quinta-feira, 30 de junho de 2011

Refrescar

DESTAK | 29 | 06 | 2011   20.22H
João César das Neves |
Há um travo amargo na boca dos portugueses, deixado pela longa decadência do consulado Sócrates. Não é apenas a crise e os sacrifícios, mas o desprezo pelos políticos e funcionários e a suspeita das instituições. Portugal desconfia da sua democracia. Não falta quem diga que o país é mesmo mau e que há séculos não tem saída.
Passos Coelho enfrentou a questão com um Governo jovem, caras novas e independentes em pastas decisivas. Assim rasgou a rotina e abriu uma janela de esperança. Foi uma decisão inteligente e natural, também seguida por Soares em 1976, Cavaco em 1985, Guterres em 1995 e até Sócrates em 2005. Como se vê, refrescamos as elites de dez em dez anos (note-se que desta vez passaram só seis).
Mas isso não chega. É preciso que as caras novas aprendam a lidar com a velha máquina. Porque o país e o Estado não mudam com o novo ciclo político. Os grupos instalados são os mesmos e os aparelhos organizativos também. E não são maus. Defendem os seus interesses, como todos, e precisam de ser equilibrados para bem de todos. O país é bom; só falhou o Governo.
O grande desafio do novo executivo é convencer Portugal de que o mal que nos trouxe a esta situação extrema não constitui um vício antigo que nos assola há décadas, não vem do país ou da democracia. Foi apenas um grupo de políticos interesseiros e mentirosos que conseguiu manter a sociedade refém durante uns anos. Isso não é comportamento típico de portugueses, democratas ou sequer socialistas. É uma coisa triste, que acontece nos melhores países e regimes.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A turma do copianço

Graça Franco
RR on-line 29-06-2011 09:08

Não. Não era um exame para juízes, decisivo para as respectivas carreiras. Era, tão só, um take-home exam o que, traduzido para português, equivale a um teste para resolução em casa (com consulta) e versava sobre qualquer coisa como engenharia electrotécnica.

Os alunos eram cadetes da mais prestigiada academia de formação de oficiais norte-americanos ( West Point) e a cena passou-se no longínquo ano de 1976 .
Porque me lembro disto? Porque, imaginem, na resolução do teste com consulta foi detectada, para vergonha da Academia e consternação geral, uma situação de copianço generalizado.
Considerados Indignos da história da instituição e de fazerem parte da elite militar norte-americana 150 cadetes foram simplesmente expulsos da escola. Entre eles alguns assumiram a culpa e saíram por seu pé. Apresentada a respectiva defesa 98 vieram, posteriormente, a ser reintegrados. Para cinquenta e dois o sonho de uma vida terminou naquele exame caseiro de engenharia.
Mas o prestígio de West Point foi preservado. Dessa classe de 76, fazem parte Ray Odierno e Standley McCrystal , comandantes, respectivamente, das guerras do Iraque e do Afeganistão. No total há hoje, entre reserva e activo, 33 generais desta classe. Um número excepcionalmente elevado na história da academia. Ou seja, 76 acabou por ser um ano de “boa colheita”.
West Point não conseguiu impedir a nódoa mas soube preservar intocado o prestigio dos oficiais ali formados. Foi exactamente o contrário que se passou, por cá, no Centro de Estudos Judiciários. Agora, não será fácil afastar sobre a classe dos juízes formados em 2011 o anátema da turma do copianço.

29 de Junho - S. Pedro

 
S. Pedro
(1535-1542)
Vasco Fernandes
Museu Grão Vasco
Viseu

Nos 60 anos de ordenação do Papa Bento XVI

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI
Basílica Vaticana
29 de Junho de 2011

Amados irmãos e irmãs!
«Non iam servos, sed amicos» - «Já não vos chamo servos, mas amigos» (cf. Jo 15, 15). Passados sessenta anos da minha Ordenação Sacerdotal, sinto ainda ressoar no meu íntimo estas palavras de Jesus, que o nosso grande Arcebispo, o Cardeal Faulhaber, com voz um pouco débil já mas firme, nos dirigiu, a nós novos sacerdotes, no final da cerimónia da Ordenação. Segundo o ordenamento litúrgico daquele tempo, esta proclamação significava então a explícita concessão aos novos sacerdotes do mandato de perdoar os pecados. «Já não sois servos, mas amigos»: eu sabia e sentia que esta não era, naquele momento, apenas uma frase «de cerimónia»; e que era mais do que uma mera citação da Sagrada Escritura. Estava certo disto: neste momento, Ele mesmo, o Senhor, di-la a mim de modo muito pessoal. No Baptismo e na Confirmação, Ele já nos atraíra a Si, acolhera-nos na família de Deus. Mas o que estava a acontecer naquele momento, ainda era algo mais. Ele chama-me amigo. Acolhe-me no círculo daqueles que receberam a sua palavra no Cenáculo; no círculo daqueles que Ele conhece de um modo muito particular e que chegam assim a conhecê-Lo de modo particular. Concede-me a faculdade, que quase amedronta, de fazer aquilo que só Ele, o Filho de Deus, pode legitimamente dizer e fazer: Eu te perdoo os teus pecados. Ele quer que eu – por seu mandato – possa pronunciar com o seu «Eu» uma palavra que não é meramente palavra mas acção que produz uma mudança no mais íntimo do ser. Sei que, por detrás de tais palavras, está a sua Paixão por nossa causa e em nosso favor. Sei que o perdão tem o seu preço: na sua Paixão, Ele desceu até ao fundo tenebroso e sórdido do nosso pecado. Desceu até à noite da nossa culpa, e só assim esta pode ser transformada. E, através do mandato de perdoar, Ele permite-me lançar um olhar ao abismo do homem e à grandeza do seu padecer por nós, homens, que me deixa intuir a grandeza do seu amor. Diz-me Ele em confidência: «Já não és servo, mas amigo». Ele confia-me as palavras da Consagração na Eucaristia. Ele considera-me capaz de anunciar a sua Palavra, de explicá-la rectamente e de a levar aos homens de hoje. Ele entrega-Se a mim. «Já não sois servos, mas amigos»: trata-se de uma afirmação que gera uma grande alegria interior mas ao mesmo tempo, na sua grandeza, pode fazer-nos sentir ao longo dos decénios calafrios com todas as experiências da própria fraqueza e da sua bondade inexaurível.
«Já não sois servos, mas amigos»: nesta frase está encerrado o programa inteiro duma vida sacerdotal. O que é verdadeiramente a amizade? Idem velle, idem nolle – querer as mesmas coisas e não querer as mesmas coisas: diziam os antigos. A amizade é uma comunhão do pensar e do querer. O Senhor não se cansa de nos dizer a mesma coisa: «Conheço os meus e os meus conhecem-Me» (cf. Jo 10, 14). O Pastor chama os seus pelo nome (cf. Jo 10, 3). Ele conhece-me por nome. Não sou um ser anónimo qualquer, na infinidade do universo. Conhece-me de modo muito pessoal. E eu? Conheço-O a Ele? A amizade que Ele me dedica pode apenas traduzir-se em que também eu O procure conhecer cada vez melhor; que eu, na Escritura, nos Sacramentos, no encontro da oração, na comunhão dos Santos, nas pessoas que se aproximam de mim mandadas por Ele, procure conhecer sempre mais a Ele próprio. A amizade não é apenas conhecimento; é sobretudo comunhão do querer. Significa que a minha vontade cresce rumo ao «sim» da adesão à d’Ele. De facto, a sua vontade não é uma vontade externa e alheia a mim mesmo, à qual mais ou menos voluntariamente me submeto ou então nem sequer me submeto. Não! Na amizade, a minha vontade, crescendo, une-se à d’Ele: a sua vontade torna-se a minha, e é precisamente assim que me torno de verdade eu mesmo. Além da comunhão de pensamento e de vontade, o Senhor menciona um terceiro e novo elemento: Ele dá a sua vida por nós (cf. Jo 15, 13; 10, 15). Senhor, ajudai-me a conhecer-Vos cada vez melhor! Ajudai-me a identificar-me cada vez mais com a vossa vontade! Ajudai-me a viver a minha existência, não para mim mesmo, mas a vivê-la juntamente convoco para os outros! Ajudai-me a tornar-me sempre mais vosso amigo!
Esta palavra de Jesus sobre a amizade situa-se no contexto do discurso sobre a videira. O Senhor relaciona a imagem da videira com uma tarefa dada aos discípulos: «Eu vos destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça» (Jo 15, 16). A primeira tarefa dada aos discípulos, aos amigos, é pôr-se a caminho – destinei, para que vades –, sair de si mesmos e ir ao encontro dos outros. A par desta, podemos ouvir também a frase que o Ressuscitado dirige aos seus e que aparece na conclusão do Evangelho de Mateus: «Ide fazer discípulos de todas as nações…» (cf. Mt 28, 19). O Senhor exorta-nos a superar as fronteiras do ambiente onde vivemos e levar ao mundo dos outros o Evangelho, para que permeie tudo e, assim, o mundo se abra ao Reino de Deus. Isto pode trazer-nos à memória que o próprio Deus saiu de Si, abandonou a sua glória, para vir à nossa procura e trazer-nos a sua luz e o seu amor. Queremos seguir Deus que Se põe a caminho, vencendo a preguiça de permanecer cómodos em nós mesmos, para que Ele mesmo possa entrar no mundo.
Depois da palavra sobre o pôr-se a caminho, Jesus continua: dai fruto, um fruto que permaneça! Que fruto espera Ele de nós? Qual é o fruto que permanece? Sabemos que o fruto da videira são as uvas, com as quais depois se prepara o vinho. Por agora detenhamo-nos sobre esta imagem. Para que as uvas possam amadurecer e tornar-se boas, é preciso o sol mas também a chuva, o dia e a noite. Para que dêem um vinho de qualidade, precisam de ser pisadas, há que aguardar com paciência a fermentação, tem-se de seguir com cuidadosa atenção os processos de maturação. Características do vinho de qualidade são não só a suavidade, mas também a riqueza das tonalidades, o variegado aroma que se desenvolveu nos processos da maturação e da fermentação. E por acaso não constitui já tudo isto uma imagem da vida humana e, de modo muito particular, da nossa vida de sacerdotes? Precisamos do sol e da chuva, da serenidade e da dificuldade, das fases de purificação e de prova mas também dos tempos de caminho radioso com o Evangelho. Num olhar de retrospectiva, podemos agradecer a Deus por ambas as coisas: pelas dificuldades e pelas alegrias, pela horas escuras e pelas horas felizes. Em ambas reconhecemos a presença contínua do seu amor, que incessantemente nos conduz e sustenta.
Agora, porém, devemos interrogar-nos: de que género é o fruto que o Senhor espera de nós? O vinho é imagem do amor: este é o verdadeiro fruto que permanece, aquele que Deus quer de nós. Mas não esqueçamos que, no Antigo Testamento, o vinho que se espera das uvas boas é sobretudo imagem da justiça, que se desenvolve numa vida segundo a lei de Deus. E não digamos que esta é uma visão veterotestamentária, já superada. Não! Isto permanece sempre verdadeiro. O autêntico conteúdo da Lei, a sua summa, é o amor a Deus e ao próximo. Este duplo amor, porém, não é qualquer coisa simplesmente doce; traz consigo o peso da paciência, da humildade, da maturação na educação e assimilação da nossa vontade à vontade de Deus, à vontade de Jesus Cristo, o Amigo. Só deste modo, tornando verdadeiro e recto todo o nosso ser, é que o amor se torna também verdadeiro, só assim é um fruto maduro. A sua exigência intrínseca, ou seja, a fidelidade a Cristo e à sua Igreja, requer sempre que se realize também no sofrimento. É precisamente assim que cresce a verdadeira alegria. No fundo, a essência do amor, do verdadeiro fruto, corresponde à palavra relativa ao pôr-se a caminho, ao ir: amor significa abandonar-se, dar-se; leva consigo o sinal da cruz. Neste contexto, disse uma vez Gregório Magno: Se tendeis para Deus, tende cuidado que não O alcanceis sozinhos (cf. H Ev 1, 6, 6: PL 76, 1097s). Trata-se de uma advertência que nós, sacerdotes, devemos ter intimamente presente cada dia.
Queridos amigos, talvez me tenha demorado demasiado com a recordação interior dos sessenta anos do meu ministério sacerdotal. Agora é tempo de pensar naquilo que é próprio deste momento.
Na solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, antes de mais nada dirijo a minha mais cordial saudação ao Patriarca Ecuménico Bartolomeu I e à Delegação por ele enviada, cuja aprazível visita na ocasião feliz da festa dos Santos Apóstolos Padroeiros de Roma, vivamente agradeço. Saúdo também os Senhores Cardeais, os Irmãos no Episcopado, os Senhores Embaixadores e as autoridades civis, como também os sacerdotes, os colegas da minha Missa Nova, os religiosos e os fiéis leigos. A todos agradeço a presença e a oração.
Aos Arcebispos Metropolitanos nomeados depois da última festa dos grandes Apóstolos, será agora imposto o pálio. Este, que significa? Pode recordar-nos em primeiro lugar o jugo suave de Cristo que nos é colocado aos ombros (cf. Mt 11, 29-30). O jugo de Cristo coincide com a sua amizade. É um jugo de amizade e, consequentemente, um «jugo suave», mas por isso mesmo também um jugo que exige e plasma. É o jugo da sua vontade, que é uma vontade de verdade e de amor. Assim, para nós, é sobretudo o jugo de introduzir outros na amizade com Cristo e de estar à disposição dos outros, de cuidarmos deles como Pastores. E assim chegamos a um novo significado do pálio: este é tecido com a lã de cordeiros, que são benzidos na festa de Santa Inês. Deste modo recorda-nos o Pastor que Se tornou, Ele mesmo, Cordeiro por nosso amor. Recorda-nos Cristo que Se pôs a caminho pelos montes e descampados, aonde o seu cordeiro – a humanidade – se extraviara. Recorda-nos como Ele pôs o cordeiro, ou seja, a humanidade – a mim – aos seus ombros, para me trazer de regresso a casa. E assim nos recorda que, como Pastores ao seu serviço, devemos também nós carregar os outros, pô-los por assim dizer aos nossos ombros e levá-los a Cristo. Recorda-nos que podemos ser Pastores do seu rebanho, que continua sempre a ser d’Ele e não se torna nosso. Por fim, o pálio significa também, de modo muito concreto, a comunhão dos Pastores da Igreja com Pedro e com os seus sucessores: significa que devemos ser Pastores para a unidade e na unidade, e que só na unidade, de que Pedro é símbolo, guiamos verdadeiramente para Cristo.
Sessenta anos de ministério sacerdotal! Queridos amigos, talvez me tenha demorado demais nos pormenores. Mas, nesta hora, senti-me impelido a olhar para aquilo que caracterizou estes decénios. Senti-me impelido a dizer-vos – a todos os presbíteros e Bispos, mas também aos fiéis da Igreja – uma palavra de esperança e encorajamento; uma palavra, amadurecida na experiência, sobre o facto que o Senhor é bom. Mas esta é sobretudo uma hora de gratidão: gratidão ao Senhor pela amizade que me concedeu e que deseja conceder a todos nós. Gratidão às pessoas que me formaram e acompanharam. E, subjacente a tudo isto, a oração para que um dia o Senhor na sua bondade nos acolha e faça contemplar a sua glória. Amen.

Individualismo e solidão

Pe. Rodrigo Lynce de Faria
Mais do que procurarem compreender-se um ao outro, punham-se de acordo. Era tão simples. Bastava deixar que os problemas se resolvessem por si. Desde o dia do casamento — já lá iam cinco anos — um princípio fundamental tinha ficado assente: não discutiriam nunca. Assim — pensavam eles — a paz no lar estaria garantida. E com a paz viria a alegria e o êxito matrimonial. Além disso, a ausência de qualquer tipo de controvérsias evitaria pela raiz a difícil tarefa de perdoar e de pedir perdão.
Com esta filosofia de vida, pouco a pouco e sem darem por isso, foram-se distanciando um do outro. Habituaram-se a uma desunião que não reconheciam como tal. Consideravam que nunca “incomodar” o outro era um sinal de verdadeiro amor. Pensavam que, pelo simples facto de viverem debaixo do mesmo tecto, existiria sempre uma intensa união entre eles.
No entanto, de um dia para o outro e sem se saber porquê, ela começou a ter manifestações de tristeza. Eram desânimos impregnados de uma sensação difusa de solidão. Não conseguia perceber a causa. “Não era a sua vida um mar de rosas?” — perguntava-se. “Não estava ela isenta de discussões? Então, porquê esta sensação tão estranha?”. Não ficou surpreendida com que o seu marido — sempre tão ocupado com as suas coisas — ficasse imperturbado diante desta situação. Há muito tempo que ela se acostumara a que ele não se metesse nos seus domínios privados. Era esse um dos segredos da “felicidade” do casal.
Este relato ajuda-nos a pensar sobre a atitude individualista, tão presente na nossa sociedade. Esta atitude é muitas vezes apresentada como a grande panaceia para evitar todo o tipo de conflitos. “Vive e deixa viver”. “Não te rales com nada”. “Sê tolerante com tudo, desde que não te incomodem”.
O problema é que o individualismo — verdadeiro cancro do relacionamento humano — termina sempre por isolar as pessoas umas das outras. É verdade que não é ideal que um casal esteja constantemente a discutir. E menos ainda que o faça de um modo veemente e diante dos filhos. No entanto, também é verdade que a ausência completa de pequenos desentendimentos não manifesta saúde matrimonial. Muito pelo contrário. Manifesta, isso sim, uma certa atitude de indiferença. E a indiferença — “prima” do individualismo — acaba por gelar o amor humano.
É ingénuo pensar que marido e mulher nunca terão de pedir desculpas um ao outro. Isso é impossível. Cada um de nós, por muito que se esforce, acaba sempre por ofender de algum modo aqueles que são mais próximos. E não existem pessoas mais próximas uma da outra do que aquelas que estão casadas. Por isso, a capacidade de perdoar e de pedir perdão — unida, evidentemente, ao esforço real por não ofender o outro — é de capital importância para a união de um casal. Perdoar é uma demonstração de verdadeiro amor.
Como dizia Paul Johnson: «Os casamentos que duram constroem-se sobre estratos arqueológicos de discussões esquecidas. Os segredos de um casamento bem edificado são a paciência, a tolerância, o domínio de si, a disposição para perdoar e — quando tudo isto falta — uma boa “má memória”. Também ajuda, obviamente, que o marido esteja disposto a carregar com a culpa, como deve ser».

Programa do XIX Governo Constitucional


Programa_GC19

terça-feira, 28 de junho de 2011

Bento XVI nomeia cardeal Angelo Scola como novo arcebispo de Milão

D.R. | Cardeal Angelo Scola
Cidade do Vaticano, 28 jun 2011 (Ecclesia) – Bento XVI nomeou hoje como arcebispo de Milão o cardeal Angelo Scola, até agora patriarca de Veneza, que sucede no cargo ao cardeal Dionigi Tettamanzi, revelou a sala de imprensa da Santa Sé.
O novo arcebispo, de 69 anos, é natural da região milanesa e passa a liderar aquela que é considerada a segunda diocese mais importante da Itália, depois de Roma, que conta com um rito litúrgico próprio, o ambrosiano.
Milão, cerca de 600 quilómetros a norte da capital italiana, era a diocese natal de Pio XI (1792-1878) e Paulo VI (1897-1978), tidos como dois dos Papas mais importantes dos últimos séculos.
O cardeal Angelo Scola, com uma forte ligação ao movimento internacional ‘Comunhão e Libertação’ que é hoje sublinhada pela Rádio Vaticano, colaborou na fundação da revista teológica ‘Communio’ e foi recentemente escolhido por Bento XVI para integrar o novo Conselho Pontifício para a Promoção da nova Evangelização.
Em Veneza, onde chegou em 2002, o cardeal italiano criou o centro ‘Oasis’, para a promoção do diálogo entre cristãos e muçulmanos.
Falando na conferência de imprensa promovida esta manhã pelo patriarcado de Veneza, o cardeal Scola revelou “acolher” com obediência a decisão do Papa e pede que os fiéis o façam “da mesma maneira”.
A imprensa italiana tem apresentado esta opção de Bento XVI como uma “escolha pessoal”, sublinhando que é a primeira vez nos tempos modernos que um patriarca de Veneza é nomeado arcebispo de Milão.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Portugal socialista

DN 2011-06-27 JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Portugal é um país socialista. Os portugueses gostam de ter o Estado a acompanhar a sua vida, a regular, a tomar conta, a fornecer apoios e serviços, a prometer benesses. O ideal de vida da população média é o funcionário público, com trabalho à secretária, horário fixo, emprego seguro, promoção automática.
Esta verdade é antiga e manifestou-se de várias formas. Pombal chamou-lhe "despotismo esclarecido", Fontes Pereira de Melo "modernização e progresso", Salazar "Estado corporativo", mas era isto que queriam dizer. Fomos socialistas na Casa da Índia e na Casa do Douro, no condicionamento industrial, adesão à EFTA e mercado único.
Somos um país em que acusar alguém de "fins lucrativos" é ofensivo e a simples presença de privados na saúde e educação lança alarme. É verdade que depois todos dizem mal do Estado, escolas e hospitais públicos e acabam por ir à privada. Criticar o Governo, câmaras e serviços é desporto institucional. Os políticos são todos horríveis e os burocratas incompetentes e abusadores. Mas não vivemos sem eles.
Isto não é bom nem mau. É um facto. Nos séculos de socialismo tivemos épocas excelentes e terríveis, crescimentos e recessões. Hoje os nossos partidos, do Bloco ao CDS, são variantes deste socialismo, todos muito à Esquerda da realidade americana ou britânica. Tudo aponta para uma verdade simples: o liberalismo não floresce nestas terras. Fora de uma pequena elite, que gosta de lamentar o país, a sociedade é assumidamente estatista. E será durante séculos.
Vem isto a propósito da actual situação política e evolução próxima, que parecem pô-lo em causa. Acabaram mal os últimos 15 anos de governos assumidamente socialistas, que incluíram a sua única maioria. Agora sofremos a reacção. A emergência financeira trouxe o FMI, com um programa que pretende "assegurar condições concorrenciais equitativas e minimizar comportamentos abusivos de procura de rendimentos (rent-seeking behaviours), reforçando a concorrência" (Memorando de entendimento sobre as condicionalidades de política económica, 7.18) e "rever o sistema de prestações de desemprego (...) implementar reformas na legislação relativa à protecção ao emprego" (4). Será o fim do socialismo nacional?
A Esquerda usou já a campanha eleitoral para avisar do perigo do liberalismo desbragado (o que gerou o momento mais hilariante dos debates, a 17 de Maio na TVI, com Francisco Louçã a acusar Passos Coelho de "radicalismo extremista", que na sua boca deveria ser elogio). Omite-se a emergência financeira e refere-se só a perversidade congénita do FMI, monstro que se delicia a devorar direitos dos povos. Será também esse o tom da contestação que se prepara na rua, jornais e parlamento. O Governo será recorrentemente acusado de economicismo ideológico e fundamentalismo libertário. Mas vamos entrar mesmo na primeira experiência real de liberalismo lusitano?
Não se fazem voos picados com galinhas nem há tigres na charneca. Portugal é um país socialista. O que quer que se verifique nos próximos anos será uma forma de socialismo, com sindicatos e repartições, portarias e regulamentos, inspectores e impressos. Não se imagina o país sem Segurança Social, Serviço Nacional de Saúde e educação estatal. A CP, RTP, EDP, TAP permanecerão companhias majestáticas e continuará a pedir-se ao Estado que defina o desígnio nacional e decida os sectores estratégicos. Adoramos ter o Governo a regular, tomar conta, fornecer apoios, serviços e benesses.
Quer isto dizer que o FMI falhará? Pelo contrário. Somos o único país do mundo onde esses programas funcionam bem, como em 1978 e 1983. Porque, além de socialista, Portugal é um país comerciante. Os portugueses são realistas, cépticos e brilhantes improvisadores. Face à urgência, inven- tam mil formas de atingir as exigências e cumprir a obrigação. As metas serão satisfeitas. Mais ou menos, mas de forma suficiente. Vamos conseguir pagar as contas, ajustar detalhes e corrigir exageros. Sempre permanecendo no nosso alegre e pacato socialismo.

Tempo de esperança

Público 2011-06-27 João Carlos Espada
Raramente nas últimas décadas teremos tido entre nós condições mais favoráveis a reformas políticas

O novo director da Fundação Konrad Adenauer para Espanha e Portugal, Thomas Stehling, promoveu em Lisboa, durante o fim-de-semana, a conferência regional anual daquela fundação alemã, dedicada à reflexão estratégica. Foi uma ocasião estimulante que permitiu ouvir sensibilidades diferentes, vindas sobretudo de responsáveis alemães, ingleses e espanhóis.
O tema central do encontro era a "Primavera árabe", mas o centro das interrogações estava sobretudo no futuro do euro. Paulo Portas falou na sessão de abertura, como novo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Foi a sessão mais concorrida, com uma vasta plateia de embaixadores estrangeiros. Esperava-se uma apresentação da nova política externa do novo Governo de Lisboa.
Paulo Portas fez um vigoroso discurso de política externa, e para ouvidos externos, mas não falou sobre a política externa portuguesa. Explicou que não devia fazê-lo, antes da apresentação do programa do novo Governo no Parlamento. Preferiu explicar a nova situação política portuguesa e enumerar as condições que vão permitir a Portugal cumprir o acordo com a troika. A impressão final, na audiência, foi a de que tinha sido convincente.
Portugal tem realmente condições invulgarmente favoráveis para enfrentar a situação financeira - que é invulgarmente desfavorável. Os partidos da nova coligação governamental dispõem de maioria parlamentar confortável e de maioria eleitoral. Existe significativa convergência programática entre os dois partidos. Existe também uma hierarquia eleitoral clara entre eles, o que desincentiva quezílias desnecessárias.
O novo Governo foi constituído em tempo recorde e apresentou caras novas, com sólidos currículos profissionais. Dispõe da confiança do Presidente da República. Mesmo o episódio da não-eleição de Fernando Nobre para a presidência do Parlamento - que poderia ter sido sombrio - foi superado com elegância e acabou por ter um final feliz.
Acresce que o maior partido da oposição foi o promotor e primeiro subscritor do acordo com a troika. A extrema-esquerda sofreu um recuo eleitoral vincado e o Partido Comunista limita-se a resistir no declínio. Por outras palavras, Portugal tem uma esmagadora maioria parlamentar, eleitoral e social favorável à aplicação do acordo internacional de saneamento financeiro.
Raramente, nas últimas décadas - talvez desde os primeiros mandatos da coabitação entre as maiorias absolutas de Mário Soares, em Belém, e de Cavaco Silva, em São Bento -, teremos tido entre nós condições mais favoráveis a reformas políticas. É certo que o desafio é enorme e o risco de saída do euro é simplesmente brutal. Mas Portugal teve já duas experiências de sucesso com o FMI, e os portugueses estão obviamente convencidos de que não há alternativa ao plano de reformas.
É agora imprescindível que o novo Governo não interprete mal estas boas notícias. Elas simplesmente representam uma enorme responsabilidade para o executivo. Não há desculpas para falhar. E o preço do fracasso seria colossal.
É imperioso que a coligação mantenha os boys fora dos lugares de controlo e que os apetites das máquinas partidárias sejam implacavelmente dominados. As habituais clientelas, públicas e privadas, têm de ser submetidas a uma dose maciça de concorrência. E o queixume terceiro-mundista contra o capitalismo deve dar lugar a um clima de confiança na empresa livre, na poupança e no investimento. Talvez não seja impossível. Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa; titular da cátedra European Parliament/Bronislaw Geremek in European Civilization no Colégio da Europa, Campus de Natolin, Varsóvia

domingo, 26 de junho de 2011

Carta Encíclica de João XXIII: 50 anos da Mater Et Magistra

Jornal W 26 Jun. 2011
Publicada a 15 de Maio de 1961, a Mater et Magistra de João XXIII é considerada um dos principais documentos da doutrina social da Igreja. As suas respostas aos problemas sociais da época podem servir de solução aos desequilíbrios actuais.
Para marcar o 50º aniversário da Mater et Magistra o Conselho Pontifício “Justiça e Paz” organizou no passado mês de Maio em Roma um congresso internacional com o objectivo de estudar, difundir e experimentar a doutrina social da Igreja, a partir da encíclica de João XIII e da Caritas in Veritate de Bento XVI.
A originalidade da Mater et Magistra consistiu em trazer para a doutrina social da Igreja os graves problemas do sector agrícola e dos trabalhadores do campo, dos que passam fome, a dificuldade de acesso à terra para os que nela trabalham, os desequilíbrios entre a agricultura, a indústria e os serviços e ainda as desigualdades entre os países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento.
João XIII no seu tempo
Na altura, o Papa João XIII sugeriu três critérios para analisar e resolver os problemas da conjuntura mundial: a verdade, o amor e a justiça, elementos que Bento XVI retomou na Caritas in Veritate e aos quais acrescentou o princípio do destino universal dos bens, que para o actual pontífice continuam sendo “os pilares para interpretar e procurar solucionar também os desequilíbrios internos da globalização actual”.
A encíclica surgiu num contexto marcado pela questão social, pelo papel crescente dos sindicatos que reivindicam a melhoria nas condições de trabalho, pelo desequilíbrio entre o sector agrícola obsoleto e a rápida modernização da indústria e dos serviços, pelas desigualdades entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, pela queda dos colonialismos e pelo aparecimento do neocolonialismo depois da euforia das independências.
A nível eclesial, o Papa Roncalli marca uma viragem com a convocação do Concílio Vaticano II. A Igreja passa a estar menos centra em si mesma e mais focada nas necessidades e angústias da humanidade, está atenta aos “sinais dos tempos” e a responde aos gritos dos pobres, numa atitude mais pastoral e menos defensiva.
Novidades da Mater Et Magistra
As grandes novidades da Mater et Magistra foram, em primeiro lugar, como o título indica, o facto de a Igreja se apresentar como “mãe e mestra”, que anima mais do que reprova, corrige mais do que condena, ama mais do recrimina. Pela primeira vez um documento pontifício dirige-se não só aos bispos, clero e fiéis, mas a “todos os homens de boa vontade”. Nova foi também a ideia de que a construção de um mundo mais justo é tarefa de todas as pessoas e instituições civis, nacionais e internacionais, dos Estados e dos sindicatos. É neste sentido que a encíclica deu o seu apoio a duas organizações internacionais, a Organização Mundial do Trabalho e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação.
Na audiência aos 200 participantes no congresso internacional que assinalou os 50 anos da Mater et Magistra, Bento XVI assinalou a “grande actualidade também no mundo globalizado” do documento pelas respostas que deu aos problemas de então e que podem servir de critérios de análise e solução aos desequilíbrios de hoje. O Papa reafirmou a necessidade de uma nova evangelização do social que ofereça “luz para os desafios e exigências da justiça e do bem comum”.
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Evangelização do social
“A questão social contemporânea é sem dúvida um problema de justiça social mundial, como de resto já recordava a Mater et Magistra há cinquenta anos, ainda que tenha sido com referência a outro contexto. Além disso, é uma questão de distribuição equitativa dos recursos materiais e imateriais, de globalização da democracia substancial, social e participativa. Por isso, num contexto onde se vive uma unificação progressiva da humanidade, é indispensável que a nova evangelização do social ponha em evidência as implicações de uma justiça que deve ser realizada a nível universal”.
(Palavras de Bento XVI a propósito do 50º aniversário da Mater et Magistra)
Pe. António Carlos Ferreira, membro da CJP - CIRP

sábado, 25 de junho de 2011

Copianço, magistratura e sociedade

Público 2011-06-25  Pedro Vaz Patto É ilusório pretender que os candidatos a magistrados não deixem de reflectir os vícios da sociedade de onde provêm

Muitos concordarão com o comentário do antigo Presidente da República Jorge Sampaio a propósito do chamado "caso copianço": à já tão afectada credibilidade da Justiça não convinha nada mais este abalo.
Os que têm procurado dedicar o melhor de si à formação dos futuros magistrados (fi-lo durante nove anos e até ao ano passado) serão os primeiros a lamentar o episódio e a recusar minimizar o seu significado de sintoma da menor postura ética de alguns dos actuais candidatos às magistraturas.
Mas importa não deixar que um triste episódio isolado destrua o património de prestígio de uma instituição que se foi consolidando ao longo dos anos. A desconfiança nessa instituição há-de reflectir-se na desconfiança em relação aos magistrados nela formados, que hoje estão nos tribunais. O gosto do escândalo pelo escândalo, ou da polémica corporativa, não pode levar a esquecer efeitos colaterais como este, com o que todos verdadeiramente perdem. Opinar sem perfeito conhecimento de causa também é comum em ocasiões como esta. E, neste caso, é evidente o risco de fazer transparecer para a opinião pública uma caricatura do que vem sendo a formação de magistrados.
O nosso sistema vem sendo observado como modelo por países (designadamente da Europa de Leste) que, no âmbito da consolidação do Estado de direito, implementaram nos últimos anos sistemas de formação de magistrados. Influenciou directamente algumas das escolas aí criadas. Vários dos docentes do CEJ participaram em acções de formação de formadores nesses países. Como reflexo do prestígio que o nosso sistema granjeou em toda a Europa, o cargo de secretário da Rede Europeia de Formação Judiciária é hoje ocupado por um português em representação do CEJ.
A avaliação dos futuros magistrados depende essencialmente de um acompanhamento personalizado por parte de vários formadores, não depende de testes de escolha múltipla (que nela ocupam um papel de todo marginal, explicado pelas particularidades das matérias em causa e da sua leccionação) em que se possa copiar. Nessa avaliação tem papel preponderante, para além dos aspectos de técnica jurídica, a apreciação de aspectos pessoais de sociabilidade, sensatez e equilíbrio, sentido de justiça, capacidade de ponderação e decisão e postura ética e deontológica. Foram vários os candidatos recusados por apresentarem falhas nestes planos e por motivos que certamente não os impediriam, nem impedem, de exercer outras profissões, jurídicas ou não. Há a clara consciência de que a um magistrado são exigíveis qualidades pessoais e padrões éticos superiores aos do comum dos cidadãos.
Sempre considerei que podia, e devia, confiar nos candidatos às magistraturas que ajudei a formar nestes nove anos, que haveriam de exercer funções em tribunais necessariamente sem a vigilância contínua de um inspector. Não posso dizer que "ponho as mãos no fogo" por todos eles (tal seria impossível, mesmo no mais rigoroso dos sistemas), mas estou à vontade para dizer que o faço em relação à esmagadora maioria.
O que concluo deste episódio é que é ilusório pretender que os candidatos a magistrados não deixem de reflectir os vícios da sociedade de onde provêm, como se fossem feitos de outra "massa", ou tivessem um "gene" especial. Não é assim. Numa sociedade onde os padrões éticos se deterioram, é natural que isso se reflicta nas atitudes desses candidatos. Ninguém ignora como impera entre nós a tolerância para com o "copianço", a pequena fraude e a pequena desonestidade. Desde os bancos de escola, nos vários graus de ensino, até às mais variadas profissões e até à classe política (há anos, o escândalo de deputados que assinalavam a sua presença em reuniões a que faltavam não assumiu estas proporções). Mas "quem é infiel nas pequena coisas também o é nas grandes"...
Oxalá o "caso copianço", como um choque que serve de alerta, um "mal que vem por bem", sirva para mudar estes hábitos e esta mentalidade, entre os candidatos às magistraturas e não só... Juiz

sexta-feira, 24 de junho de 2011

As setas, os asteriscos e a maldição dos quadros explicativos

Público 2011-06-23  Helena Matos
Estive a ver nos manuais da antiga 4.ª classe ao actual 12.º ano os nomes das disciplinas de Português e História. É assustador

Alinhei-os todos numa mesa. Vão desde a antiga 4.ª classe ao actual 12.º ano. São várias dezenas de manuais escolares das disciplinas de Português e História, ou melhor dizendo, dos vários nomes que essas duas disciplinas têm tido ao longo dos últimos 40 anos. O resultado é assustador.

1.Crianças grandes. Ao arrumá-los por data de publicação o que imediatamente sobressai é a infantilização patente nos actuais manuais. Por exemplo, um manual de Português de 1972, usado no equivalente ao actual 7.º unificado, só tem paralelo no trato adulto daqueles a quem se dirige nos manuais actualmente destinados ao 10.º ano (e mesmo assim o 10.º ano está aqui com muita benevolência). Hoje dificilmente encontramos nos manuais de Português uma página em que só haja texto. Que não tenha uma caixinha com linhas de leitura, um quadrinho explicativo, um asterisco a indicar os significados das palavras tidas como difíceis, uma fotografia daquelas de banco de imagem que dão bem com tudo, umas ilustrações quase invariavelmente a remeterem para os livrinhos do jardim-de-infância, o crucigrama (vulgo palavras cruzadas) e o inevitável quadro das correspondências.

Na fantasia barroca constituída pelas páginas destes manuais detecta-se uma espécie de horror ao vazio, ou seja, à possibilidade de alunos e professores ficarem sós perante um texto. É como se alunos e professores tivessem como objectivo não aprender e ensinar mas sim a execução de umas actividades comuns. De preferência envoltas numa parafrenália lúdico-desconstrutiva que os tornará "giros".

Como já escrevi várias vezes, tenho inúmeras reservas quanto ao desperdício de dinheiro e papel representado pelo facto de em Portugal não se reutilizarem os manuais escolares. Contudo, no que ao conteúdo dos manuais respeita, creio que os editores se limitam a seguir o ar do tempo. E o ar do tempo das últimas décadas levou a que se tratassem os jovens como adultos no que respeita à sua sexualidade, lazer, poder de compra, e como crianças no que toca aos seus deveres e à sua condição de alunos. É tempo de nos interrogarmos como pode ser possível que os alunos dos anos 70 resolvessem no equivalente ao actual 9.º ano testes que agora fazem vacilar os seus colegas do 12.º ano.

Os alunos de hoje não são menos inteligentes que os do passado, as escolas estão actualmente muito melhor apetrechadas, por pouco alfabetizados que sejam os pais de muitos alunos certamente que têm muito mais habilitações que os pais das gerações anteriores. Mas creio que se há 40 anos nos tivessem tratados como criancinhas o resultado não teria sido nada diferente do actual. Provavelmente, teria sido até bem pior.

2.O horror à literatura e aos livros. Se alguma coisa emana dos manuais de Língua Portuguesa ou Português do 9.º, 10.º, 11.º e 12.º anos é um profundo fastio aos livros em si mesmos. Obras como O Auto da Barca do Inferno, Os Lusíadas, A Aia, Folhas Caídas, O Primo Basílio ou Os Maias são devidamente esquartejados em capítulos, excertos e parágrafos seleccionados. O critério para esta segmentação está longe de ser claro - num dos manuais mais populares em vigor no 9.º ano não consta o episódio do Velho do Restelo - e basicamente as obras são desconjuntadas de molde a ilustrarem as teses que constam nas fichas de leitura e quadros interpretativos. Creio que muitos alunos terminam o 12.º ano sem terem consciência de que aqueles pedaços de texto constituem livros e que esses livros têm muitas outras páginas que mereciam ser lidas. Por fim, esta apresentação "mastigada" de alguns dos nossos melhores autores contribui para aquela nefanda ideia de que existem livros fáceis e livros difíceis.

Seria um extraordinário contributo para o gosto pela literatura que em vez desses grossos volumes de literatura às postas que são os manuais do 10.º ao 12.º anos, os alunos passassem a usar as edições anotadas destas obras, cujo valor monetário todo somado é mais ou menos o do manual.

3. Sem rei nem roque. A tabuada e os reis foram durante anos os símbolos da pérfida memorização. As crianças memorizam canções, dezenas de nomes de actores, jogadores, cantores, jogos, etc., mas memorizar o nome dos sucessores de D. Afonso Henriques e a tabuada dos nove eram exercícios vistos como desumanos, além de inúteis.

O paradigma da total inutilidade ia para os exames cuja extinção era tida como certa. Se procurarem nas edições do Diário de Lisboa e do Diário Popular dos anos 80 encontrarão vozes tidas como profundamente informadas na matéria desenhando um futuro onde os exames não constariam. Como se percebe, a profecia sobre os exames transformou-se numa maldição e agora vivemos assombrados pelo peso dos exames escolares.

A tabuada também já foi recuperada. Já os reis, entendendo por reis a sequência cronológica da História de Portugal, continuam arredados. Porque o ensino cronológico da História, sobretudo tendo essa cronologia como marco a figura de cada rei, foi vista como uma opção reaccionária perante a modernidade representada pela apresentação da História como os movimentos da burguesia e do povo contra a aristocracia, depois do povo contra a burguesia... enfim, tudo sempre no colectivo. Com o passar dos anos foram-se incluindo uns rostos no meio dessas movimentações sociais mas não se percebe qual a continuidade entre os factos. No 8.º ano de escolaridade pula-se do desenvolvimento do iluminismo para as invasões francesas e posteriores revoltas liberais. Como praticamente não se refere o reinado de Dona Maria I, e a transferência da corte portuguesa para o Brasil é resolvida em duas linhas, o mínimo que se pode concluir é que os alunos das escolas portuguesas sabem tão pouco que nem percebem que nesta narrativa falta qualquer coisa.

É certo que os alunos quando chegam ao 8.º ano já ultrapassaram aquela que deve ser a mais espantosa súmula da História de Portugal. A saber, o programa do 5.º ano, que começa com os povos recolectores na Península Ibérica e vai até ao absolutismo do século XVIII. Pelo meio, devidamente arrumados em unidades, ficaram, e passo a citar o índice de um manual em vigor: os povos agro-pastoris, os povos visitantes, os romanos, os muçulmanos, o reino de Portugal, os grupos sociais e actividades económicas no século XIII, as terras senhoriais no século XIII, os mosteiros no século XIII, os concelhos no século XIII, a crise de 1383-1385, as descobertas do século XV, o império português nos século XV e XVI, o encontro dos mundos, Lisboa quinhentista, o tempo dos Filipes e a Restauração, o açúcar e o ouro do Brasil.

A não ser que os infantes de dez e onze anos que frequentam o 5.º ano tivessem uma preparação de excelência a História no ensino primário - e não têm e provavelmente nem deverão ter -. só podem sair completamente desnorteados destas aulas, destes programas e destes manuais.

4.Será que é desta? Penso que com uma crise desta dimensão fica óbvio que não se pode continuar a impor às famílias que gastem em média cem euros por cada filho em idade escolar em manuais. E também não se deve considerar que o Estado pagará por aquelas que têm menos recursos. A partir do 5.º ano, os manuais escolares podem e devem ser utilizados mais do que num ano lectivo. Deitá-los fora como hoje acontece é um desperdício intolerável que agora se tornou também insustentável. Ensaísta

24 de Junho - Nascimento de S. João Baptista

 Nascimento de João Baptista
Tintoretto, 1550's
Óleo sobre tela, 181x266 cm 
Museu Hermitage
S. Petersburgo, Rússia
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Nascimento de São João Baptista

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África) e doutor da Igreja Sermão 289, 3º para a Natividade de João Baptista
«Ele é que deve crescer, e eu diminuir» (Jo 3,30)
"(...) Foi para ensinar o homem a humilhar-se que João nasceu no dia a partir do qual os dias começam a decrescer; para nos mostrar que Deus deve ser exaltado, Jesus Cristo nasceu no dia em que os dias começam a aumentar. Há aqui um ensinamento profundamente misterioso. Nós celebramos a natividade de João como celebramos a de Cristo, porque essa natividade está cheia de mistério. De que mistério? Do mistério da nossa grandeza. Diminuamo-nos em nós próprios para podermos crescer em Deus; humilhemo-nos na nossa baixeza, para sermos exaltados na Sua grandeza."

com os meus agradecimentos ao Inimputável

quinta-feira, 23 de junho de 2011

60 anos de sacerdote, 60 horas de adoração eucarística!

Aura Miguel
RR on-line 23-06-2011 10:30

A iniciativa está em curso nos cinco continentes, para assinalar os 60 anos de ordenação sacerdotal de Bento XVI.
O aniversário da ordenação é já na próxima quarta-feira, dia 29, festa de São Pedro e São Paulo e nada melhor – para preparar o acontecimento – do que rezar pelo papa e pela santificação dos sacerdotes e vocações diante do Santíssimo Sacramento.
A ideia partiu da Congregação do Clero que enviou uma carta aos bispos de cada uma das 3100 dioceses espalhadas pelo mundo para se unirem a esta iniciativa. Objectivo: testemunhar o nosso afecto e comunhão para com o Papa, gratos pelo seu luminoso serviço a Deus e à Igreja.
A carta, com a data de 13 de Maio deste ano, sugere que as 60 horas de adoração eucarística se prolonguem por este mês, para culminar na Solenidade do sagrado Coração de Jesus, a 1 de Julho.
Aqui fica o convite!

Viva a Hungria!

"Os tempos correrão na direção que decidamos imprimir-lhes. Nenhuma lei histórica condena as sociedades a 'progredir' indefinidamente para a anomia e a dissolução de vínculos"

O Parlamento de Budapest aprovou em 18 de abril passado a nova Constituição da Hungria. O texto apresenta uma série de traços de máximo interesse, embora insólitos na Europa atual. A nova Constituição é tão politicamente incorreta que parece um milagre (não é de se estranhar que a imprensa "progressista" ande rasgando as roupas por causa disso).
A Constituição reconhece explicitamente a importância do passado cristão na forja da identidade húngara. Quer dizer, adota uma postura diametralmente oposta à que caracterizou a abortada Constituição européia (que omitiu qualquer menção ao Cristianismo, embora citasse a Grécia, Roma e o Iluminismo). A Hungria não participa, pois, da patológica atitude de auto-negação histórico-cultural que caracteriza muitos países ocidentais. Reconhecer as raízes cristãs não é mais do que um ato de justiça histórica: é uma profissão de fé (de fato, a Hungria é hoje em dia um dos países mais descristianizados).
A grande badalada, entretanto, vem com os artigos que proclamam que o Estado protegerá "a instituição do matrimônio como uma comunidade de vida entre um homem e uma mulher" e que "a vida do feto deverá ser protegida desde o momento da concepção". A Hungria blinda o caráter heterossexual do casamento (adiantando-se a possíveis pressões da União Européia em favor de sua ampliação aos casais do mesmo sexo) e se incorpora ao pequeno grupo de Estados europeus que reconhecem o direito à vida dos seres humanos não-nascidos. O primeiro artigo é uma mostra de senso comum (todas as culturas, em todos os tempos, sabiam que as leis deviam promover a convivência estável entre homem e mulher... porque só daí surgem filhos. A proteção especial dispensada à associação de homem e mulher - a única fértil - não implica que outras formas de associação sejam proibidas). O segundo, uma injeção de esperança para a causa pró-vida: a cultura da morte não é irreversível; em menos de 20 anos, dois importantes países europeus (o primeiro foi a Polônia em 1993) passaram do aborto livre a uma regulação restritiva. Os "progressistas", na falta de melhores argumentos, terminam amiúde dizendo que o casamento gay e o aborto livre são inevitáveis porque "a sociedade mudou" e "os tempos exigem". Não, os tempos não exigem nada. Os tempos correrão na direção que decidamos imprimir-lhes. Nenhuma lei histórica condena as sociedades a "progredir" indefinidamente para a anomia e a dissolução de vínculos.
A Hungria que desenha a nova Constituição não é um Estado neo-fascista. As liberdades democráticas e a separação Igreja-Estado ficam claramente consagradas. A Hungria é, simplesmente, um país que quer sobreviver e portanto promove a vida, penalizando sua destruição na fase pré-natal e promovendo o "eco-sistema" natural da vida insipiente (a convivência estável entre homem e mulher).
Quem lê "a Hungria quer sobreviver" pensará: que exagero! Não, em absoluto não é. Quase toda a Europa tem umas perspectivas demográficas sombrias, porém nos países eslavos estas são especialmente aterradoras. Com taxas de fertilidade que oscilam entre 1.2 e 1.5 filhos/mulher (o índice de substituição geracional é 2.1) e privados da imigração que, na Europa ocidental, atenua (embora insuficiente e transitoriamente) os efeitos da greve de ventres, os países da Leste Europeu parecem expostos ao desastre em poucas décadas: colapso sócio-econômico por insustentabilidade do sistema de bem-estar (quem pagará as pensões e a saúde quando hajam quase tantos aposentados quanto ativos?). É o mesmo futuro que aguarda a Espanha (1.3 filhos/mulher). A imigração não solucionará (as taxas de natalidade estão caindo também na América hispânica e no Magreb: logo já não terão excedentes de população que exportar, e ambos crescem economicamente mais rápido do que a Espanha: à medida que se encurte a diferença de renda, diminuirá o incentivo para emigrar).
Nesse contexto, resulta do máximo interesse a possibilidade - necessita de desenvolvimento legislativo - aberta pelo Art. XXI.2 da Constituição húngara: um sistema de sufrágio ponderado que atribua às mães tantos votos quantos filhos tenham a seu encargo. A medida seria revolucionária (rompe com o princípio "um homem, um voto"), porém a Europa pós-familiar e pós-natal necessita de tratamento de choque. E, além da aparente desigualdade que introduz, ela não deixa de ser justa: atribui maior capacidade de incidência na determinação do futuro do país àqueles que, tendo filhos, tornam possível que esse futuro exista.
Por que se afundou a natalidade na Europa recente (a sociedade mais próspera da História)? Creio que a causa principal é a generalização de uma mentalidade hedonista que considera os filhos uma carga (se o sentido da vida reside em passá-lo bem, para que encher-se de filhos?) e de uma ética amorosa que exclui o compromisso definitivo e garante a perpétua renovabilidade do casal (quase ninguém decide ter filhos com parceiro provisório). A sociedade deveria reverenciar e proteger o máximo possível aos "últimos pais": a fração minguante de população que ainda faz a "antiquada" aposta de se casar e ter filhos. Um homem e uma mulher que deixam poupanças e juventude para cuidar de seus filhos, prestam ao país um serviço insubstituível (que não presta, em troca, o solteiro de ouro que prefere passar as férias no Caribe). Esse serviço deve ser reconhecido fiscal, simbólica e até politicamente. A Europa leva, literalmente, a vida nisso.


* Catedrático de Filosofia do Direito
Tradução: Graça Salgueiro

Dia do Corpo de Deus

Procissão do Corpus Christi
Mestre de Jaime IV da Escócia Iluminador flamengo (1510-1520)
Cores de têmpera sobre carneira 9 1/8 x 6 9/16 in.
MS. LUDWIG IX 18, FOL. 48V 
The J. Paul Getty Museum
Los Angeles

quarta-feira, 22 de junho de 2011

S. Tomás Moro - patrono dos governantes e políticos | Uma aprendizagem



É um sinal de esperança que o primeiro dia do governo que ontem tomou posse seja dedicado ao patrono dos governantes e dos políticos, assim proclamado pelo beato João Paulo II neste seu motu próprio  – S. Tomás Moro.
Tomás Moro não sacrificou a verdade à conveniência e nisto, perdeu a vida, ganhando-a (Mc 8, 35-36)
O recente caso do copianço no CEJ revela uma atitude muito generalizada entre nós em que na avaliação custo-benefício que cada um faz dos seus actos quem geralmente perde é a verdade, como o texto de Pedro Lomba que abaixo se reproduz, bem ilustra.
Que S. Tomás Moro inspire e proteja os nossos governantes e políticos e que a sua vida eduque as nossas acções.É um sinal de esperança que o primeiro dia do governo que ontem tomou posse seja dedicado ao patrono dos governantes e dos políticos, assim proclamado pelo beato João Paulo II neste seu motu próprio  – S. Tomás Moro.
Tomás Moro não sacrificou a verdade à conveniência e nisto, perdeu a vida, ganhando-a (Mc 8, 35-36)
O recente caso do copianço no CEJ revela uma atitude muito generalizada entre nós em que na avaliação custo-benefício que cada um faz dos seus actos quem geralmente perde é a verdade, como o texto de Pedro Lomba que abaixo se reproduz, bem ilustra.
Que S. Tomás Moro inspire e proteja os nossos governantes e políticos e que a sua vida eduque as nossas acções

Uma aprendizagem
Público 20110620  Pedro Lomba

É curioso que quase todos os comentadores viram no copianço dos alunos do CEJ apenas uma anormalidade ética. E não só os comentadores. Do ministro ao procurador-geral, o caso foi recebido essencialmente em termos morais, ainda para mais por ser uma fraude cometida por pessoas que querem entrar na magistratura e tolerada por outras que já lá estão.
Mas o que praticamente ninguém disse (uma excepção foi a crónica de ontem de Manuel António Pina no JN) é que o caso do copianço só à superfície se esgota num problema de ética pessoal ou profissional. A sua génese remete-nos para um problema político: o espírito de corporação e de autodefesa que o Centro de Estudos Judiciários (CEJ)começa - imediatamente a partir da formação - a instilar junto dos novos candidatos a juízes e procuradores.
Só isso explica que a directora do CEJ tivesse reagido como reagiu. Assim que a fraude se tornou pública, a sua primeira decisão não foi anular a prova, fazer averiguações sobre a ocorrência e sancionar no fim a massa de prevaricadores. Preferiu tratar toda a gente por igual, sem distinções de nenhuma espécie, atribuindo a nota fictícia de 10 valores aos que realizaram a prova. Não interessava abrir inquéritos, agitar ondas ou pôr formandos contra formandos. A senhora directora do CEJ pensou que não teria dramas se resolvesse a bronca com uma nota simbólica que por certo contentaria todos.
E na verdade contentou. Contentou também o secretário-geral da Associação Sindical dos Juízes, que disse compreender a decisão da directora, ao mesmo tempo que deixou palavras brandamente reprovadoras sobre um episódio "escusado e lamentável" e a "pouca atenção aos deveres éticos por parte dos candidatos". E embora o conselho pedagógico do CEJ finalmente tenha decidido ontem que haverá inquérito e repetição do exame, a decisão vem tarde e permite presumir que, se o assunto não tivesse vindo a público, a indiferença e inacção continuariam.
O que significa que esta história do copianço não tem a dimensão que tem pela questão ética. A história revela sobretudo como é que os nossos magistrados aprendem a ser magistrados, começando por absorver nos seus primeiros anos um verdadeiro código de autoprotecção e de guilda, inimigo da verdadeira exigência e facilitador deste tipo de fraudes colectivas. É esta a "lei da omertà" a que precisamente se referiu Manuel António Pina. Um pacto de silêncio entre pares que leva os responsáveis do CEJ a saberem que, embora o "copianço" seja mais frequente do que se julga, há sempre uma forma de "esconder o lixo para debaixo do tapete". Pina lembra um caso de uma antiga aluna que decidiu queixar-se a um juiz desembargador sobre o que estava a acontecer. A partir daí passou a ser tratada com desdém e perseguição. De resto, tenho relatos de quem interveio directamente nos exames orais deste ano que, mais do que facilitismo, confirmam a lógica de complacência que impera no CEJ. Perguntas repetidas em série, permitindo a quem faz os exames no fim antecipar a sua sorte. Áreas jurídicas mais difíceis secundarizadas ou mesmo ignoradas (por exemplo, o direito comercial). E quando ocorre a algum examinador mais zeloso, entre não-magistrados, fugir ao guião predefinido, recebe um aviso prudente semelhante a isto: "Não entre por aí que eles não estão à espera disso."
Tal como está, o CEJ não está a formar magistrados mas a transmitir aos recém-chegados um espírito de corpo que, ainda por cima, está longe de ser o adequado. E por isso trata os futuros magistrados como se fossem uma confraria homogénea, avaliando-os com tabelas que não distinguem os melhores e piores e atirando areia para os percalços que vão surgindo. Os resultados estão à vista. Jurista

22 de Junho - S. Tomás Moro

Thomas More (Lord Chancelor)
Hans the Younger Holbein
1525-1528
Desenho preparatório
Castelo de Windsor

terça-feira, 21 de junho de 2011

As famílias constroem-se à mesa

Público, 2011-06-21 Entrevista Claude Kaufman

O sociólogo francês Jean-Claude Kaufman, investigador no Centre National de la Recherche Scientifique, em Paris, dedicou toda a sua vida a estudar as relações entre as pessoas através das tarefas domésticas, do lavar a roupa ao passar a ferro. Há quem lhe chame o sociólogo dos detalhes. Esteve em Portugal, a convite do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, para falar de comida e explicar porque é que é à mesa que se constrõem as famílias, tema do seu livro, não traduzido em português, Casseroles, amour et crises (que poderá traduzir-se por Tachos, amor e crises). A sua última paixão são as bolsas das mulheres e a forma como o seu interminável conteúdo revela a vida das suas proprietárias, mas essa era outra conversa.


Porquê este seu fascínio por detalhes?

Não há coisas pequenas na vida. Se escavarmos em profundidade conseguimos explicar toda uma sociedade por gestos tão simples que nem nos passam pela cabeça. Por exemplo, em casa quando se acorda, ninguém pensa "onde está a minha caneca do pequeno-almoço?", só esticamos a mão, mas cada objecto tem um lugar que não é igual em cada família e tudo isto é uma cultura profunda. A família é fabricada com as mãos e não podia viver sem toda esta organização: a limpeza, a lavagem das roupas. A cozinha é a parte ainda mais rica porque é ali que se prepara um momento que vai ser muito importante na vida familiar, que nem sempre corre bem, mas que é muito importante.

"Diz-me como comes em casa e digo-te como vai a tua família?" Esta frase é uma boa forma de avaliar a saúde da família?

As famílias de hoje não são simples, são cheias de contradições. As refeições contam-nos histórias. Há conflitos com os miúdos e, às vezes, liga-se a televisão para aliviar a tensão, para evitar o face-a-face, funciona como um convidado suplementar; ou, quando os filhos já mais velhos, saem de casa, há um regresso ao casal que não é simples, é preciso alimentar a convivência a dois e a televisão pode voltar porque anula a angústia. O silêncio assinala que não temos grande coisa a dizer.

Tem-se medo do silêncio à mesa?

Dantes, aceitava-se o silêncio. Hoje, quando dura muito tempo, mete muito medo: sinaliza que não há nada a dizer neste momento de vida familiar. Em França, uma em cada duas refeições é passada com a televisão. Mas as pessoas que não vêem televisão são muito rápidas a julgar a televisão como má. Em certas famílias, o difícil é não a ter, e, a um primeiro nível, não é mau haver televisão: ela pode alimentar a conversa, discute-se um concurso, um membro da família apoia um concorrente, outro tem outro, e cada um tem a sua justificação e vão-se conhecendo os valores, uns dos outros, por esta via. Mas é verdade que a televisão tem uma lógica devoradora, ela tenta engolir tudo e há sinais de quando se passou a linha vermelha: quando o volume é mais alto e substitui a conversa ou quando as cadeiras abandonam o face-a-face e se viram para a televisão.

Por que escolheu estudar as refeições?

À mesa, vemos como a sociedade mudou. Passámos de uma sociedade organizada, com regras, com uma verdade e uma moral únicas, em que cada um tinha o seu lugar - toda a gente vinha para a mesa a mesmo tempo, os pratos eram repetidos a dias fixos, ninguém questionava se estava bom ou não.

A grande mudança da sociedade começa a partir do início dos anos de 1960 e continua nos de 1970, o indivíduo passa a estar no centro da sua vida, já não há uma verdade única, cada um escolhe a sua e tenta fazer as melhores escolhas em todos os domínios. Há cada vez mais informação nos media e em cada momento podemos fazer escolhas diferentes: "Devo comer isto? Porquê?" Há escolhas em cada instante. A pessoa que cozinha tem uma enorme responsabilidade.

Define a tarefa de cozinhar como penosa por causa dessa infinita possibilidade de escolha?

As outras tarefas domésticas são um pouco invisíveis. Ninguém comenta que alguém limpou o chão com a esfregona, ninguém nota; a cozinha é diferente porque toda a gente vai discutir e, para certas mulheres, cozinhar é uma actividade sofrida, porque sente que tem muitas implicações, por exemplo, para a saúde. "Que alimentos devo escolher?" Há cada vez mais questões em torno dos alimentos e poucas respostas, porque a ciência é contraditória: um professor que diz que o alimento x é bom e outro diz não. É preciso decidir.

É há outras questões. Cada membro da família tem os seus gostos. Escolher um alimento é agradar a um, em vez de outro. Às vezes, a mulher não tem ideias e pergunta: "O que é querem comer hoje à noite?". É uma questão amorosa. O marido ou os filhos respondem: "Faz o que tu quiseres". É um momento de solidão, respondem aquilo para não a chatear, mas é mentira, depois à mesa dizem "Isto outra vez, já tínhamos comido isto há dois dias". E o mais duro é que a pessoa prepara as refeições sem que os outros percebam que é muito complicado.

Como é que se notam as mudanças sociais à mesa?

Dantes, a mulher gritava "todos para a mesa" e toda a gente descia e sentavam-se todos à volta da mesa. Hoje, na família, cada um tem a sua vida, incluindo os adolescentes, que têm as suas actividades e ritmos e, por vezes, há refeições em que alguns não estão, comem fora, cada um vai comer à sua hora o pequeno-almoço; há cada vez mais alimentos individuais. O frigorífico na casa tem um papel cada vez mais importante. Fiz um livro em que fotografava vistas aéreas do frigorífico com o desenvolvimento das refeições e percebe-se que é tudo muito feito em movimento. Há várias sequências: primeiro é lançado o grito de chamada, que significa que é hora do momento familiar, mas nem toda a gente aparece, cada um está nas suas actividades, um ao computador - entre os retardatários, estão os adolescentes e crianças. O grito é relançado de forma menos amorosa e, por fim, toda a gente está à volta da mesa, à volta do prato principal... À sobremesa, cada um levanta-se e vai buscá-la ao frigorífico e vai comê-la na mesa ou um pouco afastado. É isto a família de hoje.

É durante esta movimentação que se constroem laços de família?

A pessoa que prepara a refeição sonha com momentos mais familiares, tenta desenvolvê-los e pode haver resistência dos mais jovens. Quer um momento em que se discuta. "Como foi hoje a escola?", pergunta-se à criança e a criança não gosta, porque a seguir vai haver ralhetes. Às vezes, tenta-se discutir coisas demasiado sérias à mesa. É muito importante a conversa de chacha, o rir, o falar de comida - é isso que constrói a família, mesmo que não seja perfeito, mesmo quando há pequenos conflitos. Tudo são momentos essenciais de construção da vida familiar.

Fala das mudanças na família à mesa mas não de forma moralista. Não é o chavão da crise de valores e da família...

É toda a estrutura social que mudou. Adquirimos algo de novo, a liberdade individual, e há um preço a pagar. É uma sociedade mentalmente cansativa, porque é preciso escolhas sem cessar em todos os domínios; o segundo preço a pagar é a dificuldade em estabilizar o grupo, desde logo o próprio casal, que se torna muito frágil. Na mesa, às vezes, cada um está com os seus pensamentos, por exemplo, há o jovem que se quer levantar. Noutras alturas, sente-se que são momentos em que se faz família. Quando se está junto, é mais forte do que dantes, as trocas são mais personalizadas, a comunicação é mais íntima, e por isso é mais difícil.

Existe uma história das refeições? Quando é que as famílias começaram a comer à mesa?

É uma longa história, podia dar outro livro. A mesa com pessoas à volta vem dos séculos XVIII e XIX, na burguesia. Nesta altura, publicam-se os primeiros manuais das boas maneiras, é o início da modernidade. Alguns pensadores, preocupados com as mudanças sociais, vêm dizer que é preciso restaurar a ordem da família, para que a sociedade se estabilize. Vem desta época uma disciplina dos corpos à mesa, o estar-se muito direito à mesa, é daí que vem o "põe-te direito", o não pôr os cotovelos na mesa; falava-se pouco, não se podia interromper o outro, não se podia falar de emoções; as crianças não falavam ou então pediam autorização.

O que é que mantivemos dessa ordem?

Guardámos esta cenografia, mas é o contrário que se passa: já não estamos direitos, dá-se primazia ao bem-estar, ao conforto dos corpos. Toda a gente fala ao mesmo tempo, às vezes com a boca cheia, e as crianças estão no centro da conversa, mas não abandonámos tudo, senão não havia refeições. Cada família guarda algo deste ritual e junta-lhe algo de seu. Um exemplo no meu livro é o de uma família muito burguesa, de um bairro chique de Paris, que domingo ao almoço tem em casa uma refeição McDonald"s, mas com maneiras, pode-se comer com as mãos mas as crianças pedem autorização para se servir.

Ao mesmo tempo, fala de um novo interesse na cozinha mais associado ao lazer...

Constata-se, em todo o mundo, que há duas tendências contrárias: a individualização das práticas e o desejo do contrário, de ter momentos de grupo. E aqui vemos a paixão pela gastronomia a desenvolver-se em todo o lado. E aqui os homens estão muito interessados. A palavra lazer não chega para descrever esta questão, é melhor falar de momentos de paixão, momentos em que se realizam obras de arte, como na pintura, mas são efémeras, desaparecem quando comemos. Mas a segunda obra-prima é a criação do momento de convívio, de satisfação. De uma certa forma, é mágico.

Por que é que diz que os homens estão muito interessados neste tipo de cozinha?

As mulheres cozinharam durante séculos sem nada dizer, sem discurso à volta da cozinha. Estes homens fazem cursos de alta cozinha. No livro, há uma mulher que revela que há dias especiais em que o marido se fecha na cozinha, a fazer a sua especialidade e os amigos o aplaudem, e é ela que prepara tudo o resto. Elas continuam com a cozinha de todos os dias, a do "que é que querem comer hoje?".

Mas não é suposto haver cada vez mais partilha de tarefas domésticas?

Os números franceses não são diferentes dos europeus. Só dez por cento dos homens cozinha no dia-a-dia, e mesmo assim é a actividade doméstica que mais fazem, tudo o resto é menos de dez por cento. Em todas as gerações, não estamos a caminhar para a igualdade, há até um pequeno retrocesso. Quando se olha para os números, fica-se surpreso, vê-se que na partilha das tarefas domésticas tudo avança pouco e lentamente. Estamos muito, muito longe, da igualdade.

Por que é que diz isso?

É muito complicado, não é só uma decisão mental, cada um tem a sua maneira de fazer as coisas e as mulheres acham sempre que há uma maneira melhor de fazer as coisas. Para a mulher, tudo o que o homem faz na casa faz mal. Isto não é biológico, não é consciente, são automatismos gestuais que evoluem muito devagar. Tem-se a ideia na cabeça de que igualdade é boa, mas os homens vão lavar a roupa e não escolhem o programa de lavagem que elas vêem como correcto, misturam tudo, como um jovem que eu entrevistei e que lavava as sapatilhas com as camisas. Uma mulher que vê isso fica escandalizada. São esquemas interiores que se reproduzem de forma não consciente, de geração em geração. E uma coisa é olharmos para o tempo dedicado aos trabalhos manuais, se olharmos para quem tem os problemas na cabeça, então a desigualdade ainda é maior. É a mulher que continua a ter a família na cabeça.

E como é que se muda?

No início dos anos de 1970 e 1980, houve uma mobilização geral da sociedade, em que se dizia que era preciso esforços para alcançar a igualdade. Hoje, temos a impressão que já lá chegámos e não há mobilização. Pede-se uma lei para igualizar salários, etc., mas é no interior do casal que estão os bloqueios mais importantes. É muito político o funcionamento do casal. Não se pode criar uma lei para obrigar o homem a lavar a louça. É preciso uma tomada de consciência, é importante dizer que não há igualdade para continuar a avançar. Não é fazer guerra, não é uma guerra entre sexos, é uma guerra do homem contra ele mesmo, da mulher contra ela mesma.

Acontecimentos do dia

Está a terminar um dia com vários acontecimentos notáveis:
  • Tomou posse o XIX  Governo Constitucional
  • Foi eleita a Presidente da Assembleia da República da XII Legislatura
  • Chegou o Verão:
O verão é uma das quatro estações do ano. Neste período, as temperaturas permanecem elevadas e os dias são longos. Geralmente, o verão é também o período do ano reservado às férias.
O verão do hemisfério norte é chamado de "verão boreal", e o do hemisfério sul é chamado de "verão austral". O "verão boreal" tem início com o solstício de verão do Hemisfério Norte, que acontece em 21 de Junho, e termina com o equinócio de Outono nesse mesmo hemisfério, por volta de 23 de Setembro.
O período das férias de verão ou o período em que uma pessoa passa fora de sua casa, geralmente em uma casa de praia, no verão, é conhecido como veraneio.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O elogio fúnebre

Público 2011-06-19 Gonçalo Portocarrero de Almada
Foi apenas quem conduziu o país à bancarrota e ao maior desprestígio internacional, que é "o que fica" para a História

No tom laudatório que é da praxe nos elogios fúnebres, o ideólogo de serviço do defunto Governo e do seu primeiro, veio à praça pública defender os méritos daquela governação, agora valentemente repudiada pelo povo, em expressivas eleições legislativas.
Embora mereçam a minha simpatia os que defendem, ao jeito do Robin dos Bosques, os desgraçados, e reconheça que é de uma rara nobreza elogiar os vencidos, confesso que não pude deixar de sorrir ao ler o obituário, não obstante o seu tom pesaroso. Aliás, já me divertira com o encenado drama da comunicação pós-eleitoral do derrotado chefe do Governo, que mais me pareceu uma medíocre comédia. A grandiloquente peça de oratória do demissionário primeiro-ministro, decerto mais preocupado com a sua própria imagem pessoal do que com o interesse da população, que certamente dispensava uma tão extensa alegação de auto-exaltação, era caricata, se não fosse tão verdadeiramente expressiva do que foi o seu desgoverno.
Embora respeitável a opinião do cronista, parece que o seu panegírico do infeliz político agora apeado é, na realidade, uma crítica à vontade soberana do povo, cujo veredicto é tanto mais censurável quanto louvável era o agora deposto governante. Na sua óptica, se o povo não peca por ignorante e injusto, peca pelo menos por ingénuo, por ter acreditado naqueles que triunfaram nas eleições e que, segundo o articulista, tinham ao seu dispor a comunicação social. São desculpas de mau perdedor que, talvez, relevem alguma saudade do "centralismo democrático" de outras eras. Mudam-se os tempos e mudam-se as vontades, mas nem sempre as mentalidades acompanham essas mudanças...
Tem de facto graça o estilo barroco do bacoco texto encomiástico, palpável na adjectivação magnânima do cadáver político do querido líder: a convicção reformista deste é "notável"; o progresso que introduziu na modernização e na simplificação administrativa é "impressionante"; as suas reformas foram "profundas", como "profundo" é o seu espírito de modernização (outra vez, à falta de melhor...). Quem, sem o conhecer, lesse a citada nota necrológica poderia pensar que o país lhe deve o caminho marítimo para a Índia, a descoberta do Brasil, o Mosteiro da Batalha, Os Lusíadas, as pontes sobre o Tejo e o Douro ou qualquer outro feito histórico. Na realidade, foi apenas quem conduziu o país à bancarrota e ao maior desprestígio internacional, que é "o que fica" para a História de Portugal, já que na mundial não terá qualquer cabimento. Não é fácil ganhar eleições, mas é muito mais difícil saber perdê-las com a dignidade que só a humildade e a veracidade conferem.
Mas é certeiro o articulista, quando afirma que "a despenalização do aborto, a agilização do divórcio e a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo ficarão a marcar" o consulado agora findo. De facto, foi contra a vida e a família que mais se destacou o Governo demissionário, que em poucos anos conseguiu a proeza de lograr um extraordinário retrocesso civilizacional, tanto mais questionável quanto realizado por pressão de grupelhos sem representatividade nacional e à revelia da vontade popular, porque até mesmo o resultado do referendo sobre o aborto não foi vinculativo, nem expressivo de uma inequívoca determinação nesse sentido.
Se foram de facto, como o dito jurista pretende, reformas de carácter civilizacional, que legitimidade tinha o anterior poder para as realizar, sem um mandato explícito dos eleitores?! Não é verdade que, para uma reforma constitucional, que é de menor importância do que uma mudança civilizacional, se exige uma maioria qualificada? Será portanto necessário que a nova maioria reveja essas reformas que, ao contrário do que se pretende, não são indeléveis - alguns estados dos EUA revogaram, depois de consulta popular, a autorização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo - e oportunamente as corrija, para que a sociedade portuguesa recupere alguma da liberdade e da decência perdidas.
"Em Portugal, onde por via de regra as modas chegam quando lá fora já deixaram de o ser, ainda não veio ninguém a público - que eu saiba - defender a impunidade absoluta ou relativa do aborto [...] e nisso tem a intelectualidade portuguesa dado uma prova exuberante do seu fino quilate", escreveu, em 1935, o dr. Alfredo Ary dos Santos, em O Crime de Aborto. Hoje, a ufania desse advogado e publicista já não tem cabimento, porque o provincianismo de alguns levou a trazer cá para dentro tudo o que de pior se faz lá fora. Mas, como então escreveu aquele precursor da defesa do direito à vida no nosso país, "temos pois - sincera e gostosamente o dizemos - que seguir na retaguarda desse movimento e assim estar na vanguarda do progresso, visto que o progresso, em ciência moral e política, não é necessariamente tudo quanto seja novo, senão tudo quanto seja verdadeiro". Licenciado em Direito e doutorado em Filosofia; vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família (CNAF)

O poder dos bobos

DN 2011-06-20 JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Fala-se muito da influência de filmes, canções, videojogos, publicidade, romances e outras ficções na nossa vida. Hoje a opinião mediática despreza e ridiculariza as referências morais tradicionais - pais, professores, sacerdotes, chefes e responsáveis - enquanto exalta as opiniões de artistas, bandas de música, comediantes e celebridades.
O poder da imagem parece crescente. Foi a 30 de Outubro de 1938 que Orson Welles e o Mercury Theatre on the Air criaram um pânico nos EUA com a emissão radiofónica da novela de H. G. Wells A Guerra dos Mundos de 1898. Também o telefilme O Dia Seguinte, de Nicholas Meyer, emitido a 20 de Novembro de 1983 na ABC, visto por mais de cem milhões de pessoas nessa data, gerou uma depressão nacional com a descrição vívida dos efeitos de um ataque nuclear. Atracção Fatal, de Adrian Lyne (1987), com Michael Douglas e Glenn Close, teve forte impacto nos hábitos pessoais ao mostrar violência na infidelidade conjugal. Desde 1988, Les Guignols de l'info, do Canal+, e desde 1999 o Daily Show da Comedy Central, com Jon Stewart, afectam a vida política francesa e norte-americana.
Para lá destes casos pontuais, será que as séries, filmes e canções que hoje nos inundam a vida moldam o nosso comportamento? Se o fazem, não será para o bem. As preocupações oficiais com a moralidade nos filmes perderam-se nos anos 1960, passando a liberdade de expressão a critério ético absoluto, acima de todos os valores. Como os bons exemplos e temas educativos não criam emoção, cinema e televisão entraram numa espiral imparável de crime, vício, erotismo e aberração. Tem graça que os jornais, que mais apregoam essa influência, sejam os primeiros a declarar a inocência do espectáculo quando se verificam consequências nefastas. Fica-se sem se saber se afinal tem efeitos ou não.
De facto, em grande medida, tudo não passa de uma ficção, criada no ecrã e alimentada pela imprensa. Todos aprendemos desde crianças a distinguir a vida real dos filmes, onde os coelhos sobrevivem a quedas do telhado e no fim todos vivem felizes para sempre. Efeitos comprovados da suposta influência são escassos. É verdade que o meio do espectáculo costuma ser de Esquerda, com ideologias mais românticas e fotogénicas, mas isso não explica a vida política das últimas décadas. Aliás, os principais actores eleitos nos EUA, Ronald Reagan e Arnold Schwarzenegger, foram republicanos.
Desde Plauto e Molière o efeito é nos costumes. A promoção de aborto, divórcio, promiscuidade e pornografia tem no espectáculo sólidos aliados. A enorme campanha à volta do casamento homossexual deve-se à influência dos artistas, principal meio poderoso e endinheirado onde essa orientação domina. Assim se entende que uma questão que interessa apenas a ínfima minoria, com implicações só na imagem, consiga mudar em poucos anos as regras seculares das sociedades. O suicídio colectivo do Ocidente por destruição da família sustenta-se por este meio.
Esse poder traz horríveis efeitos sobre os próprios. O filme Sunset Boulevard, de Billy Wilder (1950), com William Holden, Gloria Swanson e Erich von Stroheim, revelou a miséria humana escondida atrás do brilho de figurinos e cenários. O mundo da fama efémera será sempre falso e abusador, quando não corrupto e criminoso.
Resistimos a esse poder não entrando no enredo. A Forbes Magazine declarou a 18 de Maio Lady Gaga a celebridade mais poderosa do ano. Elton John, de 64 anos, e o seu parceiro David Furnish, de 48, foram nomeados candidatos ao prémio de Pai do Ano pela The Premier Inn Celebrity, devido ao bebé nascido há cinco meses de barriga de aluguer. Que significa isto? Nada. Meros truques mediáticos que escondem mal a miséria de pessoas infelizes, embriagadas ou sacrificadas à imagem.
O poder da ficção é grande, mas somos livres de lhe resistir como a qualquer um que nos queiram impor. Más influências sempre houve, como sempre existiu a capacidade de as enfrentar seguindo as tradições e referências morais. Só os tolos tomam os bobos como referências de vida.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt