quarta-feira, 30 de junho de 2010

Chegámos a isto

Paulo Tunhas, Publicado no i-online em 30 de Junho de 2010

Tudo, no horizonte provável, é melhor que Sócrates? Sim. Mas, desgraçadamente, isso não quer dizer muito

Na Assembleia da República, no outro dia, o primeiro-ministro, afivelando o seu melhor sorriso chocarreiro, e com o tom gozoso e plebeu que põe habitualmente no exercício, dirigia-se à deputada dos Verdes chamando-lhe, entre outras coisas, "estalinista" e "pós-moderna". A simples máquina de palavras que ele é não é sem dúvida obrigada a dar-se conta da incompatibilidade dos conceitos, e o facto certamente não importa por aí além. Na imagem, o que era interessante era a figura sentada ao seu lado esquerdo, ou pelo menos o que se via dela. Porque Teixeira dos Santos escondia quase a cara com as mãos e só se vislumbrava um olhar carregado e sombrio. Nada podia contrastar mais com o espevitamento febril e fátuo do falante agitado que ele anda, sacrificadamente, a ombrear. Mas não era difícil adivinhar o que lhe ia pelo espírito: alguns números. O do endividamento líquido da economia portuguesa ao exterior, o do défice da balança comercial, o do preço que pagamos pelo financiamento que pedimos lá fora, e coisas assim. Resumindo: aquilo de que Cavaco fala, e que Sócrates prefere por sua particular função ignorar.



Porque o primeiro-ministro, que se sente sozinho na tarefa de "puxar pelo país", como confessou, crê que o seu único destino neste mundo é "criar confiança". Uma crença estranha, já que a possibilidade de "criar confiança" repousa sobre dois alicerces. Primeiro, dizer a verdade sobre a situação em que vivemos. E, como se sabe, essa não é a especialidade de Sócrates. Segundo, possuir um peculiar traço de carácter que nos disponha a crer sem muitas reservas em quem nos fala. Ora desde que o proverbial Capitão Haddock assumiu a presidência da Liga dos Marinheiros Antialcoólicos que não se via uma tão grande incompatibilidade entre um personagem e a missão que decidiu ser a sua. Quem acredita, sem uma legião de reservas, em Sócrates? Sócrates? Até essa hipótese inspira dúvidas. Mesmo no triste estado em que estamos, o desconsolo destas visões poderia ser em parte compensado pela possibilidade de uma alternativa. Mas uma pessoa olha para o PSD e, francamente, não a vê. Desde que Ferreira Leite se foi embora, o PSD deixou de existir como oposição. Há, ao invés, uma espécie de fusão de mediocridades dos dois maiores partidos, destinada a tornar o mais possível imperceptível a transição dos poderes e a evitar danos excessivos de ambos os lados. Contrariamente a um mito tenaz, a "tralha cavaquista" foi, com uma excepção ou outra, o último pessoal político decente a aparecer por cá. O que a seguir nos cairá em cima fica a milhas daquela gente. Tudo, no horizonte provável, é melhor do que Sócrates? Sim. Mas, desgraçadamente, isso não quer dizer muito. Chegámos a isto.

Frase do dia

Só nos damos conta do ponto a que todas as coisas são de tal modo vagas no momento em que tentamos torná-las mais precisas

Bertrand Russell

(1872-1970)

terça-feira, 29 de junho de 2010

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Portugal confiante

DN2010.06.28

JOÃO CÉSAR DAS NEVES

Era preciso dizer ao Governo que a coisa não está a resultar. Era bom alguém informar o Parlamento que já ninguém acredita. Era conveniente avisar as autoridades que estão a destruir-se a si próprias. Não vale a pena repetir cerimoniais pomposos de dignidade, fundamento e justificação se a credibilidade se esfumou. Não serve de nada compor retóricas elegantes e juras indignadas, porque ninguém as leva a sério. É inútil representar uma comédia que perdeu a graça. Podem convencer-se a si mesmos e aplaudir correligionários, mas o público já nem sequer se indigna. Limita-se a bocejar.
A patética desorientação dos oito meses do Governo Sócrates é excruciantemente evidente. Às garantias que tudo vai bem seguem- -se jactos de medidas drásticas, que asseguram que tudo vai ficar bem, e todos tomam como provisórias. Perante a gravidade da crise a improvisação diz-se estratégica. Já nem se dão ao trabalho de fingir planeamento coerente e lógica de suporte. O País dói-se da desorientação.
Será isto assim tão grave? Afinal, sem tirar nada ao grotesco, a circunstância é típica de fim de ciclo. Não é a apoteose da corrupção, nem sequer o estertor da democracia. Por caricata e degradante que seja, tudo se esvairá com nova orientação. À penosa inanidade da sociedade americana no segundo mandato de Bush seguiu-se sem interrupção a euforia extática da eleição de Obama. Mesmo com crise financeira, todos esqueceram o que tanto os afligia semanas antes.
Alguns políticos têm a lucidez de evitar a dolorosa agonia. Cavaco Silva não se recandidatou em 1995 porque: "Tenho de ter a sabedoria de retirar-me antes que os Portugueses se cansem excessivamente de mim" (Autobiografia Política II, Círculo de Leitores, 2004, p. 485). António Guterres demitiu-se em 2001 para "evitar que o País caia num pântano político".
Infelizmente existem também aqueles que insistem em continuar um mandato zombie, confundindo teimosia com persistência. Chega-se com demasiada frequência à situação-limite do clássico ataque parlamentar de Leo Amery a Neville Chamberlin a 7 de Maio de 1940, citando uma referência com três séculos: "Isto foi o que Cromwell disse ao Long Parliament quando pensava que esse já não era capaz de conduzir os assuntos da nação: "Esteve demasiado tempo aqui para qualquer bem que possa ter feito. Parta, e livre-nos de si. Em nome de Deus, vá-se embora!"" O Governo caiu.
Entretanto, as consequências do impasse são graves. No meio da crise do euro, em que Portugal ocupa um papel delicado, a vacuidade do nosso Executivo tem de ser muito prejudicial. Mesmo assim, a coisa está longe de ser dramática, pois os aspectos mais ridículos não ressoam fora do nosso burgo e os mercados atendem mais a indicadores que a tolices. É pior que um Governo acossado seja um bónus para os grupos instalados, que negoceiam benesses em troca de balões de oxigénio. Mas o verdadeiro perigo está noutro lado.
Como nos alcoólicos anónimos, é a nossa antiga experiência democrática que pode tornar maligna a infecção. Portugal viveu décadas de vida política decadente, no liberalismo e Primeira República. Os governos sucediam-se, todos piores que a própria caricatura. O povo arrastava o descrédito de uma elite que actuava para si mesma, sem soluções, estratégia ou até vergonha. Os arroubos de novidade, como o que estabeleceu o regime de que celebramos o centenário, rapidamente se esvaíam num marasmo pior. As esperanças, sempre iludidas, traziam mais amargura que alívio.
Esses tempos podem parecer-se com os últimos meses, mas não podemos esquecer que a revolução de Abril quebrou o velho enguiço. Pela primeira vez na nossa história temos uma democracia a funcionar. A delirante persistência de Sócrates não chega para destruir este sucesso estrutural. Além disso, temos hoje uma sociedade aberta, ao contrário de há cem anos, e pacificada, ao contrário da Grécia. Para vencer esta fase difícil sem cicatrizes duradouras só nos falta uma coisa: confiança social no regime que nos tem servido bem há 36 anos.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 27 de junho de 2010

Saramago, o último intelectual marxista

JN2010.06.27 Zita Seabra
Morreu José Saramago e com ele morreu o último de muitos que, ao longo do século XX, se comprometeram com o comunismo e encontraram na ideologia marxista o sentido da sua escrita ou da sua arte. O seu nome junta-se ao de Gorki, Aragon, Picasso, Jorge Amado ou Paul Éluard, uma lista enorme de intelectuais que passaram pelas fileiras dos partidos comunistas. Saramago foi, como homem e como escritor, um empenhado militante da ideologia que abraçou e que lhe marcou sempre a vida e a escrita. A ideologia enquanto visão global do homem, da sociedade, da religião que Marx e Engels teorizaram e que Lénine, Mao, Brejnev ou Fidel, entre outros, levaram à prática.
Olhando para a vida e a escrita de José Saramago, o que mais impressiona é o facto de ele ter vivido e visto o comunismo ruir na URSS e nos países do bloco de Leste, como a RDA, a Hungria, a Checoslováquia, a Roménia, a Albânia, entre muitos outros, e ter silenciado esse facto. Confrontar-se com o sofrimento daqueles povos, já não nos relatos de Sakharov ou de Soljenítsin, mas nas imagens dos directos das televisões e passar ao lado da alegria com que abraçaram a liberdade.
Nem o confronto directo com o balanço dramático das vítimas dos que se libertaram do comunismo o fez alguma vez ter escrito ou dito qualquer palavra. O silêncio de quem usa a escrita é mais visível. Os seus gestos foram de quem passava ao lado: logo a seguir à queda do muro de Berlim, candidatou-se nas listas do Partido Comunista à autarquia de Lisboa. Que balanço faria dos anos de comunismo e do sofrimento das pessoas que viveram na pele um dos dois grandes horrores do século XX?
Saramago não passou, que se leia em nenhum dos seus textos, por qualquer crise. Não lhe doeu, não se interrogou, não sofreu com o terrível juízo que a história fez, sem remissão nem perdão, do totalitarismo comunista.
De Saramago, mesmo quando o comunismo foi julgado pela História, não se conhece nenhum sobressalto, nenhuma angústia. Muitas vezes me interroguei se seria uma total e completa insensibilidade moral?
É certo que, ao longo do século XX, muitos dos intelectuais marxistas viveram mergulhados na ideologia totalitária e nunca olharam à sua volta. Não foram todos, claro. Uns sobressaltaram-se logo em 1917, outros com o Pacto Germano-Soviético, na invasão da Checoslováquia, ou da Hungria, ou na chacina do Camboja, ou na loucura da Revolução Cultural Chinesa.
José Saramago não. Viveu e morreu mergulhado num mundo que ruiu à sua volta e cujo dramático balanço foi feito com muita dor. Sem uma palavra, sem uma linha, sem uma lágrima por quantos (milhões) de pessoas, de famílias, de gente, de operários, camponeses ou intelectuais que, ao longo do século XX, morreram e sofreram em nome do comunismo por todo o lado onde o marxismo passou da revolução ao Poder.
Nem um gesto teve quando lhe pediram apoio os dissidentes cubanos presos por Fidel. Nem mesmo quando Susan Sontag o confrontou com esse facto. Uma única dúvida subsiste, porém, quando se observa que visitou Cuba diversas vezes, mas nunca foi à Rússia libertada, apesar de ter sido convidado a lançar os seus livros e a debatê-los numa universidade de Moscovo - aí o confronto com a história seria certamente impossível de ignorar e de silenciar. Um confronto que, reconheço, é muito difícil de viver.

Requiem por Saramago

Público, 20100627 Gonçalo Portocarrero de Almada
Não obstante as suas irreverências literárias, nenhum cristão pode ficar indiferente ante o passamento do Nobel português

José Saramago morreu: paz à sua alma. Não obstante as suas reincidentes irreverências literárias, nenhum cristão, digno desse nome, pode ficar indiferente ante o passamento do Nobel português, sobretudo porque o divino Mestre encareceu aos seus discípulos o amor aos inimigos e não há dúvida que, muito embora os fiéis o não fossem dele, ele fez questão de o ser de Cristo e da Igreja.

O sincero pesar pelo seu desaparecimento, tanto mais penoso quanto carente, ao que parece, de qualquer indício de conversão, não quer dizer, como é óbvio, que se possa ignorar que a sua vida foi vivida na teoria e prática de uma ideologia anticristã. Por isso, seria despropositada, senão hipócrita, a pretensão de "baptizar" postumamente o finado militante comunista, num disparatado aproveitamento da sua notoriedade. Por isso também, seria incoerente que a Igreja oficialmente sufragasse a alma do defunto escritor, não porque não se possa e até se deva rezar por quem quer que seja, mas porque as exéquias cristãs só podem ser oficiadas aos fiéis católicos e José Saramago, decididamente, o não era. O seu a seu dono: dêem-se a cada qual as honras fúnebres que lhes são devidas, mas de acordo com as suas convicções e no lugar correspondente, também em nome do respeito devido à memória dos que já partiram.

Surpreende que, em ocasiões desta natureza, entre as carpideiras habituais do regime laico, se oiçam também algumas lamentações cristãs. Num desconcertante exercício de retórica, esses fiéis politicamente muito correctos fazem questão em homenagear a "coerência" do defunto. Mesmo ressalvando escrupulosamente as teses que o dito professou e viveu ao longo da sua vida, essas caridosas almas sentem como que uma irreprimível e pungente necessidade de elogiar a sua "postura", a sua "verticalidade", a "firmeza" das suas convicções e até, reverentemente, se dignam prestar culto à sua incensada "irreverência".

Ora a virtude ética não pode ser apreciada senão na relação com o correspondente valor, que a fundamenta: uma boa acção não é principalmente uma questão de atitude, mas a prática do bem. Quer isto dizer que a "coerência" no mal não é virtuosa, mas defeituosa e, nesse caso, o único comportamento moral digno de louvor é, obviamente, a rejeição do mal e a opção pela verdade e pelo bem. Se ter uma convicção contrária aos mais elementares princípios éticos é lamentável, muito pior é nela persistir toda a vida, porque se errar é humano, perseverar obstinadamente no mal é diabólico. A persistência é louvável no exercício do bem, mas é detestável na prática do mal: não atenua a responsabilidade moral do sujeito, antes a agrava, porque se a falta isolada merece indulgência e perdão, a consciente e voluntária obcecação no erro não é passível de tal compaixão.

Com Cristo foram crucificados dois ladrões: um converteu-se à hora da morte e a Igreja venera-o como santo, porque Jesus lhe prometeu dar, naquele mesmo dia, a glória do céu. Do outro não consta que se tenha emendado, pelo que passou à História como o "mau ladrão". Não faria sentido louvar a sua impenitência final à conta da sua "coerência" no mal, quando a única acção que o poderia ter salvo era o corajoso reconhecimento da sua culpa.

José Saramago morreu. Queira Deus que não tenha comparecido impenitente ante a Face que perdoa os contritos de coração. Paz à sua alma. Licenciado em Direito e doutorado em Filosofia. Vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família (CNAF)

sábado, 26 de junho de 2010

Porque é que a Igreja baptiza as crianças?

Porque é que a Igreja baptiza as crianças?
Porque é que a Igreja insiste em baptizar as crianças pouco tempo depois de elas nascerem? Não será isto um atentado contra a sua liberdade? E se mais tarde não quiserem seguir a religião Católica? Não será muito mais sensato esperar que cresçam e nessa altura escolham livremente a religião que desejam praticar?
São muito comuns, nos dias de hoje, estas perguntas. E não somente as perguntas. Também está a tornar-se comum – infelizmente – atrasar o baptismo com o argumento de que é preciso respeitar a liberdade das crianças. Com essa mesma “lógica”, os pais não deveriam escolher arbitrariamente um nome para os seus filhos – seria mais respeitador da sua liberdade que mais tarde os próprios escolhessem. Também seria contra a liberdade dos filhos obrigá-los a ir à escola, a arrumar o quarto ou, em geral, a portarem-se bem. Quem são os pais para imporem aos seus filhos aquilo que consideram que é o bem ou o mal? Não será que essa atitude pode gerar-lhes traumas na infância que dificultarão o exercício da sua liberdade sem nenhum tipo de limites?
Que tal, neste momento, pormos os pontos nos ii? O problema de fundo não é o baptismo nem a liberdade. O problema de fundo é a falta de fé de alguns pais no que significa para o seu filho ser baptizado. Actualmente, vê-se muitas vezes o baptismo como uma simples festa de apresentação aos familiares e amigos da criança que acaba de nascer. Dá-se mais importância a aspectos exteriores como a escolha “cuidadosa” dos padrinhos – não com a finalidade de que saibam zelar pela fé do afilhado, mas com o “critério” de que sejam pessoas amigas que não se esqueçam de dar presentes nos momentos oportunos.
O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica diz-nos que é precisamente o desejo de que os filhos sejam livres que leva os pais a pedirem o baptismo pouco depois de eles nascerem. Pergunta nº 258: “Porque é que a Igreja baptiza as crianças?”. Resposta: “Porque tendo nascido com o pecado original, elas têm necessidade de ser libertadas do poder do Maligno e de ser transferidas para o reino da liberdade dos filhos de Deus”.
Se uma pessoa possui de verdade a fé católica – ou seja, se acredita naquilo que nos disse Nosso Senhor Jesus Cristo – sabe que todos nascemos com uma doença espiritual que se chama pecado original. Também sabe que essa doença tem cura – uma cura infalível que é o baptismo. Também sabe que essa cura não foi “inventada” pela Igreja, mas foi instituída por Jesus Cristo, que, com a sua morte na Cruz, nos alcançou a libertação do pecado e a gloriosa liberdade de filhos de Deus. Também sabe que o baptismo é necessário para a salvação porque assim o disse, sem papas na língua, o próprio Jesus: “Quem crer e for baptizado será salvo; mas quem não crer, será condenado” (Mc 16, 15).
Resumindo: o problema dos atrasos no baptismo não está tanto no respeito pela liberdade das crianças, mas sim na falta de fé de muitos pais que se “esquecem” da importância que possui este sacramento para a salvação dos seus filhos.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Retrato sem retoques

José António Saraiva no SOL - 25.Junho.2010 
Um homem que sempre foi duro, e até rude, na apreciação das pessoas e das situações, merece mais do que os retratos de circunstância, retocados e adocicados, que têm sido feitos nos últimos dias.
Conheci José Saramago antes de saber quem ele era. O ateliê de arquitectura onde comecei a trabalhar ficava na Rua Viriato – em Lisboa, perto da Praça do Saldanha – e ia muitas vezes almoçar a um restaurante chamado Forno da Brites, que distava uns 100 metros da porta do nosso prédio.
Um dia, pouco depois do 25 de Abril, sentou-se nesse restaurante, na mesa ao lado da minha, um casal. A mulher era loura, bonita, de olhos muito azuis, e o homem era alto, mal encarado, de cabelo comprido na nuca. O almoço daqueles dois seres foi uma autêntica sessão de tortura. O homem falou durante quase toda a refeição, num tom áspero, de quem ralhava, e a mulher ouvia, com ar sofredor. A certa altura começou a chorar, abriu a mala, tirou um lenço e limpou as lágrimas. Mas nem assim o homem se comoveu – e continuou a ralhar no mesmo tom agreste, que durou até ao fim do almoço.
Eu conhecia a mulher de a ver em fotografias: era Isabel da Nóbrega. E aquela cena impressionou-me muito. Quando cheguei a casa contei o episódio a minha mãe, que me disse conhecer bem Isabel da Nóbrega, tendo chegado ambas a sair juntas no tempo em que esta namorava com João Gaspar Simões. E acrescentou:
– O homem que estava com ela devia ser o Saramago… É com quem agora vive.
Nessa altura, eu só tinha ouvido falar vagamente de Saramago. Mas logo a seguir ele começou a ter muito protagonismo, como director-adjunto do Diário de Notícias, que se tornara um jornal comunista ortodoxo. Não deixava de ser irónico, aliás, ver um diário que uns meses atrás era quase um órgão oficioso do Estado Novo defender as maravilhas da revolução proletária.
Começaram então a circular histórias de plenários e saneamentos no DN de que Saramago seria o executor, actuando de forma implacável. E, não sabendo eu se eram ou não verdadeiras, tendia a acreditar que sim pela imagem com que dele ficara a partir daquele almoço.
E uma crónica que assinou por essa época na 1ª página, chamada Esquerdalhos e Pirómanos, publicada no dia seguinte ao assalto à embaixada de Espanha, também me impressionou muito mal. Embora eu estivesse de acordo com a condenação daquele acto de vandalismo, senti-me incomodado com a linguagem usada no texto, os termos grosseiros empregues, o rancor que dali transparecia.
Pouco depois Saramago saiu da direcção do DN e deixei de ouvir falar dele. Até à publicação do Memorial do Convento, que foi um grande acontecimento editorial. Li o livro, como quase toda a gente, e achei algumas páginas notáveis – embora não o tenha acabado. A partir de certa altura a história parecia já não poder ter qualquer novidade.
Isso não me impediu de ler outros, como A História do Cerco de Lisboa ou O Ano da Morte de Ricardo Reis, onde fui consolidando a impressão de se tratar de um bom escritor mas pesado, com uma prosa um tanto mastigada e pouco surpreendente.
Claro que vibrei com a atribuição do Prémio Nobel, onde pesou a minha costela patriótica – embora na altura Saramago já estivesse fora do país, renegando de certa maneira a nacionalidade.
À medida que José Saramago se ia tornando célebre e mais conhecido, fui confirmando a primeira impressão que retive dele: uma pessoa amarga, zangada com o mundo, pouco simpática e pouco interessante nas suas intervenções públicas. As entrevistas televisivas que ia dando eram sempre baças, destituídas de rasgo, não parecendo a mesma pessoa que escrevia bons livros de ficção.
Um belo dia – já era eu director do semanário Expresso – o director-adjunto, Joaquim Vieira, veio propor-me que Saramago tivesse uma coluna de opinião na 1ª página. Depois de reflectir uns segundos, disse-lhe que não – explicando que, dessa forma, a opinião de Saramago passaria a ser a mais importante do jornal, a mais marcante, o que não fazia sentido, até por ele ser assumidamente comunista.
Teria algum sentido um jornal de matriz liberal ter como principal colunista (sobrepondo-se mesmo ao Editorial) um militante do Partido Comunista?
Contudo, vim a saber mais tarde que essa coluna já lhe tinha sido mais ou menos prometida, pelo que a minha recusa teve um impacto maior, levando Saramago a estabelecer com o Expresso (e em particular comigo) uma relação hostil.
Mas a Clara Ferreira Alves, que era redactora-principal e mantinha com ele uma boa relação, visitando-o mesmo em Lanzarote, ofereceu-se para mediar uma tentativa de reconciliação. Palavra para cá, palavra para lá, ficou combinado que eu lhe falaria.
Telefonei então para Lanzarote. Ele veio ao telefone com ar enfadado e disse-me que uma «reconciliação» com o Expresso passava pelo desmentido de uma notícia saída em 1975 sobre a sua acção no DN. Tendo em conta que estávamos em 1994 ou 95, tratava-se de uma notícia com 20 anos!…
Localizei a notícia, que não era mais do que uma local publicada na Gente (uma secção ligeira) onde se escrevia o que toda a gente dizia na época: que, como director-adjunto do DN, Saramago tinha um comportamento estalinista. Não encontrei nada na notícia que não fosse voz corrente naquele tempo – pelo que não vi qualquer razão para a desmentir. E foi isto mesmo que comuniquei a Saramago, em cartão que lhe enviei.
A partir daí não houve mais contactos.
Mas continuei a discordar frontalmente das suas intervenções públicas, das suas opiniões e de algumas das suas atitudes.
Senti-me chocado quando verifiquei que, a partir de determinada edição, ele retirou do Memorial do Convento a dedicatória a Isabel da Nóbrega. Eu pensava que a dedicatória de um livro era para a vida – mas enganei-me. Muito tempo mais tarde viria a conhecer Isabel da Nóbrega, que me contou episódios a seu respeito de pôr os cabelos em pé, proibindo-me porém de os reproduzir. E Agustina Bessa-Luís dir-me-ia um dia:
– Foi a Isabel que o ensinou a escrever e ele tratou-a tão mal…
O curioso é que Saramago, tratando mal muita gente, se indignava muito quando se sentia mal tratado. Revoltou-se contra Sousa Lara – e o próprio país – por não indicar um livro seu para um prémio literário. Ora não é verdade que Saramago apoiava o regime soviético, que praticava uma censura feroz sobre tudo o que se publicava?
E a defesa do voto em branco, no Ensaio Sobre a Lucidez, não soava a vingança contra a democracia? Percebendo que o seu partido, o PCP, nunca ganharia umas eleições, Saramago lançou-se a defender o voto em branco (recuperando um apelo do MFA em 1975), extraindo daí conclusões pouco aceitáveis sobre o esgotamento do regime democrático.
Impressionou-me também quando, numa entrevista, afirmou que não existia o espírito, só a matéria. Então os livros que escreveu são apenas matéria? São combustível para as lareiras? Ou o importante nesses livros (e nos outros todos) não é a matéria de que são feitos mas o espírito que a matéria condensa?
Impressionou-me, ainda, quando contestou o patriotismo a propósito do seu país – ele que tanto defendeu o direito de outros povos à independência…
E não percebi como pôde defender sempre o comunismo, um regime desumano, violento, castrador em todos os lados em que se implantou.
Fez-me confusão ele não ter percebido a importância de uma sociedade plural. Não entender que o comunismo é, pela sua natureza, inimigo da liberdade de pensamento – porque se impõe a partir do Estado, de cima para baixo, e um Estado que detém o poder político, o poder económico e o poder doutrinário, é de sua própria natureza totalitário.
A democracia só poderá existir, com todos os seus defeitos, numa sociedade descentralizada, em que os poderes estão separados. Os empresários, os banqueiros, os comerciantes, os bispos, os políticos, toda esta gente que Saramago detestava é o que garante a descentralização do poder, o que impede que o poder esteja todo concentrado numa clique que, pela ordem natural das coisas, se torna prepotente.
Nunca um poder concentracionário, não descentralizado, garantirá uma democracia.
Não quero terminar sem uma nota de reconhecimento.
Foi ao SOL que Saramago deu uma das suas últimas grandes entrevistas e a primeira depois da doença que em 2008 quase o matou. Aquela em que diz que Pilar lhe «deitou a mão à gola do casaco e não o deixou cair no poço». É uma entrevista bela, humana, talvez por se sentir fragilizado e reconhecido à mulher. Aliás, Pilar del Rio foi a única mulher que teve o dom de humanizar Saramago, o levar a ser humilde, grato, doce. Foi talvez a única mulher que ele verdadeiramente amou – e esse sim, foi um amor bonito.
Devo dizer que editei essa entrevista com o maior cuidado. Ela foi justamente capa da nossa revista, a Tabu, e além disso ocupou quase metade da primeira página do jornal.
Sempre lidei assim com as pessoas: o facto de gostar mais ou menos desta ou daquela nunca influenciou o modo como as tratei no plano jornalístico.
Saramago deu-nos a honra de nos conceder uma das suas últimas entrevistas – e nós tratámo-lo o melhor que soubemos e pudemos.
Assim é que deve ser.
Mas não sei se em situação inversa ele faria o mesmo.
por J.A.S






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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Feriados

2010.06.24| DESTAK | João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Salvar o País implica reformas urgentes, vastas e profundas na administração pública, finanças, segurança social, justiça, educação, etc. No Parlamento não aparecem propostas válidas e sérias nesses campos. Aliás, no que toca à crise, surgiu uma medida original: reduzir os feriados e cortar as pontes!
A justificação da política é falsa. Alegadamente, cortam-se feriados para aumentar a produtividade. Mas a produtividade não sobe por se trabalhar mais.
Pelo contrário, ela implica produzir mais trabalhando menos. Assim, a medida reduzirá a produtividade, explorando os trabalhadores. Apesar disso, o efeito produtivo será ridículo. Mesmo que se consigam mais 10 dias de trabalho por ano, isso equivale a cortar um intervalo para café de 19 minutos por dia.
Pior, a medida passa ao lado das causas e soluções da situação nacional. Aquilo que o Parlamento tem a fazer na crise é enfrentar interesses instalados, cortar benesses exageradas, aliviar a carga regulamentar, reduzir a despesa pública. Não é eliminar feriados.
A política nacional há anos que foge de políticas relevantes, se afunda em debates patéticos e se arroga o direito de mudar elementos civilizacionais, como a definição do casamento. Agora, em vez de cortar nos ricos, tira os feriados aos pobres.
Como de costume, os deputados não só não resolvem nada como geram polémicas espúrias e laterais. Até podem começar por cortar o Carnaval, pois já sabemos o que isso dá. Há dúvidas se perderam o interesse nacional e o bom senso político, mas parecem já nem sequer ter o sentido do ridículo.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

25º aniversário da Consagração da Cidade de Lisboa ao Imaculado Coração de Maria


Cartaz Imaculado Coracao Maria

Deus (não) existe


ler artigo de João Carlos Espada aqui

Deus Existe

Frase do dia

"O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso."
 Madre Teresa de Calcutá

terça-feira, 22 de junho de 2010

TERTULIA DE HOMENS






TERTÚLIA DE HOMENS
 A Fundação Maria Ulrich convida-o a participar na Tertúlia de Homens dia 23 de Junho, pelas 21:30H.
         O orador convidado é o Senhor Professor Luís Campos e Cunha e o tema que nos propõe:  "Política e Economia"                                                       

 RSFF
até 22 de Junho                                                                                                                                                                                                                             telfs: 213.882.110; 96.6969620

Rua Silva Carvalho, 240 (junto às Amoreiras)
Lisboa
fundacaomariaulrich.blogspot.com

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Portugal e o futuro

DN 20100621JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Acaba de ser divulgado o último relatório da Fundação Richard Zwentzerg, instituto internacional dedicado aos estudos lusitanos. Como sempre, o texto só é acessível através do DN e não deve ser procurado por outros meios. Desta vez, o tema é o grau de sustentabilidade do desenvolvimento português. Seguem-se extractos relevantes do texto.
"Uma questão inicial que alguns espíritos mesquinhos colocam é a de saber como pode analisar-se o grau de sustentabilidade do desenvolvimento de um país que não está em desenvolvimento. A maioria dos analistas não liga a este pormenor, mas em nome do rigor devemos então dizer que o relatório considera a sustentabilidade do desenvolvimento que Portugal teria se estivesse em desenvolvimento.
"Uma outra questão prévia tem a ver com o facto de, dado o número de óbitos ser maior que o de nascimentos, o país não só não está em desenvolvimento como se encontra em vias de extinção. Durante uns anos, isto foi disfarçado pela forte imigração, mas ultimamente o fenómeno inverteu-se, e não só a atracção de estrangeiros se esfumou como começou uma intensa e acelerada emigração. Dado a taxa de fertilidade ser a mais baixa da Europa Ocidental e das mais baixa do mundo, um dos nossos especialistas afirmou mesmo que, em vez de um relatório de sustentabilidade, o que Portugal precisa é de uma comissão liquidatária.
"Isto seria suficiente para criar enorme preocupação, ou até depressão e pânico na maior parte dos países civilizados. O mais curioso é que a sociedade portuguesa se mantém alheia a estas questões decisivas, que não preocupam minimamente os indígenas. Estes encontram-se envolvidos em enormes debates acerca de comboios, escutas, futebol e homossexuais. Pode dizer-se que o melhor factor de sustentabilidade em Portugal é a inconsciência.
"Passando à análise concretas das políticas de sustentabilidade, os nossos peritos constataram com surpresa e prazer a profusão, profundidade e qualidade dessas intervenções em Portugal. O país tem regulamentos, portarias, decretos e requisitos que condicionam, promovem e orientam todas as dimensões de sustentabilidade que constam dos nossos manuais do tema, e até algumas em que nem tínhamos pensado. Além disso, cada um desses articulados dispõe de um pequeno exército de fiscais que inspecciona, espiolha, julga e pune os cidadãos, com vigor e exuberância. Pode não haver desenvolvimento, mas há uma imposição esmagadora das regras de sustentabilidade.
"Claro que, no meio de tanta actividade, não pode pedir-se coerência entre essas medidas. É verdade que as exigências de equilíbrio ambiental chocam com os direitos dos trabalhadores, a defesa do consumidor impede a emancipação da mulher e a biodiversidade, a eficiência energética perturba a promoção da produtividade e da justiça social, o desenvolvimento da cultura e a defesa do património bloqueiam o combate à obesidade, tabagismo, desertificação e absentismo. Com tantas restrições e exigências, é fácil de ver que a única hipótese que a sustentabilidade permite é o desenvolvimento nulo. E tem sido precisamente no sentido desse vácuo que a política nacional se tem orientado nos últimos anos.
"Os sinais de contradição são miríade. Portugal é campeão de energias renováveis mas os custos, mesmos disfarçados, mostram porque é que mais ninguém quer tê-las. Multa-se o corte de sobreiros, mas subsidiam-se os abortos. Dificultam-se os despedimentos e facilita-se o divórcio. Perseguem--se fumadores e excesso de velocidade, mas promove-se pornografia e promiscuidade. Profissionais, com formação que custou milhões e ainda mais 20 anos de vida útil, reformam-se no pleno das capacidades. Os portugueses têm muito cuidado com o que metem nos pulmões e no estômago, mas não ligam ao que metem no cérebro.
"Este relatório dá nota máxima a Portugal em todos os requisitos de sustentabilidade. Não pode exigir-se mais de um país que até dá lições a outros mais ricos. Seguindo este caminho, Portugal não tem futuro. Mas, enquanto existir, é exemplo para o mundo."
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Triste figura

Raquel Abecasis, RR on-line em 21-06-2010 08:43

Lembram-se do ministro da Informação de Saddam Hussein? Aquele que aparecia na televisão, com os tanques americanos a passar por trás, a dizer que o Iraque estava a vencer a guerra?

Em Portugal temos um sósia desse personagem. Trata-se de Valter Lemos, aquele secretário de Estado que, na anterior legislatura, aparecia todos os dias na televisão a dizer que na educação tudo corria sobre rodas e os professores na rua não passavam de um grupo de agitadores que procuravam destruir o trabalho meritório que se fazia na 5 de Outubro.

Passadas as eleições, José Sócrates intuiu que este era o homem que lhe faltava no Ministério do Emprego. Nomeou-o secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional e aí está ele, contra tudo e contra todos. Sempre que as estatísticas sobem o número dos nossos desempregados, Valter Lemos aparece a dizer que os números e as instituições internacionais que os emitem estão errados.

A cena patética do ministro que já perdeu a guerra e continua a cantar vitória é, infelizmente, uma cena que se repete na política.

A dúvida está em saber se, quando falam tão convictamente, estes homens estão mesmo convencidos ou só nos querem manter na ignorância. Se é para nos enganar, pergunta-se, o que esperam ganhar com isso?

Do ministro da Informação iraquiano só restou a memória da sua triste figura. De Valter Lemos o tempo dirá.

A saúde mental dos Portugueses

Pedro Afonso
Público, 2010.06.21
Recentemente ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque nos últimos quinze anos o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade
. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.
Interessa-me a saúde mental a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da segurança social.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.
Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.
E hesito prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante estes rostos que me visitam diariamente.

Pedro Afonso
Médico Psiquiatra
In jornal Público
21.06.2010

domingo, 20 de junho de 2010

Campeonato do Mundo?

Público, 2010-06-20 Vasco Pulido Valente


Como qualquer pessoa - ou, se quiserem, como qualquer pessoa da minha idade - perco horas por semana a ver os jogos do Campeonato do Mundo de Futebol, o que tem sido, como sabem, um sacrifício inexplicável e, ainda por cima, inútil. Não falo de Portugal (que passou depressa). Falo de toda a gente com a evidente excepção da Argentina e do Brasil. Mas, no meio da sonolência e da irritação com a monotonia e a mediocridade do que tenho visto, comecei pouco a pouco a perceber a explicação daquele desastre: o Campeonato do Mundo de Futebol não é, de facto, o Campeonato do Mundo de Futebol, é campeonato dos jogadores da Europa (e aqui incluo na Europa, embora em pequena medida, a Rússia europeia) e da Turquia, arbitrariamente divididos por nacionalidade de origem.

Verdade que se tocam hinos e se mostram bandeiras e que uns milhares de entusiastas pintam a cara e agitam bandeiras. Mas seria informativo e didáctico indicar a que clube está neste momento ligado cada jogador e fornecer um pequeno sumário da sua carreira. Isto, porque a maioria foi educada na Europa e continua na Europa. Normalmente, nos países mais ricos: na Alemanha, em Inglaterra, em Espanha, em Itália, em França, na Holanda ou na Bélgica. Mas também na Grécia, na Turquia e até, em certa medida, em Portugal. Por isso, quase sem excepção, jogam como se joga na Europa. A "nacionalidade" futebolística, como existia há 20 anos, desapareceu. Já não há surpresas. Há uma rotina de anos, que se reproduz num cenário novo e com um aparato diferente.

A fraqueza de equipas como a Inglaterra ou França vem precisamente desta uniformidade geral. A Europa compra o talento da África, da América do Sul e mesmo da Ásia. Quando um clube europeu precisa de um atacante ou de um médio ou um defesa, não o procura em casa, compra no mercado universal, mais prometedor e barato. Não admira que a seguir às selecções verdadeiramente nacionais faltem jogadores de qualidade para lugares decisivos (como, por exemplo, falta à Inglaterra um guarda-redes). Pior ainda: as secções juvenis dos grandes clubes não hesitam em importar adolescentes do Mali ou do Chile, para os desenvolver e treinar para seu benefício (ou os mandar embora sem educação e sem destino, se falharem). O Campeonato do Mundo acabou por se tornar uma falsificação. É um negócio e uma bolsa de jogadores. Pouco mais.


sábado, 19 de junho de 2010

Apresentação do livro "Don Giussani"


Giussani

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Não sufocar o amor

Aura Miguel, RR on-line 2010.0622

Os bispos anunciaram ontem um plano a que chamam “itinerário sinodal”, com o objectivo de repensar a pastoral.

Três anos depois da visita Ad Limina, em que o Papa pediu aos bispos portugueses para reverem os métodos de anúncio cristão, surge um plano cheio de etapas e discernimentos, que vai implicar imenso trabalho e que só em Novembro de 2011 terá orientações práticas.

O anúncio dos bispos não deixa de surpreender face à recente advertência do Papa de que em Portugal se confia demasiado nas estruturas e programas eclesiais, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista.

Aliás, este alerta foi reforçado há dois dias pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, numa intervenção aos bispos, recordando justamente que “a pastoral não é apenas a arte de programar, mas é a manifestação na história do amor de Cristo pelos homens”. E com grande realismo D. José Policarpo também reconheceu que “trabalhamos mais do que amamos, criamos estruturas, mas quando as pessoas precisam do pastor, nós estamos ocupados”.

Esperemos que, desta vez, os planos e os esquemas não sufoquem o amor.



Estupidez

DESTAK |16 | 06 | 2010   21.17H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

A liberdade de expressão na sociedade da informação é um dos grandes avanços da humanidade. O acesso ao conhecimento, o surgimento de novas ideias, criatividade e pluralismo aumentaram espantosamente. O ser humano atingiu assim um nível superior de civilização. Mas, como sucedeu nos níveis abaixo, este excelente benefício trouxe também custos evidentes. Neste caso o grau de estupidez aumentou assustadoramente.
Não é provável que o número de estúpidos tenha subido. Eles sempre foram a maioria. Infelizmente os Dante, Mozart ou Rembrandt são muito mais raros que os La Palisse, Sganarelle, Jerry Lewis ou Mr. Bean. Mas hoje têm muito mais impacto porque os meios de comunicação expandiram extraordinariamente a sua influência. Pior, aí as baboseiras interagem e fecundam-se mutuamente, explodindo a imbecilidade.
Nunca o mundo viveu tão mergulhado em disparates, burrices e vacuidades como nos dias que correm. Em debates televisivos e colunas de opinião (como esta, claro!), em blogues, revistas e e-mails, desenhos animados, séries televisivas e livros a asneira reina soberana. Sobretudo em momentos de dificuldade e confronto, como aquele que agora vivemos, as teorias idiotas, boçalidades sonantes e interjeições palermas dominam o espaço mediático.
É verdade que em muitos casos não levamos a sério o que é dito. Naturalmente vamos ganhando uma resistência que nos protege dos dislates. Mas, apesar disso, é impossível que tal inundação passe sem efeitos. Mais que a inteligência, a bondade ou a maldade, aquilo que hoje domina o mundo é a estupidez.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A mãe das crises

Público, 20100617  Pedro Lomba


Se o escritor de ficção científica Philip K. Dick vivesse, já não precisaria da sua imaginação distópica para distorcer o futuro. Poderia ser um escritor naturalista. Esse futuro que nas histórias de Dick parecia delirante está agora bem plantado à nossa frente, no tempo útil das nossas vidas. Consultando as estatísticas ficamos inteirados da boa nova: a longo prazo, não estaremos mortos. Estaremos extintos.

Muita gente tem alertado para o declínio demográfico que ameaça o mundo ocidental como o conhecemos. Esse declínio converteu-se no primeiro problema para o nosso modo de vida dos últimos 60 anos. Até temos algumas ideias de como devemos enfrentá-lo, mas hesitamos, em parte porque estamos sobretudo focados noutras pragas (as alterações climáticas, a especulação bolsista), noutra parte porque ainda vivemos na doce ilusão de arranjar maneira de salvar a nossa pensão de reforma. No entanto, comparado com o meteorito que será os países europeus ficando aceleradamente sem população, tais preocupações parecem menores ou acessórios. Se não houver gente, faremos o quê?

Em 2003 a idade média na Europa era de 37,7 anos. Em 2050, segundo um estudo da Brookings Institution, um think-tank norte-americano, essa média rondará os 52,3 anos, bem acima dos 35,4 previstos para os Estados Unidos. Praticamente todos os países europeus sofrerão baixas acentuadas nas suas taxas de população. Por exemplo, a Itália cairá 22 por cento e a Estónia 52 por cento. E Portugal também. Para começar, o INE revelou há dias que em 2009 tivemos mais óbitos do que nascimentos.

Daqui a 40 anos viveremos na sociedade mais envelhecida que provavelmente existiu na história do mundo. Os novos serão minoritários, os velhos maioritários. Politicamente será um facto dramático. E sabem o que acontece às sociedades dominadas por anciãos? Mais tarde ou mais cedo definham.

Ao mesmo tempo, eis o que também tem acontecido: as taxas de fertilidade no mundo muçulmano têm continuado o seu ritmo imparável. Desde 1970 que têm sido responsáveis por grandes subidas da população mundial. Há hoje muito mais muçulmanos na Europa vivendo como muçulmanos, isto é, conservando os seus hábitos religiosos e rejeitando o secularismo ocidental. Essas tendências da natalidade não-ocidental suscitam também conspirações de poder em torno de uma suposta arabização da Europa. O certo é que os países europeus também não escaparão ao choque cultural dentro de portas. Na verdade, já o conhecem.

Imaginam uma Europa sem Portugal, sem a Suécia, a Europa de 2200 ou 2300? Falarão aqueles que viverem nessa altura daquilo que nós fomos, tal como nós falamos da civilização maia ou dos romanos?

Um dos grandes paradoxos da Europa é que nenhum outro recanto do mundo ofereceu tanta afluência e bem-estar às suas populações para que cuidassem da sua própria subsistência e renovação. A Europa é que deveria ser, e em certo sentido até se imaginou dessa forma, o verdadeiro "fim da história".

Mas a anomia europeia explica bem por que é que a afluência económica e o bem-estar social não chegam para manter uma cultura. As coisas e as estatísticas demográficas são o que são.

O historiador inglês Arnold Toynbee escreveu há muito tempo: "As civilizações morrem por suicídio, não por assassinato". E é mesmo certo na história das grandes civilizações que a seguir à decadência vem a extinção. A crise demografia é a mãe das nossas crises. Jurista

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Frase do dia

Cínico não é apenas quem retira lições amargas do passado, mas é também quem fica prematuramente desapontado com o futuro
Sydney Harris (1917-1986)
Jornalista americano

terça-feira, 15 de junho de 2010

Porquê?

Público, 20100617  Esther Mucznik
Os israelitas sabem que não são anjos e são mais críticos e autocríticos do que qualquer outro povo do mundo


Em Israel, de onde escrevo esta crónica, há uma interrogação em todos os rostos: Porquê? Porquê esta hostilidade crescente que frisa o ódio, esta condenação unânime e desproporcionada? Porquê este escrutínio obsessivo, esta criminalização permanente? Porque é tão ténue a fronteira entre a crítica política e o questionamento da sua legitimidade nacional? Porquê, apesar dos 1500 correspondentes internacionais e os mil enviados especiais por ano, a desinformação é permanente e devastadora? Porquê esta surdez colectiva, esta selectividade da memória, esta ideologização passional na relação com Israel?

Os israelitas, e os judeus de uma forma geral, não são ingénuos. A história nunca lhes permitiu essa doce inocência. Sabem que não são anjos e são mais críticos e autocríticos do que qualquer outro povo do mundo. Basta abrir o jornal Ha"aretz, verdadeira instituição nacional fundada em 1918, para se ficar esclarecido: um criticismo demolidor inunda as suas páginas de opinião não poupando governos e políticas, exército ou agências de informação. A própria população discute asperamente todas as acções do seu governo. Reconhecem que a acção contra a flotilha foi desastrada, mas sabem que do lado israelita não havia nenhuma intenção nem vontade de violência, contrariamente aos membros do IHH turco, que iam para lá apenas com essa intenção. Questionam o bloqueio de Gaza, mas sabem que ele se destina a evitar a entrada de armas, não de alimentos. Contestam o seu sistema eleitoral de uma proporcionalidade que leva à impotência, mas também sabem que este foi instituído para que as inúmeras minorias do país, incluindo a árabe, tivessem voz representativa. Reconhecem que a força não resolve nenhum problema de fundo, mas que sem ela "não sobreviveríamos nem mesmo 24 horas", como afirma o escritor Amoz Oz, fundador do Movimento Paz Agora. E acima de tudo sabem que, apesar de todos os defeitos, são uma verdadeira democracia onde os dirigentes não se eternizam no poder durante toda a vida, onde funciona o Estado de direito, a separação de poderes e a liberdade. Normas e valores ocidentais que são os únicos a praticar no Médio Oriente.

Por isso não entendem a hostilidade desse mesmo Ocidente, que criminaliza o bloqueio israelita, mas não tem uma palavra para o mesmo bloqueio por parte do Egipto (oportunamente levantado a 2 de Junho), agravado ainda com a construção em curso de um muro de aço subterrâneo de 9 km para impedir a construção de túneis; que alimenta a versão fantasiosa de uma política israelita deliberada de esfaimar a população de Gaza, quando diariamente Israel permite a passagem de 100 a 120 camiões de víveres, medicamentos e de material humanitário. Não entendem o silêncio da "comunidade internacional" face à implicação do Hamas no contrabando dos túneis e aos enormes lucros que mafiosamente daí retira; ou que os bens desviados por Israel para o porto de Ashod, aí apodreçam porque o Hamas se recusa a recebê-los. Os israelitas têm dificuldade em compreender como se pode falar de "punição colectiva" relativamente aos palestinianos e calar-se quando cineastas, escritores ou empresários israelitas são, colectivamente, alvo de censura e boicote não por serem o que são, mas por virem de onde vêm. Não entendem que a Cruz Vermelha venha juntar-se ao coro incriminatório contra Israel, mas nunca tenha denunciado publicamente o rapto e a detenção ilegal pelo Hamas de Guilad Shalit, incomunicável há quatro anos sem sequer se saber se está vivo ou morto.

Mas o mais inadmissível para israelitas e judeus em todo o mundo é o silêncio face a comparações perversas e cheias de ódio entre Israel e a Alemanha nazi - símbolo do mal absoluto. É o silêncio face a afirmações de homens como Fidel Castro proclamando que "A cruz suástica de Hitler parece ser hoje a bandeira de Israel" - no próprio dia em que sai das suas masmorras um homem que os bons tratos de anos de encarceramento transformaram num esqueleto paraplégico. O que se passa com uma esquerda tão cheia de bons sentimentos, com tão serena consciência moral que não desdenha acolitar-se aos mais criminosos terroristas? Que se junta nos barcos "da liberdade" a cantar em coro "Israel partirá, Palestina vencerá"! Esqueceu o que foi o nazismo? O que se passa com uma Europa amnésica, exangue, que corre para o suicídio transida de medo? Será o pavor da ameaça muçulmana tão forte que a faz esquecer a sua história e os seus fundamentos? "Mais vale vermelhos do que mortos", era o grito de milhões de pacifistas europeus face à ameaça soviética nos anos 70 do século passado, em plena Guerra Fria. Voltámos a esse tempo, com outros actores e outras ameaças?

Israel está fragilizado e tem certamente a sua parte de responsabilidade na situação a que se chegou. Mas o Estado hebraico é o único Estado do mundo ao qual nada se perdoa. Que está confrontado com algo que vai muito para além da crítica às suas políticas. É por isso que os israelitas sentem que, façam o que fizerem, serão sempre condenados pela "comunidade internacional". Com a impunidade dos seus 89 anos, a agora ex-jornalista da Casa Branca, Helen Thomas, disse alto o que muitos pensam em voz baixa: os israelitas que voltem para as suas casas. Para onde? Para a Alemanha, disse ela, ou Polónia... de onde há 70 anos atrás os queriam despachar para a Palestina. Antes de os transformarem em cinzas, claro...

Comecei esta crónica com uma interrogação. Mas a resposta é óbvia. A história é uma grande mestra. Investigadora em assuntos judaicos (esther.mucznik@netcabo.pt)

A César o que é de César, mas o homem é de Deus

“A César o que é de César, a Deus o que é de Deus”.
As doutrinas que no último século postularam o homem sem Deus porque tudo se reduzia a matéria, com o virar do século XX pareciam caducas e sem grande acolhimento. O muro de Berlim caiu e a pátria do materialismo desmoronou-se. Os partidos de inspiração socialista passaram a admitir a propriedade privada, o mercado e o pluralismo democrático. Por isso se tem perguntado – que bandeiras têm hoje? E apenas temos vistos as questões de civilização ou fracturantes – o aborto, a eutanásia, o divórcio, o casamento gay, “educação” sexual, liberalização das drogas, experimentação em embriões humanos, eugenismos vários, etc., etc..
Mas esta agenda não é só desse sector político, já invadiu a política do centro direita, os meios intelectuais mais diversos, as nossas famílias e até alguns sectores religiosos. O relativismo é o factor de propagação.
Cada vez que uma lei é aprovada perguntamo-nos – mas porquê esta agenda? Porque se destrói o casamento com a lei do divórcio, e logo após se quer o “casamento gay”? Parece contraditório, mas não é.
Há duas formas de acabar com um Instituto (Família) – a primeira é revogá-lo (mas decretar o fim da família era chocante), e os regimes socialistas do século XX tentaram mas caíram primeiro que a Família; a segunda forma de acabar com um Instituto (Família) é equipará-lo a tantas realidades meramente semelhantes que se retira a sua especificidade, e por isso caduca. É o que está a acontecer com o casamento e com a família. A Família e o casamento estão a ser minados pelas leis, pela organização social e pelas formas de vida propostas pelo Poder.
A Família é o primeiro lugar de Amor do homem. E Deus é Amor. Por isso, Deus manifesta-se em primeiro lugar na Família, porque ela é o lugar do amor. Acabar com a Família é tirar Deus ao Homem. A família é também o primeiro lugar de solidariedade. O homem sem família é vulnerável ao Poder.
Tudo isto poderia ser uma doutrina de livros e compêndios, mas não o é. Vive-se. Vive-se na solidão de cada idoso, na dor da mulher que abortou, no desespero da família de um toxicodependente, na amargura de quem vê um filho com práticas homossexuais, nos casais dilacerados pelo divórcio fácil com guerras intermináveis. Vive-se em silêncio porque o mundo não entende estas dores.
O homem apoiado numa família, em corpos sociais intermédios e numa relação com Deus é um homem livre. Ora, o Poder não gosta de homens livres.
A última forma, a forma perfeita do Poder não consente oposição (verdadeira). Acabar com a Família é acabar com a possibilidade de liberdade do homem.
Esta tem sido a história da humanidade – o Poder e a liberdade. Mas hoje este binómio não é claro. Ele joga-se em cada passo, em cada lei que fragiliza mais e mais o homem. Cultiva-se o egoísmo e a solidão sob a capa do direito a dispor do meu corpo (aborto), do direito a ser feliz (divórcio), do direito à morte digna (eutanásia) do direito ao prazer (drogas, sexo e álcool), etc.. O Homem está só e despojado da sua humanidade.
Como é difícil prescindir de “direitos” individuais, o homem vai comprando cada vez mais “direitos” destes. Ao mesmo tempo, torna-se mais só e egocêntrico. Cada vez mais vulnerável ao Poder. Cada vez mais o homem “é de César”.
Cada vez que aprovamos uma destas leis, o que estamos a fazer é a “entregar o Homem a César”.
Mas o Homem é de Deus.


PS – O mote para este escrito foi dado numa homilia do Padre Nuno Amador. A Sabedoria da Igreja é muito grande. Que alegria encontrá-la nas palavras e no ímpeto de uma homilia de terça-feira, dia de S. Justino mártir. Obrigada Padre Nuno Amador.


Isilda Pegado
Presidente Fed. Port. pela Vida

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O Estado enquanto educador sexual

Raquel Abecasis RR online 14-06-2010 08:48

Falhada a utopia de construir uma sociedade sem classes, os defensores da tese tentam agora construir uma sociedade igualitária, de preferência sem referências culturais, religiosas ou ideológicas.

A ideia é convencer as gerações futuras de que viver em liberdade é prescindir de optar; é, basicamente, tomar como certo e sem alternativa um modelo de sociedade que é enfiado na cabeça dos mais novos, desde tenra idade, no banco da escola.

Na senda deste projecto, entra em cena, no próximo ano lectivo, a educação sexual contada pelo Estado, por este Estado que não perde oportunidade ou poupa recursos para explicar às nossas crianças o que é o sexo. Uma matéria que o Estado conhece mais do que qualquer pai ou qualquer mãe que queiram ensinar outras coisas aos filhos. Isso, diz o Estado, é pôr ideias retrógradas nas cabeças das crianças.

É assim que este nosso querido Estado benfeitor quer construir uma sociedade moderna e sem complexos e, já agora, se puder ser, também sem capacidade de pensar pela própria cabeça.

Se tudo correr bem, espero que os meus filhos chumbem por faltas às disciplinas em que lhes quiserem ensinar aquilo que o Estado não tem direito de ensinar.

Está na hora de explicar ao Estado quem manda na nossa casa!

Direito por linhas tortas

DN 2010.06.14 JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Vivemos estes dias um dos fenómenos mediáticos mais inesperados, atrevidos e provocadores da nossa era. Terminou na passada sexta-feira, festa do Sagrado Coração de Jesus, o ano sacerdotal iniciado pelo Papa Bento XVI a 19 de Julho de 2009. Isto, que parecia pacífico, mostrou-se revolucionário.
A função sacerdotal, vasta e profunda na Igreja, tem na pessoa do padre o seu ponto central, como indica a referência aos 150 anos da morte de S. João Maria Vianney, humilde cura de aldeia. Organizar um ano de celebrações à volta dessa figura é, na nossa sociedade, um dos maiores atrevimentos culturais.
Não só o cristianismo é a única ideologia que hoje se pode atacar sem violar a tolerância, mas nele o padre é o aspecto mais desprezado. No Ocidente, a Igreja, mesmo se marginal, não goza do estatuto protector de minoria. Qualquer bizarria está mais defendida de críticas que ela. Tendo sido cultura dominante durante séculos, a crítica ao catolicismo é, no actual quadro de rebeldia adolescente, emblema de modernidade e progressismo, mesmo entre católicos. Aquilo que seria intolerável contra outros grupos sociais é comum com a Igreja em geral, e os padres em particular. Eles são, pode dizer-se, a menos respeitada de todas as profissões aceitáveis. Admira-se este ou aquele clérigo, mas o conjunto não presta. Assim, a surpreendente decisão de Bento XVI inclui uma serena mas contundente provocação à opinião dominante, levando os fiéis a meditarem sobre tudo o que a comunidade recebe das mãos e ministério dos sacerdotes.
Só que aquilo que devia ser um período de reflexão, gratidão e celebração transformou-se num momento de terrível pressão mediática. Os escândalos de pedofilia centraram as atenções nos padres, mas pelas piores razões. Chega-se a duvidar se, afinal, será profissão aceitável.
Este contraste entre propósitos e resultados chega para marcar este na longa história dos anos comemorativos. Não haverá outro em que o desvio seja maior. Isto não se deve a uma coincidência, porque realmente não aconteceu nada. Os factos que suscitam as acusações são antigos, alguns muito antigos, a ponto de nem permitirem investigações policiais. As notícias não são novidades. O único motivo está no interesse dos jornalistas, que decidem concentrá-las agora. Também é difícil sustentar a tese de cabala organizada, sendo impossível orquestrar uma campanha de tal dimensão.
O mais surpreendente no episódio é, assim, ele parecer genuinamente fortuito. Claro que o quadro cultural ajuda. Se os jornais procurassem casos de pedofilia de professores, médicos ou outros (que os poucos estudos sérios indicam serem bastante mais frequentes), ninguém se lembraria de deduzir daí consequências sobre a respectiva classe profissional. Aliás, se o fizessem, imediatamente apareceriam as competentes organizações sindicais a criticar abespinhadamente tais insinuações. Mas os padres não se defendem. Chocados com o comportamento dos colegas, batem no peito e baixam a cabeça. São os únicos profissionais que sofrem vergonha e responsabilidade por actos de outros.
Deste modo, o caso concede autorização aos inimigos da Igreja para insultar alegremente todo o clero, e até a instituição, sem temer resposta. Pior, se alguém disser que assim se conspurca uma multidão de inocentes por causa de um punhado de criminosos, logo se acusa de insensibilidade ao horrível sofrimento das crianças. É espantoso, mas existe mesmo muita gente capaz de retirar consequências para a doutrina e a hierarquia católicas destes poucos e velhos comportamentos aberrantes. Será que também duvidam da educação e medicina por existirem profissionais perversos?
Noutro sector isto não passaria de uma falhada operação de relações públicas. A Igreja, também nisto, é diferente. Que os nossos padres, totalmente inocentes, tenham sofrido terrível vitupério simplesmente por serem o que são, logo no ano que lhes era dedicado, é um mistério espantoso. Afinal, na perspectiva cristã, centrada na cruz, o ano sacerdotal correu mesmo bem.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt