segunda-feira, 31 de maio de 2010

Apoteose do narcisismo

 DN 20100531 JOÃO CÉSAR DAS NEVES

A democracia está a passar por um momento muito perigoso. Não só a crise mundial favorece os extremismos, mas o sucesso chinês revela um modelo alternativo, mostrando que se pode atingir a prosperidade sem liberdade. As futuras gerações vão ser tentadas a abandonar aquilo que para nós é um consenso evidente. Estes nossos anos podem acabar na História como episódio isolado de uma bela experiência política. No entanto, o pior ataque ao pluralismo, hoje como sempre, vem de dentro, dos abusos dos democratas. É na sua própria fragilidade que a democracia encontra os maiores perigos.

Portugal aprovou a lei do casamento de pessoas do mesmo sexo. Goste-se ou não, trata-se de uma mudança histórica, nuclear, fundamental. É difícil encontrar no passado situações em que algo tão influente e estrutural foi mudado num dos seus elementos mais definitórios. Mas o mais surpreendente é a ligeireza com que essa mudança foi feita.

Um governo minoritário e acossado, uma maioria ocasional composta por partidos que se detestam e uma votação quase distraída. Num país em convulsão com crise e desemprego, os parlamentares juntam-se momentaneamente, o Tribunal Constitucional cede à ideologia, o Presidente lava as mãos como Pilatos e muda-se a definição de casamento. O povo não foi consultado, não houve debate profundo nem longas elaborações. Um grupito de deputados, cheios da própria certeza que querem impor ao mundo como verdade absoluta, chegou para alterar o que os milénios tinham conservado.

Para lá da questão concreta, sobre a qual muito se escreveu, o que assusta é a fragilidade do quadro institucional. Os mais preocupados deviam ser os partidários da nova lei, porque assim como veio, um dia irá com igual facilidade. Aliás, o exemplo da Califórnia, onde uma lei equivalente não chegou a durar seis meses em 2008, aponta nesse sentido. Mas se este assunto é crucial, não é só a ele que se limita o problema. Se até o casamento mudou assim, o que é que está a salvo? Tudo fica fluido.

Esta lei não surgiu do nada. Ela constitui apenas o mais recente passo de uma vasta campanha de promoção do erotismo, promiscuidade e depravação a que se tem assistido nos últimos anos. Por detrás de leis como o aborto, divórcio, procriação artificial, educação sexual e outras está o totalitarismo do orgasmo. Parece que o deboche agora se chama "modernidade". Mas se um dia, em vez de uma maioria porcalhona, tivermos um parlamento nihilista, espírita, xenófobo ou iberista, o que salva a identidade nacional?

Hoje mesmo, na actual composição parlamentar, não será difícil encontrar uma maioria para apoiar coisas abstrusas, como a proibição de touradas ou rojões, imposição da ordenação sacerdotal de mulheres ou a obrigatoriedade de purificadores atmosféricos. Aliás, uma lista exaustiva dos disparates em que os nossos deputados acreditam encheria volumes. Este episódio revela com dramática clareza a enorme fragilidade do sistema que tanto prezamos e louvamos. Uma democracia vale o que valer a dignidade e o respeito dos seus democratas.

A nova lei, apesar de ser um marco milenar em termos formais, poucas consequências práticas terá. Depois do folclore momentâneo, amortecido pela crise e o campeonato do mundo, as coisas ficarão quase na mesma. Aliás, ao eliminar a aura de minoria perseguida de que têm gozado os comportamentos sexuais desviantes, vai finalmente revelar-se a sua verdadeira realidade e assim contribuir para destruir-lhes o encanto.

A atitude de fundo que os suporta é a apoteose do narcisismo, fechado à fecundidade e centrado no prazer. A actual visão dominante do casamento, de qualquer sexo, é hedonista, precária, egoísta. Mas esta tolice ideológica não durará muito, como não duraram os delírios das gerações anteriores que hoje tanto nos desgostam. Apesar dos ataques, a verdade da família, baseada numa doação mútua, estável e fecunda, resistirá. Aquilo que no processo pode desaparecer é a nossa democracia, sacrificada, como no século XX, no altar da arrogância dogmática.





31 de Maio - Nossa Senhora da Visitação

Domenico Ghirlandaio c. 1491
Tempera sobre madeira, 172 x 165 cm
Musée du Louvre, Paris

domingo, 30 de maio de 2010

Verdade e bem comum

Zita Seabra
JN 2010.05.30
Nesta Conjuntura temos um Governo completamente desorientado, incapaz de enfrentar a situação ...

A crise vinha de há dois anos mas subitamente agravou-se e viveram-se momentos de real perigo para o euro e para a Europa. Aconteceu quando se consciencializou que a Grécia não dizia, nem tinha dito, a verdade sobre as suas contas públicas e, bem pelo contrário, escondia dívidas e o défice- que mentia. Esta fase da crise começou na Grécia, arrastou-se a Portugal e a Espanha que se transformaram em alvos preferenciais, não de uma central maligna, mas da dificuldade em encontrar quem nos empreste dinheiro para pagar as dívidas. Quem empreste aos nossos bancos e aos nossos estados. A Europa tremeu e tomou consciência que, se continuarmos como até aqui - como escreve Jacques Attali em livro recentemente publicado e cujo título diz tudo e merece ser lido, Tous ruinés dans dix ans - estaremos "Todos Arruinados em Dez Anos".
Tornou-se evidente e óbvio para todos que os estados europeus não se podem endividar infinitamente e que o nosso modo de vida não tem sustentabilidade. O euro esteve, está, em perigo e nos países euro, nós, portugueses, somos particularmente vulneráveis e estamos na primeira linha de risco. Na Europa, já não estamos, como mostra entre outros Atalli, a hipotecar as futuras gerações, estamos a correr o risco de um dia acordar e não ter meios para pagar aos actuais funcionários públicos e reformados. Quando a banca entrou em perigo de colapso e iminência de falência, os estados foram ajudar o sector financeiro com muitas promessas de melhorar os mecanismos de regulação. Agora, quando os estados entraram em falência, a banca veio ajudar a Europa (com intervenções políticas decisivas de Sarkozy e do presidente Obama e tardias e temerosas de Merkel), sossegou-se a Zona Euro, criando um fundo de emergência para os quais os estados europeus não têm dinheiro.
Habituados a considerar que o progresso fazia parte da nossa vida e que o futuro é risonho, deixámos que os estados fossem cada vez mais gastadores para alegria dos cidadãos, pois as democracias dependem dos seus votos e os votos ganham-se distribuindo o que já não se tem. Cá dentro, como no resto da Europa, não interessam as contas porque há sempre quem precise de mais direitos sociais, há mais uma rotunda a fazer, mais uma empresa pública a criar, mais gente a empregar na Função Pública, menos tempo para trabalhar. Tem havido sempre quem tenha direito a reformas antecipadas e a reformas cada vez mais cedo, quando a vida é cada vez mais comprida.
O primeiro-ministro passou anos a apresentar novas medidas, novos direitos (muitos justíssimos), criando sempre a ideia de distribuir (o que não temos). O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista e, muitas vezes também a restante oposição - PSD e CDS -, exigem sempre mais e mais direitos e mais obras e mais benesses e mais PIDDAC e mais direitos de pequenos e de grandes grupos sociais ou profissionais ou etários (em muitos casos justos) e SCUT e Magalhães e bónus, muitos bónus para os gestores públicos e muitos motoristas e carros de topo para as chefias, mais subsídios e isenções… E agora? Agora, temos de falar verdade porque temos uma pesada conta para pagar, sem saber como vamos conseguir os meios para pagar o que devemos e com cada vez mais dificuldade em encontrar quem nos empreste mais e mais dinheiro para pagar as dívidas, até ao dia em que não encontraremos mesmo quem nos empreste.
Nesta conjuntura, temos um Governo completamente desorientado, incapaz de enfrentar a situação. Desorientação e irresponsabilidade são os traços dominantes de um governo sem rumo que nem olha para as medidas de rigor que atravessam a Europa de Norte a Sul.
Mais do que nunca precisamos do inverso. Necessitamos de um governo que incuta confiança, capaz de traçar uma política com rumo, que fale e trabalhe sempre com verdade e, sobretudo, que tenha como objectivo central servir o bem comum. Verdade e aspirina, escreveu Pessoa. Eu diria que precisamos de verdade e serviço do bem comum como regras inultrapassáveis a nortear a política portuguesa.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Procissão de velas com a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima na cidade do Porto

Dia 31 de Maio, às 21h00: procissão de velas com a Imagem Peregrina de N.ª Sr.ª de Fátima.

Itinerário: Igreja da Lapa, Rua do Paraíso, Rua do Camões, Av. Dos Aliados, Praça da Liberdade, Estação de São Bento, Av. D. Afonso Henriques, Sé.

Estão à venda, na secretaria da Paróquia, os lenços e as velas para a procissão de velas. Convidamos os paroquianos a concentrarem-se, no dia 31 de Maio, à frente da Igreja da Lapa para o início da procissão.

Quem desejar sair a partir da Paróquia N.ª Sr.ª da Boavista encontramo-nos às 20h00, à entrada da Paróquia. Depois, vamos de Metro de Francos até à Lapa. Cada um deve ocupar-se do seu bilhete de Metro.

Os jovens estão a organizar-se para irem de Metro, quem desejar pode associar-se. Quem desejar ir directamente para a Lapa: encontramo-nos à frente da igreja.

Revoltas

DESTAK | 26 | 05 | 2010   21.24H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Hoje tende-se a exagerar a influência da economia. Existe a sensação que tudo depende de finanças, empresas e mercados e, sem se saber muito disso, cria-se o mito da presença esmagadora dessas forças. No sistema moderno a economia tem grande poder, mas muito menos que outros aspectos humanos, familiares, sociais, políticos, religiosos, culturais, etc.
Na terrível crise grega a enorme dívida nacional asfixia o país. Mas dizer que a crise é financeira é tolice. A questão decisiva pouco tem a ver com as exigências de credores.

O aspecto que assusta mesmo, e que foi também a causa do explosivo endividamento, é a desconfiança e conflitualidade sociais. A Grécia, que antes de entrar na CEE cresceu muito, foi desde então dominada por corporativismos, corrupção, incompetência, promessas não cumpridas.

Como consequência, o descontentamento e revolta sociais estão latentes há muito e grupos extremistas gozam de enorme influência. Todos têm razões válidas para desconfiar de todos os outros. Este clima social, não a factura financeira, é a principal tragédia grega.

Portugal tem uma dívida bastante inferior, embora em crescimento acelerado. Mas, acima de tudo, tem uma sociedade serena, confiante, benevolente. Ladramos muito mas mordemos pouco.
Vários analistas têm avisado que podemos vir a ter graves revoltas por causa da austeridade. Pode ser, mas isso nunca sucedeu nas antigas austeridades. Dizer isso é exagerar a influência da economia, muito menos influente que os aspectos humanos familiares, sociais, políticos, religiosos, culturais.

D. José Policarpo critica Cavaco no casamento 'gay'

DN on-line 20100528

Cardeal-patriarca não percebe por que razão o Presidente não usou veto político

O cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, criticou ontem duramente o Presidente da República por este ter promulgado a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo em vez de usar a arma do veto político. "Esperava que o Presidente usasse o veto político. Sabemos a fragilidade do veto político na nossa actual Constituição, mas ele, pela sua identidade cultural, de católico, penso que precisava de marcar uma posição também pessoal", disse o prelado, em entrevista à Rádio Renascença.

D. José Policarpo antecipou até custos eleitorais para a reeleição de Cavaco Silva: "Já não lhe exigíamos que fosse tão longe como o Rei da Bélgica, que abdicou por um dia para não assinar uma lei que não queria assinar. Mas, se o fizesse, ganhava as eleições."

Segundo acrescentou, o discurso em que Cavaco justificou a promulgação da lei "levava a uma conclusão que depois não aconteceu": "Temos muita dificuldade em ver como é que um veto político vinha prejudicar a crise económica. Aquela relação lógica causa--efeito a mim não me convenceu."

Acrescentando: "Para mim o argumento principal não era o da eficácia política, era um gesto dele como pessoa, como PR que foi eleito pelos portugueses e pela maioria dos votos dos católicos portugueses, que se distanciasse pessoalmente - quando assinasse era mesmo porque tinha de ser e naquela altura não tinha de ser."

Ao promulgar a lei, decisão anunciada no passado dia 17, Cavaco Silva lamentou que os partidos que a aprovaram (PS, BE e PCP) não tenham querido "ponderar um princípio elementar da acção política numa sociedade plural: o de escolherem, de entre as várias soluções jurídicas, aquela que fosse susceptível de criar menos conflitualidade social ou aquela que pudesse ser aceite pelo maior número de cidadãos, fosse qual fosse a sua visão do mundo". "Não teria sido difícil alcançar um compromisso na Assembleia da República se tivesse sido feito um esforço sério nesse sentido", acrescentou, manifestando-se assim implicitamente favorável à lei das uniões civis registadas (um estatuto intermédio entre o casamento e a união de facto) apresentada pelo PSD.

Contudo, apesar das críticas, o PR acrescentou que um veto político não teria nenhum efeito senão "arrastar inutilmente este debate, o que acentuaria as divisões entre os portugueses e desviaria a atenção dos agentes políticos da resolução dos problemas que afectam gravemente a vida das pessoas." E daí a promulgação.

JOÃO PEDRO HENRIQUES

publicado a 2010-05-28 às 07:16

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Ou mudamos de vida ou a vida nos muda

Público, 20100528 Helena Matos
Perceber como gastam os impostos aqueles que passam cheques visados pelo contribuinte é uma espécie de filme de terror

O Governo britânico anunciou um pacote de diminuição dos gastos públicos. Por cá opta-se pelo mais fácil: subir impostos. Mas não existem impostos capazes de sustentar uma administração pública, a portuguesa, que gasta o que não tem no que não deve. Consulte-se, por exemplo, o portal disponibilizado pela Associação Nacional para o Software Livre que dá conta do universo dos ajustes directos. É um mundo que pode ir dos 784 mil euros gastos em agendas por munícipios, empresas públicas e institutos, nos anos de 2008 e 2009, aos 123 mil euros gastos pela EPAL em cabazes de Natal ou à decisão inexplicável do Governo Regional dos Açores de substituir-se aos partidos e encomendar um estudo de opinião sobre a Conjuntura sócio-política nas ilhas de São Miguel e na ilha Terceira, por sete mil euros.

Os ajustes directos do Estado são os trocos da despesa feita com o dinheiro dos contribuintes. Mas são trocos que já nos levam 1,2 por cento do PIB. Perceber como gastam os nossos impostos aqueles que passam cheques visados pelo contribuinte é uma espécie de filme de terror para qualquer cidadão que não se dedique a falsificar dinheiro ou a uns quaisquer tráficos: são milhões de euros desperdiçados em compras e encomendas ordenadas por serviços que muitas vezes eles mesmos só não foram extintos porque não houve coragem política para tal, como é o caso dos governos civis e de muitas juntas de freguesia. Provavelmente para fazerem prova de vida, estes serviços editam revistas, boletins, separatas e brochuras que, além de divulgarem a fotografia do senhor presidente, não se entende para que servem ou sequer se alguém as lê para lá do restrito círculo dos seus colaboradores. Por exemplo, fará sentido que o Governo Civil de Lisboa edite a revista Pessoas e Territórios, a Área Metropolitana de Lisboa as revistas Metrópoles e Estuarium, publicações que, como nunca vi, não sei se abrangem as mesmas temáticas da revista editada pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo - CCDR LVT? Sendo que as ditas publicações nos idos de 2009 nos custaram 253 mil euros!

A falta de senso é tal que até a Direcção-Geral das Contribuições e Impostos acha conveniente adquirir pastas e esferográficas no valor de mais de seis mil euros "para a formação". (Os ecopontos devem estar atulhados com estas pastas que se produzem a troco de tudo e de nada, neste país!) Já a autarquia lisboeta afectou 57 mil euros à pintura duns símbolos de bicicletas no alcatrão dumas ruas por onde nunca passou bicicleta alguma. E se passou ignorou olimpicamente os ditos bonecos, deslizando pelos sítios do costume, tanto mais que os símbolos se sumiram quase à velocidade a que se contam 57 mil euros.

Mas o ex-líbris deste universo é o brinde que é de borla para todos menos para quem o paga: a conta com os ditos brindes registados neste portal ultrapassa o milhão e meio de euros, entre 2008 e 2009. Sendo difícil descortinar o que levou a Casa Pia, em 2008, a afectar mais de 53 mil euros à "aquisição de brindes para a Feira da Juventude", tenho de reconhecer que o município de Loulé é um caso digno de estudo em matéria de brindes: em Outubro de 2009, o dito município achou oportuno despender 54.965 euros em brindes, sendo certo que já em Julho do mesmo ano afectara quase 19 mil euros à mesma rubrica. Mas não acaba aqui a relação de Loulé com os brindes: tudo somado, durante 2009 o município de Loulé gastou 122 mil euros em brindes. Convenhamos que é muito brinde!

Note-se que esta contabilidade dos brindes não inclui o Carnaval, festividade que deixa de ter qualquer graça quando se percebe que, entre 2008 e 2010, nos custou mais de dois milhões de euros. A parte do leão das despesas carnavalescas, ou seja, um milhão, vai para os carros alegóricos, mas a despesa carnavalesca de que não me consigo libertar são os 73 mil euros gastos em "saquinhos (almofadas anti-stress) de arremesso" que o município de Loulé comprou no ano de 2009. Menos entendo que a Contratação dos serviços do actor Angélico Vieira, para Rei do Carnaval (desfile), em Vila Real de Santo António nos tenha ficado em mais de 16 mil euros. Quero crer, aliás, que estes números estão errados, pois ao que constato fazer desfilar uma escola de samba custa-nos 20 mil euros, embora se a dita escola fizer aquilo que os contratos definem como "trabalhos especializados" a conta suba para 23 mil. Enfim, é Carnaval, ninguém leva a mal, mas as contas essas é que nos colocam em constante Quaresma.

Esta vocação para festeiro de um Estado que cobra impostos em nome do social está patente nos mais de 18 milhões de euros gastos em espectáculos nos anos de 2008 e 2009. Os munícipios tornaram-se os grandes clientes dos artistas e, sem pretender discutir questões de gosto, tenho sérias dúvidas que uma autarquia, no caso a de Santarém, deva gastar mais de 260 mil euros para contratar um cantor, mesmo que esse cantor seja José Carreras. E embora o tango tenha recentemente ganho contornos políticos inusitados em Portugal, os 275 mil euros pagos em 2008 pelo munícipio de Lagoa por um espectáculo de tango são difíceis de entender, seja qual for o ritmo.

Exemplos não faltam. Basta ir procurá-los a http://transparencia-pt.org/. Meia hora de pesquisa é suficiente para concluir que ou conseguimos que a administração pública ganhe juízo ou então só nos resta dedicarmo-nos ao espiritismo e colocarmos o Alves dos Reis na Casa da Moeda. Creio que já estivemos mais longe. Ensaísta

Se eu chamar pata à cauda, quantas patas tem um cão?

O Zé Maria e eu ficamos abismados com a leitura desta notícia do DN de hoje.
Com a devida vénia transcrevo a sua reacção que põe as coisas no seu devido lugar:

Quinta-feira, Maio 27, 2010


Género

Li hoje no DN on-line que o Bloco se prepara para propor uma lei que permite mudar o sexo no BI através do reconhecimento por um grupo de psicólogos que atestam que a pessoa vive como se fosse de outro sexo. Ou seja, um homem que se veste e vive como uma mulher passar, legalmente, a ser uma mulher.
Segunda esta gente o corpo não define a pessoa. A pessoa e o seu corpo são duas entidades separadas. Existe o sexo que uma pessoa tem e depois o género a que pertence. Pode ser um homem mas ser de género feminino. É esta teoria, a separação entre o corpo e a pessoa, que justifica quer a homossexualidade quer a mudança de sexo.
(continue a ler aqui...)

O papa passou por aqui....

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada

Eu, pecador, me confesso de uma falta consciente e voluntariamente cometida no passado dia 12 de Maio, na portagem de entrada em Fátima, pouco antes da chegada do Santo Padre. Com efeito, quando dei ao zeloso funcionário a quantia que lhe devia pelo troço de auto-estrada percorrido, disse-lhe com fingida seriedade que, se Bento XVI passasse por ali, fizesse o favor de não lhe cobrar a portagem…
Estupefacto, o portageiro gaguejou:
- Mas, o Papa vai passar por aqui?!
Não, Sua Santidade não ia passar por ali, para tranquilidade da inocente vítima da minha bem-humorada maldade sacerdotal, a quem logo esclareci, para o bem da sua alma e paz da minha pesada consciência. De facto, Bento XVI não passou por aquela portagem que, quanto muito, sobrevoou de helicóptero, mas franqueou outras fronteiras, cruzando os espaços da nossa interioridade.
Passou pelos corações das crianças que o esperavam no aeroporto e nos Jerónimos, com cânticos de alegria.
Passou pelas autoridades a quem protocolarmente cumprimentou, dando a um gesto formal o alcance de um acolhimento pastoral.
Passou pelo entusiasmo dos jovens que encheram de cor e de júbilo o Terreiro do Paço e, depois, sob as janelas da Nunciatura Apostólica, cantaram ao Papa a felicidade que lhes vai na alma cristã.
Passou pelas mentes ilustres dos agentes da cultura, num Centro Cultural de Belém repleto de personalidades sisudas que, por um momento, se ergueram para aplaudirem, de pé, o porta-voz da verdade que nos faz livres.
Passou pelas vidas de milhares de padres, religiosos, missionários e seminaristas, cuja entrega a Deus e ao próximo consagrou ao Imaculado Coração de Maria, a todos chamando a uma mais plena e decidida resposta à graça do dom e da missão.
Passou pela existência prosaica dos fiéis congregados na imensa esplanada da Cova da Iria, naquela vigília memorável de oração e de fé, e depois prolongada na impressionante Eucaristia matutina do dia 13.
Passou pelo serviço dos que se dedicam à pastoral sócio-caritativa, neles despertando renovados anseios de autêntico apostolado cristão.
Passou pelo fraternal abraço aos bispos portugueses, confirmando-os na sua autoridade e serviço eclesial e recordando-lhes a dimensão profética do seu múnus pastoral que, por ser católico, deve estar aberto a todas as multiformes manifestações do único Espírito.
Passou pelos milhares de fiéis, invictos do frio e da chuva na urbe invicta, e que protagonizaram uma emocionante despedida ao Papa peregrino, já em vias de regressar à capital da Cristandade.
Passou pelos céus que abençoou e pelas terras que, sobrevoando, tocou com a sua benfazeja sombra de sucessor de Pedro.
E passou também por todas as televisões, passou pelas rádios das mais díspares frequências, pelas manchetes de todos os jornais e publicações, pelos cartazes urbanos, pelas bandeiras e pelos estandartes agitados ao vento, pelas embarcações engalanadas sobre as águas do Tejo e do Douro.
Passou sobretudo pelos sorrisos das crianças, pelo entusiasmo dos jovens, pelo consolo dos doentes, pela esperança dos velhos, pela contrição dos pecadores e pelo fervor dos santos.
Sim, eu pecador me confesso de ter sido percurso do Papa Bento XVI, porque o seu sorriso paternal ainda brilha na minha alma e a sua voz amabilíssima de bom Pastor perdura na minha mente e no meu coração. Deo gratias!

A união de homossexuais e o Presidente da Republica

O título mais exacto do comentário que se segue seria “A pirueta da triste figura”. Senti um arrepio, quase vómito, quando acabei de ouvir o Prof. Cavaco Silva. Que vergonha, senti. Por ele, claro. E pelo país. Assim ficou para a história como o padrinho (the best man) dos homossexuais, por incoerência da sua decisão, quando poderia ter passado à História como alguém que sem disfarce piedoso e paternalista segue as suas convicções, independente de votos e oportunismos. Seria bem preferível que, sem mais, tivesse promulgado o tal “casamento”, porque sim, porque assim o achava. Mas vir dizer a todo um país que ele pensou bem e não está de acordo e deu provas disso, que há outros modos e figuras jurídicas para o caso que são seguidas nos países que ninguém se atreve a chamar de atrasados; mais, que só uma minoria na Europa assumiu esta forma e, depois, num salto mortal, conclui ao contrário e promulga! O dito por não dito. Claro, arranjou duas “razões”. Falsas. E uma delas é ofensiva da dignidade e inteligência de um povo: estamos tão em crise e tão miseráveis que não nos podemos distrair com este tipo de debates! Ora, estes temas humanos é que são sérios, até porque a verdadeira crise é de valores. O Senhor Presidente pode ter a certeza de que o povo, “na sua menoridade” o que vai discutir é sobre futebol em África e o campeonato do Mundo. A outra razão também é “enorme”! A Assembleia vai aprovar outra vez e já não será possível vetá-lo. Pois não seria, se não houvesse outras coisas a fazer. Até dissolver a Assembleia seria possível. Aliás ninguém pode garantir em absoluto que uma lei passe (ou não) e que não haja mudanças de opinião, sobretudo quando a maioria não está assim tão garantida! De facto, usar tal argumento e agir assim com tal pirueta é como se alguém dissesse “vou-me suicidar porque é certo que dentro de algum tempo morrerei”.

Eis aqui um exemplo de um mau discernimento, do que é deixar-se levar pelas aparências de bem, do que é não clarificar nem assumir as verdadeiras motivações e arranjar “boas” razões, saídas airosas para proteger as próprias conveniências.
Enfim, não se podem julgar as pessoas, mas as piruetas, sim. 

Vasco Pinto de Magalhães s.j.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Bento XVI escreve carta de agradecimento à cidade do Porto

JN 2010.05.25

"Grande e frutuoso", foi assim que o Papa Bento XVI caracterizou o empenho da população do Porto aquando da sua visita à cidade no passado dia 14 de Março.


Bento XVI enviou uma carta de agradecimento a D. Manuel Clemente, o bispo do Porto, onde exprime a sua gratidão aos portuenses que o acolheram.
Na carta, enviada a 19 de Maio, Bento XVI, agradece a todos os fiéis do Porto e reconhece que leva no coração “as imagens daquela assembleia litúrgica apinhada na Avenida dos Aliados e ruas convergentes”.
Bento XVI reconhece a força religiosa não só no nosso país como também no Porto, onde assistiu com alegria à densa e festiva mobilização de fiéis nesta cidade tanto na eucaristia por si presidida como durante todo o percurso.
Durante a sua peregrinação em Portugal, o Papa não poupou os elogios e agradecimento à população portuguesa.
Na carta ao bispo do Porto é notória a satisfação e apreço por quem o recebeu bem assim como a lembrança de momentos que marcaram a sua visita na cidade do Porto.
“Possa a comunidade eclesial do Porto, que o senhor bispo apascenta, frutificar na paz e alegria do Senhor prosseguindo no rasto de Nossa Senhora de Vandoma e de tantos Santos a quem foi reacender a esperança no coração e na vida diária dos homens e mulheres, seus companheiros de jornada, lembrando-lhes Deus como meta final”, escreveu Bento XVI.
No final da sua carta, o pontífice despede-se com votos de esperança dando a todos os portuenses a sua bênção apostólica.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Presidente: para quê?

Público, 20100524
António Pinheiro Torres

A promulgação da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo desiludiu os portugueses e surpreendeu os católicos
A promulgação pelo Presidente da República da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo desiludiu todos os portugueses, defraudou aqueles que nele votaram e surpreendeu os católicos deste país.

A decisão desiludiu todos os portugueses: o Presidente ignorou o sentir da sociedade portuguesa e simultaneamente operou uma interpretação dos seus poderes ao arrepio da Constituição, sendo que a fragilidade das suas supostas razões foi tal que nem à crítica dos supostos beneficiários da decisão escapou...

Do sentir da sociedade portuguesa sabia o Presidente: não existe uma só sondagem (por telefone, online ou por qualquer outro meio) que mostre uma aprovação pelos portugueses do casamento e da adopção gay ou negue que o referendo é de facto uma exigência popular (antes e depois da promulgação como se verificou logo no dia seguinte num programa da SIC-Notícias). Só assim se explica que tenha sido possível em três semanas uma Iniciativa Popular de Referendo ter angariado cerca de 92 mil assinaturas (na época do ano mais adversa para tal) ou que também em apenas um mês se tenham mobilizado alguns milhares de portugueses que no dia 20 de Fevereiro encheram a Av. da Liberdade em Lisboa, por motivo da mesma reivindicação. Esse mesmo sentir se constatou na maioria esmagadora da opinião publicada, na primeira manifestação pública dos militares de Abril desde a época revolucionária, ou na tomada de posição de mais de uma centena de autarcas do país inteiro que subscreveram o pedido de referendo. E, por fim, o comprovou o apelo final de voz autorizada dos bispos portugueses defendendo que, ainda que com custos políticos elevados, se pedia estivesse à altura das suas responsabilidades.

Quanto à abdicação dos seus poderes constitucionais de veto, essa conclui-se da sua história de desempenho do mandato e das considerações expendidas sobre a "inevitabilidade" da aprovação da lei. Ficámos a saber que para o Presidente o veto apenas se justifica nos casos em que o Tribunal Constitucional faça um juízo desfavorável da lei e por isso em última instância o poder de veto é de hoje para diante um atributo desse tribunal e não do Presidente, que, em caso contrário, promulgará todas as leis, independentemente do seu conteúdo, desde que exista maioria para nova ratificação na Assembleia da República.

Que a decisão do Presidente defraudou o seu eleitorado testemunha-o a vaga de protestos na comunicação social (seja nas cartas de leitores, seja em programas de televisão que permitem a intervenção de espectadores), a que conhecemos tem chegado ao Palácio de Belém ou às estruturas cívicas que se bateram por um referendo, algumas declarações de políticos e fazedores de opinião ou responsáveis de instituições relevantes na sociedade portuguesa (por todas veja-se Nota de Abertura da Renascença) ou a simples memória das últimas eleições. Quanto à surpresa dos católicos, esta decorre da visita de Bento XVI e da presença do Presidente, nos moldes em que bem ocorreu e interveio, como tem sido já suficientemente observado.

Assim, para uma vasta rede de movimentação cívica da sociedade portuguesa, com algum poder eleitoral já testado e demonstrado (vide como último exemplo o ocorrido nas últimas europeias da sequência das declarações de Paulo Rangel precisamente sobre este tema), a questão é: "Presidente: para quê?" Até saber a resposta, uma certeza: se isto se repetir não será com o nosso voto. Mandatário da Plataforma Cidadania e Casamento, filiado no PSD

A grande fraude

DN 2010.0524 JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Estes dias revelaram velhas fraudes da política portuguesa: a fraude da facilidade a crédito; a fraude do sucesso no combate ao défice e do impacto económico do plano tecnológico, obras públicas e afins; a fraude da imunidade portuguesa na instabilidade internacional. Mas a maior de todas as fraudes, ultrapassando tudo o que o espírito político pode conceber, está nas despesas sociais e na ajuda aos pobres.
Durante décadas, os Governos, em especial de esquerda, fizeram juras solenes de compromisso com a justiça social e o apoio aos desfavorecidos. As despesas dos serviços de solidariedade aumentaram e os ministros repetidamente se autocongratulavam com iniciativas de promoção da igualdade. Agora, quando o descontrolo orçamental exige disciplina e austeridade, os primeiros cortes foram precisamente aí.
O Conselho de Ministros de 6 de Maio, "em cumprimento do PEC", aprovou reduções no acesso a prestações não contributivas, incluindo o rendimento social de inserção, e nas condições do subsídio de desemprego. Juntando insulto à injúria, o Governo mascarou as descidas de mera "harmonização de condições de acesso" e "promoção da empregabilidade". De facto, a motivação, como se vê na invocação do PEC, é a redução da despesa pública.
Num orçamento que ocupa metade do produto nacional, o Executivo não encontrou nada para cortar senão os apoios aos mais pobres. Aliás, na mesma data rea- firmava a decisão de avançar com as grandes obras públicas, dois dias antes de recuar também aí. Já vieram muito mais cortes e impostos, mas o primeiro passo foi o mais simbólico. Com ele iam às malvas princípios ideológicos, promessas solenes e a mais elementar decência.
Esta fraude entronca numa outra, muito maior e influente, que vivemos há décadas. Desde a revolução, o aparelho de Estado decidiu nacionalizar a solidariedade. Alardeando as melhores intenções e menosprezando capacidades e propósitos da assistência comunitária e religiosa, os ministérios quiseram ocupar os sectores sociais. Fazem-no apenas com os nossos impostos que, dada a confrangedora incapacidade fiscal para conseguir justiça tributária, em Portugal são pagos pelos pobres, trabalhadores e classe média. Assim, expropriando a sociedade dos seus recursos, os políticos vêm pressurosos assegurar a promoção da justiça e igualdade. Mas fazem-no invadindo, espoliando e sufocando as múltiplas organizações que a sociedade e a Igreja operam há séculos.
O primeiro alvo foi o maior: as Misericórdias. O liberalismo só se atrevera a roubar a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa em 1851 e a República mal as agredira. Mas o 25 de Abril realizou a maior violência em 500 anos de história, nacionalizando todos os hospitais regionais logo em Dezembro de 1974 e sub-regionais em Novembro de 1975. Este foi o mote para o esforço de ocupação pública, executado de forma subtil, mas não menos sistemática.
Sucessivamente, o Estado cria instituições próprias perto de colégios, clínicas, centros paroquiais e obras sociais, tentando torná-los obsoletos. Nos que não consegue eliminar usa um método mais perverso: oferece apoio. Assim o Estado transforma em impostos e subsídios o que sempre foi solidariedade. Intromete-se entre os beneméritos e as organizações sociais, cobrando a generosidade de uns para a dar a outras. Com esta suposta benevolência estatal vem o controlo burocrático e a arbitrariedade ideológica.
Tudo isto é feito em nome da eficácia e segurança. Os trabalhadores e utentes das instituições acreditam mesmo que o serviço sendo do Estado é mais barato, sofisticado, estável e benéfico que se fosse privado. O mito permanece mesmo perante a evidência esmagadora do bloqueio e insensibilidade dos serviços públicos.
Esta magna tentativa para controlar o sector falhou. As IPSS permanecem a base da nossa acção social e a crise vem agora revelar a vacuidade das próprias garantias públicas. O Estado tem inegável papel neste campo, mas o equilíbrio social exige que ele abandone a arrogância hegemónica que o domina há décadas.


naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 23 de maio de 2010

Pentecostes

Anton Raphael Mengs
Pentecostes c. 1765.
Oleo sobre tela 46 x 25.5 cm.
The Hermitage, St. Petersburg, Russia

sábado, 22 de maio de 2010

O demónio de Evagrius

Público, 20100524 José Pacheco Pereira



Tenho tido uma aguda experiência da devastação que a acédia pode fazer na comissão de inquérito ao chamado "caso TVI"



Acédia. A palavra persegue-me como as palavras perseguem alguém, de forma viral. Já a usei algumas vezes para descrever o mesmo "estado" em que hoje, mais do que nunca, Portugal e os portugueses se encontram. "Acédia" existe no dicionário do Houaiss como "enfraquecimento da vontade", "inércia", "tibieza", "preguiça", como significados primeiros e depois como "melancolia profunda", "abulia espiritual", como significados secundários. A palavra tem uma longa história no pensamento ocidental, incorporando conceitos correntes na "filosofia de vida" greco-latina na tradição cristã, ganhando aí um sentido pejorativo que materializava o pecado mortal da "preguiça".

A acédia era também um demónio. Nenhuma história da "acédia" pode existir sem a descrição clássica desse demónio particular feita por Evagrius de Pontus. Este considerou-o o "mais preocupante de todos", o comandante dos oito géneros de demónios que assaltavam o monge solitário. Na Summa Theologica de Tomás de Aquino "acédia" aparece como o contrário da "alegria espiritual" e, depois dele, ininterruptamente, o conceito, nas suas relações com o "ennui" francês e com o "spleen" (foi para fugir à "cisma" que o nosso Henrique de Souselas foge para casa da tia Doroteia no reino da Morgadinha dos Canaviais), sempre interessou aos "modernos". Thomas Merton escreveu sobre a acédia, Milosz, num ensaio sobre os "sete pecados mortais", também.

Pois vivemos dias de intensa acédia, de "enfraquecimento da vontade", "inércia", "tibieza", "preguiça", de indiferença moral a tudo. E, pior ainda, atacamos com veemência todos os que denunciam a acédia, como se a mera presença de alguém que não aceita a resignação abúlica fosse um maior mal, um irritante impossível de aceitar, uma fonte de mal-estar que precisa de ser extirpado para se poder voltar à normalidade da "abulia espiritual". Tenho tido nos últimos tempos uma aguda experiência da devastação que a acédia pode fazer na mal amada comissão de inquérito ao chamado "caso TVI", à possibilidade de ter havido uma manobra governamental em 2009, em período eleitoral, para controlar órgãos de comunicação social. Escrevo aqui possibilidade, ou hipótese, de forma académica, porque é sabido que poucas ou nenhumas dúvidas tenho sobre o que se passou, mas isso não é essencial para o que quero dizer. Chega-me a mera possibilidade, para já haver um problema.

Tenho tido aí toda a experiência canónica da falsidade, desde a mentira pura e dura até à omissão da verdade e a sugestão de falsidade. Como é óbvio, abundam mais as duas últimas do que a primeira, porque homens prevenidos têm sempre lapsos de memória nos momentos cruciais, acompanhados noutros momentos de uma memória vivíssima, às vezes exercendo-se sobre acontecimentos do mesmo dia, da mesma hora. Devem ser os misteriosos caminhos da memória. Mas nessa experiência de falsidade há também a soberba que vem ou da impunidade, ou do desprezo pelos interlocutores que são tratados como capazes de engolir as mais implausíveis histórias da Carochinha, apenas porque se está a falar de actos sem rastro material, sem actas, sem correspondência, sem testemunho que não seja o dos cúmplices na falsidade. É penoso, muito penoso, mas é um verdadeiro curso intensivo sobre alguma natureza humana, vinda de pessoas que são poderosas e estão habituadas a mandar sem quaisquer limites. Nem da decência, nem da lei.

É uma tarefa muito solitária e sem recompensa. Para a comunicação social é uma espécie de diversão tratada numa sucessão de comentários snobes e derrogatórios por causa dos "incidentes", que é matéria que mais lhes satisfaz relatar. Apetece pegar nos jornalistas pelas orelhas e dizer-lhes: imaginem que no vosso jornal não têm uma redacção, mas cinco, competindo entre si. Que cada redacção tem uma visão diferente do jornal que quer fazer. Que em cada redacção há jornalistas bons e maus, mais competentes ou mais incompetentes, mais ambiciosos ou mais passivos, uns sérios e honestos e outros comprados por interesses, que à porta da redacção e dentro dela há várias agências de comunicação cada uma tentando "colocar" uma notícia para satisfazer um cliente. Que numa reunião geral todos os dias toda a gente se junta para discutir, propor, criticar, de modo a condicionar o jornal que sai no dia seguinte. Não deve ser bonito de se ver, deve ter incidentes, interpelações, discussões que, de repente, sem ninguém o desejar, ou mesmo desejando-o, se afastam do "essencial" e vão para pormenores, intrigas, coisas acessórias, secundárias. E que tudo isto é presenciado por uma outra redacção, noutro jornal, única, cheia de jornalistas que se consideram superiores à turba das cinco redacções, com amigos nessas redacções, simpatias e antipatias, e imaginem que toda aquela confusão tem que ser relatada. Podem ter a certeza que o relato destila superioridade, nojo pela balbúrdia, comiseração, exploração dos incidentes. Podem ter a certeza que, se houver argumentos um pouco mais complicados, matérias que têm que ser seguidas com cuidado, confrontando documentos e versões, coisas que dêem trabalho, anti-soundbites, análises ou apreciações que não vão na onda da maioria, eles não terão nenhum lugar, se houver uma frase divertida ou uma gaffe azarada. É a vida. Não faria mal a todos esses superiores seres experimentar a sua própria medicina.

Mas, se neste incidentalismo há muita "preguiça", há muita mais pura e dura acédia. Também a indignação moral se tornou "incidental", e onde é mais necessária existe apenas "abulia espiritual". Vamos admitir, apenas admitir, que em 2009 ocorreu total ou parcialmente aquilo que a comissão investiga e que, verdadeiro exemplo de acédia, a maioria dos nefelibatas afirma pelos bares ter a certeza que existiu. Justifica-se tanta indiferença? Pode-se dizer que "todos os governos fazem o mesmo", para neste caso nada fazer? Pode-se encolher os ombros e dizer, como se fosse a coisa mais natural do mundo, "toda a gente sabe que ele mentiu", e depois? Não mentem todos? Pode-se dizer que foi uma tentativa que não passou de uma tentativa que acabou por não se concretizar (não é bem verdade...)? Pode-se dizer que isso são águas passadas e que hoje temos tantas coisa importantes para tratar, que isso é uma distração ou uma vendetta? Pode-se de facto dizer muitas coisas destas, mas esta enorme indiferença de jornalistas e, mais do que de jornalistas, de muita da nossa elite, é o terreno privilegiado da acédia, que depois se transmite como uma doença para todo o lado. É como a corrupção, um mal cuja aceitação social tem mecanismos muito semelhantes.

O demónio de Evagrius adormecia os monges, a acédia adormece o carácter cívico da sociedade sem o qual a democracia não sobrevive. Cria poltrões habilidosos em esconder que estão a dormir em vez de ler, porque dá muito trabalho. Cria um país ao qual se pode fazer tudo, desde que não se seja descoberto. Ou melhor, desde que não se seja descoberto de modo muito descarado, porque, se for disfarçado, passa. Passa tudo, passa mesmo tudo.

Historiador

O dia em que Cavaco errou

NUNO SARAIVA

DN2010.05.22

Ao promulgar o diploma que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o Presidente da República desferiu, estou em crer, um rude golpe na confiança de uma parte significativa do eleitorado que, em Janeiro de 2006, o elegeu supremo magistrado da Nação.

Cavaco Silva é, sabemo-lo bem, um conservador nos costumes. Fez questão de o reafirmar na comunicação ao País da passada segunda-feira, Dia Mundial da Luta contra a Homofobia. Aliás, a palavra promulgação surgiu apenas na última frase de um discurso amargo, contrariado e, por isso mesmo, incompreensivelmente contraditório com a decisão por si tomada.

Invocar a crise como pretexto para não vetar politicamente um diploma que contraria todas as suas convicções (inclusive religiosas) não é mais do que um acto de falta de coragem política e calculismo eleitoral. Na verdade, a oito meses das próximas eleições presidenciais, Cavaco tentou a quadratura do círculo: não perder votos na sua base social de apoio e ganhar capacidade de penetração à esquerda, não abrindo brechas que pudessem vir a ser ocupadas por Manuel Alegre. Caso se recandidate, o tiro pode, no entanto, vir a sair-lhe pela culatra. A avaliar pelas reacções que se seguiram às suas palavras, não só não conquistou qualquer apoio à esquerda como fez disparar a desilusão entre os seus apoiantes. O Presidente alienou, assim, as suas convicções para não ser obrigado a promulgar a lei em segundas núpcias.

Cavaco Silva foi, aliás, incoerente com aquela que tem sido a sua práxis presidencial. Foi por convicção que vetou a lei do divórcio. E, novamente por convicção, vetou as alterações ao Estatuto dos Açores. E nem o facto de, à época, haver um Governo maioritário que, nestas matérias, contou com o apoio de outras forças políticas impediu o Presidente de chumbar estes diplomas. Desta vez, lamentou não ter "havido vontade política de alcançar um consenso partidário alargado sobre uma matéria de tão grande melindre". Na verdade, e por mais que discordemos (e para que fique claro sou dos que preferiam a solução defendida por António Arnaut para que, no Código Civil, se equiparasse ao casamento, com os mesmos direitos e deveres, o contrato celebrado por um casal homossexual), houve quatro partidos - PS, BE, PCP e Os Verdes - que tinham nos seus programas eleitorais a defesa do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Isto para não falar das sete abstenções na bancada do PSD. Dizer que este não é um amplo consenso é faltar à verdade.

O que Cavaco devia ter feito, em nome das suas convicções, era vetar o diploma. Foi também para isso que foi eleito. Mas faltou- -lhe a coragem. E escondeu-se atrás do biombo da crise para justificar a sua atitude.

No seu discurso deixou clara a opinião de que esta matéria não é uma prioridade face à gravíssima conjuntura que vivemos. Estamos de acordo, senhor Presidente da República. Sucede porém que, não sendo prioritário, não se compreende a razão por que conferiu a este assunto honras de comunicação ao País.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Desprestigiante

Aura Miguel

RR on-line 21-05-2010 08:56



O Papa bem nos avisou: “Precisamos de verdadeiras testemunhas de Cristo e não de pessoas falsas; sobretudo onde o silêncio da fé é mais amplo e profundo, como por exemplo na política.



Porque em tais âmbitos - disse o Papa em Portugal - não faltam crentes envergonhados que dão as mãos ao secularismo e constroem barreiras à inspiração cristã.” Pois, aqui está uma boa definição de Cavaco Silva.
Que pena, Sr. Presidente. Se o Sr. tivesse assumido a sua posição antes de Bento XVI vir ao nosso país, teria sido mais honesto para com o Papa e para com os portugueses...
Mas não. O Sr. tomou a típica opção que desprestigia a política: encheu-nos de palavreado e lindos discursos de sabor cristão, para afinal fazer o contrário do que insinuou durante os quatro dias que andou com o Papa. Para quê Sr. Presidente? Para ganhar mais votos?
O Sr. sentou-se lá à frente na missa e ouviu certamente o que o Papa disse: ”o acontecimento de Cristo é a força da nossa fé e varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano (...) mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós".
O Presidente da República fez exactamente o contrário disto, dois dias depois de se despedir do Papa.

Discurso do Papa Bento XVI à Assembleia Plenária do Pontifício Conselho para os leigos


discassplconspontleigos2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Quem é Cavaco Silva?

Inez Dentinho
A Geração de 60, 20.05.2010

As palavras de Cavaco Silva na despedida de Bento XVI deixavam adivinhar um Presidente da República corajoso, livre de complexos sobre a laicidade do Estado (sem a comprometer), fiel representante dos anseios da imensa maioria dos portugueses. Teríamos homem? Rapidamente alguém esclareceu: «Então não o conhece? Vamos ver se não está a preparar o caminho para aprovar a leizinha».
Deixemos o conteúdo da lei que permite o Casamento de homosexuais.
Quem é Cavaco?
Um equilibrista que compromete os mandatos que lhe são confiados pensando no percurso que lhe falta percorrer?
Ou um verdadeiro político que destingue as questões de Estado das confissões pessoais?
O que foi a sua vida política? Esteve com o esplendor de Sá Carneiro. Evitou Balsemão na trágica herança. Combateu o Bloco Central (83 - 85) depois da dificuldade das contas, antevendo a prosperidade dos fundos europeus (86).
Teve equilíbrio para acompanhar a onda do novo ciclo, durante dois mandatos. Ultrapassou, com mérito, a derrota nas autárquicas, alcançando uma segunda maioria, no início da década de 90. Pelo caminho, fez a revisão Constitucional (89), que libertou a economia do Estado, e uma reforma fiscal que rendeu frutos. Aproximou o País com alcatrão, fez a expo e recuperou a confiança do mercado interno.
Mas funcionou sempre com a segurança das maiorias (a minoria 85 - 87 foi propedeutica). Sentindo dificuldades na corrida a Belém, traíu o seu braço direito e herdeiro, Fernando Nogueira e, por uma vez, estampou-se com calculado tabu sobre as Presidenciais.
Usou o deserto de dez anos na Academia (95 - 05) para consumo interno: «pontuou» nos artigos sobre o «Monstro» criado por Guterres e sobre a «boa e má moeda» em Novembro de 2004, apunhalando o XVI Governo Constitucional. Pouco depois, com o mesmo cálculo, recusaria o uso da sua fotografia num cartaz das Legislativas do PSD de Fevereiro de 2005 onde surgiam todos os líderes desde a fundação do partido. Cavaco sabia que não seria eleito com um Governo laranja.
Eleito pela Direita, fez um festim de cooperação institucional com Sócrates. Aprovou a Lei do Aborto sem que o Referendo tenha tido uma participação maioritária, como a Constituição impõe. Irritou-se (e bem) com o novo Estatuto dos Açores que lhe pisou os calos e inverteria os poderes do Estado e aprova agora a Lei do Casamento entre pessoas do mesmo sexo, contra todas as razões que soube identificar e que são reais. O veto estava ao seu alcance e ninguém, à esquerda ou à direita, levaria a mal que o usasse. Afinal, foi eleito sem dizer que, consigo, esta lei passaria sem qualquer dificuldade.
Terá uma agenda direitíssima até ao final do mandato apostando na memória curta de quem o elegeu. Mas, para vencer as eleições, basta a qualquer adversário fazer um replay da última intervenção do PR. «Sou muito direito, quando as circunstâncias pessoais o permitem. Contem com o meu cálculo. Comigo, não».

Este Papa e o comum preconceito

Henrique Monteiro (www.expresso.pt)

Quinta-feira, 20 de Maio de 2010

 

Para ser honesto devo dizer que entre o país dito culto(ou as redacções dos jornais) e o país real que o Papa nos revela há um abismo enorme. Esse abismo chama-se moda... e é fundado num preconceito.

Na passada quarta-feira, no meio de 1500 pessoas, tive oportunidade de ouvir Bento XVI no CCB. Ouvindo-o, verifiquei a enorme coerência entre o que disse e o que escreveu no passado. Todos concordaram que foi um bom discurso, aberto, moderno, tolerante. Mas se assim é, por que estranha razão, a cada passo, se ouve dizer que este Papa é um reaccionário temível?

O que Bento XVI quis dizer aos convidados do CCB, entre eles muitos pertencentes a outras confissões ou não professando nenhuma, foi simples: que cada um deve fazer da sua vida um lugar de beleza e que a Igreja está sempre a aprender a conviver e a respeitar os outros; "outras verdades, ou as verdades dos outros". A mensagem foi de uma profunda tolerância e de esperança que a "Verdade" possa iluminar cada ser humano. Quem se sente ameaçado por palavras assim?

Já no avião, Bento XVI desarmara a polémica da pedofilia ao afirmar que a perseguição à Igreja não nasce dos seus inimigos, mas do seu interior. A frase, que parecerá revolucionária a quem nada leu sobre Cristo - a começar pela Bíblia - está, no entanto, em perfeita linha com a melhor tradição da Igreja. Em Fátima, o Papa defendeu - e bem - a liberdade de culto.

E assim, Bento XVI, sem alterar um milímetro o que era, surge-nos infinitamente melhor do que aquilo que dele dizem.

E aqui se revela o preconceito. Não o estafado preconceito que é arma de arremesso de todos os pós-modernos quando em causa está uma hierarquia de valores; mas o preconceito daqueles que, dizendo-se despreconceituosos, não resistem a um teste simples: fazer a crítica coerente ao que o Papa diz - e não a um conjunto de ideias pré-formatadas que ele jamais defendeu e que a Igreja há muito não defende.

A luta central de Bento XVI é contra a desregulação do ethos, da ética - a mesma desregulação que elevou a ganância e a especulação a deuses de pés de barro que se estatelaram no primeiro abanão. É uma luta árdua contra a desvalorização da vida, da família, do esforço honesto e da esperança que pode e deve envolver não apenas os católicos. No CCB, também os líderes de outras confissões saudaram as palavras do Papa.

É difícil ir contra aquilo que se convenciona, em determinado momento, ser moda: o chocante, o grotesco, a desconstrução, a ganância, o egotismo. E, uma vez que a Igreja Católica continua a aprendizagem da convivência, mais do que possível é desejável o caminho comum.

PS: Sobre o brutal aumento de impostos, e mantendo o espírito, só digo: Perdoai-lhe, Senhor, assim como nós perdoamos.

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2010

 

O avanço civilizacional para nenhures

Público, 2010000520 Helena Matos

Os homossexuais ganharam um diploma que não resolve nada e que põe em causa a sua capacidade parental


Não era para ter sido assim. Em primeiro lugar a ficção do choque tecnológico e dos grandes investimentos públicos ainda devia estar de pé e o diploma a permitir o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo seria uma espécie de terceiro pilar desse novo país: o pilar da alteração dos costumes. Por decreto e provavelmente contra a vontade do povo, mas isso não interessa, que o povo está cá é para pagar impostos. Em segundo lugar, o Presidente da República devia ter chumbado o diploma, o que logo soltaria muito convenientemente o fantasma do reaccionarismo e a hidra do preconceito. Mas não foi nada disso que aconteceu: quando o Presidente da República anunciou ao país que promulgava o diploma que permitirá o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, Portugal tinha passado a ocupar o 7.º lugar no top mundial de países em risco de bancarrota, sabia-se que o Governo ignorara os dados da DGCI sobre a colecta de impostos de 2009 e o Parlamento assumia-se como um lugar estranho cujas comissões recusam analisar o comportamento de um deputado que na biblioteca daquele mesmo Parlamento se apropriou dos gravadores de uns jornalistas que o entrevistavam e onde boa parte dos deputados tentam tudo por tudo para que não seja conhecido o conteúdo das conversas telefónicas mantidas pelo primeiro-ministro a propósito do negócio PT/TVI.
Menos de doze horas após ter sido aprovado, o avanço civilizacional já não era notícia. A única polémica que se mantinha era a das intenções de Cavaco Silva ao promulgar o diploma, sendo que os defensores do diploma enquanto avanço civilizacional se mostravam particularmente indignados com o Presidente. E têm razão para isso: em primeiro lugar porque Cavaco não se devia ter furtado a ser o bombo da indignação dos promotores do avanço civilizacional devendo para tal ter vetado o diploma e sobretudo, mas isso não o confessam, porque este diploma é um presente envenenado para os homossexuais e para o país. Aliás, se este diploma tivesse saído das mãos de um governo que não fosse do PS, acolitado para o efeito pelo BE (o PCP procura passar discreto nesta matéria porque o seu eleitorado é provavelmente o mais crítico a esta lei), ou seja, um governo que tem sob a sua alçada aquelas associações das causas fracturantes e das causas "assim assim", haveria vigílias todos os dias, os artistas organizariam performances indignadas e até aquele barquinho que por cá apareceu no tempo do Governo de Durão Barroso sulcaria novamente as nossas águas agora engalado enquanto barco do amor para promover a bordo adopções por casais homossexuais. Como quem está no Governo é o PS, os homossexuais, a quem as respectivas associações reservaram o papel de folclóricos úteis na ficção do país progressista, ganharam um diploma que não resolve nada que a anterior legislação não acautelasse e que, para cúmulo, põe em causa a sua capacidade parental.
Quanto ao eleitorado de Cavaco Silva, esse deve ter suspirado de alívio com esta decisão presidencial pela prosaica razão de que fica embaraçado quando o chamam reaccionário. Embora saiba que seguidamente vai vir a questão da adopção pelos homossexuais homens e que a qualquer momento vai surgir o problema do registo dos filhos das lésbicas, o povo e não unicamente o do cavaquistão, gosta e precisa de acreditar que durante uns tempos vai ter umas breves tréguas dessas ondas de exaltação que, sob a forma de causas fracturantes, lhes varrem a vida e sobre as quais está implícito que apenas diga apoiado. Caso contrário, ou seja, quando o povo não cumpre o seu papel histórico de bater palminhas, as elites iluminadas resolvem a questão mesmo que para tal a AR tenha de ignorar as mais de noventa mil assinaturas que pediam um referendo sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
O casamento entre os homossexuais desempenhou em 2010 o papel que há cem anos se reservou à perseguição aos jesuítas (por ironia, acusados pelos jacobinos da época de inúmeros "vícios" sexuais!) ou seja, acalentou-se a ficção de um país sempre em progresso, dividido entre os progressistas bons e os reaccionários maus. E onde o Governo e a Presidência da República só têm legitimidade e até impunidade se forem ocupados pelos que se dizem progressistas e que, à falta de governar, mantêm o país no constante frenesi do avanço civilizacional e consequente combate ao reaccionarismo. Esta girândola, qual carrossel enlouquecido, só se detém quando abruptamente a realidade se impõe e, olhando à volta, se percebe que só sobra a desolação de estarmos em nenhures. Foi isso que aconteceu esta segunda-feira.Ensaísta

Convirá explicar que Bruna Real, tratada muito familiar e grosseiramente por Bruna por parte da nossa imprensa, nomeadamente pelo PÚBLICO, não é professora mas sim monitora. O que, no caso do seu afastamento das aulas, faz toda a diferença. Ou seja, após ter conhecimento das fotografias daPlayboy, o munícipio de Mirandela que contratou Bruna Real para acompanhar as crianças durante as actividades extracurriculares entendeu colocá-la noutro serviço, ou seja, o arquivo. Acontece que se Bruna Real tivesse sido colocada ao abrigo dos habituais concursos de professores, não poderia de facto ter sido afastada. Como a visada bem explicou, "até os pedófilos continuam a dar aulas". Pois continuam e são inamovíveis, pois foram colocados ao abrigo dos concursos para professores.
O que os equívocos deste caso provam é que as escolas têm de poder escolher quem nelas trabalha e os pais têm de poder escolher as escolas públicas e privadas em que colocam os filhos e nessa escolha entra naturalmente o perfil de quem lá trabalha: provavelmente haveria famílias que não se incomodariam com casos de participações em produções fotográficas mais ou menos idênticas ao que se vê numa telenovela. Mais difícil seria encontrar alguém disposto a deixar os seus filhos entregues aos cuidados de acusados de pedofilia.

Inimigos dentro

 DESTAK |19 | 05 | 2010   20.35H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Da visita do Papa a imprensa nacional e internacional reteve uma coisa, a afirmação no avião: «a maior perseguição da Igreja não vem dos inimigos de fora, mas nasce do pecado da Igreja.»
Como os jornalistas agora só pensam em pedofilia, interpretaram as palavras como referência ao problema, a que gostam de chamar «crise profunda». Certamente isso está incluído, mas nos lábios de quem foi quase 24 anos prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a frase é muito mais vasta.
Aliás, a visita mostrou-o bem. Enquanto os ateus e não-cristãos portugueses foram em geral respeitadores, as críticas, algumas violentas, vieram quase só de quem se diz católico. Entrevistado em Fátima, o candidato presidencial Fernando Nobre classificou--se de forma original como «católico de pensamento livre». Não é evidente o que queira dizer, mas deve significar que acredita mas faz o que lhe apetece.
Muitos só invocam a condição de crentes para criticar a doutrina, reduzindo a Igreja às questões do celibato dos padres, ordenação de mulheres, divórcio, aborto, contracepção, etc. Bento XVI, no discurso aos bispos de dia 13, falou de «crentes envergonhados que dão as mãos ao secularismo, construtor de barreiras à inspiração cristã». Não sabem o que é o Espírito Santo e só receberam o baptismo de João (cf. Act 19, 1-3).
Ao fim de 2000 anos, que começaram com a traição de Judas e a negação de Pedro, estas coisas não são propriamente novidade. O Papa disse-o no avião: «Isto foi sempre conhecido, mas hoje vemo-lo de modo realmente aterrador.»

quarta-feira, 19 de maio de 2010

CATEQUESE DE 4ª FEIRA 19 MAIO: FÁTIMA, LUGAR PRIVILEGIADO DA MISERICÓRDIA DE DEUS

ZP10051907 - 19-05-2010
Permalink: http://www.zenit.org/article-24948?l=portuguese


Catequese do Papa: Fátima, lugar privilegiado da misericórdia de Deus

Intervenção na audiência geral de hoje

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 19 de maio de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos mais de 13 mil peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Praça de São Pedro para a audiência geral.

***

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje, desejo percorrer junto convosco as diversas etapas da viagem apostólica que realizei nestes dias a Portugal, movido especialmente por um sentimento de reconhecimento a Nossa Senhora, que em Fátima transmitiu aos seus videntes e aos peregrinos um intenso amor pelo Sucessor de Pedro. Dou graças a Deus, que me deu a possibilidade de prestar homenagem a esse povo, à sua longa e gloriosa história de fé e de testemunho cristão. Portanto, como eu vos havia pedido que acompanhásseis esta minha visita pastoral com a oração, agora vos peço que vos unais a mim ao agradecer a Deus pelo seu feliz desenvolvimento e conclusão. A Ele confio os frutos que trouxe e trará à comunidade eclesial portuguesa e a toda a população. Renovo a expressão do meu vivo reconhecimento ao presidente da República, Sr. Anibal Cavaco Silva, e às demais autoridades do Estado, que me acolheram com tanta cortesia e prepararam cada elemento para que tudo pudesse acontecer da melhor maneira possível. Com intenso afeto, recordo os irmãos bispos das dioceses portuguesas, a quem tive a alegria de abraçar em sua terra, e lhes agradeço fraternalmente por tudo o que fizeram pela preparação espiritual e organizativa da minha visita, além do notável empenho dedicado à sua realização. Dirijo um pensamento particular ao patriarca de Lisboa, cardeal José da Cruz Policarpo, ao bispo de Leiria-Fátima, Dom Antonio Augusto dos Santos Marto, do Porto, Dom Manuel Macario do Nascimento Clemente, e aos seus respectivos colaboradores, como também aos diversos organismos da conferência episcopal guiada por Dom Jorge Ortiga.

Ao longo de toda a viagem, realizada por ocasião do décimo aniversário da beatificação dos pastorinhos Jacinta e Francisco, senti-me apoiando espiritualmente por meu amado antecessor, o venerável João Paulo II, que esteve por três vezes em Fátima, agradecendo esta "mão invisível" que o livrou da morte no atentado de 13 de maio, aqui nesta Praça de São Pedro. Na tarde de minha chegada, celebrei a Santa Missa em Lisboa, no encantador cenário do Terreiro do Paço, que se eleva sobre o rio Tejo. Foi uma assembleia litúrgica de festa e de esperança, animada pela alegre participação de numerosos fiéis. Na capital, de onde partiram, no decorrer dos séculos, tantos missionários para levar o Evangelho a muitos continentes, encorajei os diversos integrantes da Igreja local a uma ação evangelizadora vigorosa nos diversos âmbitos da sociedade, para serem semeadores de esperança em um mundo marcado pela desconfiança. Particularmente, exortei os crentes a se tornarem anunciadores da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, centro e fundamento de nossa fé e razão de nossa felicidade. Pude manifestar estes sentimentos, também, durante o encontro com os representantes do mundo da cultura, celebrado no Centro Cultural de Belém. Nesta ocasião, dei ênfase ao patrimônio de valores com os quais o cristianismo enriqueceu a cultura, a arte e a tradição do povo português. Nesta nobre terra, como em todos demais países marcados profundamente pelo cristianismo, é possível construir um futuro de compreensão fraternal e de colaboração com as demais instâncias culturais, abrindo-se reciprocamente para um diálogo sincero e respeitoso.

Dirigi-me, depois, para Fátima, pequena cidade caracterizada por uma atmosfera de misticismo autêntico, na qual se nota de maneira quase palpável a presença de Nossa Senhora. Eu me fiz peregrino com os peregrinos naquele santuário admirável, coração espiritual de Portugal e meta de uma multidão procedente dos lugares mais diversos da Terra. Após ter permanecido recolhido em oração e emocionado na Capelinha das Aparições, em Cova da Iria, apresentando ao Coração da Virgem Santa as alegrias e as esperanças, além dos problemas e os sofrimentos do mundo inteiro, na Igreja da Santíssima Trindade tive a alegria de presidir a celebração das Vésperas da Devota Virgem Maria. Dentro deste templo grande e moderno, manifestei meu vivo apreço aos sacerdotes, aos religiosos, às religiosas, aos diáconos e aos seminaristas vindos de todas as partes de Portugal, agradecendo-lhes por seu testemunho silencioso, nem sempre fácil, e por sua fidelidade ao Evangelho e à Igreja. Neste Ano Sacerdotal que chega ao fim, encorajei os sacerdotes a darem prioridade à escuta da Palavra de Deus, ao conhecimento íntimo de Cristo, à intensa celebração da Eucaristia, tomando o exemplo luminoso do Cura d'Ars. Não deixei de confiar e consagrar ao Imaculado Coração de Maria, verdadeiro modelo de discípula do Senhor, os sacerdotes do mundo inteiro.

À noite, com milhares de pessoas que compareceram à grande esplanada do santuário, participei da sugestiva procissão das velas. Foi uma estupenda manifestação de fé em Deus e de devoção à sua Mãe, expressadas com a oração do Santo Rosário. Esta oração, tão querida pelo povo cristão, encontrou em Fátima um centro propulsor para toda a Igreja e o mundo. A "Branca Senhora", na aparição de 13 de junho, disse aos Pastorinhos: "Quero que rezem o terço diariamente". Poderíamos dizer que Fátima e o Rosário são quase um sinônimo.

Minha visita a este lugar tão especial teve seu auge no Celebração Eucarística de 13 de maio, aniversário da primeira aparição da Virgem a Francisco, Jacinta e Lúcia. Lembrando as palavras do profeta Isaías, convidei aquela imensa assembléia, recolhida aos pés da Virgem, com grande amor e devoção, a alegrar-se plenamente no Senhor, pois o seu amor misericordioso é a nascente da nossa esperança. E é precisamente de esperança que está profundamente impregnada a mensagem - exigente e ao mesmo tempo consoladora - que Nossa Senhora deixou em Fátima. É uma mensagem centrada na oração, na penitência e na conversão, que se projeta para além das ameaças, dos perigos e dos horrores da história , para convidar o homem a ter confiança na ação de Deus, a cultivar a grande esperança, a fazer a experiência da graça do Senhor para se enamorar dele, fonte de amor e de paz.

Nesta perspectiva, foi significativo o apaixonante encontro com as organizações da pastoral social, para as quais indiquei o estilo do bom samaritano para ir ao encontro das necessidades dos irmãos mais necessitados e servir a Cristo, promovendo o bem comum. Muitos jovens aprendem a importância da gratidão justamente em Fátima, que é uma escola de fé e de esperança, porque é, também, escola de caridade e de serviço aos irmãos. Neste contexto de fé e de oração, celebrou-se o importante e fraternal encontro com o episcopado português, como conclusão de minha visita a Fátima: foi um momento de intensa comunhão espiritual, no qual demos juntos graças ao Senhor pela fidelidade da Igreja que está em Portugal e confiamos à Virgem as esperanças e preocupações pastorais comuns. Também mencionei estas esperanças e perspectivas pastorais ao longo da Santa Missa, celebrada na histórica e simbólica cidade do Porto, a "Cidade da Virgem", última etapa de minha peregrinação a esta terra lusitana. À grande multidão de fiéis reunida na Avenida dos Aliados recordei o compromisso de testemunhar o Evangelho em todo lugar, oferecendo ao mundo o Cristo ressuscitado, para que cada situação de dificuldade, de sofrimento, de medo se transforme, por meio do Espírito Santo, em ocasião de crescimento e de vida.

Queridos irmãos e irmãs, a peregrinação a Portugal foi para mim uma experiência comovente e repleta de muitos dons espirituais. Enquanto permanecem fixas em minha mente e em meu coração as imagens desta viagem inesquecível, o acolhimento caloroso e espontâneo, o entusiasmo das pessoas, louvo o Senhor porque Maria, aparecendo aos três pastorinhos, abriu no mundo um espaço privilegiado para encontrar a misericórdia divina que cura e salva. Em Fátima, a Virgem Santa convida todos a considerarem a terra como lugar da nossa peregrinação rumo à pátria definitiva, que é o céu. Na realidade, todos somos peregrinos, temos necessidade da Mãe que nos guia. "Contigo caminhamos na esperança. Sabedoria e Missão" era o lema da minha viagem apostólica a Portugal e, em Fátima, a bem-aventurada Virgem Maria convida-nos a caminhar com grande esperança, deixando-nos guiar pela "sapiência do alto", que se manifestou em Jesus, a sabedoria do amor, para levar ao mundo a luz e a alegria de Cristo. Portanto, eu vos convido a vos unirdes à minha oração, pedindo ao Senhor que abençoe os esforços daqueles que, nessa amada nação, se dedicam ao serviço do Evangelho e à busca do verdadeiro bem do homem, de cada homem. Oremos também para que, por intercessão de Maria Santíssima, o Espírito Santo faça frutificar esta viagem apostólica e encoraje em todo o mundo a missão da Igreja, instituída por Cristo para anunciar a todos os povos o Evangelho da verdade, da paz e do amor.



[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:
Gostaria de compartilhar convosco um pouco da minha recente viagem apostólica a Portugal, por ocasião do 10º aniversário da beatificação dos pastorinhos Jacinta e Francisco. A visita teve início em Lisboa; durante a Santa Missa, falei da necessidade dos cristãos serem semeadores da esperança. Seguindo para Fátima, peregrino com os peregrinos, lá apresentei ao Imaculado Coração Maria as alegrias e esperanças, os problemas e sofrimentos do mundo inteiro. No do dia 13, aniversário da primeira Aparição de Nossa Senhora, durante a Celebração da Eucaristia lembrei na homilia que as aparições nos falam de uma mensagem exigente e consoladora, centrada na oração, na penitência e na conversão, que nos leva a superar as dificuldades da história, convidando a humanidade a cultivar a grande esperança. E a viagem concluiu-se na histórica cidade do Porto, com a Celebração Eucarística, insistindo no compromisso para a missão. E de lá me despedi de Portugal, manifestando o desejo de que a minha visita se tornasse incentivo para um renovado impulso espiritual e apostólico.

Amados peregrinos vindos do Brasil e demais países de língua portuguesa, que a intercessão de Nossa Senhora de Fátima, que em vossos países é venerada com tanta confiança e firme amor, possa ajudar-vos a viver com mais empenho a vossa vocação de testemunhas do Evangelho da verdade, da paz e do amor. Sirva-vos de conforto a minha bênção.

[Tradução: Cláudio Luis Campos Mendes.

©Libreria Editrice Vaticana]