quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Três personagens em busca de um enredo

Público, 2010-09-30 Pedro Lomba

Na semana passada, 23 de Setembro, notícias dos jornais informavam o mundo que António Mexia, o CEO da EDP, andava por Nova Iorque liderando uma comitiva da empresa de electricidade na Clinton Global Initiative, um fórum de líderes que organiza acções humanitárias. Com a comitiva de Mexia viajou também um "grupo de órgãos de comunicação social a convite da EDP" (Jornal de Negócios, 23-9) e, aqui como em tantos outros casos, "a convite da EDP" significa aquilo que já sabemos, que nos tempos recentes a agência de viagens EDP tem tido muito trabalho.

Ao mesmo tempo que Mexia desaguava em Nova Iorque, acompanhado (como sempre) por uma pequena legião de jornalistas "a convite", quem também voou para a cidade americana na mesma altura foi outro português notório. "José Sócrates dá hoje início a uma visita de três dias a Nova Iorque. Na bagagem leva as políticas nacionais na área da energia e também a candidatura portuguesa ao Conselho de Segurança das Nações Unidas." (Antena 1, 23-9).

Nem de propósito. Mexia e Sócrates em Nova Iorque cada um com programas distintos, embora tangíveis. E facilmente os jornalistas que integram a comitiva de Mexia passam a ser os jornalistas que acompanham a comitiva de Sócrates na sua expedição à ONU (um golpe publicitário sem interesse) e à Universidade de Columbia, no meio de outros gestos que escorreram para a imprensa.

Continuemos, então. "Sócrates chega a Nova Iorque ao início da tarde e poucas horas depois discursa na Universidade de Columbia, num fórum mundial de líderes sobre política energética e agenda de crescimento em Portugal."??(Diário Económico, 23-9).

Columbia é uma universidade de topo na América. Sucede que é também a universidade onde o anterior ministro da Economia Manuel Pinho, demitido pela célebre cena dos corninhos, se encontra de momento a dar aulas, adequadamente pago pela própria EDP (preço: 3 milhões). Então, se bem percebemos, Sócrates vai a Columbia dar uma lição em bad english, recomendado pelo seu amigo Pinho, que por sua vez só está em Columbia graças à generosidade do seu amigo Mexia (e, permito-me acrescentar, dos consumidores portugueses de electricidade). Esta coincidência de agendas só pode merecer elogios.

De maneira que em Nova Iorque, na semana passada, Sócrates, Mexia e Pinho protagonizaram um daqueles momentos de teatralidade que, fora dos palcos, só podem existir na política, porque só a política produz este elevado grau de aparência e falsidade. Uma daquelas coreografias engendradas dentro dos gabinetes ministeriais, postas a circular pelas agências de comunicação e tragicamente "compradas" por uma imprensa impotente.

Vai uma pessoa convencer-se disto. Mexia transposta uma comitiva de jornalistas com ele para Nova Iorque para expelir todo o seu humanitarismo e amor pelo próximo, Sócrates vai atrás (por estranho que pareça, na mesma exacta semana), levando consigo os feitos energéticos do Governo e Pinho, que já lá está, recebe Sócrates na prebenda universitária que Mexia lhe arranjou.

Seria por isso tentador achar que estas três personagens estiveram em Nova Iorque na semana passada representando papéis autónomos, cada um na sua peça, indiferentes ao seu destino comum. Só que os três estão tão ligados entre eles, dependem tanto uns dos outros, beneficiam-se tanto uns aos outros, que são todos personagens da mesma tragicomédia, todos em busca do mesmo enredo. Jurista

Igreja e Estado em Portugal nas primeiras décadas do séc. XX


IgrejaeEstado

Sócrates

João César das Neves
DESTAK | 20100930
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
V amos imaginar que tínhamos um primeiro-ministro sério, responsável, dedicado aos problemas nacionais.
O que faria, se estivesse hoje no poder, qualquer um dos grandes chefes do Governo da nossa história? Podemos escolher entre vários, mas é razoável referir o mais recente. Que diria, se hoje mandasse, o José Sócrates de 2005? Com certeza não andaria a procurar desculpas, justificar o injustificável, esconder a dureza da realidade. Seguramente não dedicaria o tempo a ver-se ao espelho, jogar ping-pong com a Oposição ou inventar distracções.
Aquilo que faria seria uma solene declaração ao país, descrevendo sem rodeios a gravidade da emergência nacional, omitindo desculpas, recriminações ou embustes. Pediria a todos, da forma mais intensa e sincera, o maior empenhamento na sua solução. Em seguida anunciaria um pequeno conjunto de medidas profundas e eficazes.
Essas políticas são fáceis de descrever, porque estão tomadas em Espanha, Grécia, Itália, e descritas por especialistas todos os dias nos jornais. É só escolher. A bomba atómica, que resolveria tudo instantaneamente, com custos elevados, era chamar o FMI. Isso daria credibilidade financeira imediata, havendo depois de cumprir a dieta. Mas há ainda, por pouco tempo, certas alternativas, também duras: cortar salários e pensões, extinguir serviços, eliminar subsídios e benesses. Se isto fosse feito com clareza, seriedade e justiça, o país compreenderia e, como aconteceu em 1977 e 1983, começaríamos o caminho da recuperação. A falta que hoje faz José Sócrates

A irresponsabilidade

Público, 2010.09.28 Pedro Lomba
Ao anunciar que só voltará a reunir-se com José Sócrates na presença de testemunhas oculares na questão do Orçamento, Pedro Passos Coelho percebeu finalmente o que valem os acordos com o primeiro-ministro. Cumprir contratos não está propriamente no ADN do nosso primeiro, mais interessado em números circenses que servem um cálculo político momentâneo ou que criam uma aparição colaborante que se desfaz na primeira oportunidade. Compreensivelmente, Passos Coelho ganhou cautela. Está agora a aprender à sua custa por que motivo Sócrates e Manuela Ferreira Leite andaram de costas voltadas durante mais de um ano, incapazes do mais inofensivo diálogo. Um facto que deixou à altura muita gente espantada e até foi visto como um manifesto sinal da incapacidade de Ferreira Leite em dançar o "tango" ou como um daqueles inconcebíveis "ataques de carácter". Não deixa de ser uma ironia ver onde estamos.
Estamos pior, muito pior daquilo que se imaginava. De facto, este PS parece o caso mais patológico de manha e desvergonha que já nos foi dado ver na política nos últimos 15 anos. Não vale a pena regressar ao programa eleitoral fictício com que se apresentaram a eleições no ano passado e que puseram no tinteiro logo que os mercados e as agências de rating começaram a apertar. Isto ao mesmo tempo que iam assumindo compromissos financeiros de grande impacto em benefício dos grupos económicos amigos. A história do primeiro ano deste Governo minoritário tem sido a de uma derrota constante e inapelável face à realidade. Tem sido uma hecatombe de que ninguém (nem o ministro das Finanças, transformado no pobre serviçal de uma política errada) se salva. Como o Orçamento de 2010, cozinhado em dificuldades, não chegava e o Governo não tinha condições de o cumprir, levámos com o PEC1. Como o PEC1 não satisfez Bruxelas e não era suficiente para conter o aumento da despesa, tratou de o substituir pelo PEC2. Contra todas as promessas, os impostos lá subiram. Mas o PS, apesar das obrigações assumidas com Bruxelas, revelou-se incapaz de fazer descer a despesa, incapaz de cumprir aquilo que promete.
De plano em plano, de mentira em mentira, avistamos agora a crua realidade no fundo do túnel. Nem Bruxelas, nem os mercados confiam em nós. E o Governo já fez ver que não cumpriu nem tenciona cumprir o segundo PEC. Mas quer, ao mesmo tempo, exigir ao líder do PSD que se abra com fragor a um novo consenso patriótico, a fim de que o próximo Orçamento passe sem exigências e condições. Como pode um Governo que não cumpriu a sua parte em nenhum dos acordos a que se vinculou achar que tem crédito negocial para celebrar mais o que quer que seja?
Perante isto, para onde deseja caminhar Sócrates? Qualquer margem de confiança que ainda pudesse restar neste Governo já se esboroou. Provavelmente vai em direcção ao caos, arrastando consigo o país. Porque ele sabe que qualquer outro caminho torná-lo-ia única e exclusivamente responsável pela brutalidade das medidas que se aproximam. Interessa-lhe o caos, convencido de que se salva.
Quando os portugueses perderem o subsídio de Natal e pagarem uma carga fiscal estranguladora da economia e incompatível com os baixos salários nacionais, era bom que tivessem memória: o que vão ter nos tempos próximos e por muito tempo, com ou sem a mão estrangeira do FMI, poderia ter sido evitado. Se não o foi, é porque alguns fizeram tudo por isso; alguns puseram os seus pequenos interesses, a sua cega disciplina, acima do interesse de todos. A culpa é nossa, que os deixámos. Jurista


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sessões de informação sobre as Equipas de Jovens de Nossa Senhora


EJNS

Apresentação do livro "Cuidados Paliativos - testemunhos"


Cuidados Paliativos

Contra o branqueamento do 5 de Outubro

DESTAK |29 | 09 | 2010   08.13H
Um dos nossos mais prestigiados historiadores, especialista na história política portuguesa do fim das guerras liberais à consolidação do Estado Novo, tem levantado a voz contra «a forma como nos andam a vender o regime saído do 5 de Outubro». «Ao arrepio de toda a investigação histórica», acusa. Ao Destak, explica o que foi a I República e como não há razões nenhumas para celebrar a traição do verdadeiro ideal de república.
Isabel Stilwell | editorial@destak.pt
As suas posições sobre as comemorações do 5 de Outubro de 1910 têm sido polémicas. Acha que estão a branquear os factos?
O que é polémico não são o que chama «as minhas posições», mas a forma como nos andam a vender o regime saído do 5 de Outubro. Imagine que alguém falava do Salazar mencionando apenas as barragens, o abono de família, a neutralidade na segunda guerra mundial, sem jamais referir a PIDE, a censura, a guerra colonial. Está a imaginar a gritaria que já não iria para aí? Pois é o que temos visto sobre o domínio da vida pública portuguesa pelo Partido Republicano depois de 1910: nada sobre a retirada do direito de voto à maioria da população, nada sobre a negação do direito de voto às mulheres, nada sobre o "empastelamento" e apreensão dos jornais, nada sobre a política de genocídio no sul de Angola, e o menos possível sobre a perseguição ao clero e aos sindicatos. É esse branqueamento, ao arrepio de toda a investigação histórica, que é polémico. Porque a verdade é que se voltássemos aos tempos de Afonso Costa, a maioria dos portugueses de hoje teria um choque tão grande como se voltássemos aos tempos de Salazar.
O que era a monarquia constitucional?
A monarquia constitucional, governada pelos liberais, foi o regime político que nos últimos 200 anos mais tempo durou em Portugal, e não por acaso. Os liberais conseguiram um equilíbrio de correntes políticas que ressalvou o pluralismo e a liberdade e extinguiu a violência política, alargou a participação eleitoral dos cidadãos ao mais alto nível antes de 1975, e criou condições para períodos de grande prosperidade. Mas atenção: a governação liberal não instalou uma democracia, não conseguiu resolver o problema do desenvolvimento sustentado a longo prazo, gerou desequilíbrios financeiros graves e no fim tinha entrado numa crise política aparentemente sem remédio. Se devemos criticar o branqueamento da república, não devemos omitir os impasses a que chegara o regime anterior.
A situação política antes do 5 de Outubro era complicada. A monarquia foi boicotada pelos próprios monárquicos?
Não havia monárquicos. A chamada monarquia era governada por políticos que se classificavam a si próprios como "liberais", e raramente como "monárquicos". Os liberais eram "republicanos teóricos", isto é, consideravam a república a melhor forma de regime, e só aceitavam a monarquia provisoriamente, porque pensavam que os portugueses ainda não estavam suficientemente instruídos para se governarem a si próprios. A monarquia era apenas um expediente, até ver. Por isso, os liberais nunca cultivaram qualquer espécie de fidelidade à dinastia. Pelo contrário. Aqueles a quem as opções do rei desagradavam habituaram-se a atacá-lo e a ameaçá-lo com uma revolução. Em 1910, tudo isso tinha chegado a um ponto extremo. Os políticos detestavam D. Manuel e a rainha D. Amélia. Repare: quando os republicanos avançam, ninguém de facto defende a monarquia.
O Partido Republicano tinha lugar nas Cortes e concorria a eleições livres. O 5 de Outubro foi um golpe de Estado?
Foi uma sublevação militar, apoiada por civis, que só pode ser compreendida no contexto da crise da monarquia constitucional no ano de 1910. Em Junho desse ano, o rei D. Manuel tinha concedido o governo à esquerda liberal. Isso irritou a direita conservadora, que se divorciou do regime. Alguns republicanos decidiram apoiar o governo contra os conservadores; outros, porém, viram uma oportunidade para derrubar o regime, já que sabiam que a direita conservadora não defenderia a monarquia. Foi o que aconteceu. Os republicanos não derrubaram um regime próspero e estável. O que verdadeiramente fizeram, em 5 de Outubro, foi preencher um vazio de poder. Nesse momento, ninguém estava certo do tipo de república que viria. Havia quem esperasse um regime tolerante.
A facção que ficou no poder era a mais radical?
Aquilo a que é costume chamar I República corresponde ao domínio do País pelos militantes do chamado Partido Republicano. Depois de tomar o poder, em 1910, esse partido dividiu-se no ano seguinte e, a pouco e pouco, o novo regime passou a ser hegemonizado pela facção dirigida por Afonso Costa. O problema da república esteve nesta hegemonia. Aquilo que tornou o regime odioso para muitos esteve no monopólio do poder por um partido que excluía e perseguia todos os outros da maneira mais violenta. Essa política de sectarismo brutal de Afonso Costa e do seu partido não teve só a Igreja ou os defensores de uma restauração da monarquia como vítimas, mas também o movimento sindical e sobretudo os outros republicanos. Muitos republicanos, na chamada "direita republicana", acreditavam que era possível e necessário fazer outro tipo de república, aberta a todos os portugueses. Era o caso, por exemplo, do primeiro Presidente da República, Manuel de Arriaga, um homem decente, obrigado a resignar o mandato e enxovalhado. É importante lembrar que entre os republicanos que mais combateram Afonso Costa e o seu partido estiveram precisamente os que fizeram o 5 de Outubro: Machado Santos, o herói da Rotunda, e José Carlos da Maia, que comandou a tomada do couraçado D. Carlos. Por causa disso, foram assassinados na "noite sangrenta" de 19 de Outubro de 1921.
Diz que, se o que se pretende celebrar é o ideal de República, se escolheu a data errada. Porquê?
Porque o ideal da república não começou com o 5 de Outubro nem se reduz ao Partido Republicano, nem a haver um chefe de Estado eleito. Pelo contrário: em muitos aspectos fundamentais, o domínio do Partido Republicano foi a negação completa desse ideal.
O primeiro-ministro vai inaugurar nesse dia 100 escolas - a educação é, de facto, a bandeira da I República?
A assimilação entre a educação e o monopólio do poder pelo Partido Republicano não faz sentido. Todos os regimes dos últimos 200 anos quiseram escolarizar os portugueses. O Partido Republicano distinguiu-se por ter sido o que menos fez por isso. Não por qualquer intenção obscurantista, mas porque não teve meios para grandes investimentos públicos. A sua grande bandeira, depois do anti-clericalismo, foi a ortodoxia financeira. Para além de Salazar, Afonso Costa foi o único governante português do século XX a apresentar um orçamento sem défice. A melhor maneira de o primeiro-ministro celebrar a hegemonia sectária e intolerante do Partido Republicano, se é isso que quer, seria com um orçamento fortemente restritivo, à Afonso Costa.
Defende que quando se percebeu que a I República não tinha nada que ver com a democracia pós-25 de Abril, isso cortou as pernas às comemorações. Acha que as pessoas perceberam isso, ou que simplesmente estão com a cabeça na crise?
Provavelmente, tudo isso. Por um lado, todos viram esta coisa aberrante que é estarmos a celebrar como exemplo e inspiração para o futuro um regime de exclusivismo partidário que, quando as pessoas começaram a ler coisas sobre a época percebem que é estranho a princípios básicos do regime actual. Por outro lado, creio que todos sentimos, da parte dos mais exaltados manipuladores do centenário, um mau hálito sectário, a que já não estávamos habituados: para alguns deles, basta alguém expor o que honesta e rigorosamente investigou sobre uma época histórica para o acusarem de "fascista", "monárquico", "clerical" e não sei que mais crimes e pecados mortais. A comemoração está a ser explorada por aqueles que querem substituir o sistema científico de debate por um regime de suspeição política, de caça às bruxas, de agressão pessoal. Isso acabou por tornar toda esta celebração bafienta e antipática. É como descer a uma cave há muito tempo fechada e sem ventilação, onde só vivem coisas que se dão bem com o bolor e a podridão.
Mas, então, quem é que acredita estar tão interessado em comemorar a I República?
As esquerdas no século XX foram quem pior disse da I República. Enquanto foram marxistas, trataram os velhos republicanos como burgueses ou "pequeno-burgueses", que se tinham distraído com perseguições à Igreja e até combatido a "classe operária", em vez de destruírem o capitalismo e implantarem o socialismo em Portugal. Só depois de terem deixado de ser marxistas, com o fracasso das ditaduras comunistas na Europa, é que importaram a política de guerra cultural da América do Norte. Foi por essa via que descobriram uma admiração pelo sectarismo anticlerical dos republicanos radicais de 1910. Os mais facciosos estão a tentar perverter as comemorações no sentido de identificar a actual democracia com essa tradição velha e já morta, de modo a poderem tratar como marginais e sob suspeita todos aqueles que, por vários motivos, não estão dispostos a dar vivas ao defunto.
A rainha D. Amélia e muitos com ela argumentavam que o povo não queria a República, que lhes foi imposta. Fazia sentido um referendo?
O "povo" em Portugal nunca foi e não é único. Havia povo que queria a República, e até a República que existiu, e havia povo que não queria. Temos de nos habituar à ideia de que vivemos num país plural, que os portugueses com direito a Portugal não são só aqueles que pensam como nós. Esta comemoração revelou que esse simples princípio de decência e respeito ainda não iluminou algumas cabeças mais primitivas. Mas, atenção: o actual regime democrático nada tem a ver, felizmente, com o domínio exclusivista e repressor do Partido Republicano. É mesmo o contrário daquilo que existiu em Portugal nesse tempo. Nós hoje vivemos em democracia, o sufrágio é universal, as eleições são livres, há rotação no poder por via eleitoral, etc. Creio que isso é o mais importante para a maioria dos cidadãos.
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Nome Rui Ramos Profissão Historiador, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa Marco Importante Doutoramento em Oxford Livros Coordenou a mais recente História de Portugal, escreveu a biografia de D. Carlos, entre muitos outros. Época Histórica Favorita História política nacional entre 1834 e 1936 (fim das guerras liberais ao Estado Novo).

Encontros Actualidade & Cultura - John Henry Newman

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Frase do dia

Já se disse tudo, mas como ninguém ouve, é sempre necessário recomeçar
André Gide
Escritor francês (1869-1951)
Prémio Nobel da Literatura 1947

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

PEREGRINAÇÃO A PÉ A FÁTIMA DE COMUNHÃO E LIBERTAÇÃO 2010 - AJUDAS À PEREGRINAÇÃO Precisam-se

 

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Como habitualmente pedimos que considerem seriamente as vossas disponibilidades (materiais, de tempo, de deslocação) no sentido de poderem ajudar no apoio aos peregrinos que irão em Peregrinção a Fátima entre 8 e 13 de Outubro

 

Estas são as necessidades de ajuda à Peregrinação:

 

 

Dia 8.10 (6ª. Feira) – Almoço - 1 pessoa para trazer o almoço de Lisboa até Alverca (estar em Alverca às 13h/13h30m) e esperar para trazer as vazilhas de volta

 

Dia 8.10 (6ª. Feira) – Jantar – Vila Franca de Xira – Escola Secundária Alves Redol – Equipe de 7 pessoas para servir o jantar (estar em Vila Franca pelas 18:30 h para pôr mesas e preparar as coisas) + 1 pessoa para trazer o jantar de Lisboa até Vila Franca de Xira (estar em Vila Franca pelas 20h00m) e depois trazer as vasilhas de volta.

 

Dia 9.10 (Sábado) – Almoço – Azambuja – Bombeiros – Equipe de 6 pessoas para servir o almoço (estar em Azambuja pelas 12h para pôr mesas e preparar as coisas) + 1 pessoa para trazer o almoço de Lisboa até Azambuja (estar em Azambuja pelas 13h30m) e depois trazer as vasilhas de volta.

 

Dia 10.10 (Domingo) – Almoço – Santarém – Centro de Apoio Social – Equipe de 7 pessoas para servir o almoço (estar em Santarém pelas 12h para pôr mesas e preparar as coisas) + 1 pessoa para trazer o almoço de Lisboa até Santarém (estar em Santarém pelas 13h/13h30) e depois trazer as vasilhas de volta.

 

Dia 10.10 (Domingo) – Jantar – Vale Figueira – Equipe de 4 pessoas para servir o jantar (estar em Vale Figueira pelas 19h para ajudar a servir o jantar) + 1 pessoa para trazer o jantar de Lisboa até Vale Figueira (estar em Vale Figueira às 20h) e depois trazer as vasilhas de volta.

 

Dia 11.10 (2ª. Feira) – Jantar – Minde – Pavilhão de Apoio ao Peregrino Ana Sonsa – Equipe de 7 pessoas para servir o jantar (estar em Minde pelas 19h para pôr mesas e preparar as coisas) + 1 pessoa para trazer o jantar de Lisboa até Minde (estar em Minde às 20h) e depois trazer as vasilhas de volta

 

Dia 12.10 (3ª. Feira) – Almoço – Boleiros – Salão Paroquial – Equipe de 7 pessoas para servir o almoço (estar em Boleiros pelas 11h30m para montar as mesas, pô-las e preparar as coisas) + 1 pessoa para trazer o almoço de Lisboa até Boleiros (estar em Boleiros às 12h30m) e depois trazer as vasilhas de volta

 

Informações Práticas:

 

Para quem vai buscar as refeições:

 

Ter em conta o tempo, a demora do trajecto, o trânsito expectável e os imprevistos, para poderem estar às horas que estão indicadas na listagem de necessidades.

 

A morada para ir buscar as refeições e devolver as vasilhas, é a seguinte:

 

R. Rodrigues Faria, 4 B. (traseiras do Largo do Calvário; são as traseiras do Restaurante "Puro Acaso")

 

ATENÇÂO: Não se podem levantar as refeições pelo restaurante. Tem que ser pela rua indicada, nas traseiras, do mesmo.

 

A pessoa a contactar é: Rita Castelo Branco – 91 679 02 02. Agradeço que telefonem para combinar a hora a que vão e tudo certinho.

 

Se tiverem qualquer problema, liguem-me – Joana Queiroz – 91 917 91 67

 

Para quem vai servir:

 

Peço-vos que estejam cedo para pôr as mesas e arranjarem tudo.

 

Peço-vos também que no fim, arrumem as coisas todas.

 

Se tiverem qualquer problema, liguem-me – Joana Queiroz – 91 917 91 67

 

Locais:

 

Alverca Almoço – Igreja dos Pastorinhos. É um pouco difícil encontrar o trajecto de carro mas, se virem bem, está indicado.

 

Vila Franca de Xira Jantar – Escola Secundária Alves Redol. É do lado esquerdo da auto-estrada para quem vem de Lisboa.

 

  1. Sair da auto-estrada e ir em direcção a Vila Franca
  2. No cruzamento de semáforos e bombeiros, cortar à direita.
  3. Subir tudo, tudo.
  4. Lá em cima, depois de uns prédios em construção (inacabados), cortar na próxima à esquerda.
  5. Depois da vivenda cor-de-rosa cortar, novamente, à esquerda.
  6. Descer um pouco e seguir nessa rua até à escola

 

Azambuja almoço – Nos bombeiros voluntários

 

Santarém almoço – Centro de Apoio Social - Rua Zeferino Brandão – Quem vem do Seminário desce em direcção a uma rotunda. É a meio dessa descida, numa rua à direita. O Centro, é ao início da rua, à esquerda. A rua é muito a subir e vai ter aos bombeiros de Santarém.

 

Vale Figueira jantar – Sair em Santarém. Descer até à estação e passar para o lado de lá da linha. Aí, cortar logo à direita.

Seguir até ver uma pontezinha. Passar a ponte e ir sempre pela estrada (mau piso) até Vale Figueira. Sempre que tiverem dúvidas, sigam pela esquerda. Vale Figueira, fica a uns 10 km da Ribeira de Santarém, por essa estrada. Atravessar toda a povoação. O jantar é numa quinta (quinta do Castilho), mesmo no fim da povoação (muro branco extenso). A entrada é à direita (um pouco escondida, assim a entrar para trás) ao início do muro.

 

Minde jantar – Pavilhão de apoio aos peregrinos. Seguir na estrada principal de Minde. Cortar na penúltima rua à direita. Cortar na 2ª. à direita. O pavilhão é muito grande e fica nessa rua à esquerda.

 

Boleiros almoço – Centro Paroquial - Sair em Fátima. Ir para a rotunda sul. Tomar a estrada de Minde. Seguir até ao restaurante D. Nuno. Cortar na rua antes do restaurante (pegada a ele). Seguir nessa rua até ao fim. Cortar à esquerda. Vê-se uma igreja à direita, mas não é para a direita. É para a esquerda. Seguir nessa estrada, até ver a outra Igreja. O Centro paroquial é em frente. Telefonem-me, uma meia hora antes de chegarem, para eu vos ir levar a chave e ensinar a montar as mesas.

 

Obrigado, mais uma vez, a todos e boas viagens,

 

Joana

 

A sombra da injustiça


JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN2010.09.27
Portugal costuma ser um país pacato sem grandes conflitos e iniquidades. Mas na novela da vida nacional existe um tema em crescente recorrência: a justiça. Esta magna virtude, normalmente pacífica, interpela-nos cada vez mais a vários níveis e formas diversas.
A primeira interpelação é institucional. A decadência do sector da Justiça é hoje incontornável e central na crise social. Começou com a lenta perda de confiança popular no sistema. Preferindo a forma ao conteúdo, respeitando mais os procedimentos que a justiça, os tribunais ficaram tão morosos que a população desistiu deles. Não vale a pena recorrer à Justiça. Mas como viver em sociedade sem esse ser-viço básico? Se tal não bastasse, sucessivos processos mediáticos vêm cobrindo de ridículo o sector, com suspeitas, prescrições, intrigas, polémicas. É espantoso como uma instituição composta por pessoas inteligentes, mesmo superiormente inteligentes, comete autodestruição pública de forma tão sistemá- tica.
Pior é a manifestação social da injustiça. Portugal sempre teve tendência para o corporativismo, instalação de interesses, captura dos poderes públicos. Basta um período mais longo de estabilidade e segurança para se sentirem forças poderosas distorcendo as regras. Este surto mais recente tem sido particularmente virulento. Há décadas que os ministérios estão dominados pelos grupos que deviam regular. Isto criou a situação perversa do aparelho de Estado, criado para o bem comum, constituir hoje um dos grandes geradores de desigualdade em Portugal.
Começa logo pelo sistema fiscal, enorme máquina iníqua que carrega mais sobre trabalhadores e pobres. À medida que o peso tributário incha, a disparidade agrava-se, atingindo já níveis preocupantes. Mas a própria política de justiça social é geradora de injustiça. Este resultado paradoxal vem de o Estado moderno assegurar um conjunto vasto, profundo e diversificado de direitos, garantias, regalias e serviços. Se isto é feito, com eficácia e dedicação, mas apenas numa parte, mesmo maioritária, da população, são os próprios mecanismos sociais que criam exclusão, desigualdade, injustiça.
Esta é a razão porque, por exemplo, os partidos de esquerda, que continuam a insistir nesses direitos de papel, acabam servindo o contrário do que afirmam. Enchem a boca com ideais de justiça social e apoio aos desfavorecidos, mas de facto defendem a classe média. As suas propostas dirigem-se não aos verdadeiros pobres, imigrantes, precários, excluídos, mas a sindicatos, funcionários, professores, médicos, etc., que são os seus reais eleitores.
Pior de tudo é a acção governamental, que depende directamente dos votos das corporações instaladas. Dominando a cobertura mediática e influência política, essas forças garantem direitos intocáveis. Para sobreviver nas sondagens e nas eleições, os ministros sabem que não podem confrontar os sectores e grupos profissionais que, mesmo favorecidos, são os primeiros a protestar à menor inconveniência. Não admira que os cortes caiam sempre sobre os silenciosos. O povo paga e cala.
Tudo isto sobreviveria disfarçado com crescimento económico. Mas no meio da recessão e emergência financeira, a injustiça explode em pleno dia. Os últimos meses manifestaram uma desigualdade social que Portugal há muito não sofria. Basta notar que no ano passado, em que o produto nacional caiu 2,7% e o desemprego subiu acima dos 10%, os salários reais aumentaram uns incríveis 5,2%, segundo o relatório do Banco de Portugal (quadro A.6.2., p. 214). Esta subida, a maior desde 1980, explica-se pelo ano eleitoral combinado com deflação. Além de brutal perda de competitividade, isto mostra como a crise foi excelente para os que mantiveram empregos seguros, enquanto desabava sobre desempregados, falidos, precários, mas também empresários e investidores.
Portugal costuma ser um país pacato, mas agora as injustiças estão a crescer. Como em épocas antigas, isso ameaça conflitos sérios que deixarão cicatrizes profundas. A justiça é cega mas tem a espada na mão.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 26 de setembro de 2010

Só a fé da Igreja nos liberta - Massimo Introvigne


So_a_fe_da_Igreja

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Transparência

Aura Miguel
RR online 24-09-2010 09:37

Ainda a propósito da visita do Papa ao Reino Unido, vale a pena sublinhar um elemento (entre muitos possíveis) relacionado com o próprio Papa: a sua humildade.
Bento XVI não hesitou em cumprir a sua missão, apesar das controvérsias. Falou o que tinha a falar, num contexto pagão e culturalmente adverso. Congregou simpatias e adesões donde nunca se esperaria. Cumpriu passos históricos que nenhum outro Papa tinha conseguido realizar.
E nada disto fez com vaidade. Nunca se vislumbrou nele um só momento de orgulho ou satisfação pelo terreno conquistado. Nem sequer quando a deslumbrante Abadia de Westminter se engalanou em sua honra. Nem mesmo aí vimos Ratzinger vitorioso.
Em tudo e sempre vimos um Papa simples e humilde, profundamente carregado de certezas.
E foi isso o segredo do sucesso. Os britânicos perceberam que as certezas de Bento XVI não são políticas e que a sua consistência é outra, maior do que ele.
Como o próprio Papa explicou a bordo do avião, a caminho do Reino Unido: ele e a Igreja não querem ser atraentes, mas sim transparentes para Cristo e para as grandes verdades que Ele trouxe à Humanidade.

Analfabetos com aulas de dança

Público, 2010-09-23 Pedro Lomba

É uma das nossas grandes certezas: a necessidade de aprendizagem, de educação, o progresso do nosso conhecimento através do ensino paciente e metódico. Mas a educação é um problema e, evidentemente, um problema político sério. Quase sempre, reduz-se qualquer insuficiência individual a uma questão de falta de educação e de ensino. Rousseau foi um pensador importante por isso mesmo. O seu Émile tornou-se uma obra tão ou mais transformadora que o Capital de Marx. O que nos disse Rousseau é que a desigualdade, a imperfeição e o conflito entre pessoas só se podem atenuar através de uma educação pública e igualizadora. Por isso, a educação do jovem Émile segue um programa optimista e abstracto. Émile não aprende com o passado, não aprende para triunfar sobre os outros, para resistir à violência ou para preservar um mérito. É educado para ser um bom cidadão, igual a outros. É educado para essa harmonia social que é a igualdade entre todos os seres humanos, superadora da alienação e das diferenças. O programa de Émile é, no entanto, uma ilusão. A primeira ilusão que comanda a nossa esperança na aprendizagem universal é a educação igualitária. A verdade é que a educação não consiste necessariamente numa experiência feliz ou vitoriosa. Porque os nossos limites são revelados por aquilo que aprendemos e não aprendemos.


Claro que a cultura do "eu" com a qual vivemos, tão marcada pelo romantismo, não aceita com facilidade esta limitação. É curioso como todos somos românticos, emotivos, individualistas. Estamos metidos até aos pés no meio desse imperialismo dos sentimentos. Da literatura de salão ao prosaísmo da imprensa mais idiota, da iliteracia musical ao mundanismo público, somos e queremos ser românticos. Eu não aspiro a ser um cidadão exemplar ou um homem virtuoso. O que eu quero é satisfazer a minha vontade romântica, criadora e expressiva. Aprender a ser eu mesmo. A exprimir a minha autenticidade.
Pode a educação clássica estar em crise. As pessoas não lêem Camões, não escrevem um português rigoroso, não dominam a arte da oratória. Mas nunca foi tão grande a disposição de todos para essa educação emotiva. Paradoxalmente ou não, o ser humano tem um irrefreável impulso de querer saber mais e mais sobre os assuntos que lhe interessam. A oferta é ampla Podemos aprender design de moda e as técnicas orientais de sublimação. Aprender o feng-shui ou receitas vegetarianas. Aprender a suportar a conjugalidade e a neurose. A arte da paternidade e a técnica do parto. Línguas previsíveis ou esotéricas. A dançar e a escrever. Numa história do escritor americano Donald Barthelme, Snow White, uma mulher aplica-se com esmero a estudar as seguintes disciplinas: A mulher moderna: os seus privilégios e responsabilidades, guitarra clássica, os poetas ingleses, as bases da psicologia, a pintura a óleo.
Na verdade, conhecemos bem esta mulher. Ela não se educa para nada, a não ser para o seu próprio prazer emotivo. É uma vítima dos seus desejos e da vulgarização da educação. Esta sua aprendizagem não é nada e, provavelmente, ela nem a usa. Limita-se a exprimir a sua personalidade, o seu "eu" sentimental e carente de informação.
Na era do ensino emotivo, vivemos entre estes dois extremos: a igualdade e a individualidade. Mas não estamos, curiosamente, nem mais iguais, nem mais autênticos. Nem ainda mais educados. Estamos mais sozinhos. Esta educação construída à nossa imagem representa toda uma nova ignorância e criou uma legião de analfabetos. De analfabetos com aulas de dança.
Jurista

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Falei ao coração de todos os ingleses

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ZENIT, O mundo visto de Roma

Agência de Notícias

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Catequese do Papa: “Falei ao coração de todos os ingleses”


Intervenção na audiência geral de hoje


CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 22 de setembro de 2010 (ZENIT.org) - Apresentamos, a seguir, a intervenção do Papa Bento XVI durante a audiência geral, realizada na Praça de São Pedro, com os milhares de peregrinos procedentes do mundo inteiro.

* * *


Queridos irmãos e irmãs:


Hoje, eu gostaria de falar da viagem apostólica ao Reino Unido, que Deus me concedeu realizar na semana passada. Foi uma visita oficial e, ao mesmo tempo, uma peregrinação ao coração da história e do hoje de um povo rico de cultura e de fé, como o caso do britânico. Foi um acontecimento histórico, que marcou uma nova fase importante na longa e complexa história das relações entre essas populações e a Santa Sé. O principal objetivo da visita era proclamar beato o cardeal John Henry Newman, um dos maiores ingleses da sua época, insigne teólogo e homem de Igreja. De fato, a cerimônia de beatificação representou o principal momento da viagem apostólica, cujo tema estava inspirado no lema do cardeal Newman: "O coração fala ao coração". E nos quatro intensos e belíssimos dias transcorridos nesta nobre terra, tive a grande alegria de falar ao coração dos habitantes do Reino Unido, e eles falaram ao meu, especialmente com sua presença e com o testemunho da sua fé. Pude, de fato, constatar como a herança cristã ainda é forte e inclusive ativa em todos os estratos da vida social. O coração dos britânicos e sua existência estão abertos à realidade de Deus e há numerosas expressões de religiosidade que esta minha visita evidenciou ainda mais.

Desde o primeiro dia da minha permanência no Reino Unido - e durante todo o período da minha estadia -, recebi em todos os lugares um caloroso acolhimento por parte das autoridades, dos representantes das diversas realidades sociais, dos representantes das diferentes confissões religiosas e especialmente das pessoas comuns. Penso particularmente nos fiéis da comunidade católica e em seus pastores que, ainda sendo minoria no país, são muito estimados e considerados, comprometidos no anúncio alegre de Jesus Cristo, fazendo o Senhor resplandecer e tornando-se sua voz, especialmente entre os últimos. A todos renovo a expressão da minha profunda gratidão, pelo entusiasmo demonstrado e pela excelente diligência com que trabalharam pelo êxito desta visita minha, cuja lembrança conservarei para sempre no coração.

O primeiro encontro foi em Edimburgo, com Sua Majestade a rainha Elizabeth II, que, juntamente com seu consorte, o Duque de Edimburgo, acolheu-me com grande afeto em nome de todo o povo britânico. Foi um encontro muito cordial, caracterizado pela partilha de algumas profundas preocupações referentes ao bem-estar dos povos do mundo e pelo papel dos valores cristãos na sociedade. Na histórica capital da Escócia, pude admirar as belezas artísticas, testemunho de uma rica tradição e de profundas raízes cristãs. Fiz referência a isso no discurso a Sua Majestade e às autoridades presentes, recordando que a mensagem cristã se converteu em parte integrante da língua, do pensamento e da cultura dos povos destas ilhas. Falei também do papel que a Grã-Bretanha teve e continua tendo no panorama internacional, mencionando a importância dos passos levados a cabo para uma pacificação justa e duradoura na Irlanda do Norte.


A atmosfera de festa e de alegria criada pelos jovens e crianças alegrou a etapa de Edimburgo. Ao chegar depois a Glasgow, cidade embelezada por encantadores parques, presidi a primeira Santa Missa da viagem, precisamente no Bellahouston Park. Foi um momento de intensa espiritualidade, muito importante para os católicos do país, também considerando o fato de que naquele dia se celebrava a festa litúrgica de São Ninian, primeiro evangelizador da Escócia. Nessa assembleia litúrgica reunida em oração atenta e compartilhada, que ficou ainda mais solene pelas melodias tradicionais e cantos, recordei a importância da evangelização da cultura, especialmente em nossa época, na qual um relativismo penetrante ameaça escurecer a imutável verdade sobre a natureza do homem.


No segundo dia, comecei a visita a Londres. Lá encontrei, em primeiro lugar, o mundo da educação católica, que tem um papel relevante no sistema de instrução desse país. Em um autêntico clima de família, falei aos educadores, recordando a importância da fé na formação de cidadãos maduros e responsáveis. Aos numerosos adolescentes e jovens, que me acolheram com alegria e entusiasmo, propus que não buscassem objetivos limitados, contentando-se com escolhas cômodas, mas que procurassem algo maior, isto é, a busca da verdadeira felicidade que se encontra somente em Deus. No seguinte encontro, com os responsáveis das demais religiões majoritariamente presentes no Reino Unido, recordei a ineludível necessidade de um diálogo sincero, que precisa do respeito ao princípio de reciprocidade para que seja plenamente frutífero. Ao mesmo tempo, evidenciei a busca do sagrado como campo comum a todas as religiões, sobre o qual é preciso reforçar a amizade, a confiança e a colaboração.

A visita fraterna ao arcebispo da Cantuária foi a oportunidade para reafirmar o compromisso comum de dar testemunho da mensagem cristã que une católicos e anglicanos. Foi seguido por um dos momentos mais significativos da viagem apostólica: o encontro, na grande sala do Parlamento britânico, com personalidades institucionais, políticas, diplomáticas, acadêmicas, religiosas, representantes do mundo cultural e empresarial. Nesse lugar tão prestigioso, sublinhei que a religião, para os legisladores, não deve representar um problema a ser resolvido, mas um fator que contribui de forma vital para o caminho histórico e para o debate público da nação, em particular ao recordar a importância essencial do fundamento ético para as decisões nos diversos setores da vida social.

Nesse mesmo clima solene, dirigi-me depois à abadia de Westminster: pela primeira vez, um sucessor de Pedro estava no lugar de culto símbolo das antiquíssimas raízes cristãs do país. A recitação da oração das Vésperas, junto às diversas comunidades cristãs do Reino Unido, representou um momento importante nas relações entre a comunidade católica e a Comunhão Anglicana. Quando veneramos juntos o túmulo de São Eduardo o Confessor, enquanto o coral cantava Congregavit nos in unum Christi amor, todos nós louvamos Deus, que nos conduz no caminho rumo à unidade plena.

Na manhã do sábado, o encontro com o primeiro-ministro abriu a série de encontros com os maiores representantes do mundo político britânico. Foi seguida da Celebração Eucarística na catedral de Westminster, dedicada ao Preciosíssimo Sangue do Nosso Senhor. Foi um extraordinário momento de fé e de oração - que evidenciou a rica e belíssima tradição de música litúrgica "romana" e "inglesa" - da qual participaram os diversos componentes eclesiais, espiritualmente unidos à multidão de crentes da longa história cristã dessa terra. É enorme minha alegria por ter encontrado um grande número de jovens que participavam da Santa Missa do exterior da catedral. Com sua presença cheia de entusiasmo e ao mesmo tempo atenta e ansiosa, demonstraram querer ser os protagonistas de uma nova etapa de testemunho valente, de solidariedade com os fatos, de generoso compromisso ao serviço do Evangelho.

Na nunciatura apostólica, encontrei-me com algumas vítimas de abusos por parte de membros do clero e de religiosos. Foi um momento intenso de comoção e oração. Pouco depois, encontrei-me também com um grupo de profissionais e voluntários responsáveis pela proteção das crianças e dos jovens nos ambientes eclesiais, um aspecto particularmente importante e presente no compromisso pastoral da Igreja. Eu os agradeci e incentivei a continuar seu trabalho, que se insere na longa tradição da Igreja de cuidado pelo respeito, educação e formação das novas gerações. Também em Londres, visitei a casa de repouso de idosos, a cargo das Irmãzinhas dos Pobres, com a belíssima contribuição de numerosas enfermeiras e voluntários. Esta estrutura de acolhimento é sinal da grande consideração que a Igreja teve sempre pelo idoso, como também expressão do compromisso dos católicos britânicos no respeito à vida sem levar em consideração a idade ou as condições.

Como comentei, o cume da minha visita ao Reino Unido foi a beatificação do cardeal John Henry Newman, ilustre filho da Inglaterra. Esta foi precedida e preparada por uma vigília especial de oração que aconteceu no sábado à noite em Londres, no Hyde Park, em uma atmosfera de profundo recolhimento. À multidão de fiéis, especialmente os jovens, quis voltar a propor a luminosa figura do cardeal Newman, intelectual e crente, cuja mensagem espiritual pode se resumir no testemunho de que o caminho do conhecimento não é o fechamento no próprio "eu", e sim a abertura, a conversão e a obediência Àquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. O rito de beatificação aconteceu em Birmingham, durante a solene Celebração Eucarística dominical, com a presença de uma grande multidão procedente de toda Grã-Bretanha e da Irlanda, com representações de muitos outros países. Este impressionante acontecimento destacou ainda mais um erudito de tal grandeza, um insigne escritor e poeta, um sábio homem de Deus, cujo pensamento iluminou muitas consciências e que ainda hoje exerce um fascínio extraordinário. Que nele, em particular, se inspirem os crentes e as comunidades eclesiais do Reino Unido, para que também em nossos dias essa nobre terra continue produzindo frutos abundantes de vida evangélica.

O encontro com a Conferência Episcopal da Inglaterra e Gales e com a da Escócia concluiu um dia de grande festa e de intensa comunhão de corações para a comunidade católica na Grã-Bretanha.

Queridos irmãos e irmãs, nesta minha visita ao Reino Unido, como sempre, quis sustentar em primeiro lugar a comunidade católica, incentivando-a a trabalhar sem cessar para defender as verdades morais imutáveis que, retomadas, iluminadas e confirmadas pelo Evangelho, estão na base de uma sociedade verdadeiramente humana, justa e livre. Quis também falar ao coração de todos os habitantes do Reino Unido, sem excluir ninguém, da verdadeira realidade do homem, das suas necessidades mais profundas, do seu destino último. Ao dirigir-me aos cidadãos desse país, encruzilhada da cultura e da economia mundiais, tive presente todo o Ocidente, dialogando com as razões desta civilização e comunicando a perene novidade do Evangelho, da qual ela está impregnada. Esta viagem apostólica confirmou em mim uma convicção profunda: as antigas nações da Europa têm uma alma cristã, que constitui uma unidade com o "gênio" e a história dos respectivos povos, e a Igreja não deixa de trabalhar para manter continuamente em pé esta tradição espiritual e cultural.

O beato John Henry Newman, cuja figura e escritos conservam ainda uma atualidade extraordinária, merece ser conhecido por todos. Que ele sustente os propósitos e os esforços dos cristãos para "difundir em todos os lugares o perfume de Cristo, para que toda a sua vida seja só uma irradiação da sua", como ele escrevia sabiamente em seu livro "Irradiar Cristo".

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os fiéis em diversos idiomas. Estas foram suas palavras em português:]

Queridos irmãos e irmãs

Na semana passada, Deus concedeu-me a graça de visitar a Inglaterra e lá proclamar beato o cardeal Henry Newman, brilhante figura de intelectual e crente, cuja mensagem espiritual mostra como o caminho da consciência não é fecharmo-nos em nós mesmos, mas abertura, conversão e obediência a Cristo que é Caminho, Verdade e Vida. Nas palavras que dirigi aos cidadãos daquela Nação, tive presente todo o Ocidente, procurando dialogar com as razões desta civilização e comunicar a novidade perene do Evangelho de que ela está ainda impregnada. Esta visita apostólica confirmou em mim uma profunda convicção: as antigas nações da Europa conservam uma alma cristã, que forma um todo com o gênio e a história dos respectivos povos. E se há um secularismo agressivo que ameaça os valores fundamentais, a Igreja não se cansa de trabalhar para manter desperta esta tradição espiritual e cultural.

Amados peregrinos de língua portuguesa, cordiais saudações para todos vós, de modo especial para os fiéis de Campinas, da paróquia Beato José de Anchieta de Cambuí. Continuai a defender aquelas verdades morais imutáveis que, iluminadas e confirmadas pelo Evangelho, estão na base de uma sociedade verdadeiramente humana, justa e livre. Sobre vós e vossas famílias desça a minha bênção.

[Tradução: Aline Banchieri.
©Libreria Editrice Vaticana]

Desânimo

DESTAK | 22 | 09 | 2010   19.51H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
«O desemprego registou uma subida em Agosto, mas o Governo diz que se confirma a tendência de descida» (RR, jornal das 24, 17/set).
Esta frase paradoxal mostra bem a nossa situação política. Os ministros já nem fingem resolver problemas. Limitam-se a esbracejar para nos convencer que os problemas não existem e as coisas, afinal, não estão assim tão mal. Independentemente da realidade.
É espantoso como o cargo e o poder levam pessoas inteligentes a dizer enormes disparates de que um dia, voltados à vida real, se arrependerão com vergonha. Mas o momento cega-os.
Momentos como este, em que os líderes se escondem no autismo e ficção, são comuns em todas as sociedades. Quem os vive sente terrível desorientação, amargura, até angústia. Mas não se deve exagerar a sua influência porque, por muito dolorosos e avassaladores que pareçam, um dia esfumam-se sem consequências.
Vimo-lo há pouco nos EUA. O segundo mandato de George W. Bush foi um penoso calvário de incompetência e apatia. Mas esses anos, que tanto danificaram o espírito e a imagem dos americanos, evaporaram-se com a eleição de Obama e o novo fôlego que ela trouxe. Por cá algo foi igual com a subida ao poder de Cavaco Silva em 1985, após anos de crise pantanosa.
Claro que não é fácil encontrar uma nova liderança inspiradora, e ainda não se vislumbra quem a possa protagonizar aqui. Mas entretanto é essencial não exagerar o espírito depressivo, que cada discurso ministerial confirma e se tornou numa das causas principais da crise. O desânimo nacional levanta facilmente.

Deus, o rei e o julgamento de Thomas More

ZP10092203 - 22-09-2010 William Newton

Permalink: http://www.zenit.org/article-26100?l=portuguese

Comentário ao discurso do Papa no Parlamento britânico

TRUMAU (Áustria), 22 de setembro de 2010 (ZENIT.org) – É conhecido o ditado de Mark Twain de que a história não se repete, mas às vezes rima. Na sexta-feira passada, em Westminster Hall, Londres, houve uma dessas ocasiões.

Neste edifício, em julho de 1535, São Thomas More foi condenado à morte por traição, ao não reconhecer a autoridade suprema do soberano temporal, o rei, sobre a autoridade da Igreja e sobre o Papa.

Foram necessários 500 anos para que, na sexta-feira passada, John Bercow, sucessor de São Thomas More como presidente da Câmara dos Comuns, desse boas-vindas ao sucessor do Papa Clemente VII, ao se dirigir ao Parlamento Britânico reunido.

Bento XVI era plenamente consciente do significado da ocasião e não teve pudor em recordar aos parlamentares o que estava em jogo no julgamento de Thomas More. Bento XVI assinalou que “o dilema que More teve de enfrentar naqueles difíceis tempos” foi “a perene questão da relação entre o que pertence a César e o que é de Deus”.

O objetivo do discurso do Papa – e um dos significativos de toda sua visita ao Reino Unido – era, por conseguinte, “refletir sobre o espaço adequado da crença religiosa dentro do processo político”.

Bento XVI assinalou que “os questionamentos fundamentais em jogo no julgamento de More continuam se apresentando hoje”, e entre estas questões a mais importante é: “apelando a que autoridade se podem resolver os dilemas morais?”.

Thomas More, e todos os homens e mulheres de seu tempo na Inglaterra, foram obrigados – sob a pena de morte – a responder a esta pergunta: “sobre que base se pode decidir a questão moral do divórcio e do novo casamento? Qual foi o fundamento da opinião de quem tinha o poder político (rei Henrique XVIII), e em que se baseavam os princípios morais perenes, defendidos pela Igreja?

Fundamentos

Muito mudou na Inglaterra desde o ponto de vista político nos 500 anos que se seguiram, mas a questão permanece: há algumas bases éticas da sociedade civil e política que simplesmente não podem ser mudadas por quem exerce o poder, inclusive se o poder é democrático?

A resposta de Bento XVI é, obviamente, sim, porque “se os princípios morais que sustentam o processo democrático não forem determinados por algo mais sólido que o consenso social, a fragilidade do processo [democrático] se faz muito evidente”.

Aqui, sem dúvida, o Santo Padre pensa, entre outras coisas, nas leis antivida aprovadas pelo Parlamento britânico e outras democracias de recentes décadas, ao sabor do “consenso social”, mas contrárias ao bem verdadeiro da sociedade.

Bento XVI não mencionou diretamente o aborto, a eutanásia e a pesquisa com embriões, mas deu outro exemplo do sacrifício dos fundamentos morais da sociedade. Referindo-se à atual crise financeira global, recordou aos parlamentares que isso demonstra à sociedade o que ela pode esperar quando os fundamentos éticos são sacrificados pelo interesse privado e o pragmatismo.

Afirmou que “há um amplo consenso de que a falta de um sólido fundamento ético na atividade econômica contribuiu para as graves dificuldades [econômicas] em que hoje vivem milhões de pessoas em todo o mundo”.

Insistindo neste ponto, recordou aos parlamentares “uma das conquistas especialmente notáveis do Parlamento britânico”, a abolição do comércio de escravos. O Santo Padre indicou que a campanha que esta legislação conduziu foi um marco. Construiu-se “não sobre o terreno cambiante da opinião pública” (de fato, a população se mantinha como muito ambivalente), mas “sobre princípios éticos firmes, enraizados na lei natural” e, se poderia dizer, liderados por cristãos dedicados a isso, tais como William Wilberforce.

Após essa afirmação, Bento XVI tratou sobre a réplica óbvia: “onde se pode encontrar o fundamento ético das decisões políticas? Respondeu assinalando que “as normas objetivas que governam a ação correta são acessíveis à razão, prescindindo do conteúdo da revelação”. Contra as afirmações do relativismo, a razão humana pode conhecer o que é verdade e o que é correto. Aqui, obviamente, refere-se a nada menos que à lei natural.

Luz que guia

Portanto, se as normas morais objetivas podem ser conhecidas pela razão humana, inclusive sem revelação, qual é o papel da religião, e especialmente da fé cristã, na sociedade? Não consiste, afirmou Bento XVI, em suprir estas normas morais. Não ainda em oferecer um anteprojeto para estruturar a política e a vida econômica de um país. Mas sim “ajuda a purificar e lançar luz sobre a aplicação da razão para a descoberta de princípios morais objetivos”.

De acordo com isso, é, em muitos casos, um papel “corretivo”, o que significa que ajuda a guiar a razão em sua busca de normas morais e sua concreta aplicação, um guia que se necessita porque o pecado frequentemente dificulta a razão em sua busca da verdade. O Santo Padre advertiu que “sem o corretivo proporcionado pela religião... a razão [também] pode ser presa de distorções, como quando é manipulada pela ideologia, ou aplicada em um modo parcial que não leva em conta a dignidade da pessoa humana”.

Bento XVI recordou ao Parlamento que “este mau emprego da razão... foi que o estabeleceu o comércio de escravos em primeiro lugar”, quando este comércio se fundou sobre a negação de princípios morais que a razão sozinha deveria ter afirmado, por exemplo, a igualdade de todos os homens e sua inerente dignidade.

O Papa assinalou que esta função “corretiva” da fé e da revelação não é sempre acolhida em muitas sociedades democráticas atuais. Ele admitiu que às vezes há boas razões para isso. Aqui, referiu-se ao sectarismo e ao fundamentalismo, que ele qualificou de fé religiosa privada de razão.

A questão é que a razão necessita da fé, e a fé, da razão: “há um processo em duas direções”. Sendo este o caso, Bento XVI pediu aos seus ouvintes – homens e mulheres com poder político no Reino Unido – fazer o que puderem para assegurar “um diálogo profundo e continuado” entre “o mundo da racionalidade secular e o mundo da fé religiosa”, para “o bem de nossa civilização”.

À luz da importância crítica deste diálogo entre razão e fé, Bento XVI expressou sua “preocupação com a crescente marginalização da religião, especialmente do cristianismo”, que se registra em muitos países, incluído o Reino Unido.

Ele se referiu também a “sinais preocupantes de uma falta de apreço... dos direitos dos crentes à liberdade de consciência e de religião”. Aqui, sem dúvida, pensava nas recentemente estabelecidas leis (chamadas) antidiscriminatórias aprovadas no Parlamento britânico que, entre outras coisas, dão direitos exagerados a pessoas homossexuais (incluindo o direito de adoção) em detrimento da liberdade religiosa. As agências de adoção católicas têm sido obrigadas a aceitar isso ou a fechar.

Silêncio

O Papa assinalou também que há quem gostaria que a voz da religião fosse silenciada ou ao menos relegada à esfera puramente privada.

No dia seguinte, falando na vigília da beatificação do cardeal John Henry Newman, Bento XVI disse que “Newman descrevia o trabalho de sua vida como uma luta contra a crescente tendência a ver a religião como um assunto puramente privado e subjetivo”.

À luz desta tendência “privatizadora”, o fato de que a visita do Papa tenha sido de Estado tem um significado imenso. Bento XVI, de obra e de palavra, põe o acento na verdade de que as sociedades atuais, incluindo as modernas democracias, não podem atuar sem religião na praça pública.

São Thomas More, depois de tudo, foi um bom servidor do rei, porque foi um melhor servidor de Deus. A comunidade política necessita da influência do cristianismo para alcançar seu objetivo.

No convite sem precedentes ao Santo Padre para se dirigir ao Parlamento britânico, algo simplesmente inconcebível inclusive há poucos anos, acende o farol da esperança de que o cristianismo pode continuar sendo uma luz guia para a sociedade.

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William Newton é professor no Instituto Teológico Internacional em Trumau, Áustria, e membro associado do Instituto Maryvale, em Birmingham, Reino Unido.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Papa Bento XVI, desculpe-nos



Jornais ingleses moderam seu tom depois da visita papal
Por Inma Álvarez, Zenit, 2010-09-21
LONDRES, terça-feira, 21 de setembro de 2010 (ZENIT.org) - A revista satírica britânica Private Eye costuma publicar hipotéticas cartas de desculpas da imprensa quando a opinião que transmite sobre uma pessoa é desmentida pela realidade.
"Isso poderia ser aplicado à visita de Estado do Papa Bento XVI", afirma Dominic Lawson, editorialista de The Independent, em sua coluna de hoje, "Pope Benedict... an apology".
"O Papa. Uma desculpa. Queremos pedir desculpas por descrever Sua Santidade como o líder tirânico com botas militares de uma instituição corrupta empenhada no estupro de crianças e no extermínio de todo o continente africano. Agora aceitamos que é um homem idoso e doce, que fica feliz da vida quando beija os bebês e que este país tem muito a aprender da sua humanidade e preocupação pelos mais fracos da sociedade."
Com ironia, Lawson constata a mudança generalizada de tom da imprensa inglesa após a visita do Papa. O próprio Independent, constata, publicou comentários editoriais que "seriam impensáveis há uma semana".
"Quando alguém é qualificado como um monstro (ou ‘um velho vilão lascivo de batina', como disse Richard Dawkins) e surge como uma modesta figura acadêmica visivelmente incômoda com a grandiloquência política de uma visita de Estado, os opinadores percebem que seus leitores prefeririam um tom mais amável", afirma Lawson.
"Suspeito que é precisamente o caráter apolítico do Papa Bento XVI que lhe dá certo atrativo popular, inclusive àqueles que não são membros da Igreja Católica e que sem dúvida se sentem obrigados a seguir seus inamovíveis pronunciamentos doutrinais."
O colunista que foi diretor do Spectator conclui: "A humildade talvez seja a mais difícil das virtudes; os mais presuntuosos críticos laicistas do Papa poderiam aprender do seu exemplo".
Este não foi o único comentário. No "dia depois" da visita, segundo constata um informe de Catholic Voices, é evidente a moderação da imprensa inglesa de todos os âmbitos de opinião, assim como o unânime reconhecimento do êxito da visita, contra quase todos os prognósticos.
Repassando um a um os 5 principais cabeçalhos ingleses, em sua edição de segunda-feira, 20 de setembro, o informe mostra como foi a cobertura da beatificação do cardeal Newman no Cofton Park.
Os da esquerda
Assim, The Guardian, representante da esquerda liberal, dedica duas página a uma reportagem sobre a beatificação, assinada pelo seu correspondente religioso, Stephen Bates.
Outra correspondente, Riazat Butt, afirma que "o êxito real desta viagem histórica não foi Bento XVI, mas seu rebanho, que desafiou as expectativas e a publicidade negativa para dar as boas-vindas ao Papa".
Na seção de comentários do jornal, um dirigente recorda aos leitores por que The Guardian apoiou a visita, "apesar do conservadorismo intransigente e às vezes cruel de Bento XVI", pois "se tratava de um assunto diplomático sério".
O editorial não acredita que o Papa tenha superado "a divisão religioso-leiga", mas tem algumas palavras críticas contra os manifestantes, que "talvez não vejam nenhuma conexão entre eles e as turbas antipapistas do passado, mas há um fracasso em dar à fé o respeito sincero que lhe é devido".
Na seção do defensor do leitor, destaca-se a crítica de muitos leitores com relação ao que consideram a "hostilidade instintiva da religião" por parte do jornal, ainda que o ombudsman alegue a extensa cobertura dada pelo The Guardian à visita.
Talvez a mudança mais sintomática tenha sido, como foi comentado no início desta notícia, o caso do The Independent, jornal que, durante o período anterior à visita, tornou-se porta-voz do setor laicista mais agressivo.
Em seu editorial de ontem, Benedict spoke to Britain, o jornal admitiu que a visita "foi melhor, inclusive muito melhor do que se poderia esperar", graças sobretudo "ao que o Papa disse e como disse", mostrando "que tem um lado mais cálido, mais humano e menos rígido do que parece de longe".
"E com relação às suas alusões a quão arriscado é para a tolerância desterrar a religião às margens, talvez ele tenha deixado uma Grã-Bretanha com a mente um pouco mais aberta que quando a encontrou", conclui o editorial de forma surpreendente.
Conservadores
Por sua parte, o Daily Mail, conservador, publicou um comentário assinado por Stephen Glover, no qual afirma que a visita "foi muito além" de um êxito que a própria hierarquia católica não esperava: "O Papa falou à alma do nosso país, afirmando as verdades morais eternas que nossos próprios líderes políticos e religiosos preferem evitar".
Um dos êxitos surpreendentes destacado por Glover foi o "rosto jovem" da Igreja Católica britânica; o editorial do jornal também critica os ateus radicais, contrários à visita: "Não têm nada a oferecer como caminho de esperança para os jovens nem para ninguém".
The Times não dedica um editorial, mas publica uma reportagem de Richard Owen, seu correspondente em Roma, que se surpreende com a ênfase do Papa no "pluralismo sadio" e nas "diversas tradições religiosas" da sociedade britânica, assegurando que "este não é o homem que foi eleito papa há 5 anos".
Por último, o Daily Thelegraph apresenta um Papa sorridente na capa e afirma que ele "parecia muito mais preocupado em reconduzir o diálogo entre a Igreja e a sociedade civil do que provocar conversões", ao mesmo tempo em que cita os "exageros laicistas".
O informe pode ser lido no blog de Catholic Voices.


terça-feira, 21 de setembro de 2010

Frase do dia


"No nosso tempo, o preço que temos de pagar pela fidelidade ao Evangelho já não é ser enforcado, desconjuntado e esquartejado; é antes, e de modo frequente, ser excluído, ridicularizado ou parodiado"

Bento XVI, Hyde Park, 18.Set.2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Milagre ou pesadelo?


JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN2010-09-20
No próximo sábado atinge 30 anos o mais vasto e longo genocídio da história. A "carta aberta" do comité central do Partido Comunista Chinês publicada a 25 de Setembro de 1980 é considerada o lançamento oficial da "política do filho único", em preparação desde 1978, e que ainda vigora.
A orientação é anterior e segue a linha de toda a revolução chinesa, pois foi antes de 1980 que se deu a dramática queda da fertilidade. Depois da catástrofe do "grande salto em frente", programa económico de 1958 a 1961, que gerou a maior fome artificial da história e reduziu a taxa de fertilidade para 3,4 filhos por mulher, os valores recuperaram e em 1962 estavam em 7,6. Mas a política maoista era implacável. No início da "revolução cultural", em 1966, o valor já descera para 5,5 e quando Mao morreu, em 1976, chegara aos 3 filhos por mulher, sendo de 2,5 em 1980, início da política. Assim, a nova medida apenas pretendia consolidar os "ganhos" obtidos. E conseguiu-o. Os números mais recentes, 1,7 filhos por mulher, são dos menores do mundo (Portugal é dos poucos abaixo).
O que toda esta política, desde a revolução, significou em sofrimento, destruição familiar, aborto e infanticídio forçados, sobretudo de meninas, é impossível estimar, mas aterrador até nos cálculos inferiores. Só pode ser qualificado como uma das maiores e mais longas chacinas de todos os tempos.
Mas a violência contra a China não se ficou por aí. Se juntarmos as experiências económicas, sociais e culturais do maoismo, temos de dizer que nos últimos 60 anos a civilização mais antiga e rica da humanidade sofreu o ataque mais vasto e profundo que a história regista contra uma cultura.
O aspecto mais patético é que o mundo anda maravilhado com o despertar económico da China, que coincide com estes 30 anos. Vendo de longe e sem compreender a realidade, o Ocidente interpreta como sucesso e até ameaça a situação de uma China espancada, brutalizada, destruída, quase moribunda. E, temos de o dizer, o crescimento económico do país, também ele único na história do planeta, faz parte dessa monumental agressão que só o povo chinês, sujeito da cultura mais antiga e rica, poderia suportar e sobreviver.
A China sempre fascinou o Ocidente. Mas se eliminarmos o romantismo mítico e olharmos para a crueza da situação, vemos que o suposto milagre chinês é miséria e desgraça. É verdade que as décadas de crescimento incomparável reduziram imenso a pobreza e melhoraram o bem-estar das populações. Mas, em qualquer área que se considere, os problemas chineses parecem tão gigantescos quanto o seu progresso.
O sistema económico conseguiu juntar os pior de todos os outros. Não só se vive nas suas empresas a mais bárbara exploração capitalista, muito maior que a que Marx denunciou, mas orgulhando-se de ser um regime marxista, suportam-se ainda todos os abusos soviéticos de expropriações e arbitrariedades de burocratas e comissários do povo. No campo ambiental, a poluição, desertificação e envenenamento atingem proporções épicas. Financeiramente os bancos nacionalizados e as grandes empresas públicas têm enormes desequilíbrios escondidos. O desajustamento de gerações, criado pela política do filho único, faz a crise da segurança social ocidental parecer brincadeira. Os estrangulamentos de infra- -estruturas, falhas na educação, saúde, justiça, e outros serviços só não explodem por apatia dos utentes. Para não falar nas disparidades regionais, conflitos étnicos, corrupção, etc. Sobretudo, as sistemáticas e gravíssimas violações de direitos humanos.
Olhando com atenção, vislumbramos os escombros da tradição chinesa, os cadáveres dos valores confucionistas, taoistas e budistas, após 60 anos de brutal agressão maoista. Perante este panorama desolador, de uma cultura riquíssima reduzida a ruínas fumegantes, aquilo que o Ocidente tem a dizer é temer a concorrência industrial e o impacto nos preços de matérias--primas. Esta reacção mesquinha é sinal evidente da miséria a que também está reduzida a cultura europeia.
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