pedro Santos
Situação 1: Viajo de táxi a caminho do aeroporto. O taxista conta-me, a páginas tantas, que a mulher tem uma pequena loja de limpeza a seco e se vê grega para arranjar quem lá queira trabalhar. Por mais que faça, quem responde aos anúncios raramente aceita experimentar o trabalho e de quem ousa fazê-lo não chega a rezar a história. Nos dias que correm, já é mau alguém ver-se grego. Imagine-se grego e sem mão-de--obra...

Situação 2: Vejo uma reportagem na televisão. Queixa-se uma empresária do ramo têxtil que não encontra quem queira operar as máquinas de costura, que por isso estão paradas. Precisa de seis operadoras e... nada. O centro de emprego local até colabora - seleccionou para entrevista 17 candidatas. Sucede que dez nem sequer se deram ao incómodo de aparecer. Das demais candidatas, uma referiu que o trabalho lhe fazia falta mas não ia deixar de gozar férias, até porque já tinha casa paga. Nunca mais apareceu. Outra também disse que precisava muito de trabalhar mas tinha de ver melhor o trajecto casa emprego porque não se podia molhar toda. No dia seguinte, o marido ligou à empresária em causa dizendo que a mulher estava com uma depressão, o que a deixava indisponível para aceitar o trabalho. Chegou a haver um pedido para que fosse dada uma oportunidade a uma jovem grávida, mas, apesar da disponibilidade da empregadora, nem essa desempregada apareceu.

Situação 3: Entrevistámos uma candidata a empregada doméstica, que em visita guiada à casa nos pergunta se a televisão da cozinha "tinha" a SIC Notícias. É que a senhora gosta de ver umas notícias à hora de almoço. Grave lacuna da nossa humilde morada... Perguntou-nos ainda se tínhamos seguro de acidentes de trabalho, porque tendo a casa um pé direito daqueles de certeza que mais dia menos dia ia cair do escadote abaixo. Andar de autocarro para ir buscar os nossos filhos à escola seria um suplício. Acabámos por concordar que talvez a minha casa e o meu modo de vida não reunissem os requisitos mínimos para que a candidata pudesse exercer satisfatoriamente as funções. Apesar de nos ter dado nota da sua situação financeira aflitiva.

Há mais histórias destas? Há. Muitas? Imensas! Mais do que seria de esperar num país como Portugal em 2011. A taxa de desemprego está ligeiramente acima dos 12%, a mais alta desde que aderimos à então denominada Comunidade Económica Europeia. Regista-se um movimento notório de fuga de muita mão-de-obra estrangeira, designadamente daquela que nas últimas décadas se prestou a ocupar milhares de postos de trabalho para os quais não havia portugueses disponíveis.

Tudo isto dá muito que pensar. Podem dizer-me que a nossa população activa está, em geral, mais qualificada e habituou-se nas décadas mais recentes a padrões de vida mais elevados. Por isso, oferece resistência à aceitação de trabalhos menos qualificados e menos bem remunerados. Admitamos que sim. Mas não será essa visão bastante redutora e assaz distorcida da realidade? Como é que se justifica que entre tantas centenas de milhares de portugueses desempregados não se encontrem num estalar de dedos meia dúzia de pessoas para operarem algumas máquinas de costura? Ou para trabalharem atrás de um balcão de uma loja? E o papel do Estado no meio de tudo isto? Como é que se admite que pessoas inscritas nos centros de emprego não compareçam a entrevistas de trabalho sem uma muitíssimo boa justificação? Quem é que paga esse descaramento?

Algo de muito errado se passa. Como se costuma dizer, há muita gente que não está a ver bem o filme. Na maior parte dos casos são aqueles que, ao invés de trabalho, procuram emprego. Assim não vamos lá...

Advogado

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O poder de Jon Stewart

DN 2011-08-22
JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Os nossos antepassados ensinavam que "não se brinca com coisas sérias". Esta sentença, crescentemente criticada nas últimas gerações, tem violação evidente na extraordinária carreira de Jon Stewart. Aos 48 anos, ele é uma das personalidades mais poderosas da poderosa indústria mediática americana. Quatro vezes por semana (de segunda a quinta), às 11 da noite (hora oriental) e durante 22 minutos, o Daily Show with Jon Stewart da Comedy Central é desde 11 de Janeiro de 1999 um dos grandes êxitos televisivos. Visto em directo no cabo por quase 1,6 milhões de pessoas, depois retransmitido em vários canais (em Portugal, na SIC Notícias) e na Internet, já ganhou 14 Emmys, entre outros prémios.
Quem é Jon Stewart? Não é um jornalista, porque o seu propósito declarado é fazer rir num programa de comédia sobre a actualidade do momento, genialmente concebido e executado. Mas ele também não é um comediante, tratando de assuntos sérios e candentes com opinião clara e contundente, marcando a visão de um número crescente de espectadores, sobretudo jovens. Só isso explica que entre os seus convidados tenham estado o Presidente americano Barack Obama (27/Out./2010), o vice-presidente Joe Biden (17/Nov./2009), o Presidente da Bolívia Evo Morales (25/Set./2007) e enorme quantidade de ex-poderosos, como Jimmy Carter, Bill Clinton, Tony Blair, Gordon Brown, Pervez Musharraf e Vicente Fox, além de parlamentares, intelectuais, individualidades e todos os candidatos à presidência americana.
Será que afinal se deve brincar com coisas sérias? Sem esquecer as sonoras gargalhadas e os momentos de séria reflexão que tem gerado em tanta gente, e sem tirar nada à sua qualidade intelectual e mediática, deve-se considerar o perigo da atitude. Quem influencia a realidade só para brincar e divertir-se acaba sendo perverso.
É preciso eliminar um mal-entendido. Podem tratar-se coisas sérias fingindo brincar. Ao longo dos séculos, a sátira foi uma saudável influência na política, com Aristófanes, Diógenes, Horácio, Juvenal, Molière, Swift, Voltaire ou George Orwell; os bobos da corte eram decisivos na denúncia do mal através do riso. Mas não se pode confundir isto com o Daily Show, porque o propósito é precisamente o oposto. Os filósofos satíricos queriam fazer política através da comédia; Jon Stewart faz comédia com a política. Repetidamente, o autor tem referido que pretende apenas uma boa gargalhada e negado qualquer influência na opinião pública. Ele dirá aquilo que tiver mais graça, independentemente do resultado. Como por cá com os Homens da Luta ou o Gato Fedorento, não existe propósito social por detrás. É mesmo só rir.
O problema é relevante, porque na sociedade mediática a maior parte da informação que recebemos trata de assuntos que não nos afectam, directa ou indirectamente. Dizemos querer estar informados, não por necessidade mas por divertimento. As atribulações de Passos Coelho ou Obama são tão excitantes quanto o casamento de príncipes ou as tropelias da estrela do momento. Aliás, sendo histórias baseadas em factos reais, ganham picante adicional de interesse. A razão da nossa procura de informação é lúdica.
Assistimos hoje a uma crescente interpenetração de ficção e realismo. Enquanto o cinema torna vívidos mundos fantásticos, do Harry Potter a Avatar, as notícias têm de ser mais apaixonantes que rigorosas. Isso, que é há muito visível nos tablóides, sente-se cada vez mais nos telejornais; mas também na divulgação pseudocientífica de canais como National Geographic e sobretudo nos reality shows, onde a própria ficção finge ser verdadeira.
Jon Stewart não representa, assim, um exemplo insólito e aberrante. Ele constitui apenas um extremo no vasto espectro de alternativas mediáticas. Só que essas modalidades muitas vezes misturam-se e o Daily Show passa por imprensa séria.
O riso pode ter um enorme poder destrutivo, como sabe bem quem seja atingido pela galhofa. Uma piada mal dirigida estraga mais do que um murro. Por isso é tão perigoso brincar com coisas sérias.

domingo, 21 de agosto de 2011

As melhores imagens da Jornada Mundial da Juventude Madrid 2011


O que é o Meeting?


Papa Bento XVI agradece aos voluntários


Meeting de Rimini - Começa hoje

Homilia do Papa Bento XVI na Santa Missa para a XXVI Jornada Mundial da Juventude

SANTA MISSA PARA A XXVI JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE
HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Base Aérea de Quatro Ventos, Madrid
Domingo, 21 de Agosto de 2011
Queridos jovens,
Com a celebração da Eucaristia, chegamos ao momento culminante desta Jornada Mundial da Juventude. Ao ver-vos aqui, vindos em grande número de todas as partes, o meu coração enche-se de alegria, pensando no afecto especial com que Jesus vos olha. Sim, o Senhor vos quer bem e vos chama seus amigos (cf. Jo 15, 15). Ele vem ter convosco e deseja acompanhar-vos no vosso caminho, para vos abrir as portas duma vida plena e tornar-vos participantes da sua relação íntima com o Pai. Pela nossa parte, conscientes da grandeza do seu amor, desejamos corresponder, com toda a generosidade, a esta manifestação de predilecção com o propósito de partilhar também com os demais a alegria que recebemos. Na actualidade, são certamente muitos os que se sentem atraídos pela figura de Cristo e desejam conhecê-Lo melhor. Pressentem que Ele é a resposta a muitas das suas inquietações pessoais. Mas quem é Ele realmente? Como é possível que alguém que viveu na terra há tantos anos tenha algo a ver comigo hoje?
No evangelho que ouvimos (cf. Mt 16, 13-20), vemos representadas, de certo modo, duas formas diferentes de conhecer Cristo. O primeiro consistiria num conhecimento externo, caracterizado pela opinião corrente. À pergunta de Jesus: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?», os discípulos respondem: «Uns dizem que é João Baptista; outros, que é Elias; e outros, que é Jeremias ou algum dos profetas». Isto é, considera-se Cristo como mais um personagem religioso junto aos que já são conhecidos. Depois, dirigindo-se pessoalmente aos discípulos, Jesus pergunta-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro responde formulando a primeira confissão de fé: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». A fé vai mais longe que os simples dados empíricos ou históricos, e é capaz de apreender o mistério da pessoa de Cristo na sua profundidade.
A fé, porém, não é fruto do esforço do homem, da sua razão, mas é um dom de Deus: «És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu». Tem a sua origem na iniciativa de Deus, que nos desvenda a sua intimidade e nos convida a participar da sua própria vida divina. A fé não se limita a proporcionar alguma informação sobre a identidade de Cristo, mas supõe uma relação pessoal com Ele, a adesão de toda a pessoa, com a sua inteligência, vontade e sentimentos, à manifestação que Deus faz de Si mesmo. Deste modo, a pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?», no fundo está impelindo os discípulos a tomarem uma decisão pessoal em relação a Ele. Fé e seguimento de Cristo estão intimamente relacionados.
E, dado que supõe seguir o Mestre, a fé tem que se consolidar e crescer, tornar-se mais profunda e madura, à medida que se intensifica e fortalece a relação com Jesus, a intimidade com Ele. Também Pedro e os outros apóstolos tiveram que avançar por este caminho, até que o encontro com o Senhor ressuscitado lhes abriu os olhos para uma fé plena.
Queridos jovens, Cristo hoje também se dirige a vós com a mesma pergunta que fez aos apóstolos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Respondei-Lhe com generosidade e coragem, como corresponde a um coração jovem como o vosso. Dizei-Lhe: Jesus, eu sei que Tu és o Filho de Deus que deste a tua vida por mim. Quero seguir-Te fielmente e deixar-me guiar pela tua palavra. Tu conheces-me e amas-me. Eu confio em Ti e coloco nas tuas mãos a minha vida inteira. Quero que sejas a força que me sustente, a alegria que nuca me abandone.
Na sua reposta à confissão de Pedro, Jesus fala da sua Igreja: «Também Eu te digo: Tu é Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja». Que significa isto? Jesus constrói a Igreja sobre a rocha da fé de Pedro, que confessa a divindade de Cristo.
Sim, a Igreja não é uma simples instituição humana, como outra qualquer, mas está intimamente unida a Deus. O próprio Cristo Se refere a ela como a «sua» Igreja. Não se pode separar Cristo da Igreja, tal como não se pode separar a cabeça do corpo (cf. 1 Cor 12, 12). A Igreja não vive de si mesma, mas do Senhor. Ele está presente no meio dela e dá-lhe vida, alimento e fortaleza.
Queridos jovens, permiti que, como Sucessor de Pedro, vos convide a fortalecer esta fé que nos tem sido transmitida desde os apóstolos, a colocar Cristo, Filho de Deus, no centro da vossa vida. Mas permiti também que vos recorde que seguir Jesus na fé é caminhar com Ele na comunhão da Igreja. Não se pode, sozinho, seguir Jesus. Quem cede à tentação de seguir «por conta sua» ou de viver a fé segundo a mentalidade individualista, que predomina na sociedade, corre o risco de nunca encontrar Jesus Cristo, ou de acabar seguindo uma imagem falsa d’Ele.
Ter fé é apoiar-se na fé dos teus irmãos, e fazer com que a tua fé sirva também de apoio para a fé de outros. Peço-vos, queridos amigos, que ameis a Igreja, que vos gerou na fé, que vos ajudou a conhecer melhor Cristo, que vos fez descobrir a beleza do Seu amor. Para o crescimento da vossa amizade com Cristo é fundamental reconhecer a importância da vossa feliz inserção nas paróquias, comunidades e movimentos, bem como a participação na Eucaristia de cada domingo, a recepção frequente do sacramento do perdão e o cultivo da oração e a meditação da Palavra de Deus.
E, desta amizade com Jesus, nascerá também o impulso que leva a dar testemunho da fé nos mais diversos ambientes, incluindo nos lugares onde prevalece a rejeição ou a indiferença. É impossível encontrar Cristo, e não O dar a conhecer aos outros. Por isso, não guardeis Cristo para vós mesmos. Comunicai aos outros a alegria da vossa fé. O mundo necessita do testemunho da vossa fé; necessita, sem dúvida, de Deus. Penso que a vossa presença aqui, jovens vindos dos cinco continentes, é uma prova maravilhosa da fecundidade do mandato de Cristo à Igreja: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16, 15). Incumbe sobre vós também a tarefa extraordinária de ser discípulos e missionários de Cristo noutras terras e países onde há multidões de jovens que aspiram a coisas maiores e, vislumbrando em seus corações a possibilidade de valores mais autênticos, não se deixam seduzir pelas falsas promessas dum estilo de vida sem Deus.
Queridos jovens, rezo por vós com todo o afecto do meu coração. Encomendo-vos à Virgem Maria, para que Ela sempre vos acompanhe com a sua intercessão materna e vos ensine e fidelidade à Palavra de Deus. Peço-vos também que rezeis pelo Papa, para que, como Sucessor de Pedro, possa continuar confirmando na fé os seus irmãos. Que todos na Igreja, pastores e fiéis, nos aproximemos de dia para dia sempre mais do Senhor, para crescermos em santidade de vida e darmos assim um testemunho eficaz de que Jesus Cristo é verdadeiramente o Filho de Deus, o Salvador de todos os homens e a fonte viva da sua esperança. Amen.
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sábado, 20 de agosto de 2011

Vigília de oração com os jovens - Homilia do Papa Bento XVI

VIGÍLIA DE ORAÇÃO COM OS JOVENS
HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Aeroporto Cuatro Vientos de Madrid
Sábado, 20 de Agosto de 2011
Queridos amigos!
Saúdo-vos a todos, e de modo particular aos jovens que me formularam as perguntas, agradecendo-lhes a sinceridade com que expuseram as suas inquietações, que exprimem de certo modo o anseio de todos vós por alcançar algo de grande na vida, algo que vos dê plenitude e felicidade.
Mas, como pode um jovem ser fiel à fé cristã e continuar a aspirar a grandes ideais na sociedade actual? No evangelho que escutámos, Jesus dá-nos uma resposta a esta importante questão: «Assim como o Pai Me tem amor, assim Eu vos amo a vós. Permanecei no meu amor» (Jo 15, 9).
Sim, queridos amigos, Deus ama-nos. Esta é a grande verdade da nossa vida e que dá sentido a tudo o mais. Não somos fruto do acaso nem da irracionalidade, mas, na origem da nossa existência, há um projecto de amor de Deus. Assim permanecer no seu amor significa viver radicados na fé, porque esta não é a simples aceitação dumas verdades abstractas, mas uma relação íntima com Cristo que nos leva a abrir o nosso coração a este mistério de amor e a viver como pessoas que se sabem amadas por Deus.
Se permanecerdes no amor de Cristo, radicados na fé, encontrareis, mesmo no meio de contrariedades e sofrimentos, a fonte do júbilo e a alegria. A fé não se opõe aos vossos ideais mais altos; pelo contrário, exalta-os e aperfeiçoa-os. Queridos jovens, não vos conformeis com nada menos do que a Verdade e o Amor, não vos conformeis com nada menos do que Cristo.
Precisamente agora, quando a cultura relativista dominante renuncia e menospreza a busca da verdade, que é a aspiração mais alta do espírito humano, devemos propor, com coragem e humildade, o valor universal de Cristo como Salvador de todos os homens e fonte de esperança para a nossa vida. Ele, que tomou sobre si as nossas aflições, conhece bem o mistério do sofrimento humano e mostra a sua presença amorosa em todos aqueles que sofrem. Estes, por sua vez, unidos à paixão de Cristo, participam intimamente da Sua obra de redenção. Além disso, a nossa atenção desinteressada pelos doentes e aos desamparados, sempre será um testemunho humilde e silencioso do rosto compassivo de Deus.
Queridos amigos, que nenhuma dificuldade vos paralise: Não tenhais medo do mundo, nem do futuro, nem da vossa fraqueza. O Senhor concedeu-vos viver neste momento da história, repleto de grandes possibilidades e oportunidades, para que, graças à vossa fé, continue a ressoar o nome de Cristo em toda a terra.
Nesta vigília de oração, convido-vos a pedir a Deus que vos ajude a descobrir a vossa vocação na sociedade e na Igreja e a perseverar nela com alegria e fidelidade. Vale acolher dentro de nós o chamado de Cristo e seguir com coragem e generosidade o caminho que Ele nos proponha.
A muitos, o Senhor chama ao matrimónio, no qual um homem e uma mulher, formando uma só carne (cf. Gn 3, 24), se realizam numa profunda vida de comunhão. É um horizonte de vida ao mesmo tempo luminoso e exigente; um projecto de amor verdadeiro, que se renova e consolida cada dia, partilhando alegrias e dificuldades, e que se caracteriza por uma entrega da totalidade da pessoa. Por isso, reconhecer a beleza e bondade do matrimónio significa estar conscientes de que o âmbito adequado à grandeza e dignidade do amor matrimonial só pode ser um âmbito de fidelidade e indissolubilidade e também de abertura ao dom divino da vida.
A outros, diversamente, Cristo chama-os a segui-Lo mais de perto no sacerdócio ou na vida consagrada. Como é belo saber que Jesus vem à tua procura, fixa o seu olhar em ti e, com a sua voz inconfundível, diz também a ti: «Segue-Me» (cf. Mc 2, 14).
Queridos jovens, para descobrir e seguir fielmente a forma de vida a que o Senhor chama cada um de vós, é indispensável permanecer no seu amor como amigos. E, como se mantém a amizade se não com o trato frequente, o diálogo, o estar juntos e o partilhar anseios ou penas? Dizia Santa Teresa de Ávila que a oração não é outra coisa senão «tratar de amizade – estando muitas vezes tratando a sós – com Quem sabemos que nos ama» (Livro da Vida, 8).
Convido-vos, pois, a ficardes agora em adoração a Cristo, realmente presente na Eucaristia; a dialogar com Ele, a expor na sua presença as vossas questões e a escutá-Lo. Queridos amigos, rezo por vos com toda a minha alma; suplico-vos que rezeis também por mim. Peçamos-Lhe, ao Senhor, nesta noite que, atraídos pela beleza do seu amor, vivamos sempre fielmente como seus discípulos. Amen.
Saudação em francês
Queridos jovens francófonos, sede orgulhosos por ter recebido o dom da fé. Será ela a iluminar o vosso caminho em cada instante. Apoiai-vos igualmente sobre a fé dos vossos familiares, sobre a fé da Igreja! Pela fé, estamos fundados em Cristo; encontrai-vos com outros para a aprofundar, participai na Eucaristia, mistério por excelência da fé. Só Cristo pode dar resposta às aspirações que trazeis dentro de vós. Deixai-vos agarrar por Deus, para que a vossa presença na Igreja lhe dê um novo vigor!
Saudação em inglês
Queridos jovens, nestes momentos de silêncio diante do Santíssimo Sacramento, elevemos as nossas mentes e os nossos corações até Jesus Cristo, o Senhor das nossas vidas e do futuro. Que ele derrame sobre nós o Seu Espírito e sobre toda a Igreja para que sejamos um sinal luminoso de liberdade, reconciliação e paz para o mundo inteiro.
Saudação em alemão
Queridos jovens cristãos de língua alemã, no profundo do nosso coração desejamos aquilo que é grande e belo na vida! Não deixeis que os vossos desejos e anelos caiam no esquecimento, mas tornai-os firmes em Jesus Cristo. Ele mesmo é o fundamento que sustenta e o ponto de referência seguro para uma vida plena.
Saudação em italiano
Dirijo-me agora aos jovens de língua italiana. Queridos amigos, esta Vigília ficará como uma experiência inesquecível da vossa vida. Guardai a chama que Deus acendeu em vossos corações nesta noite: fazei com que não se apague, alimentai-a cada dia, partilhai-a com os vossos coetâneos que vivem na escuridão e procuram uma luz para o seu caminho. Obrigado! Até amanhã de manhã!
Saudação em português
Meus queridos amigos, convido cada um e cada uma de vós a estabelecer um diálogo pessoal com Cristo, expondo-Lhe as próprias dúvidas e sobretudo escutando-O. O Senhor está aqui e chama-te! Jovens amigos, vale a pena ouvir dentro de nós a Palavra de Jesus e caminhar seguindo os seus passos. Pedi ao Senhor que vos ajude a descobrir a vossa vocação na vida e na Igreja, e a perseverar nela com alegria e fidelidade, sabendo que Ele nunca vos abandona nem atraiçoa! Ele está connosco até ao fim do mundo
Saudação em polaco
Queridos jovens amigos vindos da Polónia! Esta nossa vigília de oração está permeada pela presença de Cristo. Seguros do seu amor e com a chama da vossa fé, aproximai-vos d’Ele. Encher-vos-á da sua vida. Edificai a vossa vida sobre Cristo e o seu evangelho. De coração, vos abençoo.
* * *
Queridos jovens!
Antes de ir embora, quero desejar-vos a todos uma boa noite. Que possais descansar bem. Obrigado pelo sacrifício que estais fazendo e, não duvido, que estais oferecendo generosamente ao Senhor. Vemo-nos amanhã, se Deus quiser, na celebração eucarística. Espero-vos a todos vós. Muito Obrigado!

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"A vossa força é maior que a chuva"



Adoração do Santíssimo em Quatro Vientos

Santíssimo exposto na custódia de Arfe da Catedral de Toledo

Tempestade em Quatro Vientos III

O Papa enfrentou uma tempestade em Madrid. A banda sonora podia ser o Allegro con Fuoco da Sinfonia de Dvorak que Dudamel ofereceu ao Papa como prenda de anos em 2007:

Tempestade em Quatro Vientos II

A chuva interrompe o discuros do Papa


Tempestade em Quatro Vientos I

Preparando a chegada do Papa a Quatro Vientos



Santa Missa com os seminaristas na Catedral de Santa Maria la Real de la Almudena de Madrid

SANTA MISSA COM OS SEMINARISTAS
HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Catedral de Santa Maria la Real de la Almudena di Madrid
Sábado, 20 de Agosto de 2011
Senhor Cardeal Arcebispo de Madrid,
Queridos Irmãos no Episcopado,
Queridos sacerdotes e religiosos,
Queridos reitores e formadores,
Queridos seminaristas,
Meus amigos!
Sinto uma profunda alegria ao celebrar a Santa Missa para todos vós, que aspirais a ser sacerdotes de Cristo para o serviço da Igreja e dos homens, e agradeço as amáveis palavras de saudação com que me acolhestes. Hoje esta Catedral de Santa Maria a Real da Almudena lembra um imenso cenáculo onde o Senhor desejou ardentemente celebrar a Sua Pascoa com todos vós que um dia desejais presidir em seu nome os mistérios da salvação. Vendo-vos, comprovo de novo como Cristo continua chamando jovens discípulos para fazer deles seus apóstolos, permanecendo assim viva a missão da Igreja e a oferta do evangelho ao mundo. Como seminaristas, estais a caminho para uma meta santa: ser continuadores da missão que Cristo recebeu do Pai. Chamados por Ele, seguistes a sua voz; e, atraídos pelo seu olhar amoroso, avançais para o ministério sagrado. Ponde os vossos olhos n’Ele, que, pela sua encarnação, é o revelador supremo de Deus ao mundo e, pela sua ressurreição, é a fiel realização da sua promessa. Dai-Lhe graças por este sinal de predilecção que reserva para cada um de vós.
A primeira leitura que escutámos mostra-nos Cristo como o novo e definitivo sacerdote, que fez uma oferta total da sua existência. A antífona do salmo aplica-se perfeitamente a Ele, quando, ao entrar no mundo, Se dirigiu a seu Pai dizendo: «Eis-me aqui para fazer a tua vontade» (cf. Sal 39, 8-9). Procurava agradar-Lhe em tudo: ao falar e ao agir, percorrendo os caminhos ou acolhendo os pecadores. A sua vida foi um serviço, e a sua dedicação abnegada uma intercessão perene, colocando-Se em nome de todos diante do Pai com Primogénito de muitos irmãos. O autor da Carta aos Hebreus afirma que, através desta entrega, nos tornou perfeitos para sempre, a nós que estávamos chamados a participar da sua filiação (cf. Heb 10, 14).
A Eucaristia, de cuja instituição nos fala o evangelho proclamado (cf. Lc 22, 14-20), é a expressão real dessa entrega incondicional de Jesus por todos, incluindo aqueles que O entregavam: entrega do seu corpo e sangue para a vida dos homens e para a remissão dos pecados. O sangue, sinal da vida, foi-nos dado por Deus como aliança, a fim de podermos inserir a força da sua vida onde reina a morte por causa do nosso pecado, e assim destruí-lo. O corpo rasgado e o sangue derramado de Cristo, isto é, a sua liberdade sacrificada, converteram-se, através dos sinais eucarísticos, na nova fonte da liberdade redimida dos homens. N’Ele temos a promessa duma redenção definitiva e a esperança segura dos bens futuros. Por Cristo, sabemos que não estamos caminhando para o abismo, para o silêncio do nada ou da morte, mas seguindo para a terra prometida, para Ele que é nossa meta e também nosso princípio.
Queridos amigos, vos preparais para ser apóstolos com Cristo e como Cristo, para ser companheiros de viagem e servidores dos homens.
Como haveis de viver estes anos de preparação? Em primeiro lugar, devem ser anos de silêncio interior, de oração permanente, de estudo constante e de progressiva inserção nas actividades e estruturas pastorais da Igreja. Igreja, que é comunidade e instituição, família e missão, criação de Cristo pelo seu Espírito Santo e simultaneamente resultado de quanto a configuramos com a nossa santidade e com os nossos pecados. Assim o quis Deus, que não se incomoda de tomar pobres e pecadores para fazer deles seus amigos e instrumentos para redenção do género humano. A santidade da Igreja é, antes de mais nada, a santidade objectiva da própria pessoa de Cristo, do seu evangelho e dos seus sacramentos, a santidade daquela força do alto que a anima e impele. Nós devemos ser santos para não gerar uma contradição entre o sinal que somos e a realidade que queremos significar.
Meditai bem este mistério da Igreja, vivendo os anos da vossa formação com profunda alegria, em atitude de docilidade, de lucidez e de radical fidelidade evangélica, bem como numa amorosa relação com o tempo e as pessoas no meio de quem viveis. É que ninguém escolhe o contexto nem os destinatários da sua missão. Cada época tem os seus problemas, mas Deus dá em cada tempo a graça oportuna para os assumir e superar com amor e realismo. Por isso, em toda e qualquer circunstância em que se encontre e por mais dura que esta seja, o sacerdote tem de frutificar em toda a espécie de boas obras, conservando sempre vivas no seu íntimo aquelas palavras do dia da sua Ordenação com que se lhe exortava a configurar a sua vida com o mistério da cruz do Senhor.
Configurar-se com Cristo comporta, queridos seminaristas, identificar-se sempre mais com Aquele que por nós Se fez servo, sacerdote e vítima. Na realidade, configurar-se com Ele é a tarefa em que o sacerdote há-de gastar toda a sua vida. Já sabemos que nos ultrapassa e não a conseguiremos cumprir plenamente, mas, como diz São Paulo, corremos para a meta esperando alcançá-la (cf. Flp 3, 12-14).
Mas Cristo, Sumo Sacerdote, é igualmente o Bom Pastor, que cuida das suas ovelhas até ao ponto de dar a vida por elas (cf. Jo 10, 11). Para imitar nisto também o Senhor, o vosso corações tem de ir amadurecendo no Seminário, colocando-se totalmente à disposição do Mestre. Dom do Espírito Santo, esta disponibilidade é que inspira a decisão de viver o celibato pelo Reino dos céus, o desprendimento dos bens da terra, a austeridade de vida e a obediência sincera e sem dissimulação.
Pedi-Lhe, pois, que vos conceda imitá-Lo na sua caridade até ao fim para com todos, sem excluir os afastados e pecadores, de tal forma que, com a vossa ajuda, se convertam e voltem ao bom caminho. Pedi-Lhe que vos ensine a aproximar-vos dos enfermos e dos pobres, com simplicidade e generosidade. Afrontai este desafio sem complexos nem mediocridade, mas antes como uma forma estupenda de realizar a vida humana na gratuidade e no serviço, sendo testemunhas de Deus feito homem, mensageiros da dignidade altíssima da pessoa humana e, consequentemente, seus defensores incondicionais. Apoiados no seu amor, não vos deixeis amedrontar por um ambiente onde se pretende excluir Deus e no qual os principais critérios por que se rege a existência são, frequentemente, o poder, o ter ou o prazer. Pode acontecer que vos desprezem, como se costuma fazer com quem aponta metas mais altas ou desmascara os ídolos diante dos quais muito se prostram hoje. Será então que uma vida profundamente radicada em Cristo se revele realmente como uma novidade, atraindo com vigor a quantos verdadeiramente procuram Deus, a verdade e a justiça.
Animados pelos vossos formadores, abri a vossa alma à luz do Senhor para ver se este caminho, que requer coragem e autenticidade, é o vosso, avançando para o sacerdócio só se estiverdes firmemente persuadidos de que Deus vos chama para ser seus ministros e plenamente decididos a exercê-lo obedecendo às disposições da Igreja.
Com esta confiança, aprendei d’Aquele que Se definiu a Si mesmo como manso e humilde de coração, despojando-vos para isso de todo o desejo mundano, de modo que não busqueis o vosso próprio interesse, mas edifiqueis, com a vossa conduta, aos vossos irmãos, como fez o santo padroeiro do clero secular espanhol São João de Ávila. Animados pelo seu exemplo, olhai sobretudo para a Virgem Maria, Mãe dos sacerdotes. Ela saberá forjar a vossa alma segundo o modelo de Cristo, seu divino Filho, e vos ensinará incessantemente a guardar os bens que Ele adquiriu no Calvário para a salvação do mundo. Amen.


Anúncio da próxima declaração de São João de Ávila,
presbítero, Padroeiro do Clero secular espanhol, como Doutor da Igreja Universal
 Queridos amigos:
Com grande alegria, no marco da santa igreja Catedral de Santa Maria a Real da Almudena, quero anunciar agora ao povo de Deus que, acolhendo os pedidos do Senhor Presidente da Conferência Episcopal Espanhola, o Eminentíssimo Cardeal António Maria Rouco Varela, Arcebispo de Madrid, dos outros Irmãos no Episcopado da Espanha, bem como de um grande número de Arcebispos e Bispos de outras partes do mundo, e de muitos fiéis, declararei, proximamente, São João de Ávila, presbítero, Doutor da Igreja Universal.
Ao fazer pública aqui esta notícia, desejo que a palavra e o exemplo deste exímio pastor possa iluminar os sacerdotes e aqueles que se preparam, com alegria e esperança, para receber um dia a Sagrada Ordenação.
Convido todos a dirigirem o olhar para ele, e confio à sua intercessão os Bispos da Espanha e de todo o mundo, bem como os presbíteros e seminaristas para que, perseverando na mesma fé que ele ensinou, possam modelar seu coração conforme os sentimentos de Jesus Cristo, o Bom Pastor, a quem seja dada toda glória e honra por todos os séculos dos séculos. Amém.
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20 de Agosto - S. Bernardo de Claraval

Catedral de Santa Maria La Real de Almudena

Paseo de Chile (Parque del Retiro)

Procissão solene desfila pelas ruas de Madrid


RR on-line 20-08-2011 01:01



Em contraste com os protestos contra a visita do Papa e confrontos com a polícia dos últimos dias, a praça da Porta do Sol encheu-se esta noite de católicos vindos de todo o mundo.

Uma procissão solene percorreu esta noite as ruas de Madrid, incluído a emblemática praça da Porta do Sol, uma iniciativa no âmbito da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).
Já depois do final da Via Sacra desta sexta-feira, presidida pelo Papa Bento XVI, organizou-se uma procissão com os andores a serem acompanhados por bandas de música como na Semana Santa.
Em contraste com os protestos contra a visita do Papa e confrontos com a polícia dos últimos dias, a praça da Porta do Sol encheu-se esta noite de peregrinos e fiéis católicos.
Uma oportunidade única, à margem da Jornada Mundial da Juventude, para milhares de jovens conhecerem a riqueza da Semana Santa espanhola, com esta procissão de Semana Santa verdadeiramente estival.
Na Via Sacra desta sexta-feira, um dos pontos altos da JMJ, o Papa apelou aos jovens a estar junto dos mais desfavorecidos. Bento XVI exortou os jovens católicos a não virar costas ao sofrimento humano.

Procissão na noite de Madrid