terça-feira, 30 de junho de 2009

A escolha dos cientistas

in: Jornal por Nicolas Wharf, Publicado em 30 de Junho de 2009

Numa democracia parlamentar, enquanto povo delegamos a tarefa de governar nos políticos, porque nos parece que eles podem fazê-lo melhor que nós, ou então porque não temos tempo para o fazer nós mesmos. Da mesma maneira, na sociedade moderna, enquanto povo, delegamos a tarefa de obter o progresso nos cientistas, porque nos parece que eles podem fazê-lo melhor que nós, ou então porque não temos tempo para o fazer nós mesmos.

No entanto, há uma descontinuidade entre aquilo que a sociedade espera dos políticos e aquilo que espera dos cientistas. Nenhum de nós espera que os políticos façam tudo bem, mas qualquer sugestão de incerteza pode desacreditar toda uma área científica aos olhos do público. A razão de ser de tudo isto pode estar no processo de votação.

No momento de votar há um contrato não escrito entre a sociedade e os políticos, que diz que, embora eles possam não ser perfeitos, os aceitamos como o melhor de que dispomos, uma vez que os escolhemos directamente, i. e., classificamo-los a um nível relativo. No entanto, uma vez que em nenhum momento foi estabelecido um contrato entre a ciência e a sociedade, a ciência é julgada a um nível absoluto.

Se a sociedade enfrentasse este assunto, podiam ser-lhe inculcadas algumas importantes ideias científicas. Como acontece com a democracia, ninguém pode dizer que o raciocínio científico é perfeito, mas a alternativa é sem dúvida pior.

Astrofísico

Um exemplo da história

Jornal i
por Jaime Nogueira Pinto, Publicado em 30 de Junho de 2009

Nun'Álvares é o exemplo de que com fé e coragem se consegue o mais difícil. E muitas vezes o mais difícil é o caminho da vitória

Andei estes últimos meses à volta da figura do Condestável de Portugal, D. Nuno Álvares Pereira, agora santificado por Bento XVI e cujo nascimento em 1360 se comemora a 24 (ou 25) de Junho.
Foi uma incursão num período que conhecia bem no capítulo da teoria política e da história militar. E ao personagem conhecia-o há muito, pois, miúdo da instrução primária, o meu Pai deu-me "A Vida de Nun'Álvares" de Oliveira Martins.
Hoje, olhando Nun'Álvares com outra leitura e experiência, o que me continua a fascinar no homem - o santo é outra história - é a sua capacidade de decisão, a sua coragem de escolher coerentemente e avançar com todas as consequências.
Isto sem ser um cabeça quente, um desses militarões básicos, bravos fisicamente, atirados para a frente, mas que às vezes, com essa coragem pessoal extrema conduzem ao desastre. Tipo Custer em Little Big Horn, ou carga da Brigada Ligeira?
Não. Nun'Álvares tem uma coragem (que vem, como tudo nele, na sequência de uma convicção de que Deus está com ele porque a sua causa é justa) reflectida, escolhe bem as posições no terreno, prepara e dispõe os homens adequadamente, procura ler a cabeça e intenções do inimigo, escolhe o momento certo para dar batalha. Mas, uma vez formada essa decisão estratégica, não hesita.
Tem duas paixões - a paixão de Deus, que agora o levou aos altares, e a paixão de Portugal, que, há quase seiscentos anos (em 1411), levou à vitória na guerra da independência, com a assinatura em Segóvia do tratado de paz definitivo entre Portugal e Castela, depois de trinta anos de luta.
Quando tudo começou, em 1383, os dados objectivos eram contra Nun'Álvares e o partido português de D. João, Mestre de Avis. Tinham com eles o povo de Lisboa e do Porto, alguma arraia-miúda do Alentejo, filhos segundos e bastardos da nobreza, alguns burgueses, alguns bispos. Contra a legalidade senhorial, os chefes das grandes casas, os alcaides dos castelos e sobretudo o exército e a esquadra castelhanos.Se houvesse então sondagens e analistas políticos, tinham com certeza apostado quase em massa na vitória de D. João de Castela e da união dos reinos, que levaria ao desaparecimento de Portugal.

Era a racionalidade, era o pragmatismo.

Nun'Álvares foi contra tudo isso: com fé, com coragem, mas também com inteligência e o que a arte militar do tempo tinha de mais moderno.
Às vezes, o caminho mais difícil é também o da vitória. Pelo menos nas coisas grandes.

Professor universitário

Contrastes na saúde

Henrique Leitão
RR on-line 30-06-2009 20:05
Nos últimos três meses, por causa da doença de uma pessoa de família, tive contacto directo e prolongado com vários serviços de vários hospitais do Estado.
Apesar da amostra em si não ser muito grande, o contraste não poderia ser maior. Os serviços que conheci e os profissionais médicos, enfermeiros, técnicos, com que contactei vão do excelente ao péssimo.
Em alguns casos, não tenho senão palavras de elogio e de agradecimento pela qualidade técnica ou profissionalismo, a eficiência e a humanidade com que vi os pacientes serem tratados. Mas vi também o oposto: o desleixo, a sujidade, a incompetência e até a má criação.
As duas considerações que ocorre fazer são evidentes. A primeira, é a de que pôr mais serviços que se montem ou equipamentos que se adquiram, em última análise, são sempre as pessoas que fazem a diferença.
A segunda é esta: e estes profissionais, que vi prestarem serviços tão diferentes, têm sido tratados diferentemente? Será possível que recebam o mesmo? Será que têm idêntico reconhecimento?

Frase do dia

Assustamo-nos com mais frequência do que nos magoamos; e sofremos mais na imaginação do que na realidade
Séneca (4aC-65dC)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Caritas in vertate

Caritas in Ver It Ate

Problemas de que não se fala

João César das Neves

DN 20090629

Ainda não é conhecida a estratégia argumentativa dos partidos para as eleições, mas uma coisa é certa: não passará pelos verdadeiros problemas nacionais. Apesar disso, talvez valha a pena descrever brevemente essas questões de fundo de que não se falará estes meses.

O nosso principal problema é a decadência populacional. Portugal está em vias de extinção: em 2007 já nasceram menos pessoas do que morreram. A nossa taxa de fertilidade, que desde 1983 é inferior à de reposição das gerações e desde 2002 à média europeia, atingiu agora um dos valores mais baixos do mundo (1,3 filhos por mulher), só comparável ao Japão. Ao contrário do Japão, por cá uma percentagem crescente dos nascimentos vem de famílias imigrantes. As consequências que a degradação da família terá no equilíbrio social, desenvolvimento económico, estabilidade cultural e futuro nacional são incalculáveis. Os outros países europeus, com problemas menores que o nosso, têm há anos políticas consistentes e sustentadas de apoio à família e fertilidade. Por cá, o Governo, não só ignora o assunto, mas subsidia abortos, facilita divórcios, promove homossexualidade.

O segundo problema estrutural português é a adaptação ao aumento da esperança de vida. Vive-se cada vez mais e o número de centenários cresce todos os anos. Isso é excelente, porque a longevidade vem com melhores condições de vida e saúde. Mas a sociedade nada oferece aos idosos, senão uma vida de ociosidade e irrelevância. A atitude face à velhice é a mesma de há 100 anos. Portugal não pode tratar uma percentagem crescente da sua população, a mais experiente e sabedora, como se estivesse "fora de prazo". Além do monstruoso desperdício, surgem enormes efeitos sociais, humanos e pessoais dessa desqualificação. Aqui, embora por razões estritamente financeiras, o Governo deu passos tímidos no bom sentido com a reforma da segurança social.

Estes dois primeiros problemas estão totalmente fora do debate político nacional. Nada podia ser mais estranho aos programas, discursos e tácticas eleitorais. Sobre os dois seguintes há algumas referências nos campos partidários, embora confusas e enviezadas.

O terceiro aspecto estrutural é a atitude face ao progresso. A globalização muda a especialização e distribuição mundial do valor. As novas oportunidades encontram--se reagindo aos sinais dos mercados, não ouvindo a retórica política. Portugal não tem de defender a agricultura, não precisa de garantir o futuro industrial, não ganha nada com a tradição do mar. Não interessa o sector, interessa a atitude. As nossas empresas têm apenas de ser produtivas, rentáveis e dinâmicas, onde quer que seja. Foi assim que nasceram a nossa agricultura, indústria e marinha. Assim prosperarão.

Mas os cidadãos portugueses adoptaram os níveis de consumo e exigência europeus sem aceitarem os níveis de produtividade e as exigências europeias. Todos sabem exigir mas não cumprir o que se lhe exige. Daí o endividamento crescente, desequilíbrio orçamental, desânimo social, decadência política. A Europa deixou de ser um desafio para ser argumento de benesses. Serve como modelo de direitos, nunca de deveres. A consequência é a crise que nos assola há 15 anos, precisamente desde que mudámos a atitude. Se todos pensam que a Europa garante o nível de vida e pedem ao Estado o que só o trabalho, iniciativa e reestruturação das empresas podem dar, não admira a crise.

O último problema de fundo vem directamente da atitude política face aos problemas de fundo. Temos um Estado que ignora a linha estratégica do País e os grandes problemas nacionais. Não sabe o que quer no futuro nem como lá se chega, mas ocupa-se com embalagens de iogurtes, fumo nos edifícios, cadeirinhas nos automóveis e educação sexual. Os governantes tratam do que nos compete, sem fazerem o que lhes compete. Vivemos num equilibrismo mediático e em escaramuças pontuais, esquecendo os desígnios básicos. Assim, o debate eleitoral só pode passar ao lado dos grandes problemas nacionais.

João César das Neves

29 de Junho - S. Pedro e S. Paulo

CESARI, Giuseppe
Nossa Senhora e o Menino com S. Pedro e S. Paulo
1608-09
Óleo sobre tela, 174 x 120 cm
Nelson-Atkins Museum of Art, Kansas City

domingo, 28 de junho de 2009

Futilidades

PÚBLICO, 28.06.2009, António Barreto Retrato da Semana

Partidos e comentadores multiplicam-se em reflexões acerca das vantagens e dos inconvenientes das datas das eleições

É extraordinária a maneira como, entre nós e desde que os partidos políticos entrem em cena, qualquer pequeno problema de menor importância assume rapidamente as dimensões de catástrofe ou de espectro ameaçador. Ou de grande divisor de razões e sentimentos. Agora, foi a vez das datas das eleições. O que já se disse deixa invejoso um escritor de ficção científica! Partidos, comentadores e analistas multiplicam-se em sofisticadas reflexões acerca das vantagens e dos inconvenientes de 27 Setembro e de 4 e 11 Outubro. O nó da questão era a simultaneidade das eleições autárquicas e legislativas. Questão fútil e sem consequências, mas que teve a capacidade de excitar o condomínio fechado em que se transformou a política nacional. A marcação da data, pelo Presidente da República, pôs termo à discussão. Mas o que foi dito, durante semanas, não desapareceu. E revela o modo como se pensa a democracia.

Um conjunto de argumentos põe em relevo as vantagens partidárias. Se os votos forem separados, ganham uns partidos, se forem no mesmo dia, ganham outros. A mesma coisa, ou parecida, se as legislativas se realizarem antes ou depois das autárquicas. Quer isto dizer que ninguém tem legitimidade para preferir uma data ou uma ordem: imediatamente lhe saltam em cima com acusações de interesses ilegítimos e de oportunismo. Quem assim faz esquece-se de que os argumentos são totalmente reversíveis.

Outro argumento é o dos custos. Nem sempre se percebe se estamos a falar de custos directos para os votantes, despesas para os partidos ou encargos públicos. De qualquer modo, quem alude aos custos está em geral a pensar nos interesses dos partidos. Com efeito, quem quer as eleições separadas garante que a democracia bem merece um punhado de euros, enquanto os que desejam actos conjuntos referem a poupança assim obtida. É, no entanto, certo que a despesa ou a poupança não parecem um argumento muito forte.

O aparentemente mais sério argumento é o da abstenção ou da participação. Também neste domínio, a consistência não é visível. Juntar eleições, para uns, significa mais participação; separá-las, para outros, teria o mesmo efeito. Não consta que haja solidez nas razões apontadas. Nem sequer estudos concludentes. A única dúvida razoável é a que alude ao cansaço: maçados com duas deslocações seguidas à distância de uma ou duas semanas, os eleitores poderiam optar por apenas uma. Mas são meras suposições. Além de que não se sabe muito bem se seria a primeira ou a segunda a sofrer dessa terrível fadiga. Como não se sabe se o cansaço é argumento mais importante do que a natureza das eleições e o que está em causa. Apesar de anónimas e limitadas aos emblemas dos partidos, as legislativas chamam mais eleitores. Mas as "grandes figuras" municipais também têm algum efeito.

Reflexão tortuosa é a que se apoia na previsão das intenções dos eleitores. Nas autárquicas, diz-se, os cidadãos querem escolher um presidente de câmara e bater no Governo. É estranho, mas é o que consta. Nas parlamentares, os mesmos eleitores esquecem tão vis desejos e designam racionalmente o Governo que preferem. As estatísticas eleitorais sugerem alguma coisa, nomeadamente o facto de poder haver diferenças na orientação de voto entre as duas eleições, assim como uma maior presença do PSD nas autarquias (o que não é uma regra absoluta). Mas não são constantes que permitam certezas.

O último dos argumentos é o mais brutal. Juntar eleições teria como efeito criar a confusão nos eleitores. Já desorientados com a existência de três boletins de voto (freguesia, assembleia municipal e vereação camarária ou presidente da câmara), ficariam completamente perdidos com a eventualidade de terem de lidar com quatro. Muitos votos ficariam assim perdidos. Brancos e nulos, possivelmente. No partido errado, com certeza.


É comovedor este desvelo dos partidos e de alguns comentadores encartados. O esforço que fazem para cuidar dos pobres cidadãos, tão vítimas de manobras, tão deficientes mentais e tão incapazes de decidir por si! A minuciosa atenção que prestam aos eleitores, tão frágeis e vulneráveis, que perdem literalmente a cabeça perante quatro boletins de voto! Se repararmos bem, quase todos os argumentos conduzem ao mesmo: a incapacidade dos eleitores, a sua falta de discernimento, o seu cansaço fácil e a rapidez com que se confundem. Na verdade, esta discussão ridícula tem um só objectivo, o de começar a arranjar explicações para os fenómenos que os incomodam: derrotas eleitorais e elevadas taxas de abstenção. Na noite (ou nas noites) das eleições de Outubro, já sabemos qual a justificação que mais vezes se vai ouvir: a data das eleições é a culpada.

A propósito das datas e seguramente em consequência da abstenção nas europeias, já começou a ladainha piedosa dos que querem o bem dos cidadãos e a nobreza da democracia. Já se ouvem propostas para "melhorar o sistema" e dar novo "tónus" à democracia. Em vez de se inquietarem com a fictícia democracia europeia e a inutilidade do Parlamento Europeu, propõem que o voto seja obrigatório! Em vez de pensarem na reformulação de alguns processos, designadamente no voto pessoal, sugerem punições para quem escolhe abster-se! Preparemo-nos, pois, para a próxima revisão da Constituição. Lá veremos dispositivos para reforçar a democracia. Sempre com um denominador comum: a cegueira perante as deficiências do nosso sistema e a vontade de resolver os problemas com normas legais e punitivas. Já agora, uma modesta contribuição: as eleições deveriam ser obrigatoriamente em dia de chuviscos. Mas não de mais, que levam as pessoas a ficar em casa, nem de menos, que deixam os eleitores ir à praia.

sábado, 27 de junho de 2009

A "renovação" que se exige

PÚBLICO, 27.06.2009, José Pacheco Pereira

Renovar significa escolher pessoas que mostrem ter uma intransigência grande com a corrupção


Quando Churchill chegou em 1940 ao lugar de primeiro-ministro de uma nação em guerra e a perder essa guerra, tinha quase quarenta anos de experiência parlamentar. Tinha sido quase tudo o que se podia ser: militar, estratega, parlamentar, ministro, jornalista, escritor, historiador, homem público, tudo. Era certamente uma das faces mais "gastas", como agora se diz, da vida política britânica. Era, com igual certeza, uma das pessoas que menos "renovação" traziam ao governo, ele que já por lá tinha passado várias vezes e algumas delas de forma bem conflitual. Era, com a certeza das certezas, uma personalidade "pouco consensual", tendo distribuído uma seara de ódios, de facções, de confrontos, de polémicas, ímpar nesses mesmos quarenta anos que o século durava. Tinha inimigos, completamente hostis, que o consideravam tudo aquilo que a política não devia ser: era acusado de ser irresponsável, incompetente, vingativo, belicista, conflituoso, quase um traidor. Os seus adversários odiavam-no muito menos do que os seus correligionários, um sinal de intensidade do ódio muito particular. No seu partido tinha os maiores inimigos, que o acusavam de tudo o que de mal acontecera ao Reino Unido, desde derrotas militares sangrentas até a desastres eleitorais. Para além disso, era velho, gordo, bebia, era demasiado nobre de nascimento, tinha dívidas, maus costumes e língua afiada. E, homem da escrita e dos jornais, panfletário e excessivo, também não tinha os jornalistas em grande consideração. Em suma: Churchill chumbaria em todos os critérios mediáticos dos nossos dias e seria considerado tudo menos "uma face fresca", vinda da geração certa, que pudesse receber os elogios da "renovação", a variante em política do critério de "novidade" permanente que move jornais, rádios e televisões.
Vem isto a propósito da redução da "novidade", logo da "renovação", como um valor, à idade, ao turnover geracional, à "frescura" da face, como se isso fosse um critério fundamental para as escolhas políticos. Com enorme enfado, os jornalistas premeiam ou punem a "renovação" por este critério. Os critérios que usam são bastante parecidos com os da publicidade e inserem-se na tendência da redução da política ao espectáculo. Paulo Rangel beneficiou dele, mas duvido que esse seja o critério de qualidade que mais lhe interesse, dado que a "novidade" é a primeira coisa a gastar-se. Só quem não reparou na sua performance como líder parlamentar é que se pode ter surpreendido com a sua campanha. Aí também ele não era "novo", mas foi visto como tal pelos mesmos que o depreciavam como parlamentar e davam sempre a Sócrates as estrelas todas. Foi preciso que o estereótipo se impusesse, para beneficiar dele, neste caso para alguém com mérito. Menos mérito tem quem constrói uma "novidade" para fazer passar o gato pela lebre da "novidade" e, infelizmente, há muitos candidatos para isso e têm, no essencial, boa imprensa. Falsos "novos" como Passos Coelho usam a face como estratégia de marketing e o "novo" como mecanismo de reciclagem. Ou o novo porta-voz do PS, João Tiago Silveira, que foi apresentado pelo Expresso como uma "lufada de ar fresco" à custa de se iludir a sua actividade concreta como secretário de Estado, que mostrava como os "novos" podem ser os mais eficazes repetidores dos vícios dos velhos.
Muita coisa má se está a promover à custa da idade e da renovação "geracional", disfarçando conflitos de poder pelos bens escassos, não entrando em conta com outros critérios menos mediáticos e espectaculares. Numa sociedade equilibrada, numa democracia capaz, os critérios incluem a idade e a geração, mas incluem igualmente os costumes públicos, a experiência, os comportamentos, as ideias e as práticas. Ou seja, são indivíduos que são avaliados, não abstracções na moda. Por isso, se me perguntarem que "renovação" eu quero, por exemplo, nas listas de deputados, nos membros do governo, eu respondo de modo muito diferente daquele que por aí impera. Deve ser da idade.
Por exemplo, para mim, renovar é trazer para a política pessoas com vida e profissão, que tenham conhecido dificuldades, desilusões, derrotas, perdas, que sejam mais de carne do que de plástico. Há cada vez menos gente assim na política, à medida que nos partidos as jotas funcionam como incubadoras de carreiras semiprofissionais e profissionais de política. Elas implicam quase sempre baixa qualificação profissional, cursos de segunda, pouca experiência profissional e vidas que rapidamente acedem a regalias e prebendas que separam os que as recebem do comum dos cidadãos e dos seus companheiros de geração. Quem entra para assessor numa autarquia, ou para deputado, sem ter tido profissão, tende a ficar preso pela sua falta de qualificações e saída profissional. Os aparelhos partidários estão cheios de gente assim, que gere obediências e sindicatos de voto, a quem não se conhece um "não" que os afaste por consciência de qualquer lugar.
É para mim incompreensível que alguém que discorda profundamente de uma direcção partidária (já não digo de uma política, porque aí é tudo muito maleável) queira ser deputado em representação dessa maneira de fazer política que abomina. Não gosto de dar o meu exemplo, porque num mundo normal isto seria tão habitual como respirar, mas não concordando com a aliança entre o PP e o PSD nas eleições para o Parlamento Europeu, declinei sem qualquer drama o convite para ficar.
Por exemplo, para mim, renovar significa escolher pessoas que mostrem ter uma intransigência grande com a corrupção. Não basta serem honestas e sérias, o que muita gente é na política. É preciso ir mais longe, dada a natureza do meio e das suas tentações, é preciso não pactuar com quem seja menos honesto. Embora este seja um terreno difícil, a "ética republicana" como queria Pina Moura não é apenas a lei e os prevaricadores não são apenas os culpados em tribunal. É necessário que nos partidos políticos haja cada vez mais gente que não ajuda, promova, seja indiferente com quem abusa do seu lugar, quem enriquece sem explicação, quem serve o contínuo tráfego de influências que passa pela política. Os partidos políticos, em particular o PS, o PSD e o CDS, pagam em termos da opinião pública um preço elevado pelo comportamento dos seus dirigentes e militantes, envolvidos em histórias pouco dignificantes, mesmo que não cheguem a ser crimes. Muito da regeneração possível dos partidos passa por aí, embora reconheça as enormes pressões para marginalizar quem não pactua com esses hábitos.
Para mim, renovar é procurar diversidade, de modo que Portugal todo caiba na política e não apenas os eleitos pela fortuna, pela riqueza e pela classe social e pelo nascimento. Mais importante do que as quotas (que penso serem um absurdo, como o é a lei da paridade) é encontrar pessoas com capacidade de falarem e serem ouvidas pela sociedade portuguesa em todos os seus matizes. A maioria dos portugueses são operários, agricultores, trabalhadores dos serviços, funcionários públicos, micro e pequeno-empresários, e todos eles estão sub-representados na vida política, quer enquanto tal, quer através de representantes que conheçam os seus problemas e falem a sua língua. É o problema de qualificar a acção política por "saberes" diversos, fruto da experiência, do conhecimento de vida, do estudo, para evitar o progressivo divórcio entre a realidade nacional e a representação política.
Podia continuar, mas penso que já se percebe. Faça-se a "renovação" por aqui e encontrar-se-á gente nova e mais velha, capaz de nos fornecer melhores políticos. Mas para que tal seja possível nos partidos é necessário ir muito mais longe do que os poderes e equilíbrios internos, porque a realidade mostra que as escolhas das direcções nacionais são mais racionais do que as dos aparelhos interiores aos partidos. E não estou propriamente a pedir Churchills. Vamos ver. Historiador

sexta-feira, 26 de junho de 2009

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Apresentação de livro

Epossivel viver assim

Brincar com coisas sérias

Maria José Nogueira Pinto

DN20090625

O Instituto Português da Juventude - que ainda hoje não sei ao certo para que serve - teve uma ideia: realizar testes de sida nas escolas, contemplando com este "brinde" alunos entre os 12 e os 25 anos.

Fiquei estupefacta com a notícia desta iniciativa e assaltaram-me várias dúvidas. Qual o papel do Ministério da Saúde? Financiar o projecto? Então este projecto, claramente de saúde, com objectivos de prevenção da sida, envolvendo rastreios, só tem a chancela de um instituto público fora da sua tutela? Para além do ridículo da inversão dos papéis - o Ministério paga um projecto alheio que devia ser próprio e o Instituto executa um projecto próprio para o qual não tem nem vocação nem competência - os riscos são evidentes. A quem reportam os técnicos de saúde? Quem assume a responsabilidade pelos resultados? Quem assegura uma resposta imediata para os jovens cujo teste seja positivo? Quem averigua da legalidade ou ilegalidade da ministração de testes a menores? Quem assume, e com que direito, uma acção altamente intrusiva no poder paternal?

O mais extraordinário, porém, é considerar que uma criança com doze anos pode receber, sozinha, a notícia de que tem sida. Que nesse momento em que o chão lhe fugirá debaixo dos pés, a única garantia que lhe dão é que nenhum ombro paterno, nenhum colo materno, estarão à sua espera. Em contrapartida asseguram-lhe a confidencialidade. E o que pode significar a confidencialidade numa situação destas, se não o ficar perdido e só no seu labirinto?

Por motivos da minha vida profissional estive no primeiro embate desta doença devastadora e para a qual ninguém parecia preparado, nem os doentes, nem os profissionais de saúde, nem a sociedade em geral. Recordo-me das primeiras medidas tomadas no Banco de Sangue da instituição que dirigia; das conversas lancinantes com dadores contaminados, dos primeiros casos de doença, da criação de uma pequena equipa pluridisciplinar para os apoiar naquela revelação inicial; daquilo que era, então, uma sentença de morte. Lembro, particularmente, o olhar vazio de uma prostituta, do seu longo silêncio enquanto, com a melhor das intenções, lhe explicávamos a necessidade de exigir ao "cliente" o uso do preservativo, e da sua expressão amarga - aquela coisa da sida era apenas mais uma na sua vida de usura e violência - quando, antes de se ir embora, murmurou "eu tenho é de trabalhar". Recordo- -me também de ver no hospital de Ca-xias um grupo de doentes, espectros ambulantes à espera da morte, auxilian- do-se mutuamente durante as longas horas nocturnas em que não havia nem médico nem enfermeiro por falta de recursos.

A doença não foi considerada de declaração obrigatória e sabíamos que cada um que passava a porta estava perdido para nós, para o sistema de saúde, para tudo. Aquilo parecia-me demencial, que não fosse possível referenciar estes casos, encaminhá-los para estabelecimentos onde pudessem ser atendidos segundo o estado da arte que era, na época, ainda rudimentar. Mas não. Mais importante que declarar a doença e cuidar dos doentes, era impedir a descriminação. Devo reconhecer que as primeiras reacções foram assustadoras, como se tivéssemos recuado a uma idade das trevas, a uma peste negra, a um salve-se quem puder, parecendo legitimar atitudes discriminatórias totalmente irracionais.

A doença passou a ser declarada, mas havia já um enorme prejuízo acumulado: a ocultação agravara a ignorância e uma cultura de indiferença face a algo que se acreditava só acontecer aos "outros". Há alguns anos, um inquérito nacional revelava que a maioria dos portugueses acreditava que a sida se contagiava através de um aperto de mão. Mas a ocultação dificultou, também, um conhecimento da real situação da doença e dos doentes em Portugal e, por isso, a adopção de políticas eficazes.

Parece que o IPJ veio dar uma mãozinha: confusão, leviandade, correcção política e zelo pré-eleitoral. Uma brincadeira de mau gosto.

Pudor

·

João César das Neves

ESTAK 25 | 06 | 2009 08.31H

O nosso tempo tem um problema com o pudor. Se na vida corrente cada um continua recatado como antes, a cultura oficial faz enormes esforços para eliminar o que considera «preconceitos». Revistas, publicidade, filmes, televisão estão cheios de nudez aberta ou sugestões sexuais. Ser desinibido é imposição social. A pornografia passa por arte e a moda impõe o erotismo. Isso tem efeitos no quotidiano.

No Verão as ruas parecem praias e todos fingem ignorar o efeito lúbrico da exposição corporal. Em poucas décadas passou-se da dama que não mostrava o tornozelo para a que quase só tapa o tornozelo.

Mas não se deve dizer que a cultura não tem pudor. A natureza humana nunca muda, só altera as aparências. O nosso tempo tem muita modéstia, mas em coisas diferentes. Por exemplo, em religião.

É muito curioso notar como hoje se tem muito cuidado em ocultar pudicamente os sentimentos espirituais. Crentes e até clérigos gostam de falar de humanismo, solidariedade, valores, para tratar da sua fé, devoção, amor a Deus. O paralelo é evidente. Outras eras exaltaram a castidade como hoje muitos se orgulham do ateísmo, que é visto, não como uma posição religiosa entre outras, mas como uma dignidade superior, acima da corrupção das crenças. Como antes se via a virgindade.

No passado quando uma jovem se vestia de forma mais ousada apareciam logo guardiãs da decência a interpelá-la. Hoje se alguém manifesta em público a sua fé surgem também vestais ateias a protestar. E o argumento é igual: «isso são coisas para fazer na intimidade da alcova».

| naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Frase do dia

Cavalheiro é aquele que nunca ofende os sentimentos de ninguém sem intenção
Oscar Wilde

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Discurso do Presidente da República na Sessão Solene Comemorativa dos 900 Anos de Nascimento do Rei D. Afonso Henriques

Guimarães, 24 de Junho de 2009

Senhor Presidente da Câmara Municipal,
Senhor Presidente da Assembleia Municipal,
Minhas Senhoras e meus Senhores,

Recebi, com profunda emoção, das mãos deste pequeno Afonso, esta Medalha de Ouro que a cidade de Guimarães dedica ao Rei D. Afonso Henriques. Serei, enquanto Chefe do Estado Português, o seu fiel e dedicado depositário.

A figura de D. Afonso Henriques ergue-se, perante aqueles que lhe sucederam, como o primeiro elo de uma longa corrente que nos liga, a nós que vivemos no presente, aos actos fundacionais.

Essa corrente, a que o Fundador deu começo, entendemo-la como uma âncora que nos firma ao que somos. Uma âncora que não nos prende ao passado, mas que assegura que o passado está vivo em nós.

Sabemos que, quanto mais profunda é a raiz, mais alto alcançam os ramos que dela se nutrem. E que é condição de uma vida autêntica manter tão presentes o ponto de partida e o caminho percorrido como os projectos futuros.

A tradição ancorada na memória viva de um povo diz-nos que esta é a Cidade-Berço. Por isso, neste dia que a cidade recolheu como seu, o dia da Batalha de S. Mamede, encontramo-nos em Guimarães para manter vivos em nós os actos fundacionais. Temos o dever de o fazer, seguros de que, sem o estribo do passado, o presente não seria mais do que uma circunstância.

Justamente por isso, nesta rememoração não nos deve perturbar o debate de certas circunstâncias, como o local e a data de nascimento do Infante D. Afonso.

Às dúvidas dos historiadores, respondemos, e basta: viu a primeira luz em terra que tornou Portugal e, afortunadamente, nasceu quando foi necessário.

A sua existência oferece-nos o exemplo feliz de um homem que, no seu tempo e junto dos seus contemporâneos, encontrou e pôde cumprir um desígnio histórico.

Pelo sortilégio do homem que lidera, D. Afonso Henriques ficou para sempre como o rosto visível do momento primordial. Foi o primeiro, contudo não foi o único. A sua glória duradoura provém – e não é pouco – da coragem de começar.

Era tudo tão incerto, o desfecho do que se começava tão imprevisível e o risco de tal forma elevado. Não obstante, criou uma hoste de homens que aceitaram partilhar o mesmo objectivo e o mesmo destino. Foi, seguramente, um chefe de excepção.

Num determinado momento, quebrou o silêncio formulando a vontade de criar Portugal. Infelizmente, o tempo não preservou as suas exactas palavras. Não sabemos como terá transformado o seu sonho em discurso.

Resta-nos a imaginação para reconstituir o modo como persuadiu os seus a escolher segui-lo. Foram proferidas, decerto, palavras de esperança, palavras de crença, promessas. Foi gerada a confiança que justifica a adesão aos seus propósitos. Estabeleceram-se, adivinhamo-lo, compromissos.

Assim se ilustra uma constante da vida colectiva dos homens: quem pensa e actua como se estivesse sozinho, ficará só; quem convoca a pluralidade dos homens, será seguido.

O certo é que, juntos, D. Afonso e os seus seguidores começaram algo de novo. Passaram então das palavras aos actos.

O cronista atesta que D. Afonso foi “valente na guerra”. Nos momentos mais decisivos, arriscava tudo em cada lance. Como chefe, deu sempre o exemplo.

Mas terão bastado os feitos guerreiros para tornar o nome de D. Afonso Henriques digno de memória e o seu exemplo merecedor de imitação pelos vindouros?

A pior fraqueza dos fortes é a de só acreditar na força. O Rei D. Afonso I acreditou, como diplomata consumado, na subtileza da negociação. Foi, vinca o cronista, “mui prudente nas suas acções, de inteligência esclarecida”.

Teve aí a suprema qualidade do estadista: soube esperar. Por muito tempo esperou, sempre munido das mesmas convicções, servindo a mesma estratégia, nunca mudando o rumo.

Aguardou décadas para, já perto do fim do seu longo reinado, em 1179, através da bula Manifestis Probatum Est, obter a consagração inequívoca de um facto já consumado: foi reconhecido como rei idóneo, prudente e justo de um reino independente, que seria transmitido aos seus descendentes.

D. Afonso Henriques foi um político no sentido mais nobre: juntou os homens para fazer obra comum, num esforço cooperativo que fez nascer uma comunidade duradoura.

Foi aceite como chefe pelos seus soldados e como rei pelos seus súbditos.

Usou o mando, não para subordinar os outros aos seus fins particulares, mas para expressar a sua própria sujeição ao fim por que todos trabalhavam.

Não lhe devemos o Portugal que somos. Esse é uma obra comum, lentamente entretecida ao longo dos séculos por todos nós, portugueses de ontem e de hoje.

Mas devemos-lhe o facto de sermos Portugal. Devemos-lhe a possibilidade de construir uma pátria, ou seja, um sítio e uma ideia que entendemos como nossos e nos quais nos sentimos em casa.

A nossa casa nunca será uma construção acabada. Cada geração de portugueses continua a obra, fazendo-lhe um acrescento, que é uma renovação. Cada novo elo da corrente será diferente dos que o antecedem, mas nem por isso renega os actos primordiais.

Dizia o grande pensador romano Cícero que:

“Não há actividade alguma na qual a virtude humana se aproxime mais da divina do que a de fundar novas cidades ou preservar as já existentes.” Colocava, assim, o acto de preservar comunidades ao mesmo nível simbólico supremo que atribuía ao acto da fundação.

D. Afonso Henriques tornou possível Portugal. Aqui, em Guimarães, convictos da nossa responsabilidade histórica, inspirados pelos feitos do Fundador e pelo espírito incomum que perpassa por estas pedras, é com determinação que afirmamos a continuação de Portugal.

Homens errados nos lugares errados

Raquel Abecasis

RR on-line, 22-06-2009 13:21


O presidente do IDT devia zelar pela diminuição do problema da droga junto da população em geral e dos jovens em particular, julgamos nós. Nada de mais errado...

João Goulão é presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência. Logo, pensamos nós, deveria zelar pela diminuição deste problema junto da população em geral e dos jovens em particular.
Errado. Para este senhor, quem na juventude não fuma charros é betinho e a melhor mensagem a passar é a de redução de danos e não a de evitar que a droga entre na vida de muitos jovens.
Duarte Vilar é presidente da Associação para o Planeamento Familiar. Supostamente, devia zelar para que a divulgação de medidas de planeamento familiar reduzissem idealmente para zero o número de abortos, legais ou ilegais, em Portugal.
Errado. Cada vez que são divulgados novos números sobre o aumento de abortos, como ainda recentemente aconteceu, este senhor festeja com declarações a sublinhar que a evolução está de acordo com as previsões já feitas pela sua associação.
São dinheiros públicos que sustentam o Intituto da Droga e Toxicodependência para que desenvolva políticas eficazes que mantenham os nossos filhos longe do mundo da droga.
E, apesar de não ser pública, a Associação para o Planeamento Familiar, vive de subsídios públicos e sustenta a sua actividade no fornecimento de serviços ao Estado que deveriam servir para tornar mais responsável a maternidade e diminuir ao máximo a tragédia e o trauma do aborto.
Tal como os professores, também o desempenho destes senhores deveria ser avaliado e, se houvesse rigor na forma como é usado o dinheiro dos nossos impostos, João Goulão e Duarte Vilar deveriam deixar de ser os homens errados nos lugares errados.

Frase do dia

Quem virá a ser este menino?
Lc 1, 66
(do Evangelho de hoje)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Um dom imenso

Padre Nuno Serras Pereira
in:Logos

Quem quase toda a vida viveu, como eu, “empadralhado”, isto é, rodeado de Padres poderá ter uma grande dificuldade em reconhecer o dom imenso que eles representam.

A dois meses e meio, mais ou menos, de nascido, a 9 de Janeiro de 1954, fui banhado nas vivificantes águas Baptismais, por um deles, na Capela de casa dos meus avós, na Paróquia do Santíssimo Sacramento, no Porto. Na meninice, antes da escola, habituei-me não só a ir à Missa Dominical, mas também a ver como visitas habituais em casa de meus pais e avós, de ambos os lados, sacerdotes que lá almoçavam ou jantavam. Depois, frequentei durante 10 anos o colégio de S. João de Brito, dos Padres Jesuítas. Esta convivência quotidiana fez de mim, por assim dizer, um católico mimado que se sentia no meio deles com o mesmo à vontade que com a família mais chegada. Tiveram por isso, com uma paciência de Job, de aturar as minhas birras, desleixos, más-criações, rebeldias, arrogâncias e presunções. Olhando para trás e considerando as malandrices e demais idiotias que fazia com uma frequência e uma intensidade inusitadas não posso deixar de me pasmar quer com a minha crueldade quer com a benevolência sacerdotal. Levei, é verdade, algumas reguadas, carolos, puxões de orelha e tabefes, embora não tantos como precisava, mas o que eu merecia era ser “exterminado”, corrido a pontapés, expulso como ingrato, lançado ao lixo como escória imunda. Mas quê! Logo me perdoavam, absolviam, davam-me a Comunhão e faziam-me grande festa.

Fiz coisas ignóbeis, infames, sem qualificativo gramatical que as nomeie adequadamente. E, não obstante, considerava os Padres, na minha soberba canalha, uns seres cinzentos, algo desprezíveis, coisa a evitar e de todo indesejável.

Com a saída do S. João de Brito aquela decadência católica em que me enfronhara foi-se transformando numa tentativa persistente e determinada de desconstruir tudo o que me tinha sido dado e ensinado. Fazer e praticar exactamente o contrário da Lei de Deus. Ler Freud, Karl Abraham, Marcuse, W. Reich e A. Kinsey, entre outros, só podia agravar, como o fez, a situação. Um livro sobre Magia (não ilusionismo) que encontrei numas férias virou-me para o ocultismo. Chegado a Lisboa, vendi a Honda 90 e com o dinheiro adquirido comprei tudo o que encontrei sobre espiritismo, quiromancia, horóscopos, yoga, alquimia, parapsicologia, etc. Mergulhado nessas fantasias organizei sessões de espiritismo e ocultismo, e tive contactos com várias correntes do yoga, como a meditação transcendental, para dar só um exemplo, com os Meninos de Deus, com a Unificação, com budistas e hinduístas. A verdade, a resposta às minhas ânsias, à minha procura, não podia estar naquilo que eu conhecia de ginjeira e desdenhara – “a galinha da vizinha é melhor que a minha”. E assim de ilusão em ilusão fui-me arrastando até à desilusão final.

Depois veio a descoberta da Bíblia, a propósito de um filme que então apareceu, e a sua leitura diária com um pequeno grupo, entre cheiros de incenso – resquício das experiências anteriores -, e também em casa sozinho, com uma garrafa de aguardente “fim de século” de um lado e o maço de tabaco “português suave”, sem filtro, acompanhando a meditação até às quatro ou cinco da manhã!

Nesta confusão, Deus enviou um novo Prior, o Pe. Lereno Sebastião Dias, para a minha paróquia, a de S. João de Brito. A minha mãe conseguiu convencer-me a ir falar com ele e eu encontrei um milagre. Aquilo não era um homem, era um furacão de entusiasmo (esta palavra que vem do grego significa ter a Deus dentro de si), um fogo devorador de Evangelização, um arrebatamento Eucarístico. Desafiei-o para uma das nossas reuniões, ficaram todos fascinados. Dentro em pouco estávamos num cursilho de cristandade com outros dois Padres. Um empolgou-nos com as suas pregações, o outro persuadiu-nos de uma forma singular à confissão, sacramento em que não me apanhavam há vários anos. Aterrado, lá confessei as minhas grandes, graves e numerosas culpas (aquele tipo de pecados que não só é difícil de admitir perante os outros mas também perante nós próprios). Como resposta à javardice, ao esgoto ali despejado, desceu a Misericórdia infinita, bela e pura de Deus que renova todas as coisas. Se me soube bem a celebração verdadeira do sacramento da confissão? O Pe. Lereno poder-vos-á responder, pois a partir daquele retiro viu-me todas as semanas ir-me ajoelhar diante dele mendigando a absolvição e a sua orientação Espiritual.

O Pe. Lereno passava horas e horas no confessionário. As filas de gente para se reconciliar eram sempre extensas e como ele ouvia sem interromper e pregava a cada penitente com grande unção, era habitual que alguém para conseguir confessar-se tivesse de esperar uma, duas e às vezes mais horas. Não importava porque a pessoa saía dali reconstituída, restaurada, plenificada.

Impressionava o “contraste” entre as homilias e o confessionário. Naquelas proclamava a verdade sem ambiguidades nem titubeações. Pão pão, queijo queijo. Quando uma boa parte dos membros da Igreja em Portugal advogava, mesmo na UCP, a conciliação e compatibilidade entre o marxismo e o cristianismo, ou, pelo menos, calava a sua incompatibilidade ele trovejava contra a sedução diabólica. Não lhe importava que alguns fiéis saíssem amuados com as suas prédicas, pois sabia que o serviço da verdade é uma forma eminente de caridade. Seguramente atraídos por este desassombro, aquela enorme Igreja transbordava de gente em todas as Missas. Inexorável em chamar as coisas pelos nomes, no sim sim, não não, combinava essa clareza com um acolhimento humaníssimo de todas as pessoas. Não havia alma por mais distante que estivesse de Deus e da Sua Igreja, por mais empedernida no pecado, não saísse da sua beira reconciliada, consolada, feliz. Nunca foi lamechas, mas era a presença transparente do Cristo Misericordioso, a pura alegria do Evangelho.

A celebração da Eucaristia era o centro da sua vida. De onde tudo vinha, para onde tudo se encaminhava. Na Consagração, parecia transportado ao Céu; a Comunhão distribuía-a com a urgência, embora solene, de quem não sofre mais um momento ver o povo a perecer de fome. Este Padre, se um dia tivermos de definir a sua vida, é Missa. Está tão configurado com Cristo Eucarístico que já não é ele que vive mas é a Missa, é Cristo Ressuscitado que nele vive.

O encontro com este Padre foi, repito, um milagre na minha vida. Sem ele não me teria entregado à oração, ao apostolado, às obras de misericórdia, à evangelização; não teria crescido na Fé, nem na Esperança, nem na Caridade; sem ele nunca teria entrado para o seminário, nem teria preservado no mesmo, nem teria sido Ordenado Padre. Foi, como costumo, dizer, mais que um pai. Não porque o meu não fosse excelente, mas porque há dons sobrenaturais que só podem vir pela paternidade sacerdotal.

Neste Padre e com este Padre aprendi amar a Igreja, a Virgem Maria, os sacerdotes. Foi ele que pacientemente me fez perceber que eu não era a 4ª pessoa da Santíssima Trindade, uma mania hoje muito em voga, pois por mais que nos custe só há três… Nunca por nunca o ouvi dissentir da doutrina da Igreja, mas sempre percebi nele uma fidelidade que lhe brotava da Fé imensa que possuía. Todas as semanas o via ajoelhar-se no confessionário, aos pés do Monsenhor D. João de Castro, para dizer as suas culpas e acolher as misericórdias de Deus. Expunha o Santíssimo Sacramento todos os dias e diante dele rezava com os fiéis o terço do rosário e a oração de Vésperas.

Ao longo da minha caminhada conheci muitos outros sacerdotes, que seria fastidioso enumerar, que me marcaram e ajudaram muito. Uns diocesanos ou seculares, outros franciscanos (ui!, o que estes me têm aturado), jesuítas, dominicanos, espiritanos, agostinhos, outros são hoje Bispos. Para com todos, embora mais uns do que outros, tenho uma enorme dívida, daquelas que é impossível pagar

Quem trataria as minhas feridas quando caio?, quem me ressuscitaria se morro?, quem saciaria esta fome imensa que me atormenta?, quem me ampararia quando desfaleço?, quem me guiaria nesta babel que é a vida contemporânea?, senão o Padre.

Olhem para as paróquias. Que seria daquela gente que ali fervilha sem elas? Quem cuida dos idosos?, quem visita os doentes?, quem catequiza o evangelho?, quem forma os jovens?, quem organiza o voluntariado?, quem acode aos pobres e aos desempregados?, quem lhes proporciona o encontro com Cristo?, quem cria comunidade entre desconhecidos?

Reparem nas Ordens religiosas. Quem cuidaria dos colégios?, dos hospitais?, dos lares de velhinhos?, das creches infantis?, da missionação?, etc.

Desapareçam os Padres as Paróquias morrerão, as Ordens religiosas soçobrarão. A Igreja, que gera em Cristo os sacerdotes, vive deles. O Padre com todas as suas fragilidades e pecados, pois é um tesouro num vaso de barro, é Cristo no meio do Seu povo. Toda a vida cristã nasce, brota da Eucaristia. Esta é não só a raiz, a fonte, mas também o cume e o vértice da mesma. E a Eucaristia é o Padre a dizer/fazer na Pessoa de Jesus Cristo: Isto é o Meu corpo … Isto é o Meu sangue … Tomai e comei … Tomai e bebei. Esta é a eternidade que nos alimenta e vivifica.

Começou ontem o ano sacerdotal que tem como objectivos criar uma consciência na Igreja e na humanidade do dom imenso que são os sacerdotes e ajudar os Padres a um encontro mais intenso com Jesus Cristo, a uma configuração existencial com O mesmo mais concorde com a sacramental, a uma santidade verdadeira para melhor amar em Cristo os fiéis e toda a humanidade.

Se quiserem rezar por mim e por todos os sacerdotes realizareis uma grande obra de caridade que acabará por reverter a vosso favor.

Nuno Serras Pereira

20. 06. 2009

Frase do dia

O medo da morte é consequência do medo da vida. Um homem que vive intensamente está preparado para morrer em qualquer altura

Mark Twain

·

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Os três venenos da democracia

Diário de Notícias, 20090622

João César das Neves

Portugal tem uma democracia a funcionar. Esta frase banal constituiu uma novidade espantosa. Aqueles que hoje criticam políticos e instituições esquecem as diferenças abissais face aos desastres democráticos anteriores. Após desilusões seculares, Abril conseguiu pela primeira vez um sistema livre e estável.

As experiências portuguesas com regimes constitucionais, liberais e republicanos foram vergonhosas. Alguma tradição historiográfica pintou com cores negras o absolutismo de D. Miguel e a pseudoditadura de João Franco para exaltar os sucessores. Mas, apesar de prodígios de imaginação e omissão histórica, não restam dúvidas de que as mudanças de 1834 e 1910 criaram das piores calamidades políticas na nossa terra. Os intelectuais portugueses, que tanto criticaram o que viviam, fizeram depois coisas muito piores.

O século anterior a 1926 mostrou que Portugal não sabia viver em democracia. Intriga e corrupção, nepotismo e instabilidade, podridão e desânimo foram constantes. Permanente a fraude eleitoral, selváticos os dislates da imprensa, mentecapto o debate político, proverbial a inépcia ministerial. Vencer o adversário era mais importante que governar o País. O poder era expediente para esfolar o povo a favor dos compadres. No limite, o liberalismo matou um rei e a república um presidente.

Todos os partidos, que discordavam violentamente em tudo, estiveram sempre de acordo que o País ia muito mal. Não admira a atracção latente de potenciais ditadores, de D. Miguel a Costa Cabral e Sidónio, de Saldanha a Pimenta de Castro e Gomes da Costa, até se cair num autoritarismo de 50 anos. O argumento de Salazar sempre foi: "Lembrem-se como era antes de mim." Enquanto se lembraram, funcionou. Democracia cá não dava!

A experiência pós-1974 anulou a dúvida. Comparativamente, é um estrondoso sucesso. Apesar dos defeitos, Sócrates, Leite, Louçã, Jerónimo e Portas nada têm a ver com Passos, Fontes, Hintze, Afonso Costa e Brito Camacho. Persistem problemas evidentes, mas semelhantes aos de Espanha, França e Itália, não aos horrores que nos assombraram o século XIX e primeiro quartel do XX.

A nossa situação política é um grande êxito. Apesar disso, os críticos têm alguma razão: os venenos antigos permanecem. No meio da crise nacional, que se arrasta há dez anos, ressurgem os tiques da Regeneração e da Nova República Velha. Três elementos deste ano eleitoral mostram-no à evidência. Primeiro, as causas do desastre orçamental. Hoje, como há 150 anos, os compadres instalados à mesa do fisco arruínam o País e bloqueiam a vida nacional. Portugal está na Europa, é rico e sofisticado, mas a questão da Fazenda permanece. Entregando os documentos em CD-ROM, Teixeira dos Santos está tão embaraçado na tarefa como Anselmo Braamcamp.

Segundo, a vácua retórica bombástica. Perante a derrocada de 2009, Sócrates está tão perdido como João Crisóstomo no colapso de 1891. Mas isso não importa, porque o sucesso político mede-se, hoje como então, não em resultados práticos, mas em discursos comicieiros, debates parlamentares e imagem jornalística. Em vez de trabalho e soluções, conta a luta demagógica.

Terceiro, a tentação para espúrios temas radicais. No liberalismo, era a expulsão das ordens religiosas, hoje, o aborto e a eutanásia. Na república afonsista era a lei da separação, hoje, o divórcio dos casais e o casamento de homossexuais. A falta de regulamentação da Concordata manifesta como persistem os fumos da Carbonária. 170 anos depois, os nossos setembristas ainda não aprenderam que a satisfação momentânea do ataque às convicções profundas do povo português destrói o futuro e arruína o País.

O mundo mudou, a democracia funciona, a sociedade é moderna. Mas nos pormenores insensíveis a semelhança com épocas antigas chega a dar calafrios. Apesar do desenvolvimento, da Europa e da Internet, os traços do carácter nacional são indisfarçáveis. Por baixo da T-shirt eleitoral sente-se roçar a sobrecasaca do demagogo. Como nos alcoólicos anónimos é sempre de temer a reincidência.

João César das Neves

Frase do dia

Quando não conseguimos fazê-los ver a luz, façamo-los sentir o calor
Ronald Reagan

domingo, 21 de junho de 2009

Democracia e competência

PÚBLICO, 21.06.2009, António Barreto Retrato da Semana
É longa a lista de investimentos públicos com política a mais e estudo a menos, com muita demagogia e pouca ciência

O"manifesto" dos economistas, propondo um período de reflexão sobre os grandes projectos de obras públicas, foi bem aceite. O que sugerem é razoável. Nada acrescentou ao que muitos, incluindo eles próprios, vêm dizendo há meses. Mas, desta vez, o facto assume nova dimensão. Na verdade, fizeram-no em conjunto, em papel escrito e assinado, com um suplemento de responsabilidade. São treze antigos ministros do PS e do PSD: oito das Finanças, dois da Economia, dois da Indústria e um da Agricultura. Quase todos professores universitários. Sem demagogia, fazem o diagnóstico severo da economia e das finanças. Pedem seriedade e rigor. Alertam para a hipoteca que, graças ao endividamento, pesa sobre as gerações futuras. Propõem uma avaliação dos grandes investimentos. Sobre os fundamentos desta tomada de posição, pouco há a dizer. O governo deveria ouvi-los, ler o "manifesto" com atenção e seguir o que eles dizem. Sem orgulho, nem machismo. Sem teimosia, nem cruzada do tipo "Incineradora". Consta, aliás, que é a operação em curso neste fim-de-semana: suspender o TGV e outras grandes adjudicações. É, evidentemente, o resultado das eleições europeias e a proximidade das legislativas. Mas também é um alívio. Sem dinheiro, inseguro quanto às decisões e temendo a ratoeira da sua propaganda, o governo queria pretextos para suspender. Entre o esforço de parecer um falso devoto de doçura e diálogo e a leitura atenta deste "manifesto", o governo encontrou a saída.

Omais interessante é o acto em si próprio. Tem todo o aspecto de ser um gesto de "profissionais sérios". De "gente competente". De professores honestos e isentos, preocupados com o interesse público. Parece e é. Mas faz logo pensar num velho fantasma: o do governo das competências. Por que razão não são estes homens responsáveis por decisões de grande envergadura? Por que não estão todos, ou quase todos, no governo ou no Parlamento? Por que motivo os ministros e os deputados não os ouvem? Será que os competentes se querem substituir ao governo e aos políticos?
A ideia do "governo dos competentes" é velha. Vem do século XIX. Andou pela Europa e passou por França e Portugal. Entrou, viva, nas primeiras décadas do século XX. De vez em quando emerge. É sempre uma ideia antidemocrática. Pressupõe que a democracia, interessada nos votos e especializada em demagogia, não é capaz de chamar a si as competências técnicas. Traduz a sensação de que os políticos, preocupados exclusivamente com o curto prazo, tomam decisões no seu interesse e no dos seus partidos, não a pensar no país, nem no longo prazo. Finalmente, implica a crença em que a decisão política é vulnerável à corrupção ou a interesses menos lícitos.
Há aqui verdade. Mas também falsidade. Muitos políticos são ou foram técnicos. Muitas decisões técnicas podem estar erradas. Os técnicos não são invulneráveis à corrupção ou aos interesses particulares. Mais importante é o problema da responsabilidade. A dos técnicos será eventualmente perante os seus pares, nunca é perante a população. No entanto, é verdade que os motivos pelos quais os políticos decidem não têm sempre como fundamento as razões técnicas. Mesmo o ditador do Estado Novo percebeu que a decisão puramente política tinha as suas insuficiências. O antigo Conselho Superior de Obras Públicas foi uma resposta a essa preocupação.

Ora, o regime democrático procedeu, gradualmente, a um esvaziamento técnico e científico dos seus processos de decisão. Os pareceres científicos e desinteressados, as avaliações técnicas e o conselho fundamentado foram paulatinamente afastados. As opiniões que interessam são as que apoiam a decisão política previamente tomada. Chamam-se grandes consultoras internacionais e agências de todo o tipo a quem se pede que fundamentem uma decisão, não que estudem várias e sugiram a melhor. Requisitam-se os serviços de escritórios de advogados e de empresas de consultoria a quem se encomendam e pagam substancialmente estudos que confirmem o que os políticos querem. Agências, escritórios e consultores têm o seu interesse primordial que é o de fazer negócios e serem escolhidos pelos governos para essas tarefas justificativas. Pior ainda: a lei que regula a selecção e a nomeação dos altos funcionários da Administração Pública, aprovada por quase todos os partidos, é o mais legal e eficaz instrumento de subalternização da competência e de consagração de fidelidade partidária como factor de decisão. Legalmente, os mandatos dos directores-gerais e outros funcionários superiores terminam com as eleições e com o fim da legislatura. Um novo governo tem total poder para demitir e nomear quem quiser, da "sua confiança política", diz a lei. Enquanto este sistema durar, a competência técnica é um argumento menor.

Os autores deste oportuno "manifesto" não defendem o "governo das competências". Eventualmente, dizem que a competência técnica deve ser associada à decisão democrática. A responsabilidade pelas decisões, por mais sérias e graves que sejam, pertence aos políticos que devem prestar contas perante a população. Mas isso não se faz sem que haja informação suficiente para toda a gente interessada. O que não é o caso em Portugal. E isso também não deve dispensar o recurso à inteligência, ao estudo técnico e científico, à competência profissional e ao juízo isento. O que é raro em Portugal. De Alqueva a Sines, do aeroporto ao TGV, de algumas barragens à ferrovia, das auto-estradas aos estaleiros navais, das SCUT às redes de fibra óptica e dos bairros sociais aos metropolitanos: é longa a lista de investimentos públicos mal concebidos, mal estudados, com política a mais e estudo independente a menos, com muita demagogia e pouca ciência. A legislação é medíocre. Quase todos os diplomas legais têm de ser corrigidos nos dias ou semanas que sucedem à publicação. Há códigos de direito, que deveriam durar alguns anos, mas que são corrigidos dias depois da aprovação. As leis da Assembleia e os decretos-leis do governo têm estudos a menos, contas malfeitas, justificações dogmáticas e a investigação sobre as consequências a prazo é praticamente inexistente. Em suma, tanto o processo de feitura das leis como o método de tomada de decisões traduzem esta inegável realidade: no nosso país, a democracia é incompatível com a competência técnica e a ciência.
É realmente difícil viver em democracia em Portugal. É por isso que a aspiração democrática é tentadora. É difícil que a democracia, em Portugal, conviva com a seriedade. É por essa razão que a democracia é aliciante.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Um ano, uma referência


Aura Miguel
RR on-line
19-06-2009 15:46


Começa hoje o Ano Sacerdotal e Bento XVI propõe, como referência aos padres de todo o mundo, o exemplo e ensinamentos do Santo Cura d’Ars, João Maria Vianney.

Este pároco francês morreu há 150 anos. Falava do sacerdócio com imenso fascínio e dizia mesmo que se o padre realizasse a importância da sua vocação, “morreria, não de susto, mas de amor, porque Deus lhe obedece, porque o padre pronuncia duas palavras e à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia”.

Aos seus paroquianos o Cura d’Ars explicava: “Que aproveitaria termos uma casa cheia de ouro, se não houvesse ninguém para nos abrir a porta? O Padre possui a chave dos tesouros celestes e ele que abre a porta”!

E, sobre a confissão dizia: “O bom Deus sabe tudo. Ainda antes de vos confessardes, já sabe que volteis a pecar e todavia perdoa-vos. O seu amor é tão grande que vão ao ponto de esquecer voluntariamente o futuro só para poder perdoar-vos agora!”

Por tudo isto, o Santo Cura d’Ars passava longas horas a confessar. Até lhe chamavam “o grande hospital de almas”!

Que muitos e santos sacerdotes o imitem!

A velha a mota e nós

Padre Nuno Serras Pereira

In: Logos, 20090617

1. a) Um dia, nos idos da minha juventude, caminhando eu pela Avenida de Roma, da praça de Londres para o Lg. Frei Heitor Pinto, um pouco antes de chegar ao cruzamento com a linha férrea, perto do Maria Matos, deparei com um aglomerado de gente no meio da via - naquele tempo, tirante as horas de ponta, o trânsito era escasso -, rodeando espavorida uma velhinha estendida no alcatrão, empapada no próprio sangue que lhe corria abundante de uma perna praticamente decepada. A pouca distância uma Gilera 50 empenada, modelo recentíssimo em Portugal, gotejando gasolina. De pé, com o capacete na mão, pálido como a cal mais branca, um jovem que logo percebi ser o condutor do motociclo. Uma vez que já se tinha chamado o 115 (hoje 112) e a mulher estraçalhada estava sendo assistida pelos populares, procurei confortar o moço dirigindo-lhe uma pergunta com o intuito de lhe possibilitar uma oportunidade de desabafar. A sua resposta pronta, gélida, dura, implacável, foi: O estupor da velha estragou-me a mota toda!

b) A velha tinha sido nova, linda de morrer, a pele lisa, os olhos vivos, o corpo estatuário. Andou na barriga da mãe, amamentou-se aos seus peitos, brincou no colo dos pais, aprendeu entre tombos a andar, adolescente e jovem teve os seus sonhos, os seus devaneios, apaixonou-se, namorou, casou-se. Com paciência aturou as manias do marido, com grande sacrifício criou os filhos que lhe deram grandes desgostos. Enviuvou cedo, trajou o luto, cismou com saudade. Viu nascer os netos, tomou conta deles, enxugou-lhes as lágrimas, mudou-lhes e lavou-lhes as fraldas (naquele tempo era assim), deu-lhes de comer, aturou-lhes as birras, curou-lhes a feridas, passou noites em claro a cuidá-los nas doenças. Quando deixaram de precisar dela atiraram-na para um lar escabroso. As visitas eram raras, os carinhos nenhuns. O único consolo que possuía era assistir à missa diariamente e conversar com o Senhor no Sacrário confiando-Lhe a alma do seu marido e as vidas dos seus familiares. Era de lá, da Igreja paroquial, que vinha quando ao atravessar a rua lhe caiu em cima aquela calamidade, veloz como uma turba de diabos que se precipita para perder o mundo. A sua muita idade ofuscara-lhe a vista, entupira-lhe os ouvidos, estorvara-lhe a percepção das distâncias e o difícil cálculo das velocidades.

c) Ele era de boas famílias. Tinha andado no melhor colégio do país e agora cursava engenharia no Técnico. A mota tinha sido caríssima, novinha em folha fora estragada pelo raio da velha. O veículo valia muito, a velha nada. Ele identificava-se com o que tinha. Ouvia o pai dizer, quando alguém chocava com o seu Ferrari, bateram-me. Cada visita lá de casa ao ver o que possuíam, logo os considerava mais. Daí que tenha concluído que ser é ter. Tenho muito, sou muito. Não tenho nada, nada sou.

2. No Novo Testamento os Apóstolos e Evangelistas reservam a palavra “caríssimo” somente para as pessoas, que Jesus Cristo veio resgatar. Esta palavra encontra-se em S. Lucas, S. Paulo, S. Pedro e S. João: no singular 7 vezes e no plural 20. A razão de tal uso é dada por S. Paulo e por S. Pedro: “Fostes comprados por um alto preço! Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo.” (1 Cor 6, 20); “Fostes comprados por um alto preço; não vos torneis escravos dos homens.” (1 Cor 7, 23); “ … fostes resgatados da vossa vã maneira de viver herdada dos vossos pais, não a preço de bens corruptíveis, prata ou ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo … “. (1 Pe 1, 18-19).

O Pai criou-nos por Cristo no Espírito Santo, fazendo-nos à imagem e semelhança do Seu Filho unigénito. Como tivéssemos desbaratado a nossa dignidade o Deus Filho fez-Se um de nós para a restaurar e sublimar, redimindo-nos pela Sua morte e Ressurreição. Uma gota de sangue do Deus humanado vale, evidentemente, mais do que todo o universo. Por isso todas as riquezas por mais abundantes e preciosas que sejam não passam de lixo imundo em comparação com aqueles por quem Jesus Cristo derramou o Seu Sangue. Quem beber desse Sangue torna-se irmão de sangue do Senhor: “Quem realmente … bebe o Meu sangue fica a morar em Mim e Eu nele.” (Jo 6, 56).

Valiosíssimas, caríssimas são as pessoas. Só elas, humanamente falando, não têm preço. Tudo o mais se compra ou vende, se negoceia. As coisas usam-se, as pessoas amam-se, em todas as etapas da sua existência, desde o momento da concepção até à morte natural. O valor das coisas é relativo ao bem absoluto, transcendente, da dignidade da pessoa humana. Isto é, tanto quanto servem, protegem e promovem a pessoa tanto valem e nada mais. À honra de Cristo. Ámen.