sábado, 31 de Janeiro de 2009

Uma imagem de John Gebhardt no Iraque


Esta é uma dura história de guerra , porém toca-nos o coração...
A esposa de John Gebhaardt, Mindy, diz que toda a familia desta criança foi executada.
Os executantes pretendiam também executá-la e ainda a atingiram na cabeça...mas não conseguiram matá-la.
Ela foi tratada no Hospital de John, está a recuperar, mas ainda chora e geme muito.
As enfermeiras dizem que John é o único que consegue acalmá-la.
Assim, John passou as últimas 4 noites segurando-a ao colo na cadeira, enquanto os 2 dormiam.
A menina tem vindo a recuperar gradualmente.
Eles tornaram-se verdadeiras "estrelas" da guerra.
John representa o que o mundo ocidental gostaria de fazer.
Isto, meus amigos, vale a pena partilhar com o Mundo inteiro.Vamos a isso !
Vocês nunca vêem notícias destas na TV ou nos Media em geral.
Todos precisamos de ver que (também) existem estas realidades em que pessoas como John marcam a diferença, mesmo que seja só com uma pequena menina como esta.
Não podemos orientar o vento, mas podemos ajustar a nossa vela...

Os "poderes ocultos"

Público, 31.01.2009, Vasco Pulido Valente

Assisti anteontem na televisão ao que foi até agora o espectáculo mais triste da democracia portuguesa.
Falo da sessão em que o sr. primeiro-ministro declarou que estava a ser vítima de uma "campanha negra" conduzida por "poderes ocultos".
Seria penoso explicar quem (e porquê) historicamente usou esta linguagem.
Basta aqui dizer que, do século XV ao fim da II Guerra Mundial, ela esteve sempre associada ao fanatismo, ao terror e ao arbítrio.
Não acredito que Sócrates tenha tido consciência disso. Mas certas palavras não se dizem sem um certo espírito. E esse espírito inquieta. Não se diaboliza o adversário (e um dos nomes do Diabo era o Oculto) por acaso ou por lapso.
O exercício pressupõe uma profunda convicção da virtude própria e da maldade alheia; e um ódio ao "Inimigo" (outro nome do Diabo) sem regras, nem limites. Quando Sócrates denuncia os "poderes ocultos", a denúncia é por definição universal. Porque afinal quem são ou o que são os "poderes ocultos"? São tudo e não são nada, é toda a gente e não é ninguém.
Qualquer instituição, qualquer pessoa, qualquer categoria de pessoas fica forçosamente sob suspeita. Como garantir que por detrás da inocência não se esconde a culpa? Ou por detrás da honestidade a fraude? Conhecerá ele mesmo os "poderes ocultos", que não revela para nos deixar o redentor encargo de os descobrir? Devemos nós condenar a imprensa e a televisão? O capitalismo? O PSD? O PCP? A extrema-esquerda? Ou a polícia, a Procuradoria e a Inglaterra? Ou simplesmente devemos condenar (e perseguir?) quem prejudica ou ensombra o nosso chefe?
Sócrates jura que os "poderes ocultos" não o "vencerão".
A escolha do verbo é também desta vez significativa. Quem o ouvisse não perceberia de certeza que se trata de uma investigação judicial ou que se vive num regime em que o judicial cumpre e faz cumprir a lei. Sócrates não vê o caso como apuramento da verdade (inevitavelmente relativa). Mas como uma espécie de duelo entre o Bem e o Mal (um "teste de resistência"), entre ele e os "poderes ocultos".
Num duelo, ou se ganha ou se perde e ele, um "homem determinado", vai ganhar. Outro primeiro-ministro esperaria pelas conclusões do inquérito e negaria tranquilamente as calúnias. Quando muito, ameaçava processar os caluniadores. Sócrates prefere o melodrama e a intimidação: quem daqui em diante duvidar dele é um instrumento, "negro" e miserável, dos "poderes ocultos".

O casal perfeito

José António Saraiva
31 January 09 12:00 AM

Fonte: http://sol.sapo.pt/blogs/jas/archive/2009/01/31/O-casal-perfeito.aspx


No ano passado fiz 35 anos de casado, o que significa que quase dois terços da minha vida se passaram nesta situação. E isso confere-me naturalmente uma autoridade acrescida para falar do assunto e dar alguns conselhos aos jovens cônjuges ou àqueles que estão para casar.

Há muitos mitos e ratoeiras à volta deste assunto. Algumas das maiores confusões foram lançadas pelas feministas dos anos 60 e 70. Criticando a mulher fada do lar, considerando o trabalho doméstico uma escravatura, aconselhando as mulheres a serem completamente independentes dos maridos, incentivando-as a terem uma carreira profissional, as feministas abriram uma caixa de Pandora e introduziram nos casais os germens da discórdia.

As mulheres passaram a rebelar-se contra os maridos, recusando-se a executar certas tarefas que no passado faziam naturalmente.

  • Fazer a comida? Porquê eu? Faz tu!
  • Mudar a fralda ao bebé? Por que razão hei-de ser sempre eu? Muda hoje tu!
  • Fazer a cama? Mas tu não te deitas também nela? Desta vez faz tu!
  • Aspirar a casa? Mas não a sujas tanto como eu ou até mais? E além disso tens mais força! Aspira tu!


NÃO digo que as feministas não tivessem razão em algumas das suas lutas a favor da libertação da mulher e contra o comportamento machista de muitos homens. Isso não está em causa. A questão é que, objectivamente, incentivaram as mulheres a revoltar-se, fazendo com que as relações nos casais nunca mais fossem as mesmas.

A minha avó paterna, por exemplo, fez durante toda a vida as tarefas domésticas sem uma queixa, convencida de que era essa a sua contribuição para o bem-estar da família. Mas no tempo dos meus pais as coisas já não se passaram bem assim. E na minha geração – que recebeu em cheio o impacto dos loucos anos 60 – tudo já foi diferente.

Entretanto, se muitas das reivindicações feministas tinham razão de ser, o feminismo padeceu de um enorme equívoco que esteve na origem de inúmeros conflitos. O equívoco foi este: considerar que os homens e as mulheres são iguais – tendo as mesmas qualidades e os mesmos defeitos, as mesmas capacidades e as mesmas limitações, devendo por isso desempenhar em casa exactamente as mesmas tarefas.

Aqui é que começou o problema. Porque os homens e as mulheres são estruturalmente diferentes. Têm sensibilidades diferentes, gostos diferentes, vocações diferentes, aptidões diferentes. Para um casal se dar bem, precisa de perceber isso. De perceber que, sendo os dois diferentes, não devem procurar fazer o mesmo – mas, exactamente ao contrário, têm de repartir as tarefas.

Tal como numa empresa o segredo é dividir as funções e distribuí-las de acordo com as competências de cada um, no casal a regra é a mesma.

Em minha casa, por exemplo, quem habitualmente cozinha é a minha mulher (e digo 'habitualmente' porque às vezes é a empregada e outras vezes comemos fora); mas, em compensação, sou eu que levo sempre o cão à rua à noite, faça frio ou faça chuva. É a minha mulher quem aspira a casa (quando não é a empregada); mas sou sempre eu que conserto uma torneira que se estraga, penduro os quadros, zelo pela instalação eléctrica ou carrego as bilhas de gás na casa de Estremoz. É a minha mulher quem controla as contas bancárias, mas sou eu que transporto os sacos das compras quando vamos ao supermercado.

Uma BOA repartição de funções é um dos segredos para o bom funcionamento do casal. Porque se criam rotinas. E isso reduz o esforço e evita muitas discussões. Imagine-se o que seria discutirmos todos os dias quem faria o jantar. «Olha, hoje faz tu». «Não, hoje não me apetece». «Faz tu hoje, que eu faço amanhã». «Isso é o que hoje dizes para te safares, mas amanhã arranjas outra desculpa». Era um inferno. E um sacrifício a dobrar. Porque quem saísse vencido da disputa iria fazer o jantar duplamente irritado: por ter de o fazer e por ter perdido a batalha doméstica…

Outra questão importante é a da liderança. Numa empresa bem organizada a hierarquia deve estar bem definida. Em cada área o poder de decisão deve ser atribuído com clareza. Ora, salvaguardadas as devidas diferenças, nos casais passa-se o mesmo. Não quer dizer que um mande sempre e o outro obedeça sempre. O importante é que cada um dos membros do casal tenha a sua área de influência, uma área na qual sinta que tem a última palavra, em que possa projectar o seu poder.

É evidente que, nas grandes decisões, deve haver consenso entre os membros do casal. Mas é utópico pensar que pode haver sempre consenso em tudo. Acreditar nisso é outra fonte potencial de conflitos.

Devem existir áreas de influência – de acordo com as inclinações, os talentos e os gostos de cada um.

Numa entrevista televisiva a propósito do seu livro de memórias Viver para Contá-la (título em que me inspirei para dar nome a esta secção) o Prémio Nobel da Literatura Gabriel García Márquez dizia que, ao contrário do que vulgarmente se advoga, os casais não devem aprofundar a discussão de certos assuntos. A maior parte das pessoas defende que os casais devem discutir tudo, escalpelizar as dúvidas e as questões mais delicadas até ao fim. Ora ele defendia exactamente o contrário: os casais não devem prolongar as discussões nem esmiuçar os pontos de atrito. Em certos assuntos delicados o melhor é pôr um ponto final na conversa. Não pretender aprofundar. Prolongar o diálogo só vai agravar as coisas, prejudicar a relação. Em vez de aproximar o casal, acentua a divisão.

Ele sabe do que fala. Pode não ter uma experiência de casamento tão longa como a minha, mas tem certamente mais experiência do que eu nas relações com as mulheres – porque sempre foi um bon vivant, um sedutor, um conquistador, com o calor próprio dos sul-americanos.
Para um casal funcionar bem quando o deslumbramento da paixão deixa de esconder as diferenças e vêm ao de cima as inclinações diversas do homem e da mulher, aqui fica uma série de conselhos úteis:

  • Repartir as tarefas domésticas de acordo com as inclinações de cada um. Não pretender que sejam os dois a fazer tudo: a indefinição é uma fonte constante de irritação e atritos;
  • Criar rotinas dentro de casa;
  • Definir com justiça as áreas de liderança, para que cada um dos membros do casal sinta que tem o seu espaço de poder;
  • Não esmiuçar assuntos potencialmente conflituais, deixando o tempo curá-los.

Claro que mesmo com estas cautelas a vida de casado não é sempre um mar de rosas. Mas devemos potenciar aquilo que é capaz de unir, desvalorizando o que pode desunir. E depois é necessária tolerância. Antes de julgarmos os actos da nossa mulher (ou do nosso marido) devemos procurar percebê-los, colocarmo-nos no lugar dela (ou dele) e tentarmos perceber o que a levou (ou o levou) a fazer isto ou aquilo.

Finalmente, é preciso ter presente que nada na vida tem só vantagens. A moeda tem duas faces. O casamento não foge à regra: tem vantagens e desvantagens. Se valorizarmos estas em demasia, rapidamente concluímos que não vale a pena. Para manter o casamento é preciso abdicar do acessório para salvar o essencial. Na convicção de que fora da família não é muito fácil encontrar a felicidade.

Assembleia Municipal de Lisboa


Expresso, 20090131

João Pereira Coutinho

Ninguém nega que o estado de conservação patrimonial de Lisboa já conheceu melhores dias. Em certas ruas, para não falar de bairros inteiros, Lisboa lembra Gaza, sobretudo depois da passagem do exército israelita pela Faixa. Mas talvez seja excessivo procurar geminar a capital portuguesa com a cidade palestiniana, ao contrário do que pensa a Assembleia Municipal de Lisboa. Segundo sei, a dita Assembleia resolveu aprovar uma proposta lunática do Bloco de Esquerda para o efeito. Para além do Bloco, o PC-PEV também votou a favor. E o PS, o PSD e o CDS-PP, provavelmente para não estragarem a festa, ficaram-se pela abstenção.

Longe de mim vergastar a iniciativa do Bloco e o apoio dos comunistas e dos verdes. Metaforicamente falando, faz parte da natureza das coisas não desejar que uma mula se converta num cavalo. Mas o que mais impressiona nesta edificante história é a abstenção de três partidos políticos alegadamente "responsáveis". O PS, o PSD e o CDS-PP, pelos vistos, não consideraram bizarro, ou até ofensivo, que a capital portuguesa seja equiparada a uma cidade onde reina um grupo terrorista, financiado e treinado pela teocracia iraniana, e que serve de rampa de lançamento de rockets para que a quadrilha possa matar indiscriminadamente o maior número possível de civis israelitas.

Em condições normais, eu diria que os lisboetas mereciam melhor. Mas, atendendo à composição da Assembleia que os próprios elegeram, o mais certo é eles terem o que merecem.

Frase do dia

Dai-me almas, Senhor, com tudo o mais podereis ficar

S. João Bosco

31 de Janeiro - S. João Bosco

don Bosco (1815-1888)
__________________
"São João Bosco é uma das figuras mais eminentes, entre os santos dos nossos dias. O bem que fez à família de Cristo na terra e com isto às almas, é extraordinário. A nota caracterítica em sua vida e em sua obra, é o zelo pelas almas. Outro interesse não conhecia, a não ser este: Ganhar almas para o céu. Este zelo o fazia exclamar:

"Dai-me almas, Senhor, com tudo o mais podereis ficar"
Bento XVI no seu último encontro com a comunidade salesiana

sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Presidente critica nova lei do divórcio

Ecclesia, 30Jan2009
Cavaco Silva inaugura Congresso da CNIS e deixa alertas para novas formas de pobreza em Fátima

O Presidente da República abriu esta Sexta-feira os trabalhos do IV Congresso da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), em Fátima, deixando alertas para a falta de recursos destas instituições e duras críticas à nova lei do divórcio.
“Dos contactos que tenho mantido com dirigentes de instituições de solidariedade, recolho a informação de que a maioria dos casos de 'novos pobres' está associada a situações de divórcio”, revelou, na sua intervenção.
Cavaco Silva diz que, segundo os mesmos dirigentes, “esses casos tenderão a aumentar com a nova lei do divórcio aprovada pela Assembleia da República”. “Das previsíveis consequências sociais e das profundas injustiças da sua aplicação, alertei os Portugueses em devido tempo”, assinalou.
Segundo Cavaco Silva, “a nova lei do divórcio é bem o exemplo dessa incompreensão, como foi já sublinhado por inúmeros magistrados, juristas da área do direito da família e pela Associação Portuguesa de Mulheres Juristas”.
“Há bem poucos dias, na sessão de abertura do ano judicial, afirmei que em Portugal se produz muitas vezes legislação que parte de uma realidade que não é nossa, não tendo em conta o País que somos”, acrescentou.
Este responsável frisou que "não é um sinal de modernidade a dissolução progressiva dos laços familiares", manifestabdo a certeza de que "neste domínio nem sempre temos caminhado na direcção adequada".“Tradicionalmente eram os laços familiares que contribuíam para amortecer alguns destes efeitos das crises económicas. Porém, face às dificuldades que a instituição familiar vem atravessando, esses laços ou já não existem ou revelam-se tão frágeis que dificilmente exercem essa função”, alertou.Sobre a realidade dos “novos pobres”, o Presidente da República sublinhou que esta “já não se alimenta de ilusões” e que “a sua dimensão e intensidade são razões suficientes para que encaremos com verdade e firmeza os tempos difíceis que vivemos, mas também com esperança e ambição os tempos futuros que desejamos construir”.“A sociedade portuguesa apresenta vulnerabilidades sociais que não podem ser ignoradas ou desvalorizadas”, atirou.Neste contexto, o Presidente da República diz que é “importante fazer chegar ao maior número de cidadãos em situação de carência os escassos recursos geridos pelas instituições públicas e privadas de solidariedade”, afirmou, frisando que “mais importante é que o façamos no respeito pela dignidade de cada pessoa, cada família, cada caso a que pretendemos acudir”.
Cavaco Silva quis “saudar todos os representantes das instituições de solidariedade aqui presentes e expressar o meu reconhecimento pelo trabalho que têm vindo a desenvolver no sentido de contribuir para que a sociedade portuguesa seja mais coesa, mais solidária, mais justa e mais desenvolvida”.
Uma palavra especial foi ainda deixada às crianças: "Nas creches, nos jardins-de-infância, nas escolas e nos ateliers de tempos livres, temos de reforçar a nossa atenção e o nosso empenho para que essas crianças possam manter as condições mínimas de bem-estar".
"É necessário garantir que nenhuma criança ou jovem possa ver as suas expectativas escolares ou o seu bem-estar material e emocional afectados por uma alteração das suas condições de vida familiar", indicou.Cavaco Silva destacou que, com esta nova realidade social, "é urgente mobilizar a força solidária dos portugueses" e, neste sentido, as organizações e instituições de solidariedade são "catalizadores" de iniciativas solidárias.
O Presidente da República terminou o seu discurso com um apelo "por um Portugal mais justo e solidário".O Congresso da CNIS conclui-se este Sábado, com a tomada de posse dos novos órgãos sociais, eleitos nesse mesmo dia, e com a cerimónia de encerramento onde o Governo se fará representar pelos titulares das pastas da Educação e do Trabalho e Solidariedade Social.

Um imenso Freeport

Público, 20090129

Helena Matos

É preocupante que a legislação ambiental seja usada para protecção de determinados grupos económicos

"Aquelas casas! Que horror!" Assim comentava, nos bastidores de um debate, alguém da área do PS a traça das casas cujos projectos José Sócrates garante ter assinado, embora os respectivos proprietários digam não ser ele o autor dos projectos. O tom desta frase estava algures num lugar indefinível entre o sarcasmo e a complacência. O sarcasmo nascia naturalmente da convicção enraizada no meu interlocutor de que os processos de licenciamento deveriam funcionar como uma espécie de comissão de bom gosto que tornasse pelo menos esteticamente inócuas as casinhas do povo. Afinal não há nada que irrite tanto as elites de cada época quanto a arquitectura popular sua contemporânea. Já a complacência resultava não tanto da atitude do meu interlocutor perante os actos e as opções de José Sócrates, mas sobretudo perante si mesmo.
O meu interlocutor era e é o que se pode designar como um socialista histórico. Fazia parte daquele grupo que se fizera adulto nas crises académicas dos anos 60 e 70, reforçara, depois de 74, os seus pergaminhos democráticos combatendo as tentações totalitárias dos comunistas e, durante o cavaquismo, integrara a corte de Soares em Belém. Foram mais de 20 anos a ver-se, ele e todo o seu grupo, como infinitamente cultos e superiores nas mesas espelhadas dos gabinetes. E são eles que agora têm pela frente, como seu líder, um homem que noutro contexto teriam literalmente arrasado. Por elitismo intelectual. Mas não só.
O que em Portugal distingue os socialistas das outras famílias políticas não são os seus actos. É sim a complacência perante alguns desses actos. Complacência que por razões históricas era maior no PS que nos outros partidos - no pós 25 de Abril, o PS emerge como partido e líder inevitável num país a precisar de esquecer o passado. Mas histórias recentes elevaram essa complacência para níveis preocupantes. Essas histórias têm nome. Chamam-se Casa Pia e José Sócrates. O PS terá um dia de fazer o balanço destes dois episódios distintos da sua vida, episódios em que aquele partido reagiu de igual modo perante acusações de natureza absolutamente diversa aos seus dirigentes: nos dois casos, importantes dirigentes socialistas alegaram que foram vítimas de cabalas.
Que o maior partido português, o PS, defenda que em Portugal - o mesmo país que o PS tem governado várias vezes - investigadores policiais devidamente articulados com a comunicação social e instituições da República conspiram contra os seus líderes é um caso que nos devia fazer reflectir. Porque sendo isso verdade é gravíssimo. E não o sendo também é. Porque um partido democrático, com responsabilidades de governo, não pode levantar levianamente suspeitas que descredibilizam as instituições. Esta atitude dúbia do PS, que num dia se diz vítima de cabalas e no outro quer encerrar rapidamente o assunto, conduziu os portugueses, socialistas ou não, a um pântano, no sentido guterriano do termo, mas com a assinalável diferença em relação ao autor do termo que aos restantes portugueses ninguém os convida ou coloca em cargos internacionais. Logo só podemos ficar aqui encalhados e a considerar normal hoje aquilo que na véspera designávamos como crime. E sabendo antecipadamente que amanhã flexibilizaremos ainda um pouco mais a nossa escala de valores.
Mas se do processo da Casa Pia, até pela natureza dos factos, nos resta sobretudo esperar que o tempo, ainda mais do que a justiça, traga a distância que torna mais nítidas as motivações humanas, sobretudo as menos confessáveis, já quanto às suspeitas que envolvem José Sócrates é possível e desejável que se discutam algumas coisas. Até porque José Sócrates tem razão num ponto: no caso Freeport tal como nas casinhas da Guarda estamos provavelmente perante situações legais, ou, mais propriamente, situações cuja ilegalidade não se consegue provar. E se tudo isto poderia ter acontecido com outro primeiro-ministro socialista ou não (sendo certo que se não fosse socialista a onda de indignação teria neste momento proporções bíblicas), a verdade é que casos como o Freeport tenderão a banalizar-se, porque a concepção de José Sócrates do seu Governo como uma equipa negocial de luxo a isso nos levará, sem apelo nem agravo, sobretudo quando os negócios falharem.
José Sócrates entende o aparelho de Estado como uma imensa empresa. A empresa-Estado escolhe, como no caso do Magalhães, os seus parceiros de negócios e cria legislação especial para que esses parceiros não sejam tolhidos nos seus projectos pelos mesmos entraves que se colocam ao cidadão comum. Como bem frisou Pedro Almeida Vieira no blogue estragodanacao.blogspot, hoje o processo de licenciamento do Freeport já nem se colocaria nos mesmos moldes, porque seria projecto PIN, ou seja, teria uma espécie de via verde no labirinto da burocracia e da legislação onde se desgastam todos os outros.
O que os promotores do Freeport conseguiram foi logo à partida aquilo que cada um de nós teria o direito de esperar em igual circunstância: que a decisão fosse rápida. A mim não me choca a celeridade do processo. O que me choca é a lentidão com que são tratados os outros. Muito provavelmente o Freeport nem representa uma degradação ambiental em relação à situação anterior. O que é preocupante é vermos a legislação ambiental transformada num regresso ao condicionamento industrial do salazarismo com a consequente protecção de determinados grupos económicos. Muitos dos terrenos ambientalmente protegidos funcionam como um território em pousio donde o poder político faz desafectações quando entende e a favor de quem entende, baseando-se em critérios que valem tanto quanto o seu contrário.
Em todas as possibilidades de escolha, da banca às escolas, da administração interna aos bolos que comemos na praia, o Governo de Sócrates tirou sempre poder aos cidadãos e reforçou a intervenção do Estado. E esse Estado que não cumpre as suas funções inalienáveis como desgraçadamente se vê na justiça ou na incapacidade de fiscalização do Banco de Portugal, reforça-se pela mão de José Sócrates como a grande empresa nacional. José Sócrates não vê problema algum no caso Freeport. Nem pode ver. O poder para ele é isso: gerir uma equipa negocial de luxo. (helenafmatos@hotmail.com)


Geminação. Desde que Lisboa manifestou o propósito de se geminar com Gaza que descobri o fabuloso mundo da geminação. Neste domínio as nossas autarquias parecem afectadas por uma síndroma de gravidez múltipla: tudo se gemina com tudo. Quiçá como resultado de tanta cidade gémea, a verdade é que não se percebe o que de substantivo resulta de tanta geminação. Algumas cidades invocam a participação em provas desportivas comuns, festivais de poesia e o reforço de laços com emigrantes portugueses. Enfim, nada que não pudesse existir sem a referida geminação. Donde (e à parte o custear das viagens do costume) não me parecer termos algo a recear com esta geminação entre Lisboa e Gaza. Espero até que José Sá Fernandes integre a comitiva que irá a Gaza por causa da geminação e se informe sobre os túneis que ligam Gaza ao Egipto e de caminho esclareça os portugueses sobre as razões que levam a que o Egipto não deixe passar pelas fronteiras terrestres tudo aquilo que os nossos gémeos de Gaza fazem circular nesses túneis. O que já desisti é de esperar que os partidos democráticos deixem de andar a reboque do BE e do PCP nesta matéria.


O estudo estrangeiro que diz bem do nosso Governo. É um clássico. A Pátria tem esta fraqueza: tudo que de bom ou mau de nós se diga para lá de Olivença tem uma enorme repercussão nas nossas lusas meninges. Quem nos governa sabe disso, daí que governos sucessivos, ao longo do século XX, tenham pago a jornalistas e a uns denominados intelectuais para escreverem sobre o caso português. Agora chegou a vez dos técnicos de organizações internacionais se prestarem a esta função.
Como tenho levado boa parte dos últimos anos a investigar a propaganda encomendada por vários governos de Portugal posso dizer que já se fez melhor e, apesar de tudo, às vezes menos obviamente servil. O que se mantém inalterável é a disponibilidade da imprensa portuguesa para publicar todas essas declarações como reputadas opiniões de observadores independentes. E estrangeiros, pormenor não de somenos em matéria de propaganda.

Novos caminhos para chegar a Deus

RR on-line, 20090204
Aura Miguel

Bento XVI elogiou o potencial extraordinário das novas tecnologias. E inaugurou – com a sua presença no YouTube - um novo modo de comunicar.
No outro dia entrei numa Igreja, alguns minutos antes de começar a missa. Olhei e vi lá à frente um amigo meu concentrado a mexer no telemóvel. Pus-me a considerar se ele não podia arranjar melhor sítio para enviar sms… Modernices dentro da Igreja, francamente!Afinal de contas, quem estava enganada era eu! O meu impulso moralista desabou quando, no final da missa, esse meu amigo me mostrou, entusiasmado, a mais recente aplicação do iphone. Tirou do bolso o seu telemóvel de última geração e mostrou-me as páginas do breviário, por onde tinha rezado vésperas, antes de a missa começar!Poucos dias depois, Bento XVI elogiou o potencial extraordinário das novas tecnologias. E inaugurou – com a sua presença no YouTube - um novo modo de comunicar!É mesmo fascinante: se nós quisermos, as novas tecnologias podem ajudar – ainda mais – a entrar em relação com os outros, até mesmo com Deus!
Aura Miguel

Frase do dia

A coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério. É a origem de toda a verdadeira arte e ciência

Albert Einstein

quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Lançamento do livro "É possível viver assim?" vol II

CL7Fev

Assine o Mensageiro do Coração de Jesus

assinaturasMensageiro


CARO AMIGO:
Iniciámos o ano de 2009 tratando o tema do Ecumenismo. Neste número, propomos-lhe, para
além das secções habituais, uma reflexão alargada sobre o martírio cristão, assinalando deste
modo o mês em que celebramos S. João de Brito, mártir português natural de Lisboa, canonizado
em 1947. Procuramos, assim, contribuir para o aprofundamento da cultura e vida espiritual
dos nossos leitores. Colabore connosco neste esforço, ajudando-nos a dar a conhecer a nossa
revista.
O Director do Mensageiro

Padre Dário Pedroso

Secretário da CEP comenta questão dos casamentos homossexuais (Ecclesia 27/Jan)



Qualquer governo ou partido político tem todo o direito e autonomia para propor iniciativas que julgue mais convenientes para solucionar os problemas da sociedade, do país, para promover a justiça e a igualdade.

Parece‑me, contudo, desproporcionado que o partido do governo se fixe neste assunto dos casamentos homossexuais, quando há tantos problemas graves e gritantes na nossa sociedade actual, como seja a crise financeira e económica que está afectando gravemente as famílias e as empresas. Além do mais esta iniciativa, em vez de unir os portugueses para resolver os reais problemas do país, será seguramente um forte factor de divisão, fracturante como se diz. Dá, pois, a impressão de que se trata de uma distracção dos reais e mesmo clamorosos problemas que atingem algumas faixas sociais mais desfavorecidas.

Penso que todos nós esperamos dos partidos em geral e mais ainda do partido do governo, iniciativas que ajudem a resolver o «Inverno demográfico» por que passa a nossa sociedade, com o envelhecimento progressivo da população, dada a baixíssima taxa de natalidade; todos nós esperamos que o governo proteja a estabilidade da família e ajude a que os casais possam ter os filhos que desejam e não se sintam forçados a uma drástica limitação da natalidade por falta de ajudas sociais. Há países em que ter mais que um filho, significa quase ter um novo ordenado…

Digo isto sem nada que se pareça com discriminação em relação aos homossexuais. Todos, pelo facto de serem pessoas, merecem o nosso integral respeito e atenção, independentemente da orientação sexual, da raça, da ideologia ou do credo. A Igreja, seguindo os passos de Jesus, promove o respeito e acolhimento de todos, também dos homossexuais. Mas a justíssima causa de abolir as discriminações não pode justificar tudo. É que a nossa estrutural identidade é um valor a cultivar. A identidade não é uma questão de opção. Eu não sou homem ou mulher por escolha. Eu também sou o meu corpo e com ele devo aprofundar a minha identidade psicológica, afectiva, relacional. Parece‑me ser um grave erro antropológico equiparar uma união homossexual ao casamento e à família. A família é um património fundamental da humanidade que não pode ficar à mercê das disposições de qualquer campanha ocasional, em consonância com modas que pisam as fronteiras de algo que é não é substituível por qualquer outro tipo de relacionamento e união.

Estou‑me a recordar do caso da Inglaterra que encontrou um quadro legal para uma união estável de duas pessoas do mesmo sexo, com certos direitos por exemplo a nível dos impostos e das heranças. Fez tudo isto, mas sem dar o nome e o estatuto de «casamento» e de «família». Espero que o bom senso acabe por prevalecer, no respeito de todos, mas sobretudo da célula fundamental da sociedade que é a família, que não se pode reinventar a nosso gosto.

P. Manuel Morujão, SJ – secretário da Conferência Episcopal Portuguesa
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Documentos Pe. Manuel Morujão 27/01/2009 12:02 2943 Caracteres


Copyright© Agência Ecclesia

Mestrado "A criança e as artes" ESEI Maria Ulrich

Temos o prazer de apresentar o Mestrado a Criança e as Artes desenvolvido pela Escola Superior Maria Ulrich:

(...) A nossa Escola (…) pretendeu sempre acima de tudo formar valores humanos, com um projecto de vida a propor... a transmitir, antes de mais à infância - mas também às suas famílias e a toda a sociedade.(...)"

Maria Ulrich, site: http://www.eseimu.pt/

A Educação pela Arte é uma perspectiva pedagógica fundamental de há muito cultivada e que agora se desenvolve a nível académico neste Mestrado, numa época em que as próprias ciências neuronais descobrem que a organização cerebral do adulto depende do ambiente social e cultural em que a criança se desenvolveu. (Jean Pierre Changeux – Du Vrai, du Beau et du Bien, 2008, Odille Jacob)

A arte é em todas as culturas um instrumento de educação, que nas suas diferentes formas apela ao que de melhor há em nós, inserindo-nos na imensa grandeza da vida e integrando a nossa visão do mundo. Liberta-nos, desinibe-nos, torna-nos capazes de contemplação e de transcendência.

O Mestrado A Criança e as Artes visa também responder à necessidade de consciencialização e exercício dos processos expressivos e ao desenvolvimento da comunicação e da criatividade.

Este Mestrado é dirigido a todos aqueles que pretendam adquirir competências para criar a simbiose entre a arte, as expressões e a educação, tendo em conta o desenvolvimento pessoal e social, bem como a quem só pretenda frequentar alguma ou algumas das disciplinas que mais o possam interessar em termos curriculares ou pessoais, certificando as suas habilitações como pós-graduação ou como disciplina isolada

Para saber mais sobre o Mestrado a Criança e as Artes (despacho de 30/10/2008 pela MCTES) com início previsto para Março 2009, agradecemos a consulta aqui

SOBRE PAULO E A VOZ DE DEUS

Diário de Notícias, 30 de Janeiro de 2008
Maria José Nogueira Pinto

Consta que Paulo não era um homem simpático e não foi propriamente um santo fácil. Eu, com uma cultura religiosa média, o que me vinha à cabeça era, quase só, o episódio da estrada de Damasco, a tremenda e imperativa interpelação de Deus, por ser Paulo quem era e como era, peça essencial à expansão e crescimento da Igreja. Até ao dia em que me pediram um texto sobre as cartas de São Paulo aos Coríntios e, embora ciente da minha incompetência, afoitei- -me e mergulhei na dimensão paulina. Anos depois, António-Pedro de Vasconcelos, com quem viajava para Helsínquia, numa longa conversa sobre o humano e o divino, com a prolixidade inteligente que se lhe reconhece, trouxe São Paulo à colação a propósito do livro de Teixeira de Pascoaes e da apresentação que ele próprio escrevera, na terceira edição de São Paulo. O essencial parecia ser a excepcionalidade do desígnio e a solidão que sempre o acompanha. Naquele "ai de mim se não evangelizar" esgotam-se todas as dimensões do tremendo compromisso de um permanente desvendar da Palavra contra todos os frios raciocínios.Por isso fiquei marcada pelas palavras de São Paulo quando diz que foi enviado por Cristo a pregar "e sem recorrer à sabedoria da linguagem para não esvaziar da sua eficácia a cruz de Cristo", porque a ciência incha mas a caridade edifica. Aliás a enorme premência, senão mesmo angústia, que perpassa nestas cartas centra-se exactamente nisto: como explicar aos homens e mulheres daquela comunidade que todos foram chamados à santidade? Que esse chamamento é radical e se opera na convicção do homem novo, redimido e liberto. Como, se toda a cultura é adversa, se a própria natureza humana é adversa, se as aparentes evidências são adversas? Quantos perceberão o sentido de Deus ter tornado louca a sabedoria deste mundo?Já António-Pedro me remetia para o São Paulo de Pasolini. Este vê-o como o homem que demoliu revolucionariamente, com a simples força da sua mensagem religiosa, um tipo de sociedade fundada sobre a violência de classe, o imperialismo e, sobretudo, a escravatura. De regresso a Pascoaes, fixo esta afirmação extraordinária: "A Poesia é de São Paulo, como a Ciência é de Lucrécio", "No apóstolo, a ideia platónica abrasou-se em amor divino." Mas a Pascoaes interessa sobretudo aquele tempo histórico, do ano 37 a 64 da nossa era, de um cristianismo espontâneo e vivo, antes de sistemas acabados, um tempo de Deus ainda sem teologia.São Paulo é tudo isto e mais do que isto, tudo o que ainda não conseguimos ver nem sentir. Esta universalidade total, de espaço e vocação, o abrir corações e territórios, permitem que cada um se aproprie dele, de uma parte dele, nem sempre a mesma, uma escolha moldada no que se sente, na fé que se tem, utopista ou santo, em qualquer caso património comum.Há dias, num voo para Nova Iorque, folheando um jornal português vi uma notícia de página inteira sobre um movimento inglês que se deu ao trabalho de comprar anúncios em autocarros que dizem "Deus provavelmente não existe. Agora deixe de se preocupar e goze a vida". Tolice, porque se assim se pensa não se percebe a necessidade de o anunciar e se afinal é tão-só uma probabilidade pode que a preocupação se agrave. É curiosa esta senha em calar a voz de Deus numa Europa desnorteada, incapaz de ter pensamento, desígnio ou liderança, transformada num parque jurássico entregue a movimentos infantilizadores e primários. Para perceber a sede que o mundo tem de espiritualidade e transcendência, de situar o sentido da vida e da morte, do bem e do mal, bastou ouvir e ver a América, na investidura do novo Presidente, a rezar a mais universal das orações, o pai-nosso. Ou, nas suas diferentes igrejas, cantar o God bless America, incluindo em St. Patrick, onde assisti à missa. Ou ler o último capítulo de O homem em queda, de Don DeLillo: "Mas não é o mundo em si que nos conduz a Deus? A beleza, o sofrimento, o terror, a aridez do deserto, as cantatas de Bach." E, claro, reler São Paulo.
Maria José Nogueira Pinto
Jurista

Prémio Vasco Vilalva de 2008 atribuído ao Departamento do Património da Diocese de Beja




Fundação Calouste Gulbenkian distingue projecto exemplar na salvaguarda cultural



Prémio Vasco Vilalva de 2008 atribuído ao Departamento do Património da Diocese de Beja

O Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja foi distinguido pela Fundação Calouste Gulbenkian com o Prémio Vasco Vilalva para a Recuperação e Valorização do Património 2008 pelo seu contributo para a defesa da identidade cultural do Alentejo. De acordo com a Fundação Gulbenkian, a atribuição do Prémio teve em conta a “qualidade global do projecto, continuado e coerente, de levantamento, restauro e valorização do Património Cultural Religioso do Baixo Alentejo, que os membros do Júri consideraram revelar uma definição de critérios e uma metodologia de execução exemplares, em si mesmas e na sua capacidade indutora noutras regiões do país”.
Constituindo a mais importante distinção portuguesa no âmbito do património cultural, o Prémio Vasco Vilalva foi instituído pela Fundação Gulbenkian em homenagem a Vasco Eugénio de Almeida, Conde de Vilalva – mecenas a quem a arte e a cultura do país muito devem –, destinando-se a assinalar “intervenções exemplares em bens móveis e imóveis de valor cultural que estimulem a preservação e a recuperação do Património”. É de carácter anual e tem o valor de 50 000 euros.

Esta decisão colheu a unanimidade do Júri, de que fizeram parte o Professor António Lamas (catedrático do Instituto Superior Técnico), a Doutora Dalila Rodrigues (ex-directora do Museu Nacional de Arte Antiga), o Dr. José Sarmento de Matos (olisipógrafo), o Arqt.º José Pedro Martins Barata (ex-director do Centro Português de Design) e o Pintor Manuel da Costa Cabral (director do Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian).

O prémio será entregue em Beja, no dia 3 de Fevereiro, às 11h30, pelo Presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, Rui Vilar, na Sala do Capítulo do Convento de S. Francisco (actual Pousada), na presença da Condessa de Vilalva, do Bispo de Beja, D. António Vitalino Dantas, do Bispo Emérito, D. Manuel Franco Falcão, e da Administradora da Fundação Calouste Gulbenkian, Teresa Patrício Gouveia.


25 anos ao serviço do património alentejano
O Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja foi criado em 1984 para assegurar o estudo, defesa e valorização dos bens culturais religiosos da região. É responsável por um inventário artístico que revelou o extraordinário espólio de arte sacra deste território, então pouco conhecido quer pelos visitantes, quer pelas próprias comunidades locais.
Entre várias iniciativas, foram realizadas acções de formação, estabeleceu-se um serviço gratuito de aconselhamento técnico e incentivou-se a formação de responsáveis pela salvaguarda em cada uma das igrejas históricas, muitas das quais estavam fechadas e passaram a ser abertas regularmente ao público. Hoje colaboram mais de 200 pessoas neste sistema, quase todas em regime de voluntariado.
Este trabalho, realizado em articulação com a União Europeia, o Estado, os municípios e as comunidades locais, permitiu o restauro e a valorização não só de um número considerável de igrejas em Beja e nos principais núcleos urbanos, mas também de um vasto conjunto de ermidas e santuários rurais espalhadas por todo o Baixo Alentejo. Lançaram-se igualmente os fundamentos da Rede Museológica Diocesana, com sete núcleos em funcionamento: Santiago do Cacém, Cuba, Castro Verde, Moura, Sines e Beja (Museu do Seminário e Museu Episcopal).
A exposição Entre o Céu e a Terra – Arte Sacra da Diocese de Beja, realizada em 1998-99, primeiro em Beja, depois em Lisboa, deu a conhecer a riqueza deste património artístico, assim como todo o seu trabalho de inventário, classificação e recuperação. Os tesouros artísticos das igrejas alentejanas foram ainda objecto de outras exposições em Portugal e no estrangeiro, bem como de vários congressos, jornadas e encontros científicos. O Departamento do Património Histórico e Artístico tem assegurado também uma linha editorial, própria ou em regime de co-edição, com 42 títulos publicados.
A União Europeia atribuiu a este serviço da Diocese de Beja, em 2005, o Prémio Europa Nostra para a Salvaguarda do Património Cultural. O Ministério da Cultura distinguiu-o em 2004 com a Medalha de Mérito Cultural e a Câmara Municipal de Beja concedeu-lhe em 2001 com a Medalha de Mérito Municipal.

A atribuição do Prémio Vasco Vilalva ao Departamento do Património da Diocese de Beja teve em conta especialmente o projecto Monumentos Vivos em curso, que tem como objectivo o incremento de percursos de turismo cultural e religioso na região. O seu fio condutor assenta na realização de actividades culturais em igrejas históricas, recuperadas, com actividades de carácter didáctico e divulgativo. Estas iniciativas são dirigidas ao público em geral, mas concedem especial atenção ao sector infanto-juvenil e às pessoas com deficiência.
Um dos seus principais eixos do programa é o Festival Terras sem Sombra de Música Sacra, iniciativa realizada em parceria com a Arte das Musas e que visita anualmente, em itinerância, as igrejas históricas da região e se tem destacado pela ligação entre uma programação de qualidade e a abertura de alguns dos mais belos monumentos religiosos alentejanos. O Terras sem Sombra promove uma temporada de música clássica na região através de um ciclo de concertos em espaços sacros, conferências e visitas guiadas. Ao longo dos seus cinco anos de vida, percorreu já 18 igrejas históricas da região.

Vasco Vilalva, mecenas da cultura portuguesa
Vasco Maria Eugénio de Almeida, 2.º Conde de Vilalva (1913-1975), que se formou no Instituto Superior de Agronomia, foi uma personalidade de excepcional vocação cristã e humanista, vocacionada para a filantropia e para o mecenato. Espírito superior, evidenciou desde cedo grandes preocupações educativas e sociais, pondo a sua vasta fortuna ao serviço das comunidades de Évora, cidade a que esteve profundamente ligado, e do Alentejo.
Idealizou e levou a cabo obras fundamentais para o país, com destaque para a revitalização do Convento da Cartuxa, a fundação do Instituto Superior Económico e Social – embrião da ressuscitada Universidade de Évora – e a criação do Hospital do Patrocínio. Nos primórdios da década de 60, conferiu à generosa actividade que vinha desenvolvendo ao serviço aos outros a dimensão de um projecto institucional, através do estabelecimento da Fundação Eugénio de Almeida.
Não menos notável foi a acção do Eng.º Vasco Vilalva na salvaguarda e valorização do património cultural, procedendo à reconstrução extremamente cuidada dos edifícios históricos que faziam parte do erário da família Eugénio de Almeida e hoje integram o acervo da Fundação com o seu nome.

Inquérito no Público

Concorda com a legalização dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo?
A notícia, publicada hoje no P2 do Público dá conta do resultado deste inquérito, também divulgado no Povo há 9 dias.
O resultado final da votação é este, mas na notícia, não é indicado o número de participantes, sem o qual não se pode ajuizar do relevo a dar às intenções manifestadas. Cmo o resultado já não está on-line não posso saber o número exacto, mas ontem andaria perto dos 6000 participantes.

Família

DESTAK

29 01 2009 07.44H

João César das Neves

O Governo aprovou a 15 de Janeiro a «Proposta de Lei que estabelece o regime jurídico aplicável à prevenção da violência doméstica e à protecção e assistência das suas vítimas».

Este diploma vem na sequência do III Plano Nacional contra a Violência Doméstica (2007-2010) e de actividades como a intensa e imaginativa Campanha contra a Violência no Namoro lançada em Novembro, com uso de instrumentos técnicos inovadores, como pulseiras electrónicas. Esta é mesmo uma prioridade do Governo!

Tais excelentes iniciativas, na sua exuberância e sofisticação, contrastam com o silêncio à volta do aborto.

Qualquer que seja a sua causa e circunstâncias, um aborto é sempre uma das maiores violências exercidas sobre a mulher e, sobretudo, sobre o nascituro. O Governo, que a liberalizou, não inclui essa brutalidade nas questões a prevenir na violência familiar.

Pelo contrário, promove a sua prática com subsídios e recomendação médica em planeamento familiar. A interrupção da gravidez é um método terapêutico normal em Portugal.

Isto mostra o enorme poder da cegueira ideológica. Pessoas boas e bem intencionadas, fortemente preocupadas com a condição feminina, são capazes de aceitar actos infames por causa de dogmas doutrinais.

Aquilo que tantos criticavam no fanatismo religioso de épocas passadas regressa agora com outras orientações.

O executivo, que não incluiu no seu Programa de Governo de 2005 uma secção sobre os problemas familiares nem lhe tem uma Secretaria de Estado dedicada, vê a família simplesmente como um antro de pancadaria.

João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Casar-se ou juntar-se?

Perguntei-lhes se alguma vez tinham pensado em casar-se. Olharam para mim admirados. Então ele, com um sorriso de quem perdoa uma pergunta tão ingénua, tomou a iniciativa de responder. «Casar-se? Para quê? Já nos amamos e isso é o importante. Que sentido tem uma cerimónia exterior que não acrescentará nada ao nosso amor? Queremos um amor genuíno! Queremos um amor livre! Queremos um amor sem nenhum tipo de coacção! Este modo de actuar parece-nos muito mais sincero. Não necessitamos de nenhum tipo de ataduras. Ataduras que cortariam as asas da nossa liberdade». Ela concordava com a cabeça. Todo o raciocínio do namorado parecia lógico. Estava de acordo com ele. Não havia fissuras na sua argumentação.

À primeira vista, parece que o casamento significa uma perda de liberdade. Se uma pessoa decide casar-se, perde a capacidade de voltar a fazê-lo no futuro. Se a liberdade se entende somente como capacidade de escolha, sem dúvida que o casamento significa a perda dessa capacidade. Mas será que a liberdade é somente isso?

Hoje em dia, o casamento é muitas vezes visto como uma realidade oficial, formal e sem muito valor. Um convencionalismo antiquado. Uma instituição que “acorrenta” com elementos objectivos e escravizantes uma relação subjectiva e livre. A liberdade fica “atada”. A liberdade fica “obrigada” no futuro. Não parece sensato introduzir elementos “coactivos” numa relação livre. Introduzir elementos objectivos numa relação subjectiva.

É uma visão simplista. Assim como a noz não é somente a sua casca, o casamento não é somente a sua cerimónia exterior. O casamento é um vínculo que se cria a partir da livre vontade daqueles que se casam. O “sim” que pronunciam transforma-os. É um “sim” que compromete. A partir desse “sim”, o futuro fica determinado pelo “tu”. Quem ama de verdade não deseja ser nem viver sem aquele que ama. Não deseja um futuro sem o outro. Seria um futuro sem sentido. Sem sentido também para a liberdade do “eu”.

Quem ama de verdade deseja a fusão. Deseja um “nós” em lugar do “eu” e do “tu”. Deseja o compromisso que é o que dá origem ao “nós”. Um compromisso que não somente não tira a liberdade, mas liberta. Liberta o “nós” dos perigos do egoísmo e do orgulho. A eternidade no amor não pode vir da mera atracção mútua. Nem do simples enamoramento afectivo. Nem dos sentimentos românticos, por muito sinceros que eles sejam. A eternidade no amor só pode vir da liberdade que não teme comprometer-se sem condições.

Por isso, “juntar-se” não é a mesma coisa que casar-se. “Juntar-se” não muda o “eu”. Só muda as circunstâncias em que o “eu” vive. Pelo contrário, casar-se (comprometer-se de verdade), transforma o “eu”. Surge o “nós”. Um “nós” que será capaz de gerar vida e que cuidará dessa vida. Um “nós” que resistirá às intempéries, porque está protegido pela liberdade responsável daqueles que se amam de verdade.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

Frase do dia

O mestre na cadeira diz para todos mas não ensina a todos porque uns aprendem outros não
Padre António Vieira

quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

28 de Janeiro - S. Tomás de Aquino

Retratos de homens famosos. São Tomás de Aquino
Joos van Ghent
c. 1473-1474.Urbino. Itália.
Óleo sobre tela
Paris. Louvre.

Frase do dia

Três coisas são necessárias à salvação do homem: saber em que acreditar; saber o que desejar; e saber o que deve fazer

S. Tomás de Aquino

terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Vinde e contemplai!



Queridos Amigos

Um grande amigo nosso, após ter feito todas as diligências necessárias e ter preparado tudo para se gravar um CD, apresentou-nos a proposta, com enorme surpresa nossa. Por nós não teríamos tido esta iniciativa, pois estamos longe de ser profissionais de canto. Contudo aceitámos com a única intenção de ajudar a rezar todos aqueles que nos ouvirem.

Surgiu assim o CD "Vinde e Contemplai" que recolhe alguns cânticos que utilizamos nas nossas Eucaristias, cantados e tocados pelas Irmãs da nossa Comunidade.

Este CD não está à venda. Será solicitado ao Carmelo de S. José, só por telefone, mediante um donativo para as nossas obras, para cobrir as despesas do CD e do correio. Estarão desta forma a contribuir para ajudar as obras do nosso Carmelo.

Ficamos sempre a rezar por todos vós, para que possais fazer uma verdadeira experiência do intenso e infinito Amor de Deus nas vossas vidas. É essa a razão porque estamos aqui, e com alegria entregamos a nossa vida a Deus.

Sintam-se acompanhados pela nossa oração e amizade!

Irmãs Carmelitas Descalças - Carmelo de S. José - Fátima

Telefone: (+351) 249 531 627 , das 09.30 h às 17.00h
»»» Mais informações sobre o nosso CD poderão ser encontradas em http://www.carmelofatima.carmelitas.pt/

QUANTAS CABALAS CABEM NUM METRO QUADRADO?

DN 090127
João Miguel Tavares
Jornalista - jmtavares@dn.pt

Acho notável o tempo que em Portugal se perde a discutir o timing das notícias. Esta coisa do Freeport, estão a ver?, só existe porque estamos em ano de eleições. Apareceu em 2005. Agora aparece em 2009. Estão a ver, não estão? É mais uma cabala. Uma urdidura. Uma "campanha pessoal". É isso que José Sócrates não se tem cansado de pregar, logo secundado pelo ministro Augusto Santos Silva, que após as suas últimas intervenções merece passar a ser tratado pelo cognome de Platónico Augusto, tal é a forma como dia após dia o seu pensamento se vai confundindo com o do mestre.

Pois deixem-me que vos diga: estou-me bem nas tintas para o timing das notícias. Comove-me muito pouco que estejamos em ano de eleições. O que eu quero mesmo saber é se as notícias são verdadeiras ou se são falsas. O que eu quero é saber se o primeiro-ministro deste país esteve envolvido em trafulhices imperdoáveis. O timing? Por amor de Deus. Não sei se alguém ainda deposita tanta fé na natureza humana ao ponto de esperar que todas as denúncias sejam desinteressadas, que a vingança nunca habite o coração de quem acusa, que tudo seja sempre feito em prados primaveris e que das bocas só saiam palavras com cheiro a alfazema. Gente dessa deve andar a ver os filmes errados. Há sempre interesses, há sempre golpes baixos, há sempre punhaladas nas costas. Só que, infelizmente, é assim que se costuma chegar à verdade.

José Sócrates já escapou por entre os pingos da chuva na questão da sua licenciatura, que num país com maior amor à verdade e uma comunicação social mais agressiva poder-lhe-ia muito bem ter custado o lugar. Mas a gravidade do que agora está em causa não lhe permite assobiar para o ar e limitar-se a lançar suspeições manhosas do género "isto são só calúnias e ataques pessoais". Há, de facto, explicações a dar. O caso Freeport cheira muito mal, qualquer que seja o lado por onde se pegue. E mesmo que nesta terra seja tristemente comum o afilhado acabar assessor do padrinho e o primo do presidente da câmara fornecedor da junta de freguesia, ter familiares envolvidos em negócios onde interesses económicos se misturam com favores políticos é um passo em direcção ao abismo. Ainda que o tio e o filho do tio estejam tão ausentes de pecado como a Virgem Maria, a sua simples presença neste processo levanta questões a que Sócrates tem de responder.

O eterno retorno à tese da cabala, um tique que sobretudo os socialistas têm desenvolvido até à exaustão, passou o prazo de validade. Sócrates que puxe pela sua esburacada memória e esclareça o que tem a esclarecer de uma vez.
Mais teorias da conspiração é que não, por favor.

O Dia da Memória

Pe Duarte da Cunha

27 de janeiro de 1945 pode ser recordado como um dia de libertação. Mas serve sobretudo para recordar o que se passou naqueles anos. Depois de todos estes anos ainda temos de recordar o que se passou. Não só para olhar com preplexidade para o passado. De facto será sempre incompreensível como foi possível gente normal perder todas as referências morais e tratar outras pessoas como coisas sem valor, detruindo e matando pessoas como se fossem lixo. Contudo, recordar os milhões de mortos e o ódio ao povo judaico, aos ciganos e a tantos homens e mulheres de boa vontade que se recusavam a aceitar este mesmo ódio, deve fazer-nos olhar com preocupação para o presente e para o futuro, porque apesar do tanto que nos assusta, sabemos que o ódio ainda tem de ser vencido em tantas partes e que o respeito pela vida humana ainda não é considerado em todas as circunstâncias.

Não queremos que seja possível outra vez, e por isso não podemos deixar de estar atentos ao que acontece, ao que se diz e a toda a educação. Na verdade também hoje, nas muitas guerras sem sentido que continuam, mas também em clínicas e lugares “limpos”, continuam os ataques à dignidade da vida humana. Infelizmente ainda no nosso mundo milhões de pessoas, algumas ainda não nascidas, são mortas e quantas vezes com a conivência duma sociedade que anda adormecida.

Lembramos o Holocausto porque não queremos que seja possível de novo acontecer. Mas também lembramos porque, como cristãos, acreditamos que o ódio não pode ser respondido com vingança e ódio, mas apenas com o amor e a reconciliação. Como recordava o Santo Padre, quando em 2006 visitou o Campo de Concentração de Auschwitz, “este é o motivo porque estou aqui: para implorar a graça da reconciliação”. Será mesmo uma graça que os homens por si mesmos não conseguem construir. Por isso, sabendo que só o amor converte o olhar e o coração do homem, estamos certos de que só deixando entrar Deus, que é Ele emsmo Amor, nas nossas vidas, será possível dizer que nunca mais acontecerá.

Imploramos a Deus para que na Europa haja sempre uma grande consciência do terror que o ódio a um povo concreto ou aos opositores políticos pode gerar, mas também, e sobretudo, que haja uma grande consciência da dignidade da vida e do valor do amor. Só assim Auschwitz, de certeza, não voltará a acontecer.

Frase do dia

Nós somos aquilo que repetidamente fazemos. A excelência, por isso, não é um acto mas um hábito

Aristóteles

segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Homilia de D. Antoine Audo na Festa de Conversão de São Paulo, celebração nacional do Ano Paulino

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Caros Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Amados Irmãos e Irmãs,

Neste Ano Paulino, que o Papa Bento XVI (dezasseis) declarou jubilar e que tem honrado com a sua catequese semanal, a nossa celebração, na festa da conversão de São Paulo e em Fátima, neste tão importante lugar de peregrinação, tem um significado muito particular. Todos nós que viemos, de perto ou de longe, a este santuário profundamente simbólico para a Igreja em Portugal e para a Igreja universal, deixemo nos tocar pela graça da conversão de São Paulo; peçamos, por intercessão de Nossa Senhora de Fátima, a graça de nos deixarmos conduzir para Cristo; e, para todas as nações em guerra, peçamos o dom da reconciliação e da paz. Que estes países transformem «as espadas em relhas de arado e as lanças em foices» (Is 2, 4,).

Estou muito reconhecido aos meus irmãos bispos de Portugal, por me terem dado a oportunidade de estar hoje no meio de vós e de presidir a esta celebração eucarística. Assim quiseram, convidando um bispo da Síria e da Igreja dos Caldeus, exprimir de um modo sensível, diria mesmo quase físico, a comunhão com as origens do cristianismo, que vive a Igreja presente em todo o mundo. É verdade, São Paulo nasceu em Tarso, na Turquia, muito perto de Alep, onde se situa a minha sede episcopal, e converteu se às portas de Damasco, capital do meu país, a Síria.

Nesta região tão provada do Médio Oriente, os cristãos vivem lado a lado com os muçulmanos, em diferentes países dilacerados por guerras: Israel e Palestina; Iraque ensanguentado por conflitos étnicos e religiosos e onde os cristãos, nomeadamente da Igreja dos Caldeus, estão ameaçados de desaparecer; enfim, o Líbano, assediado entre guerra e lutando pela paz. Sim, nestas terras bíblicas das origens cristãs da nossa fé, os cristãos do Médio Oriente querem ler a experiência da conversão de São Paulo, neste ano jubilar, como um grito de esperança lançado a toda a Igreja.

O encontro de Paulo com Cristo no caminho de Damasco transformou o, transfigurou o. Toda a verdadeira graça é comunicável; toda a graça tem a sua fonte em Jesus, porque «a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram-nos por Jesus Cristo» (Jo 1, 17). «É em Cristo, pelo seu sangue, que temos a redenção, o perdão dos pecados, em virtude da riqueza da sua graça» (Ef 1, 7).

Hoje, deixemo nos alcançar por esta graça da conversão. Com Paulo e todos aqueles que se deixaram agarrar pela graça do Evangelho, – e são tão numerosos! – façamos a releitura das nossas próprias conversões pedindo que elas se tornem sinais do amor de Deus por cada um de nós, e lugar de verdadeiro crescimento na fé, caminhando com todos os que nos rodeiam.

I.
A conversão de São Paulo, que nós celebramos hoje, inscreve se numa longa história bíblica. Façamos um momento de reflexão e meditação para nos tornarmos contemporâneos dos nossos Pais na fé, e peregrinos da busca do rosto de Deus: «O meu coração anseia por ti, os meus olhos te procuram; é a tua face que eu procuro, Senhor. Não desvies de mim o teu rosto» (Sl 27, 8 9). Toda a história da revelação bíblica não pode compreender se à margem dum encontro pessoal entre Deus e o homem criado à sua imagem. Desde o começo, Deus quer se comunicar e quanto mais o homem acolhe a palavra de Deus e a medita no seu coração, mais a glória de Deus o transforma. Aprisionado pelo medo, o homem pode resistir ao chamamento de Deus, fugir e mesmo deformar o rosto do Senhor. Este combate da fé é também o nosso, como o foi dos nossos pais na fé que, pelo seu combate, abriram o caminho da conversão de Paulo.

Abraão renuncia aos ídolos da sua família para escolher um Deus pessoal, aceita ser provado pelo sacrifício do seu filho Isaac, e sai desta prova com uma fé absoluta na fidelidade de Deus à sua Aliança.

Moisés, sendo violento e desertor, torna se chefe do seu povo e testemunha de um Deus Salvador, lento para a ira e cheio de amor, desafiando o seu povo a crescer na confiança e na liberdade.

Elias, o inimigo dos falsos profetas de Baal, defensor do pobre Nabot, aprende através de uma longa caminhada espiritual, a ler os sinais dos tempos, no murmúrio duma brisa suave, sinal da presença de Deus no coração daquele que se deixa conduzir pelo Espírito.

Paulo é desta linhagem de Patriarcas e Profetas; ele era muito cioso de todos os privilégios herdados da família e da sua fé judaica; era capaz de todas as atrocidades para defender Deus e a lei de Moisés; Paulo estava cheio de ódio para com os cristãos.
São Paulo, o fariseu que ardia no zelo da Lei (Fl 3, 6), uma vez convertido, descobre que este Jesus em que ele via, com horror, o destruidor da tradição religiosa de Israel, era pelo contrário o herdeiro porque era o fundador. A palavra dos profetas era já o seu Evangelho (Rm 1, 2). A Lei tinha sido dada a Israel para que, na plenitude dos tempos, Deus pudesse enviar o seu Filho, «nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei… a fim de recebermos a adopção de filhos» (Gl 4, 4 5).

Todas as cartas de Paulo, todo o trabalho que realizou para fundar as Igrejas, todos os sofrimentos que suportou com determinação e alegria, têm a sua origem neste encontro com Jesus no caminho de Damasco. Jesus, morto e ressuscitado, torna se para ele a explicação última da Lei, a Boa Nova a anunciar a todas as nações.

II.
Permiti me agora que vos conte uma bela história da conversão de um jovem Curdo de origem muçulmana, que eu conheci em Alep.
Jiwan, baptizado com o nome de João Baptista, chegado à idade de vinte anos, vivia num vazio total, na solidão que é o grande paradoxo da mundialização. Ao ver que um cristão foi excluído da sua escola e catalogado como infiel, encontrou o rosto de Cristo ao ler o Evangelho e tornou se pouco a pouco o bom samaritano deste cristão perseguido. Jiwan viveu uma experiência de conversão. De um jovem amargurado com a vida, sacudido pelos ventos dos fanatismos e dos medos, tornou se um jovem atento aos outros, membro vivo de uma comunidade cristã, testemunha da graça que o transformou. Doravante Jiwan usa o nome de João Baptista, caminhando no seguimento de Cristo e chamando outros jovens a encontrar Jesus. Numa Europa cada vez mais secularizada, e que exclui o próprio Cristo, a Igreja e os cristãos, fixemo nos na coragem deste jovem que, por causa da exclusão e do ódio, acaba por encontrar o amor de Jesus, amor de comunhão e de liberdade.

III.
O Deus em que acreditamos não é um Deus estático. Não nos fecha no passado e não aceita que fiquemos paralisados pelos nossos medos. O nosso Deus está vivo e faz se próximo e solidário. Não habita nos longínquos céus, nem se esconde nas distâncias inacessíveis. Pelo contrário, Deus encontra a sua alegria no seu povo: Ele é o Emanuel, Deus connosco. É Ele que vem para se dar todo, sem nada nos tirar.

Assim como Cristo veio ao encontro de Paulo no caminho de Damasco, assim como estava presente no coração dos combates dos Patriarcas e dos Profetas que buscavam a sua face, assim como Cristo se deixou encontrar por este jovem Curdo muçulmano no quotidiano da sua vida distante da fé cristã, também o mesmo Cristo vem hoje, pessoalmente, ao nosso encontro. A conversão é uma graça pessoal e comunicável; a conversão é para cada dia; e significa deixar se transformar pela presença de Cristo.

Na sua última encíclica, «Spe salvi», o Papa Bento XVI (dezasseis) não se refere directamente à conversão, mas, ao falar da oração, diz nos que é «um processo de purificação interior que nos torna aptos para Deus e, precisamente desta forma, aptos também para os homens». E o Papa continua: na oração, o homem «deve purificar os seus desejos e as suas esperanças. Deve libertar se de mentiras secretas com as quais se engana a si mesmo» (n. 33). Numa palavra, o homem está chamado à conversão, chamado a tornar se peregrino no seguimento de Cristo.

Neste belo Ano Paulino, na festa da conversão de São Paulo, que celebramos no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, cuja mensagem evangélica nos exorta à penitência, à conversão, façamos nossa a meditação final do Santo Padre na sua encíclica «Spe salvi»:
«A Igreja saúda Maria, a Mãe de Deus, como «Estrela do mar»: Ave maris stella. A vida humana é um caminho. Rumo a qual meta? Como achamos o itinerário a seguir? A vida é como uma viagem no mar da história, com frequência enevoada e tempestuosa, uma viagem na qual perscrutamos os astros que nos indicam a rota. As verdadeiras estrelas da nossa vida são as pessoas que souberam viver com rectidão. Elas são luzes de esperança. Certamente, Jesus Cristo é a luz por antonomásia, o sol erguido sobre todas as trevas da história. Mas, para chegar até Ele precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que dão luz recebida da luz d'Ele e oferecem, assim, orientação para a nossa travessia. E quem mais do que Maria poderia ser para nós estrela de esperança? Ela que, pelo seu «sim», abriu ao próprio Deus a porta do nosso mundo; Ela que Se tornou a Arca da Aliança viva, onde Deus Se fez carne, tornou-Se um de nós e estabeleceu a sua tenda no meio de nós (cf. Jo 1,14)» (n. 49).

D. Antoine Audo, Bispo de Alepo para os Caldeus, Síria
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Documentos Santuário de Fátima 25/01/2009 12:36 9187 Caracteres

A solução da bendita crise

Diário de Notícias, 20090126
João César das Neves
Professor universitário - naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Portugal está em crise e regressa a habitual rapsódia do desânimo. Todos zurzem os responsáveis e lamentam que "este país" não tem emenda. Ninguém nota os enormes progressos desde anteriores recessões. Pior, as críticas são tão ociosas quanto os criticados. Afinal que aconteceu e como se cura?

A situação tem contorno definido e solução simples. Em 1985, ao entrarmos na Europa, o primeiro-ministro Cavaco Silva falava em desafios, dificuldades e pedia "deixem-nos trabalhar". Ao fim de dez anos de esforços, em 1995, os eleitores quiseram descansar e acreditaram ser possível crescer sem esforço. Realmente a segunda metade da década de 1990 viveu uma prosperidade aparentemente fácil. Muitos avisaram à época que tal só era possível com endividamento.

Esta ilusão é paralela à euforia consumista americana que tantos condenam. A nossa dívida pública externa triplicou de 12% do PIB em 1995 para mais de 45% em 2007. No total do País, a "posição de investimento internacional", indicador da situação financeira global, subiu de uma dívida de 8% do produto em 1996 para 40% em 2000. Agora, ao atingir os 90%, os jornais acordaram.

Como foi possível chegar aqui? Um país pequeno não se endivida sem a sua moeda entrar em colapso. Portugal aprendeu isso em 1977 e 1983, quando chamou o FMI para pôr a casa em ordem. Mas na grande Zona do Euro as dívidas portuguesas deixaram de ter impacto e pudemos acumular sucessivos défices externos. Desde 1998 que o nosso desequilíbrio na balança corrente e capitais está acima dos 4% do PIB. Desde 2005 ultrapassamos os 8%, nível da crise revolucionária de Abril. A moeda única tem muitas vantagens, mas o pior defeito é esta perda do sinal de alarme cambial: endividamo-nos sem custos.

Mas não ficámos indefesos, pois permanecem dois avisos. O primeiro, o Pacto de Estabilidade, por ser político, foi violado sem problemas. Portugal foi o primeiro país europeu a ultrapassar os limites de 2001 a 2007. Existe porém um outro mecanismo para forçar a corrigir o descalabro: o mercado financeiro. Quem está demasiado endividado paga taxas altas ou perde acesso ao crédito.

Infelizmente, na euforia inicial do euro e da bolha especulativa, os mercados não discerniam correctamente entre os países, tratando por igual todos os membros da moeda única. Por isso é excelente a notícia da passada quarta-feira, de descida na classificação de risco (rating) da dívida portuguesa. Finalmente, com a crise financeira mundial, os mercados voltam a cumprir as suas funções de vigilância.

Os próximos anos serão duros, mas vamos entrar no bom caminho, quer queiramos quer não. Portugal será forçado a corrigir a sua situação financeira. Não há desculpas. Bendita crise, se nos der juízo!

Ao começar finalmente a recuperação, os actuais lamentos e críticas são inúteis. Quando faziam falta, não se ouviam. Pior, são também hipócritas porque a culpa do endividamento não é dos políticos, mas de todos. Um indicador simples mostra o problema.

A grave situação externa vem da baixa competitividade de Portugal. Mas, ao contrário do que se diz, o mal não está na produtividade. Desde que entrámos no euro (1999--2007) o produto por trabalhador português cresceu um total de 10,4%, enquanto na média dos Doze crescia 10,9% e a Espanha só 4%. Por que razão ficámos para trás? Porque os salários portugueses aumentaram um total de 7,7% no mesmo período, enquanto a média dos Doze subia só 5,5% e em Espanha caíam 4,5% acumulados. As nossas dificuldades externas e endividamento não vêm de produzirmos pouco, mas de ganharmos de mais para o que produzimos.

O problema não está nos salários dos operários, que na indústria vivem intensa concorrência europeia. São os ordenados dos ministros, funcionários, bancários, professores, médicos e outros. De todos, até dos críticos. A solução para a crise não vem da qualidade da classe política e outros temas habituais dos lamentos. Passa, em boa medida, por uma expressão que Cavaco Silva usava há 15 anos e nunca se ouviu desde então: moderação salarial.

Frase do dia

Tradição significa dar votos à mais obscura de todas as classes, os nossos antepassados. É a democracia dos mortos. A tradição recusa submeter-se àquela arrogante oligarquia que meramente anda por aí

G. K. Chesterton

domingo, 25 de Janeiro de 2009

25 de Janeiro - Conversão de S. Paulo

A Conversão de São Paulo
1600-1601
Óleo sobre tela
225cm x 150cm
Cerasi Chapel, Santa Maria del Popolo, Roma
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1*Saulo, entretanto, respirando sempre ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, foi ter com o Sumo Sacerdote 2*e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, se encontrasse homens e mulheres que fossem desta Via, os trouxesse algemados para Jerusalém.
3Estava a caminho e já próximo de Damasco, quando se viu subitamente envolvido por uma intensa luz vinda do Céu. 4*Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: «Saulo, Saulo, porque me persegues?» 5*Ele perguntou: «Quem és Tu, Senhor?» Respondeu: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues. 6Ergue-te, entra na cidade e dir-te-ão o que tens a fazer.» 
7*Os seus companheiros de viagem tinham-se detido, emudecidos, ouvindo a voz, mas sem verem ninguém. 8Saulo ergueu-se do chão, mas, embora tivesse os olhos abertos, não via nada. Foi necessário levá-lo pela mão e, assim, entrou em Damasco, 9onde passou três dias sem ver, sem comer nem beber.
10*Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor disse-lhe numa visão: «Ananias!» Respondeu: «Aqui estou, Senhor.»11O Senhor prosseguiu: «Levanta-te, vai à casa de Judas, na rua Direita, e pergunta por um homem chamado Saulo de Tarso, que está a orar neste momento.» 
12*Saulo, entretanto, viu numa visão um homem, de nome Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recobrar a vista. 13*Ananias respondeu: «Senhor, tenho ouvido muita gente falar desse homem e a contar todo o mal que ele tem feito aos teus santos, em Jerusalém. 14*E agora está aqui com plenos poderes dos sumos sacerdotes, para prender todos quantos invocam o teu nome.»15*Mas o Senhor disse-lhe: «Vai, pois esse homem é instrumento da minha escolha, para levar o meu nome perante os pagãos, os reis e os filhos de Israel. 16Eu mesmo lhe hei-de mostrar quanto ele tem de sofrer pelo meu nome.» 17*Então, Ananias partiu, entrou na dita casa, impôs as mãos sobre ele e disse: «Saulo, meu irmão, foi o Senhor que me enviou, esse Jesus que te apareceu no caminho em que vinhas, para recobrares a vista e ficares cheio do Espírito Santo.» 18*Nesse instante, caíram-lhe dos olhos uma espécie de escamas e recuperou a vista. Depois, levantou-se e recebeu o baptismo. (Actos 9)


sábado, 24 de Janeiro de 2009

Chesley B. Sullenberger

Expresso, 20090124
João Pereira Coutinho

Recebo um e-mail do meu amigo Nelson Ascher, um excelente poeta e ensaísta brasileiro, que sublinha a ironia: a presidência Bush iniciou-se verdadeiramente em 2001, quando dois aviões derrubaram as Torres Gémeas em Nova Iorque. Terminou agora, também em Nova Iorque, quando um piloto americano conseguiu aterrar de emergência em pleno rio Hudson, salvando a vida de 155 pessoas. Em 2001, o mundo começou com morte. Em 2009, terminou com vida. Na mesma cidade. Com o mesmo meio de transporte. Se me permitem o momento místico, eu diria que Deus está a enviar-nos um sinal.
Mas não é preciso invocar o divino para entender o humano: o terrorismo islâmico, que definiu a presidência Bush no melhor e no pior, ama o martírio, a destruição e a selvajaria como forma de derrotar o Ocidente infiel e idólatra; nós, lamentavelmente, somos como o capitão Chesley B. Sullenberger III: preferimos a vida e estamos dispostos a actos heróicos para a salvar. Aliás, não apenas o capitão Sullenberger. Nos dias imediatamente seguintes à proeza, li as confissões dos passageiros e notei que todos eles, no momento agónico em que o fim era certo, dedicavam os seus últimos pensamentos para os seus vivos: pais, mães, filhos. Amigos.
Sim, Bush pode ter feito merda que chegasse. Mas nos últimos oito anos, nunca duvidei de que lado ele estava. E, já agora, de que lado eu estava: do lado dos vivos e da vida. Só pensa em 72 mulheres paradisíacas quem, na verdade, é incapaz de amar uma que seja.