sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Pe. Kondor "desarmava-nos com a sua amizade"

Aura Miguel

RR on-line 30-10-2009 09:57

Vai hoje a sepultar um dos maiores embaixadores de Fátima, um grande amigo de Nossa Senhora e dos pastorinhos. Apesar de húngaro, o seu coração era bem português.

O Padre Kondor foi durante décadas confidente pessoal da própria Irmã Lúcia. Foi graças a ele que a vidente esclareceu muita gente sobre a mensagem que tinha recebido do céu, a começar pela publicação em várias línguas das suas Memórias.

Era amigo de João Paulo II e, sobretudo, do seu secretário Mons. Stanislaw Dziwisz - hoje cardeal de Cracóvia - e bateu-se, como ninguém, pelas visitas do papa a Fátima. Amigo pessoal do cardeal Meisner de Colónia e do cardeal Raztinger foi também graças a ele que eu própria conheci em Fátima o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Quando em 1996, o cardeal Ratzinger veio a Portugal, e foi depois ao Carmelo de Coimbra para se encontrar com a Irmã Lúcia, no final, o Pe. Kondor veio ter comigo e disse-me: Quer vir almoçar connosco?

Era assim, o Padre Kondor: raramente nos dava uma notícia, mas desarmava-nos com a sua amizade, ao ponto de – no meu caso - sentar-me à mesa e almoçar com o cardeal Ratzinger.

A prioridade máxima do seu coração era Nossa Senhora e os Pastorinhos. Por isso, não tenho dúvidas, que agora é no meio deles – lá no céu – que o Pe. Kondor vislumbra a plenitude do amor de que Fátima é sinal.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Inquisição

DESTAK |29 | 10 | 2009 08.30H
João César das Neves |
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

José Saramago volta a atacar grosseiramente a fé cristã. Se alguém lesse os livros dele como ele lê a Bíblia também não perceberia nada. Isto não é propriamente novidade, pois há muito se mostra perturbado pelo tema.

O escritor tem todo o direito às suas convicções. Graças aos 87 anos e prémio Nobel, também parece ter o direito de atacar as dos outros. Está isento dos requisitos de respeito e tolerância exigidos aos cidadãos civilizados. Aliás, segundo alguns, os católicos até deviam ficar agradecidos por serem insultados por tão supina entidade.

A reacção dele é: «O que me vale é que já não há fogueiras em São Domingos» (Expresso, 24/Outubro). E a nós, o que nos vale é que aqui não haja gulagues da URSS, purgas soviéticas, massacres estalinistas, maoistas e afins. Saramago teme acontecimentos com vários séculos, aberrantes na história da Igreja, repudiados pela generalidade dos cristãos e sempre empolados e recordados pelos ateus. Nós lembramos perseguições que só foram interrompidas na Europa há poucos anos e ainda perduram nos países comunistas; que fazem parte da estratégia própria da ditadura do proletariado e destruíram muitíssimo mais gente que os esparsos e morosos processos da Inquisição.

É bom lembrar ao grande autor que o agressor é ele. Insulta, é aclamado e depois ainda se queixa. Vivemos num mundo onde, no tema da religião, são os que atacam que acabam protegidos e beneficiados. Resta a consolação de, ao menos no longo prazo, estas atoardas acabarem por classificar quem as faz e não aquilo que atacam.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Caim bolchevique

Muito se tem escrito e dito sobre o mais recente opúsculo do Nobel português mas, na realidade, não se percebe a razão, porque nesta sua última ficção literária, o escritor iberista não apresenta nada de novo. Pelo contrário, é mais do mesmo. Com efeito, não é de estranhar que o autor do falso «Evangelho segundo Jesus Cristo» manifeste, mais uma vez, o seu desdém pela Bíblia, palavra de um Deus em que não crê, e que, por isso, de novo arremeta contra as religiões em geral e a católica em particular, sua inimiga de longa data e muita estimação.

É verdade que alguns cristãos ficaram incomodados pela recorrente deturpação dos textos sagrados e pela falta de respeito pela liberdade religiosa que uma tal atitude evidencia. Mas reconheça-se, em abono da verdade, que o criador desta mistificação, com laivos auto-biográficos, não podia ter sido mais sincero nem coerente com a teoria política que tão devotamente segue. Com efeito, que outra personagem, que não Caim, poderia personificar melhor a ideologia em que se revê o galardoado autor?! Não é o irmão de Abel a melhor expressão bíblica do que foi, e é, o comunismo para a humanidade?

O ilustre premiado com o ignóbil prémio Nobel acredita que Caim nunca existiu, o que é, convenhamos, um acto de muita fé para quem se confessa ateu, até porque não tem qualquer evidência científica dessa suposta inexistência em que tão dogmaticamente crê. Mas decerto não ignora a realidade histórica de muitos outros Cains – Lenine, Estaline, Mao, Pol Pot e outros diabretes de menor monta – todos eles sobejamente conhecidos pelas atrocidades a que associaram os seus nomes e a sua comum ideologia.

À conta do Caim bíblico, agora reabilitado, por obra e graça deste seu oficioso defensor, pretende redimir os não poucos Cains que lhe são doutrinal e eticamente afins, mas a verdade é que o pretenso carácter mítico daquele não faz lendários os crimes destes seus comparsas mais modernos, até porque esta sanha fratricida ainda hoje impera, impunemente, na China, no Tibete, no Vietname, na Coreia do Norte, em Cuba, etc.

Mas não é só Caim que é um mito para o ortodoxo militante comunista, pois Deus também não existe (em todo o caso seria sempre um segundo Deus, porque o primeiro é, como é óbvio, o próprio escritor), e a Igreja Católica mais não é do que uma aberração. Mas, se assim é de facto, porque se incomoda tanto com a inexistente divindade e a pretensamente caduca instituição eclesial?! Será que, apesar de não acreditar em bruxas, no entanto nelas crê e teme?! Ou, melhor ainda, será que se está finalmente a converter, senão num cristão convicto, pelo menos num ateu não praticante?! Deus, que crê também nos que n'Ele não crêem, o queira…

Sem a Bíblia seriamos diferentes? Sem dúvida. Melhores? Duvido, porque todas as grandes tiranias do século XX – o fascismo, o nazismo e o comunismo – foram e são visceralmente ateias e, pelo contrário, todas as grandes gestas de justiça social são cristãs, como católica é também a maior rede mundial de assistência aos mais necessitados. Mas uma coisa é certa: sem o marxismo seriamos hoje muitos mais, concretamente mais cem milhões de mulheres e homens, tantos quantas foram as vítimas do comunismo em todo o mundo (cf. Stéphane Courtois, Le livre noir du communisme, Robert Laffont, 1998, pág. 14).

Gonçalo Portocarrero de Almada

As afirmações religiosas do ateu José Saramago

João Miguel Tavares

DN 20091029

No frente-a-frente televisivo entre José Saramago e o padre Carreira das Neves, o escritor português defendeu o "direito à heresia". Carreira das Neves respondeu, e muito bem, que Saramago não pode ser herético se não acredita em Deus. Tivesse o nosso Prémio Nobel da Literatura mais cuidado com as palavras e perceberia que aquilo que está a defender é, isso sim, o direito à blasfémia, já que a heresia é um afastamento da verdade "oficial" de uma religião, e por isso pressupõe a existência de fé. Foi apenas um lapsus linguae do autor de Caim? Infelizmente, não. Foi a consequência natural de uma posição absurda, que Saramago resumiu na bombástica frase: "A Bíblia é um manual de maus costumes."

Não está aqui em causa o direito de Saramago dizer o que lhe apetece, como é óbvio. Mas está em causa o atropelamento de toda a lógica quando alguém que se assume como ateu faz um comentário sobre um livro de uma perspectiva religiosa. Muito boa gente criticou Saramago afirmando que a Bíblia não pode ser lida de forma literal, que também está cheia de gestos de bondade, e mais uma série de argumentos muito atinados mas que passam ao lado do essencial: um ateu pode perfeitamente dizer que a Bíblia é um manual de má literatura; não pode é dizer que é um manual de maus costumes.

Só quem acredita que a Bíblia tem alguma relação com a palavra de Deus está habilitado para sobre ela fazer considerações éticas. Eu preciso de ter fé para acreditar que naquele livro está não só um conjunto de palavras mas uma série de regras que eu imponho à minha vida. A maior parte dos cristãos dirá que a Bíblia é um manual de bons costumes. Mas seja para dizer que os costumes são bons, seja para dizer que os costumes são maus, é preciso acreditar no "poder ético" daquele livro, ou seja, na transformação da palavra em acção. Ora, um ateu necessariamente não acredita nessa transformação, e por isso tem de olhar para a Bíblia como olha para outro livro qualquer: estética e nada mais.

Portanto, faz tanto sentido o ateu Saramago dizer que "a Bíblia é um manual de maus costumes" como faria dizer que "as obras de Shakespeare são um catálogo de barbaridades". De Homero a José Saramago, a literatura faz-se de grandes páginas a relatar os actos mais hediondos, e ninguém evidentemente acha que isso seja um defeito. Se para o nosso Prémio Nobel, Caim, Deus ou Jesus são apenas personagens de ficção, que sentido faz considerá-las maus exemplos de vida? Saramago está convencidíssimo de que Deus não existe, mas também está convencidíssimo de que Deus é um pulha. A isto chama-se a lógica da batata. Espero que Saramago escreva um livro sobre ela um dia destes.

Frase do dia

A nós não nos cabe decidir o que acontece. Tudo o que nos cabe decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado

Gandalf a Frodo em "A irmandade do Anel"
J. R. Tolkien

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Em vias de extinção

João César das Neves

DN, 20091026

Há poucos dias, um diário de referência anunciava gravemente: "Casamentos católicos caem 62% em apenas uma década" (DN/8 Out.). O texto comentava dados do recente Anuário Católico de Portugal publicado pela Conferência Episcopal. O artigo enganou--se nas contas, porque a queda, sem dúvida acentuada, foi bastante inferior: 46,7% no País e 58,6% no Patriarcado de Lisboa. Além disso parece não se dar conta de que compara realidades incongruentes.

A forte mudança na estrutura demográfica nestes dez anos recomenda muitas cautelas na interpretação de tais taxas. Uma olhadela às tendências de fundo basta para reforçar esses cuidados. Segundo o INE, a percentagem de casamentos católicos desce paulatinamente há 50 anos. Mas nos finais da década de 1990 acelerou subitamente, passando de 67% do total em 1998 para menos de 48% em 2007. Quem lida com fenómenos demográficos sabe que movimentos bruscos destes não se devem à evolução normal, mas a choques específicos.

Há vários suspeitos óbvios. Não só o total de casamentos se reduziu fortemente, caindo para metade de 1977 a 2007 e 30% desde 1997, mas nesse período entraram em Portugal mais de 220 mil imigrantes. Como são em geral jovens, casadoiros e vêm de países não católicos, isso justifica grande parte do fenómeno.

Infelizmente o texto não evita a tentação de avançar uma explicação, e caiu na mais simples e enganadora: "A menor religiosidade das pessoas." Isto contraria os resultados da Sociologia da Religião, que apontam precisamente a tendência oposta. As pessoas não estão a diminuir a sua religiosidade, mesmo quando reduzem a adesão a cultos formais. Aliás o próprio artigo se dá conta de algo estranho, ao afirmar: "Curiosamente, noutros marcos importantes da vida religiosa dos crentes, como baptismo, primeira comunhão ou crisma (confirmação do baptismo), a descida não é tão acentuada." Isto só é curioso para quem não entende o que está a acontecer e, mais uma vez, não nota que o número de nascimentos não é comparável. O número de baptizados em Portugal é estável há 25 anos, caindo a percentagem por causa dos imigrantes.

O que é mesmo curioso é ninguém ter relacionado a notícia citada com outro artigo próximo: "Natalidade volta a diminuir nos primeiros nove meses deste ano" (Público, 14/Out.). Essas estatísticas vêm do "teste do pezinho" e o especialista citado prevê que "em 2009 o número de nados-vivos não chegue sequer aos cem mil". Diz--se "assustado" com isto, mas deve ser o único. Entre os responsáveis ninguém parece perturbado com a dinâmica, que é, sem dúvida, das mais determinantes para o nosso futuro.

Portugal, que desde 2007 tem mais mortes que nascimentos, regista hoje uma taxa de fertilidade bastante inferior à baixa média europeia, em clara decadência demográfica. Se mais uma vez descontarmos os filhos de imigrantes, vemos que estamos num dos níveis de natalidade mais baixos do mundo. Os portugueses são actualmente uma raça em vias de extinção.

Perante isto, a atitude das autoridades roça a incompetência criminosa. O Governo, que no Programa de 2005 nem sequer citava a evolução demográfica, seguiu nestes quatro anos uma linha política bem clara, de agravamento da situação. Financiando abortos, facilitando divórcios e fomentando o casamento de homossexuais, pode dizer-se que a política é um importante factor na promoção da desgraça. Ela é o suspeito que falta.

Que se podia ter feito para enfrentar a questão? Em tema tão básico e pessoal, como envolver os ministros? Todos os nossos parceiros europeus, embora em situações bastante menos graves, há décadas que ensaiam estratégias. Há já larga experiência e vasto conjunto de resultados, sucessos e fiascos, onde se pode aprender. Claro que esses países, coitados, não puderam gozar da maravilhosa "modernidade" que o eng. Sócrates nos preparou.

O futuro, sofrendo as terríveis consequências, abominará a cegueira e irresponsabilidade dos que abandonam a realidade para se embalar em ideologias antifamília. Sem famílias sólidas, tudo se extingue.

domingo, 25 de outubro de 2009

O que eu não queria dizer de Saramago.

(Saramago fez uma enorme e muito bem orquestrada manobra de marketing, usando e abusando de Deus).
Em que acredita Saramago? Em nada. Ele é daqueles comunistas de que dizemos, “é um exemplo de coerência”, ou seja, daqueles que não souberam criticar, dizer a verdade, antecipar o fim, nem sequer passados todos estes anos perceberam porque é que tudo aquilo se desmoronou. Perante isto como não há-de ele eleger como inimigos os que Acreditam, ainda por cima esses mesmos que tendo Fé rezaram pelo fim daquilo que ele mais queria, e contribuíram muito na pessoa de João Paulo II para a queda do “muro”, por tudo isto é humano que Saramago se dedique agora desesperadamente a combater os que têm Fé em Cristo. Saramago não acredita em nada e odeia os que acreditam no Todo.
É sério Saramago quando quer tirar conclusões sobre um livro; pela análise de uma história no meio de milhares? Por um episódio contado no primeiro capítulo de uma obra com centenas de capítulos? Lendo só meia dúzia entre centenas de versículos do Gênesis? Ele está a ser desonesto intelectualmente.
Não entende a história de Abel e Caim, quem é ele para que tudo tenha de ser claro aos seus olhos? Que arrogância a de este homem que já sendo sobredotado entende querer ser semelhante a Deus, entendendo todos os seus Mistérios e O questiona sobre o que O ocupava antes de criar o Universo? O que tem feito desde então? Porque deixou que isto e aquilo acontecesse?
Quer que a declaração dos direitos do homem consagre o direito à heresia??? Será que Saramago só tem direitos? Quais são os seus deveres?
Negando a existência de Deus (como faz Saramago), qual a necessidade de Lhe atribuir culpas ou adjectivos? De propor outra interpretação para Bíblia?
Saramago sofre de cristofobia, e é caso para dizer ainda bem que já acabaram os Gulags.
Lisboa, 25 de Outubro de 2009
Miguel Mesquita Guimarães
(um católico irrequieto)
PS – tenho rezado por José Saramago, para que o seu coração se abra a Cristo, Esse que fez do “bom ladrão” o seu acompanhante na entrada do Paraíso, certamente se lembrará de José Saramago na hora da sua morte.

sábado, 24 de outubro de 2009

Pois é, já há muito tempo que só se transmite folclore transmontano

José Pacheco Pereira

Público, 20091024

A questão da "asfixia democrática" é das mais incómodas para o PS e para os próceres do pensamento único


Um notável anúncio do Euromilhões diz-nos que "este canal acaba de ser comprado pelo senhor Nuno Cabral de Montalegre e a partir de agora transmitirá apenas folclore transmontano". Nem sei como é que se deixou passar esta notícia que explica porque é que já há tanto tempo só vemos "folclore transmontano" na televisão, nos jornais, na imprensa. Como já só vemos "folclore transmontano" pensamos que não há mundo, fora da visão que o senhor Nuno Cabral nos dá todos os dias. O potencial subversivo desta notícia é dizer-nos que isso se passa porque o senhor Nuno Cabral "comprou" o canal e que este transmite "apenas" "folclore transmontano", quando nos noticiários do dito "canal" se diz que se passa toda a música do mundo e se fala de forma plural sobre a vida fora de Montalegre.

O Vasco Pulido Valente diz, e bem, que é difícil explicar a mediocridade aos medíocres, e eu acrescento que é igualmente difícil explicar a falta de ar a quem está habituado a respirar tóxicos. Usando o exemplo actual, é difícil dizer aos ouvintes do canal único, que estão "apenas" a ouvir "folclore transmontano" e que isso se deve ao facto de o senhor Nuno Cabral ter "comprado" o dito órgão de comunicação social. É por isso que, mais uma vez, sim mais uma vez e quantas forem precisas, eu vou falar da qualidade pouco sadia do ar da nossa democracia. Sim, falar da "asfixia democrática", aquela coisa de que este mesmo pensamento único não quer que se fale, por razões que se percebem demasiado bem.

Decretou-se, ao estilo rebanho, que foi por isso que o PSD perdeu as eleições. Como sabem? Não sabem, é a olho e é conveniente quer para o PS (que assim pretende calar as críticas à "compra" do senhor Nuno Cabral) quer para os opositores de Manuela Ferreira Leite, que assim não só secundam o PS, como apontam para os seus inimigos internos, porque é suposto que tenha sido por recomendação minha e de Paulo Rangel que disso se falou na campanha. Cómodo, mas falso. Mas hoje, quando a "verdade" é um anátema ou um insulto, isso também não incomoda ninguém. E, ao fim de dez em onze comentadores e jornalistas na SICN ou na TSF ou na RTPN a dizerem o mesmo, quem é que se atreve a duvidar?

Mas vamos ao "folclore transmontano", à música única que todos os canais transmitem. Há vários trechos desta música única, por exemplo, os relativos ao estado do mundo associados à completa ausência de espírito crítico sempre que o Presidente Obama está envolvido num assunto qualquer; os relativos à Europa e ao "europeísmo" apodíctico, insusceptível de discussão, a que só se pode dizer "sim" sob pena de envio para o Inferno do nacionalismo provinciano; e, por último, fico-me pela própria questão da "asfixia democrática" como exemplo nacional. Os dois primeiros mostram como em matérias tão decisivas se deixou de pensar, ou seja, de questionar se o "folclore transmontano" nos diz alguma coisa sobre o que se está a passar no Afeganistão, ou se o Tratado de Lisboa tem que ser acelerado não vão os conservadores ganhar as eleições no Reino Unido. Uma parte importante da "asfixia democrática" é a prevalência do pensamento único sobre Obama, a União Europeia, a crise e os seus fundamentos, o "neoliberalismo", etc., etc.

Deixou de se poder pensar de fora do "folclore transmontano", e parece tão absurdo fazê-lo que a acusação soviética de loucura e de promessa de internamento já tem sido feita pelos mastins dos blogues "transmontanos". Para eles, Cavaco Silva é louco ou senil, Manuela Ferreira Leite, amavelmente tratada pela "velha", idem aspas, eu também não estou melhor, José Manuel Fernandes, Cintra Torres e mais meia dúzia que ainda escreve com independência nos blogues e nos jornais, estamos todos obviamente doentes porque não vemos nada de preclaro no "folclore transmontano". A questão da "asfixia democrática" começa exactamente aqui, nas pessoas que querem respirar com os dois pulmões e ainda distinguem o ar puro do dióxido de carbono, logo têm que ser mutantes loucos. É por isso que a questão da "asfixia democrática" é tão incómoda que suscita esta unanimidade para a calar. Exactamente porque existe, ela não pode sequer ser nomeada sem ruptura do véu que a encobre. Por isso, é das mais incómodas para o PS e para os próceres do pensamento único que nos pastoreiam do lado do poder.

Primeiro, vamos ao termo e depois à coisa. O termo já se tornou um rodriguinho, mas a questão fia mais fino. A origem esteve num discurso de Paulo Rangel num 25 de Abril em que falou de "claustrofobia democrática", expressão que francamente prefiro à "asfixia", embora o que interessa é saber se a coisa existe e não se o nome é o melhor. O que é interessante lembrar é que o discurso de Rangel foi então muito positivamente saudado e, hoje, a mesma coisa, exactamente a mesma coisa, aparece como um atestado de derrota, apesar de Rangel ter falado nela na sua campanha vitoriosa nas eleições europeias. Pelos vistos, a "asfixia democrática" deu vitória nas europeias e derrota nas legislativas.

Dizer que existem limitações à plena liberdade dos portugueses, em particular, de exprimirem as suas opiniões, sem sofrerem retaliações nos seus interesses, seja de manter o seu emprego ou de conseguirem a devida promoção, seja de não serem administrativamente punidos, seja de não verem os seus negócios ilegitimamente prejudicados, ou de serem às claras ou, acima de tudo, às escuras, perseguidos porque não gostam do Governo, do PS, da maçonaria, ou das "empresas do regime", como diz Henrique Neto, ou afastados dos órgãos de comunicação ou ostracizados, a favor de gente mais "útil" ao poder, mesmo quando, ou principalmente quando, são de "direita" - nomear tudo isto -, é proibido no regime do canal único do "folclore transmontano" .

Seria interessante perguntar o que é que mudou para melhor, desde que Rangel fez o seu discurso, na "claustrofobia democrática"? Mudou, só que para pior. Os dois órgãos de comunicação que o primeiro-ministro atacou publicamente estão abatidos. O Jornal Nacional da TVI encerrou como espaço crítico do Governo, e o PÚBLICO está sujeito a uma campanha para mudar a sua linha editorial e o seu director. Somaram-se os assuntos tabu, a começar pelas investigações que envolvem o primeiro-ministro, como o caso Freeport e outros, em que ninguém se interroga como é que uma imprensa livre aceita tão grande condicionamento ao ponto de tornar "excessivo" quem tem coragem de falar. Fosse no Reino Unido ou nos EUA e veriam se era assim. É também porque há um coro de "folclore transmontano" que ninguém se incomoda em perguntar porque razão é que Portugal baixou de 16º para 30º no índice de liberdade de imprensa. Pelos vistos os Repórteres Sem Fronteiras acham que sempre há "asfixia democrática". Por cá, tudo a assobiar para o lado.

Mas nem sequer é o que se vê o que é o mais importante. O mais importante é o que não se vê, porque a patrulha dos dissidentes do "folclore transmontano" é feita em todos os azimutes, desde os blogues que fazem o dirty job, a começar pelos pagos pelo Governo, a acabar em operações políticas de monta como foi a doDiário de Notícias contra Cavaco Silva e o PSD. Gente cujo único pecado é não alinhar no coro do "folclore transmontano" é imediatamente sujeita a uma campanha de insultos. É, por exemplo, o caso de Paulo Tunhas, filósofo e co-autor de um notável livro com Fernando Gil, também cuidadosamente esquecido pela sua ruptura com o cânone, que cometeu o crime de "perceber", no melhor sentido, Manuela Ferreira Leite, um acto proibido no coro do "folclore transmontano", cantado "à esquerda" pelos amigos de José Sócrates e "à direita" pelos de Passos Coelho.

Estes exemplos vêm de uma pequena minoria das elites, e têm esse defeito, mas também têm uma vantagem. A vantagem é que estão em posição de perceber e falar do que se está a passar porque têm melhor condição económica, logo mais defesas. Mas seria profundamente errado pensarmos que é aqui que a "claustrofobia democrática" é mais grave. É no homem comum, que tem medo de perder o emprego, no pequeno empresário que teme perder uma encomenda porque refilou com as dívidas do Estado ou o fisco ou a ASAE, no funcionário público que sabe que tem que agradar ao chefe do PS, no jornalista que questiona opack journalisme é logo afastado da "política" por se suspeitar que "está feito com o PSD". É no homem que tem o direito de viver num país livre, com uma comunicação social crítica, com uma informação equilibrada, e nem sequer se pode aperceber até que ponto está a ser, todos os dias, manipulado com "folclore transmontano".

Historiador

Psicólogo Eduardo Sá defende ser impossível educar sem dizer não

por Agência Lusa, Publicado em 24 de Outubro de 2009

O professor e psicólogo Eduardo Sá considerou hoje, em Coimbra, que é “impossível” promover a educação sem dizer “não”, desmistificando assim a ideia de que proferir aquela palavra “traumatiza as crianças”.

“Aquela ideia, muito infeliz, de que as crianças se educam com pessoas boazinhas e que passa por se imaginar que dizer 'não' traumatiza as crianças é mentira”, afirmou o investigador, que lecciona na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

Eduardo Sá falava à agência Lusa no final dos trabalhos do encontro “De SIM e de NÃO se faz a Educação”, que decorreu sexta-feira e hoje em Coimbra, depois de ter proferido uma palestra intitulada “Eduquem-se uns aos outros”.

Organizado pela Fundação Bissaya Barreto, o encontro teve como ponto de partida “A violência infanto-juvenil em contexto escolar a par da emergência de um novo fenómeno: a violência de filhos contra os pais, em contexto familiar”.

“Eu acho que é impossível sermos felizes sem entretanto dizermos que não. Os pais e os professores bonzinhos são invariavelmente os maiores amigos dos bons pais e dos bons professores”, sublinhou o investigador da Universidade de Coimbra.

Para Jorge Felício, responsável pelo encontro e director do colégio da Fundação Bissaya Barreto, “os participantes vão mais preparados para terem a coragem de dizer sim quando têm de dizer sim e não quando têm de dizer não, porque em muitas situações é mais fácil dizermos que sim e deixar passar”.

Entre os participantes, na sua maioria professores, encontrava-se a antiga directora regional de Educação do Centro, Lurdes Cró, que, em declarações à agência Lusa, disse que “a educação faz-se da capacidade de dizermos sim, e sempre sim, e não, sempre não, às coisas que consideramos dizer sim ou não”.

“Se não fizermos isto criamos uma insegurança enorme nas crianças e nos jovens, porque educar é uma arte, que é o equilíbrio de dizer sim e dizer não”, sublinhou, defendendo ainda que devia fazer parte do currículo dos professores formação na forma de “educar pela positiva para saber lidar com situações de stress na escola e saber lidar com crianças violentas”.

Na leitura final das conclusões, Cristina Cunha, da organização afirmou que “ainda temos muito (pais e educadores) a aprender: a escutar, a olhar, a falar, a usar as palavras, a elaborar pensamento, a gerir e a expressão emoções, a sentir e a mostrar afectos e a partilhar”.

O Governo menor

António Barreto
Público, 20091024

Estava nos livros. E nas estrelas, não necessariamente nas de bom agoiro. O Governo será minoritário. O PS, seu único responsável, sempre sonhou com este dispositivo. É verdade que prefere ser maioritário, mas, desta maneira, pode oscilar e tentar demonstrar que é a "charneira" do sistema.

Os socialistas sempre encararam com enorme dificuldade a hipótese de um governo de coligação (ou de apoio parlamentar) com o PCP. Há quase 40 anos que esta exclusão vigora com força de lei. Com duas consequências. A primeira: é uma espécie de seguro de vida da direita. A segunda: ajuda a reforçar o papel central do PS. Esta foi uma das razões que levaram o PS a forjar uma Constituição e uma tradição favoráveis aos governos minoritários.

Têm igualmente dificuldade em encarar uma aliança com o Bloco de Esquerda. Para as presidenciais, talvez, mas isso é sem consequências. Para o Governo, nem pensar. Na verdade, com as suas "causas" culturais, jovens e fracturantes, o Bloco exerce uma enorme atracção junto dos socialistas. A ponto de provocar estragos consideráveis nas suas bases militantes e no seu eleitorado. No Governo, o Bloco destruiria o PS em pouco tempo.

Mas as suas relações com os partidos à direita tiveram também influência. A análise tradicional, no PS, diz que a "maioria sociológica do país é de esquerda". Esta lei, apesar de ter sido negada várias vezes, ainda é fonte de inspiração para o partido. Sendo assim, importava garantir que os socialistas, sozinhos, sem o PCP, não tivessem a necessidade de estabelecer coligações com o PSD ou o PP. Historicamente, já houve essas alianças. Feitas, ironicamente, por alguém que é actualmente defensor do Governo minoritário: Mário Soares. Mas este excepcional político sempre entendeu que, se for ele o protagonista, pode perfeitamente realizar alianças e acordos com quem entender. Fez um governo macabro com o CDS, em 1978. Fez o Bloco Central com o PSD, em 1983. Recebeu alegremente os votos do PCP em 1986. E contou com serenidade os votos do PSD em 1991. Autorizar outros a fazer o mesmo, em condições sociais e económicas ainda mais difíceis, não está no seu feitio

As entrevistas que Sócrates concedeu aos partidos, a semana passada, foram um ponto alto de hipocrisia. Sócrates pediu o que não queria, convidou todos para o Governo. Os partidos não perceberam a armadilha e responderam negativamente. Quando todos deveriam ter dito que estavam prontos. Em condições a negociar, pois claro. Mas não. Elevaram a sua covardia ao estatuto de dignidade. Vão agora ouvir, meses a fio, o primeiro-ministro recordar-lhes que foram convidados e recusaram. Este jogo da cabra-cega foi considerado um golpe de génio de estratégia política. A esperteza rafeira é a última palavra da inteligência política.

Como se vão passar os próximos meses? O Governo minoritário vai dedicar-se a uma das actividades preferidas dos políticos do nosso país: negociar à esquerda e à direita. Com o PSD, vai provavelmente rever os mecanismos de avaliação dos professores. Com o PP, vai privatizar uma ou duas empresas do sector público e aumentar as pensões. Com o BE, prepara-se para nacionalizar um sector económico ou uma empresa, assim como aprovar diplomas extravagantes sobre casamentos, adopção e sexualidade. Com o PCP, propõe-se reforçar os mecanismos estatais do Serviço Nacional de Saúde e aumentar os impostos sobre os lucros das empresas e as mais-valias. Depois, com o PSD e o PP, interessar-se-á de novo pela reforma da legislação laboral. Mas, com o BE e o PCP, olhará para as leis da eutanásia e do suicídio assistido. De permeio, voltará a ocupar-se das grandes obras e dos grandes empreendimentos, já não com os partidos de oposição, mas com os construtores e os banqueiros do regime. Não há, evidentemente, qualquer sentido nisto. Mas as perspectivas são exactamente estas.

A Constituição e as leis eleitorais estão de tal modo feitas que este é o resultado inevitável. Quando a grande maioria dos países da Europa se rege por mecanismos legais ou por tradições que forçam ao entendimento parlamentar, a uma relativa estabilidade de governo e a uma acção responsável no sentido de assegurar maiorias de governo e de legislatura, em Portugal é exactamente o contrário. Os juristas de Coimbra e de Lisboa, finos engenheiros de minas e armadilhas e reputados florentinos da instabilidade, aprimoraram esforços para conseguir governos de minoria e para evitar o esforço conjugado de vários partidos. Joga-se com a abstenção no Parlamento, como se esta fosse um voto positivo. Procuram-se os mecanismos perversos da "moção de censura construtiva", uma maléfica e perversa invenção, a fim de perpetuar os governos minoritários.

Sabe-se o que nos espera. Um ou dois anos particularmente difíceis, com desemprego crescente, mais endividamento e cada vez maior défice da balança comercial e de pagamentos. Um défice público a atingir níveis inéditos nos tempos recentes. Dificuldades na obtenção de investimento privado, nacional ou estrangeiro. O crédito externo será muito mais difícil e caro, pois os governos minoritários, tão apreciados pelos políticos indígenas, não constituem bom cartão de visita para os nossos credores. O clima será desfavorável à reforma da administração pública, apesar dos novos aumentos que se anunciarão em breve. Serão grandes os obstáculos à alteração do fanatismo dogmático nas escolas e nos serviços de saúde. E a Justiça, cujo melhoramento exige um sério e consistente esforço nacional, continuará a vegetar. A aprovação do Tratado de Lisboa, iminente, dará uns dias de euforia, insuficientes todavia para esbater a crise europeia.

Tudo isto recomendaria a formação de um governo de programa e coligação ou aliança. A evidência impunha ao Presidente da República o dever político e moral de fazer quanto podia para obter esse governo. A necessidade de estabilidade e de maioria parlamentar é tal que os partidos, alguns partidos, deveriam mostrar-se receptivos a negociações imediatas e a concessões suficientes para a criação de um governo maioritário. Mas parece que nada disso tem qualquer espécie de importância ou eficácia. Fazer um sacrifício político, abdicar temporariamente de ideias ou de nomeações dos amigos, em nome do interesse público, não faz parte da nossa "cultura" política. Renunciar, em nome das necessidades do país, ao bairrismo tribal e marialva do seu partido é considerado crime maior. Esperar pelo desastre dos outros, e do país, para poder recolher louros, é considerado fino raciocínio estratégico. Trabalhar pela derrota dos seus próprios correligionários, a fim de estar "a jeito" para as eleições que se seguem, é estimado como se talento político fosse.

O preço a pagar por um governo minoritário, instável e de coligações "pontuais" à esquerda e à direita, é enorme. O Governo menor terá efeitos na instabilidade social, na impossibilidade de realizar reformas, no investimento e no saneamento das finanças públicas. O pequeno Governo pagará muito mais caro pelas suas dívidas externas. Esse Governo deverá recorrer à demagogia ainda com mais frequência e apetite. Os ministros terão à sua disposição recursos ilimitados "até às próximas eleições", até à oportunidade de conseguir uma maioria absoluta. Essa é a miragem que faz correr Sócrates e os seus amigos.

Mas as oposições não se eximem de culpas e responsabilidades. Conscientes das dificuldades nacionais, certos de que o Governo minoritário não aguentará e seguros de que, desta vez, não haverá um período de ouro como em 1985/87, têm a certeza de que este Governo minoritário não transformará as suas insuficiências em vantagens para obter a maioria. Pelo contrário: estão seguros de que chegará a vez deles, depois do desastre.

Os partidos políticos, como nunca desde 1974, estão a milhas da gravidade dos problemas nacionais. Eventualmente, nem sequer os percebem. Não partilham com os cidadãos as suas inquietações, se as têm. Preferem esta estratégia de terra queimada e de campos devastados, na esperança de que os cemitérios sejam férteis. Dispostos a exigir todos os sacrifícios da população, são incapazes de fazer os seus, de renunciar ao seu orgulho ou de moderar o seu apetite predador. Anunciam-se maus tempos para este pobre país.

DEUS É MISERICORDIOSO

António Bagão Félix

Público, 20091024

Não sou apreciador da escrita de José Saramago, mas não desconsidero a sua obra literária.

Como autor e cidadão, José Saramago tem todo o direito de exprimir as suas ideias sobre tudo e mais alguma coisa.

E, naturalmente, de expressar com clareza, frontalidade e liberdade o seu ateísmo militante. Seja nos seus livros, seja nos seus ditos.

Mas para se ser respeitado nas suas opiniões, é preciso ter-se a inteligência, a razoabilidade e a prudência de se dar ao respeito.

Uma coisa é Saramago defender o seu pensamento livre. Outra é o modo como o faz. Com acidez, arrogância, intolerância e sectarismo extremos.

Pretensamente auto-dotado de uma superioridade intelectual e moral desde que foi galardoado com o Nobel acha-se pateticamente acima dos outros. Por isso, não argumenta, agride. Não opina, sentencia. Não confronta, insulta. Não esclarece, obscurece. Não convoca, provoca. Não fundamenta, opta pelo fundamentalismo.

O curioso é que, depois de tudo o que diz e escreve com a liberdade de que, aliás, felizmente dispõe, estranha as posições de quem o confronta. Nada que me espante, sabendo-se do modo como tratava os “delitos de opinião”, por exemplo, quando foi director de um jornal…

José Saramago é um paradoxo: é religiosamente anti-religioso. O seu proselitismo é a expressão de uma nova moda religiosa: o ateísmo pretensamente humanista.

Saramago acaba de editar mais um livro e aproveita a ocasião para um diktat gratuito tão ao seu gosto pessoal. A Deus tudo culpa, a Deus chama tudo o que de mal possa haver, ao mesmo tempo que diz não existir. Em que ficamos?

A Bíblia, para ele, é um manual de maus costumes e um catálogo de crueldades, num recorrente certificado de menoridade antropológica do próprio homem. Não percebe que a Bíblia (e sobretudo o Antigo Testamento) é também a história da condição humana feita de luz e de sombras, do bem e do mal que coexistem por conta da liberdade humana. Deus não nos fez robots. Logo a seguir a Caim e Abel, Deus diz “Meu espírito não se responsabilizará indefinidamente pelo homem” (Génesis 6,3).

Saramago olha para a Bíblia e interpreta-a rudemente à letra, sem contextualização, como se estivesse a ser escrita agora. Só lhe falta um Deus a comunicar por telemóvel.

Saramago odeia visceral e mefistofelicamente a ideia de Deus e dos Livros Sagrados. Está no seu direito. Mas revê-se no estalinismo, nos seus gulags e pogroms, para ele, por certo, ícones dos bons costumes e das boas práticas.

Saramago é um incompreendido. Nega um Deus (que, apesar de não existir, é a causa de todos os males…) que, todavia, não é capaz de esquecer. Deus não existe mas não lhe sai do pensamento. Estranho, não é? À conta deste pesadelo, decreta impositivamente um atestado de quase insanidade sobre os que, para si incompreensivelmente, crêem em Deus. Saramago procura chamar à realidade milhões e milhões de pessoas que, ao longo dos tempos, vivem nas trevas, sem inteligência e discernimento, manipuladas por um Deus menor. Cautelosamente, o Deus menor da Bíblia que não o do Corão …

Enquanto católico, não sou nem mais nem menos pessoa do que Saramago. Mas tenho o direito à defesa dos valores em que acredito. Não me revejo nos arautos da atitude política e religiosamente correcta que, com calculista “respeitinho” pelo Nobel, se remetem a uma espécie de coligação do silêncio. Como também não perfilho a ideia da indiferença ou da contrafacção da religião. A fé é um acto de liberdade porque sem liberdade não haveria qualquer mérito em crer.

Que esta polémica de puro marketing tenha pelo menos a vantagem de levar mais cristãos a ler ou reler a Bíblia. Só por isso agradeço a Saramago.

Quanto ao resto, a publicidade não é uma medida divina. Deus é misericordioso e perdoa a Saramago.

António Bagão Félix

Outubro de 2009

Evangelho de um primário

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
Expresso de 24 de Outubro de 2009
No dia 29 de Novembro a Suíça vai referendar a proibição de construção de minaretes em mesquitas. A interdição não se aplica, como é evidente, às torres das igrejas, apesar de uns e outras terem exactamente a mesma função. Este é o desrespeito que não se tolera: quando fiéis, convencidos da sua superioridade religiosa, limitam a liberdade de culto dos restantes. Ou quando uma religião quer fazer das suas leis as leis do Estado e, por isso, de todos nós. Fora isso, a religião, os seus fundamentos e os seus livros merecem tanto respeito como qualquer outra coisa na terra: nem de menos, nem de mais.
Não é, por isso, a falta de respeito que me incomoda nas declarações de Saramago sobre a Bíblia (e nem comento os apelos a que renuncie à nacionalidade portuguesa). Muito menos a mim, ateu de pai e mãe e razoavelmente anticlerical. É o primarismo. Como reduzir um conjunto de textos tão complexo e contraditório a "absurdos" e "disparates"? Como pode um escritor resumir assim aquela que foi a fonte de inspiração de milhares de textos literários (até os dele), composições musicais ou obras de arte? Como se pode falar de um "manual de maus costumes" quando se fala de textos (dos tão diferentes Antigo e Novo Testamento) que contêm em si o pior e o melhor da humanidade, toda a crueldade e generosidade, toda a vingança e perdão? Como pode alguém que escreve sobre a nossa história comum descer ao mais básico dos anacronismos históricos?
O primarismo está a transformar-se num ar do nosso tempo. É ele que faz crescer os fundamentalismos religiosos e as leituras literais da Bíblia e do Corão. E o primarismo atrai primarismo. Cria um manto espesso de intolerância e ignorância, de estupidez e incomunicabilidade. No tempo da frase curta, da declaração bombástica, do escândalo sem sentido da história, o primarismo é mais forte do que qualquer ideia. O que é extraordinário é que seja eu, um colunista da espuma dos dias, a dizê-lo a propósito de um escritor, que tem outro tempo para respirar, que pode ir muito além do espectáculo da polémica fácil.
Recuso-me a ser levado nesta avalancha. Esta avalancha que resume o cristianismo à sua caricatura. Que resume o islamismo à sua violência. Que resume o judaísmo aos avanços e recuos de um Estado. Que resume o ateísmo a uma nova religião científica que esmaga milénios de história. Não, nenhum dos livros das três religiões monoteístas se explica com citações escolhidas ao acaso. E não, não é preciso ser cristão para sentir comoção com o 'Cântico dos Cânticos'. Não é preciso ser crente para perceber que a religião condensa em si as camadas da história de que se faz a humanidade. Que ela tem um tempo e um ritmo que não cabem em conferências de imprensa. Não é preciso ser religioso para compreender esta permanente procura do sentido da vida e da imortalidade.
Eu, ateu convicto desde o dia em que penso, não aceito esta nova moral em que tudo se resume à dimensão do indivíduo. Em que todas as convicções colectivas, todos os ritos humanos, são vistos como manifestações de um obscurantismo acrítico. Não perceber o que de mais profundo e complexo tem a fé humana é não perceber nada da humanidade. E se a um escritor lhe escapa o que de essencial há na sua espécie...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Georges Lemaître: o pai da teoria do Big-Bang

Conf Dominique Lambert Red

Da importância do escândalo


Helena Matos

Público, 20091022

Arranjar uma polémica com a Igreja Católica é um investimento com risco zero e grande retorno mediático

José Saramago é um razoável escritor e um excelente divulgador da sua obra. Num tempo não muito distante, em que ele ainda não era Nobel e em que os demais escritores (ou melhor dizendo autores de livros pois ser escritor é uma coisa situada uns patamares acima) desdenhavam enfastiados das filas que o povinho fazia à espera de um autógrafo, já José Saramago passava horas em sessões de lançamento a perguntar às senhoras que apareciam com os seus livros debaixo do braço a quem queriam que o dedicasse. E uma vez ouvido o nome ele lá escrevia as frases que lhe ditavam. Mais, Saramago era assim antes do Nobel e continuou a ser assim depois do Nobel. Na Festa do Avante!, numa biblioteca remota ou num pavilhão polivalente, Saramago sempre teve claro que os livros para serem lidos têm de ser vendidos e que o escritor é o principal vendedor da sua obra. Não sei que queixas têm os editores de Saramago mas certamente que entre essas queixas não se conta o ele não se esforçar por promover os seus livros.

Nos últimos anos, desfeito o efeito que o Nobel teve como exponenciador das vendas dos seus livros e sem que das suas mãos saísse algo que cativasse tantos leitores quanto oMemorial do Convento, Saramago e o seu universo mais ou menos realista encontraram-se em concorrência com uns livros pejados de vampiros, códigos e irmandades que provavelmente para seu e certamente para meu espanto atingem vendas vertiginosas. Não sei se foi nesse momento que lhe ocorreu a ideia do escândalo mas a verdade é que na falta de um Sousa Lara que lhe possa dar motivos para se dizer discriminado, Saramago nos promete um escândalo por cada livro que faz sair. Como no mundo da cultura fica tudo calado à espera que outros digam a Saramago o que eles não ousam para não ficarem mal na fotografia e no da política ninguém está para ser apelidado de Sousa Lara, Saramago tem cada vez mais dificuldades em arranjar um escândalo. Ninguém quer um escândalo com Saramago e ele a precisar - ou a achar que precisa - de um escândalo. É aqui que entra a Igreja Católica ou ICAR como numa espécie de sinal distintivo alguns fazem questão de escrever. Arranjar uma polémica com a Igreja Católica é um investimento com risco zero e grande retorno mediático. Mais ou menos o inverso do que sucede quando, mesmo na dita livre Europa, se arranja uma polémica com religiões que cujos fiéis têm outro entendimento da tolerância. Veja-se o inferno terreno em que se transformaram as vidas de Salman Rushdie ou do director do jornal dinamarquês Jyllands-Posten após a publicação dumas caricaturas de Maomé e percebe-se que há polémicas e polémicas. Não admira portanto que José Saramago quando interrogado sobre se num próximo livro iria falar do Corão, tenha respondido: "Não tenho a intenção de abordar o Corão, tenho mais que fazer, estou a escrever outro livro que não será tão polémico como este".

Política e ideologicamente, não se esperava outra coisa de Saramago. Literariamente, faz muito bem, pois se deixar de perseguir os escândalos talvez se fixe na Literatura. E como já estou farta de tanto livro de cabalas e dragões, um bom romance de Saramago vinha mesmo a calhar. "Eu pergunto: "Nuclear por que não?"" - Desconheço o que terão respondido os presentes no Casino da Figueira da Foz quando há dias ouviram esta declaração de apoio à opção nuclear formulada sob a forma de pergunta pelo ex-Presidente da República Ramalho Eanes. Mas a reacção foi certamente bem mais pacata do que aquela que rodearia uma declaração semelhante há quinze ou vinte anos. O nuclear não só não gera hoje discussões apaixonadas em Portugal como surge quase como inevitável. Curiosamente no desfazer desse tabu detecta-se o protagonismo daqueles que detêm um poder não executivo, como é o caso dos presidentes da República: note-se que a opção pelo nuclear não só mereceu o apoio expresso do antigo Presidente Eanes como, nas últimas presidenciais, no debate travado por Cavaco Silva e Jerónimo de Sousa, ambos os candidatos consideraram a opção pela energia nuclear como uma hipótese que não podia ser excluída. Por contraste os primeiros-ministros ou candidatos a tal têm evitado até agora publicamente esta questão pois ainda não devem estar completamente esquecidas as atribulações que a opção pelo nuclear trouxe ao I Governo Constitucional liderado por Mário Soares.

Aliás entre os mais perplexos com a pacatez que rodeou esta conferência do general Ramalho Eanes no Casino da Figueira da Foz devem estar os cardeais portugueses. Por um daquelas ironias em que Portugal é fértil, a Igreja Católica portuguesa parecia ter feito no início deste ano do mesmo Casino da Figueira uma espécie de sala de imprensa. Logo em Janeiro, o cardeal-patriarca participou aí numa tertúlia onde entendeu por bem avisar as jovens portuguesas: "Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam." Um mês depois o convidado do Casino da Figueira foi o cardeal D. José Saraiva Martins que não só disse estar totalmente de acordo com a posição de D. José Policarpo sobre o casamento de católicas com muçulmanos como a propósito da homossexualidade declarou que a mesma "não é normal".

Não me espanta que as opiniões de D. José Saraiva Martins e de D. José Policarpo tenham aberto noticiários, pese essas opiniões em 2009 não obrigarem ninguém, nem sequer os católicos. O que me inquieta é que no mesmo ano de 2009 a opção pelo nuclear, que afectará todos nós não suscite grande interesse. É certo que o desempenho seguro das centrais nucleares, os desmandos políticos de boa parte dos países produtores de petróleo ou dotados de reservas de gás e o clima de terror apocalíptico criado pelo combate ao aquecimento global transformaram mediaticamente a energia nuclear de entidade satânica repositório de todos os perigos numa tecnologia santificada como amiga do ambiente. Mas daí a vê-la transformada em nota de rodapé vai um passo que até deve surpreender Deus, ou os cardeais por Ele.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Escutas

DESTAK |22 | 10 | 2009 08.37H

João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

O assunto das supostas escutas em Belém é um dos mais sérios casos da política portuguesa. Envolveu figuras cimeiras do Estado em acusações graves, justificou uma comunicação ao País do visivelmente irritado Presidente da República, motivou centenas de análises e críticas.

Ou, pelo contrário, será que o assunto nunca existiu? Não passou de uma tentativa de embaraçar o Governo ou envolver o Presidente na campanha, uma maquinação mediática sem substância para afectar eleições, com grave violação da deontologia jornalística?
Em qualquer caso o assunto é muito importante e exige investigação das autoridades. Como se entende então que tenha pura e simplesmente desaparecido? Acabadas as legislativas e falado o Presidente, tudo se esfumou, ficando apenas vagos debates deontológicos e críticas pedantes ao tom e forma da declaração presidencial. A substância evaporou-se, seja ela a suposta espionagem governativa, a suposta distorção da figura presidencial ou a suposta maquinação jornalística. O caso é já arqueologia oratória.

A súbita desaparição suporta a tese da manipulação com fins eleitorais. Afinal não havia mesmo base objectiva e pelo menos um dos dois principais diários nacionais abusou gravemente da sua função. Como a imprensa é omnipotente, ninguém vai investigar, acusar ou condenar os culpados. Tudo ficará igual, esperando pelo próximo caso para se voltar, por momentos, a pôr cara séria e ensaiar o arsenal analítico, de novo sem consequências. Chama-se a isto espírito democrático e informação responsável.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Frase do dia

A vida é como andar de bicicleta. Para manter o equilíbrio temos que continuar a seguir em frente

Albert Einstein

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Algumas ilações a retirar do ranking das escolas

Henrique Leitão

RR on-line, 20091020

Todos sabemos que é informação que deve ser usada com alguma precaução, mas é inegável que se trata de informação importantíssima, sobretudo porque, com o passar dos anos, vai sendo possível cada vez mais diferenciar o que é meramente episódico do que são tendências estruturais.

Dois factos evidentes merecem ser comentados. O primeiro é bem conhecido de todos: as escolas privadas ocupam, esmagadoramente, os primeiros lugares e esta tendência parece ter-se vindo a acentuar.

Mas há um segundo aspecto que deve também ser destacado: entre as 20 escolas melhor classificadas, praticamente todas, apenas com raras excepções, são escolas que, directa ou indirectamente, dependem da Igreja Católica ou estão afiliadas a instituições da Igreja Católica. Isto é, o melhor ensino em Portugal é, sem qualquer dúvida, o oferecido pelas escolas católicas.

Esta é uma constatação que os pais devem ter bem presente na altura de escolher uma escola para os seus filhos e é também um serviço inestimável que o Estado faria bem em acarinhar e proteger.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Os pequenos

João César das Neves

DN20091019

Terminado o longo período eleitoral, salta à vista a má qualidade do discurso político. Perante a gravidade da situação e desânimo reinante, o tom geral das intervenções foi claramente incapaz. Não houve rasgo, chama. O povo está tão desiludido como estava.

Qual o motivo? Que esteve ausente do esforço tribunício dos últimos meses? Não faltaram planos, propostas, projectos. Nos milhares de páginas de programas e centenas de horas de oratória é forçoso achar ideias, algumas até boas. Também não faltou sonho. Há muita emoção, paixão, fervor na vida pública nacional. Alguns são frustrados e até pesadelos, mas existem sonhos na nossa política partidária.

O que desapareceu da intervenção dos nossos responsáveis é algo mais denso e determinante: visão estratégica, orientação de fundo, linha de rumo. Não se ouviu um propósito inspirador e empolgante que motivasse os portugueses. Ninguém diz o que quer e para onde vamos. O que tinham Sá Carneiro, Mário Soares e Cavaco Silva, e até Spínola, Vasco Gonçalves e Melo Antunes, desapareceu desde Guterres. Temos meios e vontade mas está omisso o destino.

Em 1852, Victor Hugo escreveu um livrinho, Napoléon le Petit, comparando o imperador da época ao grande antecessor. Hoje também temos políticos pequeninos. Há 15 anos que não existe um verdadeiro objectivo nacional, uma finalidade grande que arrebate e mobilize o País. Vivemos de fins intermédios, interesses particulares, promessas próximas. Os sucessos e debates recentes centram-se em oferecer portáteis ou brincar aos comboios rápidos. A vida política não sobe acima das adições orçamentais.

Como se caiu nesta triste apatia? A resposta é simples porque existe um ingrediente indispensável ao destino, a fé. Os nossos responsáveis perderam a fé que tinham nos primeiros anos da democracia. Claro que há muita fé na vida privada, mas há década e meia que anda quase ausente da vida pública.

Isto não se aplica à fé religiosa. Essa há muito que não tem presença na nossa política. Por acordo tácito geral, a vida democrática é formalmente alheia aos temas espirituais. Em sistemas como o americano, italiano e tantos outros o assunto é comum. Até em França a cartada é jogada. Mas Portugal, por feridas antigas, não se atreve a falar disso.

O que estiolou com os tempos foi a fé ideológica, patriótica. Os anos revolucionários incendiaram-se de fervor. Acabado o tumulto, o ideal de um Portugal europeu e progressivo guiou-nos nos tempos difíceis da adesão à Comunidade. Normalizada a situação, na estabilidade do euro e fragor da globalização, abandonaram--se os grandes propósitos. A vida pública centrou-se em finalidades imediatas, grupos instalados, razões operacionais abandonando os grandes desígnios dos tempos heróicos. O que nos ocupa e preocupa é emprego, conforto, segurança. Até temas globais, como regionalização e aborto, são conduzidos por preocupações tácticas.

Os dois grandes partidos são pragmáticos, abrangentes. Gerindo conveniências, não se podem dar ao luxo de ideologias ou destinos ambiciosos. O CDS já teve várias fés e não se sabe bem a que tem hoje. O BE esconde a falta de fé criticando a infidelidade dos outros. Apenas o PCP e os pequenos ainda acreditam em algo, que mais ninguém leva a sério. O resultado é a pasmaceira agnóstica e interesseira. Não admira o pessimismo dominante.

A solução disto é fácil, porque o sentido da vida está na vida, não na política. O erro foi pedirmos aos partidos que nos fornecessem a fé. O destino não está em programas, instituições, sistemas, mas na família, trabalho, comunidade. O País salva-se se deixar de procurar nos líderes aquilo que só encontra em si mesmo.

Não é Portugal que se condena com a desorientação, apenas os dirigentes. Como em situações antigas de desnorte, cabe à sociedade e à economia encontrar na sua actividade quotidiana a força e as razões que faltam às elites. A fé privada tem de superar a vacuidade pública. Se acreditarmos num destino maior, Portugal avança. Depois os pequenos políticos correm atrás.


domingo, 18 de outubro de 2009

Escola de Oração 2009-2010

Escola de Oracao

Lisboa: UCCLA homenageia "grande visionário" Krus Abecasis, fundador da instituição e ex-autarca

Lisboa, 18 Out (Lusa) - A União das Capitais das Cidades de Língua Portuguesa homenageia no próximo dia 26 o fundador da instituição e ex-presidente da câmara de Lisboa Nuno Krus Abecasis, elogiado pelo actual secretário-geral da UCCLA como um "grande visionário".

Lusa

9:00 Domingo, 18 de Out de 2009

Lisboa, 18 Out (Lusa) - A União das Capitais das Cidades de Língua Portuguesa homenageia no próximo dia 26 o fundador da instituição e ex-presidente da câmara de Lisboa Nuno Krus Abecasis, elogiado pelo actual secretário-geral da UCCLA como um "grande visionário".

"Foi o grande visionário que percebeu o alcance que havia nas relações entre as cidades que tinham outra liberdade e outra disponibilidade numa altura em que os Estados tinham muitos problemas", afirmou o secretário-geral da UCCLA, Miguel Anacoreta Correia.

A sessão contará com a presença de todos os ex-presidentes da Câmara Municipal de Lisboa, à excepção de Jorge Sampaio, que enviará uma mensagem por se encontrar ausente do país, segundo o programa divulgado.

sábado, 17 de outubro de 2009

Más de un millón de personas han dicho «no» al aborto en Madrid

GUILLERMO DANIEL OLMO | MADRID

Actualizado Sábado, 17-10-09 a las 19:50 ABC

http://www.abc.es/20091017/nacional-/cientos-autobuses-llegan-madrid-200910171612.html

Un clamor, un clamor contra el aborto y en defensa de la vida. Eso es lo que ha sido la gran manifestación contra la reforma de la Ley del Aborto que ha estremecido hoy el corazón de Madrid. Según los datos que ha dado la organización, han asisitido dos millones de personas. La Comunidad de Madrid ha rebajado un tanto el dato, pero lo ha dejado en una cifra también impresionante: un millón doscientas mil personas. El speaker del acto ha comunicado satisfecho a la multitud asistente que se trataba de "la manifestación más grande jamás celebrada en España". ¿Se mantendrá el Gobierno en sus trece?".

Lo de hoy ha sido una exhibición de músculo por parte de los colectivos pro vida, una muestra de lo extenso del tejido social que rechaza de plano los planes del Gobierno Zapatero. A la marea humana que ha venido hoy aquí, el aborto no le gusta nada, lo que le gusta es la vida. Y la marcha de hoy, ha sido eso, una ebullición de vida. Jóvenes, mayores, familias al completo, madrileños y foráneos, han concurrido en la manifestación de hoy.

Pese a que gran parte de la movilización se ha organizado desde las parroquias y a que ha podido verse a bastantes sacerdotes y religiosas en la marcha, los organizadores, la plataforma Derecho a Vivir, ha querido que esto sea una “protesta de la sociedad civil”.

Ha habido música, globos y testimonios de madres que, a pesar de las adversas condiciones en las que hubieron de afrontar su embarazo decidieron seguir adelante con él. Una joven madre hondureña ha relatado por megafonía, que "un sacerdote me recomendó tener a mi hijo y ahora él, mi hijo, es mi mejor compañía".

La marcha ha tenido un tono festivo a la par que reivindicativo. Una inmensa marea roja ha anegado el centro de Madrid, desde Sol hasta la plaza de la Independencia. Un sol impropio de estas fechas ha acompañado a los manifestantes que han coreado lemas como ¡Aborto no, vida sí!, ¡Zapatero dimisión! o ¡España unida, lucha por la vida!.

Por megafonía, el locutor de radio, Javi Nieves, que ha ejercido de animador del acto, solicitaba a los manifestantes su colaboración económica, algo que podían prestar vía sms.

Entre el paisanaje, muchachada, gente mayor, y familias, muchas familias. La mayoría se han dedicado a divertirse. Como las dos monjas que han grabado todo el recorrido en vídeo. Parecían estar pasandóselo bomba.

La marcha ha concluido en la emblemática Puerta de Alcalá, donde el presidente del Foro Español de la Familia, Benigno Blanco, ha lanzado una advertencia al Gobierno: "No pararemos hasta que no haya ningún aborto en España".