quarta-feira, 31 de março de 2010

Entrevista a Mons. Guido Marini, Mestre das Celebrações Litúrgicas Ponifícias

Entrevista concedida por Mons. Guido Marini,
Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias a Paolo Rodari, de Il Riformista
(Páscoa de 2008)
«A primeiríssima reacção foi de enorme surpresa e grande receio. Depois, vivi com algum nervosismo as vésperas da assunção do cargo, ao mesmo tempo que sentia imenso o distanciamento da minha diocese e da minha cidade, da minha irmã e da família, dos amigos, dos ambientes em que exerci, de modo particular, o meu sacerdócio: a cúria, o seminário, a catedral.
Simultaneamente, porém, senti-me muito honrado por ter sido chamado pelo Santo Padre a desempenhar o cargo de Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias. Senti imediatamente que a possibilidade que me era dada de estar junto do Santo Padre era uma verdadeira graça para o meu sacerdócio.»
É assim que Monsenhor Guido Marino, genovês de 42 anos, descreve a Il Riformista a sua chegada, em Outubro passado, ao Vaticano, para assumir o cargo de Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias, uma nomeação que lhe permite trabalhar muito de perto com o Santo Padre.
«Aquilo de que me apercebi no início do meu novo encargo foi claramente confirmado de todas as vezes que tive a graça de me encontrar com o Santo Padre. Estes encontros foram sempre e continuam a ser para mim motivos de grande alegria e de grande emoção. Nunca me teria passado pela cabeça, a mim, leitor atento e apreciador do Cardeal Ratzinger, que teria um dia a graça de estar tão perto dele como estou actualmente.
E depois, a par da profunda veneração que a figura do Papa suscita em mim, vivo a experiência do seu relacionamento humano sereno, fino e delicado, que me enche o coração de alegria e me convida a gastar-me com todas as minhas energias, colaborando com generosidade, humildade e fidelidade na aplicação do seu magistério ao âmbito litúrgico, no domínio das minhas competências.»
O cargo de Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias é um cargo importante porque, se é certo que lex orandi lex credendi (a Igreja crê naquilo que prega), dirigir as cerimónias papais com rigor e fidelidade às normas é dar um contributo para a fé de toda a Igreja.
«A liturgia da Igreja», explica Monsenhor Marini, «com as suas palavras, os seus gestos, silêncios e cânticos, leva-nos a viver, com singular eficácia, os diversos momentos da história da salvação, de tal modo que sejamos verdadeiramente participantes deles e nos transformemos cada vez mais em discípulos autênticos do Senhor, percorrendo de novo, com a nossa vida, os passos Daquele que morreu e ressuscitou para nossa salvação. A celebração litúrgica, quando é realmente participada, induz esta transformação, que é a história da santidade.»
Contributo importante para esta «transformação» poderá ser a recolocação, nas cerimónias papais, da cruz a meio do altar, como resíduo da antiga «orientação para Oriente» das igrejas, da sua orientação para o sol nascente, para Aquele que vem.
«A posição da cruz no centro do altar», refere Monsenhor Marini, «indica a centralidade do crucifixo nas celebrações eucarísticas e a precisa orientação interior que toda a assembleia é convidada a ter durante a liturgia eucarística: cada um olha, não para si, mas para Aquele que nasceu, morreu e ressuscitou por nós, para o Salvador.
É do Senhor que vem a salvação, Ele é o Oriente, o Sol nascente para onde todos devemos voltar o nosso olhar, de Quem todos devemos acolher o dom da graça.
A questão da orientação litúrgica nas celebrações eucarísticas, e a forma também prática que ela assume, tem enorme importância, porque veicula um dado fundamental, simultaneamente teológico, antropológico, eclesiológico e inerente à espiritualidade pessoal.»
O reposicionamento da cruz salienta que as praxes litúrgicas do passado devem continuar vivas.
«A liturgia da Igreja», observa Monsenhor Marini, «como aliás toda a sua vida, assenta na continuidade; eu diria que há um desenvolvimento na continuidade. O que significa que a Igreja procede no seu caminhar histórico, sem perder de vista as suas raízes e a sua tradição viva, circunstância que poderá exigir, em determinados casos, a recuperação de elementos, preciosos e importantes, que foram sendo abandonados, esquecidos pelo caminho, cujo significado autêntico o decurso do tempo tornou menos luminoso. Quanto tal acontece, não se dá um regresso ao passado no domínio litúrgico, mas um verdadeiro progresso, um progresso iluminado.»
E, neste progresso, não se pode deixar de mencionar o Motu proprio Summorum Pontificum: «Uma reflexão atenta no Motu proprio, tal como na carta de apresentação do mesmo dirigida pelo Papa aos bispos de todo o mundo, faz ressaltar uma dupla intenção. Antes de mais, a de promover uma “reconciliação no seio da Igreja” e, neste sentido, e como já foi dito, o Motu proprio é um belíssimo acto de amor à unidade da Igreja. Em segundo lugar, e este é um dado que não pode ser esquecido, a intenção de favorecer um enriquecimento recíproco entre as duas formas do Rito Romano, de tal maneira, por exemplo, que nas celebrações segundo o Missal de Paulo VI (a forma ordinária do Rito Romano) “possa manifestar-se, de maneira mais intensa do que até ao presente, a sacralidade que atrai muitos ao uso antigo”.»
Estes são dias importantes para a Igreja. Dias em que a Igreja revive a paixão, morte e ressurreição do Senhor. Dias de um tempo litúrgico importante para os fiéis, a Quaresma, a Semana Santa e por fim a Páscoa.
«A Quaresma», salienta o entrevistado, «é um tempo de sincera conversão, num clima espiritual de austeridade. Uma austeridade que não é um fim em si mesma, mas que visa facilitar a recuperação daquilo que é realmente essencial à vida humana. E o essencial é, acima de tudo, Deus. É por isso que a Quaresma é um tempo privilegiado de regresso a Deus de todo o coração, através da tríplice via da oração, do jejum e da esmola, como nos recorda a página evangélica da Quarta-Feira de Cinzas. É o tempo em que somos chamados a reviver interiormente, num arco de quarenta dias, a experiência do antigo povo de Deus peregrino no deserto, e a experiência das tentações por que Jesus passou.
No fundo, ambas as experiências nos conduzem a uma luta destinada a encontrar a Deus e a permanecer em íntima comunhão com Ele, a preservar o primado da Sua vontade na nossa vida, a não permitir que outra coisa que não Ele tenha a capacidade de nos absorver o coração.
Com a Páscoa, abrem-se novos cenários de espiritualidade, coroados de alegria exultante, de vida sobreabundante, de esperança luminosa; porque, com Cristo Ressuscitado, a morte foi vencida, o pecado e o mal deixaram de ter a última palavra na vida do homem, a feliz eternidade é uma perspectiva real, a vida tem sentido, descobre-se que a Verdade do rosto de Deus é o amor misericordioso que não tem fim.»

terça-feira, 30 de março de 2010

Alegria na vida e no Vaticano - entrevista com Guzmán Carriquiry

Alegria na vida e no Vaticano

Guzmán Carriquiry é o «decano» dos leigos na Cúria Romana e assegura que, para si, o Cristianismo sempre foi um «mais de felicidade»

Guzmán Carriquiry Lecour, Subsecretário do Pontifício Conselho para os Leigos, fala em entrevista da vivência da alegria no Cristianismo, particularmente relevante no tempo pascal. O “decano” dos leigos do Vaticano conhece de perto como se manifesta essa alegria em várias comunidades e movimentos, um pouco por todo o mundo, e fala dela na sua própria vida, após 38 anos na Cúria Romana.

Agência ECCLESIA (AE) – Como é que chegou ao Vaticano?

Guzmán Carriquiry Lecour (GCL) – Bem, eu sou uruguaio e por um desses mistérios da providência de Deus, que se ocupa também dos pequenos, acabei por trabalhar na Cúria Romana aos 26 anos. Vim a Roma por um ano, à experiência, e faz já 38 anos que estou na Santa Sé, agora como Subsecretário do Pontifício Conselho para os Leigos. Fui o primeiro leigo a ser chefe de departamento, com nomeação de Paulo VI, e também o primeiro subsecretário, por João Paulo II.

AE – Como se sente ao trabalhar há tantos anos na Santa Sé?

GCL – Vivo essa realidade como um dom, mesmo depois de 38 anos. Como um dom desproporcionado, desmesurado. Venho do país mais secularizado da América Latina e o que poderia pensar um jovem de 26 anos, acabado de formar, recém-casado e com um filho acabado de nascer, quando se encontra com o seu Arcebispo e dois Monsenhores que lhe dizem «Vem fazer uma breve experiência de trabalho na Santa Sé»? É uma coisa inimaginável, mas continuo com gratidão no coração por ser um pequeno servidor do sucessor de Pedro na Cúria Romana.

Lembro-me sempre que, quando cheguei, um velho Monsenhor me dizia duas coisas fundamentais - “Uma era: «aqui tens de fazer uma opção fundamental, ou serves o Papa ou te serves a ti próprio». Outra foi: «neste ambiente da Cúria, o fundamental é o que dizia um texto dos primeiros tempos apostólicos, olhar o rosto dos Santos e aprender com o seu testemunho».

É uma experiência totalmente apaixonante, muito mais do que um trabalho, porque implica a vida toda nessa missão, nesse serviço.

AE – Transformou o seu trabalho numa vocação?

GCL – Posso dizer que tomou conta da minha vida, da minha mulher, dos meus filhos e deu-nos uma grande alegria, marcou o nosso itinerário matrimonial e familiar. Por outro lado, a família e o casamento salvam, de certa forma, do abraço eclesiástico sufocante, por vezes. São o alimento e o apoio para todo o trabalho que faço e uma interpelação, muito crítica.

AE – É um homem feliz?

GCL – Felicíssimo. Realmente, o Cristianismo é um caminho de felicidade, é o caminho da felicidade. Cristo é a resposta ao desejo e à exigência de felicidade que temos no nosso coração, revela-a. O Cristianismo é sempre um “mais”, nunca um “menos” e é um “mais de felicidade”.


Pensamento do dia

«Molhando um bocado de pão, deu-o a Judas»
Quando o Senhor, Pão da Vida (Jo 6, 35), deu pão a este homem morto e marcado, entregando a quem traía o pão vivo, disse-lhe: «O que tens a fazer, fá-lo depressa». Não ordenava o crime; descobria o mal em Judas, e anunciava-nos o nosso bem. O facto de Cristo ser entregue não terá sido o pior para Judas e o melhor para nós? Por conseguinte, Judas prejudica-se, beneficiando-nos sem o saber.
«O que tens a fazer, fá-lo depressa.» Palavras de um homem que está pronto, não de um homem irritado. Palavras que não anunciam a punição de quem trai, mas a recompensa do Redentor, Daquele que resgata. Ao dizer: «O que tens a fazer, fá-lo depressa», Cristo, mais que condenar o crime de infidelidade, procura apressar a salvação dos crentes. «Foi entregue por causa das nossas faltas; como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela» (Rom 4, 25; Ef 5, 25). É isso que leva o apóstolo Paulo a dizer: «Amou-me e a Si mesmo Se entregou por mim» (Gal 2, 20). De facto, ninguém entregava Cristo se Ele mesmo não Se tivesse entregado. [...] Quando Judas O trai, é Cristo que Se entrega; um negocia a sua venda, o Outro o nosso resgate. «O que tens a fazer, fá-lo depressa»: não que tenhas poder para tal, mas porque é a vontade Daquele que pode tudo. [...]
«Tendo tomado o bocado de pão, saiu logo. Fazia-se noite». E aquele que saía era a noite. Então, quando a noite saiu, Jesus disse: «Agora o Filho do Homem foi glorificado!» «Um dia passa ao outro esta mensagem» (Sl 18, 3), ou seja, Cristo confiou-Se aos Seus discípulos para que O escutassem e O seguissem no amor. [...] Algo de semelhante acontecerá quando este mundo, vencido por Cristo, acabar. Então, o joio deixará de se misturar com o trigo, «então, os justos resplandecerão como o Sol, no Reino de seu Pai» (Mt 13, 43).

Santo Agostinho (354-430),
Sermões sobre o Evangelho de São João, 62, 63

segunda-feira, 29 de março de 2010

Catequeses quaresmais do Cardeal Patriarca de Lisboa



Catequese Do Cardeal

Um problema simples

DN 2010.03.29 JOÃO CÉSAR DAS NEVES

Portugal tem um problema simples: vivemos acima das nossas posses. A solução é também elementar: gastar menos. O endividamento anual, através do défice da balança externa, é de 10% do PIB. Isso não significa que cada um tenha de reduzir isso nas suas despesas, mas todos teremos de cortar alguma coisa. Não é o fim do mundo, só voltar a viver com o que vivíamos há dez anos. E não há volta a dar-lhe: desceremos quer queiramos quer não. Se descermos depressa será melhor. Se os ricos descerem mais, os pobres sofrerão menos.
Claro que há outras maneiras de compensar o desvio. Em vez de gastar menos, podemos sempre trabalhar mais. Ou melhor. Inovação e criatividade podem evitar- -nos grandes dietas. Na falta disso, a alternativa é ir vendendo as "pratas da família", numa decadência gradual e apática. Sem falar do perigo da espiral de juros, agravado pelas taxas penalizadoras que pagam os grandes caloteiros.
A causa de tudo isto é a antiga falácia de pensar que basta pertencer à Europa para viver como ela. Esta tolice, invocada desde a adesão em 1986, não foi levada a sério nos primeiros tempos. A Comunidade então era um desafio, não direito adquirido. Conscientes dos riscos, os nossos esforços viram-se recompensados. Nos primeiros dez anos, fomos o "bom aluno europeu", sempre no quadro de honra, convergindo com os parceiros.
Com o sucesso, a atitude mudou. O título de "marrão" passou a ser usado com ironia, mais como alcunha que mérito. O "bom aluno europeu" começou a cabular. Passado o último exame, ao entrar no euro, o antigo estudioso en-controu o meio para fingir que era mais europeu do que é: dívi- das a preço baixo. Temos já mais de 10 anos de bebedeira a crédito.
Na globalização actual essas ilusões pagam-se caro. Podemos pôr os olhos no nosso colega grego para antecipar a sorte que nos espera. Mesmo se a situação dele é muito mais ruinosa, as semelhanças são maiores do que queremos admitir. Afinal ele, sempre bem conhecido como o cábula da turma, foi ultimamente o nosso experiente companheiro de folias. Agora a factura foi-lhe apresentada e ameaçam fechar-lhe a conta corrente. Nos debates acerca das suas prestações o nosso nome é cada vez mais referido. Os taberneiros sabem da nossa camaradagem recente e começam a conversar sobre nós.
Como se disse, 10% do PIB é o buraco, e esse seria o corte imediato se nos fosse negado o crédito. Felizmente os nossos antigos pergaminhos, a pertença à União e ao euro concedem-nos alguma folga. Podemos adiar e fasear um pouco os sacrifícios. Mas temos de ser sérios nisso. Não podemos enganar nem enganar-nos: até saldarmos as dívidas estaremos debaixo da vigilância dos credores. E a sua paciência mostra-se crescentemente escassa.
A solução para os nossos problemas é, assim, fácil de formular. Infelizmente dois grandes obstáculos impedem a sua aplicação. O primeiro é a falta de clareza na admissão da situação por parte dos dirigentes. É espantoso como os principais responsáveis ainda resistem a abrir o jogo e assumir a evidência. As políticas de austeridade que avançam são sempre tímidas, ambíguas, disfarçadas. Continuam a tentar iludir dificuldades, arranjar desculpas, esperar soluções milagrosas, prometer almoços grátis. No Governo ou na oposição ninguém aparece a falar duro e a mostrar o custo inelutável.
O segundo obstáculo, agravado pelo primeiro, está na enorme dificuldade de divisão dos sacrifícios. Ninguém acredita que os custos estejam a ser partilhados justamente. Quem quer que sofra sente sempre que é o único e que muitos outros estão a fugir à restrição. Alguns até protestam ao verem os seus proveitos congelados, o que é mínimo face à dimensão do sacrifício necessário. O resultado é que muitos acabam por perder muito mais de 10% - desempregados, salários em atraso, empresas falidas, sectores em contracção -, enquanto outros se indignam por cortes menores, invocando que vivemos na Europa. Assim se atrasa o inevitável ajustamento.
O nosso problema económi- co é simples. Pena que poucos achem isso.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 28 de março de 2010

Procissão dos Ramos (Baixa - Chiado Lisboa)



ProcissDomingoRamos2010

28 de Março - Domingo de Ramos na Paixão do Senhor

Entrada de Jesus em Jerusalém
DUCCIO di Buoninsegna
1308-11
Tempera sobre madeira, 100 x 57 cm
Museo dell'Opera del Duomo, Siena


Liberdade, Igualdade e Fraternidade - Tópicos de reflexão quaresmal pelo bispo do Porto, D. Manuel Clemente



Microsoft Word - 1336 LIBERDADE Igualdade Fraternidade

sábado, 27 de março de 2010

Respeitinho

por Inês Teotónio Pereira, Publicado no ionline  em 27 de Março de 2010

À PARTIDA as crianças têm respeitinho. Respeitinho por tudo o que não lhes pertence, pela liberdade dos outros, pela dignidade humana, pela integridade física e por todos os direitos fundamentais que estejam em qualquer lista civilizada de direitos fundamentais.

À partida as crianças têm respeito por qualquer pessoa que seja mais alta, mais forte ou mais velha. E por quem tenha autoridade, direitos ou privilégios sobre ela.

Mas é só à partida. Logo ali, na casa da partida. Antes de os dados serem lançados. Porque logo a seguir, se quem manda não manda bem, se quem educa não dá o exemplo, se quem ensina não impõe regras e não dispõe de meios para as fazer cumprir, se quem brinca não o faz com gosto, se quem é mais velho se porta como uma criança, as crianças arrumam esse respeitinho chato e enfadonho bem lá no fundo da gaveta e esquecem-se de que alguma vez o conheceram.

É assim a vida do respeito: frágil. Ele tem mesmo de ser transportado com muito cuidado, e virado para cima, ou parte-se com uma simples queda ou empurrão. E uma vez em cacos, o respeitinho não consegue ser colado. Nem com cuspo, nem à força. O seu destino é o vidrão dos respeitos sem hipótese de poder vir a ser reciclado.

Desaparece, então, da vida das crianças. E depois, welcome to hell: ensinar, educar, brincar ou partilhar passam a ser desportos radicais só ao alcance dos mais audazes.

Do que o respeitinho precisa, meus senhores, não é de donos, é de quem o mereça receber. (Digo eu, que todos os dias me vejo às aranhas para não o partir).
Jornalista

quinta-feira, 25 de março de 2010

Febre da gripe

DESTAK | 24 | 03 | 2010   21.21H

João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Ainda se lembra da gripe A? Justificou a mais maciça campanha de informação, consciencialização e profilaxia da história nacional. Todas as instituições e edifícios públicos foram dotadas de cartazes, panfletos, salas de gripe e dispensadores de desinfectante.
Estado, empresas e cidadãos gastaram milhões nisso, além das despesas com especialistas em serviços de atendimento e milhões de doses de vacina. Foi sem dúvida uma das mais organizadas e exaustivas iniciativas públicas de sempre. As autoridades estiveram ao nível das exigências. Só a gripe não correspondeu às expectativas.

Não foi por falta de colaboração da imprensa, que se fez eco do mais pequeno aviso e empolou todos os medos, cautelas e informações. Políticos, comentadores e funcionários, todos entraram na febre da gripe. Mesmo agora jornais e televisões continuam a colaborar e não desistem de procurar afanosamente novos surtos para manter o nervosismo. O que faltam são doentes.
Houve pessoas afectadas e até mortes, como todos os anos na gripe habitual. A situação está longe da paralisante catástrofe anunciada. O país sofreu mais com a despesa que com a doença. Como muitos médicos diziam há muito em privado, o grau de alarmismo e movimentação era demente. Aliás, bastava comparar os esforços portugueses com os dos nossos parceiros para ver a diferença. Se Portugal tinha razão sobre o perigo gripal, então todos os outros países eram inconscientes.

Ninguém será responsabilizado por este enorme desperdício. Será que ao menos alguém aprenderá com ele?

Redondos vocábulos (II)

Público, 2010.03.25 Helena Matos
A palavra mentira foi banida. Aliás, as pessoas deixaram de mentir. Quando muito, dizem inverdades

Icebergue - O caso BPN era a ponta do icebergue da corrupção no mundo da banca. No Apito Dourado, só conhecíamos a ponta do icebergue dos podres do futebol. O processo Casa Pia era a ponta do icebergue dos abusos sobre menores. A Noite Branca era a ponta do icebergue do mundo da vida nocturna. O advogado de Manuel Godinho entendeu por bem dizer que o seu cliente é "a face visível de um icebergue". Se inventariarmos todas as pontas de icebergue que têm vindo à tona nos últimos anos, e tendo em conta que a ponta do icebergue representa apenas dez por cento da massa real do icebergue, teremos de perceber que já não existe espaço para o país propriamente dito e nem sequer para nós, pois está tudo ocupado pelos icebergues. Paulatina, mas inexoravelmente, os icebergues ocuparam todo o país e nós fomos ficando com a alma gelada.

Igualdade - Esta palavra é a mais eficaz password do nosso mundo. Por exemplo, os portugueses vão pagar mais impostos, mas, segundo o Governo, não vão pagar mais impostos. Vão, sim, corrigir desigualdades.

As mais destravadas leis e decisões tornam-se inquestionáveis se alguém conseguir apresentá-las como visando combater as desigualdades. Desde o fim das ladies night - pois as borlas para as mulheres representam uma desigualdade para os homens - até à imposição de quotas nos lugares de chefias das empresas, tudo serve para justificar ingerências estatais, desde que em nome da igualdade. De tudo isto resulta invariavelmente mais desigualdade, facto imediatamente contornado exigindo-se mais legislação para impor a igualdade. Quando a realidade, de todo em todo, insiste em irromper, como acontece no caso dos rankings escolares, em que todos os anos se prova que a escola pública apresenta maus resultados face à privada (e note-se que no ensino público o custo médio de um aluno é idêntico às mensalidades pagas no privado), logo surge a acusação de que esses rankings produzem uma "rotulagem excludente" dos últimos classificados. E claro que ninguém quer ser excludente, porque a exclusão, nesta gíria, resulta de não se ter insistido o suficiente na promoção da igualdade. E, assim, cada vez mais pobres e mais desiguais, andamos num frenesi a promover a igualdade.

Inverdades - A palavra mentira foi banida. Aliás, as pessoas deixaram de mentir. Quando muito, dizem inverdades, conceito que está para a verdade como o cinzento-escuro está para o cinzento-claro: é tudo uma questão de tonalidade do mesmo cinzento. Logo, podemos falar mais verdade, menos verdade, inverdade. Mas são tudo variantes da verdade. A mentira e os mentirosos deixaram oficialmente de existir.

Números - A ideia de que os números representam algo de aferível está ultrapassadíssima. Os números tornaram-se sim na expressão de estados de alma e não num retrato que se procura o mais exacto possível. Por exemplo, a última greve da função pública teve uma adesão de oitenta por cento para os sindicatos e de 13 por cento para o Governo. Por outras palavras, não se sabe o que fizeram ou não fizeram nesse dia 67 por cento dos funcionários. Na verdade, podiam ser estas percentagens ou outras quaisquer, pois os números tornaram-se numa espécie de bibelots que compõem as frases. Ninguém os confirma e muito menos se averigua o que significam: ao certo, o que quer dizer o anúncio pelo Governo, em Fevereiro, de que até 2020 serão criados cem mil postos de trabalho na área das energias renováveis? Isto se nos ativermos ao mês de Fevereiro, porque, no início de Março, os 100 mil passaram a 120 mil e, entretanto, já vão em 130 mil. O que de mais parecido alguma vez existiu em Portugal com esta fantasia numérica são aqueles capítulos da Peregrinação sobre as guerras no Oriente: dos elefantes aos homens, passando pelas lanças e pelos jarrões, tudo se contava por milhares.

A prosseguirmos nesta estranha forma de vida e ainda mais estranha forma de contar, poremos rapidamente as agências de rating no index, pelas heresias que produzem sobre esta religião dos milhões que em Portugal substituiu a realidade.

Pedofilia - Nesta terminologia, a pedofilia é um crime hediondo quando praticado por sacerdotes católicos e o encobrimento dos autores destes actos por parte do Vaticano merece toda a condenação. Se os autores dos actos pedófilos forem políticos, e muito particularmente políticos que saibam esgrimir com perícia os redondos vocábulos, deixa de ser adequado usar o termo pedofilia. Estamos perante casos prescritos, coisas que não interessam ou, no limite, cabalas. Por fim, se for praticada por artistas, a pedofilia deixa de ser crime, tornando-se num detalhe sem relevância no percurso sempre notável do dito artista.

Problemático - Um bairro problemático não é, como se poderia pensar, um espaço cujas casas têm problemas nos alicerces ou nos telhados, mas sim um conjunto habitacional que, regra geral, saiu muito mais caro do que o previsto, foi inaugurado por detentores de cargos políticos que discursaram sobre o esforço necessário à concretização daquele projecto e cujos residentes tiveram acesso a essas casas em condições muito favoráveis.

Um bairro torna-se problemático quando, após a festa da inauguração, volta a ser notícia por ali se tolerarem situações que nos outros bairros e ruas deste país são consideradas crime. Assistentes sociais, ONG e muitos gabinetes municipais fazem o enquadramento nestes bairros e as soluções propostas passam sempre por pedir mais assistentes sociais, mais dinheiro para as ONG e mais gabinetes municipais agora dotados da novel figura do mediador cultural, para assim continuarem a fazer o acompanhamento dos bairros problemáticos, que, por sua vez, se desdobram em escolas problemáticas e famílias problemáticas. Política e profissionalmente, o problemático é um território de grandes oportunidades para gente com ambições.

Tecnológico - Ninguém conseguiu explicar o interesse pedagógico da distribuição dos Magalhães na escola primária ou, noutro campo etário, a utilidade de computadores nas mesa dos deputados no plenário da AR. A tecnologia pela tecnologia é como os óculos de sol que umas pessoas espetam na cabeça nos dias mais nebulosos: não se sabe para que servem, mas dão estilo.
Ensaísta

25 de Março - Anunciação do Anjo a Nossa Senhora


Anunciação
Fra Angelico
(1440-41)
Fresco, 190 x 164 cm
Convento di San Marco, Florença

quarta-feira, 24 de março de 2010

Pensamento do dia

«Se permanecerdes fiéis à Minha palavra, sereis realmente Meus discípulos; então conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres»

«Eu sou o Senhor teu Deus que te tirei da terra do Egipto, da casa da servidão» (Ex 20, 2). Estas palavras não se dirigem apenas aos que já saíram do Egipto; dirigem-se sobretudo a ti que as ouves agora, se quiseres sair do Egipto. [...] Reflecte, pois: as coisas deste mundo e as acções da carne não serão essa casa de servidão e, ao contrário, a fuga às coisas deste mundo e a vida segundo Deus não serão a casa da liberdade, conforme o que o Senhor diz no Evangelho: «Se permanecerdes na Minha palavra, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres»?

Sim, o Egipto é a casa de servidão; Jerusalém e a Judeia são a casa da liberdade. Escuta o que o Apóstolo Paulo declara a este respeito [...]: «A Jerusalém que é do alto é livre; é a mãe de todos nós» (Gal 4, 26). E, da mesma forma que o Egipto, esta província terrestre, é chamada «casa de servidão» para os filhos de Israel relativamente a Jerusalém e à Judeia, que são para eles a casa da liberdade, assim também, relativamente à Jerusalém celeste que é, pode-se dizer, a mãe da liberdade, o mundo inteiro, com tudo o que ele contém, é uma casa de servidão. Houve outrora, para castigo do pecado, uma passagem do paraíso da liberdade à servidão deste mundo [...]; por isso a primeira palavra dos mandamentos de Deus diz respeito à liberdade: «Eu sou o Senhor teu Deus que te tirei da terra do Egipto, da casa da servidão».

Orígenes (c. 185-253), presbítero e teólogo
Homilias sobre o Êxodo, n° 8


Responder à crise

Raquel Abecasis, RR on-line 22-03-2010 09:14



Começou a Primavera! Depois deste Inverno tempestuoso, o sol e os dias mais longos ajudam a melhorar o humor nacional.



O ambiente que nos rodeia não tem sido o melhor, as notícias que nos chegam da política e dos políticos, da economia e dos economistas não nos deixam muita margem de manobra.

Mas a Primavera e o sol que, contra tudo e contra todos, brilha em Portugal como em mais nenhum país na Europa, devem ser para nós fonte inspiradora. Vivemos tempos em que a iniciativa própria e a imaginação são fundamentais para garantir o nosso futuro.

Os tempos de crise são também tempos de oportunidades que podemos e devemos agarrar.

Aproveitemos, pois, a energia da Primavera para tentar dar a volta à crise, ainda que a forma de o fazer tenha que passar à margem da economia formal.

Quando o poder político é fraco e incompetente e nos pede para viver sem respirar, cabe à sociedade civil encontrar as respostas para os seus problemas e tentar viver o melhor possível, sem depender do poder político e do Estado que nos quer devorar.



Raquel Abecasis

segunda-feira, 22 de março de 2010

O dedo e a lua

DN2010,0322 JOÃO CÉSAR DAS NEVES

"Quando o sábio aponta a lua, o tolo só vê o dedo." Este velho provérbio oriental é um excelente diagnóstico da nossa situação política, financeira, social, cultural, intelectual. O problema latente na atitude portuguesa é, há séculos, sempre criticar o mensageiro sem atender à mensagem.

O drama do consulado de José Sócrates, que monopoliza a vida nacional há muitos anos, é precisamente este. Quando surgiu no topo da cena nacional, em 2005, o sr. primeiro-ministro fez excelentes análises das nossas dificuldades, então atribuídas aos governos PSD. Mas, embora nunca deixando de criticar as mãos que o antecederam, Sócrates apontou a lua. Prometeu reformas decisivas, traçou planos ambiciosos, desafiou os instalados, apresentou coragem e iniciativa.

Em breve, porém, se notou que o Governo deixara de olhar para o céu e se centrava exclusivamente no seu próprio dedo. A questão absorvente era a imagem do Executivo, as críticas dos jornais, a permanência no poder. Multiplicavam-se os cargos nos gabinetes, projectos de favor, favores a amigos. Apesar disso, vivemos alguns tempos preocupados com as questões concretas, défice, desemprego, recuperação. Até começarem as críticas sérias ao Governo. E essas tratavam não da lua mas só do dedo.

As questões que interessavam à imprensa e oposição eram não se Sócrates governava bem mas se a sua licenciatura fora regular. A justiça nos crimes da Casa Pia e outros processos gravíssimos importava menos que o impacto disso nas lutas entre barões. A localização do aeroporto tornou-se mero joguete entre promessas e contrapromessas, esquecendo a discussão de, afinal, o que seria melhor. Só se falava de dedos.

Então, o Governo reagiu e, mais uma vez, em vez de discutir a mensagem, atacou os mensageiros. Nos vários casos, do Freeport à "Face Oculta", da TVI ao Sol, a questão não é nunca a substância da acusação mas a crítica aos métodos usados pelos acusadores. Grita-se e gesticula-se muito, mas a nuvem de suspeita permanece, porque nunca se esclareceu o fundo da questão. Até os próprios problemas da justiça não tratam de justiça, mas da própria Justiça.

Também no Orçamento para 2010 tivemos um exemplo excelente disto. O nosso défice subira muito em 2009 e, sem medidas duras, iria manter-se em 2010. Em vez de tomar essas medidas, tentou-se a esperteza saloia de empolar o valor do ano passado para poder fingir que desce este ano sem grandes custos. Se fosse só para Portugal, a coisa teria passado. O bluff falhou porque os mercados internacionais não ligam a dedos e olham sempre e só para a lua. Qual a reacção do ministério? Criticar Comissão, FMI, agências de rating e mercados. Mais uma vez trata apenas do indicador.

Infelizmente, a tolice básica ultrapassa em muito a deprimente saga política. Esta é mesmo a tradicional abordagem lusitana de insultar do árbitro em vez de chutar à baliza. Não interessa a lua, só o apito que aponta. Não é apenas no Parlamento, mas também nos cafés, que se ouve criticar a pessoa que fala como forma de responder ao que ela diz. É espantosa a quantidade de gente que acha mesmo que denegrir ou mostrar os interesses do orador basta como argumento para invalidar a veracidade e relevância do que afirma.

Na nossa vida cultural e intelectual, a evidência é a mesma. Temos poucos artistas marcantes, autores que perdurem, obras de referência. Mas existe enorme multidão de "agentes de cultura", catedráticos, investigadores, "promotores culturais", "cultos" em geral, que se exaltam e criticam mutuamente. A sua agitação gera muito calor e pouca luz. A nossa intensa vida cultural e científica raramente olha para a lua, limitando-se a comentar os dedos uns dos outros. Nos jornais é pior.

Quando em textos anteriores critiquei os intelectuais portugueses, recebi sempre o mesmo comentário inevitável: isso é também uma autocrítica. Claro que sim. Mas note-se como o comentário é típico de intelectual português: não adianta uma linha à compreensão da questão; limita-se a criticar o dedo que aponta a lua.

 

sexta-feira, 19 de março de 2010

Purga purificadora


Aura Miguel, RR on-line, 19-03-2010 08:40


Quando rebentaram os escândalos de pedofilia na Igreja dos EUA – situação gravíssima que afectou milhares de católicos, feridos e escandalizados pelo comportamento de alguns pastores – o normal (e até compreensível) seria esperar um fenómeno de afastamento por parte dos fiéis.

Alguns terão saído, mas impressiona-me a consistência dos que ficaram.
Bento XVI visitou os EUA pouco tempo depois destes escândalos e o testemunho de fé daqueles católicos que o acolheram é um exemplo para todos, especialmente agora, que somos assolados por novos escândalos do mesmo género.

Tal como aconteceu com os católicos norte-americanos, também nós somos chamados a verificar as razões da nossa esperança e a aprofundar a certeza da nossa pertença a Cristo.

Neste dia de São José, peçamos-lhe que esta espécie de purga tão dolorosa a que assistimos purifique a Igreja do que não presta e que deixe vir ao de cima o extraordinário manancial de santidade e misericórdia que a definem, apesar dos seus pecados.

Carta pastoral do Papa Bento XVI aos católicos da Irlanda



Cart Ado Pa Pair Land A

BENTO XVI, FÁTIMA E O CENTENÁRIO DA REPÚBLICA


Por uma muito feliz coincidência, o Papa Bento XVI visita Portugal, pela primeira vez nessa sua qualidade de sucessor de Pedro, no preciso ano do centenário da República. Sendo Fátima a principal razão da vinda do Vigário de Cristo à Terra de Santa Maria e etapa culminante desta sua visita pastoral, vem a propósito relembrar a atitude da primeira República em relação às aparições da Cova da Iria.

Como é sabido, não foi a Igreja que impôs Fátima, mas Fátima que se impôs à Igreja, na feliz frase do Cardeal Cerejeira. A instituição eclesial, desde o prelado diocesano até ao pároco local, olhou inicialmente com algum cepticismo para os acontecimentos de que eram protagonistas três crianças analfabetas, a mais velha das quais de apenas dez anos de idade. Mas, não obstante a sua prudente reserva original, a hierarquia não se opôs às manifestações da piedade popular, que imediatamente irromperam no local das aparições marianas. Mais tarde, a Igreja viria a reconhecer oficialmente o carácter sobrenatural do fenómeno.

Outra foi a atitude das autoridades públicas, na pessoa do então Administrador do Concelho, que era também Presidente da Câmara local e Juiz da respectiva comarca, cujo laicismo maçónico e acirrado anticlericalismo logo se fez sentir de forma brutal. Com efeito, à medida que crescia o número dos peregrinos, crescia também o seu ódio à religião católica e a sua feroz determinação em impedir que, no território sob a sua jurisdição, renascesse uma fonte da fé que o regime instaurado sete anos antes se propusera extinguir. Se, em nome da laicidade, seria desculpável a sua indiferença e, em nome da liberdade, seria de admitir a sua descrença, em nome da legalidade e dos mais fundamentais direitos humanos não eram minimamente aceitáveis os procedimentos então empregues pelo referido representante do poder central, autarca e magistrado judicial, com manifesto abuso de poder, contra os videntes, não obstante a sua pouca idade e a sua atitude civicamente irrepreensível.

Em nome da República e com a sua autoridade, o Latoeiro, alcunha por que era conhecido o então Administrador do Concelho de Vila Nova de Ourém, permitiu-se raptar as três crianças, sem o consentimento de seus pais, detê-las por algum tempo na prisão municipal, junto aos presos de delito comum, e, depois, aterrorizá-las com interrogatórios, ameaças de morte e torturas psicológicas que a mais severa e desumana polícia política não desdenharia. Todos estes comportamentos – escusado será dize-lo – tipificam acções puníveis pela lei e todos estes flagrantes delitos perpetrados contra os inocentes pastorinhos foram realizados por um representante do Estado republicano, no exercício das suas funções oficiais.

A Igreja em Portugal não quer certamente indemnizações, nem qualquer tipo de reparação pelas ofensas sofridas há quase um século por três dos seus mais egrégios fiéis, a Irmã Lúcia, de santa memória, e os Beatos Francisco e Jacinta Marto. Mas ao Estado português não lhe ficaria mal, no próximo 13 de Maio, pedir perdão à Igreja, na pessoa de Sua Santidade o Papa, pelas ofensas que a primeira República cometeu em geral contra a Igreja Católica e, em particular, contra os videntes de Fátima.

Em nome da justiça e da verdade, espera-se que o máximo representante da República portuguesa não deixe de aproveitar a imensa graça da visita do Santo Padre, para apresentar as desculpas a que o Estado português está moralmente obrigado. Em prol da reconciliação da República com a Igreja e para o bem de Portugal.

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Voz da Verdade, 201.03.19

Redondos vocábulos (I)

Público 2010.03.19 Helena Matos
Sobre o país estende-se o diáfano manto de uma linguagem psico-sociológica que tudo torna moralmente aceitável



Duas semanas a escrever sobre retornados (ainda hei-de voltar ao assunto, pois acumulam-se na minha secretária as histórias dos cooperantes, que um dia partiram para fazer o socialismo, receber um bom salário e acabaram a protagonizar histórias de desilusão e dor) e eis que constato que o país a que regresso não é o mesmo que deixei. Sobre ele estende-se o diáfano manto de uma linguagem psico-sociológica que tudo torna moralmente aceitável, desde que seja designado por um desses redondos vocábulos. 

Apoio psicológico
 - Há alguns anos, os alunos de uma universidade portuguesa resolveram integrar nas praxes a simulação do assalto a um banco. Pressurosa, a comunicação social avisava nos dias seguintes que os ditos jovens assaltantes já contavam com apoio psicológico. Desde então, a garantia de apoio psicológico não tem faltado, seja após a queda de pontes, despiste de automóveis ou o naufrágio de embarcações de pesca. Assim, quando a segurança falha ou os serviços funcionam mal, garantem-nos não investigação e apuramento das responsabilidades mas sim psicologia, como se tudo se resumisse a uma questão de comportamentos e não de responsabilidades. Prestar apoio psicológico aos cidadãos está mesmo a tornar-se na principal vocação do Estado português: numa rua onde passo todos os dias está uma sarjeta partida há mais de quatro anos. A junta de freguesia dessa zona tem gabinetes de apoio psicológico, terapia familiar, mediação familiar, formação parental, animação cultural para combater o isolamento, apoio a vítimas de violência doméstica e debullying. Arranjar sarjetas é que não está na sua vocação e creio que no dia em que algum carro se enfie na dita sarjeta ou que a mesma cause uma inundação nos garantirão apoio psicológico e dirão que a sarjeta nos sujeitou a bullying. 

Benefícios fiscais
 - O conceito de benefício fiscal tem de ser visto à luz da redução do cidadão a contribuinte. Aliás, os tribunais fiscais são o que de mais próximo temos hoje dos antigos tribunais plenários do Estado Novo para julgamento dos chamados crimes políticos: não se acredita que julgem com imparcialidade e, à partida, toda a gente é vista como culpada, até prova em contrário. As repartições de finanças são o único local onde as decisões não se contestam e o stress não existe. Sob esta perspectiva fiscal da sociedade, o que possuímos é o que sobra daquilo que o Estado não precisa. Logo, os benefícios fiscais não são propriamente benesses com que o Estado nos brinda mas sim momentos em que a repartição de Finanças concede que lhes entreguemos um pouco menos. Mas, pairando sobre a cabeça de cada contribuinte, está sempre a transitoriedade dessa tolerância a que, dobrando a língua, chamamos benefício e no fim da qual é suposto estarmos muito reconhecidos.

Bullying - Os estrangeirismos têm a extraordinária vantagem de nos mostrar em primeiro lugar que o problema não é só nosso. Depois transformam aquelas coisas que, em português, são muito cruas e directas, como a violência e a indisciplina, num conceito mais do que num facto, uma coisa algures entre o pensamento negativo e o pensamento positivo.

Uma criança de doze anos sai da escola e atira-se ou cai ao rio. Imediatamente, começa a discussão sobre o bullying: seria agredido? Agressor? Traquinas? Triste?... E ninguém se interroga sobre como é possível que não uma mas sim várias crianças tenham saído de uma escola sem que ninguém controlasse essas saídas. 

Nas escolas reais, públicas ou privadas, civis, militares, laicas ou religiosas, pode acontecer um acidente, um suicídio, uma agressão. Nas escolas dos redondos vocábulos, ninguém presta declarações sobre um aluno que saiu a meio das aulas e acabou morto nas águas de um rio. Mas amanhã os mesmos que agora se calam nessa escola, vão sentar-se em seminários sobre bullying organizados por direcções regionais e institutos, fazer acções nas escolas sobre bullying e integrar comissões preventivas de bullying. Os mais sortudos até se livrarão de vez de ter de dar aulas a alunos da escolaridade obrigatória e tornar-se-ão especialistas em bullying, ascendendo ao ensino superior, onde, por enquanto, não existe oficialmente bullying, ensinarão os futuros professores a lidar com o bullying e dir-lhes-ão para não serem preconceituosos nem terem ideias feitas sobre a disciplina que obviamente defendem que não deve ser imposta mas sim "nascer da interacção entre a criança e o meio". Entretanto, as portarias continuarão sem funcionários, os muros com palavrões escritos, os pátios sem vigilância e os funcionários ou professores que tentarem contrariar este estado de coisas a correrem o risco de serem enxovalhados pelos alunos ou respectivas famílias. E sobretudo a sua carreira registará negativamente essa incompreensão das "novas realidades articuladas com as vivências disruptivas" ou "formas de expressão não convencionais em meio escolar", como lhes lembrarão os outrora colegas que se tornaram especialistas em bullying.

Comissão multidisciplinar
 - Devíamos começar por saber que disciplinas integram as comissões multidisciplinares, e, em seguida, quem as integra, pois não há em Portugal problema que dispense uma comissão multidisciplinar, que se propõe inevitavelmente adoptar uma visão integrada dos problemas, de modo a perspectivá-los de uma forma global. Ao certo, ninguém sabe o que isto significa mas também ninguém sabe exactamente quem constitui as comissões multidisciplinares e onde funcionam. Para o futuro, comissão multidisciplinar ficará como sinónimo de estrutura sem rosto, cujos trabalhos nunca se sabe quando acabam e que, regra geral, nunca chegam a conclusão alguma. Mas também a função principal e creio que quase exclusiva das comissões multidisciplinares não é trabalhar, mas sim, nas situações de crise, servir de guarda-chuva aos detentores dos cargos públicos e políticos. 



Conhecimento informal
 - Aqueles dilemas morais sobre o que fazer quando uma determinada informação nos coloca problemas de legalidade ou honestidade são uma recordação do tempo em que os redondos vocábulos não eram lei. Agora o conhecimento formal versus o conhecimento informal permite-nos conjugar o melhor de dois mundos possíveis: tiramos vantagem do que sabemos mas não temos de assumir qualquer responsabilidade que daí advenha. O conhecedor informal não nega que conhece, simplesmente isenta-se das consequências desse conhecimento. A hipocrisia de tudo isto só é desmontada (por enquanto, mas também isso acabará) quando algo de incontornavelmente óbvio, como um cadáver, se atravanca no meio deste universo perfeito. Veja-se o caso da acta desaparecida na Escola Básica 2+3 de Fitares relatado pelo jornal i. Nessa acta devia constar a queixa de um professor de música sobre o comportamento dos alunos. Mas, na manhã de 9 de Fevereiro, o dito professor atirou-se ao Tejo e a pessoa que redigiu a acta omitiu o relato do colega sobre o que acontecia nas aulas. Aqueles que validaram esta acta optaram, tal como quem a escreveu, por ficar na segurança do conhecimento informal sem se comprometer com os aborrecimentos do conhecimento formal. A acta falava de visitas escolares e outras coisas aprazíveis que constituem o corpus do conhecimento formal. Agora, que são conhecidos os textos que o referido professor deixou sobre os vexames a que era sujeito pelos alunos, os professores exigem uma rectificação da acta, de modo a que seja incluída a queixa do professor de música. Ou seja, exigem que passe a conhecimento formal o que todos estavam fartos de saber mas que, para consolo das consciências e sedativo do dia a dia, só se conhecia informalmente. Mas agora não só a acta desapareceu como a directora do agrupamento escolar de Fitares não autoriza a sua rectificação, enquanto a escola não receber a visita do instrutor da Inspecção-Geral de Educação. Já não é apenas uma questão de conhecimento formal e informal.
É sim de não reconhecimento do direito à realidade. Ensaísta

quinta-feira, 18 de março de 2010

ILUSÃO


DESTAK | 17 | 03 | 2010   18.32H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Neste ambiente de crise e austeridade vive-se uma grande ilusão de óptica que é preciso acautelar: os que protestam não são as vítimas da situação.
Nos países europeus existe a antiga tradição de manifestações públicas, consideradas sinal de saudável vida democrática. Mas em Portugal, como na Europa, raramente se vêem manifestações de pobres e desempregados, empresários falidos e imigrantes, trabalhadores temporários e explorados.
Os que foram atingidos em cheio pela recessão estão silenciosos e resignados. Não se podem dar ao luxo de protestar. São outros grupos, bastante diferentes e protegidos, que vêm para a rua e jornais expressar a sua zanga sobre a forma como a evolução económica e opções políticas os têm tratado.
Os gritos que se ouvem são em defesa de direitos adquiridos, promessas não cumpridas, expectativas defraudadas. Não vêm dos que não têm direitos, não ouviram promessas, não sentem expectativas. Fala-se muito desses, mas apenas como figura de retórica, na argumentação em defesa dos privilégios dos outros.
Entretanto os que protestam têm emprego garantido, regalias seguras e estatuto estável. É verdade que foram atingidos pelas medidas de austeridade mas, mesmo depois delas, ainda estão muito melhor que a maioria da economia, que vive horas de angústia e incerteza sem gritar.
Até se pode dizer, suprema ironia, que em alguns casos foi por causa das reivindicações dos que gritam que nasceu o descalabro orçamental. Assim, em grande medida, são os manifestantes os responsáveis pela crise.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O Mensageiro das Estrelas foi escrito para causar sensação e agora está em português

Público, 2010.03.17
Chama-se Sidereus Nuncius ou oMensageiro das Estrelas. São apenas 60 páginas, mas mudaram o modo de encarar o Universo e o lugar do Homem no século XVII. Hoje a primeira obra de Galileu Galilei é apresentada pela primeira vez traduzida do latim para português, pela mão do físico e historiador da ciência Henrique Leitão, com a chancela da Fundação Calouste Gulbenkian.Por Ana Machado


É o primeiro livro escrito por Galileu. Depois de ter construído e experimentado o primeiro telescópio, em 1609, o pai da astronomia moderna não conseguiu conter o mundo novo que descobriu do outro lado da luneta. E quis escrever sobre isso. Foi a única vez que escreveu um livro em latim. Portugal esperou 400 anos para o ler em português. Isso é possível a partir de hoje, depois de a Fundação Calouste Gulbenkian ter decidido aceitar um desafio proposto pela organização portuguesa do Ano Internacional da Astronomia (AIA) e pelo físico e historiador da ciência Henrique Leitão para traduzir, pela primeira vez, uma obra de Galileu para o português de Portugal.

"É um livrinho", descreve Henrique Leitão, folheando as 30 folhas que constituem a primeira obra de Galileu. O livro, hoje lançado às 18h00 na Fundação Calouste Gulbenkian, tem mais folhas que isso, uma vez que conta com a tradução, um estudo crítico e ainda uma nota de abertura de luxo, assinada por Sven Dupré, a maior sumidade mundial em matéria de telescópios de Galileu.

Mas, sendo "um livrinho", Henrique Leitão não tem dúvidas em afirmar sobre esteMensageiro das Estrelas: "Foi feito para causar sensação. Está escrito como se de notícias rápidas se tratasse, quase em estilo jornalístico. Ele não se dirige às elites. Queria chegar às pessoas comuns. E queria chegar também a toda a Europa. Ele era um divulgador de ciência", diz o investigador, justificando a opção pelo latim. Nas obras seguintes, Galileu optará pelo italiano. "Para além disso, dedicando o livro ao grão-duque Cosme II de Medici, acaba por arranjar emprego, ele que era professor mas que não gostava de dar aulas, que queria dedicar-se à astronomia e à observação do Universo. Daí Sven Dupré dizer, na introdução, que este livro é "uma candidatura a um emprego"."

E é em homenagem ao espírito divulgador de Galileu que Henrique Leitão lança o desafio que espera ser aceite pelo público português: "A minha sugestão é que as pessoas leiam directamente o que Galileu escreveu. E entende-se tudo. Ele escreveu de um modo muito acessível. Pela primeira vez podemos comprovar isso através da leitura em português. E o estudo crítico torna esta leitura ainda mais divertida."

Um universo desconhecido

Este é o livro onde Galileu, depois de ter iniciado as primeiras observações com telescópios construídos por si próprio, anotou aquilo que descobriu. E o que Galileu descobriu veio inaugurar a astronomia moderna. "O livro, embora pequeno, abre uma perspectiva infinita para um novo Universo", diz Henrique Leitão. "As descrições das fases da Lua e o facto de ter montanhas e vales, o facto de relacionar o tamanho das estrelas com a distância a que elas se situam e de haver muito mais estrelas do que as 1022 que eram consideradas no catálogo de Ptolomeu. E ainda as "estrelinhas" que andavam à volta de Júpiter, os satélites, a que chamou estrelas mediceias, em homenagem aos Medici. Hoje sabemos que são planetas. Há 65 imagens sobre tudo isto no livro original. Nunca ninguém tinha abordado este problema desta maneira e a evidência visual é muito persuasiva. Num século XVII onde se pensava que o céu era algo absolutamente familiar, ele veio provar que havia um imenso e admirável universo desconhecido."

Tudo, explica Henrique Leitão, graças a "esse instrumento que veio aumentar os sentidos", ou seja, o telescópio. "Galileu transforma a sua casa numa pequena fábrica de telescópios para conseguir ultrapassar o problema que tinha de validação pelos pares. Como é que ele explicava que havia satélites em torno de Júpiter, se não tornasse possível a todos observarem o mesmo que ele via?"

É para celebrar esta entrada na astronomia moderna inaugurada pelas primeiras observações com o telescópio de Galileu que João Fernandes, coordenador do Ano Internacional da Astronomia em Portugal, decidiu integrar o lançamento da tradução deO Mensageiro das Estrelas
 na cerimónia de encerramento do AIA, que decorre hoje na Fundação Calouste Gulbenkian.

"O AIA marca as primeiras observações feitas com um telescópio por Galileu, em 1609. E em 1610 essas observações continuaram a acontecer, ano em que Galileu escreveu este livro. É uma obra muito importante, marca a metodologia moderna da astronomia. O que hoje fazemos ainda é replicar o que Galileu nos ensinou. Pode-se dizer que esta é a obra fundacional da astronomia moderna", diz João Fernandes, que observa que esta tradução já devia ter acontecido antes e que o trabalho prévio feito por Henrique Leitão no estudo sobre a obra e sobre Galileu tornou possível apresentar
 O Mensageiro das Estrelas hoje em português.

Astronomia portuguesa

Na cerimónia de encerramento é também inaugurada uma mostra -
 A astronomia no Portugal de hoje -, comissariada pelo astrónomo António Pedrosa, director do planetário do Centro Multimeios de Espinho, onde se faz o retrato da astronomia actual em Portugal. "Temos entre 50 a 60 astrónomos profissionais em Portugal; há 30 anos tínhamos dois ou três. E a astrofísica é a área com mais impacto na produtividade científica nacional", sustenta João Fernandes. 

Há ainda uma maqueta que explica como vai ser o European Extremely Large Telescope ou E-ELT, o telescópio de grandes proporções que a Agência Espacial Europeia está a construir, e como funciona o ESO, o Observatório Europeu do Sul, a que Portugal pertence. No âmbito das palestras que decorreram ao longo do ano, sobre as Fronteiras do Universo, será ainda atribuído um prémio à melhor pergunta de astronomia colocada pelos alunos do básico e secundário que assistiram às palestras.

Os escândalos da pedofilia

por Marcello Pêra,
italiano, filósofo agnóstico e senador.
Publicado no Corriere della Sera 17.III.10

 

Caro Director,

A questão dos padres pedófilos e homossexuais que surgiu recentemente na Alemanha, tem como alvo o Papa. Cometer-se-ia, no entanto, um grave erro se pensássemos que o golpe não conseguiria atingir o alvo, dada a enormidade da iniciativa. E seria um erro maior ainda se se considerasse que a questão será rapidamente ultrapassada, como tantas outras. Não é assim. Está em curso uma guerra. Não apenas contra a pessoa do Papa porque, nesse campo, a guerra é impossível. Bento XVI tornou inexpugnável na sua imagem, na sua serenidade, na sua limpidez, firmeza e doutrina. Basta o seu sorriso manso para derrotar um exército de adversários.

Não, a guerra é entre o laicismo e o cristianismo. Os laicistas sabem que se um esguicho de lama atingir a batina branca, conseguir-se-á sujar a Igreja e, se se sujar a Igreja, então ter-se-á também sujado a religião cristã. É por isso que os laicistas acompanham a sua campanha com perguntas como: "Quem mandará ainda as suas crianças à Igreja?", ou, "quem mandará ainda os seus filhos para um colégio católico?", ou mesmo, ainda, "quem irá tratar os seus filhos num hospital ou clínicacatólica? ". Há alguns dias atrás, um laicista deixou escapar a sua intenção. Escreveu assim: "a extensão da difusão do abuso sexual de crianças por padres põe em causa a própria legitimidade da Igreja Católica, como garante da educação dos mais pequeninos." Não importa que esta sentença não tenha provas e esteja cuidadosamente escondida sob a fórmula "extensão da difusão": um por cento de padres pedófilos? Dez por cento? Todos? Não importa que a sentença seja desprovida de lógica: basta substituir "sacerdotes" por "professores", ou por "políticos", ou por "jornalistas" para "minar a legitimidade" das escolas públicas, dos parlamentos ou da imprensa. O que importa é a insinuação, mesmo à custa da grosseria do argumento: os padres são pedófilos, assim a Igreja não tem autoridade moral, logo a educação católica é perigosa, pelo que cristianismo é uma fraude e um perigo.

Esta guerra do laicismo contra do cristianismo é uma batalha campal. Deve-se trazer à memória o nazismo e o comunismo para encontrar uma situação similar. Mudam os meios mas o fim é o mesmo. Hoje, como ontem, o que se pretende é a destruição da religião. Na altura a Europa pagou o preço por esta fúria destrutiva com a sua própria liberdade. É incrível que, especialmente na Alemanha, enquanto se bate continuamente com a mão no peito devido à memória do preço que se infligiu por toda a Europa, na Alemanha que hoje é uma democracia, se esqueça e não se entenda que a própria democracia estaria perdida se o cristianismo fosse apagado. A destruição da religião comportou então a destruição da razão. E hoje não significará o triunfo da razão laica, mas uma nova barbárie. Sobre o plano ético aí está a barbárie de quem mata um feto porque a sua vida seria prejudicial para a saúde psíquica da sua mãe. De quem diz que um embrião é um "monte de células" bom para experiências cientificas. De quem mata um velho porque ele já não tem uma família que o trate. De quem apressa o fim de um filho porque não está consciente e é incurável. De quem pensa que "progenitor A" e "progenitor Pai B" é o mesmo que "pai" e "mãe". De quem acredita que a fé é como o cóccix, um corpo que já não participa na evolução porque o homem não já não precisa da cauda e está erecto por si mesmo. E por aí adiante. Ou então, e considerando o lado político da guerra dos laicistas ao Cristianismo, a barbárie será a destruição da Europa. Porque, abatido o cristianismo, permanecerá o multiculturalismo, que acredita que cada grupo tem direito à sua cultura. O relativismo, que pensa que cada cultura é tão boa quanto qualquer outra. O pacifismo, que nega que o mal existe.

Esta guerra ao cristianismo não seria tão perigoso se os cristãos a compreendessem. Em vez disso, todas estas incompreensões envolvem muitos deles. Teólogos frustrados pela supremacia intelectual de Bento XVI. Bispos inseguros que consideram que qualquer compromisso com a modernidade é o melhor modo de actualizar a mensagem cristã. Cardeais, em crise de fé, que começam a sugerir que o celibato dos sacerdotes não é um dogma, e que talvez fosse melhor reconsiderá-lo. Intelectuais católicos felpudos que pensam que há uma questão feminina dentro da Igreja e um problema não resolvido entre o cristianismo e sexualidade. Conferências episcopais que se enganam na ordem do dia e que, enquanto esperam por uma politica de fronteiras abertas para todos, não têm a coragem de denunciar as agressões que os cristãos sofrem e as humilhações que são forçados a provar ao serem todos, indiscriminadamente, sentados no banco dos réus.

Ou ainda aqueles chanceleres vindos dos países de leste que exibem um belo ministro homossexual enquanto atacam o Papa sobre qualquer assunto de natureza ética,ou aqueles que nasceram no ocidente e que pensam que o ocidente deve ser laico, isto é, anti-cristão. A guerra dos laicistas continuará, senão por outra razão porque um Papa como Bento XVI, que sorri mas que não se afasta um milímetro, a alimenta. Mas se se perceber porque é não se afasta, então toma-se o assunto em mãos e não se espera o próximo golpe. Quem se limita unicamente a solidarizar-se com ele é como alguém que entra no Jardim das Oliveiras de noite e em segredo, ou como alguém que não entendeu o que está a acontecer.

 

terça-feira, 16 de março de 2010

Pensamento do dia

«Levanta-te, toma a tua enxerga e anda»

Nosso Senhor foi à piscina de Betzatá; encontrou um homem doente há trinta e oito anos, e disse-lhe: «Queres ser curado?» [...] Meus filhos, reparai bem que este doente permaneceu ali longos anos. Este doente estava destinado a servir a glória de Deus, e não a morte (Jo 11, 4). Oh, se quiséssemos esforçar-nos por compreender, em espírito de verdadeira paciência, o ensinamento profundo contido no facto de o doente ter esperado trinta e oito anos que Deus o curasse e ordenasse que se fosse embora!

Isto destina-se às pessoas que, mal começando uma vida ligeiramente diferente e não vendo produzir-se de imediato as grandes coisas esperadas, crêem estar tudo perdido e se queixam de Deus como se Ele as tratasse injustamente. São poucos os homens que possuem esta nobre virtude de se abandonarem e se resignarem, que se aceitam como são e suportam a própria enfermidade, os próprios obstáculos e as próprias tentações, até que o próprio Senhor os cure. [...] Que poder e que autoridade são dados a este homem! Na verdade, é a ele que é dito: «Levanta-te, não podes continuar deitado, deves sair triunfante do cativeiro, ser salvo e andar em total liberdade; levarás a tua cama, ou seja, aquilo que antes te levava a ti, e deves erguê-la e levá-la agora com autoridade e força.» Aquele que o próprio Senhor libertar será bem libertado, andará cheio de alegria e, após esta longa espera, obterá uma liberdade maravilhosa, de que são privados todos os que julgam que se libertam a si mesmos quebrando os seus laços antes do tempo.
Jean Tauler (c. 1300-1361), dominicano de Estrasburgo 
Sermão 8