quinta-feira, 31 de julho de 2008

terça-feira, 29 de julho de 2008

Por favor, não me contes a tua história

PÚBLICO

29.07.2008, Helena Matos

A história que os "retornados" tinham para contar não era a que os jornalistas achavam que deviam publicar

Este título assaltou-me quando, chegada de umas curtas férias, comecei a ler por ordem cronológica as edições do PÚBLICO que se tinham acumulado na minha ausência. Dia 12, sábado, o PÚBLICO dedicou pela primeira vez uma notícia sobre o acontecido a 10 na Quinta da Fonte. Na secção Local, uma notícia intitulada Desordem em Loures provocou nove feridos transcrevia umas breves declarações do Comando Metropolitano da PSP para em seguida passar a descrever, sem mais explicações, o assalto a um supermercado em Setúbal. Não sendo Lisboa em matéria de crime a cidade do Rio de Janeiro, nove feridos "numa desordem entre moradores" mereceria outro tratamento. A isto junta-se que, na véspera, dia 11, já estes acontecimentos tinham sido notícia. Logo aí tinha começado a explicação sociológica dos mesmos: "na Quinta da Fonte os habitantes têm 'carências sociais e económicas', estando muitos dos moradores no desemprego ou a receber o Rendimento Social Garantido" - declarou o presidente da Junta de Freguesia da Apelação ao Correio da Manhã. (Os pobres são, de facto, umas almas pacientes, pois não só raramente se revoltam como ainda têm todos os dias de ouvir, a propósito dos mais inqualificáveis comportamentos ou crimes, que isso se deve às "carências sociais e económicas" dos seus autores.) Como os acontecimentos seguiram o rumo conhecido, a 13, no PÚBLICO, e a 12, em jornais como o Diário de Notícias e o Correio da Manhã, caiu por terra a estapafúrdia versão dos moradores que se desforram das suas carências desatando aos tiros entre si.
Mas o que sucedia na Quinta da Fonte não era a história que os jornalistas, particularmente os do PÚBLICO, estavam preparados para contar. Na Quinta da Fonte, estava suposto que negros e ciganos se davam muito bem e cruzavam flamenco com kizomba. A existir alguma intolerância, ela teria de nascer no meio dos brancos, de preferência entre os taxistas, que cabem às mil maravilhas no papel de vilão racista nestas histórias. Na falta de um taxista, sempre se arranjaria algum branco que, tendo comprado um andar à antiga cooperativa, temia agora que tão colorida vizinhança lhe desvalorizasse o investimento.
A realidade trocou as voltas aos jornalistas. E estes ficaram sem palavras para contar a história, tanto mais que havia que escrever ciganos e pretos, termos que, por escrito, só podem existir para falar de festas, casamentos, tradições, ONG e denúncias do racismo praticado pelos brancos. E contudo estas páginas em que os jornalistas quase pedem "Por favor, não me contes a tua história" são tão eloquentes quanto aquelas onde se alinham as mais fantásticas reportagens. Não faço ideia se a cobertura dos acontecimentos da Quinta da Fonte, particularmente o atraso do PÚBLICO na cobertura dos acontecimentos, serão mais tarde objecto de estudo. Mas deveriam sê-lo. Tal como o deveria ser tudo o que não escrevemos sobre a partida dos portugueses de África. Entre Agosto de 1974 e o início de 1975 os portugueses em fuga de África mal se vêem nas páginas dos jornais. É claro que se fala deles mas com o incómodo e os rodeios de quem tem de dar uma má notícia no meio duma festa. Esta é a fase em que os fugitivos são necessariamente brancos pois assim facilmente se integram no estereótipo que deles traçam homens como Rosa Coutinho que os classifica como "elementos menos evoluídos que têm medo de perder as suas regalias" ou Vítor Crespo que os define como "pessoas racistas que não abdicam dos seus privilégios".
Os jornalistas portugueses usam então tranquilamente expressões como "brancos ressentidos", "brancos em pânico" ou pessoas que "reivindicam um desejo de viver num mundo que já acabou" para referir a maior fuga de portugueses nos seus muitos séculos de História. Os primeiros a chegar, logo em Agosto de 1974, ainda tiveram jornalistas à espera. Mas semanas depois, quando a catástrofe se torna não só óbvia como incontornável, as notícias sobre o "regresso dos colonos" quase desaparecem e o que temos cada vez mais são longos artigos sobre a descolonização cheios de declarações de líderes ou candidatos a tal. Jornais como o Diário de Notícias, o Expresso ou O Século enviam repórteres para a Guiné, Angola e Moçambique. Estes relatam com detalhe e parcialidade as lutas pelo poder nos diversos movimentos - sobretudo em Angola. O drama das pessoas parece-lhes uma fatalidade histórica. Fatalidade aliás inscrita no termo por que haveriam de ficar conhecidos: passada a fase caricatural dos "colonos brancos", ainda se experimentou "deslocados do Ultramar" ou desalojados. Por fim surgiu o salvífico termo "retornado", pese muitos deles não estarem a retornar a parte alguma porque simplesmente tinham nascido e vivido toda a vida em África. Refugiados, termo usado então e agora com bastante ligeireza, é que eles nunca puderam ser.
No início de 1975 era evidente que a descolonização não ia ser a página gloriosa que os jornalistas tinham sonhado mas daí a dar voz às suas vítimas ia um passo que não conseguiram dar. E. por isso. os mesmos jornalistas que poucos anos antes tinham denunciado vivamente a expulsão de Portugal do dançarino Béjart eram agora incapazes de criticar a expulsão de Angola e Moçambique de jornalistas estrangeiros. E de que eram acusados esses jornalistas? Fazer notícias fundamentadas em "opiniões particulares". Ou seja ouvirem as histórias das pessoas e não apenas as versões da História que os dirigentes repetiam.
Não existe uma data precisa para definir o momento em que se tornou patente que os retornados estavam longe de ser todos brancos, mas quando a ponte aérea os fez desembarcar às centenas de milhar em Lisboa tornou-se evidente que muitos deles eram negros, mulatos, indianos... com cores e hábitos de vida muito distantes do tal boneco do fazendeiro branco de chicote na mão, a que inicialmente foram reduzidos. Perante o mal-estar que a sua simples existência causava, os fugitivos passaram rapidamente da caricatura ao esquecimento. Foram precisas décadas para que grandes reportagens fossem dedicadas ao turbilhão de factos que fez deles retornados. O problema deles não era não terem uma história para contar. Simplesmente a história, a grande história que eles tinham para contar não era aquela que os jornalistas achavam que deviam levar para as suas redacções. "Por favor, não me contes a tua história" - é um pedido que nenhum jornalista verbalizará. Mas no silêncio e na falta de nexo de muitos textos é esse pedido que se encontra.

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Manuais escolares gratuitos. O anúncio governamental de que no próximo ano lectivo vai triplicar o número de alunos carenciados que têm acesso a manuais escolares gratuitos é uma péssima noticia para todos os portugueses à excepção daqueles que editam livros escolares. Em primeiro lugar ninguém valoriza e respeita o que é gratuito. Todas as famílias deveriam contribuir, com pouco que fosse, para custear os manuais e demais material escolar. A isto junta-se que uma aula não é um pretexto para utilizar manuais donde a obrigatoriedade do manual ser, em si mesma, muito questionável. A maior parte desses manuais não só é péssima como absolutamente dispensável. Por fim, não faz sentido que no fim de cada ano lectivo, os manuais, sejam eles pagos pelas famílias ou dados pelas escolas, acabem no lixo. Eles podem e devem ser reutilizados. Aliás são-no em países muito mais ricos que Portugal e mesmo entre nós em alguma escolas privadas. Afinal não por acaso o assistencialismo e o desperdício costumam andar de mãos dadas.
Fundações. Agora que a Casa dos Bicos foi destinada, pela CML, à Fundação Saramago parece-me ser de acautelar o destino da Torre de Belém, do castelo de Guimarães e quiçá das próprias ruínas de Conímbriga. Dada a velocidade a que a pátria produz escritores não haverá pedra sobre pedra neste rectângulo que não corra o risco de ser afectada a uma fundação. Mas o pior neste "estado albergue das fundações" é o que nos espera de querelas constrangedoras. Viúvas, famílias, fundações e ilustres finados são uma mistura a evitar por qualquer governo, autarquia ou povo que queira ter uns dias de paz.

A pobreza e o dilema da responsabilidade individual

PÚBLICO

29.07.2008, José Manuel Fernandes

Não há milagres urbanísticos ou subsídios que resolvam os quistos de pobreza e exclusão, se, ao mesmo tempo, não se criarem mecanismos de responsabilização individual

A experiência mais dura para quem algum dia entrou na zona pobre de Rabo de Peixe, nos Açores, não é constatar as condições em que vive aquela comunidade - que não é de origem africana nem de etnia cigana, sublinhe-se desde já, para evitar quaisquer equívocos. O facto de ali como que viajarmos no tempo, regressando ao ambiente dos guetos de pobreza do Portugal dos anos 60, surpreende ainda mais quando percebemos que é difícil imaginar o que mais poderia ter sido feito, quer pelo Estado, quer por organizações de solidariedade social, para acabar com aquela ilha de extrema pobreza. Muitas das habitações em que vivem, senão a totalidade, foram construídas ao abrigo de programas sociais, alguns do tempo de Salazar. Não faltam escolas. Há algum comércio na povoação. E não longe ficam centros populacionais que têm evoluído bem.
Rabo de Peixe - ou, para ser mais exacto, a comunidade piscatória de Rabo de Peixe - é um exemplo teimoso de como as melhores intenções do mundo podem esbarrar naquilo que muitas vezes se designa por uma "cultura de pobreza". Por mais ajudas sociais, por mais investimentos públicos, por mais tentativas que se façam para retirar do ciclo infernal da pobreza uma comunidade que se habituou a viver em condições extremas, e as integrou na sua própria identidade, tudo esbarra num muro que teima em não se deixar derrubar.
Em 1999, por exemplo, quando Jorge Sampaio visitou Rabo de Peixe durante uma das suas presidências abertas, constatou surpreendido que a aplicação do então rendimento mínimo garantido pouco efeito tivera. Numa terra onde as famílias como que competem para terem o maior número de filhos - que depois não têm dinheiro para criar -, o número de nascimentos saltara de 83 para 194 entre 1997 e 1998. Porquê? Aparentemente porque as regras então em vigor davam às famílias mais 15 contos (75 euros) mensais por cada filho nascido. Algum tempo depois, em 2002, quando o PÚBLICO esteve de novo em Rabo de Peixe para perceber o que lá teria evoluído, encontrou uma situação em que a maioria das crianças continuava a abandonar precocemente a escola, o rendimento da pesca continuava a não ser suficiente para alimentar tantas bocas e as ruas continuavam cheias de enxames de crianças sujas e esfarrapadas. A sua identidade maior era serem "rabo-peixinhos", só depois achavam ser também micaelenses, açorianos ou mesmo portugueses. Fechados na sua ilha, fora do mundo, iletrados, quando não analfabetos, crentes que só muitos filhos seguram um homem em casa, habituados ao alcoolismo e incapazes de pensar noutra forma de viver, os "rabo-peixinhos" aceitavam o que lhes era dado - as casas, a educação, os cuidados médicos, os subsídios - mas raríssimos os utilizavam para se libertarem da sua situação de pobreza, mais depressa se encostavam às ajudas que sempre iam chegando.

Podemos encontrar outras histórias como as de Rabo de Peixe espalhadas um pouco por todo o país, mesmo onde por vezes a intervenção do Estado foi tão radical que retirou as pessoas das vielas onde moravam há gerações, como sucedeu em Câmara de Lobos, na Madeira, e nalgumas das operações de realojamento no Porto. E sempre sem envolver qualquer minoria étnica.
Estes exemplos mostram que melhorar as condições de vida de uma comunidade, subsidiá-la para que possa "singrar na vida", só resulta quando se quebra a "cultura da pobreza" e os diferentes mecanismos, uns ancorados na tradição, outros na ignorância, outros no facilitismo da dependência, que impedem muitas famílias sem problemas de doença ou deficiência de lutarem por uma vida melhor.
Nas últimas semanas, tem-se discutido o problema da responsabilidade individual em comunidades como as da Quinta da Fonte, mas devia antes do mais estar-se a falar-se da necessidade de associar os apoios públicos a mecanismos de estímulo capazes de levarem os beneficiários a tomarem atitudes mais activas. Em nome da solidariedade social não devia ser possível manter políticas incapazes de terem efeito a longo prazo, em nome do combate à pobreza nunca se devia esquecer o velho provérbio chinês: "Se quiseres ajudar um pobre não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar."
Infelizmente nem todos agradecem as ajudas e ainda menos se esforçam por progredir. Pelo contrário, há até quem encontre nas ajudas pretextos para se encostar e desistir de fazer mais pela sua própria vida, mergulhando num ciclo infernal de pauperização.
Por tudo isso nunca milagres urbanísticos ou montanhas de dinheiros públicos resolverão os quistos de pobreza e exclusão, se, ao mesmo tempo, não se criarem mecanismos de responsabilização individual que puxem para cima os envolvidos. Como, por exemplo, os que foram criados nas escolas da Apelação, as que servem a Quinta da Fonte, e que o seu director, Félix Bolaños, explicou no PÚBLICO de 20 de Julho.

29 de Julho - Santa Marta

VELÁZQUEZ, Diego Rodriguez de Silva y
Cristo em casa de Marta e Maria
c. 1620
Óleo sobre tela 60 x 103,5 cm
National Gallery, London

segunda-feira, 28 de julho de 2008

A LENTA DESCIDA PARA A GUERRA

Diário de Notícias, 080728

João César das Neves

professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Os jornais andam cheios com uma palavra que julgávamos extinta: guerra! Após 1945, o Ocidente prometeu acabar de vez com esse pesadelo e declarou solenemente: "Nunca mais!" Houve vários conflitos nos últimos 60 anos, mas em geral em zonas longínquas e, apesar de tudo, sem ultrapassar os limites locais.Agora porém fala-se cada vez mais de confrontos e embates com ramificações globais.Os cínicos não se admiram destas ameaças porque nunca acreditaram naquele voto piedoso. A guerra faz parte da natureza humana, dizem. Mas o mundo mudou muito neste campo. Graças ao progresso económico temos hoje cinco importantes protecções contra uma guerra global.A primeira é essa lembrança da pior de todas as guerras. Os avanços industriais aumentaram tanto a capacidade devastadora que a ruína de 1939 a 1945 foi inacreditável. Ligada a esta está a segunda protecção, porque o progresso continuou e o ser humano tem hoje armas ainda mais medonhas.Uma futura guerra pode ser final porque será assombrada pelo fantasma da aniquilação planetária.O progresso contribuiu também com uma protecção subtil: deu ao mundo a certeza ou a esperança de grande conforto e o desejo de o conservar. O globo vive crescentemente numa sociedade de classe média, comercial e financeira, onde a burguesia é dominante. Ela foi sempre o estrato mais relutante em combater porque, consumista e próspera, prefere a diplomacia à birra...As lutas nascem em geral de nobres ociosos ou proletários desesperados.As duas últimas razões são ideológicas, embora ligadas a esta dinâmica. A cultura contemporânea perdeu o culto da glória militar e a exaltação dos combatentes. Se agora um governo desenvolvido, mesmo americano, anunciasse uma conquista imperial, seria, não aclamado como antes, mas desprezado pelos eleitores. Por outro lado, a nossa crença nos direitos humanos leva-nos a respeitar os outros povos sem nos considerarmos superiores. Está obsoleta a teoria, antes comum, do domínio sobre os indígenas ignaros para bem deles e da civilização.Estes cinco elementos revelam como a evolução económica reduziu em muito o impacto agressivo de alguns traços da natureza humana: a cobiça, inveja e orgulho são hoje mais bem servidos pelo comércio que pela conquista, gerando aquelas protecções. Mas outros aspectos do nosso carácter contrastam com estes e criam o recente surto militar.O primeiro é o medo e desconfiança. O pavor gerado pelo 11 de Setembro de 2001 gerou uma hostilidade que ainda dura. A China e a Índia gerarão outros. A segunda causa, principal origem de todas guerras, é a busca da justiça. Os confrontos nascem em geral, não dos maus, mas dos que se julgam bons atacando os que consideram maus. Apesar de exaltarmos a tolerância e os direitos, continuamos a acusar e castigar os outros, agora não por origens étnicas mas opções ideológicas. Por exemplo, o Ocidente diz ter grande respeito pelos povos árabes, mas está disponível para insultar Maomé e os seus dogmas devido às posições muçulmanas acerca das mulheres, liberdade e violência. Toleramos tudo menos o que achamos intolerável. Como os nossos avós. Assim, o próximo conflito mundial nascerá do medo e castigo.Hoje tal cenário ainda parece longe, mas também em 1918 ninguém acreditava que 20 anos depois se estaria de novo em guerra. Já se percorrem paulatinamente as etapas que lá conduzem. Como em séculos anteriores, pequenos passos de agressão, insignificantes em si, descem patamares de onde já não se sobe. No terrorismo cada nova crueldade é marco a ultrapassar. Por razões inversas, a mesma progressão se dá na civilização.Após a libertação do Koweit em 1991 e a in- vasão bondosa da Somália em 1992 foi mais fácil o bombardeamento libertador do Kosovo de 1999. Isso tornou admissível os ataques punitivos ao Afeganistão em 2001 e Iraque em 2003. Que por sua vez fazem plausível uma ameaça ao Irão hoje. Cada assalto estabelece o nível de violência de onde se parte na vez seguinte. Este caminho levou de Bismarck a Guilherme II e daí a Hitler.

domingo, 27 de julho de 2008

Uma moratória para o aborto

PÚBLICO
27.07.2008, Pedro Vaz Patto
Foi o intelectual italiano Giuliano Ferrara quem propôs, numa carta dirigida ao secretário-geral da ONU, esta iniciativa
Foi há mais de um ano que se realizou entre nós o referendo que conduziu à liberalização do aborto. Poderia pensar-se que a questão foi encerrada, cá como noutros países, que o direito ao aborto passou a ser mais uma "conquista irreversível" e que estamos perante leis intocáveis e indiscutíveis.Mas não é assim. Não só porque tal lógica de "intocabilidade" não se compatibiliza com os princípios democráticos, como também porque um cada vez maior número de circunstâncias vem acentuando o anacronismo dos argumentos que levaram à liberalização do aborto desde há já várias décadas.Tudo isto vem a propósito de uma iniciativa lançada em Itália pelo intelectual laico Giuliano Ferrara (movimentos católicos apoiam-na, mas ela não partiu de nenhum deles), que está a ter eco em todo o mundo. Trata-se de, na sequência da aprovação pela Assembleia Geral das Nações Unidas em Dezembro do ano passado, de uma moratória mundial relativa à aplicação da pena de morte, propor, numa carta dirigida ao secretário-geral dessa organização, uma moratória relativa ao aborto.Já anteriormente o Governo polaco (entretanto substituído) havia associado estas duas causas de defesa da vida, opondo-se à celebração de um dia europeu contra a pena de morte se não fossem também contemplados o aborto e a eutanásia enquanto atentados à vida. Mais sensatamente, não se trata, agora, de levantar qualquer obstáculo à abolição da pena de morte, mas, antes, de pedir coerência a quem, justamente, clama pelo respeito da vida de pessoas condenadas pela prática de crimes graves. De pedir que, coerentemente, tal respeito se estenda à vida inocente.Um primeiro alerta que é suscitado pela iniciativa diz respeito à dimensão quantitativa do fenómeno. O aborto deveria ser, para muitos partidários da sua liberalização, "legal, seguro e raro" ("legal, safe and rare"). Não ouvimos repetir este slogan tantas vezes no referendo de há cerca de um ano? Do carácter falsamente "seguro" do aborto, falam os dados cada vez mais consistentes sobre as suas sequelas psíquicas para a mulher. Mas o aborto também está muito longe de ser "raro". O texto da referida carta evoca a crueza irrefutável dos números. "Nos últimos trinta anos, foram praticados mais de mil milhões de abortos, com uma média anual de cinquenta milhões." Poderia recordar-se o exemplo da Rússia, onde o número de abortos chegou a superar, durante vários anos, o número de nascimentos (mas também na "avançada" e "exemplar" Suécia o número de abortos é de mais de um quarto dos nascimentos) e onde, por razões demográficas, se procura, agora, introduzir limitações legais ao aborto. São números que deveriam arrepiar, pelo menos, tanto como os (também arrepiantes) 9,7 milhões de mortes anuais de crianças nascidas (segundo o recente relatório da Unicef).Mas há também outros aspectos do fenómeno que nessa carta são evocados e que muitas vezes são esquecidos. "Na China, milhões de nascituros correm o risco de ser vítimas de abortos, incentivados e também coagidos em nome de uma planificação familiar e demográfica do Estado." Onde está o aborto como afirmação de liberdade pessoal, quando ele é, assim, um instrumento de coacção em âmbitos pessoalíssimos? "Na Índia, devido a uma selecção sexista, foram eliminadas antes do nascimento milhões de meninas nos últimos anos." Onde está o aborto como bandeira da emancipação da mulher? "Também no Ocidente, o aborto torna-se o instrumento de um novo eugenismo que viola os direitos do nascituro e a igualdade entre os homens, desviando o diagnóstico pré-natal da sua função de preparação ao acolhimento e ao cuidado para com o nascituro para uma situação próxima de um critério de melhoramento da raça, destruindo, assim, os ideais universalistas que estão na origem da Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948." Já Jurgen Habermas (apesar de não se opor à legalização do aborto) tinha alertado para este novo eugenismo, um "eugenismo liberal", no seu livro O Futuro da Natureza Humana (Shurkamp Verlag, 2003, Almedina, 2006). Neste contexto, não será muito mais difícil criar uma cultura de autêntica inclusão das pessoas com deficiência?A iniciativa pode parecer provocatória. Pretender alterar de imediato a legislação que, em muitos países, liberalizou o aborto pode ser irrealista. Mas o mérito indiscutível desta proposta é o de não deixar morrer a discussão, o de alertar as consciências que, distraídas ou manipuladas, não se apercebem de um fenómeno que, como ofensa ao primeiro dos direitos humanos, dificilmente encontrará paralelo, em gravidade e dimensão quantitativa.A luta contra o aborto tem várias vertentes: a da política legislativa, mas também a social (o combate às suas causas) e a cultural (a difusão de uma mentalidade acolhedora da vida, de toda a vida, como um dom). É o que importa salientar, entre nós de modo particular a propósito do aniversário do referendo. A discussão não morreu. Nessas três vertentes, a luta continua.
Juiz

sábado, 26 de julho de 2008

Serviço publico de televisao, Joao Miranda, DN 080726

SERVIÇO PÚBLICO DE TELEVISÃO


João Miranda
investigador em biotecnologia
jmirandadn@gmail.com

A RTP comprou os direitos de transmissão em canal aberto dos jogos da Liga de futebol. A Administração da RTP, seguindo a lógica das televisões privadas, decidiu dar aos seus telespectadores o entretenimento que eles querem ver. Ao fazê-lo, reconheceu a falência do conceito de "serviço público" de televisão. A RTP foi atrás das audiências, sem as quais não tem como justificar a sua existência, porque percebeu que os programas considerados de "serviço público" (as artes, os documentários, o teatro e o cinema de autor) não atraem público.

Numa sociedade livre, o conceito de "serviço público" de televisão perde qualquer sentido. As pessoas são livres de escolher. Os programadores da televisão pública são forçados a optar entre uma programação de "serviço público", que a maior parte do público não quer ver, e uma programação vulgar que as empresas privadas já emitem. Mas o problema é ainda mais profundo. Numa sociedade livre, não existe ninguém que possa falar em nome da comunidade. Cada membro da sociedade tem direito a exprimir livremente as suas próprias ideias e a defender os seus próprios interesses. Os programas de televisão são serviços prestados aos interesses de quem os vê. Não há razão nenhuma para que todos paguem aquilo que apenas interessa a alguns.

A televisão pública é uma imposição política de uma parte da sociedade. Tende a ser defendida por aqueles que são a favor da predominância do Estado e das elites sobre a sociedade. Este facto coloca a RTP num conflito de interesses. A RTP tem obrigação de tratar a discussão pública de forma imparcial, mas tem o interesse em promover as ideias que justificam a sua própria existência. A RTP resolve esse conflito a seu favor. Faz uma defesa intransigente do serviço público de televisão nos seus programas. Mas, mais importante, defende as ideias culturais e políticas que a favorecem. A RTP adopta o discurso cultural das elites e transmite ao espectador uma visão benigna do Estado enquanto instituição dirigente da sociedade.

26 de Julho - Santa Ana e S. Joaquim

CLEVE, Joos van
c.1525
Santa Ana com a Virgem, o Menino e S. Joaquim
Madeira, 109 x 74 cm
Musées Royaux des Beaux-Arts, Brussels

sexta-feira, 25 de julho de 2008

As gargalhadas de João Paulo II



40 anos da «Humane Vitae», «sinal de contradição», Zenit 080726

40 anos da «Humanae Vitae», «sinal de contradição»

Director do «L’Osservatore Romano» comenta a encíclica de Paulo VI

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 25 de julho de 2008 (
ZENIT.org).- «Sinal de contradição»: assim define Giovanni Maria Vian, director do «L’Osservatore Romano», a encíclica Humanae Vitae, assinada por Paulo VI em 25 de julho de 1968.

O texto, recorda, «rejeitava a contracepção com métodos artificiais» e ia «contra o hedonismo e as políticas de planeamento familiar, geralmente impostas aos países mais pobres pelos mais ricos».

Logo quando foi publicada, a encíclica suscitou «uma oposição sem precedentes dentro da própria Igreja católica».

O cardeal Joseph em 1995 que «raramente um texto da história recente do Magistério se converteu tanto em sinal de contradição como esta encíclica, que Paulo VI escreveu a partir de uma decisão profundamente sofrida».

Apesar de tudo, o Papa não mudou a sua posição. Em 23 de junho de 1978 reafirmou ao colégio cardinalício, «após as confirmações da ciência mais séria», as decisões tomadas então que buscavam afirmar o princípio do respeito pelas leis da natureza e o «de uma paternidade consciente e eticamente responsabilizada».

No discurso que fez na solenidade de Pedro e Paulo, fazendo uma espécie de balanço de seu pontificado, o Papa Giovanni Battista Montini «citou as encíclicas Populorum Progressio Humanae Vitae como expressões daquela defesa da vida humana que definiu como elemento imprescindível no serviço à verdade da fé».

Humanae Vitae, recorda Vian, «é coerente com as importantes novidades conciliares sobre o conceito do matrimónio», mas, sobretudo, foi uma profecia para os tempos actuais.

Frente às «inquietantes evoluções da engenharia genética», se demonstra «lúcida e antecipadora quando declara que ‘se não se quer expor ao arbítrio dos homens a missão de gerar a vida, devem-se reconhecer necessariamente limites intransponíveis no domínio do homem sobre o próprio corpo e as suas funções; limites que a nenhum homem, seja ele simples cidadão privado, ou investido de autoridade, é lícito ultrapassar’».

Apesar dos muitos ataques à que foi definida a «encíclica da pílula», elevaram-se também vozes em favor do que o Papa escreveu.

No «L’Osservatore Romano» (OR) de 6 de setembro de 1968, Jean Guitton definiu a encíclica ferme mais non fermée (firme, mas não fechada), pois mostra que o «caminho estreito» do Evangelho é «o caminho aberto ao futuro».

O cardeal jesuíta Jean Daniélou, por sua vez, sublinhava que o documento «nos fez sentir o caráter sacro do amor humano», expressando uma «revolta contra a tecnocracia».

O director do OR defina a Humanae Vitae como um «autêntico sinal de contradição», sublinhando que «não é lembrada com gosto» «por seu ensinamento exigente contra a corrente» e porque «não é útil ao jogo corrente que põe os papas um contra o outro, método talvez útil do ponto de vista historiográfico para delinear óbvias diferenças, mas que tem que ser rejeitado quando é usado instrumentalmente, como acontece continuamente em todo o panorama da mídia».

Os que apoiaram Paulo VI foram o cardeal Karol Wojtyla, «arcebispo de Cracóvia que teve um papel importante na comissão ampliada e que teria depois inovado muito com seu magistério pontifício sobre o corpo e a sexualidade», e Joseph Ratzinger, «outro purpurado criado por ele».

Este aspecto, conclui Vian, mostra «a vital continuidade da proposta cristã também sobre o problema do controle de natalidade», que em 23 de junho o Papa definia como «extremamente grave» porque «toca os sentimentos e os interesses mais próximos à experiência do homem e da mulher».

 

25 de Julho - S. Tiago

ANTONIO VENEZIANO
Apóstolo Tiago Maior
c. 1384
painel de choupo, 51 x 33 cm
Staatliche Museen, Berlin






quinta-feira, 24 de julho de 2008

JANUS

Diário de Notícias, 080724
Maria José Nogueira Pinto
jurista
Temos tanta informação mas não sabemos a verdade!" Esta exclamação de García Márquez, no seu último livro, fez-me lembrar a conversa que tive com Maluda sobre o deus Janus. Janus é um deus com duas cabeças. Uma representa o interior e outra o exterior. O interior é a segurança, a relação familiar com as pessoas e as coisas, o conhecimento certo dos espaços e das distâncias, o equilíbrio. Mas pode transformar-se num isolamento estéril e autista, por falta de referência, relação e alimento. O exterior é o desconhecido, o imprevisível, por vezes o hostil, mas é a vocação da vida e o caminho da percepção do real e, em muitos casos, de uma profícua vida interior. Ao fim e ao cabo, Janus, com a sua bicefalia, expressa a antiquíssima questão das partes e do relacionamento entre o mundo interior e o mundo exterior. Em termos arquitectónicos, a janela (palavra cuja raiz é janus) traduz esta ambivalência com que todos nós nascemos, vivemos e morremos. O vidro não permite apenas a entrada da luz mas a visão simultânea de ambas as realidades. A Humanidade teve sempre conflitos, vencedores e vencidos, fracos e fortes, bons e maus, governantes e governados, formas de organização das diferenças e modelos sociais e económicos. Quase nada é novo porque a matriz é sempre a mesma. Excepto o facto de o homem, ao evoluir para formas técnicas de comunicação simultaneamente mais acessíveis e mais complexas, poder ter aberto uma caixa de Pandora.Segundo um estudo recente, mais de metade dos portugueses consomem o seu tempo livre em frente da televisão. Significa que a televisão constitui o meio, por excelência, do entretenimento, da informação e da percepção do mundo. Em suma, a principal "janela" de mais de metade dos portugueses. Não é por acaso que hoje se fala no Homo videns como o novo Homem, aquele que vive da absorção das imagens, transformado numa conduta passiva por onde passa, constantemente, um imenso caudal de informação que ele é incapaz de assimilar.Um Homo pior? Não necessariamente. Ainda não estão avaliadas as consequências da substituição da leitura, da conversa, da observação directa do que nos rodeia pela imagem. Para mim a diferença é abissal e senti-o recentemente quando vi o filme Atonement, inspirado no romance homónimo de Ian McEwan, e a seguir li o livro. Foi só e mais nada a diferença entre um bom filme e um romance avassalador!Na esfera do Público, entendida como o espaço tradicional da Opinião Pública, são já inúmeros os estudos sobre as consequências de um domínio crescente dos meios de comunicação sobre esse espaço.Karl Popper, por exemplo, perante a força destes instrumentos mediáticos em sociedades que se assumem como manipuláveis, afirmava que a televisão tinha substituído a voz de Deus. Eu diria que, sobretudo, substituiu a vox populi, ao modelar o nosso espaço comum, moral e cultural, de forma entrópica. Mas, se às televisões é dado o poder de fazerem hoje a agenda ou ordem de trabalhos dos acontecimentos, dos sentimentos e dos valores, é justo procurar outras causas. Em Portugal, a classe política foi a primeira a iniciar uma relação assente numa videodependência assustadora. Grande parte dos políticos convenceu--se de que só existe se a sua imagem e a sua palavra forem difundidas pelos media. Depois veio a Justiça, e o seu sistema judicial, a reboque das exigências do tempo mediático. Os casos judiciais começaram a "vender" mediaticamente a partir de processos como o da Casa Pia e viram-se as nefastas consequências. Recentemente, um sector por vocação cauteloso e sigiloso optou por tratar a sua crise interna mediaticamente - falo do BCP - abrindo um precedente terrível.Tudo isto reforça a exclamação de García Márquez: temos hoje tanta informação, mais do que alguma vez pensámos ser possível e, contudo, quase nunca sabemos a verdade.Porque como diz Rushdie, quando a imagem e a ilusão se tornam as bases da política, percebemos que quase todos são idólatras e já não existem muitos iconoclastas.


Ainda mais divórcio

PÚBLICO, 24.07.2008, Pedro Vaz Patto

Uma sociedade que não valoriza os compromissos duradouros também não valoriza nem promove a natalidade
Foram recentemente aprovadas alterações legislativas tendentes a facilitar o divórcio. Não se foi tão longe como as propostas que pretendiam introduzir (na linha da recente reforma espanhola) o chamado "divórcio unilateral", que dependeria da simples manifestação de vontade de um só dos cônjuges, contra a vontade do outro, independentemente dos motivos e mesmo que tivesse sido ele a violar os deveres conjugais. Mas as alterações aprovadas vão nesse sentido, uma vez que foi reduzida para um ano (um prazo que começou por ser fixado nos seis anos e foi, depois, reduzido para três) a duração da separação de facto que torna possível uma forma de divórcio que também acaba por ser unilateral. Verificando-se essa separação, o divórcio será decretado contra a vontade do cônjuge não requerente e mesmo que tenha sido o cônjuge requerente a violar os seus deveres conjugais (a violação dos deveres conjugais deixa de ser relevante neste plano).Além de outras questões que estas alterações poderiam suscitar, impõe-se a reflexão sobre o sinal e a mensagem cultural que acarreta, no nosso actual contexto, uma reforma tendente a facilitar ainda mais o divórcio.No contexto europeu, o número de divórcios cresceu 50 por cento nos últimos 25 anos e hoje, em média, um em cada dois casamentos termina em divórcio. Embora Portugal se situe ainda abaixo dessa média, dela se vai aproximando cada vez mais, e a taxa de crescimento do número de divórcios é, entre nós, das maiores da Europa (no referido período mais do que duplicou).Esta situação não deve ser encarada com indiferença, como se estivessem em jogo meras opções individuais sem reflexos sociais. Que se torne regra (e já não excepção) a situação de as crianças não viverem com ambos os pais não pode deixar de ter repercussões socialmente nocivas, por muito que se procure reduzir os danos (o que é louvável), ou por muito que se procure (o que já não pode aceitar-se) mascarar ou "branquear" a crueza dessa realidade. São vários os estudos que comprovam essas repercussões, designadamente os que retratam a situação dos Estados Unidos, pioneiros na difusão acentuada do divórcio (podem consultar-se alguns deles em www.socialtrendsinstitute.org). O crescimento exponencial do divórcio na Europa nos últimos 25 anos, a consideração dos custos emocionais, sociais e até económicos daí decorrentes e a noção de que a estabilidade da família é um verdadeiro capital social estão na base de um documento recente da Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia: Proposal for a Strategy of the European Union for the Support of Couples and Marriage (acessível em www.comece.org).Por outro lado, também vai sendo reconhecido como uma política de família não se confunde com uma política de concessão de subsídios; é, antes de mais, uma política cultural de valorização da família.Uma dimensão onde tal se revela de modo particular é a da natalidade, talvez a mais grave das crises sociais com que, numa perspectiva estrutural que vai para além do imediato, se confronta hoje a Europa. A natalidade não tem crescido mesmo nos países mais generosos no âmbito da concessão de subsídios. Está em causa uma mentalidade de desvalorização da vida. Não é certamente o Estado que influi decisivamente na criação dessa mentalidade, mas dele podem emergir, desde logo pelos sinais e mensagens culturais que difunde (ao colaborar, ou não, na prática do aborto, por exemplo), importantes contributos num ou noutro sentido. Para além da valorização da vida em si mesma, a valorização da estabilidade familiar, do capital social que ela representa, é também uma importante mensagem que o Estado e o seu ordenamento jurídico podem difundir em ordem à promoção da natalidade. Numa sociedade onde a assunção de compromissos duradouros, que vão para além dos impulsos do momento, não é valorizada e promovida, também não é valorizada e promovida a natalidade. E tornar o casamento o mais precário dos contratos (é a este ponto que têm chegado as reformas que cada vez mais têm facilitado o divórcio), facilitando ao máximo a vida de quem não foi fiel aos compromissos que assumiu, não transmite certamente uma mensagem de valorização desses compromissos. São só eles que permitem, de forma salutar e harmoniosa, renovar a sociedade através da geração de novas vidas. Juiz

Peregrinação a pé a Fátima - 8 a 13 de Outubro

“...Mas, falando da fé, é quase impossível não sentir pairar a pergunta de Cristo: “Mas o Filho do Homem, quando vier, encontrará fé sobre a terra?”. Pode-se achar essa pergunta um pouco exagerada no começo de um encontro como o nosso, [ou de uma carta a convidar para uma peregrinação]…, mas para mim não parece nada exagerada, dada a dificuldade que tantas vezes todos nós temos para reconhecer o Mistério como real no nosso meio. Vimos isso em várias ocasiões fazendo a Escola de Comunidade sobre a fé: não é raro perceber o Mistério como abstracto. Sobre isso, eu ouvi de tudo: auto-convencimento, dedução, projecção… Não quer dizer que essa pergunta não nos diga respeito, diz sim, e esse é o ponto! Logo que aparece qualquer percurso a ser feito com a razão, a existência do Mistério para nós torna-se fruto de um raciocínio, de uma dedução, mais do que um reconhecimento..”
Padre Julián Carrón, na abertura dos Exercícios da Fraternidade Comunhão e Libertação, Maio 2008

11 de Julho de 2008, dia de S. Bento,padroeiro da Fraternidade de Comunhão e Libertação

Queridos Peregrinos,
Os dias de caminho que faremos na 26:ª peregrinação Lisboa-Fátima no próximo mês de Outubro serão carregados deste pedido: que Cristo permita que consigamos aprender a reconhecê-Lo no meio de nós. Para isso peçamos-lhe, antes de mais, um coração pobre, um coração capaz de O reconhecer como companheiro de caminho, um coração dócil, disposto a aprender com a experiência de fé que certamente todos iremos fazer.
Despedimo-nos até à reunião de preparação no dia 1 de Outubro, chamando a vossa atenção para os avisos práticos que podem encontrar aqui.
Recebam um abraço dos vossos,
Padre João Seabra
Ricardo Saldanha / Joana Queiroz / Pedro Aguiar Pinto

Crise de fora? JCdasNeves, Destak, 080724

Crise de fora?

24 07 2008 08.37H

O discurso económico do Governo mudou radicalmente nas últimas semanas. Durante anos defendeu a tese que Portugal estava em recuperação e começaria em breve o crescimento acelerado. Agora assume que a crise e a culpa é externa.

A situação é mesmo séria. Quando chegou ao poder em 2005 o Governo previu um crescimento de 3% para 2009 no fim da legislatura. Agora o Banco de Portugal indica que a taxa será 1.3%, menos de metade e igual a 2006. Pior é a evolução do défice externo (corrente e capitais), o endividamento total do País. Em 2005 ele atingia o nível gravíssimo de 7,9% e o Governo prometia uma descida para 6% em 2009. Afinal deverá ser quase o dobro, uns impressionantes 11,1%. O País regrediu no crescimento e piorou no desequilíbrio. Afinal os anos anteriores, supostamente de crise, foram os bons. Agora começam os maus.

Não há dúvida de que é externa a causa principal da situação. A crise americana do crédito, o choque do petróleo e a instabilidade internacional afectam muito uma pequena economia aberta como a nossa. Mas se o quadro fosse favorável, o Governo ficaria orgulhoso e não diria que o mérito era estrangeiro. Sendo mau, é bom que assuma alguma da censura.

A responsabilidade do choque não é sua, mas cabe ao Governo a culpa de não ter usado os anos passados para corrigir os desequilíbrios. Alguma coisa fez, mas ainda se está longe da solução. O choque internacional toca a todos, mas alguns países enfrentam-no com grande fragilidade. Portugal está neste grupo. O Governo não é culpado da crise de fora. Mas tem de assumir a confusão dentro.

João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Precisa-se de ajuda urgente

Queridos amigos,
Para quem não sabe sou assistente social numa instituição de apoio a grávidas (Ponto de Apoio à Vida). O Ponto de Apoio à Vida está neste momento a acompanhar uma situação de uma jovem adolescente, grávida, que vive com a mãe e 3 irmãos numa casa 'abarracada' de duas assoalhadas. Ela dorme no quarto com dois irmãos e um deles tem de dormir no chão. O quarto não tem espaço para mais camas e por isso esta família precisava de um beliche. Se alguém tiver um beliche a mais ou souber de alguém que tenha um e queira dar, por favor mande email para mariafonsecacosta@gmail.com que o Ponto de Apoio à Vida entra em contacto. Obrigada!
Maria Fonseca Costa
Ponto de Apoio à Vida





Os pobres de Estado

PÚBLICO, 23.07.2008, Rui Ramos
Hoje, os pobres são uma espécie de cobaias com que os burocratas e pensadores fazem as suas experiências sociológicas
Ovelho génio nacional não conhece limites. Foi o que se provou mais uma vez com o caso da Quinta da Fonte, em Loures. Por toda a Europa, os chamados "bairros sociais e degradados" ("barris de pólvora", segundo o cliché) são origem regular de notícias e imagens de violência. Em Portugal, porém, há remédio para tudo. A inteligência indígena detectou logo a causa do problema: a concentração das "minorias" pobres no mesmo bairro. E ainda mais rapidamente descobriu a solução: dispersar e diluir as ditas "minorias" pelos outros bairros da cidade. O método é, no fundo, escolar: uma vez que os meninos se portam mal quando estão uns com os outros, vamos sentá-los em carteiras separadas, para que não tenham parceiros com quem se distrair. Não é bom viver num país onde tudo é tão simples?Na Índia, segundo a velha história, Afonso de Albuquerque liquidou uns fumos de apartheid forçando casamentos mistos. Hoje, os seus descendentes contentam--se, até ver, com a "miscigenação" residencial. Não me atrevo, como é óbvio, a contrariar uma sabedoria com tantos adeptos. Há, no entanto, uma pergunta que naturalmente ocorre: porque não tentar atingir o mesmo efeito de "mistura social" deslocando as classes médias dos seus condomínios para a Quinta da Fonte ou para a Cova da Moura? Responder-me-ão: porque se recusariam a ir e não se pode obrigá-las. O que, precisamente, não se passa com os pobres: a esses é possível obrigar, como estão a descobrir os refugiados da Quinta da Fonte. Os pobres dependem do Estado. Em troca de casa e de subsídios, encontram-se à mercê dos funcionários, que os controlam e os colocam onde bem entendem, e dos "especialistas", que os estudam e decidem o que mais lhes convém. E nada disto, curiosamente, parece perturbar os patronos da pobreza.Os pobres, no actual regime social, são o que a discussão à volta da Quinta da Fonte revelou: uma espécie de cobaias com que os burocratas e pensadores do Estado Social fazem as suas experiências sociológicas. Um dia, apetece-lhes concentrá-los todos no mesmo bairro, desenhado de uma forma peculiar por um arquitecto progressista; no outro dia, ocorre-lhes que afinal o melhor é dispersá-los pela cidade, "como antigamente", recorrendo às casas devolutas; num dia, resolvem preservar-lhes as identidades e culturas de origem, porque tentar "assimilá-los" seria racismo; no outro dia, decidem sujeitá-los aos "valores comuns da cidadania", porque reconhecer-lhes distinções "étnicas" é que é verdadeiramente racismo; num dia, retiram-lhes a polícia da rua, para evitar "provocações"; no outro, impõem-lhes o "policiamento de proximidade". E por aí fora, sempre em ziguezague. Eis a tragédia da pobreza: em troca do alívio público das suas carências, milhares de famílias tornaram-se carne para os canhões burocráticos e intelectuais do Estado Social.Noutras sociedades, os "pobres" eram frequentemente aqueles que estavam "de fora": no nosso regime social, ao contrário, não há ninguém mais "marcado" pelo poder, através da polícia e da assistência. Ora, o episódio da Quinta da Fonte mostrou que um dos problemas dos pobres é o seu mestre e senhor, o Estado Social, ainda não ter decidido que fazer deles. Concentrá-los, ou distribuí-los? Reconhecer-lhes o direito a identidades próprias e a viver em comunidades separadas, ou atomizá-los e apagar-lhes as diferenças, convertendo-os numa massa invisível? As modas mudam regularmente, conforme o último vento a soprar nos ministérios e departamentos universitários. Este ano, como em anteriores, o que está a dar é a "integração", de que se fala com o fervor que os antigos ideólogos do colonialismo nacional dedicavam à "assimilação". A magia da palavra faz esquecer que se há algo que caracteriza estes pobres é precisamente o de já se encontrarem "integrados" - no Estado Social. Sempre para bem deles?Já muita gente perguntou se essa "integração", ao cultivar a dependência do Estado, não acaba por prender famílias e indivíduos no gueto e na marginalidade donde é suposto estarem a ser resgatadas. Mas os procuradores do Estado Social recusam qualquer alternativa que exija esforço e responsabilidade pessoal aos "seus" pobres. Convém-lhes mantê-los com o estatuto de puras "vítimas", sem culpa nem consciência. É assim mais fácil usá-los como material de arremesso no confronto ideológico, e sobretudo justificar o aparato que visa "protegê-los" como se fossem menores. Entretanto, num jardim de Loures, uma meia centena de famílias espera que o Estado, que as tem por conta, resolva o que vai ser a vida delas.

A prisão de Karadzic, ou a coragem de preferir a verdade e a liberdade

PÚBLICO, 23.07.2008, José Manuel Fernandes
É tempo de os sérvios enfrentarem Srebrenica e compreenderem que os criminosos de guerra não são nem heróis nem monstros, antes homens cuja sede de poder os levou a escolher os caminhos do mal absoluto
Radovan Karadzic, lia-se ontem num comentário no publico.pt, bem podia passar pelo Pai Natal. Com as suas longas barbas brancas, o cabelo também longo e branco, os olhos escuros e quase tristes, o antigo líder dos sérvios da Bósnia mais pareceria uma figura angelical do que um criminoso de guerra. O homem que, sob um nome falso, dava consultas numa clínica de Belgrado é um dos principais responsáveis por uma guerra genocida de que resultaram mais de 100 mil mortos. Desses, oito mil foram mortos a sangue- -frio há quase exactamente 13 anos nos arredores de Srebrenica.Assim: "Depois da primeira vez, Drazen disparou várias outras vezes a intervalos de minutos, sem pensar muito no que estava a fazer. A única coisa que fazia conscientemente era tentar apontar a idosos e não a homens novos. Parecia-lhe um desperdício menor. Em pouco tempo, a camioneta ficou vazia. Quando olhou para o relógio, Drazen sentiu-se chocado: tinham levado apenas um quarto de hora a executar cerca de 60 pessoas."Este relato, retirado do livro Não Faziam mal a Uma Mosca, da jornalista e escritora Slavenka Drakulic e recentemente editado em Portugal, apenas entreabre as portas para os horrores que a autora viu serem descritos durante as sessões do Tribunal Penal Internacional para os Crimes de Guerra na ex-jugoslávia. E Drazen Erdemovic, que tinha apenas 24 anos à altura dos acontecimentos, é um dos criminosos que saiu com uma das penas mais leves porque colaborou com a justiça. Mas se isso o distinguiu da maioria dos que foram julgados em Haia, algo o aproximava de todos: nada, na sua vida anterior à guerra, fazia prever que um dia cometesse atrocidades. Ou até que servisse no exército da chamada Republica Srpska, para onde entrou apenas porque estava desempregado e acabara de ser pai.E que dizer de Goran Jelisic, alguém com "ar de ser uma pessoa em que se pode confiar", como escreve Slavenka, mas que terá executado, a sangue-frio, um milhar de prisioneiros, muitos deles antes do pequeno-almoço, de quase todos eles fazendo uma cuidadosa contabilidade de que se gabava? Ou então de Kunarac, Kovak e Vukovic, todos condenados por terem maltratado, torturado, violado e oferecido para violação dezenas de jovens mulheres muçulmanas em Foca, uma vila nas montanhas da Bósnia, e que ainda não devem ter compreendido porque foram condenados e não podem simplesmente "estar na rua principal, fumando, bebendo aguardente e contando histórias de guerra"? Ou ainda de Radislav Krstic, um dos generais que cumpriu as ordens do comandante supremo do exército dos sérvios da Bósnia, Mladic, durante o assalto e os massacres de Srebrenica, alguém que se via a si mesmo apenas como um soldado profissional e íntegro, que cumpria ordens? Ou, por fim, de Biljana Plavsic, professora de Biologia, bolseira numa universidade americana, mas que pisou o cadáver de uma das vítimas do temível Arkan para, de forma quase cenográfica, o abraçar, alguém que, no tribunal, usava metáforas "científicas" para justificar o genocídio, como a de os muçulmanos seriam "um erro genético no organismo sérvio"?Karadzic, o "inofensivo Pai Natal", era só o instigador de todos eles. Karadzic e o seu companheiro, e depois rival, Ratko Mladic, o chefe do exército. E também quando, no início dos anos de 1990, ascendeu à liderança dos sérvios da Bósnia, e dificilmente se poderia imaginar que alguém que nascera numa família pobre do Montenegro rural conseguiria singrar na vida até se tornar num psiquiatra e poeta respeitado de Sarajevo, poucos imaginavam que aquele homem de rosto ameno e cabelos grisalhos e revoltos incitaria os seus às maiores barbaridades. Como Slavenka Drakulic reflecte num texto escrito ontem, para a revista The Nation, considerar que ele é apenas "um monstro" é não compreender que isso é a forma mais fácil de fugirmos à ideia terrível de que todos nós podemos, um dia, cometer atrocidades. "Não são monstros", escreve Drakulic. "Os seres humanos têm a capacidade de fazer o bem e o mal. Mas também têm a capacidade de escolher." É ao escolherem que fazem a diferença.Por Haia passaram académicos e motoristas de táxi, mecânicos e empregados bancários, intelectuais e camponeses, e os que foram condenados foram-no por terem feito as escolhas erradas - mesmo quando se afirmavam inocentes e garantiam não ter tido escolha. Claro que tinham, se não tivessem ao mesmo tempo a ilusão que a orgia de violência era o caminho, para à escala de cada um sentirem a ilusão do poder absoluto - e que poder é mais absoluto do que decidir sobre se um homem vive ou morre?Também por isso é tão importante o que aconteceu segunda-feira na Sérvia: um governo democrático ter escolhido cumprir a lei, ter dado ordens e fornecido os meios para que um dos derradeiros heróis sagrados dos radicais sérvios fosse detido e entregue à justiça. Durante os últimos 15 anos outros governos e outros poderes tiveram a possibilidade de fazer a mesma escolha e não a fizeram, permitindo que o homem que se deliciava com o espectáculo das bombas a cair sobre Sarajevo continuasse à solta. Este Governo pró-europeu fez a escolha certa e não apenas porque teria de a fazer mais cedo ou mais tarde, se quisesse continuar a aproximar o seu país da União Europeia. Este Governo de Belgrado fez a escolha certa porque teve a coragem de ser livre, de se libertar dos mitos e dos fantasmas do passado do seu país. Mais: teve a coragem de enfrentar esse passado em nome da verdade e da justiça.

23 de Julho - Santa Brígida da Suécia

NICCOLÒ DI TOMMASO
Santa Brígida e a visão da Natividade
depois de 1372
Têmpera sobre madeira, 44 x 54 cm
Pinacoteca, Vaticano




terça-feira, 22 de julho de 2008

A Igreja em Portugal, hoje

Fátima, 22 de Julho de 2008
D. Manuel Clemente


Conferência do Bispo do Porto ao Colégio Internacional das Equipas de Nossa Senhora

Apresento nesta curta reflexão algumas notas pessoais sobre a relação da Igreja Católica com o Portugal contemporâneo. Uma breve caracterização que me levará a adiantar alguns pontos para o futuro.Comecemos pelo país, Portugal. Um território com cerca de 90 000 quilómetros quadrados (continente e ilhas), uma população que ronda os dez milhões, imigrantes incluídos. Uma das mais antigas nações europeias (independente desde o século XII), com forte unidade cultural. Uma experiência histórica densa, com grande expansão mundial desde o século XV.Sofre actualmente das características comuns à Europa: urbanização e sub-urbanização gerais, desagregação da família tradicional, com baixa de casamentos, religiosos e mesmo civis, aumento de divórcios, escassez de filhos e de gente nova. Culturalmente, oscila entre a globalização e a individualização. Muito maior circulação de informações em todo o tipo de redes, das informáticas às inter-locais, de escolaridade, trabalho e diversão, mesmo para fora do país. Muito maior determinação e vivência individuais, nas escolhas, consumos e planos.À sociedade maioritariamente fixa de nascimento, crescimento e pertença, vigente até aos anos sessenta do século passado, sucedeu a variedade de “percursos” e territórios, geográficos e mentais. Estamos na primeira geração que hesita quando perguntada de que terra é… Um novo tipo de nomadismo e errância.Atendamos a alguns números referentes à Igreja Católica em Portugal (cerca de 10 milhões de habitantes): Entre 2000 e 2006, o número de sacerdotes diocesanos baixou de 3159 para 2894. Em média, por dois que morreram ordenou-se apenas um novo… Em 21 dioceses, incluindo a das Forças Armadas, havia, no final de 2006, 2894 padres diocesanos e 1052 padres de Institutos Religiosos, 198 diáconos permanentes, 327 religiosos professos e 5717 religiosas professas, diminuindo estas também. Os seminaristas de filosofia e teologia desceram de 547 diocesanos e religiosos no ano 2000, para 475 em 2006. A percentagem de “católicos” em Portugal situa-se nos 88, 10% (cf. Menos padres em Portugal. Agência Ecclesia. Semanário de Actualidade Religiosa, 15 de Julho de 2008, p. 4). Aliás, quando falamos de dioceses, Lisboa e o Porto juntas têm quase metade da população do país. Variam entre dezenas de milhares e a centena os habitantes dos quatro milhares e meio de paróquias.Também desde os anos sessenta, os “movimentos” trouxeram algo de novo no modo de incluírem os católicos que lhes aderem. Se até então tinham uma forte referência local, como nas secções paroquiais da Acção Católica, constituem-se agora a partir de adesões inter-pessoais, de ideário e vivência, que geralmente não se confinam a um território específico. São relativamente novos e distintos do que ainda há décadas acontecia como vinculação eclesial. Por isso mesmo, podem encontrar alguma resistência da parte da pastoral tradicional, muito mais localizada.Também a definição vocacional específica de sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas, bem como o respectivo encaminhamento formativo encontra alterações importantes. Ao grande número de entradas nos seminários menores, como ainda se constatava até há meio século, sucedeu-se o esvaziamento e a quase extinção dessas instituições. Hoje entra-se menos e mais tarde nos seminários, ainda que haja mais persistência depois. Crescem as decisões pessoais e adultas, menos dependentes do envolvimento familiar.A prática dominical situou-se no último recenseamento (2001) em cerca de 20 % da população portuguesa. Mas a prática menos ritmada é muito maior: em Junho desse mesmo ano, uma sondagem asseverava que mais de 70 % da população praticava uma vez por mês algum acto da sua crença. Há cerca de um mês, uma outra sondagem mostrava que cerca de 70 % dos portugueses continua a incluir o catolicismo na definição nacional.Portugal dispõe dum grande centro espiritual, verdadeiramente nacional, tanto como internacional. Refiro-me a Fátima e aos seus mais de 5 milhões de peregrinos anuais (com mais de 200 000 confissões). Desde 1917 e crescentemente, esta é uma particularidade do catolicismo português, que se encontra e revê no grande centro mariano. Além das presenças ocasionais, dificilmente definíveis em termos de ortodoxia e ortopraxia, Fátima atrai um crescente número de peregrinos, de variadas condições sociais e culturais; acolhendo, aliás, todo o tipo de celebrações e cursos de índole pastoral, abertos à participação de crentes do país inteiro. A Igreja em Portugal conta com centenas de associações de fiéis da mais diversa índole, do estritamente “religioso” ao mais abertamente social e sócio-caritativo. É também por aqui que a Igreja Católica mais se aproxima da sociedade e dos seus problemas, como é geralmente reconhecido. No entanto, é crescentemente difícil garantir a sucessão dos responsáveis dessas associações, também por causa das múltiplas deslocações de residência ou trabalho, ou por alguma resistência ao compromisso, tão própria da atmosfera pós-moderna, individualista e errática, geográfica e mentalmente.Neste contexto, compartilhado pela Europa em geral, aplica-se perfeitamente ao país o que João Paulo II escreveu em 2003, na exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Europa, nº 46: “Em várias partes da Europa, há necessidade do primeiro anúncio do Evangelho: aumenta o número das pessoas não baptizadas, […] porque famílias de tradição cristã não baptizaram os filhos devido […] a uma generalizada indiferença religiosa. Com efeito, a Europa faz parte já daqueles espaços tradicionalmente cristãos, onde, para além duma nova evangelização, se requer em determinados casos a primeira evangelização. […] Mesmo no ‘velho’ continente existem extensas áreas sociais e culturais onde se torna necessária uma verdadeira e própria missio ad gentes”. De tudo isto se vê na Igreja portuguesa. A par da habitual acção pastoral, que absorve a maior parte da actividade católica, nas diversas comunidades - catequese e pregação, liturgia e piedade, acção sócio-caritativa -, têm-se tentado algumas iniciativas de nova evangelização e vai-se assumindo a missio ad gentes interna ou, pelo menos, a sua necessidade.Por “nova evangelização” entendia o mesmo Pontífice, na exortação apostólica pós-sinodal Christifideles Laici, de 1988, nº 34, o seguinte: “Esta nova evangelização, dirigida não apenas aos indivíduos mas a inteiras faixas de população, nas suas diversas situações, ambientes e culturas, tem por fim formar comunidades eclesiais maduras, onde a fé desabroche e realize todo o seu significado originário de adesão à pessoa de Cristo e ao seu Evangelho, de encontro e de comunhão sacramental com Ele, de existência vivida na caridade e no serviço”.Em 2005 realizou-se em Lisboa uma sessão do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, onde se pretendeu precisamente propor e redescobrir “Cristo vivo”, como pólo autêntico da vida cristã e eclesial. Para isso, além das sessões gerais de reflexão e testemunho, em torno da problemática da vida nas suas várias acepções, experimentaram-se e verificaram-se várias realizações missionárias na cidade, quer em comunidades que habitualmente as tentam, quer em testemunhos de fé nos espaços públicos, do simples anúncio às manifestações culturais. Na sessão de Lisboa do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, apurou-se mais a respectiva prática, em dois pontos essenciais: o anúncio é precisamente o de Cristo vivo, como fonte de vida (verdade, bondade e beleza) para as pessoas, as famílias e a sociedade; e anúncio protagonizado por comunidades convictas – paróquias, congregações, movimentos, estabelecimentos de ensino ou saúde, etc – que testemunham e acolhem a todos, crentes ou descrentes que sejam. E tudo isto com a necessária criatividade e inovação, lembrando a tripla qualificação que João Paulo II fazia da “nova evangelização” (Haiti, 1983): “nova no ardor, nos métodos e nas expressões”. Ganha-se mais consciência de que a “nova evangelização” tem de reforçar o interesse e o empenhamento nos aspectos éticos (compromisso social e promoção da vida), estéticos (a beleza evangélica nas letras e nas artes) e comunitários (convivência e partilha). Ainda que, em relação a este último ponto sobrem dificuldades e indefinições.Considero, de facto, que o maior desafio pastoral do catolicismo português para os tempos mais próximos está na inevitável reconfiguração da comunidade cristã. Por um lado, sabe-se e comprova-se que não há iniciação nem crescimento na fé sem comunidade, própria e persistente. Por outro, manifestam-se continuamente as dificuldades em formar e manter comunidades fixas numa sociedade tão fugaz e movediça como a actual. Lembremos, aliás, que as “redes” de comunicação, concretamente televisivas e informáticas, não se definem em termos territoriais.É aqui que algumas experiências se vão somando na Igreja em Portugal, quer no âmbito da pastoral inter-paroquial e transcomunitária, quer nos movimentos, quer nas famílias. Com a normal resistência da religiosidade arcaica e realmente pré-cristã, que continua a ter como únicos artigos do seu credo “a terra, o sangue e os mortos” – prevalecendo a terra e a capela de cada grupo, os laços do sangue e o descanso dos respectivos falecidos -, as grandes propostas do Concílio Vaticano II vão tendo alguma recepção, como o actual contexto sócio-cultural mais exige. Efectivamente, um conceito mais correcto e universal da Igreja de Cristo - ainda que vá a par com a sua dimensão particular -, o acolhimento do apelo geral à missão, a afirmação do conteúdo cristológico e trinitário do querigma evangélico, a maior atenção aos “sinais dos tempos”, como apelos do Espírito no coração do mundo actual, tudo vai originando, aqui e ali, novas concretizações de corresponsabilidade, comunhão e testemunho. São hoje múltiplas as acções de evangelização de grupos, movimentos e famílias, com grande empenho e criatividade laicais. Podem ser famílias que transformam os seus lares em pontos de acolhimento e partilha cristã nos respectivos prédios; podem ser acções conjuntas de evangelização e missão popular, envolvendo paróquias, congregações e movimentos; podem ser novas formas de missão à distância, com geminação de paróquias europeias e ultramarinas; podem ser “sítios” e “blogues” na Internet… De tudo um pouco se vai constatando em Portugal. E também uma considerável presença na Rádio e na Televisão, a nível nacional ou local. Na televisão pública, por exemplo, a Igreja Católica dispõe de vinte e alguns minutos de segunda a sexta-feira, além de um tempo ao Domingo; também na rádio estatal dispõe de algum tempo ao Domingo de manhã. No campo da rádio, o grupo Renascença, da Igreja católica, lidera as audiências. Estas e outras realidades do catolicismo português contemporâneo revelam a sua considerável vitalidade, mas não resolvem para já o problema pastoral acima indicado, isto é, o da reconfiguração comunitária da vida cristã. Alimenta-se, sem dúvida, um certo lastro cultural católico, que explica a persistente identificação do país com esta tradição religiosa. Facto redobrado com a notável presença da Igreja Católica no campo sócio-caritativo, para crentes e não crentes. Mas a capacidade das paróquias e outros centros comunitários de integrarem uma população cada vez mais fluida nos percursos individuais e familiares é efectivamente reduzida e, nalguns casos, cada vez mais problemática. Tanto mais que poucos poderão dizer com grande certeza qual será amanhã a própria realização social das existências. A Igreja Católica conheceu uma fase prevalentemente urbana nos seus primeiros cinco séculos, no Império Romano; percorreu depois um longo percurso rural; vive actualmente uma nova concentração urbana, mas muito mais movimentada do que a antiga; podemos até falar de desconcentração ou policentração, variando as estadas, semana a semana ou ao longo do ano, por vários locais. Pode mesmo dizer-se que muitos dos actuais portugueses são urbanos de semana, rurais de fim-de-semana e litorais de Verão, pois trabalham na cidade, descansam fora dela e vão para a praia no tempo quente… Difícil é assim a ligação persistente a uma comunidade situada, particularmente no aspecto religioso. Mais fácil é, para muitos, individualizarem a prática, indo a sucessivos locais de culto, mesmo a um grande santuário como Fátima, ou praticarem de longe em longe nalgum lugar onde se sintam bem, pela mais diversa e subjectiva ordem de razões.É neste contexto que a Igreja Católica em Portugal pretende “aproveitar” o Ano Paulino para se redefinir mais e reconfigurar melhor em termos propriamente cristãos. A Conferência Episcopal publicou, nesse sentido, a 6 de Maio último, um documento intitulado Ano Paulino, uma proposta pastoral, onde se sugerem passos em ordem a redescobrir a índole cristológica e eclesiológica da experiência cristã.Estamos de novo no âmbito da “nova evangelização” como atrás a vimos: “O alargamento do anúncio do Evangelho aos descrentes e aos que abandonaram a vida cristã, supõe evangelizadores com as características exigidas pela nova evangelização. No dizer de João Paulo II, esses evangelizadores têm de ser possuídos de um novo ardor, porque o seu testemunho é um primeiro anúncio de natureza querigmática” (Ano Paulino, nº 4).Querigma, anúncio de Cristo vivo, como proposta de vida n’Ele. Para tal se proclama a Palavra e se celebram os sacramentos: “O caminho catequético leva, sobretudo, à identificação com Cristo. O baptismo, sacramento pelo qual os que acreditaram em Jesus Cristo, através da Palavra, entram na comunidade dos discípulos, para caminharem em Igreja, consiste em morrer com Cristo, para com Ele ressuscitar. […] É uma caminhada catecumenal, porque aprofunda continuamente a alegria do seu início: a fé em Jesus Cristo e o mergulhar n’ Ele, no Baptismo” (Ano Paulino, nº 5).Caminho essencialmente comunitário, pois se trata duma autêntica “incorporação”, no grande “corpo” que Cristo forma com todos e cada um dos seus, muito além de qualquer subjectivismo ou alheamento. De novo a insistência paulina: “A união a Cristo, realizada no baptismo, é tão profunda, que a Igreja é a nova dimensão do Corpo de Cristo, a nova fase do mistério da encarnação” (Ano Paulino, nº 6).Contexto cristológico e eclesial que afasta imediatamente qualquer hipótese de exibicionismo ou protagonismo excessivo, contrariando também um certo gosto “pós-moderno” de originalidade e espectáculo. É sempre com Paulo que o documento da Conferência Episcopal nos lembra: “não há dons do Espírito estritamente para benefício individual, mas são dons para toda a Igreja e só esta é o juiz do seu discernimento” (Ano Paulino, 6).Nota igualmente importante e urgente é a da implicação de todos na nova evangelização do país. Também neste caso, muito para além da tripartição arcaica – e persistente! - entre “clero, nobreza e povo”, que reservava aos “homens do sagrado” a actuação religiosa, o Ano Paulino levar-nos-á a acolher o ensinamento e a prática do grande Apóstolo: “Paulo percebeu que toda a Igreja é chamada a ser, com os Apóstolos, corresponsável na missão. Agregou ao seu ministério cooperadores zelosos: presbíteros, que ‘trabalham na palavra e na instrução’ (1 Tim 5, 17), cristãos, mulheres e homens, empenhados no ‘trabalho do amor’ (1 Tes 1, 3). No final da Carta aos Romanos refere-se a eles com grande afecto: ‘Saudai Priscila e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus…’” (Ano Paulino, nº 7).Assim se sugere, em traço rápido, a situação da Igreja Católica em Portugal, no tempo que corre. Mais do que em situação, podemos falar em “tensão”. É desta que se trata, como num organismo vivo, que espera e arrisca. Sim, apesar das inevitáveis resistências de atavismos vários, ou de algumas desistências face a desafios grandes e desinstalações necessárias, há muita gente católica a redescobrir a substância cristológica do anúncio e da vivência crentes. Há muita gente, de mais ou menos idade, a redescobrir a dimensão eclesial da fé, com antigas e novas formas comunitárias. Ou inovando dentro das antigas, tomando a paróquia como “comunidade de comunidades” e “família de famílias”. Sucedem-se as iniciativas de âmbito interparoquial e diocesano, com participação de seculares e religiosos, famílias, movimentos e grupos, valorizando também o “carisma” e o modo próprios de cada um. Alargam-se os laços inter-missionários, para longe e perto, em reciprocidade nova de presenças e contributos. Arrisca-se e inova-se alguma coisa no campo da cultura e da arte, a partir da Universidade Católica Portuguesa e de outras instâncias eclesiais. Mantêm-se com abnegação e consistência muitas acções no campo sócio-caritativo. Com tudo isto se “lançarão as redes”, mesmo que ainda não divisemos bem a nova malha em que se entrelaçarão.
Fátima, 22 de Julho de 2008
+ Manuel Clemente, Bispo do Porto

22 de Julho - Santa Maria Madalena

Magdalena
Caravaggio
1596-97
Óleo sobre tela, 122,5 x 98,5 cm
Galleria Doria-Pamphili, Rome

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Limpeza étnica

Mário Crespo
Jornal de Notícias,
2008-07-21
O homem, jovem, movimentava-se num desespero agitado entre um grupo de mulheres vestidas de negro que ululavam lamentos. "Perdi tudo!" "O que é que perdeu?" perguntou-lhe um repórter.
"Entraram-me em casa, espatifaram tudo. Levaram o plasma, o DVD a aparelhagem..." Esta foi uma das esclarecedoras declarações dos autodesalojados da Quinta da Fonte. A imagem do absurdo em que a assistência social se tornou em Portugal fica clara quando é complementada com as informações do presidente da Câmara de Loures: uma elevadíssima percentagem da população do bairro recebe rendimento de inserção social e paga "quatro ou cinco euros de renda mensal" pelas habitações camarárias. Dias depois, noutra reportagem outro jovem adulto mostrava a sua casa vandalizada, apontando a sala de onde tinham levado a TV e os DVD. A seguir, transtornadíssimo, ia ao que tinha sido o quarto dos filhos dizendo que "até a TV e a playstation das crianças" lhe tinham roubado. Neste país, tão cheio de dificuldades para quem tem rendimentos declarados, dinheiro público não pode continuar a ser desviado para sustentar predadores profissionais dos fundos constituídos em boa fé para atender a situações excepcionais de carência. A culpa não é só de quem usufrui desses dinheiros. A principal responsabilidade destes desvios cai sobre os oportunismos políticos que à custa destas bizarras benesses, compraram votos de Norte a Sul. É inexplicável num país de economias domésticas esfrangalhadas por uma Euribor com freio nos dentes que há famílias que pagam "quatro ou cinco Euros de renda" à câmara de Loures e no fim do mês recebem o rendimento social de inserção que, se habilmente requerido por um grupo familiar de cinco ou seis pessoas, atinge quantias muito acima do ordenado mínimo. É inaceitável que estes beneficiários de tudo e mais alguma coisa ainda querem que os seus T2 e T3 a "quatro ou cinco euros mensais" lhes sejam dados em zonas "onde não haja pretos". Não é o sistema em Portugal que marginaliza comunidades. O sistema é que se tem vindo a alhear da realidade e da decência e agora é confrontado por elas em plena rua com manifestações de índole intoleravelmente racista e saraivadas de balas de grande calibre disparadas com impunidade. O país inteiro viu uma dezena de homens armados a fazer fogo na via pública. Não foram detidos embora sejam facilmente identificáveis. Pelo contrário. Do silêncio cúmplice do grupo de marginais sai eloquente uma mensagem de ameaça de contorno criminoso - "ou nos dão uma zona etnicamente limpa ou matamos." A resposta do Estado veio numa patética distribuição de flores a cabecilhas de gangs de traficantes e autodenominados representantes comunitários, entre os sorrisos da resignação embaraçada dos responsáveis autárquicos e do governo civil. Cá fora, no terreno, o único elemento que ainda nos separa da barbárie e da anarquia mantém na Quinta da Fonte uma guarda de 24 horas por dia com metralhadoras e coletes à prova de bala. Provavelmente, enquanto arriscam a vida neste parque temático de incongruências socio-políticas, os defensores do que nos resta de ordem pensam que ganham menos que um desses agregados familiares de profissionais da extorsão e que o ordenado da PSP deste mês de Julho se vai ressentir outra vez da subida da Euribor.

Serenamente no centro do furacao, JCdasNeves, DN080721

SERENAMENTE NO CENTRO DO FURACÃO
João César das Neves
professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Na próxima sexta-feira passa o 40.º aniversário de um dos documentos mais controversos e gestos mais corajosos do nosso tempo. A 25 de Julho de 1968 o Papa Paulo VI publicou a encíclica Humanae Vitae sobre a regulação da natalidade. Dois meses após o Maio de 68 e três anos depois do Concílio Vaticano II, a sociedade e a Igreja encontravam-se em grande turbulência. Vivia-se a revolução sexual, com a pílula contraceptiva transformando os costumes.

O Papa João XXIII nomeara em 1963 a Comissão para o Estudo dos Problemas da População, da Família e da Natalidade, com teólogos e leigos, para lidar com estas questões.

O memorando final, de Junho de 1966, mostrava a Comissão dividida sobre a permissão do uso da pílula pelos casais católicos, com a maioria a favor. O Papa, após dois anos de reflexão, determinou na encíclica a posição da Igreja.

O que fez foi reafirmar a doutrina cristã. Analisando cuidadosamente o diálogo de amor dos esposos, a paternidade responsável e os "dois significados do acto conjugal: o significado unitivo e o significado procriador" (12), afirma que "quem reflectir bem, deverá reconhecer que um acto de amor recíproco, que prejudique a disponibilidade para transmitir a vida que Deus Criador de todas as coisas nele inseriu segundo leis particulares, está em contradição com o desígnio constitutivo do casamento e com a vontade do Autor da vida humana. (...) Pelo contrário, usufruir do dom do amor conjugal, respeitando as leis do processo generativo, significa reconhecer-se não árbitros das fontes da vida humana, mas tão-somente administradores dos desígnios estabelecidos pelo Criador" (13).

O Papa estava bem consciente da controvérsia que iria gerar. "A doutrina da Igreja sobre a regulação dos nascimentos, que promulga a lei divina, parecerá, aos olhos de muitos, de difícil, ou mesmo de impossível actuação (...) Mas, para quem reflectir bem, não poderá deixar de aparecer como evidente que tais esforços são nobilitantes para o homem e benéficos para a comunidade humana" (20). Acima de tudo afirma a certeza que "a Igreja não foi a autora dessa lei e não pode portanto ser árbitra da mesma; mas somente depositária e intérprete, sem nunca poder declarar lícito aquilo que o não é, pela sua íntima e imutável oposição ao verdadeiro bem comum do homem" (18).

Após 40 anos, pode ajuizar-se com rigor a posição então tomada. Ao contrário das previsões da época, não se verificou a debandada dos cristãos e a derrocada da Igreja. É verdade que muitos casais praticantes não seguem este ponto da doutrina, como ao longo dos séculos milhões de católicos disseram mentiras, faltaram à missa ou desviaram fundos. O pecado dos homens não invalida a verdade da Fé. Deve dizer-se que estes anos confirmaram bem essa verdade e a ponderada decisão de Paulo VI.

A clarividência de um grande Papa previu "as consequências dos métodos da regulação artificial da natalidade".

Sobretudo "o caminho amplo e fácil que tais métodos abririam à infïdelidade conjugal e à degradação da moralidade (...) perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta (...) a arma perigosa que se viria a pôr nas mãos de autoridades públicas, pouco preocupadas com exigências morais". (17).

A profecia realizou-se. Em nome da modernidade caiu-se na pornografia em massa, na promoção do aborto, divórcio, deboche e perversão, no descalabro da educação, solidariedade e castidade, no horror da traição, solidão, depressão, suicídio.

A sociedade ocidental, no meio da prosperidade, debate-se com terríveis problemas, da sida ao insucesso escolar e à decadência populacional, que advêm desta suposta revolução sexual.

Na época muitos achavam que estava em causa apenas uma questão menor de simples liberdade e prazer. Mas preparava-se o mais brutal e esmagador ataque à família e à vida da história do mundo. Este texto colocou serenamente a Igreja no centro da questão decisiva da nossa era.

Um dia vamos estar todos "chipados". Como cães ou ovelhas

PÚBLICO, 21.07.2008
José Manuel Fernandes
Só a ideia em si é chocante: chips nas matrículas de todos os automóveis. Mas mais chocante é a forma acéfala como o PS aprovou no Parlamento esta aberração. E é confrangedor verificar como o país amochou
Acordo com o toque do telemóvel. Num computador algures, fica registado o número de telefone que me ligou e a zona em que estava quando o atendi. Levanto-me, tomo o pequeno-almoço e passo por uma caixa multibanco. Noutro computador algures ficam registadas todas as operações que efectuei. E também o lugar exacto onde estava.Entro no automóvel e, a caminho do trabalho, sigo pela auto-estrada. Como tenho Via Verde, um outro computador regista a minha passagem e arquiva-a.Ao longo do dia, todos os telefonemas que fizer ou receber no meu telemóvel continuarão a ficar registados num computador, e o meu operador tem ordens para guardar os registos durante um período determinado para eventual utilização pelas autoridades.O mesmo vai suceder com todas as vezes que utilizar um dos meus cartões de débito ou de crédito. Ou quando estacionar num parque onde também exista Via Verde. No meu local de trabalho, como em quase todos, há câmaras de vigilância que não estão apontadas a nenhum posto de trabalho, mas onde ficam registadas todas as vezes que entro e saio do edifício. Pelo menos.Se, por acaso, me dirigir a um centro comercial, serei por certo filmado por mais uma mão cheia de câmaras, e os seus registos também ficarão guardados durante pelo menos 30 dias.Virtualmente, já é possível a uma qualquer polícia reconstituir tudo o que fiz ao longo do dia. Mesmo sem ter de recorrer a escutas nem colocar um agente a seguir-me. Apenas cruzando informação presente em computadores a que pode ter acesso quando desejar, bastando-lhe cumprir um mínimo de exigências legais.Mas mesmo tudo isto não chega ao nosso Estado. Num ousado gesto de inovação por certo integrado no "choque tecnológico" (suponho, pois já ninguém fala dele), agora os burocratas do Terreiro do Paço querem que a matrícula do meu carro - de todos os carros - tenha um chip. E se o Governo pensou na genial iniciativa, logo a acéfala maioria PS na Assembleia se prontificou para a votar sem se questionar um minuto sequer sobre o significado do que estava a fazer.A partir do próximo ano, o nosso querido Estado, se a lei passar o teste da constitucionalidade, pode passar a saber por onde anda o meu carro, a que velocidade se deslocou entre dois "sensores", onde o deixei estacionado, quem nele viajava (basta cruzar as informações do chip da matrícula com as dos telemóveis) e uma quantidade de outras coisas que fazem parte da intimidade de cada cidadão.Faltará passar do chip na matrícula para o chip subcutâneo, altura em que o Estado me poderá prestar, com a maior eficiência, uma enorme quantidade de serviços com enormes vantagens económicas. No chip subcutâneo pode estar tudo: os meus dados de identidade, a minha história civil, todos os registos médicos, os meus dados fiscais, porventura uma boa parte do que estiver em todas as outras bases de dados. E nem será muito difícil desenvolver a geringonça, pois já há chips para cães.Exactamente: para cães. E para outros animais domésticos ou de criação. Porquê? Porque esses animais têm um dono. Não são livres nem têm o livre arbítrio que associamos aos seres humanos. Mas, pelo caminho que as coisas estão a levar, não tarda nada que achemos natural que o que muitos apresentam como a sombra protectora do Estado se transforme num ambiente de absoluta claustrofobia que viola o mais central dos direitos humanos: o da livre escolha do que faz ou não faz na sua esfera privada, ou mesmo íntima, sem ter de sentir que, sob formas mais sofisticadas dos que as imaginadas por Aldous Huxley no seu Admirável Mundo Novo ou por George Orwell em O Triunfo dos Porcos ou 1984, vivemos sob vigilância permanente ou somos constantemente condicionados.Num país onde o valor da liberdade fosse minimamente valorizado, o chip nas matrículas teria levantado um sobressalto cívico. Em Portugal, suscitou pouco mais do que um encolher de ombros. Tal como o famoso "cartão único", que nos foi vendido como sendo inócuo mas que parece que vai ter um efeito perverso não anunciado: quando estiver em vigor, ninguém mais vai ter a liberdade de não se recensear para votar, pois o recenseamento eleitoral passará a ser automático. Parece pouco importante, mas é só um exemplo de como se podem embrulhar num laçarote de boas intenções outras intenções menos boas e não anunciadas. Nem sequer nas letras pequenas dos contratos.


domingo, 20 de julho de 2008

20 de Julho - S. Elias

Profeta Elias no deserto
1464-68
Bouts, Dieric o Velho
Óleo sobre painel, 88 x 71 cm
Saint-Pieterskerk, Leuven

Homilia do Papa na missa de encerramento das Jornadas Mundiais da Juventude

CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA PARA A XXIII JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE
HOMILIA DO SANTO PADRE BENTO XVI
Hipódromo de Randwick
Domingo, 20 de Julho de 2008

Queridos amigos,
«Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós» (Act 1, 8). Vimos hoje cumprida esta promessa. No dia de Pentecostes, como ouvimos na primeira leitura, o Senhor ressuscitado, sentado à direita do Pai, enviou o Espírito sobre os discípulos reunidos no Cenáculo. Com a força deste Espírito, Pedro e os Apóstolos foram pregar o Evangelho até aos confins da terra. Em cada idade e nas mais diversas línguas, a Igreja continua a proclamar pelo mundo inteiro as maravilhas de Deus, convidando todas as nações e povos a abraçar a fé, a esperança e a nova vida em Cristo.
Nestes dias, vim também eu como Sucessor de Pedro a esta maravilhosa terra da Austrália. Vim para confirmar-vos, meus jovens irmãos e irmãs, na vossa fé e abrir os vossos corações ao poder do Espírito de Cristo e à riqueza dos seus dons. Rezo para que esta grande assembleia, que congrega jovens «de todas as nações que há debaixo do céu» (Act 2, 5), se torne um novo Cenáculo. Que o fogo do amor de Deus desça sobre os vossos corações e os encha, a fim de vos unir cada vez mais ao Senhor e à sua Igreja e enviar-vos, como nova geração de apóstolos, para levar o mundo a Cristo.
«Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós». Estas palavras do Senhor ressuscitado revestem-se de um significado particular para os jovens que vão ser confirmados, marcados com o dom do Espírito Santo, durante esta Santa Missa. Mas, tais palavras são dirigidas também a cada um de nós, isto é, a todos aqueles que receberam o dom do Espírito de reconciliação e da nova vida no Baptismo, que O acolheram nos seus corações como sua força e guia na Confirmação e que crescem diariamente nos seus dons de graça por meio da Sagrada Eucaristia. De facto, em cada Missa o Espírito Santo, invocado na oração solene da Igreja, desce novamente não só para transformar os nossos dons do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor, mas também para transformar as nossas vidas fazendo de nós, com a sua força, «um só corpo e um só espírito em Cristo».
Mas, o que é este «poder» do Espírito Santo? É o poder da vida de Deus. É o poder do mesmo Espírito que pairou sobre as águas na alvorada da criação e que, na plenitude dos tempos, levantou Jesus da morte. É o poder que nos conduz, a nós e ao nosso mundo, para a vinda do Reino de Deus. No Evangelho de hoje, Jesus anuncia que começou uma nova era, na qual o Espírito Santo será derramado sobre a humanidade inteira (cf. Lc 4, 21). Ele próprio, concebido por obra do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, veio habitar entre nós para nos trazer este Espírito. Como fonte da nossa vida nova em Cristo, o Espírito Santo é também, de modo profundamente verdadeiro, a alma da Igreja, o amor que nos une ao Senhor e entre nós e a luz que abre os nossos olhos para verem as maravilhas da graça de Deus ao nosso redor.
Aqui na Austrália, nesta grande «Terra Austral do Espírito Santo», tivemos todos uma inesquecível experiência da presença e da força do Espírito na beleza da natureza. Os nossos olhos abriram-se para contemplar o mundo circundante tal como verdadeiramente é: «repleto – como disse o poeta – da grandeza de Deus», cheio da glória do seu amor criador. Também aqui, nesta grande assembleia de jovens cristãos vindos de todo o mundo, tivemos uma experiência concreta da presença e da força do Espírito na vida da Igreja. Vimos a Igreja na profunda verdade do seu ser: Corpo de Cristo, comunidade viva de amor, que engloba pessoas de toda a raça, nação e língua, de todos os tempos e lugares, na unidade que brota da nossa fé no Senhor ressuscitado.
A força do Espírito não cessa jamais de encher de vida a Igreja. Através da graça dos sacramentos dela, esta força flui também no nosso íntimo como um rio subterrâneo que alimenta o espírito e nos atrai e aproxima cada vez mais da fonte da nossa verdadeira vida, que é Cristo. Santo Inácio de Antioquia, que foi martirizado no início do século II, deixou-nos uma esplêndida descrição desta força do Espírito que habita dentro de nós. Falou do Espírito como de uma nascente de água viva que brotava no seu coração e lhe sussurrava: «Vem, vem para o Pai!» (cf. Aos Romanos 6, 1-9).
No entanto esta força, a graça do Espírito, não é algo que possamos merecer ou conquistar; podemos apenas recebê-la como puro dom. O amor de Deus pode propagar a sua força, somente quando lhe permitimos que nos mude a partir de dentro. Temos de O deixar penetrar na crosta dura da nossa indiferença, do nosso cansaço espiritual, do nosso cego conformismo com o espírito deste nosso tempo. Só então nos será possível consentir-Lhe que acenda a nossa imaginação e plasme os nossos desejos mais profundos. Eis o motivo por que é tão importante a oração: a oração diária, a oração privada no recolhimento dos nossos corações e diante do Santíssimo Sacramento e a oração litúrgica no coração da Igreja. A oração é pura receptividade à graça de Deus, amor em acto, comunhão com o Espírito que habita em nós e nos conduz através de Jesus, na Igreja, ao nosso Pai celeste. Na força do seu Espírito, Jesus está sempre presente nos nossos corações, esperando serenamente que nos acomodemos em silêncio junto d’Ele para ouvir a sua voz, permanecer no seu amor e receber a «força que vem do Alto», uma força que nos habilita a ser sal e luz para o nosso mundo.
Na sua Ascensão, o Senhor ressuscitado disse aos seus discípulos: «Sereis minhas testemunhas (…) até aos confins do mundo» (Act 1, 8). Aqui, na Austrália, damos graças ao Senhor pelo dom da fé que chegou até nós como um tesouro transmitido de geração em geração na comunhão da Igreja. Aqui, na Oceânia, damos graças de modo especial por todos os heróicos missionários, sacerdotes e religiosos diligentes, pais e avós cristãos, professores e catequistas que edificaram a Igreja nestas terras. Testemunhas como a Beata Mary MacKillop, São Peter Chanel, o Beato Peter To Rot e muitos outros. A força do Espírito, que se revelou nas suas vidas, está ainda em acção nas beneméritas iniciativas que deixaram, na sociedade que plasmaram e que agora é entregue a vós.
Amados jovens, permiti que vos ponha agora uma questão. E vós o que é que deixareis à próxima geração? Estais a construir as vossas vidas sobre alicerces firmes, estais a construir algo que há-de durar? Estais a viver a vossa existência de modo a dar espaço ao Espírito no meio dum mundo que quer esquecer Deus ou mesmo rejeitá-Lo em nome de uma falsa noção de liberdade? Como estais a usar os dons que vos foram dados, a «força» que o Espírito Santo está pronto, mesmo agora, a derramar sobre vós? Que herança deixareis aos jovens que virão? Qual será a diferença impressa por vós?
A força do Espírito Santo não se limita a iluminar-nos e a consolar-nos; orienta-nos também para o futuro, para a vinda do Reino de Deus. Que magnífica visão duma humanidade redimida e renovada entrevemos na nova era prometida pelo Evangelho de hoje! São Lucas diz-nos que Jesus Cristo é o cumprimento de todas as promessas de Deus, o Messias que possui em plenitude o Espírito Santo para comunicá-Lo à humanidade inteira. A efusão do Espírito de Cristo sobre a humanidade é um penhor de esperança e de libertação contra tudo aquilo que nos depaupera. Tal efusão dá nova vista ao cego, manda livres os oprimidos, e cria unidade na e com a diversidade (cf. Lc 4, 18-19; Is 61, 1-2). Esta força pode criar um mundo novo, pode «renovar a face da terra» (cf. Sal 104, 30).
Uma nova geração de cristãos, revigorada pelo Espírito e inspirando-se a uma rica visão de fé, é chamada a contribuir para a edificação dum mundo onde a vida seja acolhida, respeitada e cuidada amorosamente, e não rejeitada nem temida como uma ameaça e, consequentemente, destruída. Uma nova era em que o amor não seja ambicioso nem egoísta, mas puro, fiel e sinceramente livre, aberto aos outros, respeitador da sua dignidade, um amor que promova o bem de todos e irradie alegria e beleza. Uma nova era na qual a esperança nos liberte da superficialidade, apatia e egoísmo que mortificam as nossas almas e envenenam as relações humanas. Prezados jovens amigos, o Senhor está a pedir-vos que sejais profetas desta nova era, mensageiros do seu amor, capazes de atrair as pessoas para o Pai e construir um futuro de esperança para toda a humanidade.
O mundo tem necessidade desta renovação. Em muitas das nossas sociedades, ao lado da prosperidade material vai crescendo o deserto espiritual: um vazio interior, um medo indefinível, uma oculta sensação de desespero. Quantos dos nossos contemporâneos escavaram para si mesmos cisternas rotas e vazias (cf. Jer 2, 13) à procura desesperada de sentido, daquele sentido último que só o amor pode dar!? Este é o dom grande e libertador que o Evangelho traz consigo: revela a nossa dignidade de mulheres e homens criados à imagem e semelhança de Deus; revela a sublime vocação da humanidade, que é a de encontrar a própria plenitude no amor; desvenda a verdade sobre o homem, a verdade sobre a vida.
Também a Igreja tem necessidade desta renovação. Precisa da vossa fé, do vosso idealismo e da vossa generosidade, para poder ser sempre jovem no Espírito (cf. Lumen gentium, 4). Na segunda leitura de hoje, o apóstolo Paulo recorda-nos que todo o indivíduo cristão recebeu um dom, que deve ser usado para edificar o Corpo de Cristo. A Igreja tem uma especial necessidade do dom dos jovens, de todos os jovens. Ela precisa de crescer na força do Espírito, que agora mesmo vos enche de alegria a vós, jovens, e vos inspira a servir o Senhor com entusiasmo. Abri o vosso coração a esta força. Dirijo este apelo de forma especial àqueles que o Senhor chama à vida sacerdotal e consagrada. Não tenhais medo de dizer o vosso «sim» a Jesus, de encontrar a vossa alegria na realização da sua vontade, entregando-vos completamente para chegardes à santidade e pondo os vossos talentos a render para o serviço dos outros.
Daqui a pouco celebraremos o sacramento da Confirmação. O Espírito Santo descerá sobre os candidatos; estes serão «marcados» com o dom do Espírito e enviados para ser testemunhas de Cristo. Que significa receber o «selo» do Espírito Santo? Significa ficar indelevelmente marcados, inalteravelmente mudados, significa ser novas criaturas. Para aqueles que receberam este dom, nada mais pode ser como antes. Ser «baptizados» no Espírito significa ser incendiados pelo amor de Deus. «Beber» do Espírito (cf. 1 Cor 12, 13) significa ser refrescado pela beleza do plano de Deus sobre nós e o mundo, e tornar-se por sua vez uma fonte de refrigério para os outros. Ser «selados com o Espírito» significa além disso não ter medo de defender Cristo, deixando que a verdade do Evangelho permeie a nossa maneira de ver, pensar e agir, enquanto trabalhamos para o triunfo da civilização do amor.
Ao elevar a nossa oração pelos confirmandos, pedimos também que a força do Espírito Santo reavive a graça da Confirmação em cada um de nós. Oxalá o Espírito derrame os seus dons em abundância sobre todos os presentes, sobre a cidade de Sidney, sobre esta terra da Austrália e sobre todo o seu povo. Que cada um de nós seja renovado no espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade, espírito de santo temor de Deus.
Pela amorosa intercessão de Maria, Mãe da Igreja, que esta 23.ª Jornada Mundial da Juventude seja vivida como um novo Cenáculo, para que todos nós, inflamados no fogo do amor do Espírito Santo, possamos continuar a proclamar o Senhor ressuscitado atraindo para Ele todos os corações. Amen.

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