sexta-feira, 30 de abril de 2010

Despertar do comodismo

Aura Miguel

RR on-line 30-04-2010 08:42



Não é sempre que o Papa Bento XVI dedica quatro dias a um só país da Europa. Portugal é, por isso, privilegiado.



Mais: o programa destes quatro dias é bastante variado, porque pretende ir ao encontro das realidades da Igreja portuguesa. Isto é, Bento XVI é como um pai, que vem ao nosso encontro. E nós? Vamos ao encontro dele?

Porque é que eu estou a falar nisto? É que noutros contextos – como, por exemplo, aconteceu em Angola – só o facto de o Papa sair de sua casa em Roma para ir ao encontro dos fiéis africanos, só isso, foi motivo de festa, com toda a gente na rua para acolher o Sucessor de Pedro.

Será que temos esta consciência em Portugal?

Já ouvi bons católicos dizerem que preferem seguir tudo pela televisão. E até mesmo religiosas, que não vão pôr os pés em Fátima nesses dias (apesar de o Papa ter agendado um encontro específico com os consagrados). Não gostam de confusão – dizem, como desculpa.

Este é o típico retrato da velha Europa: acomodada, rotineira e cansada da fé.
Espero que os portugueses despertem deste comodismo e permitam que Bento XVI se sinta aqui como em sua casa, sob pena de a nossa herança secular de amor e fidelidade ao Papa ficar definitivamente arrumada no passado, apenas reduzida aos livros de história.


Hino da visita do Papa - Padre Cartageno


Passeio de bicicleta "Alegria da Certeza" - 9 de Maio - 15:00

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Coisa tramada a memória

Helena Matos

Público, 2010.04.30

Quando José Pedro Aguiar Branco afirmou na Assembleia da República "O moralismo ideológico cega-nos e faz-nos esquecer o óbvio" e perguntou porque não haveria de gostar de Zeca Afonso a parte que se senta à direita do hemiciclo estava a recuperar uma pergunta com 35 anos. De facto há 35 anos, mais precisamente em Abril e Maio de 1975, discutia-se se o PPD podia ou não cantar a Grândola. O autor da canção, Zeca Afonso, achava que não e escreveu-o claramente num texto que enviou para as redacções. Aí indignava-se com o que definia com o "abuso ou despudor" da canção "Grândola, Vila Morena" ter sido cantada num comício promovido a 11 de Maio desse ano pelo PPD, partido que diz ter como dirigentes "defensores da censura fascista e continuadores da ordem colonial". Gera-se em seguida uma polémica em que esta apropriação da "Grândola, Vila Morena" por parte do PPD é definida a dado momento como uma situação ridícula à qual era urgente colocar um fim. O fim não se sabe como chegaria porque meses depois a Revolução acabou como começou: ou seja não se percebeu exactamente como nem quando.

O PCP assegurou tranquilamente por via constitucional e pelo controlo da administração pública o que nem sequer era certo que conseguisse por via revolucionária, a extrema-esquerda foi devidamente neutralizada e a "Grândola, Vila Morena" foi-se ouvindo cada vez menos. A não ser naqueles espectáculos-rituais em que os outrora jovens cantores da intervenção, agora cada vez mais velhos, dão os braços e se embalam, cantando-a, como quem regressa a um tempo que já não é o seu e que, embora nunca o afirmem, parecem aliviados por ter terminado.

Curiosamente a questão de quem pode cantar, em Portugal, "Grândola, Vila Morena" voltou a colocar-se nas últimas presidenciais mais precisamente quando ela foi cantada em Grândola pelos apoiantes do então candidato Cavaco Silva. As reacções não se fizeram esperar e como que nos devolviam a um PREC embora em versão verbalmente light: "O séquito de Cavaco Silva deve ter feito figas atrás das costas enquanto cantava o "Grândola, Vila Morena", ontem numa sessão de propaganda eleitoral naquela cidade alentejana. Para muitos deles, a começar pelo candidato, deve ter sido a primeira vez na vida. Ainda os veremos a cantar a Internacional, no Barreiro. Não haverá limites para o oportunismo eleitoral?" – perguntava Vital Moreira no blog Causa Nossa. Parafraseando Aguiar Branco "O moralismo ideológico cega-nos e faz-nos esquecer o óbvio". Mas para lá do óbvio mais imediato que passa por, como respondeu a Zeca Afonso uma leitora do "Diário Popular" em Maio de 1975, o povo ter o direito de cantar o que quer sem ter de pedir autorização quiçá por escrito a quem, por ironia, tanto falava em seu nome, resta-nos um outro óbvio ou, melhor dizendo, o tremendo equívoco em que baseia a nossa democracia. Equívoco esse que se quisermos puxar um pouco mais pela memória nos leva não ao PREC mas sim à I República e ao seu célebre: o País é para todos, mas o Estado é dos republicanos. Esta concepção do Estado enquanto coisa nossa por parte dos partidos torna o Portugal de 2010 muito mais próximo dos vícios I República do que dos abusos do PREC. A memória não nos faz melhores e nem sei se nos fará decidir melhor. Mas é de facto uma coisa tramada.

"Não se preocupe!"

DESTAK | 28 | 04 | 2010   20.50H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
A mais recente vítima dos mercados financeiros está a ser a Grécia. Desta vez, como nas telenovelas, somos informados dos próximos capítulos: os especialistas asseguram que Portugal vem a seguir.
O paralelismo entre a situação das duas economias é objectivamente falso. O nosso país, por muito desequilibrado e, sobretudo, desanimado que ande, está longe do «buraco» grego e, sobretudo, do descontrolo a que chegou aquele orçamento. Mas as seme-lhanças são inegáveis.
A Grécia tem uma longa história de endividamento, manipulação das contas e, pior de tudo, alto grau de contestação, corrupção e bloqueio social. O problema grego assusta mesmo. Portugal tem um nível inferior, mas crescente, do primeiro elemento e, tremendismos à parte, muito menos dos outros. Mas isso chega para merecer o acompanhamento dos credores.
Acima de tudo, um aspecto justifica plenamente o nervosismo dos mercados: o estado de negação do Governo. As declarações dos nossos responsáveis são todas no sentido de desdramatizar. Mas se quem tem de tomar medidas se recusa a ver a questão, isso assusta mesmo. A pior coisa para um credor desconfiado é tentarem convencê-lo de que não há problema. O que seria razoável era admitir a gravidade e mostrar empenho em corrigi-la, como a Irlanda fez. O resto é irresponsabilidade.
O melhor paralelo que conheço está nas conversas com a minha filha adolescente sobre os estudos. Quando lhe faço algum aviso a resposta invariável é: «Oh pai, não se preocupe!». Já lhe expliquei que, quando me diz isso, é que fico mesmo preocupado...

O País é de todos, o Estado é dos Republicanos - Histórias da 1.ª República

Exposição a não perder no átrio principal da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Não vás trabalhar, Tóino. Deita-te ao sol.

Público, 2010-04-29 Helena Matos

O poder irrita-se com este povo, que perante tão graves factos estende a toalha. O que esperavam que os portugueses fizessem?


Segundo a RTP, "uma das consequências da greve [dos transportes públicos] parece ter sido também uma inusitada procura das praias. O calor incentivou e entre ficar em casa ou perder horas em filas de trânsito muitos portugueses preferiram o sol e o mar". E porque haverá a RTP de considerar inusitada esta procura das praias? Não estávamos ainda há tão pouco tempo no melhor dos mundos? Só os tremendistas, os lamurientos, os bota-abaixistas e os retrógrados não percebiam que caminhávamos para um país moderno, alavancado por um Estado que empregaria cada vez mais jovens, criaria cada vez mais empresas de capitais públicos e investiria em grandes obras públicas. Enfim, do computador Magalhães ao "direito ao TGV" ou do novo aeroporto aos projectos PIN, era tudo "um progresso absolutamente extraordinário", para usar as palavras proferidas há um ano pelo primeiro-ministro.

O que separa a circunstância em que essa frase foi proferida da realidade é o melhor retrato da nossa crise: em 2009 o primeiro-ministro considerou "um progresso absolutamente extraordinário" os efeitos do Estatuto do Aluno, aprovado pelo seu Governo, na diminuição do número de faltas. Um ano depois constata-se que as faltas não só não diminuíram, como provavelmente terão até aumentado em consequência desse estatuto. Pelo caminho as escolas que ousaram contrariar as estatísticas oficiais do Ministério da Educação - as tais do progresso extraordinário - foram brindadas com inspecções.

E se da educação passarmos para a justiça, para os números da segurança, do endividamento, da despesa... encontramos sempre esta constatação à posteriori do falhanço daquilo que em sucessivos momentos foi apresentado como "um progresso absolutamente extraordinário" e cuja desmontagem já não se faz porque esse "progresso absolutamente extraordinário" que agora se sabe ter sido um fiasco já foi substituído por outro "progresso absolutamente extraordinário" que dentro em pouco será desmentido pela realidade e assim sucessivamente.

Se nós não tivéssemos praia, talvez tudo isto nos gerasse uma forte indignação. Mas nós temos praia e por isso fomos para a praia. Dirão que as tabernas do passado, os cafés do presente, os centros comerciais e a televisão desempenham também esse papel. Não é verdade. Tudo isso são espaços de entretenimento. A praia não entretém. Na praia põe-se o contador a zeros. Se nos tirassem a praia, talvez nos indignássemos a sério. Ou, quem sabe, metêssemos mãos à obra como os alemães. Mas nós temos praia e é lá que o poder nos encontra quando as circunstâncias o obrigam a procurar-nos, geralmente para nos dizer que o "progresso absolutamente extraordinário" não só não se confirma, como se traduziu no seu contrário. Foi assim no início dos anos 70, quando aquelas multidões à espera da camioneta para a Costa da Caparica durante os feriados de Junho pareciam pouco compatíveis no seu frenesi festivo com a solenidade do Dia de Portugal e sobretudo com as condecorações às famílias dos militares mortos no Ultramar. Voltou a ser assim no PREC, quando o povo preferiu o mar à maré revolucionária e é agora assim, em 2010, quando o Governo finalmente admite a grave crise económica do país.

Nesses momentos o poder geralmente irrita-se com a futilidade deste povo que perante tão graves factos se limita a estender a toalha ao sol e a cobrir-se com protector solar. Cabe perguntar: o que esperavam que os portugueses fizessem?

Por exemplo, esta semana, quando Lisboa ficou caótica por causa da greve dos transportes públicos, deveríamos ter feito o quê? Manifestarmo-nos dizendo que estamos dispostos a pagar mais impostos para que os trabalhadores do Metro e da CP, que, por interposto Estado, são funcionários do todos nós, não vejam os seus vencimentos congelados? Que estamos apostadíssimos em continuar a financiar as empresas públicas de transportes que há anos nos dizem que são nossas e cuja futura privatização os trabalhadores contestaram nesta greve?

Também podíamos ter ido para uma estação ler o relatório do Tribunal de Contas que dá conta da "falência técnica" do Metro e da forma, essa sim inusitada, como é administrada aquela empresa. Por exemplo, determo-nos naqueles linhas que descrevem como fortemente desajustados da realidade os dados que servem de base à repartição da receita dos passes intermodais e combinados e tentarmos perceber como é possível que ninguém faça nada para alterar tanto prejuízo.

E, claro, podíamos fugir deste forte desajustamento entre a realidade anunciada do "progresso absolutamente extraordinário" e a realidade vivida do falhanço no único local onde essa diferença que é o nosso abismo se anula: a praia. Aquela linha onde o mar sussurra: Deita-te ao sol, Tóino. Que a praia é o que se leva desta vida vivida num país que fez da mentira o seu fado.
Ensaísta

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Lenine, segundo Aguiar-Branco

DN 2010.04.28 BAPTISTA-BASTOS

O preconceito é a forma mais agressiva de violência e a manifestação mais abstrusa de tolice. A diferença suscita a desconfiança, já se sabe; e o culto da brutalidade nasce dessa espécie de insegurança em si mesmo, própria de quem, afinal, se julga ou se deseja excluído. O preconceito provoca, em todos os sectores, não só o sentimento profundo de incapacidade de saber, como a quebra irreparável dos laços sociais.

Na sessão comemorativa do 25 de Abril, Assembleia da República, o dr. Aguiar-Branco criticou essa figura de intolerância e, sem renunciar às suas convicções (como a seguir se viu), citou Lenine, Rosa Luxemburgo, José Afonso e Sérgio Godinho, mas, também, António Sardinha, corifeu do Integralismo Lusitano. Acontece que, criticando o preconceito, o discurso do dr. Aguiar-Branco criticava a perda de referências culturais que, à Esquerda ou à Direita, goste-se ou não, pertencem ao bragal comum da nossa civilização.

Se compreendo o embaraço das bancadas do PSD e do CDS, tenho dificuldade em entender os risos absurdos do PCP e do Bloco. Ambas as demonstrações conduzem ao mesmo fim. A função simbólica do poder, cuja identificação se revela nas fórmulas paradoxais de eliminar autores ou de os integrar, consoante a "família" política ou estética a que pertencem, divide um património que é de todos. Esse preconceito conduz à queima de livros e à perseguição de escritores e filósofos, de que a História está repleta.

Por que razão Aguiar-Branco não pode citar quem quer que queira, sem suscitar o riso tolo ou o espanto ignaro? Os resquícios de um passado tenebroso emergiram nos comportamentos dos deputados. Sou do tempo em que a Censura suprimia dos textos de jornais e revistas os nomes de Karl Marx, de Engels, de Lenine, de Estaline, e que, nas faculdades, o marxismo era praticamente ignorado. Obrigava-se os portugueses a renunciar ao pensamento, ao cultivo da razão, à adopção do desconhecimento como condição e prática. Servíamo-nos de truques grotescos: Karl Marx era Carlos Marques; Lenine, Vladimir Ilitch.

As proibições, as omissões e as rasuras fazem, infelizmente, parte de uma concepção despótica do mundo, longe de estar extinta. Mas a luta dos valores humanos e culturais é a charneira paradigmática da aventura da liberdade, e prova que, amiúde, aqueles aparentemente "progressistas" são, na realidade, os mais reaccionários.


Pedofilia, Igreja e Clarificação

Diário de Trás-os-Montes, Abril de 2010
Ana Soares (anamfmsoares@gmail.com)
A pedofilia, seja praticada por quem for, onde for e quando for, merece o mais veemente repúdio. Se qualquer crime deve ser punido quer judicial quer socialmente, este deve sê-lo com especial incidência por estar em causa uma criança ferida na sua dignidade humana, no direito à sua inocência e meninice.

Obviamente defendo que os Padres, como qualquer outra pessoa, que pratiquem um crime devem ser julgados e punidos e que esses casos minoritários não devem ser escondidos. Aliás, tem sido essa a atitude da Igreja que não só tem dado a conhecer casos de pedofilia que aconteceram no seu seio, como claras têm sido as declarações de condenação e censura destes comportamentos. Veja-se as declarações de hoje do Reverendíssimo Bispo da nossa Diocese, D. António Moreira Montes, que refere que “É uma proporção muito limitada, mas em termos eclesiais um caso que aconteça é um caso a mais e de facto há casos a mais». A Igreja é feita de homens e cabe a cada um de nós decidir o que fazer com a liberdade que nos é dada. O que não é justo e que muito menos corresponde à verdade, é pretender fazer de casos pontuais casos gerais; é retirar da esfera da liberdade individual qualquer atitude e tentar com ela rotular a Igreja que, como sabemos, é quem mais apoia as vítimas deste e de outros crimes em todo o mundo. Porque claramente maioritária é a percentagem de Sacerdotes que se entrega de alma e coração à comunidade.

Lamentável é o espectáculo mediático que se tem criado em volta dos casos pontuais de pedofilia na Igreja Católica. Quem analise as inúmeras noticias que os órgãos de comunicação social têm veiculado, facilmente percebe que a Igreja é o centro das críticas, numa campanha de difamação que além de não respeitar a verdade dos factos desrespeita também as verdadeiras vítimas de violação e todos quantos somos impregnados de notícias cozinhadas.

O Santo Papa tem sido o alvo preferencial de críticas. Não pegando nas notícias que tentaram denegrir o passado do Papa por serem facilmente desmontáveis, basta ver os ataques ferozes que mereceram as suas declarações ao assumir os graves erros de elementos da Igreja e onde pediu perdão por eles. Não é esta uma atitude conscienciosa, clara? Se o Santo Padre me merece o mais profundo respeito por tudo o que representa, mais ainda o tem por se ter mostrado sensível e atento a erros de membros do Clero, sem deixar no entanto que isso afecte a Igreja como Instituição.

Por último, uma palavra de estímulo e admiração a todos os Católicos que assumem publicamente a sua posição de defensores da punição da pedofilia e defensores da Igreja.É tempo de demonstrarmos que quem diz que quem tem uma posição contrária à sua é por ignorância ou por fé cega, o faz por não respeitar a liberdade de expressão que assume como seu princípio.
Preparemos todos de coração a vinda do Santo Padre a Portugal com a alegria de quem acabou de vivenciar a Páscoa, na certeza que a Igreja somos todos nós e que nos cabe a nós viver em liberdade com os princípios e valores em que acreditamos.

O 25 de Abril e o desencanto da política

DN2010.04.30 MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO

Foi Hannah Arendt quem, há muitos anos, melhor previu e indiciou este fenómeno da decadência ou despolitização da política nas democracias liberais do Ocidente. Tendo sido uma das analistas dos totalitarismos e tendo então feito a equivalência moral entre o hitlerismo e o comunismo soviético, o que não era fácil nos anos 50, a pensadora dedicou também a sua atenção aos problemas da "qualidade política" das democracias ocidentais.

E chamou a atenção para esta degradação da política como espaço público que, cada vez mais, se foi diluindo.

O que ela viu foi este fenómeno de a economia - e dos interesses económicos - ir progressivamente abafando, monopolizando e degradando a política. Porque o sistema socialista marxista produziu sociedades policiais e até concentracionárias, e a estatização da economia resultou na supressão absoluta da política (da polis, como espaço de debate dominado pela preocupação pública). No Ocidente liberal, esse espaço público foi-se, a pouco e pouco, reduzindo, na medida em que as preocupações económicas (da oikos, da casa) se sobrepuseram, nos cidadãos, às preocupações políticas (da polis, da cidade). E este fenómeno agravou-se ainda mais com a luta das televisões concorrenciais por quotas de mercado publicitário, e com o fim da Guerra Fria, que removeu uma preocupação política e securitária das sociedades abertas, reduzindo ainda mais o espaço público.

Trinta e seis anos depois do "25 de Abril" não falta matéria de reflexão, a começar pela qualidade da democracia que temos, ameaçada de um perigoso desvirtuamento, antes mesmo de se ter consolidado. Por um lado assistimos ao progressivo esvaziamento social da representatividade e, por outro, à diluição dos fundamentos da democracia participativa e à descrença do poder dos cidadãos, tudo contribuindo para o desencanto da política e o início de um tempo de decadência em que é próprio deixarmos de pensar e limitarmo-nos a comentar, como dizia George Sorel. As novas tecnologias criaram, entretanto, uma sociedade descentrada e estruturalmente mediada. A nova opinião pública tornou-se caricatural, um produto fabricado pelos media, através de sondagens e inquéritos e a sociedade civil, os cidadãos e a cidadania perderam a heterogeneidade e substância conflitual que lhes é inerente. Em Portugal, neste preciso momento, questões da maior gravidade são submetidas ao discurso das imagens, revelando a profunda crise do discurso da representação.

Evocar o "25 de Abril" para além dos discursos oficiais permitiria perceber muito do que hoje se passa em Portugal. A história destes 36 anos nunca foi digerida pelas gerações que a viveram: o golpe de Estado, a revolução, o PREC, a descolonização, a nacionalização da economia, o pacto MFA-Partidos, que marcou geneticamente o quadro partidário português, a reprivatização da eco- nomia, a integração na Europa, a entrada na Zona Euro.

A perda do império como desígnio nacional e a sua substituição pelo Clube da UE, a própria crise da Europa e as novas ameaças que cada dia lançam mais sombras sobre o projecto europeu e dúvidas sobre a sua capacidade institucional para fazer face às mudanças que se sucedem perigosamente.

Um sistema político que parece ignorar que o mundo mudou e o nosso destino também. Uma Constituição que mantém a matriz de 76, que consagrou uma circunstância histórica e a blindou; leis eleitorais ineficazes e um estatuto da oposição deficiente; a relutância em discutir em sede própria os poderes do Presidente da República ou o nosso modelo parlamentar.

É tudo isto somado que explica, também, o nosso atraso. Comemorar o "25 de Abril" devia ser a catarse e a síntese de 36 anos de história colectiva. Expurgar atavismos inúteis, corrigir erros antigos e congregar os portugueses em torno do que pode ser, ainda, a herança comum: um país que se possa amar, um desenvolvimento centrado na dignidade das pessoas, uma coesão social assumida por todos e um Estado no seu lugar.


Murcharam os cravos

DN 2010.04.28 Carlos Abreu Amorim

As comemorações do 25 de Abril resvalaram em cerimónias funcionalizadas, secas, maçadoras, desprovidas de significado real ou alegórico para o País. Foram os discursos esperados, repisados, com as mesmas laudes aos putativos heróis recorrentemente citados, com as proclamações vazias e as juras políticas afins às dos anos anteriores e continuamente incumpridas - a excepção foi Aguiar-Branco, que, pelo menos, conseguiu induzir algum humor provocatório naquela baça manhã de domingo.

O Presidente da República ainda tentou fabricar alguma confiança - mas fundar a reabilitação de um país arruinado por longas décadas de má governação no mar e nas indústrias criativas do Porto tresandou a um desejo de esperança já desesperada.

Este regime atingiu um ponto tal de descrença em si próprio que já nem sequer consegue celebrar-se com o mínimo de convicção.

Não admira - direitos fundamentais e Guerra Colonial à parte, pouco distingue o Portugal de hoje do País entristecido que sobrevivia no fim do regime anterior. Tal como em 1974, somos agora um dos lugares mais atrasados da Europa. Hoje, também, a nossa economia está atascada na cumplicidade negocial dos grandes grupos económicos com o Estado. Como então sucedia, em Portugal não há mercado - há conluio. Mantemos as desigualdades sociais e económicas mais dilatadas e a administração mais centralizada, ineficiente e cara dos países com os quais gostamos de nos comparar.

Não foi por acaso que nos perpetuamos nesta infeliz condição. Se exceptuarmos um dos governos de Mário Soares e a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva, o resto da go-vernação constituiu uma espécie de competição em que cada Executivo procurava comprovar que ainda conseguia governar pior do que o anterior - e com êxito assinalável, convenhamos.

Mas o lado mais irrevogável da crise em que marinamos não é financeiro. A probidade dos homens públicos desceu a níveis de subsolo - sempre sob os olhos complacentes do sistema de justiça, este, sem dúvida, convertido no maior malogro da democracia. O recente acórdão da Relação de Lisboa no caso Névoa veio comprovar que, do legislador ao decisor, ainda se não apreendeu a lição de um grande jurista do séc. XIX, Jhering, que ensinava "não existir lei capaz de nos fazer esquecer o valor da inteligência". As polícias estão reduzidas à indigência de meios, os magistrados confundem a sua missão de decidir com a busca incessante em angariar pretextos formais para não o fazerem e sobejam as condenações internacionais de Portugal por decisões desmedidamente retardadas.

Tal como a monarquia, a I República e o Estado Novo, o regime que o 25 de Abril impôs falhou grande parte das suas apostas essenciais. E, pior, parece ter perdido a aptidão para se regenerar.

Resta-nos a União Europeia. Só a disciplina orçamental que esta nos obriga e os milhões que nos vai oferecendo impedem que Portugal desfaleça ainda mais. Porque, entregues a nós próprios, só nos sobraria esperar por um novo Salgueiro Maia que quisesse acabar com "o estado a que isto chegou". Para, alguns anos depois, claro, tudo voltar a ficar como dantes.


PREPARAMO-NOS PARA ACOLHER O SANTO PADRE, no Porto

PREPARAMO-NOS PARA ACOLHER O SANTO PADRE

 

Dia 1 de Maio

às 21h30, na Cripta da Igreja da Senhora da Conceição

(ao Marquês),no Porto,

conferência sobre

“ Os cinco anos do Pontificado de Bento XVI”,

pelo Sr. Bispo D. Carlos Azevedo,

Coordenador Geral da Visita do Papa a Portugal

 

 

 

Igreja Católica inspira nova relação com o ambiente

Público, 2010-04-28 Maria da Graça Carvalho

É um contributo inestimável para a causa ambiental a elevação da salvaguarda do ambiente a imperativo moral

Hoje, tendo-se tornado uma preocupação central, tanto de cientistas como de teólogos, as questões ambientais parecem estar a gerar uma nova plataforma de entendimento entre indivíduos que, sendo oriundos dos mais diversos universos ideológicos, partilham a mesma visão sobre a relação do homem com a natureza.
Dado o conjunto de valores e causas que defendo no Parlamento Europeu, entre as quais relevam as questões ambientais e da produção eficiente e limpa de energia, às quais sou sensível em boa parte devido à minha formação científica, devo dizer que as posições que a Igreja tem vindo a manifestar a este respeito são para mim uma verdadeira fonte de inspiração. Na sua última carta encíclica, Caritas in veritate, Bento XVI reconhece que "é lícito ao homem exercer um governo responsável sobre a natureza para a guardar, fazer frutificar e cultivar...", mas, ressalva o Sumo Pontífice, o homem não pode deixar de "sentir como gravíssimo o dever de entregar a terra às novas gerações num estado tal que também elas possam dignamente habitá-la e continuar a cultivá-la" (Cap. IV, 50). Parece-me ser um contributo inestimável para a causa ambiental esta elevação da salvaguarda do ambiente ao estatuto de um imperativo moral. O Papa Bento XVI coloca a questão no patamar de um dever que uma geração deve observar para com as próximas gerações. E ao condenar o comportamento do poluidor como um pecado, que exige arrependimento, como o fez no ano passado, acrescenta a esse dever todo o peso da visão religiosa do mundo.
No que respeita à produção de energia, o Papa Bento XVI denuncia a ligação desta questão à pobreza, aos conflitos armados e, em geral, à situação desolada dos países menos desenvolvidos: "O açambarcamento dos recursos energéticos não renováveis... constitui um grave impedimento para o desenvolvimento dos países pobres. A monopolização de recursos naturais... gera exploração e frequentes conflitos entre as nações e dentro das mesmas." Daí o apelo papal à comunidade internacional para "encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro" (Cap. IV, 49).
Recentemente (11 de Janeiro), durante a recepção aos diplomatas das 170 nações representadas no Vaticano, o único Estado do mundo que pode reivindicar ser carbono-neutro, o Papa Bento XVI sublinhou a sua preocupação com o falhanço dos líderes mundiais em alcançarem um acordo global sobre as alterações climáticas, na conferência de Copenhaga, e lançou um apelo, que todos partilhamos, a que se envidem todos os esforços para que seja alcançado um acordo global antes do final do ano (em Cancun).
O testemunho e as mensagens do Sumo Pontífice dão-nos força e ânimo para continuarmos, no nosso dia-a-dia de deputados europeus, com humildade e determinação, a combater por formas novas, menos destrutivas e menos ameaçadoras das gerações vindouras, de nos relacionarmos com a natureza.

Deputada do PSD ao Parlamento Europeu

28 de Abril - S. Luís Maria Grignion de Monfort

A característica que mais o distinguiu na sua pregação e marca a sua espiritualidade foi a devoção à Virgem Santíssima, com modalidades tão pessoais que fazem dele um caso sem igual na espiritualidade mariana de todos os tempos.

Morreu santamente em 1716. Foi beatificado por Leão XIII e canonizado por Pio XII.
É de sua autoria o Tratado da Verdadeira Devoção à Santissima Virgem Maria

terça-feira, 27 de abril de 2010

Mais 121 milhões de católicos desde 2000

Anuário Estatístico da Igreja mostra aumento de 11% no número de fiéis e um catolicismo cada vez mais centrado na América

O Vaticano apresentou esta Terça-feira a nova edição do Anuário Estatístico da Igreja, o qual revela que entre 2000 e 2008, o número de católicos passou de 1045 milhões para 1166 milhões, o que representa um aumento de 11,54%.

O “Annuarium Statistitucm Ecclesiae” revela que a África tem mais 33,02% de católicos na sua população, número que na Europa registou um aumento de 1,17% nos últimos anos.

O peso específico dos europeus no mundo católico tem vindo a diminuir: em 2000, o Velho Continente albergava mais de um quarto dos católicos de todo o mundo (26,81%), percentagem que é agora de 24,31%.

O coração do catolicismo está na América, que representa quase metade (49,59%) dos fiéis em todo o mundo.

A publicação da Central de Estatísticas da Igreja (Santa Sé) mostra ainda que o número de sacerdotes se mantém quase estável, com um ligeiro aumento de 0,98% motivado pela dinâmica da Ásia e África (mais 23,77% e 31,09%, respectivamente).

No total, de 2000 a 2008, a Igreja passou a ter mais padres diocesanos (de 265.781 para 274 mil) e menos sacerdotes religiosos (de 139 mil para 135.159).

Nestes anos, a Europa perdeu 15.930 padres (diocesanos e religiosos), menos 7,63%.

A média de candidatos ao sacerdócio também tem baixado significativamente na Europa (menos 21,15%), mas regista um crescimento de 5,82% no total, com aumentos de 25,65% na Ásia e 25,63% em África.

Os números actuais mostram que dos seminaristas de todo o mundo apenas 18,11% se encontram na Europa, percentagem que sobe para os 31,19% na América, quase um terço do total.

Quanto às religiosas, cerca de 740 mil, o seu número quase duplica o dos padres. Apesar da quebra nos últimos anos, o número cresce, igualmente, na Ásia e África.

O Anuário Estatístico da Igreja procura, em comparação com o Anuário Pontifício (que privilegia nomes e biografias), oferecer um quadro dos principais aspectos que caracterizam a actividade pastoral da Igreja Católica.


O Papa abençoa o colégio S. Tomás


Ver particularmente: 1', 5' e 12'


Frase do dia

Não vás à minha frente; eu posso não te seguir. Não vás atrás de mim; eu posso não conduzir. Vai só ao meu lado e sê meu amigo

Albert Camus

(1913-1960)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Concerto em festa - 6 de maio de 2010 - Centro Cultural de Belém


MFCON1

Reflexões sobre o Pensamento de Bento XVI


Conf3Maio

Construção de um monstro

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN20100426
As coisas à distância surgem alteradas. Por isso os heróis e vilões da história pareceram em geral muito diferentes dos contemporâneos. As duas visões são válidas, aspectos distintos de personalidades e épocas complexas. Isso vê-se bem tentando adivinhar como a nossa realidade será descrita daqui a séculos.
O tempo realiza dois fenómenos sobre o panorama de uma era. Primeiro esquece pormenores e reduz o relato aos traços estruturais. Depois concentra os actos e ideias de multidões no líder do momento. Por isso, por muito que surpreenda, é provável que José Sócrates fique na história de forma distinta daquela como o vemos, como o monstro que vandalizou a família e a cultura portuguesas.
Em breve desaparecerão as questões que hoje dominam a política nacional. Défices, escândalos, obras, reformas parecerão detalhes ínfimos aos nossos descendentes. Aquilo que chocará o futuro são sem dúvida as tentativas radicais e atabalhoadas na legislação da família.
Se virmos com atenção, é impressionante o número e alcance das medidas de alguns meses. Em lugar destacado está a lei do aborto de 2007, responsável pelo morticínio de milhares. Às próximas gerações não passará despercebida a enorme fraude política de usar um referendo não vinculativo sobre a despenalização para impor não só legalização mas fomento com dinheiro de impostos. Deste modo, uma simples decisão inverteu totalmente a atitude legal face à prática, da proibição à promoção descarada.
O aborto é apenas um aspecto, de longe o mais sangrento, da vasta investida recente contra a vida. A "lei da procriação medicamente assistida" de 2006 assumiu um regime laxista e irresponsável na protecção ao embrião humano, ultrapassando o pior do mundo. As leis do divórcio de 2008 e uniões de facto de 2009 constituem enormes atentados à instituição familiar, só comparáveis à campanha de 2010 pelo casamento do mesmo sexo. Mais influente, o Estado sob a capa de educação sexual impõe às crianças e jovens a sua ideologia frouxa e lasciva. A tolice atinge o paroxismo em detalhes ridículos, como as praias de nudistas onde se anuncia regulamentação. Em todos os casos fez-se a coisa de forma apressada, ligeira e arrogante, à maneira dos tiranos de antigamente, sem respeito por instituições e articulados seculares.
Tudo isto são só papéis, que se mudam facilmente. Mas, mesmo que mudem, à distância tudo parecerá resultado de obsessão maníaca. Até porque os efeitos nefastos são bem visíveis. Desde 2007, a mortalidade ultrapassou a natalidade. Portugal é o país com menor fertilidade na Europa ocidental, das mais baixas do mundo. Esta catástrofe demográfica faz de nós um povo em vias de extinção e ameaça a nossa herança e cultura. O número de divórcios é mais de metade dos casamentos, enquanto a coabitação precária e os filhos fora do casamento explodem, gerando lares esfarrapados, insucesso escolar, depressões, miséria, crime.
O futuro não compreenderá que o Governo não só não o note mas se encarnice em agravá-lo. As gerações vindouras só o entenderão atribuindo-o a um magno plano malévolo, como fazemos a Nero, Napoleão ou Hitler. A teoria vácua da "modernidade" invocada em discursos, será vista como capa para propósitos sinistros, cultos sexuais, taras pessoais, desequilíbrios doentios.
Sobretudo será impossível convencer os longínquos do que para nós é evidente. Todas estas medidas de profundo alcance foram tomadas mais por descuido que desígnio, na distracção da conjuntura. Para quem apenas pensa politicamente nos títulos do fim-de-semana, as mudanças radicais na mais estrutural legislação são detalhes retóricos, meras formas de polir os emblemas de esquerda embaciados pela política económica. Por exemplo, nem sabem o que fazer do colapso demográfico. Nestes ataques à vida e família, vê-se mais inconsciência que maldade, irresponsabilidade que propósito, desdém que planeamento.
Mas, tudo considerado, os nossos netos são capazes de ter alguma razão. Afinal, à distância vê-se o que a confusão do momento esconde.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Anunciação a Maria de Paul Claudel - apresentação pelo cónego João Seabra


domingo, 25 de abril de 2010

Selo comemorativo da visita do Papa Bento XVI a Portugal

Pode um homem nascer de novo, quando é velho? Exercícios espirituais de Comunhão e Libertação, 23 a 25 de Abril de 2010



Cristo ensina Nicodemus
Jacob Jordaens
(1593-1678)

Estatísticas da Igreja em Portugal

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 22 de abril de 2010 (ZENIT.org).- A Santa Sé divulgou nesta quinta-feira as estatísticas da Igreja Católica em Portugal, números que contextualizam a visita de Bento XVI ao país de 11 a 14 de maio.
Numa população de 10,6 milhões de habitantes, a porcentagem de católicos é de 88,3%, segundo referem os dados datados de dezembro de 2008.

Os sacerdotes diocesanos são 2.825. Já os religiosos, 972. Os bispos em dados de 15 de abril de 2010 são 52. Os seminaristas de filosofia e teologia são 444.

Segundo refere Agência Ecclesia, o Recenseamento da Prática Dominical, datado de 2001, mostrava que o número total de praticantes não chegava, contudo, aos 2 milhões de fiéis.

A Igreja Católica em Portugal conta com 3.797 padres, 212 diáconos permanentes, 312 religiosos e 5.965 religiosas, para além de 594 membros de Institutos seculares.

O número de catequistas é de 63.906, num total de 4.380 paróquias e 2.878 outros centros pastorais, espalhados por 21 Dioceses.

O Vaticano elenca também os centros escolares que são propriedade da Igreja ou são dirigidos pelos seus membros: há 793 estabelecimentos até à primária, 80 secundários e 26 institutos superiores e a UCP, servindo um total de quase 130 mil alunos.

Quanto a "centros caritativos e sociais" são contabilizados 43 hospitais, 155 ambulatórios, 799 casas para idosos, 663 orfanatos ou asilos, 55 consultórios familiares e centros para a proteção da vida, 462 centros educativos especiais e 168 outras instituições.



Discurso de José Pedro Aguiar Branco na sessão comemorativa do 25 de Abril


CTT lançam selos alusivos à visita de Bento XVI Selos retratam os três Papas que visitaram ou vão visitar Portugal

25-04-2010
Os CTT vão lançar a 10 de Maio uma emissão de selos alusivos à visita de Bento XVI a Portugal, que decorre de 11 a 14 de Maio, com passagens por Lisboa, Fátima e Porto.
A série é constituída por três selos com os três Papas que visitaram ou vão visitar Portugal:
Paulo VI em 1967, João Paulo II, em 1982, 1991 e 2000, e agora Bento XVI.

Um quarto selo é dedicado especificamente à visita de Bento XVI.
A emissão é acompanhada de um texto do Cardeal Patriarca de Lisboa, em que D. José Policarpo traça o perfil de Bento XVI, um Papa que nasceu na Alemanha, viveu o drama da Segunda Guerra Mundial e é« um dos maiores teólogos do século XX, com a particularidade de ter exercido a sua missão académica numa Universidade do Estado», o que lhe proporcionou a «experiência de confrontar a Teologia enquanto reflexão sobre a fé, com todas as outras ciências e saberes».
«A racionalidade da fé e o lugar da razão na experiência religiosa são, ainda hoje, dimensões permanentes do seu Magistério», assinala D. José Policarpo, acrescentando que o Cardeal Joseph Ratzinger é um bom conhecedor da Escolástica,  mas «não ficou prisioneiro dela, certamente devido ao estudo aprofundado de Santo Agostinho, que situa a busca da verdade na compreensão da existência humana».
«A sua sensibilidade de artista, fá-lo antever esta busca da compreensão da existência como abertura à beleza. Afinal, o que encontramos na Igreja é, sobretudo, uma experiência de beleza», conclui.
O texto completo do Cardeal Patriarca:
Sua Santidade o Papa Bento XVI visita Portugal. Não é a primeira vez que um Papa está entre nós: pessoas diferentes, o mesmo ministério. Somos, assim, convidados a considerar a missão de um Papa, a mesma ininterruptamente afirmada desde há 2000 anos, e a personalidade daquele a quem foi entregue essa missão.
O que é que define a missão de um Papa? Certamente também por influência da história, a opinião pública tem tendência a defini-la como o poder supremo na Igreja, a suprema autoridade. Aliás foi assim que a tradição escolástica a definiu: "Suprema Potestas". O Concílio Vaticano II abandonou esta linguagem, falando de "consagração para a missão". A comunhão de amor é o princípio dinâmico que preside à organização da Igreja. Todos os baptizados fazem uma comunhão; os Bispos, sucessores dos Apóstolos, constituem um Colégio, fazem uma comunhão; cada Bispo comunica o sacerdócio apostólico aos presbíteros, constitui com eles um Colégio, eles são uma comunhão.
A comunhão dos Bispos, no Colégio Episcopal, sucessor do Colégio dos Apóstolos, é o princípio da unidade de toda a Igreja, na fé e no amor. Jesus deu a Pedro a missão de ser o elo dessa comunhão, o último ponto de referência das exigências da fé e do amor. O Papa é o Bispo de Roma, a primeira entre as Igrejas, porque fundada sobre os alicerces de Pedro e Paulo. Este ministério de Pedro esteve, desde o início, atribuído ao Bispo de Roma. Ele é, assim, o garante da unidade e da comunhão de amor com todos os Bispos e com as Igrejas a que eles presidem. A Igreja é universal porque procura a universalidade da comunhão.
Mas este Papa tem um nome e uma história pessoal. Chama-se Joseph Ratzinger, é alemão e viveu o drama da Segunda Guerra Mundial, é um dos maiores teólogos do século XX, com a particularidade de ter exercido a sua missão académica numa Universidade do Estado, particularidade organizativa da Alemanha, que lhe proporcionou a experiência de confrontar a Teologia enquanto reflexão sobre a fé, com todas as outras ciências e saberes. A racionalidade da fé e o lugar da razão na experiência religiosa são, ainda hoje, dimensões permanentes do seu Magistério. Bom conhecedor da Escolástica, não ficou prisioneiro dela, certamente devido ao estudo aprofundado de Santo Agostinho, que situa a busca da verdade na compreensão da existência humana. A busca da verdade e a sua relação com a caridade, nunca é apenas uma reflexão filosófico-teológica, mas a abertura à densidade da existência humana, diria mesmo ao drama da existência humana, que encontra na existência de
Jesus Cristo a sua fonte inspiradora. A sua sensibilidade de artista, fá-lo antever esta busca da compreensão da existência como abertura à beleza. Afinal, o que encontramos na Igreja é, sobretudo, uma experiência de beleza.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

sexta-feira, 23 de abril de 2010

As razões de Bento XVI


razoesbentoXVI

O ano Internacional da Astronomia (2009) e o conhecimento de Galileu em Portugal


Lumenveritatisabril2010 by papinto

República das Letras

RR on-line 23-04-2010 19:37



António Câmara



Na ilha da Terceira mora um dos projectos educativos mais interessantes do País: a República das Letras.

A República funciona em sistema tutorial. Miguel Monjardino, docente da Católica, é o tutor. 

Os estudantes vêm dos últimos anos das escolas do ensino secundário da ilha. Miguel Monjardino guia-os através da leitura acompanhada e contextualizada dos clássicos de autores como Eurípides, Homero, Plutarco, Sófocles, Tucídedes,e  Ésquilo.

 As sessões semanais são descritas exemplarmente por Laura Brasil, uma das antigas alunas da República: "É assim que defino os meus sábados à tarde… não uma janela, mas uma escada para o Mundo. Os degraus que nos levam ao passado, à razão e à justificação de nós próprios, dada em conselhos dos grandes mestres intemporais, os gregos da Antiguidade que no presente ainda têm palavras cheias de voz sábia que se fazem ouvir. Mas estas duas horas ganhas ao fim de semana são, também, a criação do futuro, porque esse fazemo-lo nós, com as nossas acções."

Não há, infelizmente, muitas pessoas com a visão, cultura e iniciativa do Miguel Monjardino. Mas haverá certamente algumas que convidamos a replicar esta iniciativa exemplar noutras regiões do País.


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Vulcões e conspirações

Público, 2010.0422 Pedro Lomba

No Verão de 2008 estive a viajar pela Islândia. Não atravessei toda a ilha, mas fui a boa parte do litoral (o interior, mesmo no Verão, é quase impenetrável). Para quem viu a Lua pelos olhos da NASA, é talvez o mais parecido que temos no planeta. Para quem sonha com Marte, também. Os 33 vulcões da Islândia, muitos deles ubíquas ameaças em estado de pousio, foram responsáveis por um terço da lava libertada no mundo. O Eyjafjallajokull, o tal que paralisou os céus e os aeroportos da Europa nos últimos dias, é apenas o último.

Andei pelo Norte e pelo Sul. Pela capital, Reiquejavique, ponto de história na saga da Guerra Fria, e pela segunda maior cidade, Akureyri, a norte, de onde se avista um dos magníficos fiordes do país e onde verifiquei como é que os islandeses ocupam as noites de sábado: pegam no carro e começam a ronda. Conduzem aos círculos, a 20 km por hora, enquanto vão bebendo e conversando entre eles.

Viajei antes da bancarrota do ano passado, pelo que não sei como está hoje o país de corpo e espírito. Os meus amigos islandeses dizem que está melhor, que tem recuperado parcialmente da lava da crise financeira. Mas é verdade que alguns deles são da direita islandesa, o que quer dizer (ou queria, antes da crise) desconfiança em relação à entrada da Islândia na União Europeia e uma certa glorificação das suas virtudes: tenacidade e independência.

Em 1955, Harold Laxness ganhou o Nobel da literatura por causa de um livro, Gente Independente, que fala de personagens, numa Islândia do princípio do século XX, que sonham com leite, árvores e carne e não encontram nem uma coisa nem outra. "Não existem árvores, comboios ou arquitectura. E os frutos e os vegetais não chegam para a saúde", disse, em 1936, o poeta inglês W.H. Auden, nas suas Cartas da Islândia.

É difícil pensar num país mais adverso para sobreviver do que a Islândia. É como se o ser humano não devesse simplesmente estar ali. A tudo o que lhes faltou desde sempre, ao gelo dos glaciares e ao isolamento, juntou-se o fogo dos vulcões, as tragédias naturais e, já agora, uma chuva daninha que eu não sabia que existia. Digo mais. Há países onde até pode chover com abundância mas onde a chuva cai com verticalidade, isto é, de cima para baixo, sem surpresas. A chuva islandesa não é isso. Castiga-nos obliquamente, parte de todas as direcções, chega-nos de todos os feitios e mistura-se com a ventania. Não há chapéu que nos proteja. O que há é o mesmo combate corpo a corpo que os islandeses têm há séculos com a natureza. Um combate que eles sabem que não podem ganhar mas de que nunca desistem.

E onde eu queria chegar era aqui. Chegaram as cinzas islandesas aos céus da Europa. Pararam os aviões. Houve prejuízos, transtornos, maçadas. Tudo factos aborrecidos mas, por enquanto, ainda da vida, não da morte.

Ora, se estiveram atentos nos últimos dias ao carrossel de opiniões sobre o vulcão islandês, sobre as suas causas e consequências, então puderam ler coisas destas: mais uma pandemia global, as mudanças climáticas, o degelo, o fim do mundo, a desordem do homem, a crise financeira, uma nova ordem mundial, a paranóia das companhias de aviação e, para nosso uso, a prova provada de que precisamos mesmo do TGV e de que temos de regressar ao transporte terrestre.

Ouço e leio estas opiniões e teorias e vejo que são poucos os que nos dizem: "Eu não sei nada."

E, no entanto, é isso mesmo. Nós não sabemos nada. Os islandeses estiveram sempre expostos à natureza, mas têm conseguido proteger-se. Nós, que nunca sofremos na pele como eles, poderíamos fazer um esforço por nos proteger de outra coisa: da credulidade, do excesso de opinião e da irracionalidade humana.
Jurista

Educar o carácter, educar para amar



Protege

Bento XVI, o mal-amado

Público, 2010.04.22 Esther Mucznik
Acusam-no quando ele é o primeiro a denunciar abertamente a pedofilia. É a política de culpar o mensageiro pela mensagem

Como vê o pontificado de Bento XVI e a sua atitude face ao diálogo inter-religioso? Como avalia a resposta do Papa à crise da pedofilia? Como é vista a visita papal pelas confissões não católicas? Acha que a tolerância de ponto discrimina os não católicos? Estas são algumas das questões com que nós - os "outros" - somos diariamente "assediados" por diversos órgãos da comunicação social.

O caminho não tem sido fácil para Bento XVI depois do longo pontificado de João Paulo II, dado o contraste absoluto entre os dois estilos: João Paulo II era carismático, gostava das multidões, tinha o dom da palavra certa no momento certo. Bento XVI fala através da escrita, gosta do isolamento necessário à reflexão. João Paulo II foi um papa missionário, um homem da Guerra Fria e do combate contra o comunismo. Bento VI, alemão e ocidental, preocupa-se sobretudo com o esvaziamento religioso do Ocidente, com o relativismo e a perda de valores, com a "forma mais subtil de ditadura que obriga a pensar e a agir como todos os outros". A meu ver, esta preocupação é actual e urgente.

No que respeita às relações com o judaísmo, tem havido alguns percalços: o levantamento da excomunhão do bispo negacionista Richard Williamson, "apenas 200 mil a 300 mil judeus morreram nos campos de concentração, mas nenhum nas câmaras de gás", o processo de beatificação de Pio XII antes da abertura de todos os arquivos do Vaticano, a insistência na oração para que os judeus reconheçam em Jesus "o salvador de todos os homens". Mas nada disto apaga o essencial: o compromisso de Bento XVI de repúdio "incondicional" do anti-semitismo e da negação do Holocausto por parte da Igreja, assim como o de avançar no caminho de João Paulo II nas relações católico-judaicas, compromisso assumido logo no início do seu mandato na sinagoga de Colónia e de novo reiterado várias vezes, a última das quais já em Janeiro deste ano na sinagoga de Roma.

O passado nunca se apaga, nem se esquece. Mas a memória não é ressentimento, não pode ser um obstáculo à reconciliação. Pelo contrário, e como referiu Bento XVI, "a lembrança do passado permanece para as duas comunidades como um imperativo moral e uma fonte de purificação dos nossos esforços de orar e trabalhar para a reconciliação..." Em 1986, João Paulo II foi o primeiro Papa a entrar numa sinagoga. É preciso ter alguma visão histórica para avaliar a profunda revolução operada nas últimas décadas nas relações judaico-cristãs. Apesar dos avanços e recuos inevitáveis.

Bento XVI e a Igreja atravessam actualmente um momento difícil, "a maior crise da Igreja Católica dos últimos 100 anos", nas palavras de António Marujo. Não irei alongar-me sobre o que é, ou devia ser, óbvio: que a pedofilia é um crime hediondo e que praticado por pessoas da Igreja Católica ou de qualquer outra religião é ainda mais grave, tendo em conta a missão ética de que se reclamam e a confiança que, em princípio, nelas deposita a sociedade. Trata-se, pois, de um duplo crime que, independentemente da punição interna à instituição religiosa, tem de estar sujeito como qualquer outro à justiça civil. É, pois, perfeitamente legítima a revolta das vítimas, dos seus familiares e da sociedade de uma forma geral face às tentativas de ocultação do crime.

Em contrapartida, é abusivo condenar a Igreja no seu todo e centrar o alvo em Bento XVI. Para muito boa gente, esta é uma ocasião ideal para um ajuste de contas com a Igreja e com este Papa mal-amado, acusando-o de ser responsável por esconder o crime, quando na realidade ele é o primeiro a denunciá-lo abertamente. É a política de culpar o mensageiro pela mensagem. Pressionado ou não pelas circunstâncias, o certo é que tem sido Bento XVI a reconhecer publicamente e a pedir perdão às vítimas e é neste seu pontificado que, em carta aberta aos sacerdotes de todo o mundo divulgada no dia do 5.º aniversário da sua eleição, o Va- ticano reconhece que foram cometidos "horríveis e gravíssimos delitos de abusos sexuais contra menores... e que os culpados deverão responder perante Deus e perante os tribunais, também os civis". Repito: o pedi- do de perdão não sara as feridas, nem apaga o mal fei- to. Mas é um passo essencial para uma mudança de comportamento. É ele que poderá permitir a separação do trigo e do joio.

António Marujo afirma que a Igreja Católica "tem de ser a primeira a reflectir o porquê dessa aversão (à Igreja) e a procurar as razões no seu interior". Esta é de facto a questão essencial. Como judia, acho que há na história da Igreja muitas razões para essa aversão, mas também lhe reconheço, nas últimas décadas, uma capacidade autocrítica, sem igual nas outras religiões. O que me leva a pensar que as razões dessa aversão não se situam apenas no interior da instituição, mas também no seu exterior: no esvaziamento religioso do Ocidente europeu, na perda de referências e no relativismo cultural que levianamente contribui para debilitar paulatinamente o chamado (e bem) mundo livre. Goste-se ou não, a Igreja Católica é uma referência desse mundo.

Não sou católica, mas vejo com preocupação a fragilização de uma instituição que é um dos pilares daquilo a que execramos chamar de "civilização ocidental". Porque não há vazios e o regresso da barbárie é sempre possível.
Investigadora em assuntos judaicos (esther.mucznik@netcabo.pt)

E depois do adeus

Público, 2010.04.22 Helena Matos
Somos hoje um país certamente mais livre do que éramos até Abril de 74, mas menos livre do que fomos anos depois
Daqui a dias vai vir novamente a fanfarra, mais os cravos e a liberdade. Sem esquecer a República e o seu farto busto que, por um extraordinário processo de reviravolta histórica, se pretende apresentar como uma antecipação do 25 de Abril. E depois? Depois nada, que a vida está difícil e nós não sabemos como vamos pagar dívidas que não contraímos. Não era de facto isto que estávamos à espera quando nos prometeram a democracia. Na verdade esperava-se muito.

Ao ver as imagens de Portugal em 1974 o mais espantoso é o ar sorridente e esperançado das pessoas. Hoje, rir assim só no futebol, com a desvantagem estética para este último, que a parafrenália dos bonés e dos cachecóis, ao contrário do que sucedia com os cravos e as fardas, dá um ar vagamente apalhaçado a quem celebra.

Em Abril de 1974 aos portugueses foi prometido um país mais livre, mais justo, mais rico e mais respeitado. Somos hoje um país certamente mais livre do que éramos até Abril de 1974, mas certamente menos livre do que fomos anos depois.

A desmesura do Estado gerou uma multidão de avençados que se instalou em lugarzinhos de nomeação a partir dos quais se metastizam num universo de jeitos, favores e conhecimentos. Esta gente é hoje o maior obstáculo ao desenvolvimento do país não só porque produz pouco, mas sobretudo porque tem o seu seguro de vida na manutenção desse pântano político-empresarial de dinheiros públicos e interesse privados, tão privados que não são sequer confessáveis.

À parte a liberdade - e essa convém frisar que nos foi garantida pelas Forças Armadas que tão pouco dignificadas têm sido pela democracia - falhou-se em muito daquilo que dependia da competência da classe política. Os pobres são certamente menos pobres hoje do que eram em 1974, mas o sonho de conseguir subir na vida esse perdeu-se no enredo da burocracia, da carga fiscal asfixiante e da loucura dos licenciamentos e dos certificados.

Na justiça, pior seria difícil: seja por causa das leis, seja por causa de quem as aplica, seja pelo que for, Portugal vive uma crise gravíssima, pois gravíssimo é quando um povo descrê da justiça e não se reconhece nas leis que tem.

O legislador sonhou-se e sonha-se nos tempos em que os iluministas esclarecidos impunham mudanças por decreto ao povo ignorante - veja-se o caso do recente Código de Execução de Penas - e os políticos, com especial relevância para o PS, fizeram o resto quando identificaram as responsabilidades éticas e morais do cidadão e político José Sócrates com a possibilidade de o actual primeiro-ministro poder vir ou não a ser constituído arguido. Esta circunstância é um dos momentos mais graves do pós-25 de Abril não só porque se identificou ética com direito penal, como se acabou a instilar a ideia de que a justiça e a investigação são passíveis de serem controladas por quem detém o poder político.

Por fim falemos do respeito. Quando se lêem os jornais pós Abril de 1974, é evidente a tónica então colocada no facto de Portugal ir deixar de ser uma nação isolada. Finalmente íamos deixar de ser criticados internacionalmente. O mesmo discurso exaltante foi depois repetido quando trocámos a incerta via terceiro-mundista do socialismo à portuguesa pela adesão à então CEE.

Os elogios feitos "lá fora" pelos dirigentes europeus à nossa prestação eram repetidos "cá dentro" por homens como Mário Soares e Cavaco Silva. Agora que o estrangeiro deixou de falar bem de nós, vivemos com embaraço as declarações do Presidente checo, tomamo-nos de brios patrióticos perante as agências de rating e descobrem-se pérfidas intenções nos economistas que nos anunciam a falência. Enfim, o habitual em casa onde não há pão.

Em Abril de 1974 os portugueses riam esperançados diante do mundo e das objectivas dos fotógrafos. Agora fazem-lhes manguitos. A culpa não é certamente da democracia e muito menos do povo. A culpa é de quem se esqueceu que "depois do adeus" à ditadura havia que falar verdade ao povo.
Ensaísta

Poder Supremo

DESTAK| 21 | 04 | 2010   20.55H

João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

 

Há uns dias um jornalista escrevia sobre os casos de pedofilia com o título: «A maior crise da Igreja Católica dos últimos 100 anos» (António Marujo, Público, 27 de Março). Mas a Igreja Católica nos últimos cem anos sofreu as terríveis perseguições de ateus e maçons no México, Portugal, etc. Seguiram-se os morticínios nazi, soviético, maoísta.

A Igreja Católica nos últimos cem anos foi eliminada fisicamente em múltiplos países e teve mais mártires que na acumulação dos anteriores 1900 anos. Um Papa foi baleado. Além disso existiram enormes crises teológicas, desde a polémica do modernismo até às terríveis tempestades do pós-concílio, o cisma Lefebvre, teologia da libertação, perda de vocações.

Será a crise de hoje maior que tudo isto? Os crimes agora referidos são sem dúvida muito graves, mas a Igreja condenou-os inequívoca e repetidamente. Para mais estão centrados num punhado de clérigos, vários já falecidos. Enquanto a Justiça trata dos casos, a vida real de fiéis e instituições eclesiais continua. Que é que querem mais?

Juízo tão feroz só esse entende de uma forma. É que desta vez a Igreja enfrenta, não Hitler, Estaline ou a heresia, mas o poder supremo dos jornais. Os jornalistas consideram-se a força mais devastadora de todos os tempos. Depois de Watergate, a imprensa sente-se capaz de assaltar o próprio Altíssimo.

Ou pelo menos o seu Vigário na Terra. Foi isso que o Miguel Sousa Tavares afirmou no último Expresso sobre o Papa: «mais duas ou três revelações e ele desaba». Diz o oráculo do poder supremo.

 

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Carta aberta de George Weigel para Hans Kung


Resposta de George Weigel a Hans Kung

terça-feira, 20 de abril de 2010

Intolerâncias

Correio da manhã, 2010.04.20
Constança Cunha e Sá

Um Estado laico não é um Estado anti-religioso, incapaz de compreender a dimensão pública da fé.
Como seria de esperar, a visita do Papa a Portugal já deu origem a uma pequena e comovente polémica sobre a tolerância de ponto decretada pelo Governo. Os fanáticos do costume decretaram que pretendiam trabalhar nesses três dias a bem da separação do Estado e da Igreja e – pasme-se – em prol da produtividade nacional que, na sua douta opinião, não pode ser abalada pela visita de um "líder religioso qualquer" que decida deslocar-se ao nosso país. Até a CIP e as centrais sindicais, esses pilares da nossa economia, se pronunciaram patrioticamente contra a decisão tomada pelo Governo, alertando para a crise em que vivemos e para a necessidade dos funcionários públicos contribuírem, com o seu trabalho, para o aumento da produtividade e para o desenvolvimento da pátria.
É evidente que este reconhecimento súbito do estado em que nos encontramos não deixa de ser salutar, sendo de esperar, nomeadamente por parte dos sindicatos, exemplos futuros de responsabilidade e compreensão pela situação em que se encontram as finanças públicas e a economia portuguesa. Custa-me a crer que sindicalistas, tão atentos aos custos da visita do Papa, se entretenham depois a promover greves que, para além de não levarem em linha de conta a crise em que nos encontramos, não contribuem certamente para o dito aumento da produtividade. Tudo isto seria um pouco ridículo – e é – se por trás destes nobres objectivos não se escondesse o velho preconceito contra a Igreja e o zelo anticlerical de meia dúzia de figuras públicas, sempre em busca de crucifixos nas escolas e de outros sinais religiosos no espaço público. Ao contrário do que tem sido dito, o que está em causa não é a neutralidade do Estado em relação às diversas religiões, mas a incapacidade de perceber que, num país de tradição católica, o Papa não é um "líder religioso qualquer", como tem sido amplamente referido.
Pretender equipar a visita de Bento XVI à visita de qualquer outro líder religioso (hindu ou muçulmano, como já vi defender) é não compreender a realidade portuguesa e desconhecer totalmente a sua história. Há uma ligação entre o País (e o ocidente, em geral) e a Igreja que um Estado laico deve saber reconhecer. Um Estado laico não é sinónimo de um Estado anti-religioso, incapaz de compreender a dimensão pública da fé. E a crer nalgumas coisas que por aí têm sido escritas, dá ideia de que o Papa, não lhe sendo retirado o direito de viajar pelo mundo, devia ter, pelo menos, a decência de o fazer clandestinamente. De forma a não importunar ninguém. Porque o problema é que este Papa, em particular, importuna.


Constança Cunha e Sá, Jornalista