quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Falar em procriação

Pedro Vaz Patto

Público, 20090930

As declarações de Manuela Ferreira Leite ao associar a família e o casamento à procriação têm suscitado muitas reacções negativas, que vão da crítica impiedosa, como se fossem sinal do mais bolorento conservadorismo, até à chacota de mau gosto. Reacções tão negativas a declarações que muitos considerarão inspiradas pelo simples bom senso merecem alguma reflexão.

Falar em procriação parece escandaloso ou herético, como se a procriação fosse algo de fundamentalmente negativo, a evitar a todo o custo, um empecilho ao gozo e realização pessoais que a união sexual e o casamento podem proporcionar.

A doutrina católica não limita (não o faz hoje, nem o fez nunca) as finalidades do casamento e da família à procriação. A comunhão entre os cônjuges e a realização pessoal de cada um deles também são finalidades do casamento e da família. Mas a abertura à vida, que não se limita à geração biológica e se prolonga durante todo o percurso educativo das crianças e jovens, também o é. Não é algo de acidental ou secundário. A doação recíproca entre os cônjuges deixa de ser um "egoísmo a dois" quando se abre generosamente à geração e educação de novas vidas. Porque o amor é difusivo por natureza.

É, fundamentalmente, esta abertura que faz com que o casamento mereça um reconhecimento social particular, pois é ela que garante a renovação das gerações, cria o melhor ambiente para o acolhimento da geração seguinte e faz, assim, da família a célula básica da sociedade.

Como já foi salientado, retirar a heterossexualidade e a tendencial abertura à vida da definição de casamento descaracteriza-o como instituição que transcende os interesses individuais dos cônjuges e adquire um papel social da máxima relevância.

A mentalidade antiprocriativa que vemos, deste modo, tão difundida é o maior obstáculo à superação da crise demográfica, por muitos considerada o mais grave dos problemas sociais da Europa de hoje e para o qual, finalmente, os governos parecem despertar.

É, sobretudo, no plano cultural, da mentalidade, que se joga esse desafio. Não são, essencialmente, abonos de família ou subsídios (nem "contas-poupança") que permitirão vencê-lo. Nem mesmo os países com mais generosos apoios desse tipo conseguiram vencê-lo.

Só com outra valorização da vida e da procriação, vistas sempre como um dom e uma oportunidade, nunca como um limite ou um empecilho, é que a crise demográfica pode ser superada. Nisto deviam pensar os políticos que criticam a associação entre casamento, família e procriação.

Juiz


terça-feira, 29 de setembro de 2009

“Caritas in Veritate” uma receita para enfrentar a crise - Presidente da Companhia das Obras em Portugal

Dia 29 de Setembro, Bernard Sholtz, Presidente da Companhia das Obras, uma associação empresarial presente em várias partes do mundo, vem a Portugal fazer uma apresentação sobre a última encíclica social de Bento XVI.

Uma abordagem sobre a encíclica que sublinha a importância que a Igreja "não pode oferecer soluções técnicas nem pretende intrometer-se na política"; mas tem uma missão a cumprir: anunciar Cristo como "o primeiro e principal factor de desenvolvimento"

A encíclica ajuda-nos a descobrir que a fé em Cristo nos coloca nas condições ideais para enfrentar uma infinidade de problemas de ordem económica, financeira, social e política.

Este é o trabalho a que nos introduz Bernhard Scholz na próxima
Terça Feira, dia 29 de Setembro às 19:45h, no Hotel Fénix, em Lisboa

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Frase do dia

Não venci todas as vezes que lutei, mas perdi todas as vezes que não o fiz

O enigma chinês

João César das Neves

DN, 20090928

Na próxima quinta-feira passa o 60.º aniversário do nascimento da República Popular da China. Este facto não só abriu as portas a acontecimentos incomparáveis em toda a vida da humanidade como foi um dos mais importantes acontecimentos do século XX, criando a que será potência dominante no século XXI. Basta olhar os seis momentos em que a revolução de 1949 celebrou a entrada em novas décadas para ver a terrível e espantosa evolução que sofreu a mais antiga e rica civilização do mundo.

Em 1959, quando a República Popular fez dez anos, começou a maior fome artificial da história, onde morreram dezenas de milhões de pessoas. Esta catástrofe foi o resultado da incrível experiência económica do Grande Salto em Frente, uma tresloucada iniciativa pessoal de Mao Tsé--Tung. Dez anos depois, em 1969, o mesmo Mao declarava o fim da Revolução Cultural, um projecto ainda mais brutal e devastador que, apesar da declaração, estava longe de ter acabado. A turbulência duraria até depois da morte de Mao, a 9 de Setembro de 1976. As consequências, essas, ainda não acabaram.

Em 1979, o clima mudara radicalmente. Logo a 1 de Janeiro, a China estabeleceu relações diplomáticas com os EUA, que o novo homem forte Deng Xiaoping visitou de 29 de Janeiro a 4 de Fevereiro, na primeira viagem à América de um líder chinês. A 8 de Fevereiro, seria a vez de o Estado comunista reatar relações com o mais antigo aliado ocidental, Portugal.

Em 1989, o 40.º aniversário foi posto em risco pelos protestos da Praça Tiananmen, de 15 de Abril ao massacre de 4 Junho. A brilhante década de reformas económicas sem abertura política parecia estar em risco perante os gritos dos estudantes. Mas dez anos depois, em 1999, o Partido Comunista ainda mantinha o poder e recebia a devolução de Macau a 19 de Dezembro.

Esse ano de 1999 foi também o último em que a média do crescimento mundial (3,5%) foi próxima da do valor dos países ricos (3,2%) e em desenvolvimento (3,8%). Logo em 2000, esta última taxa quase duplicou e começou o período em que as economias pobres puxam pela economia planetária. Costuma chamar-se "globalização".

Por causa dela, neste 60.º aniversário, todo o planeta tem os olhos postos no crescimento chinês, esperando dele o reboque para a recuperação do colapso financeiro. Terão terminado os terríveis 200 anos do interregno da China? O Império do Meio passou o século XIX enfraquecido pela decadência da dinastia manchu e humilhado pelo Ocidente nas guerras do ópio. Depois as devastações dos "senhores da guerra" e do invasor japonês lançaram os chineses nos braços dos comunistas, que seriam ainda mais terríveis.

O sofrimento do povo chinês não tem paralelo na história recente, e isso é dizer muito no sangrento século XX. Foram 60 anos mirabolantes, misturando sonhos magníficos, matanças indescritíveis e recuperações estrondosas. Mas a China é já um dos actores principais da globalização e prepara-se para ser a maior economia mundial. A velha sabedoria chinesa, que brilhou durante milénios, regressa ao seu lugar natural. Ou não?

É precisamente aqui que se situa a grande interrogação que assombra este aniversário e um dos problemas mais graves do mundo. Qual o carácter ético e espiritual da China de hoje? Que valores a orientam? Que elevação a motiva? Depois de desmantelar os grande pilares da sua milenar cultura em nome de uma doutrina alemã, que pensa a China? Depois de sofrer a mais selvagem e totalitária doutrinação marxista, como reage a China? Suportando o crescimento produtivo mais estonteante de sempre e sem respeitar democracia nem direitos humanos, que finalidades inspiram o gigante? Vivendo, sob a hegemonia de um partido comunista, a mais desenfreada exploração capitalista que o mundo já viu, que sabemos da atitude chinesa?

A República Popular sofre as terríveis tensões da transformação estrutural, da concorrência impiedosa, das exigências geostratégicas. Mas os verdadeiros desafios são culturais, axiológicos, espirituais. Mortos Marx, Mao e Deng, quem inspira a China?

domingo, 27 de setembro de 2009

Descriminalização das drogas em Portugal - O retrato factual

Manuel Pinto Coelho
Público, 27 Set 2009 
Tem vindo a imprensa nacional e principalmente a estrangeira, a referir com estranha insistência, em vésperas de dois importantes processos eleitorais em Portugal, o “retumbante sucesso” da descriminalização das drogas, encetada em 2001 pelo governo socialista, à revelia de todos os outros países europeus e em detrimento das orientações e Convenções das Nações Unidas de que o país é signatário.
O respeito pela verdade dos factos obriga a Associação para um Portugal Livre de Drogas (APLD) a esclarecer os portugueses sobre as verdadeiras consequências da implantação da política actual, independentemente das filiações partidárias. Portugal adoptou uma solução (?) assaz original e inequivocamente questionável para gerir o pesadelo das drogas.
 
Os artigos recentes do semanário britânico The Economist e do Cato Institute de Washington promovem as opções governamentais. É um direito legítimo, quiçá politicamente correcto. O problema é o resto: a manipulação arreliadora dos factos e dos números é inaceitável…
 
1º - Em Portugal, no ano de 2006, o número total de mortes por overdose não diminuiu radicalmente em relação a 2000, nem a percentagem de toxicodependentes com sida baixou (de 57% para 43%). Sucedeu o oposto. Assistimos a uma preocupante degradação da situação. Os factos demonstram isso mesmo: “Com 219 mortes de “overdose” por ano, Portugal apresenta um dos piores resultados, com uma morte a cada dois dias. Com a Grécia, Áustria e Finlândia, é um dos países que registou um aumento de mais de 30% em 2005” e “Portugal continua a ser o país com maior incidência de sida relacionada com o consumo de droga injectada (85 novos casos por milhão de habitantes em 2005, quando a maioria não ultrapassa os cinco casos) e o único que registou um aumento recente, com 36 novos casos estimados por milhão de habitantes em 2005 quando em 2004 referia apenas 30” (Observatório Europeu das Drogas e da Toxicodependência -OEDT - 2007). Ainda segundo o relatório europeu, Portugal registou, em 2006, 703 novos casos de infecção, o que corresponde a uma taxa oito vezes superior à média europeia!
 
2º - A descriminalização das drogas em Portugal não permitiu de forma alguma a diminuição dos níveis de consumo, pelo contrário. Na realidade, “o consumo de droga em Portugal aumentou 4,2% - a percentagem de pessoas que alguma vez na vida consumiram drogas passou de 7,8% em 2001 para 12% em 2007, (IDT – Instituto da Droga e da Toxicodependência português, 2008).
 
3º - No que se refere ao consumo de cocaína “os novos dados (inquéritos de 2005-2007) confirmam a tendência crescente registada no último ano em França, Irlanda, Espanha, Reino Unido, Itália, Dinamarca e Portugal” (OEDT 2008). Enquanto as taxas de uso de cocaína e de anfetaminas dobraram em Portugal, as apreensões desta última droga aumentaram sete vezes entre 2001 e 2006, a sexta mais elevada do mundo: (WDR – World Drug Report, 2009).
4º - No que diz respeito ao haxixe: - “É difícil avaliar as tendências do consumo intensivo de cannabis na Europa, mas, entre os países que participaram em ambos os ensaios de campo, entre 2004 e 2007 (França, Espanha, Irlanda, Grécia, Itália, Países Baixos, Portugal), houve um aumento médio de aproximadamente 20%” (OEDT, 2008).
 
5º - Em Portugal, desde que a descriminalização foi implementada, o número de homicídios relacionados com a droga aumentou 40%. “Foi o único país europeu a evidenciar um aumento significativo de homicídios entre 2001 e 2006” (WDR, 2009).
 
6º - Um relatório recentemente encomendado pelo IDT ao Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (CESOP) da Universidade Católica Portuguesa, baseado em entrevistas directas, sobre as atitudes dos portugueses relativamente à toxicodependência (que estranhamente nunca foi divulgado), revela que 83,7% dos respondentes considera que o número de toxicodependentes em Portugal aumentou nos últimos quatro anos,  66,8% consideram que a acessibilidade de drogas nos seus bairros foi fácil ou muito fácil e 77,3% que o crime relacionado com a droga aumentou ("Toxicodependências" nº 3 de 2007).
 
É esta é a pungente realidade portuguesa no que diz respeito à droga e à toxicodependência.
Para o governo português, os toxicodependentes são encarados essencialmente como doentes. É uma atitude suicidária e dispendiosa para o erário público. Fingem que estão doentes e o governo finge que os trata!
A descriminalização do consumo, da posse e da aquisição para o consumo, penaliza apenas quando se adiciona outro ilícito ao efeito do consumo, que funciona quase sempre como atenuante. Legalizar o crime cometido por “drogados” (ou por “doentes” - sic) não parece a forma mais eficaz de o combater, como o atesta a invulgar taxa de homicídios relacionados com droga registada em Portugal em comparação com os outros países da Europa. Facilitar o acesso à droga, não será o caminho para a redução do consumo, a diminuição das toxicodependências e da criminalidade associada.
É deveras curioso o que se passa em Portugal: os toxicodependentes, com o apoio tácito do governo, invocam a sua condição de “doentes” para não serem punidos pelos seus delitos, mas depois esquecem-se que são “doentes” e assumem-se como pessoas livres e responsáveis, que decidem se se querem tratar ou não!
Ao considerar, pela via da descriminalização, o toxicodependente um doente e não um delinquente, o Estado não pode depois optar, através duma política que dá a prioridade à “redução de danos”, por alimentar a “doença” em vez de a curar!
Retumbante sucesso? Os resultados estão à vista!
 
Manuel Pinto Coelho
Presidente da Associação para um Portugal Livre de Drogas

 

27 de Setembro - S. Vicente de Paula



S. Vicente de Paula
Anónimo, séc. XVIII
Musée du Château, Versailles

sábado, 26 de setembro de 2009

Governo espanhol aprova nova lei do aborto polémica

Público, 20090926

Por Nuno Ribeiro, Madrid


O Conselho de Ministros espanhol aprova hoje o novo anteprojecto de lei do aborto que, na prática, institui uma lei de prazos que permite a interrupção voluntária da gravidez até às 14 semanas. Esta medida suscita polémica na sociedade espanhola, tendo as associações pró-vida, a hierarquia eclesiástica e os partidos conservadores convocado já uma manifestação, em Madrid, para 17 de Outubro, durante a discussão parlamentar do diploma.

O aspecto mais contestado da nova lei é o que definia que as jovens entre os 16 e os 18 anos possam abortar sem conhecimento ou autorização dos pais. A lei da autonomia do paciente, aprovada em 2002 pelo Governo conservador de José Maria Aznar, estabelecia nos 16 anos a chamada maioridade sanitária. Mas dizia que, a partir de tal idade, os jovens podiam decidir sobre os tratamentos médicos a que eram submetidos, salvo em três excepções: interrupção voluntária da gravidez, reprodução assistida e ensaios clínicos.

O anteprojecto de lei do aborto apresentado pela ministra da Igualdade, Bibiana Aído, estabelecia que as jovens decidiam sobre a continuidade da gravidez sem necessidade de autorização dos pais. Mas a polémica suscitada obrigou o executivo espanhol a admitir uma alteração: embora a decisão caiba apenas à menor, os pais devem ser informados, numa aproximação da nova lei à legislação em vigor em França.

Um outro ponto quente do diploma que o Governo de José Luis Rodriguez Zapatero reviu é o que se refere aos comités médicos que decidem sobre a autorização dos abortos posteriores à 22.ª semana de gestação, caso seja detectada no feto uma doença extremamente grave e incurável no momento do diagnóstico. Na constituição de tais comités não deve estar nenhum médico que se tenha manifestado contrário à interrupção voluntária da gravidez.

Estas e outras alterações que o executivo socialista ainda admite efectuar durante a discussão parlamentar têm como objectivo inviabilizar o sucesso do recurso já anunciado pelo Partido Popular para o Tribunal Constitucional. O gabinete de Zapatero está ciente da oposição ao texto que pretendia ver aprovado: o Conselho Fiscal já declarou inconstitucional o anteprojecto, o Conselho Geral do Poder Judicial, o órgão de governo dos juízes, foi incapaz de chegar a acordo sobre o texto, e só o Conselho de Estado o aprovou por unanimidade.

Apesar do parecer destes órgãos ser apenas de natureza consultiva, o Governo pretende blindar o seu projecto para que a sua aprovação pelo Parlamento não seja adiada.

Dentro de três semanas, a 17 de Outubro, diversas organizações que fazem campanha contra o aborto vão organizar em Madrid uma manifestação contra a reforma da lei do aborto, com o apoio da Conferência Episcopal Espanhola e do Partido Popular. Os organizadores esperam reunir na capital espanhola um milhão de pessoas, no que será o primeiro dos confrontos do executivo espanhol com a Igreja Católica. O segundo embate vai acontecer a propósito da nova Lei da Liberdade Religiosa, que pretende incentivar o laicismo na sociedade espanhola.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Eleger é escolher

Maria José Nogueira Pinto

DN 20090924

Teoricamente as Legislativas têm como objectivo ocupar as bancadas da Assembleia da República com ilustres representantes do povo mas, na prática, o que está agora em causa é escolher quem vai governar Portugal, se Ferreira Leite se Sócrates. Ora, tendo Sócrates governado durante mais de quatro anos, a decisão de o manter ou de o substituir depende do escrutínio de cada eleitor sobre o que ele foi e o que ele fez durante o seu mandato, bastando para tal um pequeno e fácil exercício de memória.

Recordo-me bem da sua primeira versão: enérgico, incansável, rápido na decisão, usando a autoridade com singular incorrecção política, parecendo saber sempre o que queria e para onde ia. Foi o tempo de um plano reformista ambicioso e necessário. Mas depressa se viu que o homem não tinha painel de bordo, arrancando em todas as frentes com medidas que abanaram, perturbaram e criaram resistências; optando por um governo unipessoal; atribuindo os atrasos e percalços aos defeitos nacionais e nunca a erros seus; mudando o excesso de voluntarismo em precipitação.

Na segunda fase as reformas ficam em banho-maria, a rua transforma-se no espaço de confronto político e social por excelência, com a megamanifestação dos professores e o gravíssimo incidente da ocupação de eixos rodoviários estratégicos pelos camionistas. Vimos então um novo Sócrates, atarantado, inseguro, incapaz de accionar os mecanis- mos do próprio Estado. Perdida a autoridade, socorreu-se de um autoritarismo crescente numa sucessão de atitudes persecutórias e abusos de autoridade.

A emergência da crise dá-lhe um novo fôlego, adiando indefinidamente a avaliação do seu desempenho e do grau de execução das suas políticas, abrindo-lhe o caminho da ficção - o Portugal do 2,2%, do aumento dos postos de trabalho, sem recessão à vista - abrilhantado por um cabaz de medidas anticrise para todos os gostos. Depois seguiu-se uma radicalização ideológica "quanto baste" para compensar os votos perdidos com o desgaste, a penalização das Europeias e uma fénix renascida para uma campanha de promessas que não poderão ser cumpridas, de demagogia barata, truques de segunda e sentimentalismos à la carte.

Afinal, que fez Sócrates por nós? O que mudou foi para melhor? Que confiança nos merece? Que sabemos nós das sucessivas trapalhadas, da licenciatura, do Freeport, da TVI, da possível coligação com o BE?

Do outro lado temos Manuela Ferreira Leite. Num país onde o exercício da política foi entregue a habilidosos vendedores de promessas, em que o sentido do serviço público se perdeu, em que preponderam os interesses pessoais, os estados de alma e os caprichos, alguém que é fiável e confiável, que vive habitualmente, que conhece o real e o quotidiano, que não quer nada para si, que vem quando é difícil, que se apresenta exactamente como é, que junta princípios e competência para fazer, torna-se facilmente numa ameaça. Porque rompe com o paradigma, porque desarma, porque pode dizer que o rei vai nu.

Recordo-me como, desde o dia em que se candidatou à presidência do PSD, os habituais oráculos previram o pior: que não ganharia o congresso, que não conseguiria espaço para se constituir como alternativa, que só sabia de economia e finanças, que não tinha consciência social, que iria perder as europeias, que não tinha programa, que não tinha candidatos.

Pouco a pouco, indiferente a tudo isto, ela construiu uma alternativa, iniciou uma nova forma de fazer política, marcou os timings e foi pondo em cima da mesa os temas que fizeram a agenda política e, pela primeira vez, o PS sofreu uma oposição contundente, a derrota nas Europeias e perdeu a veleidade de fazer destas eleições uma passeata alegre.

A decisão que for tomada no dia 27 terá consequências decisivas para o que resta de Portugal e de todos nós. Um enorme risco ou uma derradeira oportunidade. É preciso escolher antes de votar.

Crise e eleições

DESTAK | 24 | 09 | 2009 08.36H

João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

A crise é o tema das eleições. Sobre isso podemos tirar algumas lições da nossa última queda grave, há 25 anos. Na altura o PIB contraiu um total de 6,7%, do pico no quarto trimestre de 1982 ao fundo no primeiro de 1984. Desta vez já caímos 4% desde o segundo trimestre de 2008.

O padrão político nos dois casos é semelhante. Na primeira crise houve três anos e meio de governos de maioria AD PSD/CDS/PPM) de Janeiro 1980 a Junho 1983, seguidos por dois anos e meio de governo maioritário do bloco central (PS/PSD) até Novembro de 1985. Desta vez foram três anos e meio de governos de maioria PSD/CDS (Abril de 2002 a Março de 2005) seguidos por quatro anos e meio do governo maioritário do PS. Seguindo o paralelo, as próximas legislativas seriam semelhantes às de Novembro de 1985, onde saiu o governo PSD que, apesar de minoritário, presidiria a uma década de crescimento com Cavaco Silva.

Mas as diferenças são também grandes. Em 1982-84 os erros foram cometidos pelos governos AD e resolvidos, com a ajuda do FMI, pelo bloco central. Desta vez as falhas já vêm da década passada, dos governos minoritários PS de Guterrres, e não foram solucionadas por nenhum dos executivos seguintes. Por isso a crise de 1982-84, mais violenta, demorou menos de dois anos, enquanto esta ferve em lume brando há mais de dez, agravada agora com o colapso internacional.

Os analistas prevêem um governo de minoria como em 1985. Mas a crise ainda deve durar uns tempos. Temos um grande consolo: o nosso nível de vida, mesmo com a queda, está 75% acima do fundo de 1984.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Pode o voto do cristão apoiar programas políticos contrários aos fundamentos da fé e da moral?

EXCERTOS DO CAPÍTULO Alguns pontos fulcrais no actual debate cultural e político

DOCUMENTO: Nota Doutrinal sobre algumas questões relativas

à participação e comportamento dos católicos na vida política

AUTORIA: Congregação para a Doutrina DA Fé

DATA: 24 de Novembro de 2002

ASSINADO: Card. Joseph Ratzinger e D. Tarcisio Bertone

Ler documento completo AQUI

(...) A consciência cristã bem formada não permite a ninguém favorecer, com o próprio voto, a actuação de um programa político ou de uma só lei, onde OS conteúdos fundamentais DA fé e DA moral sejam subvertidos com a apresentação de propostas alternativas ou contrárias aos mesmos.

Uma vez que a fé constitui como que uma unidade indivisível, não é lógico isolar um só dos seus conteúdos em prejuízo DA totalidade DA doutrina católica.

Não basta o empenho político em favor de um aspecto isolado DA doutrina social DA Igreja para esgotar a responsabilidade pelo bem comum. Nem um católico pode pensar em delegar a outros o empenho que, como cristão, lhe vem do evangelho de Jesus Cristo de anunciar e realizar a verdade sobre o homem e o mundo.

Quando a acção política se confronta com princípios morais que não admitem abdicações, excepções ou compromissos de qualquer espécie, é então que o empenho dos católicos se torna mais evidente e grávido de responsabilidade. Perante essas exigências éticas fundamentais e irrenunciáveis, OS crentes têm, efectivamente, de saber que está em jogo a essência DA ordem moral, que diz respeito ao bem integral DA pessoa.

  • É o caso das leis civis em matéria de aborto e de eutanásia (a não confundir com a renúncia ao excesso terapêutico, legítimo, mesmo sob o ponto de vista moral), que devem tutelar o direito primário à vida, desde o seu concebimento até ao seu termo natural.
  • Do mesmo modo, há que afirmar o dever de respeitar e proteger OS direitos do embrião humano.
  • Analogamente, devem ser salvaguardadas a tutela e promoção DA família, fundada no matrimónio monogâmico entre pessoas de sexo diferente e protegida na sua unidade e estabilidade, perante as leis modernas em matéria de divórcio: não se pode, de maneira nenhuma, pôr juridicamente no mesmo plano com a família outras formas de convivência, nem estas podem receber, como tais, um reconhecimento legal.
  • Igualmente, a garantia DA liberdade de educação, que OS pais têm em relação aos próprios filhos, é um direito inalienável, aliás reconhecido nas Declarações internacionais dos direitos humanos.
  • No mesmo plano, devem incluir-se a tutela social dos menores e a libertação das vítimas das modernas formas de escravidão (pense-se, por exemplo, na droga e na exploração DA prostituição).
  • Não podem ficar for a deste elenco o direito à liberdade religiosa e o Progresso para uma economia que esteja ao serviço DA pessoa e do bem comum, no respeito DA justiça social, do princípio DA solidariedade humana e do de subsidariedade, segundo o qual “OS direitos das pessoas, das famílias e dos grupos, e o seu exercício têm de ser reconhecidos”.
  • Como não incluir, enfim, nesta exemplificação, o Grande tema DA Paz? Uma visão irénica e ideológica tende, por vezes, a secularizar o valor DA Paz; noutros casos, cede-se a um juízo ético sumário, esquecendo a complexidade das razões em questão. A Paz é sempre “fruto DA justiça e efeito DA caridade”; exige a recusa radical e absoluta DA violência e do terrorismo e requer um empenho constante e vigilante DA parte de quem está investido DA responsabilidade política.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Frase do dia

A morte é mais universal do que a vida; todos morremos, mas nem todos vivemos

A. Sachs

(1930 -…)

Actor inglês

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

21 de Setembro - S. Mateus

S. Mateus e o anjo
Caravaggio
1603
Óleo sobre tela.
San Luigi dei Francesi,
Roma, Itália

Tempo de balanço

João César das Neves

DN, 20090921

Está na altura de fazer o balanço da legislatura, com influência nas escolhas para a próxima. Ao fim de tudo o que vivemos estes anos, que podemos dizer?

À partida as condições de estabilidade política foram excepcionais. Não só vivemos a terceira maioria absoluta e o mais longo período sem eleições nacionais da democracia mas, melhor, a recessão de 2004 preparara os cidadãos para medidas duras. O povo, que compreendeu a urgência, apoiou os ministros nas políticas exigentes que anunciaram. Estiveram os efeitos à altura?

No assunto que o próprio Governo declarou prioritário o resultado foi infeliz. O défice orçamental, medida emblemática, acabará o ano acima do valor elevado que o Governo confrontou à chegada e tanto criticou. À primeira vista a culpa disto é internacional, mas a coisas são mais complexas do que parecem.

A trajectória verificada parece confirmar a desculpa governamental. Recebendo em 2004 um défice público de 5,5% do PIB, as Finanças conseguiram reduzi-lo para 2,2% no ano passado. Este ano, com o colapso global, as previsões apontam para 6,5%. Mas se virmos o desequilíbrio, não apenas do Orçamento, mas de toda a economia, a evolução é muito diferente.

O défice global da balança externa era de 6,1% do PIB em 2004. Subiu para 8,3% em 2005 e, mantendo-se sempre acima dos 8%, foi de 10,8% o ano passado, prevendo--se 8,3% este ano. Ou seja, a alegada contenção pública não afectou o País. Enquanto o Estado fazia ziguezague no seu endividamento, a dívida total nacional ao exterior subia sempre, de 65% do PIB em 2005 para 100% este ano. Isto mostra que a suposta austeridade pública foi feita à nossa custa, com aumento de impostos, não redução de despesa. Não admira a inversão e a falta de resultados nacionais.

Esta escolha criteriosa de objectivos, centrando atenções mediáticas num pormenor com o resto a correr mal, é um símbolo económico deste Governo, como também se viu no emprego. Aí a grande promessa eleitoral de 2005 era a criação de 150 mil novos postos de trabalho. Não cumpriu, justificando--se também com a crise externa, mas no fim do ano passado o primeiro-ministro cantava vitória com 133 mil novos empregos de 2005 ao 3.º trimestre de 2008. Mas reduziu isso o desemprego? No mesmo período o número de desempregados caiu apenas de 2700 pessoas. Como é isto possível? Com imigração! Ou seja, as empresas portuguesas (não os ministros) criaram empregos (entretanto perdidos) mas não para os portugueses, que não os quiseram. Foram estrangeiros que vieram ocupar tais trabalhos. Entretanto, a escolha dos objectivos quase fazia parecer que o Governo cumpria a promessa sem resolver o problema.

Nos outros sectores o quadro é paralelo. Houve uma inversão total da política de Saúde da primeira para a segunda metade do mandato, uma guerra aberta na Educação (aliás comum nas décadas anteriores), descontentamento surdo nas forças de segurança e (mais) uma oportunidade perdida no funcionalismo público, enquanto a Justiça vivia uma vergonha. O balanço não é brilhante. Mas para uma avaliação completa faltam três elementos, dois excelentes, um horrível.

Este Governo deixa dois resultados muito relevantes: a modernização electrónica da administração e a reforma da Segurança Social. São medidas estruturais há muito anunciadas, sempre adiadas e finalmente (parcialmente) cumpridas. A importância destas medidas para o longo prazo da sociedade é muito significativa.

Há ainda algo de natureza mais profunda, onde o Governo deixa aquilo que o definirá nas gerações futuras. Este é o Executivo que assistiu à primeira queda da natalidade abaixo da mortalidade e à primeira explosão de abortos em Portugal. Isto não foi por acaso, pois multiplicaram-se as leis contra a vida e a família. O primeiro-ministro chama-lhe "modernidade".

Em política existem questões ideológicas, divergências técnicas, debates estratégicos e orientações de fundo. Mas existem também os grandes desígnios nacionais e a identidade como povo. Aí falamos, não de inconvenientes, mas de infâmia


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

E a intermediação cultural?

Helena Matos

20090917 Público

O Bloco de Esquerda declara que a sua sede, no Porto, tem sido atacada por neonazis.

Começo por não conseguir perceber como chegou o BE a esta conclusão pois os ataques, ainda segundo o BE, "são perpetrados por pessoas que passam de carro e atiram pedras".

Mesmo dando de barato que com um simples olhar para viaturas em movimento o BE consegue avaliar a ideologia dos respectivos ocupantes, resta-me ainda um outro mistério. Mais propriamente o da linguagem. Em primeiro lugar, caso os agredidos fossem simples cidadãos ou um partido que não o BE estes factos teriam sido descritos com aquela linguagem politicamente correcta que é tão do agrado do BE.

Assim os ataques começariam por ser alegados. Os atacantes não seriam neonazis nem o quer que fosse. Quando muito dir-se-ia que as vítimas, provavelmente sem grande fundamento, suspeitavam de determinados grupos, sendo certo que logo se faria um enquadramento socio-económico sobre o desemprego, falta de expectativas e outros problemas que explicassem que umas criaturas se entretivessem a atirar pedras para as janelas dos outros. Para finalizar, as vítimas dos alegados ataques seriam descritas como estando imbuídas duma certa paranóia securitária que as levava a pedir mais policiamento e não acções de integração para os jovens e demais excluídos.

Creio que esta semana algo mudou no BE.

E não, não me estou a referir à possibilidade de Louçã vir a integrar um futuro governo de Sócrates. O que mudou mesmo é que o BE doravante e para o futuro terá de explicar como é que atirar pedras aos outros é crime em Portugal e acto de resistência na Palestina.

Por fim, mas não menos importante, o BE não só chamou a PSP como passou a considerar que faz falta polícia na rua. Ou mais precisamente faz falta na rua da sua sede do Porto.

Tenhamos paciência: há grandes mudanças que começaram mais discretas. Espero apenas que os alegados atacantes autores dos alegados ataques não tenham lido o programa do BE, nomeadamente as poucas linhas que na sua página 99 são dedicadas à segurança e onde são sugeridas como medidas de combate ao crime "a intervenção activa das populações, através de conselhos municipais e de freguesia em que estejam representadas todas as comunidades e em particular os mais jovens"; e a "intermediação cultural". Por que não dá o BE o exemplo e começa já com a "intermediação cultural", convidando os alegados atiradores de pedras que certamente ainda são jovens para falarem na Assembleia Municipal do Porto? Quem sabe não sofrem dum trauma que os remeteu para as margens da sociedade por não terem tido fisgas quando eram pequeninos?!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A gestão do pessoal

Helena Matos

Público, 20090917

Um dos melhores retratos da educação em Portugal é aquele que foi traçado nos recentes debates entre os líderes partidários. Os candidatos falaram sobre avaliação de professores, mas não sobre o ensino. Na verdade, em Portugal há muito que a educação se resume a uma questão laboral. Não temos propriamente Ministério da Educação, mas sim um ministério que coloca e gere as carreiras dos seus funcionários. E o próprio destino dos ministros da Educação é ditado não pelo que faz pela qualidade do ensino, mas sim sobre a relação que estabelece com os sindicatos do sector.
Que me recorde, e acompanho este assunto com alguma regularidade, a única questão pedagógica que politicamente se discutiu nos últimos tempos versava os conteúdos da Educação Sexual. Sobre o Português e a Matemática, o Inglês e a História só se fala a propósito dos resultados nos exames nacionais. A Filosofia e a Física têm qualquer dia tantos alunos quantos linces existem na Malcata. Da reforma gramatical iniciada com extraordinária leviandade e assinalável ignorância há cinco anos não se sabe onde pára... Mas nada disto parece ser suficientemente importante para que seja incluído nos debates destas legislativas na temática da educação.
É bizarro que o Estado português gaste em média cinco mil euros por ano com cada aluno no ensino dito gratuito, que os os exames revelem que estes mesmos alunos estão progressivamente a aprender menos, que tenhamos problemas graves de indisciplina em muitas escolas e que aquilo de que se fala quando se fala de educação seja do sistema de avaliação dos professores. E é muito preocupante que as lideranças partidárias estejam elas mesmas reféns dessa perversão que reduziu o ensino aos problemas laborais dos professores. Há que fazer uma total inversão das prioridades nesta matéria. A escola tem de ter no centro os alunos. Os professores, os edifícios, os funcionários só existem porque existem alunos. E esses alunos, até esclarecimento mais cabal, estão na escola para aprender, embora levem grande parte do tempo lectivo ocupados com umas disciplinas de nomes pomposos (como Estudo Acompanhado ou Formação Cívica) e conteúdo nulo.
Aliás, só a distância entre aquilo que os líderes partidários entendem ser a educação e aquilo que ela realmente é explica que, apesar dos debates terem acontecido em Setembro, mês do início das aulas, uma despesa como a dos manuais escolares não lhes tenha merecido grande atenção. Contudo, cada família gasta anualmente 150 a 200 euros, por criança, com os manuais que vão do 5.º ao 9.º anos, um valor muito superior ao das taxas moderadoras na saúde, assunto que os candidatos tanto apreciam discutir. E quando de alguma forma a temática dos manuais escolares é abordada, restringe-se inevitavelmente à questão daqueles que antes se chamavam pobres, depois carenciados, em seguida desfavorecidos e que agora creio serem definidos como tendo menores rendimentos, mas que, mais cruamente falando, são aqueles que não têm dinheiro para pagar os ditos manuais. Como é óbvio, o prémio da bondade nesta matéria vai para aqueles que reivindicam manuais gratuitos para todos ou, por outras palavras, defendem que os manuais ditos gratuitos sejam pagos através dos impostos, pois o gratuito infelizmente não existe.
Mas antes de passarmos o cheque, seja como contribuintes ou compradores, cabe perguntar: para quê tanto manual? Muitos deles, na verdade, não fazem falta alguma. Por exemplo, durante quanto tempo vamos ter de comprar manuais de Educação Física? Noutros casos as aulas são cada vez menos aulas e mais um papaguear autista dos manuais. E por fim temos uma questão incontornável: por que terão os manuais escolares de ter uma vida útil de dez meses? É espantoso que o correio electrónico nos interpele sobre a necessidade de imprimirmos isto ou aquilo e depois, todos os anos, assistimos impávidos a este desperdício de papel e dinheiro, como se ele fosse uma fatalidade. Bastaria que, no final do ano lectivo, se entregassem nas escolas os manuais usados, se seleccionassem os que poderiam ser usados de novo e no início do ano lectivo seguinte certamente que os alunos teriam de comprar novos manuais, mas não para todas as disciplinas.
A redução da escola a um espaço do qual os políticos apenas debatem a conflitualidade laboral e quando muito as questões do gratuito leva ainda a que tenha passado quase sem referência a degradação da escola pública enquanto instituição que, a par do serviço militar obrigatório, tinha o mérito de colocar, lado a lado, os filhos dos portugueses, independentemente dos rendimentos, habilitações e estatuto das respectivas famílias. Testemunhos mais ou menos avulsos dão conta de que uma das consequências da presente crise é o regresso de alguns filhos da classe média ao ensino público. Talvez a integração destes alunos e a presença das respectivas famílias sirva para questionar muito do folclore e da falta de autoridade que por lá se fazem sentir, sobretudo até ao 9.º ano. E naturalmente também para confrontar a classe política com o paradoxo que resulta de os portugueses serem suficientemente adultos para pagar impostos e para perceberem a importância da escolaridade obrigatória. Já na hora de decidirem qual escola, pública ou privada, desejam que os seus filhos frequentem, passam a irresponsáveis e o Estado português decide que os seus filhos só podem frequentar a escola pública da sua área de residência. Quando poderemos discutir a possibilidade de o Estado entregar à escola pública ou privada escolhida pelas famílias a verba que vai gastar com a escolaridade obrigatória dessas crianças? Tudo isto é demasiado importante e demasiado caro para que fique restringido no debate político à relação que o ministro oficial, o primeiro-ministro e os candidatos a sê-lo têm ou pensam vir a ter com o ministro-sombra, a saber Mário Nogueira, sobre o omnipresente assunto da gestão do pessoal.
Jornalista

Imunização

    • João César das Neves
    • DESTAK |17 | 09 | 2009 08.18H

Qual é a doença mais mediática, afamada e antecipada de sempre? Essa é fácil: a gripe A. Nunca se viu uma campanha tão obsessiva à volta de uma maleita como nestes meses. Há mais medo da pandemia que das piores doenças antigas. Será que se justifica?

O futuro o dirá. O que se sabe é que na Europa e EUA não se vê o grau de atenção jornalística e mobilização governamental da dimensão do português. Somos sem dúvida o país do mundo mais antecipadamente alertado para se defender de tal constipação. O sector da saúde pode envergonhar-nos pelos custos, listas de espera, qualidade de serviço e indicadores de eficácia. Mas em planos de contingência ninguém nos bate.

Isso levanta um problema: se os efeitos da doença não forem devastadores, se os números de doentes estiverem ao nível das várias gripes habituais, mesmo com os jornais a empolar, que acontecerá?

É provável que nesse caso os responsáveis venham cantar vitória, atribuindo o sucesso ao seu plano de contingência. A ministra da Educação também se congratulou com a redução do insucesso escolar desde que acabou com os exames. Mas temos de nos preocupar com a perda de credibilidade dessas mesmas autoridades. Tal como os ambientalistas, que há muito gostam de promover alarme convencidos que isso lhes favorece as causas meritórias, o Ministério da Saúde tem de compreender que o excesso de alvoroço tende a gerar imunização na opinião pública.

Avisos dramáticos que se mostrem exagerados acabam por perder eficácia. Será difícil voltar a criar uma campanha como a da tão famosa gripe A de 2009.

João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

16 de Setembro - São Cipriano

Audiência geral de quarta-feira, 6 de Junho de 2007

Queridos irmãos e irmãs!
Na série das nossas catequeses sobre as grandes personalidades da Igreja antiga, chegamos hoje a um excelente Bispo africano do século III, São Cipriano, que "foi o primeiro bispo que na África conseguiu a coroa do martírio". Em primeiro lugar a sua fama como afirma o diácono Pôncio, o primeiro que escreveu a sua vida está relacionada com a produção literária e com a actividade pastoral dos treze anos que decorrem entre a sua conversão e o martírio (cf. Vida 19, 1; 1, 1).
Nascido em Cartagena numa família pagã rica, depois de uma juventude dissipada Cipriano converte-se ao cristianismo com 35 anos. Ele mesmo narra o seu percurso espiritual: "Quando ainda jazia como que numa noite escura", escreve alguns meses depois do baptismo,"parecia-me extremamente difícil e cansativo realizar o que a misericórdia de Deus me propunha... Estava ligado a muitíssimos erros da minha vida passada, e não pensava que me podia libertar, porque cedia aos vícios e favorecia os meus maus desejos... Mas depois, com a ajuda da água regeneradora, foi lavada a miséria da minha vida precedente; uma luz soberana difundiu-se no meu coração; um segundo nascimento restaurou-me num ser totalmente novo. De modo maravilhoso começou então a dissipar-se qualquer dúvida... Compreendia claramente que era terreno o que antes vivia em mim, na escravidão dos vícios da carne, e era ao contrário divino e celeste o que o Espírito Santo já tinha gerado em mim" (A Donato, 3-4).
Logo depois da conversão, Cipriano não sem invejas nem resistências é eleito para o cargo sacerdotal e para a dignidade de Bispo. No breve período do seu episcopado enfrenta as primeiras duas perseguições sancionadas por um edito imperial, o de Décio (250) e o de Valeriano (257-258). Depois da perseguição particularmente cruel de Décio, o Bispo teve que se comprometer corajosamente para reconduzir a comunidade cristã à disciplina. De facto, muitos fiéis tinham abjurado, ou contudo não tinham tido um comportamento correcto diante da prova. Eram os chamados lapsi isto é "que caíram" que desejavam ardentemente reentrar na comunidade. O debate sobre a sua readmissão chegou a dividir os cristãos de Cartagena em laxistas e rigorosos. A estas dificuldades é necessário acrescentar uma grave peste que assolou a África e colocou interrogações teológicas angustiantes quer no interior da comunidade quer em relação aos pagãos.
Por fim, é necessário recordar a controvérsia entre Cipriano e o Bispo de Roma, Estêvão, sobre a validez do baptismo administrado aos pagãos por cristãos hereges.
Nestas circunstâncias realmente difíceis Cipriano revelou dotes eleitos de governo: foi severo, mas não inflexível com os lapsi, concedendo-lhes a possibilidade de perdão depois de uma penitência exemplar; perante Roma foi firme na defesa das tradições sadias da Igreja africana; foi muito humano e repleto do mais autêntico espírito evangélico ao exortar os cristãos a ajudar fraternalmente os pagãos durante a peste; soube manter a medida justa ao recordar aos fiéis demasiado receosos de perder a vida e os bens terrenos que para eles a verdadeira vida e os verdadeiros bens não são deste mundo; foi irremovível ao combater os costumes corruptos e os pecados que devastavam a vida moral, sobretudo a avareza. "Passava assim os seus dias", narra a este ponto o diácono Pôncio, "quando eis que por ordem do pró-cônsul chegou improvisamente à sua cidade o chefe da polícia" (Vida, 15, 1). Naquele dia o santo bispo foi preso, e depois de um breve interrogatório enfrentou corajosamente o martírio no meio do seu povo.
Cipriano compôs numerosos tratados e cartas, sempre ligados ao seu ministério pastoral. Pouco inclinado para a especulação teológica, escrevia sobretudo para a edificação da comunidade e para o bom comportamento dos fiéis.
De facto, a Igreja é o tema que lhe é mais querido. Distingue entre Igreja visível, hierarquia, e Igreja invisível, mística, mas afirma com vigor que a Igreja é uma só, fundada sobre Pedro. Não se cansa de repetir que "quem abandona a cátedra de Pedro, sobre a qual está fundada a Igreja, ilude-se de permanecer na Igreja" (A unidade da Igreja católica, 4). Cipriano sabe bem, e formulou-o com palavras fortes, que "fora da Igreja não há salvação" (Epístola 4, 4 e 73, 21), e que "não pode ter Deus como pai quem não tem a Igreja como mãe" (A unidade da Igreja católica, 4).
Característica irrenunciável da Igreja é a unidade, simbolizada pela túnica de Cristo sem costuras (ibid., 7): unidade da qual diz que encontra o seu fundamento em Pedro (ibid., 4) e a sua realização perfeita na Eucaristia (Epístola 63, 13). "Há um só Deus, um só Cristo", admoesta Cipriano, "uma só é a Igreja, uma só a fé, um só povo cristão, estreitado em firme unidade pelo cimento da concórdia: e não se pode separar o que é uno por natureza" (A unidade da Igreja católica, 23).
Falámos do seu pensamento em relação à Igreja, mas não se deve descuidar, por fim, o ensinamento de Cipriano sobre a oração. Eu amo particularmente o seu livro sobre "o Pai Nosso", que muito me ajudou a compreender melhor e a recitar melhor a "oração do Senhor": Cipriano ensina como precisamente no "Pai Nosso" é proporcionado ao cristão o modo correcto de rezar; e ressalta que esta oração está no plural, "para que quem reza não reze unicamente para si. A nossa oração escreve é pública e comunitária e, quando nós rezamos, não rezamos por um só, mas por todo o povo, porque com todo o povo somos uma coisa só" (A adoração do Senhor 8). Assim oração pessoal e litúrgica mostram-se robustamente ligadas entre si. A sua unidade provém do facto que elas respondem à mesma Palavra de Deus. O cristão não diz "meu Pai", mas "Pai nosso", até no segredo do quarto fechado, porque sabe que em cada lugar, em cada circunstância, ele é membro de um mesmo Corpo.
"Portanto, rezemos irmãos amadíssimos", escreve o Bispo de Cartagena, "como Deus, o Mestre, nos ensinou. É oração confidencial e íntima rezar a Deus com o que é seu, elevar aos seus ouvidos a oração de Cristo. Reconheça o Pai as palavras de seu Filho, quando dizemos uma oração: aquele que habita interiormente no ânimo esteja presente também na voz... Quando se reza, além disso, adopte-se um modo de falar e de rezar que, com disciplina, mantenha a calma e a discrição. Consideremos que estamos diante do olhar de Deus. É preciso ser agradáveis aos olhos divinos tanto com a atitude do corpo como com a tonalidade da voz... E quando nos reunimos juntamente com os irmãos e celebramos os sacrifícios divinos com o sacerdote de Deus, devemos recordar-nos do temor reverencial e da disciplina, não dispersar as nossas orações com vozes descompostas, nem fazer com tumultuosa verbosidade um pedido que deve ser recomendado a Deus com moderação, porque Deus ouve não a voz, mas o coração (non vocis sed cordis auditor est)" (3-4). Trata-se de palavras que permanecem válidas também hoje e nos ajudam a celebrar bem a Santa Liturgia.
Em conclusão, Cipriano coloca-se nas origens daquela fecunda tradição teológico-espiritual que vê no "coração" o lugar privilegiado da oração. Segundo a Bíblia e os Padres, de facto, o coração é o íntimo do homem, o lugar onde habita Deus. Nele se realiza aquele encontro no qual Deus fala ao homem, e o homem escuta Deus; o homem fala a Deus, e Deus ouve o homem: tudo isto através da única Palavra divina. Precisamente neste sentido fazendo eco a Cipriano Smaragdo, abade de São Miguel em Mosa nos primeiros anos do século IX, afirma que a oração "é obra do coração, dos lábios, porque Deus não vê as palavras, mas o coração do orante"(O Diadema dos monges, 1).
Caríssimos, façamos nosso este "coração em escuta", do qual nos falam a Bíblia (cf. 1 Rs 3, 9) e os Padres: temos disso tanta necessidade! Só assim poderemos experimentar em plenitude que Deus é o nosso Pai, e que a Igreja, a santa Esposa de Cristo, é verdadeiramente a nossa Mãe.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O estranho caso de um católico inglês

Público, 20090915

Nem todos os católicos são enfadonhos: a prova disso é G. K. Chesterton. Imaginava ter este autor caído no esquecimento, mas, pelos vistos, enganava-me. Ele aí está de novo, remoçado e em óptima tradução da sua biografia intelectual, Ortodoxia. Quando a encontrei não resisti a ver como, passados cinquenta anos, reagiria ao seu contacto. Hoje, como ontem, rendi-me à sua prosa. Por Maria Filomena Mónica

Excepto nos países totalitários, a dissidência é um prazer. Segundo a mais simples fórmula matemática, a dupla dissidência dá o dobro do gozo. Ora, no Reino Unido, a opção pelo catolicismo representa um gesto de rebeldia não só em relação à Igreja como ao Estado. Depois de, no século XVI, Isabel I ter declarado serem os católicos um bando de heréticos, o destino desta confissão passou por várias etapas, da condenação à morte à tolerância e, por fim, à glamorização. Hoje, ser-se católico no Reino Unido é chique. Quando, em 1922, G. K. Chesterton aderiu à Igreja Católica (muitos anos depois de ter escrito este livro) já não se decapitavam os crentes no poder papal, mas não existia ainda a vaga de conversões recentes, de que a mais famosa é a de Tony Blair.

Esqueçam os seus livros mais populares, Father Brown e The Napoleon of Notting Hill, e concentrem-se na Ortodoxia, a sua biografia intelectual (Lisboa, Aletheia, 2008, tradução da versão original de 1908). É verdade que também escreveu uma obra intitulada Autobiography (Londres, Hamish Hamilton, 1936), mas não se lhe compara em qualidade. Nesta, que começa bem, G. K. Chesterton tentou falar da sua vida, mas nada lhe interessando menos do que o ego, não tarda em divagar.

Chesterton era um radical que odiava os privilégios dos ricos e o poder do Estado, sentimentos que nunca renegaria. O previsível teria sido optar, como o seu amigo Bernard Shaw, pelo socialismo, mas não foi isso que fez, encaminhando-se gradualmente para o cristianismo e, mais tarde, para o catolicismo. Como sucederia com Orwell, o que lhe importava era o concreto, não um qualquer esquema destinado a salvar a Humanidade. Como Orwell ainda, sentia-se mal entre os intelectuais do seu tempo e, como Orwell, valorizava a tradição. Dito isto, os seus caminhos divergiram. Porque, na vida de G. K. Chesterton, irrompeu o divino.

Eis como conta a sua conversão (pág. 119): "Até essa altura, tudo quanto tinha ouvido dizer acerca da teologia cristã me afastara dela. Aos doze anos, era pagão, aos dezasseis era completamente agnóstico; e não consigo conceber que uma pessoa passe pelos dezassete anos sem ter feito a si mesma pergunta tão simples. Mantinha, é certo, uma nebulosa reverência por uma divindade cósmica, a par de um enorme interesse histórico pelo fundador do cristianismo. Mas não tinha dúvida nenhuma em O considerar um homem - embora talvez achasse que, mesmo assim, Ele tinha algumas vantagens relativamente a alguns pensadores modernos que O criticavam". Reparem no que vem a seguir: "Li a literatura científica e céptica do meu tempo, ou pelo menos toda a literatura que consegui encontrar em inglês (...). Não li uma linha que fosse de apologética cristã; actualmente, leio o mínimo que posso. Foram Huxley, Herbert Spencer e Bradlaugh que me fizeram regressar à teologia ortodoxa, por me terem semeado no espírito as primeiras dúvidas terríveis que eu tive acerca da dúvida". Em resumo, a sua conversão foi a forma como ele reagiu à arrogância, limitação e estupidez dos positivistas do seu tempo. Nascido em 1874, foi sempre um inconformista.

Em resposta aos cínicos que faziam troça do seu idealismo, diz (pág. 61/2): "O que de facto aconteceu foi exactamente o oposto do que eles tinham previsto. Afirmavam eles que eu havia de largar os meus ideais e de começar pragmaticamente a acreditar no funcionamento da política. Ora, a verdade é que eu não abandonei minimamente os meus ideais; a verdade é que a fé que deposito nas questões fundamentais permanece intacta. Aquilo que abandonei foi a fé infantil na pragmática política. (...) Continuo a acreditar no liberalismo, tanto como sempre acreditei, mais do que sempre acreditei. Embora seja certo que o período de dourada inocência em que acreditei nos liberais já passou". Algumas páginas depois, argumentava a favor da tradição (pág. 63): "Mas há uma coisa que, desde a minha juventude, nunca consegui compreender: onde foram as pessoas buscar a ideia de que a democracia se opõe, seja de que maneira for, à tradição? Pois é óbvio que a tradição mais não é do que um prolongamento da democracia no tempo".

Profetas da desgraça

Muitos apologistas cristãos são gente melancólica. Não é esse o caso de Chesterton, um optimista feito a pulso. Note-se como olha a realidade (pág. 89): "Porque o universo é uma jóia e, embora seja uma metáfora comum afirmar que as jóias são incomparáveis e preciosas, no caso destas jóias isso é literalmente verdade. Este cosmos é efectivamente sem par e sem preço, porque não pode haver mais nenhum como ele". Odiou sempre os profetas da desgraça (pág. 100): "Bem sei que este [o pessimismo] é o sentimento predominante na época em que vivemos e parece-me que este sentimento gela a nossa época. Tendo em consideração os titânicos objectivos de fé e de revolução que nos movem, aquilo de que nós precisamos não é da fria aceitação do mundo, que afinal mais não é do que uma enorme cedência; precisamos é de encontrar maneira de o amar de todo o coração e de o detestar de todo o coração". Para quem não o tivesse compreendido, explicava: "Não queremos que a alegria e a dor se neutralizem mutuamente, produzindo um contentamento enfadado; queremos sentir um prazer mais acentuado, mas também uma dor mais acentuada".

Em jovem, Chesterton sofrera uma depressão, revelando como a superara: "E, a partir do momento em que se deu essa inversão [do pessimismo para o optimismo], eu tive aquela sensação de libertação abrupta que se tem quando um osso deslocado é novamente posto na respectiva cavidade natural. (...) Mas o optimismo do meu tempo era, todo ele, falso e desencorajador, porque se esforçava por demonstrar que nós nos adaptamos a este mundo. Ora, o optimismo cristão assenta no facto de que nós não nos adaptamos a este mundo". Poucos falavam assim.

Este livro é uma tentativa para nos convencer que o credo racionalista é deficiente (pág. 195): "O cristianismo é a única religião do mundo que achou que a omnipotência tornava Deus incompleto. O cristianismo é a única religião que achou que Deus, para ser totalmente divino, tinha de ser um rebelde, para além de ser um rei". Para ele, Cristo é subversivo, não um aliado da Ordem. Mais adiante (pág. 201) dissertará sobre as vantagens do cristianismo, a que chama ortodoxia: "Se queremos derrubar o opressor próspero, não é com a ajuda da nova doutrina da perfectibilidade humana que conseguiremos fazê-lo; mas seremos capazes de o fazer com o auxílio da velha doutrina do pecado original. Se queremos extirpar crueldades inerentes ou animar populações decaídas, não é com o auxílio da teoria científica segundo a qual a matéria precede o espírito que conseguiremos fazê-lo; mas seremos capazes de o fazer com o auxílio da teoria sobrenatural segundo a qual o espírito precede a matéria".

G. K. Cherteston insiste, o que é curioso, no facto de ter aderido ao cristianismo não devido a um chamamento superior, mas através de métodos racionais (pág. 213): "Discuti em pormenor estes casos típicos de dúvida, a fim de transmitir a tese principal: que é por motivos racionais, embora não seja por razões simples, que adiro ao cristianismo. Consistem esses motivos numa acumulação de factos diversos, que é também aquilo que justifica a atitude do agnóstico comum. Acontece, porém, que o agnóstico percebeu tudo mal". Vem, depois, a secção mais polémica: "Ele [o agnóstico] é descrente por uma série de razões - todas elas falsas. Ele duvida porque a Idade Média foi uma idade bárbara, quando a verdade é que não foi; porque o darwinismo está provado, quando a verdade é que não está; porque não há milagres, quando a verdade é que há; porque os monges são preguiçosos, quando a verdade é que eram diligentes; porque as freiras são infelizes, quando a verdade é que são particularmente alegres; porque a arte cristã era triste e apagada, quando a verdade é que era feita de cores berrantes e recoberta a ouro; porque a ciência moderna está a afastar-se do sobrenatural, quando a verdade é que não está, está a aproximar-se do sobrenatural à velocidade de um comboio rápido". Muito do que afirma é um disparate, mas isso não me impede de gostar de o ler.

O mundo seria mais triste?

Quase no final, G. K. Cherteston tenta responder à pergunta que muitos fazem, no sentido de saber se não podemos ficar com o que de bom existe na doutrina cristã, deitando borda fora os dogmas. Depois de se ter declarado, mais uma vez, um racionalista, aborda a tese de que, com a religião, o mundo teria ficado mais triste, negando-a: "Os países europeus que ainda se encontram sob a influência dos sacerdotes são exactamente aqueles países onde ainda se canta, se dança, se envergam roupas coloridas e se praticam as artes ao ar livre. A doutrina e a disciplina católicas poderão ser muros; mas são muros de um parque de diversões".

Dou de barato que os países em que o calvinismo foi dominante são mais sombrios do que os que optaram pelo catolicismo, mas é preciso não adoçar o que acontecia nos países latinos. Basta pensar em Portugal. Exceptuando W. Beckford, que, no século XVIII, apreciou uma missa a que assistiu na capela das Necessidades, sobretudo pelo seu luxo, raramente um estrangeiro louvou o que viu. A maioria era protestante, mas isto não invalida todas as observações. Escolho um extracto, ao acaso, retirado do livro de W. M. Kinsey, um clérigo que visitou Portugal em 1828: "Se as cerimónias da Igreja Católica não conduzissem a mais do que a um divertimento inocente dos seus aderentes, tudo estaria bem; mas essa faceta é, infelizmente, aquilo que podemos considerar a poesia do sistema. A triste realidade encontra-se na tirania dos confessionários, nas arrogantes extorsões e nas exigências anticristãs do poder papal". Foi isto que G. K. Chesterton não quis reconhecer.

Na realidade não conhecia, por dentro, os países onde a Igreja Católica era dominante. Lembrando a sua Irlanda natal, Bernard Shaw avisou-o do perigo de continuar a fazer extrapolações a partir do que se passava em Inglaterra, mas aquele não o quis ouvir. Não sei o que teria escrito caso tivesse visitado Portugal, mas sei o que eu vi e vivi. A tal ponto era aqui a Igreja Católica dominante que, até aos meus 15 anos, pensava ser a única em todo o planeta. Na escola, na família, nas ruas, jamais vislumbrei alguém que professasse outra religião. Estou consciente de que o meu caso - tendo ingressado num colégio de freiras aos três anos só dele sairia aos dezassete - não é generalizável, mas sei que muita gente nascida, como eu, na década de 1940, terá passado por uma experiência semelhante. Na redoma em que o cardeal Cerejeira, o arcebispo de Mitilene e a minha mãe me enclausuraram não entravam correntes de ar.

Só em 1962, quando vivi em Londres durante alguns meses, descobri que existiam protestantes, judeus e muçulmanos. Poderia ter aproveitado para aderir ao anglicanismo - isso, sim, um gesto original -, mas, uma vez que estava em rota de colisão com Deus, o melhor, concluí, era deixar de pensar n'Ele.

Quando regressei à pátria, continuei a ler os livros que havia lá por casa. À mistura com obras que sabia interditas, como as de André Gide, Óscar Wilde e Bertrand Russell, compradas com a minha "semanada", lia o que estava nas estantes da sala. Apesar de católica, a minha mãe era inteligente, não se contentando em dirigir a lida da casa. Em grande medida, a minha iniciação literária foi feita à base dos escritores que ela admirava, A. J. Cronin, François Mauriac e G. K. Chesterton. Do primeiro, pouco me ficou, além de um punhado de mineiros; do segundo, umas velhas provincianas; G.K. Chesterton saiu vitorioso. Reli a sua Ortodoxia com prazer. Estou certa que a outros, católicos ou ateus, acontecerá o mesmo. Não deixe que o livro se perca entre as capas que efemeramente ornamentam as estantes das nossas livrarias.



Historiadora