domingo, 31 de julho de 2011

Porto - Ribeira

Férias: o tempo da liberdade

Caros amigos:
O Povo vai de férias como habitualmente durante o mês de Agosto.
Porque o tempo de férias é o tempo que está por nossa conta, façamos deste tempo um tempo verdadeiro
Deixo-vos, por isso, o utilíssimo texto de don Luigi Giussani sobre as férias. Tempo da liberdade Luigi Giussani
Um abraço e santas férias
Pedro Aguiar Pinto

sábado, 30 de julho de 2011

Foz do Douro

O lugar da fruta

Público 20110730  Miguel Esteves Cardoso

Quando eu era um catraio e não sabia ou suspeitava que o mundo inteiro estava à minha frente - ou ao meu lado, ou atrás de mim -, havia mercearias e havia praças (a que agora chamam mercados), mas, sobretudo, acima de tudo, ali perto de onde vivêssemos, havia lugares de fruta. Eram mais essenciais do que as padarias ou os talhos. Nos lugares de fruta compravam-se frutas, hortaliças, queijos e fiambres. Matavam-se coelhos. Lembro-me de ir ao lugar de frutas em São Pedro do Estoril mais perto da minha casa, a menos de cem metros, para comprar um coelho.
O homem do lugar de frutas ouviu-me e saiu de cena para dar uma pancada de morte, que ouvi. Voltou com um coelho despelado, ainda morno no saco de plástico. Senti-me um assassino encomendado. Desde então, só como coelho com a maior das culpas e a cada vez mais amarga memória daquele dia: quanto mais disfarçado e culturalmente justificado, melhor. Isto é, só como à caçador: a coisa, hipocritamente, que menos sou.
Faltam-nos nomes. Como se chama o lugar onde compramos os jornais e as revistas? É um quiosque? É uma tabacaria? É uma papelaria? É um ardina? Não é nada dessas coisas. O lugar de frutas diz tudo, recusando-se a dar-lhe um nome. Não é nem uma frutaria nem uma hortaliceira. É um nome agradavelmente errado - mas suficiente próximo. Sugiro, consciente que é horrível, "lugar de impressos". Dá para jornais, revistas, livros e panfletos. O segredo - o centro essencial - é lugar.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Católico e maçon? Uma contradição nos próprios termos

Catolicoemacon

Tecto

27 | 07 | 2011   20.07H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Os Estados Unidos estão à beira da falência. Esta é a informação sensacionalista e falsa que é apregoada. Há mesmo quem compare a situação americana com a grega ou portuguesa.Um país está falido quando ninguém lhe empresta.
Grécia, Portugal e Irlanda estão reduzidos à ajuda de amigos, o que é mau, mas não falência. Conseguirão evitá-la se endireitarem as finanças antes de acabar a benevolência dos parceiros.Os Estados Unidos têm a maior dívida pública do mundo. Mas, relativamente à dimensão da economia, é menor que a nossa.
Além disso o governo americano não tem dificuldades em contrair empréstimos. O seu problema não é financeiro. É político.Os EUA impuseram uma regra plurianual para as finanças públicas, algo que alguns também querem criar por cá. Trata-se de um tecto na dívida, um montante máximo de endividamento que não podem ultrapassar. Na prática este limite tem pouco impacto, pois já foi subido 16 vezes desde 1993 (The Economist, 23/Jul).Se não reduz a dívida, qual é então a principal consequência da medida?
Sobretudo criar oportunidades para debates, exigências e confusão parlamentar cada vez que os valores se aproximam do limite. É o que acontece agora. O Tesouro bateu no tecto a 16 de Maio e prevê ficar sem fundos a 2 de Agosto. Com o Congresso nas mãos da oposição republicana, o impasse era fácil num diálogo de surdos.Se não houver acordo isso implicará cortes em alguns pagamentos o que, sendo sério, está longe de ser catastrófico. Mas constitui mais um percalço para a frágil economia mundial.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Um tempo de suspeita

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2011-07-25
A base da sociedade actual é a desconfiança. Os cidadãos não acreditam uns nos outros. Todos dizem haver uma crise de valores e coleccionam-se histórias de fraudes, abusos e ameaças. Vivemos um tempo de suspeita.
Atribuímos isso à sociedade aberta, heterogénea, para mais em crise, mas a explicação não colhe. Primeiro, porque crises sempre houve. Além disso, as tradições permanecem, a religião é tão influente como sempre foi e as pessoas não são mais ou menos egoístas que antes. O problema não está nos valores, mas nos critérios.
A dúvida colectiva nasce não de pessoas concretas, mas da atitude de fundo. Cada um acha-se honesto, e aqueles que conhece são pessoas de bem. Apesar disso, garante que ninguém respeita os valores. Suspeitamos não dos próximos, mas dos outros em geral.
A origem da atitude está no preconceito, que tem a vantagem de nos evitar de pensar. Durante séculos, sempre se soube que em todos os grupos e condições havia pessoas boas e más. Era preciso julgar com cuidado. Mas nós fomos educados na convicção pseudocientífica da "luta de classes", forma operacional de xenofobia. Este tempo da técnica acredita que mecanismos e estruturas se sobrepõem a pessoas e comportamentos, fazendo tudo mau.
Repudiamos não a mentira de alguns políticos, mas a classe política mentirosa. O problema está menos nos banqueiros desonestos do que no sistema bancário que elimina a honestidade. Não criticamos os erros das agências de rating, mas a sua existência, mesmo sem saber bem o que fazem; os juízos são automáticos.
Esta atitude justifica os preconceitos mais boçais. Todos sabem que os maridos enganam as mulheres, os comerciantes empolam os preços, os professores tomam alunos de ponta. Antes de sabermos os pormenores de qualquer história dessas, já pronunciámos o veredicto. Só notamos a terrível injustiça quando somos vítimas do raciocínio.
Aliás, já vamos na segunda geração de preconceitos. Acreditamos no mito de que os antigos achavam as mulheres inferiores. Nós, sendo igualitários, discriminamos não as mulheres, mas os homens acusados automaticamente de discriminação que não cometeram. E ninguém se dá ao trabalho de considerar a realidade, onde há mulheres inferiores e homens machistas, mas poucos.
No meio da suspeita e do preconceito, o elemento que desaparece é a honra. Ninguém confia na honestidade alheia e espera-se sempre o pior. Todos se consideram pessoalmente honrados numa sociedade de bandidos. Para a dominar, a solução técnica tinha de ser um mecanismo: a regulação.
Na falta da honorabilidade, brama-se pela lei. Trocamos o juízo moral pela ponderação da legalidade. Normas e estatutos, fracos substitutos da suspeita virtude alheia, penetram nos campos mais íntimos e insólitos. A consequência é a inflação desenfreada de leis e regulamentos, que estrangula a vida social e atinge paroxismos de ridículo.
A lei não pode funcionar sem honra porque, em si, é romba e míope. Só vê branco e preto. Não pode fechar os olhos, dar o desconto, ter benevolência. Ou se comete o crime ou não se comete, tendo como única gradação a severidade da pena. Até castiga quando quer ajudar, ao multar a falta de cinto de segurança.
Assim o totalitarismo do mundo quadriculado do direito aumenta ainda mais a suspeita social. Surge então um dos debates mais estúpidos da história, entre neoliberais e intervencionistas, que se acusam mutuamente de todos os males sociais, num suposto confronto entre Estado e mercado, como se qualquer deles sobrevivesse sem o outro.
Uma sociedade civilizada é o equilíbrio entre honra, lei e liberdade. Na falta de uma, as outras não funcionam. O tempo da suspeita esqueceu a primeira e tenta viver com as outras duas em confronto, onde o propósito da lei não é defender a liberdade, mas restringi-la; a finalidade da liberdade não é respeitar a lei, mas desafiá-la. Esta é a verdadeira crise actual, manifestada nos múltiplos problemas da Justiça, Educação, Saúde, etc.. O nosso real problema não é político, financeiro ou económico. É a desconfiança.

domingo, 24 de julho de 2011

Pensamento do dia

Súplica de Salomão
“Senhor, meu Deus, Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David e eu sou muito novo e não sei como proceder.
Este vosso servo está no meio do povo escolhido, um povo imenso, inumerável, que não se pode contar nem calcular.
Dai, portanto, ao vosso servo um coração inteligente, para saber distinguir o bem do mal; pois, quem poderia governar este vosso povo tão numeroso?”
1 Rs 3, 6

sábado, 23 de julho de 2011

23 de Julho, Santa Brígida da Suécia co-padroeira da Europa

Hoje, dia de Santa Brígida da Suécia, co-padroeira da Europa é importante ter presentes as palavras do Beato João Paulo II sobre a Europa:

Para edificar a nova Europa sobre bases sólidas, não é decerto suficiente apelar apenas aos interesses económicos, que se em certas ocasiões unem, noutras, em contrapartida, dividem; antes, é necessário incidir sobre os valores autênticos, que têm o seu fundamento na lei moral universal, inscrita no coração de cada homem. Uma Europa que confundisse o valor da tolerância e do respeito universal com o indiferentismo ético e o cepticismo acerca dos valores irrenunciáveis abrir-se-ia às mais arriscadas aventuras e, mais cedo ou mais tarde, veria reaparecer sob novas formas os espectros mais tremendos da sua história.
Para evitar esta ameaça, torna-se mais uma vez vital o papel do cristianismo, que está a indicar de forma infatigável o horizonte ideal. À luz dos inúmeros pontos de encontro com as outras religiões, que o Concílio Vaticano II prospectou (cf. Decreto «Nostra aetate»), é necessário ressaltar com vigor que a abertura ao Transcendente é uma dimensão vital para a existência. É essencial, portanto, um renovado compromisso de testemunho por parte de todos os cristãos, presentes nas várias nações do continente. A eles cabe alimentar a esperança da plena salvação com o anúncio do Evangelho que lhes compete isto é, da «Boa Nova» com a qual Deus Se encontrou connosco, e em Seu Filho Jesus Cristo nos ofereceu a redenção e a plenitude da vida divina. Graças ao Espírito que nos foi dado, podemos elevar a Deus o nosso olhar e invocá-lo com o doce nome de "Abba", Pai (cf. Rm 8, 15; Gl 4, 6).

Beato João Paulo II
Carta Apostólica «Spes aedificandi» §§ 10-11, 01/10/1999

23 de Julho - Santa Brigida da Suécia

Santa Brígida da Suécia
Imagem num altar da
Igreja de Salem, Södermanland, Suécia 
___________________________________
Santa Brígida da Suécia

Nasceu em Finstad, perto de Upsala, na Suécia, em 1303, e morreu em Roma, em 1373. Foi contemporânea de Santa Catarina de Sena.
Aos 13 anos, em 1316, casou-se com o príncipe de Nreícia, Wulfom. Foram pais de oito filhos, entre eles uma santa: Catarina. Fundaram um hospital e eles próprios (Santa Brígida e seu marido), cuidavam dos doentes.
Em 1344, ficou viúva e recolheu-se num mosteiro. Em 1346, fundou um mosteiro em Vadstena. Levava vida austera, chegando a mendigar às portas das igrejas. Uns dez anos antes de morrer, fundou a Ordem de São Salvador (brigidinas), da qual, mais tarde, sua filha, Santa Catarina da Suécia, viria a ser a prioresa. Em 1372, partiu em companhia da filha, Catarina, e de dois filhos, para a Terra Santa.
Foi uma grande mística, cujas experiências de Deus, suas Revelações, publicadas em livro, são a maior prova de seu profundo amor a Jesus e da solidez de sua espiritualidade. Brígida é uma das místicas mais conhecidas nos séculos XIV e XV.
Com Santa Catarina de Sena e Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), foi proclamada por João Paulo II como patrona da Europa.

Um amor assim

INÊS PEDROSA
Expresso, 23.07.2011

Não conheci Maria José Nogueira Pinto, mas admirava-a pela frontalidade, pela dedicação às causas em que acreditava, pela coragem.
Deu testemunho de alegria e entrega, com uma elegância absolutamente invulgar, até ao último dia da sua vida. As últimas palavras da sua derradeira crónica para o Diário de Notícias, publicada já depois da sua morte, foram estas: «o Senhor é meu pastor, nada me faltará». Creio que as terá escrito sobretudo para consolar aqueles que mais amava e que mais a amavam – para os certificar de que ficaria bem e para os animar a viverem com a veemência com que ela mesma viveu. O dom da fé não nos é dado a todos do mesmo modo nem se esgota no formato de um Deus mais ou menos escanhoado; cada um de nós tem a possibilidade de escolher entre o amor que acende o mundo e o ódio que o apaga.
Dir-me-ão que nada é tão simples – e não é, de facto, porque escolher o amor significa perder o direito ao conforto da cobardia, prescindir da segurança dos caminhos previamente traçados, estar disponível para merecer a felicidade, isto é, enfrentar de olhos abertos os obstáculos, a dor, a mudança. O texto de Jaime Nogueira Pinto sobre a mulher da sua vida, publicado no Sol da passada semana explica exactamente de que é feito o amor autêntico – e faz desabar as teorias pseudo-científicas sobre a duração da paixão (dois anos, dizem os sábios infelizes), responsáveis pela grande catástrofe do século XXI, que é a da descrença na perenidade do enamoramento. Os divórcios são apenas um iceberg de valentes – quantos casamentos não conhecemos feitos de mentiras consensuais e contabilidades amparadas, tristemente sustentados por crianças que, por isso mesmo, crescem desiludidas quanto à graça do amor?
Jaime Nogueira Pinto recorda o livro único do escritor francês Jean René Huguenin, com um título belíssimo (La Côte Sauvage), para citar uma frase que ambos amavam desde a adolescência, e que definia o amor como «uma extrema atenção». Num mundo que celebra e louva a desatenção, a corrida bárbara para lugar nenhum, eles souberam sempre cultivar essa atenção extrema – extremosa, extremista, radical, absoluta. Porque tiveram a sorte de se encontrar cedo e de cedo compreender, para lá da química e da física (que são essenciais, mas nunca bastam) , que pertenciam um ao outro – que podiam rever-se nos olhos um do outro como em espelhos límpidos. Porque liam os mesmos livros e conversavam sobre eles, porque tinham os mesmos ideais e lutavam por eles, porque atravessaram tempestades e não se deixaram levar pela ventania, porque nunca amputaram os sonhos um do outro nem perderam de vista o sonho maior que queriam construir juntos, porque souberam ser a casa um do outro quando a vida os empurrou para longe da casa e do país que tinham.
Assim viveram um amor intenso durante mais de quarenta anos. Assim, Maria José morreu sem medo. Escreve Jaime Nogueira Pinto: «Foi estóica e heróica, mas a sorrir, lúcida, sem ressentimento nem revolta, aceitando o que achava que agora lhe era exigido». Aceitação é outra palavra caída em desuso, porque na voragem em que escolhemos des-existir a confundimos com resignação ou desistência – e é rigorosamente o seu contrário: só pode aceitar o que a vida lhe apresenta quem sabe quem é e o que quer.
Graças a Maria José Nogueira Pinto, que nunca cheguei a conhecer, acordarei feliz nas mais árduas manhãs, dizendo: o amor é meu pastor, nada me faltará.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Assim não dá

Público 2011-07-21 Helena Matos
Tenhamos medo sim do dia em que a classe média perca não o medo mas sim a vergonha de não cumprir

Preciso de enriquecer ou de empobrecer. Ou mais precisamente tenho de mudar de estatuto. O que não posso, não quero nem aguento mais é fazer parte dessa entidade impropriamente chamada classe média. Mas média de quê? Da riqueza dos ricos e da pobreza dos pobres? Talvez por falta de ricos e excesso de pobres (o grupo mais significativo dos contribuintes é aquele que, por baixos rendimentos, não paga praticamente IRS) o resultado é uma classe média com aspirações lá em cima e rendimentos muito cá em baixo.
Mas seja por isso ou pelo seu contrário, o que para o meu caso conta é a pretensão, ou melhor a minha exigência, de deixar de ser classe média. Quero que o Estado me declare rica ou pobre. Mas média não. E não adianta contrapor a esta minha reivindicação o argumento de que estas coisas não se determinam por decreto. Isso seria bem observado caso Portugal fosse um país razoável. Mas como bem sabemos não é. Não se instituiu por decreto que eram gratuitos o SNS e a escola pública? Como é óbvio, não são mas isso não impede que todos os dias sejamos bombardeados com a exaltada defesa do gratuito, muito particularmente nos microfones da TSF, que trocou a sua encarnação anterior do Todos Seremos Fedayins por um igualmente místico e arrebatado Todos Socialistas Finalmente.
Mas voltemos ao porquê desta minha reivindicação. Os ricos e os pobres têm neste bendito país um estatuto mais protegido que os linces da Malcata (quando havia linces na Malcata). Por exemplo, não se pode privatizar a RTP porque isso agravará a situação da TVI e da SIC. Não duvido que a privatização da RTP possa causar um tumulto no mercado susceptível de tornar menos ricos os principais accionistas da SIC e da TVI que quiçá passariam a fazer parte da classe média, coisa que de modo algum gente tão informada está disposta a ser. Não porque tenham medo de perder luxos (coisa que raramente tem a ver com riqueza) mas porque muito prosaicamente os ricos sabem que a partir do momento em que deixam de ser ricos, ninguém mais se importará que um qualquer decreto perturbe a vida das suas empresas. Assim, se alguém da classe média viesse alegar que a privatização da RTP o poderia levar à falência, só obteria como resposta um prosaico "azar..." e mandavam-no refazer os orçamentos, cortar, investir etc. Em resumo, diziam-lhe que se arranjasse, aguentasse e pagasse na data marcada como o Estado ordena invariavelmente à classe média.
E portanto o Estado que em relação aos ricos tem sempre de equacionar as medidas também não deixa os pobres sem consolo: os pobres têm sempre de ser ajudados, vão beneficiar de um programa e têm inevitavelmente direito a um conjunto de medidas. É certamente assombroso que andando o Estado português há tantos anos a ajudar os pobres alegadamente para que estes fiquem menos pobres tenha acabado precisamente a obter resultado contrário mas isso não é assunto para esta crónica. Por agora o meu objectivo é simplesmente expressar o meu intuito de administrativamente me tornar pobre ou rica para assim deixar de fazer parte do grupo a quem o Estado manda aguentar e pagar os Estaleiros de Viana, os custos da insularidade, as televisões públicas e privadas. As portagens das Scut, os espantosos contratos celebrados pelo Estado com os concessionários das Scut e os pórticos destruídos nas Scut. Os governadores civis, os maquinistas da CP, o Metro Sul do Tejo (com tanto milhão de prejuízo sairia mais barato oferecer um automóvel aos pouquíssimos utilizadores desse metro), os bairros sociais que em dois meses passam a problemáticos, o pessoal de cabina da TAP, os especialistas na acumulação do RSI com pensões, subsídios, abonos, apoios, complementos e bonificações. Não quero mais fazer parte desse grupo que paga as hipotecas aos bancos e respectivas comissões mais as universidades onde estudam muitos daqueles que acham que o melhor será partir as montras dos bancos e, como não podia deixar de ser, ainda acaba a pagar também as montras partidas dos mesmos bancos.
Todas essas empresas e pessoas ricas e pobres estarão cheias de razão mas esta razão, ao contrário do que acontece na Filosofia, não se sustenta no pensamento mas sim na existência de dinheiro que literalmente a sustente. E esse dinheiro vem esmagadoramente do bolso da classe média e muito particularmente daquele meio milhão de contribuintes que, segundo dados do INE referentes ao IRS de 2007, ganhavam, em números redondos, entre 18 mil e 40 mil euros por ano e pagavam quase metade do IRS apurado nesse ano.
Por isso o busílis da situação não está naqueles folclóricos que acampam nas praças das cidades e muito menos nos mascarados que atiram pedras às montras das lojas. O nosso maior problema pode acontecer no dia em que os tolos do costume deixarem de pagar como de costume e exijam uma impunidade nas suas contas semelhante à tolerada aos muitos ricos e atribuída como privilégio a quem administra o Estado. Afinal um desvio, mesmo que ínfimo, nas contas pessoais ou das empresas pode ser uma tragédia além de um crime se as contas tiverem a pequenez da classe média mas se as contas forem públicas tudo se resume a uma troca de acusações políticas. O Estado é em Portugal paternalista com os pobres, servil com os ricos, absolutamente indulgente consigo mesmo e de uma exigência sem limites para com aquele grupo a que põe ao peito a medalha da classe média mas em que na prática se incluem agregados familiares com rendimentos mensais a partir dos 2 mil euros.
Os jornalistas sonham com revoluções requentadas do marxismo, com muitas praças cheias de gente, montras partidas, acampamentos, capuzes e slogans. Mas aquilo que pode colocar literalmente o nosso mundo em causa não é essa gente. Tenhamos medo sim do dia em que a classe média perca não o medo mas sim a vergonha de não cumprir e ao anúncio de mais impostos responda "Assim não dá". Ensaísta

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O jogo da glória

 SOL 20 de Julho 2011
Jaime Nogueira Pinto
Quando nos conhecemos – a Zezinha e eu – em 1970, ainda líamos escritores franceses, víamos filmes italianos e Portugal ia do Minho a Timor. Na Faculdade de Direito de Lisboa todos éramos revolucionários e militantes; todos – fascistas, comunistas e até democratas tout court – pensávamos em mudar o mundo e achávamos que isso era a coisa mais importante das nossas vidas. Por isso éramos, coerentemente, radicais.
Conhecemo-nos por causa disso – da política, da militância política. Fomos, em separado, mas mais ou menos na mesma altura, sujeitos a julgamentos maoístas. O meu passou-se no Bar das Letras, de que eu era frequentador regular, como aliás muita gente de Direito. Durou umas duas horas, num diálogo com altos e baixos, que começou com um requisitório acusativo, inspirado em princípios universais, e acabou numa discussão de fundo: se eu, sendo de Direito, podia ou não estar ali. O júri eram as frequentadoras do bar, todas habituées, que acabaram por ficar do meu lado, o que levou o tribunal a retirar em confusão.
A Zezinha teve uma jornada mais difícil. Exigiu que o professor lhe desse aula, estando a Faculdade em greve geral. Ele, contrariado, lá começou, mas os revolucionários, ao estilo Livro Vermelho, invadiram de roldão a sala e ela ficou sozinha com eles e teve também de explicar as razões da sua conduta anti-associativa e inimiga das massas.
Cada um por seu lado, não tínhamos tido medo, não nos tínhamos deixado humilhar e tínhamos saído intactos de corpo e espírito. O país ainda era de brandos costumes e os maoístas eram portugueses.
Esta identidade circunstancial, comunicada por amigos comuns, criou em nós alguma curiosidade mútua. E um dia – 12 de Março –, também por causa de um abaixo-assinado político, fui a casa dela, no Campo Grande. Ficámos três horas à conversa, eu a fumar e a sujar uns pequenos cinzeiros de prata que o meu futuro sogro estimava particularmente. Liguei-lhe outra vez em Maio, depois da morte do meu pai. Encontrámo-nos na Faculdade e fomos a pé da Cidade Universitária até ao Restauração. E voltámos, também a pé. Nesse Verão jantámos três vezes em Cascais e no Outono começámos ‘a andar’ ou a namorar.
Casámos em 27 de Janeiro de 1972 e a morte separou-nos no dia 6 de Julho de 2011. Líamos escritores franceses. Um dos meus preferidos chamava-se Jean-René Huguenin. Tinha um livro único, La Côte Sauvage, e uma frase de que nós, adolescentes, gostávamos e com a qual concordávamos: «L’amour n’est qu’une extrème attention».
Foi essa extrema atenção que procurámos praticar entre nós e estender à pequena tribo que fomos criando: filhos, netos, amigos. Descobrir, perceber, antecipar o que o outro quer, o que lhe faz falta, o que o vai alegrar. E evitar e prevenir o que o pode magoar ou fazer-lhe mal. A Zezinha tinha essa extrema atenção, até ao pormenor. A nossa amiga Nélida Piñon disse-lhe uma vez: «Você é uma provedora».
Era uma provedora. Organizava os nossos espaços com um amor e uma aplicação inteligentes, pensando-os em função de nós, dos utilizadores. Sempre. Há algum tempo que achávamos o nosso quarto tristonho. Um mês antes de morrer, a Zezinha mudou-o – paredes, cortinas, luzes, tudo. E acabou a decorar um jardim para as crianças, na Quinta.
Mas tinha havido outras ‘atenções’, mais extremas e mais difíceis: a Zezinha nunca discutiu nem pestanejou quando se tratou de me seguir naquilo que eu entendia ser o preço das ideias e da fidelidade a elas.
Primeiro para o serviço militar voluntário em Angola, logo depois do 25 de Abril, com os mandados de prisão, a clandestinidade e o exílio que implicou. Foi um soldado corajoso, pronto, suportando com estoicismo e bom humor as consequências de ‘viver perigosamente’.
Foi assim que fomos daqui para Angola, de Angola para a Namíbia e para a África do Sul, da África do Sul para o Brasil, do Brasil para Espanha, ao sabor dos lances da desfortuna e da sobrevivência com dignidade. Quase sem dinheiro, ajudas ou o que quer que fosse.
Ela era uma menina bem-nascida, mas passou a salto fronteiras, foi para a fila da sopa no campo de refugiados em Culinnan (donde nos tirou, a mim e ao Alfredo Aparício, homens feitos e aguerridos) e aceitou empregos de sobrevivência a vender enciclopédias no Rio.
Nesse tempo, eu achava-me o protagonista das aventuras e desgraças de Portugal, dessa resistência ao fim do Império e à vaga comunista. Como Abraão, que ia falar com Deus de vez em quando, teoricamente era eu quem subia ao monte para tratar das ‘coisas importantes’ enquanto ela, como Sara, se ocupava na prática da logística, das crianças, da organização da tenda. Sempre soube que tinha a parte mais fácil da história.
Depois, como se não chegassem os desastres da guerra e do exílio, a Zezinha ficou gravemente doente: intervenções cirúrgicas mal sucedidas, uma consequente peregrinação por médicos e hospitais, até que, ao fim de três anos, foi operada com sucesso em Madrid.
Mas esta doença significara mais andanças, mais separações dos filhos, mais gastos, voltar à casa zero do Jogo da Glória, quando tínhamos recomeçado a reconstruir as coisas, a caminho da meta.
Muito por pressão dela, voltámos a Portugal. Mais realista, a Zezinha já percebera o que estava vivo e o que estava morto das coisas por que nos tínhamos batido. E que, para transmitir o legado possível, tínhamos que ser como aqueles personagens cujos corpos, atravessados entre gerações, servem de ponte. E nada mais. Se ficássemos na outra margem – a da nostalgia romântica e suicida – não teria valido a pena.
No Inverno de 1978 voltámos a Portugal. Eu comecei a trabalhar no sector privado, a escrever, fundei o Futuro Presente. A Zezinha iniciou uma longa carreira profissional e política, partindo da estaca zero. Serviu as instituições, o Estado, as pessoas, animada pelo serviço público, sem cuidar dos governos desde que lhe dessem independência e autonomia para cumprir as suas funções. Tinha o sentido do bem público, trabalhava com inteligência, com disciplina, com aplicação, com competência e com humanidade. Sabia fazer equipas, chefiá-las, entusiasmá-las.
Tomava decisões e cumpria-as. Como aqui lembrou o António-Pedro Vasconcelos, não atirava as coisas difíceis para a gaveta. Mesmo nas piores situações, dava a cara. Numa instituição pública onde teve de despedir muitas dezenas de trabalhadores falou com eles um por um, interessou-se pelo seu futuro, procurou ajudá-los quanto pôde. Era assim, provedora e cuidadora.
Numa outra fase deste serviço, veio a política. Não já aquela política ideal da adolescência, de franco-atiradores no terreno, mas a política arte ou ofício do possível, ou da escolha entre inconvenientes.
Foi desafiada pelo Manuel Monteiro e pelo Paulo Portas que, na altura, estavam a refundar o CDS-PP, como partido menos ‘centrista’ e mais nacional, solidarista e popular.
Discutimos muito essa opção. A Zezinha pensava que era o modo – e o modo possível – de servir as suas ideias e convicções na forma canónica da política, agora partidária; e que, com independência de juízo e na razão prática dos resultados, podia e devia fazê-lo. Eu tinha dúvidas mas respeitei a vontade dela.
Fê-lo, e fê-lo bem. Teve sempre uma capacidade e um gosto de se relacionar com as pessoas. Porque gostava delas, porque se punha na pele delas, porque procurava ‘a verdade’ de cada uma delas.
Tinha, naturalmente, o sentido evangélico de atenção aos pobres, aos mais abandonados, aos mais desagradáveis, àqueles que ninguém queria. Neles, via o próximo, a imagem de Cristo. Não sei se isso é uma qualidade ou um contra na política, mas ela era assim.
Porque era inteiramente livre, independente, desprendida, até materialmente (mesmo quando pouco tínhamos de nosso, fomos assim).
Estava na política a dizer a verdade, o que pensava, o que sentia, mesmo nas situações mais críticas. Uma pessoa assim corre inúmeros riscos na vida política à portuguesa – que implica tabus, tácticas, conveniências, reserva mental, mais artes de raposa e de serpente que rasgos de leão ou voos de falcão. E os seus adversários (em homenagem a ela uso o termo ‘adversários’ em vez de ‘inimigos’) sabiam usar isso e provocá-la. Desafiada, saía a terreno descoberto onde poderiam abatê-la.
As suas ideias políticas iam sempre ter a uma fonte metapolítica – um cristianismo exigente, ortodoxo, onde a letra da lei procurava sempre o espírito do Sermão da Montanha. Não tinha nada a ver com o cristianismo bonzinho e fácil da porta larga, mas ainda menos com o dos que se sentem senhores das portas do Céu e em nome desse senhorio excluem e desprezam os ‘indignos’.
Essa fé viva, animada por uma oração e uma prática constantes, inspirava o seu pensamento social, uma exigência funda de justiça que não era a caridade bem ordenada e doseada dos convidados ociosos da existência, nem a solidariedade dos tecnocratas do ‘combate à exclusão’.
Era um justicialismo exigente, um cristianismo social, em que procurava servir o próximo, no realismo do estudo das situações de pobreza e de carência que conhecia e procurava conhecer de perto – como directora da Maternidade Alfredo da Costa, como provedora da Santa Casa da Misericórdia, como vereadora da Câmara de Lisboa.
Era a sua forma realista, prática, política, de pôr de pé aqueles sonhos justicialistas da nossa adolescência nacional-revolucionária, alimentada na Política, na Cidadela, nos textos dos nossos mártires políticos, da nossa utopia de Cidade Perfeita, pelo menos tão generosa e tão quimérica como qualquer uma das outras.
Outra utopia da nossa adolescência – a do Império português fraternal, o quinto império multiracial de quatro continentes – reconverteu-a e ajudou-me a reconvertê-la numa paixão profunda pelo mundo que ela conhecera português e que continuou a amar nessa África lusófona e difícil, onde tantos amigos profundos fizemos, entre velhos conhecidos e ex-inimigos.
Estes últimos meses, com um diagnóstico equivalente a uma sentença de morte – pelo menos à luz do estado das ciências médicas que ela respeitava –, mostraram, numa terrível prova de fogo, o que já sabíamos: que nela a teoria era verdade e coerência, que era capaz de viver e de morrer de acordo com os princípios e as normas que proclamara como certos.
Primeiro, não teve medo. Aliás, em toda a vida nunca lhe vi medo, senão quando alguma coisa de grave ameaçou os nossos filhos. Aqui também não. O Cristo das Bem-Aventuranças em que sempre acreditou, o amigo de Lázaro, não a abandonou. Fez tudo o que tinha de ser feito para tratar-se, submeteu-se disciplinada e animosamente à dureza dos tratamentos, à procura de alternativas. Com uma serenidade, uma doçura, uma preocupação de não nos preocupar ou sequer de nos ocupar muito.
Foi estóica e heróica, mas a sorrir, lúcida, sem ressentimento nem revolta, aceitando o que achava que agora lhe era exigido. E mantendo todas as rotinas da normalidade, das suas ocupações: indo ao Parlamento, fazendo campanha eleitoral, estando nos debates da televisão, na rádio, nos jornais, nas instituições onde colaborava, com toda a normalidade.
Quando nos conhecemos e nos primeiros anos de casados jogávamos muitos jogos – de cartas, o Risk ou jogo da Guerra, o Monopólio, a Bolsa. E às vezes também, por curiosidade, a mãe de todos esses jogos – o Jogo da Glória, originalmente o Gioco dell’Oca ou Jeu de l’Oie. Tínhamos, vinda não sei donde, uma versão d’Épinal, com bonecos do século XIX, que desapareceu.O jogo tem 63 casas com prémios e penalidades e, para ganhar, é preciso acertar mesmo na casa 63. Na casa 58 está a morte – e quem, ao chegar perto do fim, lá cai, tem de voltar ao princípio.
As minhas filhas dizem-me que a Zezinha queria deixar um ‘jogo da glória’ da sua autoria, para eu interpretar. Não apareceu, por enquanto. Mas vou, com ‘extrema atenção’, interpretar os sinais que ela deixou nestas 59 casas.

PARA QUEM VAI DE FÉRIAS, UMA DICA

uma dica dos nossos "irmãos mais velhos" como carinhosamente lhes chamava o saudoso Beato João Paulo II

O Sr. Samuel, judeu, dirigiu-se ao banco onde tem todos os seus depósitos e poupanças, pediu para falar com o Gerente, e disse-lhe:
- Eu precisava de um crédito de 5 euros a 30 dias.
 - Oh, Sr. Samuel!... um crédito de 5 euros a 30 dias???... Mas ficava-lhe muito menos dispendioso levantar os 5 euros numa das suas contas à ordem - disse-lhe o Gerente, muito espantado!
 - Bem,... se não me concedem o crédito de 5 euros a 30 dias, eu acabo com todas as minhas poupanças e depósitos neste banco, e vou para outro.
 - Nem pensar nisso, Sr. Samuel!.. o seu crédito está concedido desde já!
 O Sr. Samuel começou a preencher a papelada toda, para o crédito que pretendia de 5 euros a 30 dias, e pergunta então ao Gerente:
- Quanto vou pagar de juros?
- Ora, 5 euros a 30 dias, vai pagar 30 cêntimos de juros - responde-lhe o Gerente.
 - Bem, então eu queria deixar o meu BMW de garantia.
 - Oh Sr. Samuel, não é preciso! O Banco confia plenamente!
 - Bom,... se não posso deixar o meu BMW como garantia de pagamento do crédito concedido, eu desisto do crédito e acabo com todas as minhas poupanças e depósitos neste banco, e vou para outro.
 - Nem pensar nisso, Sr. Samuel!... claro que nós aceitamos o seu BMW como garantia! Faça o favor de estacionar o seu BMW na nossa garagem, e ele ficará lá durante os 30 dias do crédito!
 Chegado a casa, diz o Sr. Samuel à mulher:
 - Pronto, já resolvi o problema para estacionar o carro durante os 30 dias em que vamos de férias, e só pago 30 cêntimos de parque!!!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Conversas e golos

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2011-07-18
A economia portuguesa está na situação habitual da selecção nacional: além de ter de ganhar todos os jogos para conseguir o apuramento, depende ainda do resultado de outros encontros. O memorando da troika tem de ser cumprido mas não chega. Só se a Europa vencer alguns desafios financeiros é que seremos repescados.
Este paralelo entre as situações económica e futebolística é bastante mais profundo do que parece. O País, como aconteceu tantas vezes à nossa equipe, mudou de seleccionador nacional. O novo plantel de Passos Coelho criou boas expectativas, recuperando-se alguma esperança. O prognóstico para os próximos jogos é moderadamente optimista. Ou razoavelmente pessimista segundo a maioria.
Chegámos a esta situação ambígua porque o anterior treinador, excelente nas conferências de imprensa, acumulou derrotas dentro das quatro linhas. Em Setembro de 2008, quando o campeonato aqueceu decisivamente na crise mundial, nós ainda dependíamos só de nós. Após quinze anos de endividamento a pontuação era fraca, desanimante mesmo, mas seria possível assegurar a passagem à fase seguinte apenas com os nossos resultados. Os erros tácticos e as oportunidade perdidas dos últimos três anos deixaram-nos com uma mera possibilidade matemática de apuramento.
Claro que, como acontece no futebol, também na situação económica as culpas nunca são dos jogadores. Nas análises de bancada os responsáveis são sempre o árbitro, o relvado ou os juízes de linha.
Antes de mais a culpa é da Europa e do FMI, responsáveis máximos das nossas dificuldades. Mas desta vez acusar o árbitro roça o inacreditável. A chamada troika do Fundo, Comissão e Banco Central veio ter connosco com um enorme saco de dinheiro, precisamente no momento em que ninguém nos empresta. Aliás é bom lembrar que fomos nós, em desespero, que recorremos a eles. Junto com o empréstimo, a troika trouxe um conjunto de condições que, vistas honestamente, são sensatas e indispensáveis. Podem não ser suficientes, mas são necessárias. Criticar o árbitro que marcou um penálti a nosso favor e ainda recomenda boas tácticas é suprema tolice. A alternativa que alguns sugerem -rejeitar a ajuda, renegociar a dívida e sair do euro-implicaria fazer o ajustamento, não em três anos, mas em três minutos. Com o mercado fechado e sem apoio internacional, o país teria um colapso imediato.
A qualidade do relvado é também desculpa habitual. Por isso tantos criticam os mercados selvagens e irracionais. Mas ninguém disse mal deles enquanto nos endividávamos alegremente nos últimos 15 anos. Como sempre, os bancos e investidores são excelentes quando emprestam e vilões ao exigirem juros. Porque, é bom que se diga, ninguém pretende que liquidemos a dívida e os mercados até gostariam de nos emprestar bastante mais. Apenas exigem garantias de pontualidade no pagamento das prestações. Foi a incapacidade de cumprir isso que nos trouxe a este extremo.
Ultimamente, porém, a maior raiva está reservada aos juízes de linha, as agências de rating. A Moody's há dias, ao baixar a notação da nossa dívida, mereceu críticas arrasadoras de todos os quadrantes nacionais e internacionais. Na véspera o Dr. Silva Lopes, uma das nossas vozes mais respeitadas, afirmara precisamente o mesmo: Portugal não é diferente da Grécia e o empréstimo de 78 mil milhões é "largamente insuficiente" (Lusa, 4/Jul). Estas posições podem ser consideradas demasiado negativas, mas são plausíveis. O economista foi louvado no Expresso de 9 de Julho pela sua coragem enquanto o mesmo jornal arrasava a Moody's. Como sempre gostamos de criticar o nosso clube, mas não admitimos que outros o façam. O que realmente aconteceu aqui é que a Europa quer validar um golo nosso marcado fora de jogo e para isso silencia o juiz de linha.
Na economia, como no futebol, não conta a conversa mas os golos. O campeonato está difícil e podemos ser desclassificados. Mas a arbitragem torce por nós e está ansiosa que ganhemos. O que há a fazer é esquecer tretas e especulações e chutar à baliza.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 17 de julho de 2011

Frase do dia

O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo
Mt 13, 24

OS 'CATÓLICOS' ADVERSATIVOS

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
A Voz da Verdade, 2011-07-17
In memoriam de Maria José Nogueira Pinto,
uma católica não adversativa.

A barca de Pedro é como a arca de Noé. Se esta providencial embarcação incluía toda a espécie de criaturas que havia à face da terra, também a Igreja congrega uma imensa variedade de almas. Todas as gentes, qualquer que seja a sua raça, a sua cultura, a sua língua ou os seus costumes, desde que legítimos, cabe na barca de Pedro. Por isso, graças a Deus, há católicos conservadores e progressistas, de direita e de esquerda, republicanos e monárquicos, regionalistas e centralistas, etc.
Se, em política, tudo o que parece é, o mesmo já não se pode dizer na Igreja. Tal é o caso dos ‘católicos’ adversativos. Muito embora a designação seja original, a realidade é, infelizmente, do mais prosaico e corrente:
- Eu sou católico, mas...
E, claro, a seguir a esta proposição adversativa, seguem não poucos reparos à doutrina cristã. A saber: eu sou católico, mas creio na reencarnação; eu sou católico, mas defendo o aborto; eu sou católico mas, não acredito no inferno; eu sou católico, mas sou a favor da eutanásia; eu sou católico, mas concordo com o casamento entre pessoas do mesmo sexo; etc., etc., etc.
É verdade que a Igreja acolhe também aqueles que, por desconhecimento ou por debilidade, não conseguem ainda viver de acordo com todos os seus preceitos. Ao contrário do que pretendiam os cátaros, a Igreja não é só dos puros ou dos santos, os únicos que são, de facto, cem por cento católicos. Com efeito, a Igreja não exclui os néscios, nem os fracos que, na realidade, somos quase todos nós. Mas não aceita os nossos erros, nem os nossos pecados, antes impõe que, da parte do crente, haja uma firme decisão de conversão.
Esta é, afinal, a diferença entre o pecador e o fariseu: ambos pecam, mas enquanto aquele reconhece-o humildemente e procura emendar-se, este justifica-se e, em vez de mudar de conduta, desautoriza a doutrina em que, afinal, não crê. O pecador que é sincero no seu propósito de santificação, tem lugar na comunidade dos crentes, mas não quem intencionalmente nega os princípios da fé cristã.   
Na Igreja há certamente margem para a diversidade de pontos de vista, também em matérias doutrinais opináveis, mas não cabe divergência no que respeita aos princípios fundamentais. Um cristão que, consciente e voluntariamente, dissente de uma proposição de fé definida pela competente autoridade eclesial, não é simplesmente um católico diferente ou divergente, mas um fiel infiel, ou seja, um não fiel.
Conta-se que o pai de uma rapariga algo leviana, sabendo do seu estado interessante, tentou desesperadamente conseguir-lhe um marido que estivesse pelos ajustes. Para este efeito, assim tentou aliciar um possível candidato:
- É verdade que a minha filha está grávida, mas é só um bocadinho... 
Ser ou não ser, eis a questão. Pode-se ser católico sendo ignorante e até muito pecador, mas não se pode ser ‘católico’ adversativo, ou seja, negando convictamente a doutrina da Igreja.
A fé não se afere por uma auto-declaração abstracta, mas pela opção existencial de seguir Cristo, crendo e agindo de acordo com os princípios do Evangelho. Não é católico quem afirma que o é, mas quem pensa e quer viver como tal. «Tu crês que há um só Deus? Fazes bem, no entanto também os demónios crêem e tremem. O homem é justificado pelas obras e não apenas pela fé. Assim como o corpo sem alma está morto, assim também a fé sem obras está morta» (Tg 2, 19.24.26). 
   

Maria José Nogueira Pinto...

Maria José Nogueira Pinto...
Guilherme d’Oliveira Martins
Voz da Verdade, 17 Jul. 2011
«O Senhor é meu Pastor, nada me falta» (Sl., 23, 1). Não me sai da memória o verso do Salmo que Maria José Nogueira Pinto escolheu para encerrar um belíssimo texto que escreveu pouco antes de nos deixar. Nestes momentos, há muito poucas palavras a dizer, fica apenas o exemplo.

Recordo, por isso, a mulher de ideias e de causas, de convicções e generosidade, que conheci desde quando ambos tínhamos dezassete anos. Sempre lhe encontrei uma especial atenção aos outros e à justiça, que, com o tempo, se foi acentuando – com abertura e afetuosidade. E a verdade é que se foram tornando evidentes significativas convergências quanto à necessidade de renovar as políticas sociais, de recusar a pura lógica do mercado ou a economia de casino e de apontar para a diferenciação positiva, em nome da dignidade. Há muito pouco tempo (parece ontem, porque a doença foi rápida e fulminante), debatemos longamente a última encíclica do Papa Bento XVI «Caritas in Veritate» e voltámos a convergir, naturalmente, na recusa de uma lógica mercantilista. Por isso, Maria José tomou em mãos na fundação criada por Maria de Lourdes Pintasilgo, a missão exigente de fazer da justiça um ato permanente amoroso e emancipador. Daí a importância que dava a «cuidar o futuro», às «redes de proximidade» e aos «corpos intermédios», em termos modernos para responder à crise do Estado-providência, pela ação responsável do Estado e da Sociedade, com pessoas e comunidades concretas, no sentido da cidadania ativa ou de uma Sociedade-providência. O seu percurso profissional fez-se assim de atenção e de causas: o serviço público e a justiça na Maternidade Alfredo da Costa e na Misericórdia de Lisboa; o bem comum e a criatividade na cultura, no cinema; e a magistratura cívica na Câmara Municipal de Lisboa, na Assembleia da República…
Quando ouvi a leitura das bem-aventuranças ou quando o Padre José Tolentino Mendonça recordou a serenidade com que Maria José (quase sem o deixar falar) lhe disse há pouco que «Deus ama quer os vivos quer os mortos», percebi que a experiência da fé só pode ser vivida, por cada pessoa de forma irrepetível, como sinal da graça de Deus, esse dom fantástico que permite ligar a razão e a esperança. Encontrámo-nos, ao longo de 42 anos, em mil circunstâncias. Estou a ouvi-la chamar-me, com a sua voz inconfundível, a perguntar sobre as coisas mais diversas (e sabia muito bem ouvir). Na Rádio Renascença, no final dos anos noventa, encontrávamo-nos todas as semanas na «Prova dos Quatro», a debater o País e o mundo, com Maria João Avillez e João Amaral. Entre mim e ela eram mais as convergências que as divergências, por causa dos valores e das políticas sociais. Outras vezes, em sua casa ou em A-dos-Negros, até desoras, com o Jaime e a família, discutíamos tudo acaloradamente – a política, o serviço público, os políticos, as ideias. Uma vez, a Maria José fez entrar nessas nossas conversas (para gáudio de todos) Nelida Piñon, personalidade fascinante de horizontes abertos e inteligência fulgurante. Foi um deslumbramento ouvi-la falar sobre a literatura e a vida. Para a Maria José não fazia sentido falar sem paixão sobre as coisas do mundo. As diferenças vinham naturalmente à tona, mas o essencial era a procura da dignidade e do bem comum. Os seus argumentos faziam sentido, eram convincentes, claros e inteligentes, e como fazem os mais sábios e argutos, era sempre capaz de se colocar no lugar do outro, enquanto antagonista de ideias. Essa qualidade extraordinária permitiu-lhe ligar o sentido prático do serviço e a solidez dos argumentos e dos projetos. Como S. Paulo, combateu o bom combate. Sentimo-lo intensamente. O exemplo é a principal lição. E o tempo foi cimentando a nossa amizade como uma relação de confiança e admiração.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Monsenhor Junmin: A bem da Igreja universal

RR on-line 15-07-2011 08:54
Aura Miguel

Com a revolução cultural, a Igreja foi suprimida na China, mas, nos anos 80, o Governo de Pequim mudou de estratégia.
A Irmã Peter, religiosa do Sagrado Coração, hoje com 90 anos, foi presa em 1958 e obrigada a trabalhos forçados. Trabalhou na construção de casas e pontes e depois numa fábrica de carros.
O bispo Jin Peixian, hoje com 83 anos, passou 10 anos na prisão e mais tarde foi enviado para um campo de trabalho agrícola.
Cecília Tao Beiling, leiga, aos 19 anos foi levada para uma “quinta de re-educação” e por lá ficou mais de oito anos, sem hipótese de escolha.
A milhares de católicos aconteceu o mesmo. Com a revolução cultural, a Igreja foi suprimida. Mas, nos anos 80, o Governo de Pequim mudou de estratégia e autorizou que a Igreja abrisse as portas, mas sob o seu controlo: criou-se, então, a “Associação da Igreja Católica Patriótica”, não reconhecida pelo Papa e que tem vindo a ordenar membros próximos do partido para bispos de várias dioceses chinesas. Uma destas ordenações realizou-se ontem, em Shantou.
Os bispos que nela participaram arriscam a excomunhão. Alguns dias antes, quatro deles foram detidos pela polícia e obrigados a participar, mas houve um quinto bispo que se recusou a ir.
Monsenhor Paul Pei Junmin, bispo de Liaonig – cuja ordenação é reconhecida pelo Vaticano - resistiu às pressões do Governo e, apoiado pelo seu clero e fiéis, não participou na ordenação de ontem.
Não sabemos o que agora lhe vai acontecer. Mas a sua firmeza de pastor e o seu amor ao Papa são já, certamente, uma força de bem a favor da Igreja universal.
Obrigada Monsenhor Junmin!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Conspiração

DESTAK 13 | 07 | 2011  18.36H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Cada vez mais vozes denunciam a verdadeira razão da crise da dívida europeia. Afinal não se trata de despesismo de gregos, irlandeses e portugueses. Os enormes défices orçamentais são apenas detalhes e o endividamento insustentável, consequência de décadas de erros e abusos, não tem nada a ver com a questão.
Tudo não passa de meros pretextos para ocultar a suprema conspiração. É preciso ser cego, dizem, para não ver que isto é um ataque descarado, primeiro ao euro e depois à União Europeia. Os instrumentos são os bancos e as agências de rating, em nome dos famigerados mercados, que tudo devoram e nada respeitam.
Confesso que a minha limitada inteligência não consegue acompanhar elucubrações tão elevadas e complexas. Por isso fico silencioso perante os majestosos raciocínios. Permito-me apenas uma perguntinha: quem ganharia com a derrocada do euro e da UE?
Uma coisa dessas criaria um terramoto financeiro muito mais grave que a falência do Lehman Brothers. Os bancos teriam perdas enormes e os mercados volatilidade explosiva. Além do campo financeiro, a queda afectaria a produção de toda a economia europeia, provocando uma brutal recessão que, dado o nível de integração mundial, se espalharia pelo planeta. Só um arqui-terrorista ou um super-vilão de cinema, interessado na miséria global, poderia querer provocar uma coisa dessas.
Sem ofender tão eminentes analistas, parece-me que a outra explicação, a da dívida irresponsável e dos credores com medo compreensível de perder os seus empréstimos, é bastante mais plausível.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Prova de vida

A não perder este artigo de Vasco Graça Moura onde ele dá conta com “alguma dificuldade em exprimir estas coisas” do impacto do testemunho da vida de Maria José Nogueira Pinto. Onde se vê a diferença entre um discurso e um testemunho…

Prova de vida

DN 2011-07-13 VASCO GRAÇA MOURA
"Terminal", dizia-me alguém há cerca de dois meses, "- Ela está em estado terminal". Vi-a chegar com o marido a esse almoço de amigos, em que participou discreta e aparentemente bem disposta, na sóbria gravidade da sua postura algo emaciada, conversando sem aludir à doença, nem à inquietação ou ao sofrimento por que passava. Era assim que aliava estoicismo e bom gosto. Tinha uma maneira directa e inteligente de abordar as questões, encarando as coisas de frente, dizendo o que pensava, apresentando os seus argumentos com total clareza. Era uma mulher sem ambiguidades nem falhas de coragem e todos os que a leram regularmente nesta página podem testemunhá-lo.
A sua vida familiar, a sua carreira profissional, o seu percurso político, as qualidades de que deu provas, a sua energia, a sua capacidade de análise e de decisão, os êxitos do seu trajecto, as suas posições no tocante à sociedade e ao mundo, tudo isso já veio referido em comentários dos mais diversos quadrantes.
A sua autobiografia sumária, num texto concluído e aqui publicado, no DN, no próprio dia da sua morte, é um dos documentos humanos mais belos e pungentes que me tem sido dado ler nos últimos tempos. Pensando bem, creio mesmo nunca ter lido nada assim: alguém escreve na primeira pessoa do singular na iminência da sua própria morte, quase em tempo real, com uma autenticidade, uma serenidade e uma coragem excepcionais e desarmantes!
É com alguma melancolia que me ponho a pensar nessa relação, afinal transparente, entre saber viver e saber morrer. Como quase toda a gente da minha geração em Portugal, eu tive uma educação católica, embora não seja crente desde a adolescência. Não sinto necessidades de nenhuma espécie de incursão na esfera do transcendente, limitando-me a integrar-me nos chamados valores da civilização cristã e a fruir o que deles possa ecoar nas grandes criações do espírito humano, em especial na literatura e nas artes.
Apesar desse laicismo, impressionou-me profundamente a maneira como ela transfigurou a sua educação católica numa experiência pessoal e muito intensa de intimidade com o sagrado e esta em código de conduta moral e norma de actuação prática na vida de todos os dias. Fiquei com a ideia de que a crença cristã foi por ela interiorizada de tal maneira que tornou cada acto da sua vida numa profissão de fé e num exercício de alegria íntima. Isto é muito raro num país em que a tradição religiosa dominante, a católica, se fica as mais das vezes por rituais esvaziados de sentido e pelo mero papaguear do que se aprendeu na catequese.
Ficou-me também a impressão de que a palavra de Deus em que acreditava - e por isso queria, sabia e conseguia vivê-la como alimento espiritual quotidiano - lhe era, ao mesmo tempo, condição e explicitação constantes de uma plena realização pessoal, na própria ascese que procurava para o seu itinerário, na compreensão tolerante do próximo, nos valores da solidariedade e da cidadania, na firmeza com que defendia os princípios que para ela valiam na vida pessoal e na sociedade.
Fazia isso com a enorme naturalidade de ser uma mulher bem do seu tempo, culta e desempoeirada, aberta à modernidade e, sempre que necessário, questionadora da modernidade, de convicções solidamente assentes e pensamento estruturado, de desassombro nas atitudes e coragem sem limites na assunção de responsabilidades, e também com um trajecto de experiências acumuladas de que soube utilizar as mais duras e amargas para a inimitável têmpera da sua personalidade.
Tenho alguma dificuldade em exprimir estas coisas, mas creio que ela soube forjar uma matriz de confiança nessa via anímica e espiritual que, para os eleitos, os happy few, é em si mesma um caminho de esperança e uma proposta de comunhão e partilha, em que o eterno e o temporal se articulam de modo indissociável, seja qual for o lugar de exílio em que o ser humano se sinta a existir.
Por isso, ao dizer "o Senhor é meu pastor, nada me faltará", nas suas palavras finais, ela citou textualmente o mesmo salmo 23 de que já tinha deixado entrever um dos versículos quando disse que, "graças a Deus", nunca tivera medo: "Mesmo que atravesse os vales sombrios, nenhum mal temerei, porque estás comigo."
Esta densa memória que vamos guardar de Maria José Nogueira Pinto é a sua prova de vida.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Hospitais devem eliminar objectos alusivos à infância ou do foro religioso de salas para aborto

Sol on-line 12 de Julho, 2011

A Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) recomenda aos hospitais públicos que retirem dos gabinetes onde atendem mulheres para interrupção voluntária da gravidez objectos que possam interferir com a escolha das utentes.
Esta é uma das recomendações que resultou da inspecção realizada no ano passado a 22 estabelecimentos de saúde que realizam abortos por opção da mulher até às 10 semanas de gravidez, que a legislação em vigor há quatro anos veio permitir.
No relatório da IGAS, é recomendado que objectos alusivos à infância ou do foro religioso sejam removidos dos gabinetes médicos e de apoio psicológico e social onde é prestado atendimento a estas utentes.
A inspecção diz ainda que as unidades de saúde devem criar um telefone directo para a consulta hospitalar da interrupção voluntária da gravidez (IVG), «facilitando o cumprimento dos prazos legais».
Deve ainda existir um contacto disponível de um profissional de saúde, em horário útil, para esclarecer possíveis dúvidas «durante todo o processo de IVG, minimizando o recurso desnecessário ao serviço de urgência».
A IGAS diz ainda que a Direcção Geral da Saúde deve actualizar a informação disponível na Internet relativamente à consulta de IVG, com indicação dos dias, horários da consulta e profissionais de saúde adstritos.
Apesar das recomendações, a inspecção reconhece que o sistema público tem procurado dar resposta para «a realização de um aborto seguro», mesmo com a escassez de recursos e com o «elevado número de profissionais» que se declararam objectores de consciência.
Ainda assim, a inspecção detectou falhas no cumprimento da lei nos serviços públicos.
Segundo o relatório, havia, em 2010, um centro hospitalar no qual em cada unidade onde se realiza a consulta de IVG apenas há um médico, o que faz com que a comprovação da idade gestacional não seja feita por um clínico diferente daquele que realiza o abroto, como determina a lei.
«Apesar de existir certificado de assinatura por médico diferente, esta assinatura não passa de um ato meramente formal, pois é feita à posteriori pelo outro médico da unidade e vice-versa», refere o Relatório de Actividades do IGAS, divulgado na Internet.


Fome de escândalo

Público 2011-07-12 Pedro Lomba

O escritor brasileiro Nelson Rodrigues conta algures nas suas memórias (na verdade disse-o muitas vezes em crónica) que aprendeu a escrever lendo folhetins oitocentistas e histórias de crimes da imprensa brasileira da primeira metade do último século. Foram aquelas histórias de violência e assassinato que selaram o seu destino como jornalista e dramaturgo.

Durante muito tempo, o Jornal de Notícias tinha uma secção precisamente intitulada "Polícia", a par da "Política" ou do "Internacional" (ignoro se se mantém). Primeiro estranhava-se, depois entranhava-se. Porque é que um jornal não deveria ocupar-se da miséria humana, actualizando-se com os novos presidiários e os delíquios da véspera? Se o público queria, o público recebia.

Há uma história de Mark Twain de que me lembro sempre quando penso nos malefícios de um certo jornalismo da devassa. Twain é candidato a governador do Estado de Nova Iorque. Goza de vantagens sobre os rivais. Tem bom carácter. É independente. Mas começa a campanha e os jornais atiram-se ao candidato. A primeira acusação: perjúrio. A segunda: roubo. A Terceira: difamação.

Não satisfeitos com isso, os periódicos prosseguem o ataque. Quarta acusação: embriaguez. Quinta: corrupção. Acusações falsas, improváveis. Desesperado, o candidato não sabe o que fazer. No fim, resolve desistir. Faltavam-lhe, segundo os jornais, virtudes básicas para concorrer ao cargo. Na carta de desistência escreve: "Subscrevo-me com estima, em tempos um homem decente, mas agora Mark Twain, mentiroso, ladrão, difamador, bêbado, corrupto".

O jornal News of the World, que durante décadas satisfez a fome de escândalo dos ingleses, seguia à risca essa lei de que não há nada, dentro das imensas possibilidades de sujeira ao alcance do ser humano, por que o público não tenha interesse. Quando se trata de espiolhar a vida do próximo, não há muita gente que mantenha o sangue-frio e guarde deferências.

Mas pior do que isso: convencidos de que a receita era infalível, os repórteres do News of the World não se limitaram a relatar escândalos. Pensaram que estavam autorizados a tudo para obter e fabricar as histórias de sarjeta de que precisavam, incluindo, como se viu agora, escutas ilegais. Mais baixo não é possível descer.

Fico sempre estupefacto quando encontro, em certos jornais portugueses, notícias sobre as dívidas fiscais de pessoas com visibilidade pública, a frontaria das respectivas residências ou outros aspectos puramente privados. Mas não tenho ilusões: sei que o que público quer, o público recebe. Olhem, por exemplo, para a história das televisões privadas em Portugal.

É justamente porque acredito num forte escrutínio público (sublinho: público) dos decisores políticos que defendo um não menos forte direito à sua privacidade, a única garantia de que essas pessoas terão a liberdade necessária para exercer as suas funções.

O encerramento do News of the World é uma boa notícia. Mas não é, ao contrário de alguns optimistas, o fim desse jornalismo que o império Murdoch alimentou durante décadas. Não nos enganemos sobre isso. E enquanto tivermos dúvidas, insistamos o mais possível nessa diferença entre o público e o privado, quer seja nos políticos, quer nas chamadas figuras públicas. Isto requer uma educação colectiva ficada sem a qual mandará o dinheiro e o mais básico populismo. Jurista

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A Europa e Portugal ficaram mais pobres

Público 2011-07-11 João Carlos Espada
Otto von Habsburg simbolizava um mundo liberal e democrático, conservador e aristocrático, a que a I Guerra pôs termo

Otto von Habsburg morreu na passada segunda-feira, com 98 anos. Não muito conhecido entre nós, foi, no entanto, uma figura de referência na Europa. Simbolizava um mundo liberal e democrático, conservador e aristocrático, a que a I Guerra pôs termo, com a parcial excepção da Inglaterra e dos povos de língua inglesa. Mas ele insistiu em manter-se fiel a essa nobre tradição, desafiando os populismos revolucionários da direita e da esquerda.
Otto era o príncipe-herdeiro do Império Austro-Húngaro, filho do imperador Carlos I e da imperatriz Zita de Bourbon-Parma. Mas o império desagregou-se com a I Guerra e a nova república austríaca, muito zelosa dos seus imaginários pergaminhos igualitários, baniu os Habsburgos dos seus títulos nobiliárquicos. A família exilou-se na Madeira, onde o antigo imperador morreu em 1922.
Otto permaneceu toda a vida católico, liberal, democrata e europeísta, além de atlantista. Admirava a monarquia constitucional inglesa e a tradição gradualista dos povos de língua inglesa, incluindo a República americana. Mas, se foi possível importar para o continente europeu os princípios constitucionais da língua inglesa, não foi possível replicar no continente o sentido de humor, o horror ao fanatismo e o espírito de compromisso e moderação dos ingleses. A Europa do século XX caiu vítima de líderes ordinários de sinal contrário: Hitler e Mussolini de um lado, Lenine e Staline do outro, competiram entre si na manipulação de massas ululantes, de braço estendido ou de punho erguido, com trajes de mau gosto.
Otto denunciou com horror os dois totalitarismos de sinal contrário. Recusou-se a cumprimentar Hitler na sua Áustria natal - que em breve iria acolher de bandeja a anexação pelo cabo Hitler. Otto foi condenado à morte pelo III Reich e exilou-se em França, de onde escapou das tropas germânicas para novo exílio nos EUA.
Após a II Guerra, Otto regressou à Europa e, com Winston Churchill, encabeçou os movimentos favoráveis à reunificação europeia e à reconciliação franco-alemã. Presidiu à União Pan-Europeia, entre 1973 e 2004, e foi deputado ao Parlamento europeu, pelo partido social-cristão da Baviera, entre 1979 e 1999. Em 1960, aderira à Mont-Pélerin Society, um clube euro-americano de liberais, fundado em 1946 por Friedrich A. Hayek e Karl Popper, entre outros.
Tive o privilégio de o conhecer, ainda que fugazmente, quando discursou na Universidade Católica em Lisboa, em 2005, a convite do reitor, Manuel Braga da Cruz. Foi uma intervenção memorável, em defesa da liberdade, da democracia, da dimensão cristã da civilização europeia, e da nova União Europeia alargada aos países da Europa central e oriental.
Otto von Habsburg era um dos últimos grandes representantes de uma nobre tradição liberal e aristocrática europeia, de que Winston Churchill foi líder no século XX. Ambos aceitavam - e defenderam com vigor - a democracia moderna, sem contudo se renderem às modas igualitárias e às vulgaridades ideológicas. Conta-se que um dia, em Bruxelas, quando alguém lhe disse que ia assistir a um jogo de futebol, Otto terá perguntado "entre quem?". "A Áustria e a Hungria", foi a resposta. Ao que ele terá ripostado: "Contra quem?"
A notícia da morte de Otto von Habsburg colheu-nos na mesma semana em que duas personalidades marcantes nacionais faleceram prematuramente: Maria José Avillez Nogueira Pinto e Diogo Vasconcelos.
Conheci mais de perto o Diogo, que foi meu aluno num dos primeiros programas de mestrado do IEP-UCP, em 1997-98. Era um jovem brilhante, cheio de energia e espírito empreendedor, com uma larga visão e uma grande ambição para Portugal.
Conheci Maria José sobretudo através do marido, Jaime Nogueira Pinto, e de sua filha Teresa, que também foi aluna do IEP. Mas todos conhecíamos a sua personalidade pública, afirmativa e inspiradora, de uma grande senhora.
Parafraseando um "post" de João Vacas no blogue 31 da armada, é bem verdade que, nesta semana, a Europa e Portugal ficaram mais pobres. Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa; titular da cátedra European Parliament/Bronislaw Geremek in European Civilization no Colégio da Europa, Campus de Natolin, Varsóvia

Obrigado, sr. ministro!

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2011.07.07
Há dias um pobre pediu-me esmola. Depois, encorajado pela minha generosidade e esperançoso na minha gravata, perguntou se eu fazia o favor de entregar uma carta ao senhor ministro. Perguntei-lhe qual ministro e ele, depois de pensar um pouco, acabou por dizer que era ao ministro que o andava a ajudar. O texto é este:
"Senhor ministro, queria pedir-lhe uma grande ajuda: veja lá se deixa de me ajudar. Não me conhece, mas tenho 72 anos, fui pobre e trabalhei toda a vida. Vivia até há uns meses num lar com a minha magra reforma. Tudo ia quase bem, até o senhor me querer ajudar.
Há dois anos vierem uns inspectores ao lar. Disseram que eram de uma coisa chamada Azai. Não sei o que seja. O que sei é que destruíram a marmelada oferecida pelos vizinhos e levaram frangos e doces dados como esmola. Até os pastelinhos da senhora Francisca, de que eu gostava tanto, foram deitados fora. Falei com um deles, e ele disse-me que tudo era para nosso bem, porque aqueles produtos, que não estavam devidamente embalados, etiquetados e refrigerados, podiam criar graves problemas sanitários e alimentares. Não percebi nada e perguntei-lhe se achava bem roubar a comida dos pobres. Ele ficou calado e acabou por dizer que seguia ordens. Fiquei então a saber que a culpa era sua e decidi escrever-lhe. Nessa noite todos nós ali passámos fome, felizmente sem problemas sanitários e alimentares graves.
Ah! É verdade. Os tais fiscais exigiram obras caras na cozinha e noutros locais. O senhor director falou em fechar tudo e pôr-nos na rua, mas lá conseguiu uns dinheiritos e tudo voltou ao normal. Como os inspectores não regressaram e os vizinhos continuaram a dar-nos marmelada, frangos e até, de vez em quando, os belos pastéis da tia Francisca, esqueci-me de lhe escrever. Até há seis meses, quando destruíram tudo.
Estes não eram da Azai. Como lhe queria escrever, procurei saber tudo certinho. Disseram-me que vinham do Instituto da Segurança Social. Descobriram que estava tudo mal no lar. O gabinete da direcção tinha menos de 12 m2 e na instalação sanitária do refeitório faltava a bancada com dois lavatórios apoiados sobre poleias e sanita com apoios laterais. Os homens andaram com fitas métricas em todas as janelas e portas e abanaram a cabeça muitas vezes. Havia também um problema qualquer com o sabonete, que devia ser líquido.
Enfureceram-se por existirem quartos com três camas, várias casas de banho sem bidé e na área destinada ao duche de pavimento (ligeiramente inferior a 1,5 m x 1,5 m) não estivesse um sistema que permita tanto o posicionamento como o rebatimento de banco para banho de ajuda (uma coisa que nem sei o que seja). Em resumo, o lar era uma desgraça e tinha de fechar.
Ultimamente pensei pedir aos senhores fiscais para virem à barraca onde vivo desde então, medir as janelas e ver as instalações sanitárias (que não há!). Mas tenho medo que ma fechem, e então é que fico mesmo a dormir na rua.
Mas há esperança. Fui ontem, depois da missa, visitar o lar novo que o senhor prior aqui da freguesia está a inaugurar, e onde talvez tenha lugar. Fiquei espantado com as instalações. Não sei o que é um hotel de luxo, porque nunca vi nenhum, mas é assim que o imagino. Perguntei ao padre por que razão era tudo tão grande e tão caro. Afinal, se fosse um bocadinho mais apertado, podia ajudar mais gente. Ele respondeu que tinha apenas cumprido as exigências da lei (mais uma vez tem a ver consigo, senhor ministro). Aliás o prior confessou que não tinha conseguido fazer mesmo tudo, porque não havia dinheiro, e contava com a distracção ou benevolência dos inspectores para lhe aprovarem o lar. Se não, lá ficamos nós mais uns tempos nas barracas.
Senhor ministro, acredito que tenha excelentes intenções e faça isto por bem. Como não sabe o que é a pobreza, julga que as exigências melhoram as coisas. Mas a única coisa que estas leis e fiscalizações conseguem é criar desigualdades dentro da miséria. Porque não se preocupam com as casas dos pobres, só com as que ajudam os pobres."
mailto:naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 10 de julho de 2011

Domingo 15.º do Tempo Comum - A parábola do Semeador

 
Semeador ao pôr do sol
1888
Óleo sobre tela
64 x 80.5 cm
Rijksmuseum Krueller-Mueller, Otterlo
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Mt 13, 1-23

Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira-mar.
Reuniu-se a Ele uma tão grande multidão, que teve de subir para um barco, onde se sentou, enquanto toda a multidão se conservava na praia.
Jesus falou-lhes de muitas coisas em parábolas: «O semeador saiu para semear.
Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho: e vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra: e logo brotaram, porque a terra era pouco profunda;
mas, logo que o sol se ergueu, foram queimadas e, como não tinham raízes, secaram.
Outras caíram entre espinhos: e os espinhos cresceram e sufocaram-nas.
Outras caíram em terra boa e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; e outras, trinta.
Aquele que tiver ouvidos, oiça!»
Aproximando-se de Jesus, os discípulos disseram-lhe: «Porque lhes falas em parábolas?»
Respondendo, disse-lhes: «A vós é dado conhecer os mistérios do Reino do Céu, mas a eles não lhes é dado.
Pois, àquele que tem, ser-lhe-á dado e terá em abundância; mas àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado.
É por isso que lhes falo em parábolas: pois vêem, sem ver, e ouvem, sem ouvir nem compreender.
Cumpre-se neles a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis; e, vendo, vereis, mas não percebereis.
Porque o coração deste povo tornou se-duro, e duros também os seus ouvidos; fecharam os olhos, não fossem ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, compreender com o coração, e converter-se, para Eu os curar.
Quanto a vós, ditosos os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem.
Em verdade vos digo: Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e não viram, e ouvir o que estais a ouvir, e não ouviram.»
«Escutai, pois, a parábola do semeador.
Quando um homem ouve a palavra do Reino e não compreende, chega o maligno e apodera-se do que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente à beira do caminho.
Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe, de momento, com alegria;
mas não tem raiz em si mesmo, é inconstante: se vier a tribulação ou a perseguição, por causa da palavra, sucumbe logo.
Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra que, por isso, não produz fruto.
E aquele que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende: esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta.»