segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Mensagem papal ao Meeting organizado por Comunhão e Libertação em Rimini

Zenit, 20090831

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 31 de agosto de 2009 (ZENIT.org).- Publicamos a mensagem enviada pelo cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, em nome de Bento XVI, à 30ª edição do Meeting para a amizade entre os povos, que o movimento eclesial Comunhão e Libertação organizou na semana passada na cidade italiana de Rimini.

* * *

Excelência Reverendíssima

Por ocasião do Meeting para a amizade entre os povos, que este ano celebra o seu trigésimo aniversário, é-me particularmente grato transmitir a saudação do Santo Padre a Vossa Excelência e a quantos promoveram e organizaram esta manifestação cultural, que em três décadas já viu a participação de milhares e milhares de homens e mulheres, sobretudo jovens, e a intervenção de centenas de relatores nas tribunas preparadas nas salas da feira de Rímini. Coadjuvados por estudiosos de todas as disciplinas, por artistas, autoridades religiosas, representantes do mundo da política, da economia e do desporto, foi possível o confronto sobre questões e exigências fundamentais da existência humana e aprofundar as razões de ser cristão nesta nossa época. Sua Santidade formula votos a fim de que o Meeting continue a enfrentar os desafios e as interrogações que os tempos de hoje apresentam à fé, e a responder-lhes valorizando o ensinamento do saudoso Mons. Luigi Giussani, fundador do movimento eclesial Comunhão e Libertação.

A temática do Meeting de 2009 é sobre o conhecimento que é sempre um acontecimento. "Acontecimento" é uma palavra com que Mons. Giussani tentou manifestar de novo a própria natureza do cristianismo, que para ele é um "encontro", ou seja, um dado experimental de conhecimento e de comunhão. Precisamente a partir da aproximação entre as palavras "acontecimento" e "encontro" é possível compreender melhor a mensagem do Meeting. A reflexão gnoseológica e epistemológica contemporânea esclareceu o papel determinante do sujeito do conhecimento, no próprio acto de conhecer. Contrariamente aos pressupostos do "dogma" positivista da pura objectividade, o princípio de indeterminação de Heisenberg tornou evidente como isto é verdade até para as ciências naturais: também nestas disciplinas, cujo "objecto" parece ser regulado por invariáveis leis da natureza, a perspectiva do observador é um factor que condiciona e determina o resultado da experiência científica, e por conseguinte do conhecimento científico como tal. Por isso, a pura objectividade é pura abstracção, expressão de uma gnoseologia inadequada e irrealista.

Mas se isto é verdadeiro para as ciências naturais, é-o ainda mais para aqueles "objectos" de conhecimento que, por sua vez, estão estruturalmente ligados à liberdade dos homens, às suas opções e diversidades. Pensemos nas ciências históricas, que se baseiam em testemunhos para os quais convergem, como factores que influenciam o seu modo de comunicar a realidade que transmitem, as visões do mundo de quem as compôs e as suas convicções, por sua vez vinculadas às da sua época, às suas situações pessoais, às escolhas com que eles se puseram em relação com a realidade que descrevem, à sua envergadura moral, às suas capacidades, ao seu engenho e à sua cultura. Portanto, o estudioso que se aproxima do seu objecto deverá discernir tudo isto, para compreender e avaliar o significado e o alcance da mensagem transmitida num contexto de conjunto, agindo como se se encontrasse diante de uma pessoa que ainda não conhece bem, mas que lhe está a narrar algo que, contudo, ele considera que é importante conhecer. A consequência mais relevante de tal situação é que o conhecimento não pode ser descrito como a gravação de um espectador indiferente. Pelo contrário, o compromisso com o objecto conhecido por parte do sujeito conhecedor é uma conditio sine qua non do próprio conhecimento. E portanto, não é a indiferença nem a ausência de compromisso o ideal a perseguir, de resto em vão, na busca de um conhecimento "objectivo", mas sim um compromisso adequado com o objecto, um compromisso apto para fazer chegar a quem interroga o conhecimento, a sua mensagem específica.

Eis por que motivo o conhecimento pode ser um "acontecimento". Ela "acontece" como um verdadeiro "encontro" entre um sujeito e um objecto. Que tal encontro seja necessário, para que se possa falar de conhecimento, faz-nos então considerar o sujeito e o objecto não como duas grandezas que se podem manter reciprocamente a uma distância asséptica, em vista de preservar a sua pureza; pelo contrário, eles são duas realidades vivas que se influenciam uma à outra, precisamente quando entram em contacto recíproco. A honestidade intelectual daquele que conhece está inteiramente naquela máxima arte de "acolher o objecto", de modo que ele possa revelar-se a si mesmo como é verdadeiramente, embora não de maneira integral e completa. E o acolhimento do objecto, a disponibilidade da escuta que caracteriza o sujeito conhecedor como verdadeiro amante da verdade, pode descrever-se como uma espécie de "simpatia" pelo objecto. Há aqui, como uma boa parte do pensamento medieval nos transmitiu, uma particular força cognoscitiva, própria do amor. "Amar" significa "desejar conhecer", e o desejo e a busca do conhecimento são um impulso interior do amor como tal. Por conseguinte, considerando bem, isto estabelece uma relação insuprimível entre amor e verdade. Por sua natureza, o conhecimento pressupõe uma certa "conformação" de sujeito e objecto: uma intuição fundamental, já condensada no antigo axioma de Empédocles, segundo o qual "o semelhante conhece o semelhante". O evangelista João evoca-o de maneira implícita, onde escreve que quando Deus "se manifestar, nós seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é" (1Jo 3,2).

Poderíamos perguntar-nos se existe conhecimento mais necessário para o homem que o do seu Criador; se há conhecimento mais adequadamente descrito pela palavra "encontro", do que a relação fundamental que existe precisamente entre o espírito do homem e o Espírito de Deus. Então, compreende-se porque os Padres da Igreja insistiram sobre a necessidade de purificar o olhar da alma para chegar a ver Deus, inspirando-se na bem-aventurança evangélica: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus" (Mt 5, 8). A racionalidade do homem só pode ser exercida, e portanto alcançar a finalidade que lhe é própria, que é o conhecimento da verdade e de Deus, graças a um coração purificado e sinceramente amante da verdade que ele procura. Purificado de tal maneira, o espírito humano pode abrir-se à revelação da verdade. Por conseguinte, existe um nexo misterioso entre a bem-aventurança evangélica e as palavras dirigidas por Jesus a Nicodemos, citadas por São João: "O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito... Tendes de nascer de novo" (Jo 3, 6-7).

O Santo Padre Bento XVI faz votos para que estas palavras de Cristo ressoem no coração dos participantes na 30ª edição do Meeting de Rímini, como apelo a dirigir-se com confiança a Ele, para acolher a sua presença misteriosa, que para o homem e a sociedade é nascente de verdade e de amor. Com tais sentimentos, enquanto formula votos de pleno bom êxito a esta manifestação, concede a Vossa Excelência, aos responsáveis e a todos aqueles que estão presentes, uma especial Bênção Apostólica.

Uno de bom grado os meus bons votos, e aproveito o ensejo para me confirmar com sentimentos de distinto obséquio,

de Vossa Excelência Reverendíssima
dev.mo no Senhor

Tarcisio Card. Bertone
Secretário de Estado

O encanto da construção

João César das Neves

DN, 20090831

Portugal está em obras. Por todo o lado vemos estaleiros, buracos, betoneiras e capacetes. O motivo é evidente: as eleições autárquicas serão daqui a poucos meses e a campanha tem de incluir inaugurações. Além de irritar os munícipes com ruído e incómodo, esta actividade traz vários problemas escondidos,

A principal razão da azáfama é o mau planeamento. A maioria dessas edificações não foi preparada ou concebida convenientemente e está horrivelmente atrasada. Os trabalhos fazem-se de afogueado, em condições incríveis e horários impossíveis. E custos acrescidos. Tudo isto é uma manifestação dos dois traços mais profundos da natureza nacional: todos sabem que os portugueses são horríveis planeadores e excelentes improvisadores. Ninguém imagina como, mas todas essas obras vão ficar prontas a tempo graças a feitos inauditos de desenrascanço e invenção.

Há ainda o método original português de construção. Quando se começa uma obra, delimita-se a zona, vêm as máquinas, revolvem a terra, abrem buracos e depois… nada. Durante semanas não há actividade. A seguir constrói-se e depois… outra vez nada. Fica tudo em tosco à espera dos acabamentos. Por isso se vêem tantas zonas limitadas por fitas ou blocos, com escavadoras paradas, montes de cascalho ou areia, sem ninguém a trabalhar. Estão nos períodos de pousio que só os portugueses impõem. Assim um trabalho que devia durar três dias demora duas semanas; tarefas de três meses ocupam ano e meio.

As razões destes insólitos intervalos são desconhecidas. Talvez os engenheiros queiram apanhar os terrenos desprevenidos. Ou os mestres- -de-obra gostem de deixar oxidar os cortes para facilitar terraplanagens. Ou ainda porque, depois de alguns esforços, seja preciso que a paisagem descanse, facilitando edificações mais serenas. Qualquer que seja o motivo, não há dúvida que não se vê ninguém a mexer numa grande percentagem das zonas supostamente em obras. Com métodos tão originais não admiram atrasos e esforços tardios de recuperação.

Outro aspecto importante destes projectos é que não estão pagos. Tudo aquilo vai aumentar a dívida. Aliás, se olhar com atenção, até é capaz de vislumbrar, por entre os pilares, o desequilíbrio orçamental, o défice externo, a origem da nossa crise estrutural.

O principal problema, porém, é que grande parte desse esforço é inútil. Antes da adesão à Europa, Portugal tinha grande falta de infra-estruturas físicas mas hoje, após melhorias espantosas nos últimos 20 anos, já são suficientes. Os nossos problemas estão nas infra-estruturas humanas. Os males da Saúde, Justiça e Educação vêm do funcionamento, não das instalações. Não é por condições operacionais, mas erros de operação que os ministérios falham.

A construção porém continua a grande velocidade. Temos uma rede de auto--estradas, escolas e centros de saúde mais apertada que a maior parte dos nossos parceiros. Existem pavilhões polidesportivos e parques industriais em todos os apeadeiros ferroviários. Pior ainda, com a população nacional em decadência, a próxima geração precisará de menos habitações, aulas, transportes. Mas continua a edificar-se.

Toda esta actividade não nasce da necessidade mas da oportunidade política. Desnecessárias à vida dos cidadãos, as construções são excelentes na argumentação eleitoral do autarca ou ministro. Não há sucesso na política sem o nome ligado a um punhado de locais, com a inevitável placa comemorativa. Nada que o responsável tenha feito, por essencial e inovador que fosse, terá valor ao lado da inauguração do prédio, estrada, jardim ou instalação. Por isso, quase só por isso, é que Portugal está em obras.

O fascínio com a pedra é imemorial na raça humana e o seu aproveitamento político vem pelo menos das pirâmides. Durante o salazarismo era muito criticado o proverbial "corta-fitas" mas a democracia, eliminando a tesoura, manteve a cerimónia. Os fundos da CEE deram ainda mais força a esta certeza. Como os faraós, quanto menos o político faz pelo povo, mais constrói para o povo ver.


domingo, 30 de agosto de 2009

Quando é que se deixa de ser demasiado novo para ser Mozart?

José Manuel Fernandes

Público, 20090839

O tribunal não quer deixar Laura Dekker, de 13 anos, tentar uma viagem de circum--navegação num veleiro. O pai autoriza. Quem deve prevalecer?

Será que os adultos - sobretudo os adultos dos "serviços públicos" - convivem mal com adolescentes fora do comum? Ou será que esses adolescentes fora do comum são o produto de "pais tiranos" que apenas procuram a notoriedade a qualquer preço?

Em 1976, quando uma miúda de 14 anos ganhou o que havia para ganhar nos Jogos Olímpicos de Montreal, a capa da Time titulava: "Ela é perfeita. Mas os Jogos estão em perigo". "Ela" era Nadia Comaneci, a ginasta romena que não só arrebatou cinco medalhas nos campeonatos como, sobretudo, impressionou o mundo ao conseguir, pela primeira vez, várias notas máximas, 10,0, apenas destinadas à perfeição absoluta. Nunca ninguém repetirá o seu feito: o Comité Olímpico já não deixa participar atletas com menos de 16 anos.

Mas como comparar Comaneci com, por exemplo, Mozart? O génio austríaco já compunha aos cinco anos minuetos para cravo e aos doze anos já tinha composto três óperas? Ou como explicar as proezas militares de Joana d'Arc, que liderou o exército do Duque de Orleães em sucessivas batalhas vitoriosas contra os ingleses quando tinha apenas 17 anos? Ou que dizer de Filipe da Macedónia, que entregou a regência do reino ao seu filho Alexandre quando este tinha apenas 16 anos, o que não impediu aquele que hoje conhecemos por Alexandre, o Grande, de imediatamente se colocar à frente de exércitos e começar a acumular vitórias militares atrás de vitórias militares. E quantos saberão que Louis Braille completou o seu código para cegos com apenas 15 anos?



Podíamos multiplicar os exemplos, mas estes chegam para questionar a legitimidade das autoridades inglesas e holandesas que lidaram com Laura Dekker, a adolescente de 13 anos que se preparava para tentar dar a volta ao mundo, sozinha, no seu pequeno veleiro. Primeiro foram as autoridades inglesas que a localizaram no porto de Lowestoft, aonde chegara sozinha com o seu barco. Os assistentes sociais detiveram-na e obrigaram o seu pai a vir a buscá-la, apesar deste garantir que ela podia regressar pelos seus meios à Holanda. Depois foi o tribunal holandês de Utrecht que não esteve com meias-medidas e a colocou, por dois meses, sob a supervisão do conselho para a protecção das crianças, devendo entretanto ser submetida a uma análise psicológica. Só depois dessa análise o tribunal decidirá se esta adolescente que nasceu a bordo de um barco na Nova Zelândia e viveu os seus primeiros quatro anos no mar poderá, ou não, tentar a sua proeza de circum-navegar o planeta.

A preocupação das autoridades é que se esteja perante uma corrida irresponsável, estimulada pela famílias, para bater o recorde do mais jovem a empreender tal proeza. Até porque Mike Perham, de 17 anos, deve chegar hoje a Porstsmouth para terminar a sua primeira viagem de circum-navegação. Jessica Watson, de 16 anos, prepara-se para partir de Queensland, Austrália, para repetir a façanha, enquanto Abby Sunderland, de 15, planeia sair da Califórnia em Novembro para repetir a viagem que o seu irmão, Zac, hoje com 17 anos, terminou em Julho passado.

Laura Dekker seria apenas a mais nova a tentar dar a volta a mundo em solitário e, aparentemente, ninguém duvida que sabe velejar e já o fez muitas vezes sem ter o pai por perto, ele também um exímio velejador.

A questão que se coloca, face a esta aparente febre de recordes, é se estamos perante uma situação em que as famílias procuram a glória empurrando os filhos para aventuras perigosas e se, mesmo sendo isso verdade, os Estados e os tribunais têm o direito ou o dever de intervir. Os especialistas e os que já realizaram este tipo de viagens - e conhecem os desafios que elas colocam - não param de se interrogar sobre se alguém com a idade, a experiência e habilitações de Laura Dekker estará à altura de enfrentar os desafios físicos e mentais colocados por este tipo de viagens, onde a maturidade desempenha um enorme papel. Isto apesar de Mike Perham, que hoje se tornará no mais velejador a circum-navegar o globo, se ter estreado com apenas 14 anos numa viagem a solo de travessia do Atlântico.

Não havendo respostas exactas e científicas para as interrogações dos especialistas, não terão os tribunais e os serviços de assistência social casos mais importantes onde aplicar o seu tempo e os seus recursos? É que, pelo que foi noticiado, nada indica que Laura Dekker esteja a ser abusada pelo seu pai...

A educação sexual e D. Afonso Henriques

Público, 20090830

Gonçalo Portocarrero de Allmada

A questão pode parecer peregrina, mas não é. Com efeito, foi precisamente neste ano, em que se festejam os novecentos anos do primeiro rei de Portugal, que se implementou no nosso país a educação sexual obrigatória. Uma tão feliz coincidência não pode ser mero acaso, pelo que parece ser pertinente questionar a relação entre aquela efeméride e esta nova vertente da educação em Portugal.

É certo e sabido que D. Afonso Henriques não teve qualquer tipo de educação sexual, muito embora uma tal carência não tenha significado para o nosso primeiro monarca nenhuma especial inaptidão, pois não só foi pai da nação como, também, de onze filhos! Mais ainda: todos os seus contemporâneos que geraram descendentes, fossem eles nobres, burgueses ou filhos do povo, todos, sem excepção, fizeram-no sem que lhes tivesse sido dada nenhuma educação sexual. É incrível, mas é verdade.

E, não obstante esta ignorância sexual generalizada, o país não se extinguiu! É caso para dizer: milagre! Era de esperar que os portugueses tivessem desaparecido do mapa, por desconhecimento da ciência da reprodução, acintosamente omitida pela Igreja e pelo Estado, nos seus respectivos estabelecimentos de ensino. Mas não! De forma absolutamente prodigiosa, os portugueses, sabe-se lá a que custo, lograram trazer filhos ao mundo! Filhos das trevas e da falta da educação sexual! Filhos da iliteracia sexual que o nosso país sofreu durante oito séculos!

Temo que seja esta a ancestral razão pela qual muito se gaba, e com razão, a proverbial capacidade lusitana de improvisar: não havia aulas, os homens e as mulheres não sabiam educação sexual e, contudo, apareciam filhos, tantos filhos que se espalharam pelas sete partidas do mundo! Se a ignorância sexual foi tão prolífica para Portugal, será que a educação sexual esterilizará o nosso país? Será que o que se pretende, com a nova disciplina curricular, é que os portugueses mirrem e se extingam, em vez de se expandirem e multiplicarem?!

Seja como for, a verdade é que o Governo entendeu por bem pôr termo a esta atávica falta de educação sexual nacional. Mas, se pega a moda do Estado pretender ensinar o que é óbvio e natural, em vez do que é elevado e racional, é de esperar que a reforma educativa não se fique pela sexualidade. Falta, por exemplo, uma disciplina de educação respiratória, porque há quem não saiba inspirar e expirar em condições. O mesmo se diga da educação digestiva e de todas as outras expressões das mais básicas necessidades do nosso organismo. Em suma: a introdução da educação sexual não é uma simples alteração cosmética da política educativa, mas o início de uma nova era, a vanguarda de uma autêntica revolução. Abaixo o Português e a Matemática e viva a Educação Sexual! Abaixo a cultura e viva a educação animal! Abaixo a educação humanista e viva a educação "bestial"!

A propósito, não será por falta de educação sexual que o lince-ibérico está em vias de se extinção?! Se os homens, que em princípio são animais racionais, têm necessidade, no sábio e prudente entendimento dos nossos governantes, de uma aprendizagem que assegure a sua reprodução, com mais razão os animais irracionais precisam de uma formação específica que os ensine a procriar. Crie-se, pois, sem mais demora, a Escola C+S da Malcata e imponha-se aos linces a frequência obrigatória das respectivas aulas de educação sexual: é a única solução capaz de impedir o seu dramático desaparecimento. Licenciado em Direito e doutorado em Filosofia. Vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família (CNAF).

sábado, 29 de agosto de 2009

O papel do Estado e do Governo no futuro do país

José Manuel Fernandes

Público, 20090829

Pelo que se lê nos programas e se sabe sobre os estilos de Sócrates e Ferreira Leite, não se duvide que o tipo de relação que o Estado deve ter com a economia também irá a votos a 27 de Setembro

Têm os programas do PS e do PSD muitos pontos em comum? Têm. Os dois principais partidos partilham muitas ideias comuns, designadamente sobre a necessidade de preservar o Estado Social, sobre a política europeia ou sobre as políticas de Defesa e Justiça. Há diferenças na abordagem de algumas destas áreas - concordar com o Estado Social não significa que todas as soluções sejam as mesmas, da mesma forma que existe uma grande variedade de fórmulas no chamado "modelo social europeu".
É verdade que os portugueses, nas próximas eleições, vão escolher sobretudo entre dois candidatos a primeiro-ministro, Sócrates e Ferreira Leite? Indiscutivelmente. Temas como a credibilidade pessoal podem não estar no discurso político, podem não ser tema de cartazes ou tempos de antena, mas os portugueses não deixarão de escrutinar os estilos altamente contrastantes do actual primeiro-ministro e da antiga ministra das Finanças.
Contudo, para além de propostas concretas divergentes, é bom não iludir que PS e PSD, mesmo que não o afirmem na primeira linha dos respectivos programas, têm uma visão diferente do que deve ser o papel do Estado num país como Portugal.
Essa divergência não é recente: se o chamado "Estado Social" deve praticamente tanto ao PS como ao PSD, na relação do Estado - e do Governo - com o mercado e o mundo dos negócios encontramos contrastes mais marcantes, se bem que menos nítidos do que seria saudável numa democracia onde os cidadãos são chamados a escolher entre alternativas diferentes.
Nas próximas eleições, muito por efeito da forma como o actual Governo pautou as suas relações com as empresas e o actual PS escolheu uma retórica mais intervencionista em tempos de crise, o contraste é porventura mais evidente do que em eleições anteriores. Pelo menos no que se refere às declarações de intenção. Vejamos como e porquê.
Lendo com atenção os dois programas encontramos formulações muito diferentes do que deve ser a relação do Estado com o mercado e com os cidadãos.
No do PS, de acordo com uma retórica que se pretende keinesiana, afirma-se que "os desafios suscitados pela presente conjuntura continuam a exigir uma intervenção forte e decidida do Estado que assegure a estabilidade do sistema financeiro e o financiamento da economia, estimule a actividade económica, proteja o emprego e apoie aqueles que são mais afectados pela crise". Mais: "É isso que tem vindo a ser feito e é isso que, no futuro próximo, o Estado deve continuar a fazer, enquanto os sinais de recuperação da economia e do emprego não forem suficientemente fortes e sustentados."
O PSD vê, no seu programa, um papel diferente para o Estado: "Uma das causas da falta de eficiência da economia portuguesa na afectação de recursos é, sem dúvida, o facto de termos um Estado demasiado pesado, e com cada vez maior peso. A despesa pública total ascenderá a cerca de metade do PIB, em 2009, um valor máximo histórico. Para além disto, em muitos sectores o Estado tem optado nos últimos anos por uma atitude 'dirigista' da actividade empresarial privada, através de diversas formas e processos."
Nem o programa do PS traduz uma opção pelo socialismo dos "planos quinquenais", nem o do PSD corresponde a qualquer "Estado mínimo". A retórica de campanha pode utilizar essas formulações, mas ambas são desonestas e meros instrumentos de propaganda
Aquilo que realmente divide, ou parece dividir, os dois partidos é saber se corresponde ao Estado um papel central e dirigista na economia, escolhendo os projectos de investimento que se realizam e os que não avançam, favorecendo umas empresas em vez de outras, intervindo no tecido económico sem ter em conta que quando se apoia uma empresa em dificuldades se está a prejudicar as empresas concorrentes que são eficientes, ou se ao Estado deve competir um papel sobretudo supletivo. O Estado supletivo não escolhe nem os sectores nem as empresas que merecem apoio, deixa que isso suceda por via do mercado, garantindo porém que os efeitos nefastos de uma falência são amortecidos pelos diferentes sistemas de apoio do Estado Social.
Em nome da verdade e do dever de memória é preciso dizer que, no passado, o PSD disse muitas vezes que defendia um Estado menos interventivo, ao mesmo tempo que, sem o assumir, intervinha em áreas onde as empresas são, por regra, mais eficientes, tal como actuou com frequência em desrespeito das normas da concorrência. Contudo, nos dias que vivemos, esses comportamentos passados do PSD devem ser comparados com o "activismo" económico do actual Governo que foi muito para além do tradicional investimento público, pois estendeu-se à escolha, nem sempre transparente, das empresas que deviam beneficiar de contratos públicos ou que têm maior ou menor capacidade de aceder a um sistema bancário onde a influência do poder executivo se aproxima hoje da que existia no tempo da banca nacionalizada.
Também em abono da verdade deve dizer-se que grande parte, senão mesmo a esmagadora maioria, dos empresários portugueses preferem um ambiente protegido e gostam de ser amigos do Governo do momento, da mesma forma que em Portugal quase todos os cidadãos pedem ao Estado que os ajude e muito poucos se perguntam sobre o que podem fazer pelo país independentemente do Estado, da Administração Pública, dos governos ou das câmaras.
Com o PS os portugueses não regressarão a 1975, renacionalizando a economia como defendem PCP e BE. Com o PSD os portugueses também não perderão o Estado Social ou conhecerão um impossível (nas nossas condições e conhecendo as nossas tradições) Estado mínimo. Mas pelo que se lê nos programas e se sabe sobre os estilos de Sócrates e Ferreira Leite, não se duvide que o tipo de relação que o Estado deve ter com a economia também irá a votos a 27 de Setembro.


A relassa fraqueza

José Pacheco Pereira

Público, 20090829

Se não houvesse a regra da "relassa fraqueza", teria que se tirar a conclusão óbvia de que tinha que ter havido incúria

Já citei mais de uma vez uma das cartas ficcionais de Fradique Mendes a Madame de Jouarre, em que este descreve a sua chegada de comboio a Lisboa. A carta é uma cruel metáfora sobre Portugal, das mais cruéis e desapiedadas que conheço, e mortiferamente verdadeira. Nela cabe da pior maneira a indústria do "sonho", da "esperança" do "optimismo", com que uns se pretendem distinguir dos outros como sendo melhores. Eles "sonham", os outros não.
Essa espécie de oração sobre a "esperança" e o "sonho" tem outras variantes, como seja: "temos que acreditar em nós próprios", "somos capazes", "os portugueses só sabem dizer mal de si próprios diferentemente dos outros povos que nunca o fazem" (quem diz isto não sabe nada dos "outros povos"), "não se pode só dizer mal", etc., etc. Este mambo-jambo piedoso apenas pretende manter os portugueses numa espécie de estado de estupor cívico, ignorando a sua realidade e os seus problemas, envolvendo-os naquilo que o mesmo Eça chamava o "manto diáfano" da mentira. Este "manto diáfano", muitas vezes mais para o nevoeiro espesso do que para o "diáfano", é assegurado pela propaganda dos poderosos, mas também pela credulidade emocional dos destinatários.
O que está de mais cruel na carta de Fradique é a a afirmação de que o êxito desse marketing da "esperança" é que ele tem sucesso, não porque os portugueses tenham qualquer esperança, mas sim porque lhes agrada ouvir esse discurso, na exacta medida em que também lhes agrada o seu oposto, o catastrofismo absoluto. Não tendo que ser bipolares, algum dos lados está errado, ou então somos incapazes de nos colocarmos ao centro, no domínio da Razão. Estão sempre a acenar-nos com o Pathos, e o Pathos "passa" bem quer na televisão quer na retórica política produzida por cínicos para as massas. Sensatez - escassa; expectativas irrealistas - muitas. É o "sonho".
Eça, na pele de Fradique, culpava a "bonacheirice" dos portugueses:

Humilhação incomparável! Senti logo não sei que torpe enternecimento, que me amolecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a Disciplina e toda a Ordem.

As palavras de Eça "Disciplina" e "Ordem" são de natureza cívica, não são emanações da autoridade. A "ordem" aqui não tem o sentido salazarista que 40 anos depois vai ter: Eça não está a pedir que nos imponham qualquer "ordem" para corrigir os nossos defeitos, está a enunciar o que espontaneamente nos falta, o que marca o nosso atraso, aquilo de que não somos capazes, pela nossa "relassa fraqueza". E todos os dias precisamos desta crueldade queiroziana em vez da louvação das nossas virtudes "bonacheironas".
Também por isso, não há dia em que leia mais uma peripécia portuguesa da culpa, e elas são quase diárias, sem que não me lembre do Fradique "humilhado" por si próprio, por ser tão "bonacheirão" como todos os portugueses e acabar por ser tão complacente como qualquer um. E observar a triste exibição da nossa incapacidade para qualquer "Disciplina" e "Ordem" por causa da nossa "culpada indulgência".
Veja-se o que aconteceu com as falésias do Algarve, um remake da ponte de Entre-os-Rios, só que menos espectacular. A falésia da praia Maria Luísa caiu matando várias pessoas. Seguiu-se a visita das Personalidades e a explicação das Entidades, no meio de um cenário de basbaques "populares", a olharem para o local onde pouco antes passeara a morte. Televisões estavam todas e metade dos telejornais ficava garantido pela espectacularidade do cenário, pela confluência de polícias, militares, bombeiros, botes, ambulâncias, gruas e fitas de demarcação. Boa televisão, boas audiências, até que apareça outra tragédia e melhores imagens.
Uma plétora de entidades, ministérios, institutos, polícias, autarquias, militares, instituições científicas veio explicar que a culpa era do mar, do vento, da areia e das pedras que não se comportaram como devia ser. E mais, a culpa é da física, da química, da matemática, da estatística, do aquecimento global, das alterações climáticas, da geologia por via dos sismos, do magma profundo. Não é nunca dos homens, nem dos que deviam cuidar, nem dos que não tiveram cuidado. O resultado é sempre o mesmo, nem os que deviam cuidar vão cuidar melhor, nem os que deviam ter cuidado vão passar a tê-lo. Se houvesse "Disciplina" e "Ordem", seria isso a lição que as mortes nos dariam, tarde e a más horas, mas infeliz lição.

Assim não se tira lição nenhuma. Uma semana depois de uma azáfama de verificação de falésias, a célebre encarnação do ditado "casa roubada, trancas à porta", chegou-se à conclusão que várias arribas estão exactamente na mesma situação das da praia Maria Luísa, e são consideradas "perigosas". Se não houvesse a regra da "relassa fraqueza", teria que se tirar a conclusão óbvia de que tinha que ter havido incúria, porque a verificação que se fez agora era suposto estar a ser feito de forma regular antes. Foi como as pontes depois do acidente de Entre-os-Rios. Foi-se verificar como estavam várias pontes e estavam mal. Será que tudo foi corrigido depois dos holofotes se terem virado para outra calamidade? Duvido, "a relassa fraqueza (...) estraga entre nós toda a Disciplina e toda a Ordem".
O problema é que nada muda enquanto "em cima" se continuar assim e cá "em baixo", sem exemplos que moldem a consciência cívica, sem responsabilidade assumida, sem culpa identificada, no fundo, sem consequências, pode-se continuar a achar que o "sonho" e a "esperança" impedem as pedras de virem por aí abaixo, como se as palavras bastassem. Triste ilusão que alguém paga sempre. Nas falésias foi uma infeliz família, na comunidade a que chamamos Portugal, somos quase todos, a começar pelos que menos defesas têm, os que são mais pobres, os que pagam a dobrar. É que o optimismo de encomenda não se come. Nem a "bonacheirice".

Historiador

A farsa do "programa"

Vasco Pulido Valente

Público, 20090829

Em nenhuma outra eleição se discutiu tanto e tão ardentemente o programa dos partidos (já se verá porquê). Coisa estranha, sendo público e notório que nunca ninguém leu e, sobretudo, nunca ninguém votou por causa do programa de um partido. A pergunta a que os portugueses vão responder a 27 de Setembro é esta: "Sócrates governou quatro anos. Gostou do resultado? Quer continuar? Como está a sua vida? Pior, melhor, na mesma?" Cada um sabe de si e cada um irá responder conforme o que lhe aconteceu desde 2005 e conforme o que espera até 2013. Houve tempo para Sócrates mostrar quem era - e o que era - e a opinião geral do país com certeza que não muda neste último mês com propaganda espertalhona ou pequenas manobras de pequena política.
A questão do programa foi levantada pelo PS, e assoprada pelos media, para "provar" a vacuidade de Manuela Ferreira Leite. Sócrates publicou um programa com 120 páginas de promessas (não custa nada prometer) e pretende que Manuela o leve a sério e discuta ponto a ponto as fantasias dele. Ora o que interessa, num programa eleitoral (e não de governo), é indicar uma direcção e uma doutrina: e para isso bastam (e sobram) as 40 páginas do programa do PSD. 

No que disse antes, como no que disse agora, Ferreira Leite estabeleceu uma diferença entre ela e o eng. Sócrates. Não se confundem. Nem no estilo, nem no carácter, nem na visão da sociedade, nem no que se propõem fazer. Quando escolherem, os portugueses não escolherão na dúvida e na ambiguidade. O caso é claro.
O que não impediu alguns peritos, perante o programa eleitoral, repito, eleitoral do PSD, de se afligir em público com a falta de explicações suficientes sobre os meios que Manuela planeia usar. Exigem o "como", em pormenor, com financiamento e calendário e, se calhar, com um projecto de decreto-lei. O que é um programa eleitoral ignoram. Que existe entre a intenção e o fim, um Parlamento, um Presidente, um país e o mundo não lhes passa pela cabeça. Que qualquer acção se deve em princípio negociar com as partes que ela directa ou indirectamente afecta não os preocupa. O que eles pedem é uma ficção, em 100 volumes, sobre o presuntivo governo Ferreira Leite. Ou, no mínimo, as 120 páginas de Sócrates. Mas precisamente Ferreira Leite deixou a ficção ao PS.

29 de Agosto - Martírio de S. João Baptista

Degolação de São João Baptista
Caravaggio
1608
Óleo sobre tela
361x520 cm
Catedral de S. João
Valletta
Malta

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Família e trabalho

Miguel Reis Cunha 

Diário Económico, 28/08/09 00:02


Hoje em dia, só mesmo na televisão ou em filmes "delicodoces" se retrata a família como uma realidade perfeita, com estabilidade financeira e tempo para estar com todos.

A realidade é outro filme. O do 'stress' diário de cumprir horários, das tarefas inadiáveis, das urgências com a filha mais nova, do ajudar o mais velho com os trabalhos, de arrumar a casa, do ter trabalhar muito para pagar as contas, etc. Neste filme neo-realista, resta pouco tempo os idosos, para brincar com as crianças ou até namorar com o parceiro. Neste filme, haverá, pouca vontade de aumentar a prole familiar ou sequer de ter filhos. Por isso, por vezes, a história termina em insucesso escolar, disfunções comportamentais, discussões, divórcio e muita infelicidade.

A prazo o filme pode transformar-se numa série de terror. Basta recordar que a queda da natalidade, fomentada por estilos de vida "sufocantes", terá graves consequências, sobretudo ao nível do cuidado com os idosos, do colapso dos sistemas de segurança social e de saúde.

Para lidar com esta situação, não basta construir creches ou distribuir subsídios de 200€ por nascimento, como pretende o PS. Há que ir mais além e permitir que os pais trabalhadores tenham mais tempo disponível para a família, reforçando a coesão familiar, sem prejudicar a vertente financeira.

Mas não será esta uma quadratura do círculo?

O Instituto Sá Carneiro, em documento recente, responde a essa questão ao destacar a necessidade da valorização da família, numa dupla perspectiva: por um lado, dar mais tempo à família através de políticas que promovam a conciliação com a vida profissional. E, por outro, usar a família como a assistente social por excelência de crianças e idosos, levando desta forma o Estado a poupar recursos. Para isso há que incentivar não só o recurso ao teletrabalho, à flexibilização dos horários, ao 'part-time' e à criação de creches no próprio emprego. Mas também a uma maior participação do homem nas lides domésticas e educativas, ao incremento do apoio domiciliário e dos benefícios fiscais para quem toma conta das crianças, entre outras.

Conciliar trabalho e família não será a única solução para resolver o problema da crise familiar e da quebra da natalidade. Mas será certamente um forte contributo. A este propósito, relembro que o pai da democracia norte-americana, Thomas Jefferson, dizia que os momentos mais felizes da sua vida não tinham sido a independência dos EUA, ou os êxitos profissionais, mas sim "aqueles, poucos, que pude passar em minha casa, com a minha família".

 

Sobre as recomendações da Comissão Pastoral da Saúde em relação à chamada Gripe A

Braga, 28 de Agosto de 2009

Já passou mais de um mês desde as ‘recomendações’ da Comissão Pastoral da Saúde em relação à chamada Gripe A. Mesmo assim, quero escrever alguns pensamentos.

Não é segredo que esta Gripe foi ‘inventada’ por interesses sujos. Mesmo assim, ela não é nada mais perigosa do que qualquer outra gripe sazonal. Isto qualquer médico pode afirmá-lo. Com qualquer gripe sazonal há muito mais doentes e morrem anualmente bastantes pessoas. O que é perigoso é todo o barulho que os média fazem para fazer acreditar que a gripe é perigosa. Dizem constantemente quantos novos casos aparecerem. Eu pergunto onde? Não dão nomes nem lugares. Em Braga ainda não ouvi de um único caso concreto. No Porto falou-se de 2 casos: um já curou, outro ficou internado. Se a situação é assim na 2ª e 3ª cidades de Portugal, onde estão estes outros quase dois mil casos? E só se contabiliza os novos casos, sem falar da maioria que já curou. Será isto informação objectiva e justa?

Os média é que querem gerar pânico; lamentavelmente a Comissão Pastoral da Saúde deixou-se levar por esta onda e numa altura - como falou bem o Cardeal - em que não havia ainda nenhuma necessidade. E ainda não há.

Mas a principal intenção desta carta é uma reacção contra afirmações erradas, quanto à comunhão na mão. Um artigo no Jornal de Notícias de 26 de Julho diz: «Feytor Pinto lembra que a comunhão na mão e o aceno de paz não são inovações: a primeira era prática no século IV e foi retomada pelo Concílio Vaticano II […] »

A isto deve-se dizer: são claras mentiras históricas! Ignorância?

1) Embora houve uma prática de comunhão ‘na mão’ no século IV, nunca foi como actualmente é praticada! Não foi retomada, foi alterada.

A primeira razão desta prática no século IV era que não havia hóstias como agora, eram pedaços de pão. Mas havia outras razões envolvidas como heresias, perseguições sangrentas etc.

Em segundo lugar havia uma proibição severa de tocar nas ‘coisas sagradas’.

Assim a prática da comunhão ‘na mão’ era não apenas, como se cita tantas vezes, de fazer com a mão esquerda um trono para a mão direita, mas a mão direita foi coberta por um pano sobre o qual era depositado o ‘pedaço’ de Pão Sagrado; em seguida este foi levado directamente para a boca, sem ser tocado pelos dedos da mão esquerda.

Portanto, o modo de comungar ‘na mão’ era bem diferente.

Também cala-se em todas as línguas sobre as razões que levaram a Igreja a abolir este costume. Era principalmente para evitar que se perdesse fragmentos que facilmente se desprendiam do ‘pedaço de Pão’. O cuidado de não perder fragmentos hoje em dia praticamente não existe mais. Não será mais preciso??? Já Papa João Paulo II lamentou muito as muitas profanações que estão acontecendo, bem facilitadas pela comunhão na mão.

2) Segundo erro crasso é de afirmar que a comunhão na boca foi retomada pelo Concílio Vaticano II. Eu convido o senhor a indicar-me um único lugar onde o Concílio fala na comunhão na mão. Não há! Nem na reforma litúrgica, que foi pós-conciliar, encontrará indicação alguma. Basta ler o documento da promulgação do novo rito, que se encontra no início do missal. A dita ‘licença’ apareceu só em 1969. E foi como que arrancada do Papa Paulo VI, e era dada como licença ‘extraordinária’ para estes lugares onde ela fora introduzida sem licença alguma, e com alertas fortes para ter o máximo cuidado para evitar qualquer profanação de fragmentos (cf. Instrução «Memoriale Domini»). Será bom ler este documento todo e meditá-lo.

É lamentável que tais afirmações são simplesmente divulgados, para engano de muitas pessoas.

O pior é - como facilmente era previsível! - que as chamadas ‘recomendações’ da Comissão Pastoral da Saúde por não poucos párocos foram aproveitadas como pretextos muito bem-vindos para, contra todo o direito, proibir a comunhão na boca, e às vezes com tolerância zero. Obrigam a comungar na mão sem qualquer preparação ou explicação como fazê-lo ‘dignamente’ para evitar profanações. Uma pura violação brutal da liberdade, do sentir religioso e da consciência de muitos fiéis!!! Isto é matar a fé de tantos. Que o Senhor tenha piedade de tais ‘pastores’.

E, por fim, em nenhuma recomendação, também de bispos, encontrei alguma exortação à oração! Não seria de esperar tal conselho de instâncias eclesiásticas?

Que Santo Agostinho ilumine as mentes.

Pe. Francisco de Deken ORC

Tony Blair: sociedade precisa deixar espaço para fé

Zenit, 20080827

Ex-primeiro-ministro revela detalhes de sua conversão no Meeting de Rímini

RÍMINI, quinta-feira, 27 de agosto de 2009 (ZENIT.org).- O ex-primeiro-ministro da Grã Bretanha Tony Blair considera que “uma sociedade, para ser harmoniosa, tem de deixar espaço para a fé”.

Ao intervir nesta quinta-feira ante 15 mil pessoas no “Meeting pela amizade entre os povos”, organizado pelo movimento eclesial Comunhão e Libertação na cidade costeira italiana de Rímini, ele revelou aspectos de sua conversão ao catolicismo.

De fato, confessou, quando “se preparava para entrar na Igreja Católica, tinha a sensação de que estava voltando para casa”.

Esta conversão, acrescentou, foi facilitada por sua mulher, que percebeu que a Igreja Católica era sua casa não só “pela doutrina ou o magistério, mas por sua natureza universal”.

O fundador da “Faith Fondation” citou ao longo de sua intervenção em várias ocasiões a recente encíclica Caritas in veritate de Bento XVI e assegurou que “vale a pena ser lida e relida, é um contra-ataque ao relativismo”.

Sublinhou desta forma a mensagem da encíclica, em que se afirma que sem Deus o homem não saberia para onde ir, por considerar que é de vital importância para um mundo globalizado como o de hoje.

Sublinhou que um mundo globalizado, para que não se deixe dominar pelo poder, tem de ter uma força de contrapeso que busque o bem comum.

Neste sentido, explicou que a Igreja, que é um modelo de instituição global, tem de entrar em jogo para enfrentar os problemas propostos pela globalização.

Com respeito aos desafios de uma sociedade multicultural, reconheceu que a globalização nos faz encontrar com mais pessoas, mas é necessário manter nossa identidade característica.

É necessário “respeitar as raízes judaico-cristãs dos países da Europa. Também se deve pedir respeito à identidade de nossos países, formada ao longo de milênios”.

Segundo Blair, com frequência a religião é vista como fonte de conflito, mas temos de demonstrar que a fé se empenha em construir a justiça”.

“Deste modo, mostraremos o verdadeiro rosto de Deus, que é amor e compaixão”, declarou.

“A fé não é uma forma de superstição, mas a salvação para o homem. Não é uma fuga da vida. A fé e a razão estão aliadas, nunca em oposição. Fé e razão se dão apoio, se reforçam, não competem. Por isso a voz da Igreja é escutada, a voz da fé sempre deve ser escutada. Essa é a nossa missão para o século XXI”.

Também fez referência à questão do processo de paz no Oriente Médio e assegurou que “Israel deve ter garantida sua segurança e os palestinos devem poder contar com um Estado independente”.

Concluiu sua intervenção afirmando que “seria um grande sinal de reconciliação e esperança se a Terra Santa fosse um lugar de reconciliação e de paz”.