segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Hino aos tradutores

José Ribeiro e Castro
Público, 2011-02-28

R
aras vezes os deputados têm uma responsabilidade pessoal tão directa. Nesta semana, têm-na consigo – e pesada: mandar, ou não mandar, para o desemprego mais umas quantas centenas de portugueses.
Se a Assembleia da República apoiar que Portugal se oponha à cooperação reforçada na patente unitária e, assim, continuemos a bater-nos pela igualdade concorrencial e de regime linguístico, estaremos a defender não só a nossa língua, nem só a nossa economia – mas concretamente o emprego de quinhentos a mil profissionais, altamente qualificados.
Se alinhar pela traição à língua portuguesa e pela rendição aos interesses dos mais poderosos, estaremos a querer somar mais umas largas centenas aos milhares de desempregados que Portugal já leva. Acrescentaremos mais insolvências, com encerramento de empresas e escritórios. A juntar ao desastre da dívida externa e do desequilíbrio comercial, alienaremos mais uns largos milhões de euros anuais de exportação de serviços.

S
e Umberto Eco tem razão quando diz que “a língua da Europa é a tradução”, é aos tradutores que devemos a construção europeia. Todos os dias! Aquelas vozes anónimas que nos entram pelos auriculares nas reuniões europeias são as vozes da partilha, da interacção, do conhecimento mútuo. São esses intérpretes que nos trazem o que é dito em alemão, em finlandês, em húngaro e nos tornam inteligíveis, em português, a polacos, suecos ou cipriotas. Aqueles textos comuns europeus, que debatemos e votamos, não nos são acessíveis sem o trabalho anónimo, incessante, dos tradutores. Nem os nossos comentários, propostas e contributos chegam a qualquer outro sem eles. “A língua da Europa é a tradução”.
Sem tradutores e intérpretes não há participação na Europa, não há democracia possível ou sequer arremedo dela, não há igualdade de concorrência, não há convergência, não há competitividade justa, não há convocação, não há comunidade. Porque a nossa base é multilingue, a Europa é esse multilinguismo – e não há União Europeia sem o garantir.
É, por isso, de bom tom acabar as reuniões europeias, agradecendo o trabalho de intérpretes e tradutores. Agora, deputados há, com governantes e diplomatas, a querer inaugurar nova moda: despedi-los.

O
fantasma dos “custos” do multilinguismo é uma velha questão. Está provado que custa pouco – e muito pouco para os benefícios que gera. Costumo dizer que custem a tradução e a interpretação o que custarem é muito mais barato que as balas, e as bombas, e a destruição, e a guerra, e os mortos de que se fez a história da Europa antes da União Europeia.
Os tradutores e intérpretes são os soldados dessa paz, porque são a ferramenta da unidade em igualdade, da construção comum com paridade. É a tão glosada “unidade na diversidade”. São os tradutores que garantem que ninguém seja excluído, que fazem da construção da cultura, da ciência e da história europeias osmose de todos e não imposição só de alguns. Quando tanto elogiamos a capacidade de estabelecer pontes, os tradutores são as pontes. Quando procuramos elos e laços, os tradutores são esses elos, os nossos laços.
O multilinguismo europeu gerou um novo ramo cultural, profissional e económico da maior importância, que ocupa milhares de pessoas, com competência, dedicação, saber, curiosidade e entusiasmo. Surgem as combinações mais improváveis de português, checo e grego, ou francês, finlandês e lituano. Tudo isso não é um passivo, mas um extraordinário activo europeu. Não é um fardo, mas riqueza extraordinária. É um capital, uma ginástica, um talento, uma aptidão dos europeus que nos habilita também a conhecer e dominar outras grandes línguas mundiais.
Claro que devemos apetrechar-nos cada vez mais em línguas estrangeiras. A modernidade é multilingue. Sustento, há muito, que os nossos sistemas de ensino devem rever o chamado “objectivo de Barcelona”, subindo a meta para sermos fluentes na língua oficial e mais três línguas, em vez de apenas duas – pasmo com a Europa do século XXI ter o mesmo objectivo que a Educação Nacional de Salazar, há cinquenta anos, quando fui para a escola. Ou, olhando o lugar que a China e os chineses terão no futuro do mundo, defendo uma política portuguesa de incremento da aprendizagem da língua chinesa – se formos os europeus com mais falantes de chinês, que poderosa ferramenta económica, profissional e concorrencial isso será!
Mas saber isto não significa abdicar de direitos próprios, nem ser cúmplice de um quadro de discriminação. Não é aceitar regimes de desconstrução europeia, que abusam da cooperação reforçada para uma “Europa a retalho”. Muito menos significa renunciar ao estatuto de língua mundial do português e torpedeá-lo no seu continente de origem: a Europa.

M
oderno é Lula discursar em português na Cimeira do Clima em Copenhaga. Moderno é Mourinho exibir orgulho ao receber em português o seu título mundial. Saloios, ultrapassados, são os “portugueses não-praticantes” que se inferiorizam e nos empurram para a irrelevância.
A passagem da patente europeia para a patente unitária com apenas três línguas (inglês, francês e alemão) tem sido uma longa sucessão de manobras, truques e malabarismos. Falando de inovação, como podemos alienar o potencial de inovação do português científico e tecnológico que é assegurado pela tradução das patentes? Falando de competitividade, como golpeamos a nossa competitividade empresarial?
Na crise actual, é essencial que, no momento de decidir e votar, aquela concreta responsabilidade individual seja sentida por cada deputado e deputada – e, em Bruxelas, por cada governante e diplomata.
Olhemos, cara a cara, olhos nos olhos, cada um, cada uma, daqueles tradutores, que estaremos a honrar – ou a mandar para a fila do desemprego. As nossas decisões têm consequências.

Chama-se liberdade

Público 2011-02-28 João Carlos Espada
Sou contra a tirania, qualquer que seja a sua fonte, de um, de alguns, ou da maioria reunida em colectivo

Tenho seguido com interesse o debate que este jornal tem promovido sobre os acontecimentos no mundo árabe. Hesito, no entanto, em intrometer-me.
Posso ser acusado de conflito de interesses. Em 1998, em Nova Deli, fui co-fundador do World Movement for Democracy, que ainda hoje existe, com sede em Washington. Dez anos mais tarde, em Haia, voltei a ser co-fundador da European Partnership for Democracy, que tem sede em Bruxelas. No ano passado, recebi com surpresa uma Medalha de Gratidão, atribuída pelo European Solidarity Center, com sede em Gdansk, pelo apoio que terei promovido ao Solidarnosc polaco, na década de 1980.
Por outras palavras, a minha posição é demasiado simples e cortante: sou contra a tirania, qualquer que seja a sua fonte, de um, de alguns, ou da maioria reunida em colectivo. E sou a favor da democracia liberal, em qualquer parte do planeta, qualquer que seja a cor da pele, a religião, ou outras particularidades da comunidade em questão. Logo, sou a favor da democracia também no mundo árabe.
Isto não significa, no entanto, que eu possa, ou sequer queira, garantir que os actuais movimentos populares no mundo árabe vão conduzir à democracia. Ninguém pode saber. Mas isto significa que é muito claro o que o Ocidente deve fazer (e, lamento ter de o dizer, já devia ter feito há muito tempo) no Médio Oriente: condenar as tiranias, incluindo as potenciais novas tiranias em preparação; e exercer com vigor a sua influência para viabilizar transições ordeiras e pacíficas para regimes constitucionais pluralistas - vulgo democracias liberais - na região.
Isto significa deixar muito claro que o Ocidente não deve pactuar com tentativas de manipulação autoritária dos movimentos populares actualmente em curso no mundo árabe. E que deve apoiar activamente lideranças locais que se identifiquem com os princípios do governo representativo limitado pela lei.
Foi isso que fizeram Ronald Reagan, João Paulo II e Margaret Thatcher na década de 1980, quando condenaram a tirania comunista - como muito bem explicou o meu amigo John O"Sullivan no excelente livro O Presidente, o Papa e a Primeira-Ministra (Aletheia, 2007). Foi isso que fez Winston Churchill desde 1917 até à sua morte, em 1965: condenou o comunismo soviético nascente, depois o nazismo, e de novo o comunismo, quando este já estava consolidado e fazia descer uma "cortina de ferro" sobre a Europa central e oriental. E o mesmo fez Edmund Burke na segunda metade do século XVIII. Condenou a violação britânica dos direitos dos católicos irlandeses, dos direitos dos súbditos indianos e dos direitos dos colonos americanos. Finalmente, denunciou a violação dos direitos dos franceses pelo autoritarismo, alegadamente progressista, da Revolução Francesa.
Não vejo porque não podemos fazer exactamente o mesmo no mundo árabe. Significa isto que queremos impor aos muçulmanos o modo de vida ocidental? De maneira nenhuma. Significa apenas que não reconhecemos o direito de alguns muçulmanos violarem os direitos humanos dos seus semelhantes.
É esta uma visão exclusiva, ou exclusivista, do Ocidente? Não vejo porquê. É uma visão acessível a qualquer pessoa, independentemente da sua "raça", religião, ou outra característica particular. Milhões de "não ocidentais" emigram anualmente para o Ocidente em busca da liberdade e do seu fruto, a prosperidade. Apesar disso, o Ocidente não os obriga a abandonar a sua religião, nem os seus costumes peculiares, a menos que impliquem coerção intencional sobre terceiros.
Uma coisa é certa: o Ocidente não deve, nem pode, abandonar a defesa da liberdade, apenas porque algumas pessoas preferem impor a tirania. É assim, foi assim, e continuará a ser assim, desde a velha Atenas de Péricles e da Grande Geração, o berço marítimo da sociedade aberta, há 2500 anos. Eles deixaram-nos uma herança nobre que ainda perdura: chama-se liberdade.

Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa; titular da cátedra European Parliament/Bronislaw Geremek in European Civilization no Colégio da Europa, Campus de Natolin, Varsóvia

UNIVERSIDADE HARVARD DÁ RAZÃO AO PAPA NA LUTA CONTRA A SIDA

Estudo realizado a partir do caso do Zimbábue

ROMA, sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) - Um estudo realizado pela Universidade Harvard deu razão à posição de Bento XVI sobre a AIDS, afirmando que um comportamento sexual responsável e a fidelidade ao próprio cônjuge foram fatores que determinaram uma drástica diminuição da epidemia no Zimbábue.
Quem explica, em sua última pesquisa, é Daniel Halperin, do Departamento de Saúde Global da População da universidade norte-americana, que, desde 1998, estuda as dinâmicas sociais que causam a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis nos países em vias de desenvolvimento.
Halperin usou dados estatísticos e análises sobre o estudo de campo, tais como entrevistas e focus group, o que lhe permitiu coletar depoimentos de pessoas que pertencem a grupos sociais mais desfavorecidos.
A tendência de dez anos é evidente: de 1997 a 2007, a taxa de infecção entre adultos diminuiu de 29% a 16%. Após sua pesquisa, Halperin não hesita em afirmar: a repentina e clara diminuição da incidência de AIDS se deve "à redução de comportamentos de risco, como sexo fora do casamento, com prostitutas e esporádico".
O estudo, publicado em PloSMedicine.org, foi financiado pela Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional, da qual Halperin foi conselheiro, e pelo Fundo das Nações Unidas para a População e Desenvolvimento.
"Com este estudo, Halperin promove uma reflexão séria e honesta sobre as políticas até agora adotadas pelas principais agências de combate à AIDS nos países em desenvolvimento", afirma o jornal L'Osservatore Romano, ao dar a notícia, em sua edição de 26 de fevereiro.
Segundo o estudo, fica claro que a drástica mudança no comportamento sexual da população do Zimbábue "recebeu o apoio de programas de prevenção na mídia e de projetos educativos patrocinados pelas igrejas".
Poucos anos atrás, Halperin se perguntava como é possível que as políticas de prevenção "mais significativas tenham sido feitas até agora baseando-se em evidências extremamente fracas", ou seja, na ineficácia dos preservativos.
Em suma, segundo o estudo de Halperin, é necessário "ensinar a evitar a promiscuidade e promover a fidelidade", apoiando iniciativas que visem a construir na sociedade afetada pela AIDS uma nova cultura.
Como disse Bento XVI, é necessário promover uma "humanização da sexualidade".

Quase boas ideias

DN2011-02-28
JOÃO CÉSAR DAS NEVES

Com o Governo em cuidados paliativos, há que preparar a autópsia. As gerações futuras não podem desperdiçar as lições preciosas de tantas experiências desastradas. Tolices foram muitas e variadas; a mais paradoxal é a "quase boa ideia". O Governo de José Sócrates apresentou múltiplos projectos, programas e sugestões que pareciam mesmo excelentes. Não eram.
Todos sabemos que foi feita uma quase reforma da administração pública, reestruturações hesitantes na saúde e educação, mudanças parciais na Segurança Social. Em todos os casos faltou sempre um bocadinho.
O mais espantoso porém foram os sucessos proclamados. A 17 de Janeiro, na Cimeira Mundial de Energia no Abu Dhabi, o senhor primeiro-ministro disse que Portugal é o "segundo país da Europa em energia eólica... líder mundial nesta área graças a reformas e investimentos nos últimos seis anos" (Lusa). Se tem assim tantas vantagens, porque hesitam os países ricos? Será que são todos parvos? Ou seremos nós os parolos que se atiraram à maluca para uma técnica da moda, sem pesar custos, medir inconvenientes, ponderar alternativas? A resposta está na monstruosa factura e no enorme défice tarifário que o Orçamento escondeu e agora rebenta. Mas parecia uma ideia tão boa!
O caso mais brilhante está nas tecnologias da informação, onde se apostou a fundo. Os custos do e-government foram enormes. Os resultados viram-se, por exemplo, na eleição presidencial. O sofisticado cartão de cidadão permite imensas funcionalidades, como votar. Desde que os computadores funcionem. Quando falham, como no dia 23 de Janeiro, então o velhinho cartão de eleitor, certamente o mais humilde dos documentos e já extinto desde 2008, foi muito melhor que a tecnologia avançada. Quando algo corre mal, a quase boa ideia é... insistir na tolice! A forma de o Governo resolver a trapalhada foi eliminar de vez o número de eleitor. Assim, no próximo sufrágio ninguém será favorecido pelos cartões de papel, garantindo igualdade dos cidadãos.
Se o percalço eleitoral é ridículo, as coisas ficam sinistras ao falar do fisco. Em nome da eficiência, os contribuintes são agora obrigados a apresentar electronicamente declarações e até recibos verdes. Compreendem-se as vantagens. O que é inaceitável é a imposição. Regressámos ao papel selado, agora virtual. A forma séria seria criar incentivos ao uso da Net, por exemplo impondo custos ao papel. Mas a arrogância fiscal não sabe o que isso seja. Assim deixa de ser um serviço público, reservando o direito de admissão. É intolerável que uma instituição nacional se recuse a lidar com os contribuintes pelos meios comuns, forçando-os a despesas adicionais para cumprirem os deveres. Que, para mais, permitem novas exigências que prejudicam os cidadãos. Agora roubam o benefício fiscal às facturas sem número de contribuinte impresso.
Pior que tolice e agressão, as tecnologias podem tornar-se infâmia quando prejudicam os pobres fingindo promover a justiça. Em Agosto passado foi anunciado: "Quatrocentas mil famílias beneficiárias de prestações sociais, como o rendimento social de inserção, o abono de família ou o subsídio social de desemprego, têm de fazer a prova de rendimentos através da página de Internet da Segurança Social.... Caso não façam a prova de rendimentos, os beneficiários podem ver estes subsídios cortados" (RTP 28/08/2010). Este mês começam a ser perdidos os apoios. Não são precisos comentários. Atrás da tecnologia já nem sequer há vergonha!
Podíamos continuar a lista das "quase boas ideias" como o Magalhães, plano tecnológico, TGV, novo aeroporto e tantos projectos que iam lançar Portugal na modernidade. O Governo, enquanto arruína o Orçamento, endivida o País, estrangula a economia, adia ou atrapalha reformas estruturais, orgulha-se de algumas ideias onde aposta a sua reputação. O mal foi sempre que a finalidade nunca era resolver problemas, mas o espalhafato da própria tecnologia. Não se queria melhorar a situação, apenas brilhar com soluções aparatosas. Todas quase boas ideias.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

A Surprising Prevention Success: Why Did the HIV Epidemic Decline in Zimbabwe?


journal.pmed.1000414[1]

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A patente da asneira

2011-02-27
José Ribeiro e Castro [1]

Num acto precipitado, o Governo decidiu aderir ao Acordo de Londres, substituindo quase integralmente o Português pelo Inglês no registo em Portugal de patentes europeias. É um gesto gratuito sem ganhos para a economia portuguesa. E uma enormidade para a política externa da Língua, ferindo com danos irreversíveis o Português como língua completa e global.
Dá ideia que quem inspirou o Governo quis aproveitar-se do geral desconhecimento destes meandros e sua impenetrável tecnicidade. Daí, o anúncio de três objectivos de que não se atinge um único. Não podia haver pior pontaria.
1º objectivo: diz o Governo que “visa [a] promoção do investimento estrangeiro em Portugal”.
Mas a redução de custos com a tradução em Português é irrisória (cerca de 1.500 euros) no conjunto de um investimento, usualmente com custos muito elevados. E a insegurança jurídica decorrente de infracções mais prováveis e decisões judiciais mais incertas só pode redundar em desincentivo.
2º objectivo: a “preservação da utilização da língua portuguesa enquanto língua de acesso à informação sobre as patentes europeias que sejam validadas em Portugal, garantindo que as mesmas ficam integralmente disponíveis para consulta em Português”.
Tem que ler-se três vezes o texto para ter a certeza de que se leu bem e não estão a gozar connosco.
Como é que se preserva a utilização da língua portuguesa quando se afasta precisamente a sua exigência? Na verdade, a ideologia subjacente a esta adesão é o absoluto desprezo do Português e sua desvalorização e apagamento enquanto língua de Ciência e Tecnologia, bem como a rendição ao império total do Inglês nestes domínios.
Qual a explicação para tão temerária afirmação? Apenas a fé que, como cuidado paliativo, o Governo proclama numa ferramenta informática de tradução automática, que anuncia para 2011. Mas informações seguras indicam que o INPI já verificou que não possui qualidade, nem fiabilidade mínimas; e não estará em condições de ser utilizada antes de 2015.
3º objectivo: a “criação de um espaço europeu que seja composto por um maior número de Estados em que os cidadãos e as empresas portuguesas possam investir com custos substancialmente reduzidos”.
Fantasia! As empresas portuguesas nada ganham face à situação actual em que Portugal é parte da Convenção de Munique, mas não do Acordo de Londres. O novo regime, se pode beneficiar (pouco) empresas estrangeiras em Portugal, não representa qualquer benefício para empresas portuguesas no resto da Europa.
Acresce que o que o Governo pouparia às patentes estrangeiras não corresponde ao corte de uma esquisitice burocrática inútil. Antes à eliminação radical de um serviço de óbvio interesse geral: a tradução para Português das patentes, indispensável à divulgação científica e tecnológica em língua portuguesa, à presença do Português na inovação científica e técnica internacional e à segurança jurídica dos registos em Portugal.
Enfim, o Decreto causaria ainda prejuízos consideráveis no respectivo sector profissional, prevendo-se o fecho de 15% a 20% dos escritórios, o despedimento de 50% dos trabalhadores e a perda de actividade de 90% dos tradutores especialistas. É mais um contributo do Governo para a crise… Mais falências, mais inactividade, mais desemprego.
Impõe-se, assim, o que o CDS já propôs: que o Governo reveja a questão, através de uma proposta de Resolução à Assembleia da República; e que o Presidente da República defenda a nossa língua e a nossa economia, não assinando um tão estrangeirado Decreto.



[1] – Deputado CDS. Presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros.

Amigos - um poema de Camilo Castelo Branco


Camilo Castelo Branco_amigos

Meta-se na sua vida

úblico 2011-02-27  Miguel Esteves Cardoso

Uma doença exclusiva dos portugueses é acharem que tudo o que ouvem lhes é dirigido, convidando-os a responder e a participar, apesar de não terem sido os destinatários do que se disse.

É por isso que não temos tradução para overhear: tudo o que ouvimos dá-nos o direito de nos metermos na conversa. A intromissão é quase uma obrigação entre nós: é uma entremissão, uma missão que todos herdamos uns para com os outros.

Anteontem, numa mercearia, ao ver uns antigos sabonetes franceses parecidos com uns nossos de grande sucesso, gracejei, sem graça, com a Maria João: "Olha, os franceses estão a copiar a Ach. Brito". Logo interveio a merceeira: "Não, não, que essa marca francesa é muito mais antiga".

Enquanto o resto do mundo distingue o que "sobreouve" (ou não pôde deixar de ouvir) do ser interpelado, os portugueses equacionam o que é audível com fazerem parte da conversa. Os ingleses, quando intervêm, pedem desculpa e só quando sabem que podem ser prestáveis. Dizem "I couldn"t help overhearing..." e depois ajudam com uma sugestão sábia. Já o português, mesmo que esteja a três metros de distância e nunca nos tenha visto mais gordos, entra logo "na roda" e aventa, sem embaraço, que "estamos enganados, que não poderíamos estar mais longe da verdade". O tom é filantrópico: "Já que me pergunta, não me importo de o esclarecer".

Nunca conseguimos dizer: "Não estava a falar consigo". A comunidade de faladores é indestrutível. Estamos fritos.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Costumes dos antigos

Público 2011-02-26   José Pacheco Pereira
É absolutamente impossível ler todos os livros de qualquer biblioteca que tenha mais de 6000-7000 livros

No seu livro sobre a biblioteca pessoal de Hitler, Timothy Ryback cita Walter Benjamin e a eterna pergunta que toda gente que tem bibliotecas a dar para o grande conhece: "Mas já leu estes livros todos?" De um modo geral, quem faz esta pergunta não é um grande leitor nem tem muita experiência de leitura, porque senão saberia de imediato que é absolutamente impossível ler todos os livros de qualquer biblioteca que tenha mais de 6000-7000 livros, na melhor e raríssima hipótese de se ser um leitor excepcional. Mas na pergunta há também uma ingenuidade que me é muito simpática: se não lê todos esses livros, para que é que os tem? E aí estamos noutro território, passamos da leitura para a bibliofilia. No seu conjunto, tudo costumes dos antigos.

O número de livros que se pode ler em vida é controverso e difícil de avaliar. Há livros e livros, uns maiores e outros mais pequenos, uns mais fáceis de ler e outros impossíveis de ler de forma recreativa, fluente, e que exigem uma leitura muito especial e naturalmente muito lenta. Algumas das maiores asneiras e demonstrações de ignorância que conheço são as afirmações presumidas sobre livros de que não se faz a mínima ideia o que são, muito menos lê-los.

Colecciono testemunhos de três asneiras, uma clássica, duas de pura ignorância. A clássica, chamemos-lhe assim, ocorre num romance "social" de Abel Botelho e diz respeito ao operário que tinha alimentado as chamas da sua "revolução", porque, numa noite de insónia, tinha lido o Capital de Karl Marx. Está-se mesmo a ver na mansarda esquálida, o jovem a ler sem sono à luz da vela ou do gás, o árido volume, presume-se que o primeiro, da complexa obra, que é o último texto que se pode considerar incendiário. Ainda dei o benefício de dúvida de que podia ser a edição resumida que Lafargue fez, mas mesmo assim não calha o livro com o "incêndio". O segundo exemplo foi uma aluna minha de Filosofia, num curso de adultos, que me jurou a pés juntos que, também na noite passada, tinha lido de uma assentada a Crítica da Razão Pura de Kant "inteirinha". Está visto que as noites devem ser particularmente excitantes para certos leitores, que lhes permitem ler de uma assentada várias centenas de páginas de um dos livros mais complexos da história da Filosofia. O livro então nem sequer existia em português e o seu fascínio intelectual só se apreende com uma leitura lenta, longa e quase de vida, e que implica o acesso ao vocabulário filosófico alemão, sem paralelo na sua capacidade conceptual. Chumbou, apesar da sua especialidade nocturna em Kant. O último exemplo foi a tentativa por alguns seguidores cheios de zelo, que queriam justificar uma referência de Passos Coelho a um livro que não existia, a "Fenomenologia do Ser" de Sartre, com uma confusão do leitor então muito jovem com o Ser e o Nada de Sartre, cujo subtítulo é Ensaio de Ontologia Fenomenológica. A mera ideia de que um adolescente, com "interrogações existenciais", teria lido o Ser e o Nada de Sartre, livro que os tais zelosos seguidores não faziam a mínima ideia do que fosse, ainda é mais ignorante do que a pobre aluna que tinha lido o Kant nocturno ou o operário inflamado por Karl Marx.

Voltemos aos livros que efectivamente se podem ler numa vida, deixando as imaginárias leituras para os seus cultores. Para uma biblioteca minimamente razoável, ou seja, acima dos 5000 volumes, e por isso feita por quem gosta de livros, tomo como válidos os números entre 2500 e 6000, no máximo, de livros lidos. 2500, já se trata de um muito bom leitor, 5000 um excelente leitor. Benjamin calculava o número em cerca de 10% de uma biblioteca de amador, e Churchill, numa reflexão sobre os livros que nunca teria tempo para ler, achava que tinha lido por volta de 5000, um número já muito elevado, dado que duvido que tivesse muito tempo para ler, por exemplo, nos anos da guerra.

O número razoável para um grande leitor anda à volta de 100 por ano, o que, em 60 anos úteis de leitura, dá à volta de 6000, mas, mesmo assim, parece-me já muito exagerado, porque ninguém mantém tanta regularidade de leitura. Tenho registo de ter lido na juventude quase um livro por dia, trinta por mês, mas olho com espanto para muitos desses títulos de que não me recordo absolutamente nada. "Alimentaram o monstro", mas desapareceram da memória útil. Mas lembro-me de muitos outros na mesma altura, os únicos que deveriam figurar na lista. Foi assim que li toda a colecção Argonauta até pelo menos ao número 100 e muita literatura americana, Steinbeck, Faulkner, Upton Sinclair, John dos Passos, Erskine Caldwell, todos os volumes da Ática do Pessoa e as traduções do Eliot, antes da sucessão de leituras, já noutra fase, das traduções de Quintela de Holderlin, Novalis e Rilke, e das obras de Thomas Mann. Continuei a ler muito, mas o ritmo baixou para o actual de cerca de um livro por semana, número estatístico, visto que leio dois ou três ao mesmo tempo durante várias semanas. Deixo de parte as "releituras", porque o são do mesmo livro, embora haja uma moda de "releituras", muito faladas em certas entrevistas por quem não lê quase nada - "estou a reler Eça", o livro que toda a gente se "lembra" de ter na mesinha de cabeceira - e são tão inventadas como o Kant, o Sartre e o Marx imaginários.

Na Internet, respondendo a esta mesma pergunta, há quem dê totais superiores de livros lidos, mas se eu quiser ler alguns livros infantis, até posso ler 20 por dia e fazer uma estatística absurda. No meu cálculo, os livros andam à volta de uma média de 200-250 páginas e são, na sua maioria, de leitura "narrativa", ou seja, fáceis de ler. As minhas excepções confirmam a regra, alguns dos livros que li mais recentemente chegaram às 1000 páginas, por exemplo sobre a guerra civil americana, ou a história "oficial" do MI5, e um ou outro cai na categoria do "difícil", como alguns ensaios de Teologia, mas é na base desse cálculo mais modesto que eu me coloco a mim mesmo perante o mesmo espelho de Churchill: calculo ler na vida à volta de 4000-5000 livros, e terei já lido, melhor ou pior, cerca de 3500.

Ou seja, ainda me sobram nas estantes muitos milhares para poder ler, mesmo no caso pouco provável de chegar à idade de Matusalém. Não é grande drama, pior seria deixar de ter livros para ler. Historiador, deputado do PSD

Gostava de estar mais entusiasmado com as revoluções árabes

Público 2011-02-25 José Manuel Fernandes
O 2011 dos povos a sul do Mediterrâneo tem mais semelhanças com o 1848 europeu do com o 1989 dos países do Leste

No dia em que Mubarak fez a sua desesperada intervenção televisiva tentando evitar a demissão, estive horas preso à televisão. Assim como no dia seguinte, quando a vigorosa rejeição da Praça Tahrir, no Cairo, o levou a desistir e a retirar-se do poder. Nesse dia, celebrei a sua queda ao jantar - um tirano a menos no mundo.

Porém, nunca me senti à vontade para escrever sobre esta onda de "revoluções árabes". Tal como Pacheco Pereira aqui escrevia no passado sábado, sentia que aquilo que me contavam os jornais e o que via nas televisões era um retrato incompleto, porventura uma narrativa naturalmente entusiasmada de jornalistas eufóricos por estarem a testemunhar mais uma revolução democrática, mas pouco mais do que isso. Perturbou-me, em particular, o que sucedeu à jornalista da CBS Lara Logan quando foi violentada nessa mesma Praça Tahrir por gente que gritava "judia", "judia".

Se, no Egipto, apesar desse episódio, a revolução parecia ser conduzida por jovens da classe média que genuinamente aspiravam a mais liberdade e mais democracia, e se a transição parece estar a ser monitorizada por umas Forças Armadas que compreendem o valor da paz e das relações com os Estados Unidos, a verdade é que, ao olhar para o complexo mosaico do Médio Oriente, nada indica que tudo tenha de correr bem. Na Tunísia, onde tudo começou, as primeiras manifestações surgiram depois de uma subida abrupta dos preços de bens elementares. Os protestos na Argélia têm também uma componente popular muito forte, bem menos elitista (chamemos-lhe assim) do que os da Praça Tahrir. No Iemen, há uma forte componente separatista nas manifestações. Na Líbia, não se pode desprezar a componente tribal do levantamento popular. E, no Bahrein, é fortíssima a componente religiosa, já que o monarca é sunita e a maioria da população é xiita.

A Internet e a Al-Jazira (talvez até mais esta...) criaram a imagem de um só movimento pela liberdade que, mesmo inspirado pelo mais influente dos países árabes (o Egipto) e mesmo tendo pela frente regimes que variam entre o autocrático e o brutalmente ditatorial, é suficientemente variado e ocorre em contextos suficientemente diferentes para que duvidássemos estar a assistir a uma espécie "Abril árabe" (a expressão é de Eduardo Lourenço) colectivo. As más experiências de algumas transições democráticas na região - na Argélia, o voto secreto e universal levou à vitória dos radicais islamitas da FIS, na Palestina à do Hamas - também nos levavam a raciocinar com prudência.

Um artigo recente de Anne Applebaum (a consagrada autora de Gulag: Uma História) ajudou-me, no entanto, a arrumar ideias e a manter o entusiasmo inicial, mas cum grano salis.

Ou seja: "Esta revolução deve ser vista no seu próprio contexto, pois cada uma teve um impacto distinto. As revoluções espalharam-se por todo o lado. Interagiram. Mas o drama de cada uma delas desenvolveu-se separadamente. Cada uma teve os seus heróis e as suas crises. Cada uma exige a sua própria narrativa".

Esta descrição, retirada do texto de Applebaum, não retrata os actuais levantamentos no mundo árabe, mas as revoluções que, em 1848, varreram a Europa. Foi retirada de um livro que as descreve, mas a similitude com a actual vaga de levantamentos no Médio Oriente pode ser mais do que ocasional. É que, e aqui já sigo Applebaum, estes levantamentos são muito diferentes dos que conhecemos na Europa de Leste em 1989 - e não apenas por ElBaradei não ser o Vaclav Havel do Egipto. Esses levantamentos tiveram um mesmo pano de fundo: a percepção, pelas populações dos países que então integravam o Pacto de Varsóvia, de que a União Soviética de Gorbatchov já não apoiava os seus detestados líderes. Nada de semelhante se passou desta vez - não foi por certo por a Europa e os Estados Unidos terem seguido, de forma atrapalhada e atabalhoada, o sentir dos manifestantes e retirado o apoio a antigos aliados como Mubarak que, de repente, o povo árabe começou a descer às ruas.

País a país, o que se passou foi, por isso, mais parecido com o que se passou na Europa de 1848, quando um vago sentimento revolucionário comum percorreu o continente e pareceu unificar o que eram movimentos e reivindicações muito diferentes de húngaros, alemães ou franceses. Nessa época, a maior parte das revoluções acabou num impasse ou na derrota, mas todas deixaram sementes que germinariam mais tarde, pelo que, décadas depois, os sentimentos ora nacionalistas, ora republicanos, dos revolucionários de então acabariam por ser alcançados em toda a Europa, se bem que nem sempre (ou mesmo quase nunca) de forma pacífica ou mesmo aceitável nos dias de hoje.

Applebaum sublinha, por isso, que as diferenças entre os diferentes países árabes por onde passa este vento revolucionário podem ser, como na Europa do século XIX, mais importantes do que as semelhanças. O que significa que podemos chegar a 2012 com um sabor amargo na boca, parecido com o que sentiam os revolucionários europeus em 1849. "As ditaduras podem ter regressado, a democracia pode não ter conseguido funcionar, os conflitos étnicos podem ter degenerado em violência interétnica", alerta Applebaum, mas isso não impede que tenha sido dado um passo e plantada uma semente que mais tarde frutificará.

Ao colocar a História em perspectiva - e também ao contestar o relato linear dos directos televisivos -, Applebaum ajuda-nos a manter a visão de longo prazo. Pode não ser ainda altura de, por cada tirano que cair de Tunes ao Cairo, de Damasco a Riade, do Bahrein a Trípoli, fazer estalar a rolha das garrafas de champanhe - mas é, seguramente, a altura de as colocar no gelo.

Eduardo Lourenço, num texto também aqui editado, acertava quando apelava a que não se esperasse que "estas inéditas revoluções islâmicas - diversas entre elas - obedeçam a uma espécie de mot d"ordre ideológico como aquelas de que os europeus, e aqueles que os imitaram, foram exemplo", pois os jovens "revoltam-se por motivos precisos, por injustiças clamorosas, por tiranias tornadas insuportáveis". Porém, será que acerta quando nos diz para aceitarmos sem estados de alma que "o Islão não se converterá ao nosso modelo e é ilusão suma pensar que o está fazendo"? Mais: será que tem razão quando augura a emergência de uma ordem pós-iluminista em que "os jovens revoltados da Tunísia, do Egipto, da Líbia, do Bahrein, estão entrando", um "novo mundo a que nós igualmente, por imperativos de outra herança, devíamos aspirar"? Não me parece. Nem estou disponível para encaixar eventuais contratempos no caminho para sociedades abertas onde os indivíduos sejam respeitados por troca com a aceitação de outras "identidades", mesmo que inspiradas na melhor tradição de um Avicena ou de um Averrois.

Por outras palavras: se acredito na universalidade dos direitos do homem, não posso aceitar uma "especificidade" que se traduza, a prazo, numa limitação dos princípios da liberdade e da igualdade de direitos. Não julgo possível, por exemplo, diminuir a vigilância relativamente ao estatuto das mulheres nos regimes que saírem destas revoluções. Ou na concretização do princípio da separação do Estado e das igrejas. Ou na capacidade de criar Estados onde o poder dos governos esteja limitado pela lei, pelo direito de cada indivíduo poder aspirar à sua felicidade (desde que esse caminho não colida com direitos alheios) e por sistemas de pesos e contrapesos.

Daí que, na sua relação com os regimes que forem saindo destas revoluções, a Europa e os Estados Unidos, para além das naturais preocupações com a estabilidade numa região volátil e que detém recursos naturais indispensáveis ao nosso modo de vida, se preocupem mais com a criação de uma cultura de liberdade do que a rápida, ou mesmo precipitada, convocação de processos eleitorais. Como Fareed Zakaria já explicou em O Futuro da Liberdade, há uma grande diferença entre ser-se eleito, ou mesmo reeleito, e respeitar limites no exercício do poder e os direitos dos cidadãos. O prémio Nobel Amartya Sem costuma dizer que governar em democracia é, antes do mais, "governar pela discussão", e não vejo razão por que estes princípios "ocidentais" não devam ser aplicados no Islão.

O que vejo, ou temo, é outra coisa: que o Islão esteja tão impreparado para uma democracia constitucional e liberal como estava a Europa continental em 1848. Aí, até posso compreender Vasco Pulido Valente. Onde me afasto dele é por pensar que, apesar de tudo, em 1848 já se tinha percorrido um caminho pós-1789 (data da Revolução Francesa), pelo que se o Islão ainda não estiver preparado, como não parece estar, para o "nosso modelo", no que ele tem de universalista, isso não implica que me renda à inevitabilidade de, nessa parte do mundo, nessas terras onde a cultura islâmica é dominante, não ser possível, hoje ou mais tarde, respeitar certos direitos fundamentais dos seres humanos. Jornalista

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Nada de choques no rabinho dos presos, chamem a malta do Bloco

Tiago Mesquita
2011-02-25

Anda tudo em histeria porque um preso que decidiu transformar a cela num curral levou com um choque eléctrico no rabo. Este país não tem mais nada com que se preocupar? Eu também não gostei de ver a forma como o recluso foi tratado na prisão em Paços de Ferreira. Ninguém aprecia ver imagens de violência. Mas chamo a atenção dos que se mostraram mais "indignados" que a filmagem se passou no interior de um estabelecimento prisional e não no parque de estacionamento do Lidl ou no recreio de um jardim-escola da Bobadela. São ambientes um bocadinho diferentes. Com direitos e deveres distintos. E não estamos a falar de um menino do coro. Estamos a falar de um traficante de droga que já tinha agredido guardas prisionais.
Só quem não viu filmes como "Carandiru" ou "Attica", retratos verídicos de acontecimentos passados em prisões de estados democráticos, ambos com finais trágicos, é que não entende o que se passa em ambientes prisionais. Não são os guardas prisionais que controlam os presos, a coisa funciona ao contrário. Mas voltando ao caso em concreto:
"A situação em causa prendia-se com o facto de o recluso intencionalmente conspurcar totalmente com fezes a cela de habitação, corpo e roupa pessoal, a ponto de os restantes reclusos alojados no setor estarem a iniciar uma greve de fome e outros protestos por não suportarem a situação que estava a por em causa a sua saúde e a dos funcionários", esclarece aquele organismo. "Convém elucidar que o recluso em causa foi por diversas vezes consultado por psiquiatra, a última das quais em 1 de Setembro de 2010, não tendo tido nunca indicação para tratamento do foro psiquiátrico" Direcção Geral de Serviços Prisionais
Ou seja, o homem não é doente psiquiátrico, não é incapaz ou aleijado. É sujo. E como sujo que é viva ele numa cela ou numa suite do Ritz o resultado é o mesmo, só difere na dimensão: ou 2 ou 100 metros quadrados de porcaria para limpar. Mas claro que o coitadinho não tem culpa. Alguém que venha limpar a esterqueira. E os outros reclusos e funcionários da prisão que lhe aturem a birra. Ponham uma mola no nariz e liguem um ambientador.
Ora depois das imagens o que é que se estava mesmo a ver que ia acontecer? Aparece logo o Bloco de esquerda, aquele partido que defendia que os polícias deviam andar desarmados, lembram-se? (risos) É mesmo cómica esta malta. Para eles os polícias deviam andar com fisgas e estalinhos de carnaval a correr atrás de traficantes armados com semiautomáticas. Ora o Bloco, este partido que já poucos levam a sério, o que fez? "O pedido foi feito esta manhã pelo Bloco de Esquerda e aprovado por unanimidade na reunião da comissão. Julgamos que o inquérito será rápido, por isso queremos ouvir o ministro da Justiça assim que este esteja concluído" - disse a deputada bloquista Helena Pinto. Público
Sugiro que quando uma situação deste género voltar a acontecer, um qualquer recluso se recusar a comportar-se com uma pessoa normal e se mostrar indisciplinado, não chamem o GISP, chamem o Dr. Louçã e companhia e dêem-lhes baldes e esfregonas para as mãos. Eles resolvem o problema se entretanto o preso não se passar da cabeça e lhes chegar a roupa ao pêlo.

Sobre os amigos

Palavras amáveis multiplicam os amigos, a linguagem afável atrai muitas respostas agradáveis.
Procura estar de bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil.
Se queres ter um amigo, põe-no primeiro à prova, não confies nele muito depressa. Com efeito, há amigos de ocasião, que não são fiéis no dia da tribulação.
Há amigo que se torna inimigo, que desvendará as tuas fraquezas, para tua vergonha.
Há amigo que só o é para a mesa, e que deixará de o ser no dia da desgraça; na tua prosperidade mostra-se igual a ti, dirigindo-se com à vontade aos teus servos; mas, se te colhe o infortúnio, volta-se contra ti, e oculta-se da tua presença.
Afasta-te daqueles que são teus inimigos, e está alerta com os teus amigos.
Um amigo fiel é uma poderosa protecção; quem o encontrou, descobriu um tesouro.
Nada se pode comparar a um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor.
Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor acharão tal amigo.
O que teme o Senhor terá também boas amizades, porque o seu amigo será semelhante a ele.
Livro do Eclesiástico 6,5-17

Imagem

DESTAK|2011.02.24
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Imagine que uma qualquer potência internacional tinha como propósito destruir a imagem portuguesa no exterior. Dificilmente poderia ter melhores resultados nesse sinistro propósito do que os que o nosso Governo conseguiu nos últimos meses.
Na sua subida sabedoria, o executivo erigiu há meses como finalidade suprema evitar recorrer ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira. Das duas uma: ou Portugal não está em dificuldades financeiras, caso em que esse objectivo faz todo o sentido, ou esse Fundo é um meio perver-so de ataque aos países, não se entendendo então o voto positivo dado pelo Governo português à sua criação em Maio passado.
Mais estranho ainda, todas as esperanças do executivo português estão numa eventual proposta de reforço e flexibilização do mesmo Fundo, ideia que anda a saltitar nos meios europeus, mas que os países endinheirados têm compreensível relu-tância em aceitar.
Ou seja o Governo português, que afirma a pés juntos não haver qualquer necessidade de o país recorrer ao FEEF, está ansioso por aceder a uma versão aliviada. Mas não serão as medidas do Fundo convenientes ao país? Isso torna claro que a questão, afinal, não é financeira. É mediática. O que está em causa é o impacto que a ajuda terá na imagem do país. Ou será na imagem pessoal dos ministros e política do Governo?
Entretanto a imagem na-cional vai-se degradando nos mercados, precisamente porque fica claro que o desequilíbrio financeiro é a última prioridade do nosso executivo, apostado como sempre num jogo de espelhos.

O exemplo que chegou de Londres

Aura Miguel
RR on-line 25-02-2011 09:44

Os ex-anglicanos recentemente convertidos à Igreja Católica tomaram, esta semana, em Londres, uma medida exemplar: organizaram uma campanha pública para rezar pelo Papa, convidando os fiéis a participar numa Hora Santa de reflexão sobre o Bispo de Roma.
Mais: o convite partiu do ex-bispo anglicano Keith Newton – hoje sacerdote católico, ordenado há mês e meio – responsável máximo do Ordinariato de Nossa Senhora de Walsingham, a estrutura que Bento XVI criou para, em Inglaterra, acolher os que desejam entrar na plena comunhão com a Igreja católica.
“Queremos agradecer a visão do Papa e o dom da unidade que nos trouxe até aqui”, disse o ex-bispo anglicano recém-convertido. “Encorajo todos a entrar numa igreja católica e a rezar por ele diante do Santíssimo”.
Que bom seria reconhecer esta frescura também em bispos que sempre foram católicos… Para que Bento XVI não tivesse de se queixar – como se queixa – de que os maiores ataques contra si partem do seio da própria Igreja.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Mensagem do Papa para a Quaresma de 2011


MsgQuaresma2011

O eurolusocídio

Público 2011-02-22  José Ribeiro e Castro
O Parlamento Europeu não nos defendeu e o Governo entregou-nos, traiçoeiramente, no Conselho

Insisto há anos para conhecermos o valor económico da língua portuguesa. Vivemos tempos materialistas - vale pouco o que não pesa em percentagens do PIB. Às tantas, o Governo pareceu agarrá-lo e desencadeou uns estudos. É o caminho certo e novas iniciativas vão-no levando mais fundo.
Agora, a contracorrente, o Governo acaba de dar uma dentada valente precisamente no valor económico da nossa língua: consumou-se a primeira etapa de um "lusocídio" - a exclusão do Português do regime europeu de patentes. O Parlamento Europeu não nos defendeu e o Governo entregou-nos, traiçoeiramente, no Conselho, pela calada da manhã.
O debate parlamentar foi elucidativo. O alemão Lehne, relator, mostrou ao que vêm os entusiastas do regime trilingue de Munique (inglês, francês e alemão): "Se algum Estado - ditou ele - se acha tão importante para querer a tradução das patentes na língua nacional, pague-a!"
Do alto da sua arrogância, nem se apercebeu que o mesmo pode dizer-se para a Alemanha, numa frase que é uma barbaridade para a construção europeia, seus princípios e valores. Mostra a nova ideologia trilingue, que pode vir a ter vastíssimas consequências. Mas nem isso impressiona o Governo português na sua deserção, nem os eurodeputados, que se esquecem de defender o interesse nacional.
Este atentado a valores básicos da União Europeia vem convenientemente embrulhado em mistificações quanto aos "custos" a poupar, no meio de chavões sobre "competitividade", para impressionar quem quer ignorar a realidade. Em Estrasburgo, depois de loas à "competitividade europeia", a ministra Enikö Györi, pela presidência húngara, debitou o argumento conhecido: "Nos EUA, um inventor pode adquirir uma patente para todo o território pelo equivalente a 1850 euros. Na UE, o mesmo custa 20.000 euros para apenas 13 estados."
As coisas não são exactamente assim, mas deixemos os pormenores. Os espanhóis provaram, sem serem contraditados, que todos os custos registais não pesam mais de um a dois por cento dos gastos em I&D no desenvolvimento de qualquer patente. E, desde logo, se a Europa quisesse regime igual ao americano, optaria pela solução do English only, que poderia ser aceitável e que a Comissão e o Conselho abandonaram, com a cumplicidade de Portugal. Por outro lado, falando de competitividade europeia, é evidente que ela já não é uniforme; e ficará pior, se o mercado interno não proteger devidamente a igualdade e a não discriminação. Ora, com o regime de Munique nas patentes, os alemães ficarão ainda mais competitivos e nós, portugueses, ainda menos.
Se pensasse à comunitária, a Comissão deveria assumir para a UE a totalidade dos custos de tradução, como acontece em todos os domínios, em decorrência do multilinguismo dos tratados.
Mas a mistificação é maior. O custo médio de traduzir uma patente para português é de 1000 a 1500 euros, o que não é exorbitante para o trabalho que remunera e a segurança jurídica que proporciona. Aliás, esses "custos" de tradução não são burocracia, mas economia - correspondem a um sector de actividade profissional, altamente qualificado, que irá para o desemprego. E esta actividade económica tem real utilidade cultural e social, proporcionando a rodagem e actualização permanente da nossa língua como língua de ciência e tecnologia. Para Portugal, este sector significa exportações de serviços de 30 a 40 milhões de euros anuais, correspondendo metade às traduções - com o regime de Munique, isto irá perder-se e, em parte, ser substituído por importação.
Mais sintomática é a distorção mental: alemães e Comissão clamam contra "custos" de tradução, mas nada se importam com os custos da burocracia. O Instituto Europeu de Patentes carrega seis mil funcionários e paga-se caro. Se uma tradução custa 1000 a 1500 euros, um pedido de patente europeia custa tipicamente, só em taxas administrativas, cerca de 4000 euros! Com mais alguns requintes: se o requerente se atrasa um dia, apanha uma penalidade de 50 por cento do valor em falta; além do pedido, tem de pagar mais cerca de 1000 euros das primeiras anuidades; há actos muito caros, como, por exemplo, uma busca ou um exame (1800 euros cada) ou uma opinião técnica (mais de 3500 euros). E todas estas taxas para "mangas de alpaca" são principescamente actualizadas: subiram cinco por cento em 2010, um ano em que a inflação na zona euro não chegou a um por cento.
A garantia do Português é que incomoda, desprezando o facto de os "custos" corresponderem a economia, emprego, produção cultural, exportação de serviços. Mas o peso da burocracia de Munique, esse, não tem importância nenhuma! Há melhor evidência da má fé subjacente ao debate? E dos interesses reais que se jogam e impõem?
O Governo desrespeitou a Constituição e a lei de acompanhamento parlamentar. E, a nível europeu, pode arguir-se violação do Tratado de Lisboa. Por isso, a nossa esperança só pode ficar em os espanhóis honrarem a promessa e não darem tréguas no Tribunal de Justiça. Em Bruxelas e Estrasburgo, poucos são os portugueses em que podemos confiar nestas lutas. O Governo traiu. O presidente da Comissão Europeia age, às vezes, como português não praticante. E, no Parlamento Europeu, o retrato foi este: a favor do interesse nacional, só CDS (Nuno Melo e Diogo Feio), PCP (Ilda Figueiredo e João Ferreira) e dois PSD (Carlos Coelho e Graça Carvalho); contra o interesse nacional, todo o PS e a maioria do PSD.
Foi assim o eurolusocídio.
Deputado do CDS-PP

Igreja/República: Os dias da «revolta» dos bispos

Documento, divulgado em finais de Fevereiro de 1911, contestava medidas «anticatólicas» e a perseguição às instituições católicas
Lisboa, 23 Fev (Ecclesia) – Os bispos católicos de Portugal escolheram o final de Fevereiro de 1911 para reagir às medidas tomadas desde a implantação da República, a 5 de Outubro do ano anterior, que consideravam de “feição não só acatólica, mas anticatólica”.
A «Pastoral Collectiva» do episcopado (na altura ainda não existia Conferência Episcopal) tinha data de 24 de Dezembro de 1910, mas só a 22 de Fevereiro de 1911 os bispos se decidiram pela sua leitura pública, nas missas dos domingos seguintes, sem prévia autorização do Governo, o que acabou por ser impedido, em muitos casos, pelo poder civil.
No documento, os bispos assinalam, em tom crítico, que o novo regime “proscreveu a Companhia de Jesus e extinguiu todas as demais ordens e consagrações religiosas” aboliu o “juramento religioso”, suprimiu “a observância de muitos dias santos de preceito” e “proibiu o ensino da doutrina cristã” nas escolas oficiais - suprimindo ainda a Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra - e facultou o divórcio.
“Como complemento e remate desta obra de hostilidade ao Catolicismo, virá, talvez, - corno muito é de recear, - vibrar-lhe mais fundo e dilacerante golpe a anunciada lei da separação entre o Estado e a Igreja”, alertavam, então, o patriarca de Lisboa, os arcebispos e bispos “do Continente de Portugal”.
A carta foi redigida na sua forma definitiva por D. Augusto Eduardo Nunes (1849-1920), arcebispo de Évora, mas o Governo Provisório procurou evitar a sua divulgação recorrendo à não concessão do tradicional beneplácito.
O bispo do Porto, D. António Barroso (1854-1918), acabaria por ser destituído das suas funções por não ter acatado esta decisão governamental.
“O Catolicismo não é só repelido, como importuno estorvo à marcha das gerações novas em demanda dos novos ideais: é vexado, é perseguido; e de futuro, segundo a fácil previsão que os acontecimentos autorizam, irá recrudescendo a perseguição”, pode ler-se na Pastoral Colectiva.
O texto refere a existência de 5,41 milhões de católicos em 5,42 milhões de habitantes, partindo do censo de 1900 como justificação para a recusa de quaisquer medidas laicizadoras.
Esta pastoral foi, segundo o historiador António Matos Ferreira, “um protesto formal às medidas do Governo”, onde os bispos “reiteram o respeito pelo novo regime instituído”, mas informam que “os católicos não podiam cooperar com quem hostilizasse o catolicismo”.
“Apelam ainda ao compromisso dos católicos no favorecimento da causa da Igreja, e pedem um empenhamento de esforços na remoção da legislação contra a causa da religião”, escreve o especialista do Centro de Estudos de História Religiosa da UCP, na edição especial com que a Agência ECCLESIA assinalou o Centenário da República.
As medidas anticlericais tomadas pelo Governo Provisório viriam a agudizar-se com a publicação da Lei da Separação, a 20 de Abril de 1911.
D. Manuel Clemente, bispo do Porto e historiador, lembrou, em conferência proferida na última semana, que a Igreja apresentou “resistência” perante este novo enquadramento legal da religião organizada, “com as consequentes desavenças entre o Governo e o Episcopado”.
Em Maio de 1911, seria o Papa Pio X a assinar a encíclica «Iandundum», na qual condenava a “inacreditável série de excessos e crimes que foram levados a cabo em Portugal, para opressão da Igreja”.
OC

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A próxima ceia

DN 2011-02-21 JOÃO CÉSAR DAS NEVES
O senhor primeiro-ministro eng. José Sócrates é uma personalidade lamentável. Tribuno hábil e táctico eficaz, o seu horizonte reduz-se sempre à imagem política e ao equilibrismo de forças. Para ele, o poder parece ser um cargo, não uma função, um ganho, não uma responsabilidade. Sacrifica invariavelmente o interesse nacional às manchetes dos semanários.
Devemos-lhe algumas decisões correctas e válidas, mas a atabalhoada gestão deste descalabro financeiro, que o marcará para a história, é apenas um aspecto final do vício original. Todo o consulado andou marcado por suspeitas, intimidações, escândalos, manipulações, negociatas. Agora já se vê bem a subida da pobreza, desemprego, injustiça, o ataque a contribuintes, Igreja, escola livre. As ilusões acabaram. Após seis anos de mandato é evidente a tacanhez de visão e os custos da estratégia míope.
Muito pior, apesar de menos visível, é a supina arrogância com que impôs os seus caprichos ideológicos, alterando com ligeireza as multisseculares leis da família e protecção da vida humana. Desrespeitando a legalidade e isenção democráticas, não teve a menor contemplação em alinhar repetidamente Portugal com as posições mais extremistas e aberrantes. Aqui a sua herança junta-se em infâmia às atrocidades da história.
Por isso foi com enorme surpresa que ouvi dizer que Jesus Cristo quer cear com José Sócrates. Não tenho a certeza da fiabilidade da informação, mas a simples possibilidade merece ser ponderada.
Do ponto de vista do primeiro--ministro (PM) não é difícil perceber o interesse. Receber Cristo à sua mesa em S. Bento é uma magnífica oportunidade política. Dá-lhe um palco mundial, conquista os cristãos, surpreende laicos, embaraça bispos, anula as repetidas queixas da Igreja. Ele explorará ao máximo o encontro.
E o outro lado? Por que razão pretende Cristo tão insólita conversa? Nunca devemos esquecer que Ele era conhecido por jantar com pecadores, prostitutas e publicanos. A razão, dizia, era que "não são os que têm saúde que precisam de médico, e sim os enfermos. Não vim chamar os justos, mas os pecadores" (Mt 9, 12-13; Mc 2, 17; Lc 5, 31-32). Os jornais, políticos e até nós cristãos temos muita dificuldade em compreender esta preferência de Jesus por aqueles que a sociedade condena. Custa-nos sempre a aceitar a predilecção pela ovelha perdida, a injustiça de haver "mais alegria no Céu por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão." (Lc 15, 7). Pensando bem, é às personalidades lamentáveis, como Sócrates (ou nós antes de O conhecermos) que Cristo vem falar.
O mais difícil nisto é o meu ponto de vista. Como reagiria eu perante tão insólito acontecimento? Que diria eu a Jesus, com quem falo tantas vezes em oração, ao saber do Seu propósito de cear com um dos Seus maiores inimigos actuais? Talvez tentasse convencer o Senhor de que Sócrates não é como Mateus ou Zaqueu, mas como Herodes Antipas.
Esse também ficou feliz quando Jesus lhe chegou manietado à sala de banquetes, mas apenas porque se queria aproveitar para seu divertimento. A Herodes Jesus nem lhe dirige a palavra. Essa, acho eu, seria a melhor atitude face a Sócrates. Mas que diria eu se Jesus insistisse no Seu propósito? Se, depois de toda a minha argumentação, Ele entrasse mesmo na resi- dência oficial, atravessando as chusmas de jornalistas que o oportunista PM não deixaria de convocar? Que faria eu se Cristo fosse mesmo entabular conversações com a lamentável criatura? Ficaria cá fora, remoendo os meus preconceitos junto com os fariseus, ou entraria no antro da hipocrisia, para comer com Jesus e os publicanos?
Esta é a questão decisiva da vida humana. Quando Cristo desafia as minhas certezas, eu fico com elas ou com Ele? Quando Sócrates encontra Jesus, abre-se à Sua Palavra ou fica nos seus interesses? "Dois amores fizeram as duas cidades: o amor de si até ao desprezo de Deus - a terrestre; o amor de Deus até ao desprezo de si - a celeste." (S. Agostinho A Cidade de Deus, livro XIV, cap. xxviii).
naohaalmoços@fcee.ucp.pt

Elogio aos gagos

João Pereira Coutinho 2011-02-21 Folha.com http://www.folha.uol.com.br/
Certo dia fiz uma viagem de trem entre Porto e Lisboa com Marc Shell. O ilustre Marc Shell é um escritor americano, professor em Harvard, e a conversa, durante três horas, é daquelas que dificilmente se esquecem. Falou-se de tudo: da vida e da morte. E de literatura, que faz a soma de ambas.
Um traço do cavalheiro, porém, causava-me estranheza: a forma como falava. As frases eram curtas. Pausadas. Como se houvesse ali um excesso de afetação ou vaidade.
Dias depois, ao folhear a revista "Spectator", encontrei a chave para o mistério: uma resenha ao último livro de Shell. O livro intitula-se "Stutter" e é uma mistura sagaz de autobiografia e estudo cultural sobre os dramas da gaguez.
Shell era gago. E a forma como falava, longe de ser uma exibição de pedantismo, era um mecanismo de sobrevivência. Cada. Frase. Era dita de um fôlego só. Para não haver derrapagens. Desconfortáveis.
Fiquei a pensar na conversa; a reavivá-la na memória; e apesar de nunca ter gaguejado, pelo menos oralmente (os meus detratores dirão que só gaguejo por escrito), imagino o que deve ser a vida de um gago. Cada frase é uma pequena ilha; e, entre as ilhas, um oceano imenso que é preciso cruzar sem afogamentos.
Lembrei-me de Shell e das suas ilhas quando assistia ao discurso do "Discurso do Rei": falo da alocução final e radiofônica em que George 6º, recriado com competência por Colin Firth, precisa de se dirigir à nação no momento em que a Inglaterra declarara guerra à Alemanha nazista. E, nas folhas do discurso, pequenos traços a marcar o ritmo da sinfonia. Como um compasso.
Então George 6º/Colin Firth começa. Uma frase. Outra. Mais outra. E, no rosto dele, um esforço homérico. Como se discursar fosse uma maratona olímpica de desfecho incerto.
E talvez fosse. Em 1939, já não bastava a um rei não cair do cavalo, como lhe diz o pai, George 5º (o notável Michael Gambon). Era preciso que a voz de um rei fosse escutada pelo seu povo, sobretudo quando, do outro lado do Canal da Mancha, os totalitarismos que ensombravam a Europa também eram totalitarismos de agressividade verbal.
Mussolini ou Hitler discursavam com a cadência de metralhadoras. Era preciso responder a tamanhas baterias orais com, pelo menos, alguns disparos de canhão. Mas como, se o rei era gago? Mas como, se o premiê também?
Churchill tratou do assunto com a cadência teatral que o imortalizou - embora, como explica Christopher Hitchens em ensaio sobre o velho Winston, nem sempre a voz de Churchill era a voz de Churchill. Por vezes, era o ator Norman Shelley quem gravava as intervenções radiofônicas em seu nome, mimetizando a voz na perfeição.
E, em relação ao rei, a angústia foi aliviada com um terapeuta. Que o ensinou a pular de ilha em ilha sem cair no mar.
"O Discurso do Rei" não é um grande filme. Mas é, sobretudo, um filme exemplar sobre a mais rara das virtudes: a virtude da resiliência. Esse sentimento moral profundo de que existem deveres que não apenas são superiores a nós como exigem o melhor de nós.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Sem saída

JN 2011-02-20 Zita Seabra
O país está num impasse dramático. Numa negação da realidade, o primeiro-ministro aparece fugazmente com uma triste e decadente agenda política com a única preocupação de (ainda) tentar "vender" a imagem de que nada se passa com o país.
Os ministros sumiram e ninguém sabe o que estão a fazer. Suspeita-se apenas. O primeiro-ministro finge, já sem nenhuma imaginação e convicção, que tudo está bem e mostra-se em tristes "reprises" das cenas que outrora eram encenadas com "pompa e circunstância".
Esta semana lançou a primeira pedra de uma barragem e fez uns quantos discursos sem nexo e aos gritos. Certamente que lamenta que já ninguém visite Portugal e permita regressar ao brilho de uma fotografia ao lado de. Nem mesmo Hugo Chávez vem e parece que já não liga muito a um pobre país europeu endividado, com Magalhães para vender e à espera de alguma esmola.
Assim, arrastamo-nos numa decadência pesada. Para "animar a malta", o BE acena com uma moção ao serviço de ridículas tácticas. O PC e a CGTP põem, como sempre, os transportes públicos em greve, numas tristes acções de massas, que apenas dificultam mais a vida de quem trabalha. Nem moções nem o futebol conseguem evitar que os portugueses consciencializem o impasse em que estamos neste momento.
Os bancos nacionais cortaram radicalmente os empréstimos às empresas. Pelo seu lado, as empresas sem crédito, sem financiamento, definham, despedem, dispensam e não podem fazer outra coisa.
A dívida continua a ser vendida, ou pior ainda, os juros da dívida estão muito acima dos 7 %, 7,4 %, em valores que não se podem aguentar, não são sustentáveis a curto prazo, dizem os economistas. E o governo vive cada dia como se o objectivo fosse garantir a sua permanência mais um dia. E são tão vagos os sinais de esperança que, de vez em quando, deixa entrar a esperança de que um Euromilhões salve o primeiro-ministro por mais uns meses e a nós do abismo para onde nos levam há anos.
Ao mínimo sinal, saltam foguetes como se de festa se tratasse. Quando foi anunciado que iam reforçar o fundo europeu de ajuda aos países em ruptura financeira, logo cantaram vitória e pensaram, certamente à boa maneira portuguesa: "Estamos safos!". Quando se percebeu que a Alemanha e a França querem medidas concretas debatidas e aprovadas no seguimento de uma cimeira extraordinária dos países do euro, reduziram-se novamente, governo e Comunicação Social afecta, ao silêncio. Tudo se agravou novamente quando, mais explícitos, os alemães explicaram que o Fundo de Ajuda será reforçado, mas em 2013!
Quando, no fim da semana, o ministro alemão das Finanças dá uma entrevista em que novamente insiste que não vão deixar cair um grande país como Espanha, ouço suspiros de alívio, exclamando: "Não nos vão pôr fora do euro!". Mas o ministro alemão, seguido do vice-ministro, dizem mais. Falam mesmo de Portugal e explicam que Portugal tem de fazer o trabalho de casa, tem que proceder às reformas estruturais que lhe permitam sobreviver sem a bancarrota, sem a albanização, agora que a Albânia melhora a sua situação.
Incapaz de enfrentar os problemas, sem coragem para governar, o Governo transmite apenas o sentimento do medo. O medo paralisante do futuro. Com o Estado Social a desmoronar, o Serviço Nacional de Saúde sem financiamento, a dívida a atingir valores nunca vistos (dois terços acima do PIB) e insustentáveis, Portugal parece um cenário decadente de um filme de Fassbinder, uma espécie de «Lola», vivendo da sua velha fama com o esplendor das plumas de há 30 anos.
Ninguém no Governo quer dizer a verdade e ninguém no Governo quer encará-la. Continua-se a pensar que a virtude está na ilusão dos cenários e na verdade se encontra apenas o mau agoiro que traz o azar na vida.
Mas a verdade tem muita força e impõe-se sempre. Estamos à beira de recessão, as empresas sem crédito, o país sem dinheiro e todos os dias o desemprego a aumentar. Todos os dias novos portugueses, jovens ou adultos, perdem o seu posto de trabalho e não encontram esperança em nenhuma primeira pedra que o primeiro-ministro, preenchendo calendário, inaugura.
A esperança virá apenas no dia em que, conscientes da verdade, encarando o país e os seus problemas, se sentem todos a uma mesa, os que devem criar políticas concertadas, e nos retransmitam a confiança que perdemos. Sem isso, sem encarar a verdade, como sublinhou Alexandre Soares dos Santos, rapidamente os sacrifícios pedidos se transformam em sentimentos de revolta, que muitas vezes, sendo legítimos, apenas agravam a situação.

20 de Fevereiro - Pastorinhos de Fátima

Beatos Francisco e Jacinta Marto

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Requiem pela Língua Portuguesa

Público, 2011-02-19
José Ribeiro e Castro
Marquem no calendário: semana negra para a Lusofonia!
Avançou, em Bruxelas e Estrasburgo, a manobra da cooperação reforçada nas patentes, que privilegia Inglês, Francês e Alemão e fere interesses específicos da economia portuguesa. Com o furtivo agenciamento do Governo Sócrates, que fugiu à Assembleia da República, e a conivência do PS e PSD (à excepção de Graça Carvalho e Carlos Coelho), foram demolidos interesses fundamentais e direitos da política linguística portuguesa. Nota alta só para CDS e PCP. Mas ficou tudo muito difícil.
Tenhamos presentes dez linhas elementares:
1.º       Portugal não tem qualquer interesse e deve opor-se firmemente, na Europa, a regimes linguísticos que excluam e discriminem a língua portuguesa.
2.º       Portugal não guarda só o interesse de uma língua igual à doutro Estado-membro. Portugal defende o interesse especial de uma língua europeia global, falada internacionalmente, o que apenas sucede com algumas línguas europeias de que o português é a terceira – o Português, língua da Europa.
3.º       Tudo o que diminua o estatuto europeu da nossa língua enfraquece-a como língua global e fragiliza o seu peso e percepção, na Europa e no mundo. Língua europeia global que se deixe desvalorizar na Europa corre o risco de também perder préstimo no resto do mundo.
4.º       Portugal pode talvez transigir, pontualmente, nalguma área específica, em aceitar uma língua veicular contemporânea – o Inglês – que a todos uniformemente se aplique. Mas os interesses da língua portuguesa são irremediavelmente afectados, se Portugal for consentindo na instalação na Europa de uma “1ª divisão de línguas” de que o Português esteja excluído. Não pode haver uma “1ª divisão de línguas” europeias sem o Português, a terceira língua europeia global.
5.º       Portugal deve opor-se tenazmente à formação, dentro da U.E., de espaços linguísticos regionais, ancorados na selecção de algumas línguas com discriminação do Português.
6.º       O peso e a projecção internacionais do Português, à escala global, são pares do Espanhol e do Francês. Portugal não pode consentir na U.E. a sedimentação de um estatuto para a língua portuguesa que não seja paritário com as línguas espanhola e francesa.
7.º       No espaço da Lusofonia, Portugal é aquele país lusófono que tem a responsabilidade de, na União Europeia, defender e afirmar o estatuto da língua comum. Qualquer fracasso consentido por Portugal na Europa é dano infligido a toda a Lusofonia.
8.º       No domínio da propriedade industrial, apesar da aparente aridez burocrática, a tradução para Português das patentes ocupa lugar de relevo na modernização e actualidade da Língua Portuguesa como língua de Ciência e Tecnologia. Permite ao Português acompanhar a inovação científica e tecnológica, fortalecendo-se como língua viva e completa. A exclusão do Português no regime europeu das patentes, incluindo para vigorarem em Portugal, golpeia um dos veículos mais acessíveis para rodagem, enriquecimento e actualização da nossa língua neste domínios técnicos. Este dano não afecta apenas Portugal, mas fere a Lusofonia na região mundial de mais elevado dinamismo económico e de inovação: o continente europeu.
9.º       A cedência a impérios linguísticos europeus no regime de patentes, desgradua o Português de modo sintomático e baixa-o de divisão no quadro da concorrência linguística, com muito más consequências em extensão imprevisível. Essa cedência representa para a política linguística nacional uma deplorável abdicação crucial.
10.º   Quem se rende à ideia parola e menor de que “moderno” e “cosmopolita” são o Inglês, o Francês ou (pasme-se!) o Alemão, não entende de todo o estatuto internacional do Português. E despreza que o cosmopolitismo moderno é também em Português.
Concorrência, competitividade e inovação jogam-se também aqui. E ganham-se ou… perde-se. Não foi o último acto. Mas foi uma machadada brutal. Uma semana negra. De traição e de abandono.