segunda-feira, 30 de junho de 2008

Concerto em honra do Padre António Vieira




Atribulacoes de um chines fora da China, Joao Cesar das Neves, DN, 080630

ATRIBULAÇÕES DE UM CHINÊS FORA DA CHINA
João César das Neves
professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Honorável primo Chu Agradeço a carta e as notícias. Espero que tudo continue bem aí em Beijing. Como passa a tia Ma? Por cá as coisas andam prósperas. Com os estrangeiros daqui em crise, é bom para a nossa loja e restaurantes.
Quanto às perguntas que me faz acerca dos ocidentais, tem toda a razão em estar preocupado com os Jogos Olímpicos que se aproximam. Tenha muito cuidado, porque os narizes compridos só dizem mentiras. Falam muito em liberdade e querem ensinar a todos o que ela é, mas só conhecem as liberdades que não interessam. Faltam-lhes as realmente importantes.
Andam muito orgulhosos por poderem escolher os chefes e dizer mal deles. Como acham que nós não dizemos, consideram-nos oprimidos. Mas não têm liberdade para vender, comer, guiar, despejar lixo e mil outras coisas. É proibido fumar cigarros, cortar árvores, fazer barulho. Vendem só a certas horas e em certos sítios. Não se pode trabalhar à noite ou quando se é velho. Nem imagina o que eles exigem para se andar de carro (por exemplo, um colete verde!!). Proíbem muitas comidas, das nossas ou mesmo das que eles sempre comeram. Ficam fulos se não dividimos o lixo. Até querem controlar a maneira como se escreve. Tudo tem regras, imposições, limites. Sobretudo papéis. Muitos papéis. Chamam a isto progresso e liberdade.
O Fu diz que a vida na terra dos narizes grandes é como a que tínhamos no tempo do Camarada Mao. Eu achava exagero (sabe como é o primo Fu...) mas um dia vi que tinha razão. Vieram ao restaurante alguns guardas vermelhos armados. Diziam ser fiscais da economia, mas senti aquele mesmo medo da revolução cultural. Viram tudo, inventaram multas por nada, ralharam e levaram preso o tio Deng.
Como no tempo do Camarada Mao, os ocidentais passam horas em doutrinação política. Aqui é em frente à televisão. Um deles disse- -me que era muito diferente da China, porque não é doutrina, mas notícias e debates (exactamente como lhe chamavam os comissários do povo), e porque se pode escolher aquilo que se ouve. Ao princípio acreditei, mas depois vi que não há escolha. Todos dizem o mesmo. E querem eles ensinar-nos liberdade!
Como vai ter narizes grandes em Beijing, precisa conhecê-los. Diz-se que só pensam em dinheiro, mas isso também nós. A diferença é que, além da tal liberdade, eles adoram três coisas: papéis, saúde e sexo. Quando aos papéis, já lhe expliquei: há papéis para tudo. Não sei se foi boa ideia termos-lhe dado essa nossa invenção. Depois andam sempre aterrorizados com a saúde. Gastam imenso dinheiro em médicos e remédios, mesmo quando não estão doentes. Para eles tudo -comida, sexo, trânsito, desporto- é um problema de saúde. Andam loucos com o corpinho. Depois morrem como toda a gente.
Quando não é papéis ou médicos, é sexo. A coisa que mais os cega é sexo. Aqui as mulheres deles andam quase nuas na rua (cuidado com as primas!!). Cega-os porque não o entendem. O sexo deles não é para ter filhos, mas para vender sabonetes. Não é para ter família e ser feliz, mas para trair, zangar, ter sarilhos. Chamam-lhe liberdade, claro!
Liberdade! Nem fazem ideia o que seja! Também não sabem o que é honra, respeito, dignidade. Escolhem os chefes (embora, como aí, os que mandam sejam sempre os mesmos), mas logo a seguir começam a dizer mal deles. Só querem a liberdade de criticar porque odeiam os chefes. Odeiam muito mais que nós. Nunca vi um povo odiar tanto. Quem diz pior do Ocidente são os jornais ocidentais (se ler o que dizem da China, farta-se de rir porque eles não sabem nada).
Descobri um truque que lhe pode ser muito útil: nas discussões com eles é fácil pô-los a gritar entre si. Quando criticarem a política do filho único, diga-lhes que têm menos os filhos que nós. Se acusarem a pena de morte, acuse a eutanásia e o aborto. Se falarem no Tibete pergunte-lhes pelo Iraque. É que eles além dos chefes, odeiam o sistema (dizem sempre que está "podre"), odeiam a vida, odeiam-se a si mesmos. Este povo adora dizer mal de si próprio. Chamam-lhe liberdade.
Saudades do primo Guo.

domingo, 29 de junho de 2008

Vamos no bom caminho

Paulo Tunhas, Atlântico, 080629

A SIC passou agora uma pequena peça sobre um novo software para detectar plágios nos trabalhos universitários, um óbvio atentado ao "direito ao sucesso" dos estudantes, visando a criação de um clima de "microterror".
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Uma questão de coerência

Ana Margarida Craveiro, Atlântico, 080629
Os portugueses produzem pouco para o que gastam (muito). Os filhos dos portugueses estudam pouco para os resultados escolares que têm (excelentes). Suponho que há nisto uma espécie de coerência social.
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Pão e vinho

PÚBLICO
29.06.2008, António Barreto
Retrato da semana
Jaime Silva transformou-se numa espécie de embaixador da União Europeia e num carrasco da agricultura portuguesa
Ao denunciar a CNA e a CAP, o ministro Jaime Silva usou os lugares-comuns habituais: acusou-as de defender interesses político-partidários! Uma de extrema-esquerda, outra conservadora. Para um ministro de um governo partidário, não é mau. Depois de levar uns açoites, corrigiu: referia-se aos dirigentes, não às associações. A diferença é, como se vê, radical. A CAP suspendeu a sua presença no conselho de concertação. O primeiro-ministro acudiu e tomou conta das negociações a fim de conseguir assinar o acordo. Sócrates fez bem, o ministro merecia, aliás há muito tempo, o despedimento. Sócrates fez mal e deu um sinal do que poderá ser no futuro: quem se zangar com os ministros, tem como recompensa uma graduação. Jaime Silva é um daqueles ministros que não são políticos; um daqueles políticos de um governo socialista que não são socialistas e que não cumprem um programa partidário, mas sim um programa nacional, sem preferências políticas, sem doutrina, só para bem do país. Ainda há criaturas assim. Julga-se impoluto e pensa que os outros são parvos. Este ministro tem brilhado pela sua dedicação a Bruxelas e às políticas europeias. Vindo de lá, para lá deve voltar, um dia, com a satisfação do dever cumprido. Sabe tanto da política comum que se transformou numa espécie de embaixador da União. O que quer dizer, literalmente, um carrasco da agricultura portuguesa, assim como das pescas e da floresta. Tem motivado a ira crescente dos agricultores e dos pescadores, a quem responde com discursos processuais e incompreensíveis. Paga mal e pouco, atrasa-se e não tem orientações que não sejam as directivas europeias. É mais um que, metodicamente, vem desmantelando grande parte da agricultura, das pescas e da floresta. Faz bem em financiar as grandes empresas agrícolas, as que têm tecnologia, competência e dimensão. Faz muito mal em não olhar pelas centenas de milhares de explorações, de lavradores e suas associações e cooperativas que não têm acesso à técnica e à qualificação. Em vez de pensar que muitos destes poderiam ser formados e preparados para aproveitar os recursos, este ministro, assim como os que o antecederam, prefere arranjar uma maneira doce de os matar, de os retirar da actividade e de abandonar terras, mares, recursos e pessoas. Jaime Silva tem vindo a liquidar as hipóteses de aparecimento de novas gerações de agricultores e pescadores, mais jovens, com formação, melhores qualificações e uma visão empresarial da sua actividade. Desde os anos setenta, após o pedido de adesão à Comunidade Europeia, quase todos os governos concordaram em meia dúzia de linhas gerais. Era necessário obter a maior quantidade possível de fundos e ajudas. Era urgente gastar depressa esses subsídios. Como não havia fundos que chegassem, foi preciso escolher. As comunicações, especialmente as auto-estradas, as infra-estruturas em geral, a energia, certos equipamentos colectivos e alguma indústria mereceram o privilégio. Depois vieram certos sectores menos evidentes, a formação profissional (que esteve na origem de tanto desperdício!), a educação, o turismo e a cultura. Assim como os dois grandes "pacotes", o aeroporto e o TGV. Com o andar do tempo, os apoios europeus foram-se multiplicando e diversificando, sendo cada vez mais claro que o importante era dar a muita gente e que os critérios de utilidade a prazo não eram os principais. Neste quadro, há muito tempo que se percebeu que houve uma troca: a agricultura, a floresta e as pescas pelas auto-estradas e as infra-estruturas. Este era o interesse da União Europeia e dos grandes países parceiros, não o de Portugal. É certo que, para a agricultura, vieram muitos milhões. A aplicação dos dispositivos da política comum dava esse resultado. Alguns desses recursos foram bem utilizados por grandes empresas modernas. Muitos foram mal utilizados, apenas com perspectiva de curto prazo, colheita após colheita, de modo errático. Mais ainda, serviram para retirar pessoas da actividade agrícola e piscatória: abater barcos, fechar empresas e liquidar explorações. Percebe-se a tentação política. A União Europeia não queria mais produção agrícola, nem florestas, muito menos pesca. Os dirigentes portugueses queriam dinheiro rápido, resultados visíveis e "modernização palpável". E ficavam perplexos perante a imensa tarefa que representava a mudança da agricultura, da floresta e das pescas, com estruturas obsoletas e populações desqualificadas e idosas distribuídas por centenas de milhares de pequenas e muito pequenas parcelas, explorações e empresas. Estas políticas conduziram ao que temos hoje: uma agricultura impotente, umas pescas insuficientes e em deterioração e uma floresta desordenada e pouco produtiva. Importamos a maior parte do que consumimos. Mesmo em certos casos (leite, por exemplo) em que parece termos chegado à auto-suficiência, a verdade é que tal não corresponde à realidade. Com efeito, as nossas produções de carnes, ovos e leites dependem de uma colossal importação de cereais e rações. Hoje, a nossa "balança alimentar" é gravemente deficitária. Daí não viria mal ao mundo, se tivéssemos produtos industriais e serviços para pagar as importações. Mas a verdade é que nos faltam esses produtos que permitiriam equilibrar a balança. Temos uma área marítima de fazer inveja. Está globalmente subaproveitada, qualquer que seja o ponto de vista: ecológico, económico, científico, energético, de navegação ou turismo. Sem falar nos portos e na construção naval. Portugal tem uma superfície florestal interessante. Tem a maior área do mundo de montado e é o maior produtor de cortiça, mas não se conhece um esforço proporcional dedicado à investigação e ao melhoramento do sobreiro, da azinheira e do sistema de montado. O mesmo pode ser dito do pinheiro, da oliveira e de outras espécies. Portugal não tem clima para a agricultura tradicional, nem para a agricultura europeia. Mas as condições naturais são favoráveis a certos tipos de cultivo, como sejam a floresta, as culturas arbustivas, as plantações permanentes (a vinha, por exemplo), certas pastagens, os prados sob montado e outras espécies, nomeadamente as que podem beneficiar dos Invernos amenos e das Primaveras temporãs. A hortofruticultura tem também, em certos casos, excelentes condições. Nestas áreas, assim como nas do regadio, da correcção de solos, da vinha, da vinificação, da investigação científica, da formação profissional e do processamento industrial, há espaço e necessidade para investimentos colossais, a longo prazo e muito produtivos, sem danificar o ambiente. O ministro Jaime Silva pensa que não. E outros antes dele. Coitados: limitam-se a dizer o que lhes mandam dizer. Em Bruxelas, por causa da política comum. Em Lisboa, por causa das estradas. Sociólogo

S. Pedro

Grão Vasco (Vasco Fernandes)
S. Pedro
c. 1530-1535, óleo sobre madeira
213 x 231,3 cm
Museu de Grão Vasco
Viseu, Portugal

S. Pedro

Gaspar Vaz, activo (1514, 1568)
S. Pedro
c. 1530, óleo sobre madeira
215x173 cm
Igreja do Mosteiro de S. João de Tarouca
S. João de Tarouca, Portugal

S. Paulo, 29 de Junho

S. Paulo
(c. 1598–1600)
El Greco (Domenikos Theotokopoulos)
(1541–1614)
óleo sobre tela (70.5 x 56.5 cm)
Saint Louis Art Museum

sábado, 28 de junho de 2008

Papa abre Ano Paulino

Agência Ecclesia

Bento XVI presidiu este Sábado, 28 de Junho, à abertura solene do Ano Paulino, que assinala os 2000 anos do nascimento de São Paulo, figura central do Cristianismo.Antes da celebração das Vésperas, na Basílica papal de São Paulo fora de muros, em Roma, o Papa abriu a Porta Paulina, debaixo do quadripórtico deste templo, e foi acesa a Chama Paulina que arderá ao longo de todo o ano. Antes da chegada ao altar, o Papa desceu para venerar o sepulcro do Apóstolo.Na homilia da cerimónia, que contava com a presença do Patriarca Ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu I, e outros líderes cristãos – sinal concreto do diálogo ecuménico que se pretende levar por diante neste ano -, o Papa lembrou São Paulo como “Mestre das Nações, cuja palavra se abre ao futuro, para todos os povos e todas as gerações”.“Paulo não é para nós uma figura do passado, que recordamos com veneração. Ele é também o nosso mestre, apóstolo e anunciador de Jesus Cristo”, acrescentou.Dando o significado para este ano jubilar, Bento XVI explicou que “não estamos aqui para reflectir sobre uma história passada, irrevogavelmente superada. Paulo quer falar connosco”.“Por isso, quis este especial Ano Paulino: para ouvi-lo e para aprender agora com ele, como nosso mestre, a fé e a verdade, na qual se enraízam as razões da unidade entre os discípulos de Cristo”, precisou.A esta vontade se liga ainda a presença da Chama Paulina, “que permanecerá acesa durante todo o ano” dedicado a São Paulo..Internacional Octávio Carmo 28/06/2008 18:19

O ESTADO DAS ELITES

Diário de Notícias, 080628
João Miranda

Os juízes do tribunal de Santa Maria da Feira cancelaram os julgamentos até Setembro. Queixam-se. Dizem que as instalações são inseguras. Os reitores das universidades portuguesas queixam-se periodicamente que não têm dinheiro para pagar salários. Esta semana, voltaram a queixar-se. Juízes e reitores são escolhidos de entre os melhores. São os melhores de entre os melhores. São as elites. Das elites, a sociedade espera liderança e iniciativa. Espera soluções. Não espera queixas.Juízes e reitores comportam- -se como os funcionários burocratizados que de facto são. Juntam- -se às dezenas de corporações que se queixam. Mas queixam-se a quem? Quando as elites de uma sociedade protestam, protestam contra quem? Se os juízes se queixam, se os advogados se queixam, se os reitores se queixam, se os médicos se queixam, se os professores se queixam, queixam-se todos a quem?Se, numa sociedade, os melhores de entre os melhores abdicam de liderar, não resta ninguém para o fazer. Todos os outros já estão há muito tempo do lado dos que protestam, dos que esperam que alguém, lá em cima, no topo da hierarquia, faça alguma coisa. Se as elites não estudam os problemas, não criam as soluções e não lideram a mudança, mais ninguém o poderá fazer. Um país em que as elites protestam, reivindicam, pedincham, exigem, vai ser liderado por quem? Se todos pedem, quem dá? Se os melhores entre os melhores não assumem a responsabilidade pelo seu destino, se esperam que alguém lá no topo os dirija e lhes resolva os problemas, quem é que devemos colocar no topo?Tenho plena consciência de que esta crónica é incompreensível. Fala de duas ideias estranhas. Fala de elites e da responsabilização das elites. O membro de uma elite é alguém que, pelas suas qualidades, se eleva acima dos outros. Numa democracia, a elite é inaceitável. Somos todos iguais. Protestamos todos, em igualdade. A ideia da responsabilização das elites é ainda mais estranha. Ninguém quer responsabilidades. Todos exigem direitos.

Início do Ano Paulino

Basílica Papal de S. Paulo Fora-de-Muros

Inicia-se hoje o ano Paulino, 28 de Junho de 2008


Por ocasião das celebrações do bimilenário do nascimento do Apóstolo Paulo, de 28 de junho de 2008 a 29 de junho de 2009 é promulgado o ANO PAULINO.

Para mais informações: http://www.annopaolino.org/

sexta-feira, 27 de junho de 2008

O Sequestro dos Senhorios

Fernanda Câncio
5 dias.net
Pode ser que a chave do mistério esteja na palavra. Afinal, “senhorio” tem uma ressonância nobre, uma sugestão medieval de riqueza e posição. Confirma-o o dicionário, equivalendo-lhe ainda “domínio, posse, autoridade”, além de “propriedade” e “proprietário de casa alugada”. O senhorio é pois um senhor, alguém com posses. Alguém que não merece nem precisa de defesa - um privilegiado. Um explorador, em suma.Assim, à falta de melhor e sobretudo de racionalidade e justiça, se explicam, por uma espécie de psicanálise lexical, as leis e os regulamentos que no País regem os arrendamentos. E se o dicionário também define a palavra como “direito sobre alguma coisa”, é só para certificar que o senhorio tem, por exemplo, o direito de solicitar às autarquias e às finanças que avaliem os estragos que foram infligidos à sua propriedade por dezenas de anos de rendas miseráveis que o impediram de fazer quaisquer obras - impedindo-o agora de actualizar convenientemente o valor das rendas. Mais o “direito” de ser obrigado a aceitar que o inquilino que beneficiou durante décadas da sua assistência social forçada discuta com ele o valor correcto da renda actualizada ou lhe exija obras vultuosas.
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quinta-feira, 26 de junho de 2008

Irlanda

João César das Neves, Destak
26 06 2008 09.19H
«Que grande lata tem a Irlanda? Não é que, no referendo de dia 12, votando 1621 mil pessoas de um eleitorado de 3051 mil, uns meros 862 mil votos, com vantagem de menos de 110 mil votos, pretendem matar um tratado tão longamente negociado? Como se atreve um punhado de extremistas contrariar a opinião unânime de 495 milhões de europeus, ansiosos por terem o Tratado de Lisboa a funcionar?» Esta é a posição que, em várias formas, os líderes europeus têm veiculado estes dias. Atrevendo-se a votar «não» a Irlanda arranjou um grande problema, e tem de o resolver.
De facto, o único problema que existe é a incrível cegueira desses líderes que, fechados num mundo de ficção, se recusam a entender a realidade. Ninguém na Europa aprova o Tratado de Lisboa, até porque ninguém o entende. A Irlanda foi única a dizer «não», simplesmente porque foi a única que teve oportunidade de o fazer. Porque outros 10 governos, que prometeram referendos à Constituição em 2005, agora recusam-nos fingindo que o novo texto é completamente diferente.
Os dirigentes não parecem dar-se conta que o ridículo mata. Será que acreditam que, disfarçando o embaraço e correndo depressa, tudo se esquece e fica bem? Infelizmente a Europa é um assunto muito importante e esta monstruosa tolice vai criar grandes estragos na nossa vida real. Quando daqui a muitos anos se fizer o relato do notável projecto europeu, uma das mais ambiciosas iniciativas políticas da história, ficará clara esta espantosa incompe-tência dos actuais líderes e as suas tristes consequências.
João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Onde estas, nacao valente? Miguel Gaspar, Publico, 080626

Onde estás, nação valente?

Miguel Gaspar - 20080626

Implacável actualidade. Já quase ninguém parece recordar que ainda há uma semana Portugal vivia mergulhado no "sonho" da glória europeia da bola. Quem se lembrará então do dia em que a selecção partiu rumo ao Euro, com grande fanfarra nacional, directos em triplicado, manifestações de massas atrás de um autocarro e o piloto do avião a dizer que traria a taça no regresso? Tudo era orgulho nacional, auto-estima reforçada e imparável sede de vitória.Implacável actualidade. Já quase ninguém parece recordar que ainda há uma semana Portugal vivia mergulhado no "sonho" da glória europeia da bola. Quem se lembrará então do dia em que a selecção partiu rumo ao Euro, com grande fanfarra nacional, directos em triplicado, manifestações de massas atrás de um autocarro e o piloto do avião a dizer que traria a taça no regresso? Tudo era orgulho nacional, auto-estima reforçada e imparável sede de vitória. Foi como se nunca tivesse acontecido. Quando a selecção voltou, quase ninguém quis saber dela, nem os jogadores estavam interessados nos poucos adeptos que apareceram na Portela. Ainda há por aí algumas bandeiras, mas ocorre perguntar se os "valores nacionais" que a selecção supostamente despertou serão tão voláteis quanto esta bolha mediática.
Ficou demonstrado que os adeptos são mais leais aos clubes do que à equipa nacional. Não se abandona o clube na hora da derrota, mas a selecção sim. Afinal, toda esta ilusória coesão nacional era incendiada apenas pela possibilidade de uma vitória? Se o patriotismo "ressuscitou" miraculosamente por causa do futebol, desapareceu numa semana. Não que haja grande mal nisso. A crise, amarga, terá feito com que as pessoas estivessem menos crentes do que parecia? A invenção automática de Scolari como bode expiatório à portuguesa chegou para resolver a desilusão?
Depois de ter sido anunciado, como em 2004 e 2006, o regresso da nação valente, é preciso interrogar este vazio. Não se ressuscita D. Afonso Henriques em vão! Ou será o nosso "nacionalismo" tão fugaz que não resiste a um empurrão do capitão da selecção alemã?
O que este vazio mostra, primeiro que tudo, é a dimensão artificial de todo o fenómeno. Não o do futebol, que é uma paixão espontânea dos adeptos. O futebol simplesmente é o desporto do nosso tempo, pela estética do movimento, pelo espectáculo da jogada individual, pela simplicidade das regras, pela sua enorme e democrática imprevisibilidade. Outra coisa é o que o interesse das pessoas põe em movimento. Desde logo, o negócio da publicidade. Ligado a esta, a retórica nacionalista, que funciona como um eco do fenómeno e permite aos media amplificá-lo e torná-lo um acontecimento total. Finalmente, o poder político usa a atenção concentrada dos cidadãos para gerar um factor de coesão - e para tentar fazer esquecer as crises do dia, evidentemente.
Há, evidentemente, uma dimensão identitária que desperta. As bandeiras que ficam nas janelas depois das derrotas significam a vontade de pertencer a qualquer coisa e de ser reconhecido. E é normal o prazer de um jogo, o sentimento de fazer parte de uma comunidade e gostar de vencer. Normal, fugaz e momentâneo. Quando a partir daqui se começa a construir o discurso da "unidade" dos portugueses ou a projectar em 11 jogadores de futebol as "glórias" da nação, passou-se para o domínio da alienação pura e simples. Da alienação e do vazio.
A volatilidade deste fenómeno mostra como esse suposto nacionalismo é ilusório, mas também como não existe uma ideia moderna de Portugal. Pedimos emprestadas ao passado as narrativas em que a história da "pátria" é descrita como épica ou decadente e como se o jogo da bola devolvesse a grandeza perdida e imaginária do império. A ideia do "optimismo" que supera o "complexo de inferioridade" nacional prolonga essas narrativas gastas. Mas para sermos modernos, não faz sentido resgatar a nação valente. Basta pensarmos que um chuto na bola é um chuto na bola.
E nada mais do que isso.


quarta-feira, 25 de junho de 2008

À descoberta de Saulo de Tarso

Voz Portucalense, 080625


A alguns dias do início do “Ano Paulino”, parece-me oportuno reflectir um pouco sobre Saulo de Tarso. Nasceu em Tarso, cidade da Ásia Menor. A sua família pertencia aos fariseus. Desde criança foi educado nas leis do judaísmo. Quando a sua família regressou a Jerusalém, Saulo ingressou na famosa escola de Gamaliel. Fervoroso defensor das suas tradições, Saulo insurge-se contra os cristãos. Terá conhecido Estêvão na escola de Gamaliel. O Livro dos Actos dos Apóstolos dá conta da presença de Saulo no martírio de Estêvão: “A roupa de Estêvão, na hora da sua morte, foi colocada aos pés de um jovem chamado Saulo”. Na sua cruzada contra os cristãos, entrava nas suas casas, prendia homens e mulheres e metia-os na prisão.
Resolveu levar até Damasco a sua missão de acabar com os cristãos. Mas, no caminho, foi surpreendido por um luz forte que o envolveu e o fez cair do cavalo. Ouviu uma voz que lhe dizia:
- Saulo, Saulo, porque me persegues?”
- Quem és, Senhor?
- Eu sou Jesus, a quem tu persegues...
Aqui começa a grande mudança na vida de Saulo de Tarso. Fica cego e é levado para casa de Ananias, que o ajuda a recuperar a vista. Teria nesta altura 28 anos. Este encontro com Jesus faz com que Saulo descubra um novo caminho para a sua vida. Mas não foi fácil. Sobre ele recaiu uma grande desconfiança dado o seu anterior comportamento. A sua aproximação aos Doze não foi imediata. Os anos em que ele, após o episódio da estrada de Damasco, se manteve “em retiro” foram de grande importância.
O Saulo, fervoroso fariseu, perseguidor dos cristãos, transformou-se num fervoroso apóstolo. Com Barnabé empreende a sua primeira grande viagem missionária. Para significar a sua ruptura com o passado começa a utilizar o nome Paulo. Vai por todos os lugares ao encontro das pessoas para lhes anunciar a Boa Nova de Jesus. Neste fervor apostólico, enfrentando as mais diversas dificuldades e muitos perigos, realizou quatro viagens missionárias. Fundou muitas comunidades que segue atentamente e a quem escreve com regularidade. Estas viagens aconteceram num período de 16 anos, presumivelmente entre os anos 46 a 62. Um dos argumentos mais fortes de Paulo era o testemunho da sua própria vida. Não queria ser pesado para ninguém e procurava ser solidário com os mais pobres.
O nome de Paulo aparece como autor de 13 Cartas do Novo Testamento, escritas a diferentes comunidades, ao longo de talvez cinquenta anos: Romanos, Gálatas, 1e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Coríntios, Filipenses e Filémon; 1 e 2 Timóteo, Tito, Efésios, Colossenses.
Sofreu várias vezes o cativeiro. Sentiu-se várias vezes abandonado. Foi morto à espada, em Roma, segundo se crê, no mesmo dia em que Pedro foi crucificado de cabeça para baixo.
Uma lenda diz que, momentos antes de Paulo ser executado, uma cega, chamada Petronila, lhe ofereceu um véu para ele vendar os olhos. Paulo devolveu-lho. Ao aceitar de volta o véu, Petronila recuperou a vista.



O Zé e a Ana na nova lei do divórcio

Isilda Pegado - Público, 20080625

Na lei actual, o património divide-se em partes iguais. Com a nova lei, a Ana tem direito a 1/6 do património e o Zé a 5/6O Zé e Ana estão casados há 15 anos e têm dois filhos, ele é engenheiro e ela secretária. Ele, sabe-se lá porquê, ultimamente chega a casa bebe uns uísques e... bate na Ana. À terceira vez, a Ana apresentou queixa na GNR, para "ver se ele tem respeito a alguém". A Ana gosta do Zé e não se quer divorciar, apenas pediu ajuda para "esta fase má" do casamento. Hoje, com a lei actual, a Ana não tem medo de apresentar queixa porque o casamento não é posto em causa por esse facto. Amanhã, com a nova lei do divórcio, o Zé com cópia da queixa apresentada na GNR pode divorciar--se (art. 1.781.º, al. d), nova versão). O Zé usa a sua própria violência para pôr fim ao casamento.Acontece que a Ana ganha mil euros por mês, mas o marido aufere 5000 euros por mês. Sempre foi assim. Ele ganhava cinco vezes mais do que ela. É certo que ela orientava a casa, mas ele também ajudava nas tarefas domésticas (como qualquer casal moderno...). Hoje, com a lei vigente, o património que construíram (a casa onde vivem, o carro e os 80.000 euros de "pé-de--meia") é para dividir em partes iguais. A Ana fica com a casa e ele com o carro e o dinheiro. Amanhã, com a nova lei do divórcio, na partilha (art. 1.676.º, n.º 2, nova versão) a Ana tem direito a 1/6 do património e o Zé a 5/6. Contas feitas, a Ana para ficar com a casa terá de pedir ao Banco ?82.000 que dará de tornas ao Zé. Isto é, a Ana terá direito a 37.500 euros e o João a 187.500 (na divisão do património conjugal). Acontece ainda que, nos últimos três anos, o tio do Zé - o tio Arlindo - viveu com eles porque estava velho e não tinha filhos. Prevendo o seu fim fez um testamento ao Zé e à Ana deixando-lhes a casa na Nazaré e três pedaços de pinhal. O Zé e a Ana trataram de tudo e até registaram em seu nome as propriedades. Hoje, com o divórcio, o Zé e a Ana continuam a ser donos em partes iguais das propriedades. Amanhã, com a nova lei do divórcio, a Ana, que não quis divorciar-se, que foi vítima de violência do marido, tendo este obtido o divórcio, perde os bens que herdara do tio Arlindo (art. 1.791.º, nova versão) revertendo os mesmos, na totalidade, para o Zé. Quando a Ana procurou alguém que lhe explicou o que se iria passar, disse em voz baixa (não vá alguém ouvir): "Afinal, a violência doméstica compensa. Ainda dizem eles para apresentar queixa. Estou cada vez mais sozinha". Advogada

terça-feira, 24 de junho de 2008

Simplus, 27 Junho de 2008, col. S. Tomás

Quando as prisões são sucursais do Intendente

Isabel Stilwell, DESTAK
24 06 2008 22.33H
Os números revelados no texto aqui ao lado provocam um nó na garganta. Cada um destes reclusos quer o queiramos admitir, quer não, podia ser um dos nossos irmãos, um dos nossos filhos. Embora esteja detido por um crime concreto, com uma pena estipulada, na realidade sabemos que para a maioria a prisão é perpétua: presos atrás de grades, ou presos à dependência, até que a morte os liberte. São miúdos, com baixa escolaridade, e o que mais indigna é que continuam a praticar a ofensa que os levou até ali, com o beneplácito do Estado.
Se a ASAE consegue descobrir um pão saloio fora da validade, e apreende camisolas de contrafação, como é que é possível que a droga continue a entrar e a circular com esta facilidade nas prisões, como se fossem sucursais do Intendente? Diz a má língua que só acontece com o conluio de muitos guardas-prisionais, mas não há provas, e não serão certamente os prisioneiros a testemunhar contra eles. Quanto aos colegas, entende-se a dificuldade de encontrar a coragem para a denúncia.
É evidente que a prevenção a sério tem que começar cá fora, e logo no Jardim de Infância, para que no momento da escolha, aos 12 ou 13 anos, saibam optar pela sua saúde, como defende a equipa de Luís Patrício, especialista que toda a sua vida trabalhou na área da toxicodependência. É evidente que muitos chegam à prisão porque num ambiente de pobreza e carências, traficar droga é a via para uma vida mais fácil. Mas chegados à prisão, são necessárias mais respostas. Não nos podemos conformar a torná-las depósitos de drogados.
O projecto das Alas Livres de Droga já são um sinal de esperança. Aliciando ao tratamento com metadona, através de estímulos e privilégios só possíveis neste «programa», rigorosamente fiscalizado, e em que um único consumo dá direito a regressar às alas normais, têm conseguido resultados positivos. Este estudo termina, também, com uma nota de optimismo, ao revelar a existência de mais directores prisionais formados e especializados nas áreas sociais e da reabilitação. É caso para dizer: deixem-lhos trabalhar!
Isabel Stilwell editorial@destak.pt

S. João Baptista

S. João Baptista
Bouts, Dieric the Younger
c.1470
Óleo sobre madeira, 62,6 x 27,5 cm
Alte Pinakothek, Munique

Olhó balão - A canção de Lisboa




segunda-feira, 23 de junho de 2008

UM BUSH MAIS CATÓLICO QUE O PRÓPRIO KENNEDY

Leonídio Paulo Ferreira, DN080623
jornalista
leonidio.ferreira@dn.pt

E nquanto subia a escadaria da Torre de São João, George W. Bush não parava de exclamar "que honra, que honra, que honra!". Bento XVI decidiu oferecer este Junho uma recepção única ao Presidente americano, retribuição pelo acolhimento caloroso em Abril durante a visita papal aos Estados Unidos (até lhe cantaram os parabéns na Casa Branca). E em vez de encontrar-se com Bush na biblioteca do palácio apostólico, como é hábito com os chefes de Estado, acolheu-o antes no imponente edifício do século XII, plantado no meio desses jardins do Vaticano que Bento XVI costuma percorrer nas suas longas horas de reflexão. Foi suficiente a meia hora de conversa entre Bush e Bento XVI para a imprensa italiana voltar a especular sobre uma conversão ao catolicismo, repetindo a série de argumentos que tinham sido já usados pela revista Panorama e pelo jornal Corriere della Sera quando Joseph Ratzinger esteve em Washington: Bush reclama ter lido livros do teólogo agora Papa; tem estado alinhado com o Vaticano no combate ao casamento homossexual, ao aborto e à investigação com células estaminais; é um homem profundamente religioso, tendo trocado um dia o álcool pela Bíblia sob pressão da mulher, Laura, e desde então feito da fé cristã o seu modelo de conduta; ter-se-á rodeado de católicos na Casa Branca e até pedido a um padre para benzer a célebre West Wing, ou ala ocidental.No Texas, Bush pertence à igreja metodista e em Washington frequenta a episcopal. Tecnicamente, é um cristão protestante, como a maioria dos americanos. Mas a sua atracção pelo catolicismo é evidente. Começa logo pelo exemplo familiar, pois o irmão Jeb, ex-governador da Florida, converteu-se depois de casar com uma mexicana. Mas também é notada nas opções políticas, pois as suas escolhas para o Supremo tribunal foram John Roberts e Samuel Alito, juízes que proporcionaram a primeira maioria católica (cinco em nove) no órgão que molda a América. Não surpreende, pois, que um ex- -senador tenha classificado Bush como "o primeiro presidente católico da América". E a quem lhe relembra que já houve um católico na Casa Branca, Rick Santorum esclarece que o actual Presidente "é certamente muito mais católico que John Kennedy", mais não seja porque este tinha de manter distâncias em relação ao Vaticano. A favor de Bush também o facto de em 2004 ter obtido mais votos católicos que John Kerry, apesar de o rival ser um seguidor do Papa.Foi na guerra ao Iraque em 2003 que Bush e o Vaticano estiveram em oposição. Mas se o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, amigo e aliado de Bush, entretanto se converteu ao catolicismo, nada indica ter-se aberto uma moda entre os políticos de pedirem perdão por terem ignorado os conselhos de João Paulo II, o antecessor de Bento XVI. Blair cedeu sobretudo às pressões da católica Cherie, a mulher. Laura Bush, que se saiba, é uma mulher religiosa, mas nada católica.

O regresso do 'Zombie' constitucional, JCdasNeves, DN 080623

João César das Neves
professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

As instituições da Europa parecem-se cada vez mais com O Regresso dos Mortos- -Vivos. A defunta Constituição Europeia, assassinada por dois referendos, voltou à vida no Tratado de Lisboa. Seguindo o princípio de "não se falar de corda em casa de enforcado", foi quase eliminada a menção referendária na ratificação. Mesmo assim, como num filme de terror rasca, a bala prateada conseguiu matar o pobre descendente do monstro. Mas não desespere. Já se notam sinais de movimento no cadáver, anunciando a continuação da série.

A União Europeia nunca foi um processo democrático, com as elites a empurrar a integração. Logo o primeiro passo, o tratado que criou o Benelux, foi assinado a 5 de Setembro de 1944 em Londres, por governos exilados de três países ocupados. Também desde o início o ridículo persegue a Europa. No cinquentenário do Tratado de Roma uma antiga dactilógrafa revelou à BBC que, devido a atraso tipográfico, o documento assinado a 25 de Março de 1957 tinha só páginas em branco sob a capa (http/news. bbc.co.uk/2/hi/europe/6483585.stm). Os dois elementos estão ligados. A urgência que tornou necessária a pequena fraude era causada pelo medo de que a crise francesa trouxesse o general De Gaulle ao poder (como faria a 30 de Novembro de 1958), o que inviabilizaria a nascente CEE. Por isso a elite enganou as massas.

Mas existe ainda outro aspecto da integração, o sucesso. A cooperação e partilha de soberania que a Europa vem ensaiando constitui uma das grandes inovações políticas do nosso tempo. Basta ver que todos os vizinhos querem entrar e todos os longínquos querem copiar.

Juntando estes três elementos - aristocracia, ilusão e sucesso - quem sai mal é a democracia, não a Europa. Um punhado de líderes engana as massas para bem delas. Este é o sistema oligárquico que vigorou com eficácia durante milénios e ainda prospera em muitas zonas. Tem dois grandes defeitos. Primeiro, contraria radicalmente a actual filosofia europeia. Segundo, como descobriram desde a Antiguidade, as elites só sobrevivem se forem boas para as massas. Os actuais regimes ocidentais são os herdeiros das revoluções que substituíram violentamente oligarquias que, esquecendo a razão dos privilégios, deixaram de beneficiar o povo.

Eis o dilema da construção europeia. Como avançar sem o impopular impulso das elites? Como existir sem o respeito das regras democráticas? Mas isto não é diferente nas questões nacionais. Em múltiplos problemas, do ambiente à diplomacia, da indústria ao desporto, os cidadãos deixam a solução a técnicos e estrategas.

Se é assim, de onde vêm as atribulações da Constituição europeia? Da mais antiga das forças políticas, o disparate. Nenhum líder europeu alguma vez suportaria tal confusão dentro do seu próprio país. Não cairia em tão patente manipulação ou não deixaria que ela fosse descoberta. Assim, a forma atabalhoada do processo manifesta a própria fragilidade. O empenho na Europa da maioria dos dirigentes é lateral e secundário, sujeito a propósitos nacionais. Outros são flagrantemente incompetentes. O resultado é a trapalhada e o embuste descarado.

Durão Barroso disse: "não há um plano B" para o chumbo irlandês ao Tratado de Lisboa (http/www. eubusiness.com/news-eu/ 208419320.63/). Após o chumbo, começou logo a falar da alternativa. Esta displicência com a verdade inspira-se num dos seus autores de juventude: "Em geral, aquilo que obtém bom resultado é correcto, e o que fracassa é incorrecto, principalmente se se trata da luta dos homens contra a natureza. Na luta social, as forças que representam a classe avançada registam por vezes fracassos, não porque elas tenham ideias falsas, mas sim porque, na correlação das forças em luta, elas são temporariamente menos poderosas do que as forças da reacção. Assim elas fracassam temporariamente mas, tarde ou cedo, acabam por triunfar.(...) Não há outro meio de fazer a prova da verdade." Pequeno Livrinho Vermelho, Citações do Presidente Mao Tsetung, cap. 22, Editorial Minerva, 1975, p.145-146).

Avaliação

RR on-line, Raquel Abecasis, 080623

Talvez fosse sendo tempo de cada um, no seu sector, ser capaz de fazer um pouco de auto crítica.


Portugal e os portugueses têm um problema com a avaliação. Seja em que matéria for, tendemos sempre a pensar que somos injustiçados, que não nos dão o devido valor ou, quando as coisas correm mesmo mal, que tivemos azar. É assim na educação, no trabalho, na política e até no futebol. E, talvez, seja esta a razão porque, quase sempre, valorizamos a mediocridade e desprezamos a excelência.

Os alunos têm más notas? Facilitemos os exames. A selecção nacional foi eliminada do Euro? Afinal, os nossos génios do futebol podem ser dispensados porque não são assim tão bons. E, este fim-de-semana, não deixou de ser curioso ver a comunicação social em peso ir comentando o congresso do PSD à luz do “palmódromo” da assistência e da maior ou menor excitação dos congressistas com o andamento dos trabalhos.

Convenhamos que em nenhum dos exemplos o critério de avaliação é adequado. É, por isso, que talvez fosse sendo tempo de cada um, no seu sector, ser capaz de fazer um pouco de auto-crítica. Se formos capazes de passar um pouco para lá da espuma dos dias, talvez a valorização dos melhores nos ajude a alcançar melhores dias e quem sabe a recuperar do nosso famoso atraso estrutural.

Raquel Abecasis

domingo, 22 de junho de 2008

Do tempo livre à libertação do tempo


O documento «Do tempo livre à libertação do tempo», fruto das três primeiras Jornadas da Pastoral da Cultura, foi apresentado nos dias 19 e 20 de Junho, durante a conferência de D. Gianfranco Ravasi na Universidade Católica e aquando das IV Jornadas.
O texto, da autoria do P. José Tolentino Mendonça e Paulo Pires do Vale, inaugura uma nova marca editorial - «Cadernos do Sicómoro» - que acompanhará as obras publicadas pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. O sicómoro é uma das árvores frondosas referidas na Bíblia. Semelhante à figueira pelo seu fruto e à amoreira pelas suas folhas, cresce nas margens do Mediterrâneo. Zaqueu sobe ao sicómoro, porque a multidão o impede de ver Jesus (Lc 19,1-10).
Neste artigo apresentamos a introdução do documento, da autoria de D. Manuel Clemente.
"O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura oferece à
cultura em Portugal, e à Igreja no seu conjunto, esta síntese da reflexão que dedicou, ao longo de três anos, à temática do «tempo livre». É o seu primeiro trabalho no género, tentando um desempenho oportuno e específico do seu encargo, dentro da Conferência Episcopal Portuguesa em que se integra.
Num processo de discernimento sobre a nossa contemporaneidade, evidenciou-se o «tempo livre» como tópico particularmente sintomático. Indicado, por se ter tornado um campo de formulação do sonho e do desejo, mesmo numa sociedade em que o trabalho é tantas vezes a maior necessidade. Indicado, porque, tendo sido em grande parte absorvido e regido como indústria, o «tempo livre» não cumpre só por si o que promete, tornando-se, por vezes, em cativeiro de expectativas e energias.
Podemos até dizer que, sendo o tempo uma realidade humana, ao menos na sua dimensão psicológica, só é «livre» quando realmente liberta. Ou seja, não alienando o inalienável, a condição humana e a sua essencial complexidade, mas aprofundando-lhe a substância, até à suma simplicidade. Simplicidade em que cada um seja finalmente coeso, identificadas a inteligência e a vontade num único desejo, ainda além delas. No fundo, é a nós mesmos que libertamos, quando a dimensão temporal se abre à eternidade; quando o desejo que acrescenta
os momentos, mais do que os abrevia, se dissolve num oceano sem margens. Di-lo ‘infinitamente’ bem Bento XVI, no passo da sua encíclica sobre a esperança: «A única possibilidade que temos é procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjecturar que a eternidade não seja uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo - o antes e o depois - já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria» (Spe salvi, §12).
O presente texto é agora confiado a quem o queira receber
e aplicar em iniciativas várias, da reflexão à prática. Diferentemente da erudição, a cultura só se consegue fazendo e ousando. Ficam aqui alguns «sinais de pista» para esse caminho aberto."
Encomendas
A encomenda desta edição deve ser feita ao Centro de Publicações da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), que enviará por correio os exemplares pedidos. A obra também poderá ser adquirida directamente na livraria da UCP.
As informações sobre os procedimentos relativos ao pedido, pagamento e envio podem ser obtidas através do telefone 21 721 40 24.
Endereço postal:
Centro de Publicações da Universidade Católica Portuguesa
Palma de Cima
1649-023 LISBOA
D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais
in Do tempo livre à libertação do tempo
© SNPC | 22.06.2008

Memórias da intolerância



Catedral de Santa Maria de Sevilla


"Hagamos una Iglesia que los que la vieren labrada nos tengan por locos"; así tradujo el pueblo lo que habían decidido en sus reuniones los canónigos de Sevilla en 1401. Estaban dando a luz, sin saberlo del todo, esta maravilla que hoy contemplamos y cuya historia resulta sorprendente.

Soñaban, por qué no, que un día fuera la mejor cátedra del Arzobispo de Sevilla y futuro Patriarca de la Indias; que en ella se celebrara el más esplendoroso culto litúrgico de la Metrópoli hispalense; que asombrara a sus visitantes al caminar bajo sus bóvedas góticas, al descubrir su multiforme iconografía, (pintura, escultura, orfebrería, tejidos, libros corales, vidrieras),llenando las más diversas capillas góticas y renacentistas, para llegar después a encontrarse, en el remanso del Patio de los Naranjos, con las joyas bibliográficas y documentales que se custodian en el Archivo y Bibliotecas, pórtico de un singular sancta sanctorum: la Biblioteca Colombina.
Piedra a piedra ven crecer esa impresionante "montaña hueca", bajo la severa mirada de la Giralda, señora de Sevilla.
El cabildo Metropolitano ha sido su fiel custodio, durante siete siglos de rica historia y lo quiere seguir siendo con una atención y organización, cada día, mas moderna y esmerada.
Para ello, mantiene la Liturgia diaria y rompe moldes en la celebración de las grandes festividades del Corpus y de la Inmaculada (baile de seises, procesión por la ciudad, repique de sus 24 campanas), atiende permanentemente la devoción a la Virgen de los Reyes, y realiza amplia pastoral sacramental, como primera iglesia de la Diócesis de Sevilla.
Pero hay más. Esta maravilla tiene que ser compartida por todos, creyentes o no. Y, para ello, programa ciclos de conferencias, conciertos de órgano en Adviento y Cuaresma, exposiciones permanentes y, sobre todo, cuida con toda clase de atenciones la visita cultural a todas sus dependencias.
Bienvenido.


S. Tomás Moro, 22 de Junho



HOLBEIN, Hans the Younger
Sir Thomas More
1527
Tempera em madeira, 74,2 x 59 cm
Frick Collection, New York

sábado, 21 de junho de 2008

Discurso do Dr. António Maria Pinheiro Torres no Congresso do PSD

Desde 1997 que existe um fenómeno novo na política portuguesa que pelas suas próprias características acaba por ter pouca visibilidade apesar da sua inegável implantação no terreno. Um movimento de cidadãos que tem estado presente em todos os grandes debates de civilização trazidos por questões da actualidade política. A liberalização do aborto e a introdução da pílula do dia seguinte, a despenalização do consumo das drogas e a questão da referência ao cristianismo no preâmbulo da Constituição europeia, a educação sexual e a procriação artificial, são alguns dos temas que estão na origem de multiformes movimentações populares.

Os números são expressivos. As petições populares reuniram entre 30 mil encarregados de educação (pela liberdade na educação sexual) e 82 mil cidadãos (e um terço dos deputados de então) na reivindicação da referência ao cristianismo na Constituição europeia. Duas petições populares de referendo com 65 mil subscrições em 2001 (sobre a despenalização do consumo da droga) e 80 mil assinaturas em 2006 (sobre a procriação artificial). Por ocasião de um debate parlamentar (em 2004) dá mesmo entrada no parlamento uma Petição (Mais Vida Mais Família) que é a maior já entregue na Assembleia da República desde sempre: 217 mil assinaturas angariadas em apenas um mês. Votações superiores a um milhão e meio de eleitores em dois referendos sobre o aborto (em 2007 mais 200 mil votos que em 1998 e entre estes um terço dos que votavam pela primeira vez). Na sequência destas campanhas nasceram dezenas de associações e o trabalho de assistência social ou formação das consciências atingiu milhares de famílias, mulheres e crianças.

Promovem estas iniciativas gente de proveniência diversa, de diferentes partidos (alguns reconheço os seus rostos nesta sala) oriundos da militância católica, de instituições de solidariedade social e dos sectores da cultura e da educação.

No entanto é desta dinâmica que hoje o sistema democrático mais carece. Nestes movimentos existem causas fortes e convicções firmes que permitem fazer a diferença. Protagonistas que dão a sua vida pelo serviço do bem comum. Se há possibilidade de uma sociedade mais democrática é porque essa dinâmica civil tem crescido ao longo dos anos. Qual o maior obstáculo a uma sua mais efectiva participação no debate político? O sistema eleitoral tratado até hoje como assunto técnico e não como assunto de substância do próprio regime democrático. As eleições dominadas pelas estruturas partidárias sempre tentadas pelo centrão consensual e pelo pântano dos interesses parcelares.

A eleição dos deputados de cada partido num sistema de primárias, a existência de círculos uninominais (com o direito de qualquer pessoa se submeter a eleição mediante a apresentação de um número mínimo de assinaturas), a possibilidade, nas eleições legislativas, europeias e locais, de na lista apresentada a sufrágio e dentro da votação em cada partido escolher o candidato da nossa preferência, o tratamento de uma vez por todas democrático e equitativo de todas as candidaturas pela comunicação social (é um escândalo a definição pelos patrões dos media de quais os candidatos que importam e de quais os irrelevantes…), o fim de um regime absurdo de referendo em que este só tem lugar apesar do povo o ter pedido, se os partidos concordarem com ele, o financiamento das campanhas referendárias nos mesmos termos das campanhas eleitorais, são alguns dos pontos em que uma reforma do sistema eleitoral podia fazer a diferença.

Porque é que este assunto interessa ao PSD? Porque olhando a votação do Não (um milhão e quinhentos mil eleitores) e tendo presentes os últimos resultados eleitorais, ainda que se descontem 400 mil votantes do PP e pelo menos 200 mil eleitores PS, sempre restarão 900 mil eleitores que é razoável presumir pertencem ao núcleo duro do eleitorado do PSD. Que resposta pretende o partido dar a estes cidadãos seus votantes? E aos que não sendo seus votantes, partilham no entanto este quadro comum de valores e objectivos?

A questão é pois se no respeito das nossas diferenças (um partido é uma vasta coligação de forças sociais e morais) está o PSD disposto a tornar-se o partido que em cada circunstância procura defender a liberdade de cada um e das suas comunidades naturais contra a concentração do poder no Estado? Está o PSD disposto a honrar a sua declaração de princípios e a respeitar decididamente a liberdade religiosa (que nos últimos anos tão atacada tem sido pelo Governo do Partido Socialista)? Está o PSD disposto a bater-se pela liberdade de escolha da escola garantindo assim maior justiça para todos? Está o PSD disposto a observar a Constituição e perante o abuso de direito que constituiu a nova lei do aborto aprovar em tempo razoável quando tivermos maioria e se o povo o pedir a realização de um novo referendo? Está o PSD disposto a ser um partido diferente do Partido Socialista? A defender a instituição do casamento e a bater-se pela promoção da família? A honrar o bom trabalho em tantas áreas realizado sob a égide de Durão Barroso, Morais Sarmento e Santana Lopes?

No momento em que se inicia um caminho novo no PSD aqueles que estamos nestes movimentos e participamos ou votamos naquele partido é isto que queremos saber. Se o PSD quer respeitar estes movimentos cívicos. Se quer empurrar para fora do sistema os seus votantes ou tornar-se assim uma alternativa real a um poder de lojas desconhecidas, experiências perigosas e vertigens civilizacionais suicidas. Para Portugal e para o respeito da dignidade humana a resposta a estas perguntas é muito importante. Para nós, no PSD, pode ser decisiva.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Tempo livre

Aura Miguel, RR on-line, 080620

Estão na moda as distracções organizadas, misturadas com uma certa infantilização que, em vez de libertar a pessoa, a reduzem a um produto fragmentado de uma cultura que vive do ”zapping” e do ruído.


Do tempo livre à libertação do tempo” é o sugestivo nome de um documento que a Igreja Católica acaba de publicar, através do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.
O objectivo é ajudar a discernir o valor e a dimensão do tempo na nossa vida. É que o tempo, de facto, só é livre quando realmente liberta da vertigem e correria em que vivemos. Se não for assim, o chamado tempo livre pode reduzir-se a mero entretenimento e até mesmo a uma sistemática distracção do essencial.

Estão na moda as distracções organizadas, com propostas mais ou menos cansativas do tempo livre, misturadas com uma certa infantilização que, em vez de libertar a pessoa, a reduzem a um produto fragmentado de uma cultura que vive do ”zapping” e do ruído.

Então, como é que o tempo nos traz maturidade? Só nos libertamos – lê-se neste documento da Igreja – quando a dimensão temporal se abrir à eternidade e nunca cancelarmos (nem sequer nas férias) as questões essenciais da vida.

Aura Miguel


quinta-feira, 19 de junho de 2008

Por um dia fui irlandês!

PÚBLICO
19.06.2008, António Bagão Félix
A Europa do pensamento único não se pode queixar. Tem o que merece
A Irlanda-modelo, sempre referenciada como uma via de desenvolvimento a imitar, virou Irlanda-pesadelo. Neste referendo, os irlandeses disseram "não" à batota. Sim, porque é de sofisticada batota que se trata, depois de tantos e variados expedientes ao longo dos tempos. Aquando do "não" dinamarquês a Maastricht e do "não" da Irlanda a Nice, foi institucionalizada a prática do referendo pós-referendo, de maneira a dar uma nova e generosa oportunidade ao povo de se penitenciar perante o directório europeu. Tudo isto porque os eleitores do "não" (ao contrário dos do "sim"...) nunca estão suficientemente esclarecidos e por isso é necessário "educá-los" com mais referendos.Com a Constituição Europeia chumbada na Holanda e em França, a táctica mudou. Já não eram a pequena Dinamarca ou a Irlanda a bater o pé, mas a grande e soberba França. Por isso, em vez de um novo e punitivo referendo de resultado imprevisível, a solução foi um "novo" tratado, com a garantia de não se voltar a cometer a imprudência de dar voz aos eleitores.Por azar esqueceram-se não dos gauleses, mas dos irlandeses que, coitados, teriam que votar por obrigação constitucional. De início, a "Europa Única" estava descansada perante tão confortável margem das sondagens. Até se dizia, tranquilamente, que não havia plano B para um improvável "não" (em bom rigor, um plano C, pois que o B já se havia esgotado na esperteza de um tratado travestido).Finalmente, os irlandeses, que nunca foram militantemente eurocépticos como os ingleses e já haviam votado seis vezes antes sobre a Europa (cinco vezes "sim" e uma vez "não") tiveram a ousadia de rejeitar o tratado, numa consulta popular que ultrapassou em afluência todos os anteriores actos (cerca de 53%). Não deixa de ser espantosa a reacção dos grandes países e da Comissão. Dizer-se que o tratado não está moribundo é, em primeiro lugar, desrespeitá-lo, pois o que lá está escrito é que ou é assinado por todos ou não avança. Dizer-se que menos de dois milhões de eleitores não podem condicionar a vontade dos europeus é uma falácia, pois os outros povos não foram ouvidos e seria até provável que em alguns países se viesse a chumbar o tratado. Sentenciar-se que nestas consultas se vota mais a pensar na política nacional que na Europa é o argumento habitual para interpretar um "não", que todavia jamais vi referido para interpretar um "sim". Aliás, neste caso irlandês a quase totalidade das forças políticas no governo ou oposição estavam do lado do "sim" e nem se pode falar de um voto de protesto quanto à política interna.Inqualificável foi também a reacção de alguns líderes europeus (a começar pelo hegemónico eixo franco-alemão) ao repreender a Irlanda (recordam-se de algum puxão de orelhas aos franceses por ocasião do seu "não"?). A verdade é esta: o Tratado de Lisboa não exprime, ética e politicamente, um contrato envolvente, transparente e responsabilizador com os cidadãos. O tratado é uma charada quase indecifrável de remissões, excepções, alterações e repristinações que lhe retira um carácter desejavelmente comum e amigável. É um rendilhado técnico que introduziu 356 emendas aos 413 artigos do Tratado da UE e do Tratado sobre o funcionamento da UE, contém 13 Protocolos anexos com valor idêntico ao próprio tratado, mais 65 Declarações de Estados-membros relativas às disposições dos tratados! Uhf! Gostava de saber quantos deputados em Portugal terão lido tão vasta documentação aquando da ratificação parlamentar...Por tudo isto, a Europa do pensamento único não se pode queixar. Tem o que merece. Um voto "sim" numa consulta desta natureza implica uma explicação cristalina, transparente, acessível do que vai mudar. Na ausência de tudo isto, o "não" aparece como legítimo e natural. Com a agravante, na Irlanda, de ser perceptível que o Tratado de Lisboa favorece os Estados mais populosos e retira influência aos países mais pequenos.Um pouco de sensatez e humildade ficaria agora bem à ortodoxia europeia, de maneira a enxergar que afinal o problema europeu não é irlandês. É europeu! E, ironia das ironias, a Irlanda porta-estandarte do projecto de progresso, paz e democracia na Europa é agora quase convidada a uma separação. Tudo por causa do... povo se pronunciar livremente sobre um projecto de tratado que, no preâmbulo, refere a necessidade de "uma União cada vez mais estreita com os povos da Europa em que as decisões sejam tomadas ao nível mais próximo possível dos cidadãos" e no seu artigo nono que "a cidadania da União acresce à cidadania nacional, não a substituindo".Por medo, cobardia, apoplexia tecnocrática, diletantismo ou atestado de inferioridade conferido aos povos, o "gravy train" europeu não gosta definitivamente de dar voz aos cidadãos! Em Portugal, o Governo também mandou às malvas a sua promessa de "referendo popular, amplamente informado e participado"...Por tudo isto, e independentemente da minha posição de princípio pró-europeia, por um dia fui irlandês! Ex--ministro das Finanças

Não precisamos de boas estatísticas, precisamos de bons alunos

PÚBLICO
19.06.2008, José Manuel Fernandes
Três anos e meio depois, é cada vez mais claro que uma mulher que se apresentou como grande reformadora do sistema educacional há muito que passou a funcionar apenas em função dos resultados estatísticos que puder apresentar
Quando Maria de Lurdes Rodrigues foi nomeada ministra da Educação pouco se sabia da sua experiência política excepto que, como colaboradora de Mariano Gago no tempo em que este passara pelo Ministério da Ciência, realizara um trabalho competente de sistematização estatística. Na pequena ficha que, a 5 de Março de 2005, se escrevia no PÚBLICO sobre esta figura ainda desconhecida da opinião pública referia-se que "a socióloga Maria de Lurdes Rodrigues, 48 anos, foi a primeira presidente do Observatório das Ciências e das Tecnologias, criado em 1997 por Mariano Gago" e que "a sua função era recolher estatísticas sobre a actividade científica portuguesa".Três anos e meio depois, é cada vez mais claro que uma mulher que se apresentou como grande reformadora do sistema educacional, e que tomou algumas medidas correctas e importantes no início do seu mandato, há muito que passou a funcionar apenas em função dos resultados estatísticos que puder apresentar. Só assim se compreende a forma agressiva como, nos últimos tempos, tem reagido a todas as críticas, vindas quer das associações de professores (não confundir com sindicatos), quer das sociedades científicas sobre o caminho que está a seguir para conseguir essas estatísticas. Mais exactamente: sobre o facto de uma ministra que tem dito que deseja dificultar a possibilidade de "reter" um aluno que não tem as competências mínimas para passar de ano ter criado um clima que permite que o nível de exigência nas provas de aferição e nos exames nacionais do 9.º e 12.º anos possa estar a descer. E só dizemos "possa estar" e não que está mesmo a descer porque neste domínio se recomenda um cuidado que não é compaginável com a arrogância. Esta fica para os responsáveis do ministério e pode bem caracterizar a forma como ontem tanto a ministra, como o director do Gave - o gabinete responsável pelas provas - reagiram às críticas quer da Associação de Professores de Português, quer da Sociedade Portuguesa de Matemática. Se os nossos estudantes tivessem evoluído de forma gradual, ao longo do mandato deste Governo, passando de elevados percentagens de provas de aferição negativas no 4.º e 6.º anos tanto a Matemática como a Português, estaríamos aqui a celebrar: todos desejamos melhores níveis de aprendizagem ao longo de todo o ciclo de ensino. Agora aquilo que surpreende é que se celebre, como a ministra fez, um salto inverosímil na qualidade das aprendizagens - de repente as negativas a Matemática passam para metade nos 4.º e 6.º anos - quando as indicações vindas da evolução do sistema ainda o ano passado iam em direcção contrária, pois o famoso plano de recuperação que já estava em marcha não tivera qualquer efeito nos exames do 9.º ano, onde os resultados haviam piorado. Será que tal plano só teve efeito nos primeiros ciclos? Ou será que, como defende uma sociedade científica dirigida por um matemático cujas qualidades como divulgador foram este anos premiadas a nível europeu, os exames eram demasiado elementares?Ainda antes de conhecer os resultados das provas já a SPM havia levantado o problema. Não ficou à espera dos resultados para dar a sua opinião: pronunciou-se a tempo e horas. E sem o fazer na base do ataque pessoal ou de carácter, ao contrário do que ontem fez o director do Gave, Carlos Pinto Ferreira, a quem não se conhecem competências para dizer que alguém como o presidente da SPM, Nuno Crato, deve ser uma pessoa "que de certeza absoluta não sabe nada de avaliação educativa". A incapacidade de suportar a crítica e de responder com argumentos sérios, fundamentados e detalhados marcou de resto o discurso de ontem dos responsáveis ministeriais e pode até ser a explicação para o que resulta de incompetência ou de golpe de baixa política: não enviar os critérios de correcção às associações de professores, impedindo-as assim de se pronunciarem a tempo e horas para os meios de comunicação social. Será por recearem ser criticados? Ou por retaliação face a críticas anteriores?Esperava-se que face a um tema tão importante como a avaliação do processo de avaliação o ministério actuasse com mais transparência a abertura à crítica, até porque esta tem sido feita de forma construtiva. Tal como não se esperavam comportamentos que indiciam reacções do tipo "quem se mete com o PS, leva".

Campeonato, JCdasNeves, Destak, 080619

Campeonato

19 06 2008 00.12H

Muitos jornalistas querem saber o impacto do Euro 2008 sobre o espírito nacional e, em consequência, sobre a crise económica e política. A resposta é simples: vai correr mal e a culpa é do Governo.

O problema ficou distorcido à partida. Desde o início que se alimentaram grandes esperanças. Não passar à segunda fase seria uma catástrofe, falhar nos quartos de final um desastre, não chegar à final uma vergonha. Sendo assim, o mais provável é termos um desastre ou uma vergonha. E os ministros servem para ficar com as culpas destas coisas. Aliás, com este espírito, só duas equipas não sairão embaraçadas da Áustria e só uma fica contente.

Pelo contrário, lembram-se há quase um ano, em Setembro de 2007, da primeira participação de uma equipe amadora portuguesa no Mundial de Rugby em França? Nessa altura não havia esperanças e só existiram derrotas fragorosas. Mas a humildade e dedicação dos «Lobos» deixaram o país orgulhoso, elevado, feliz.

Esta é uma boa comparação com a situação económica. Quando entrámos na Europa em 1986 sabíamos que iria ser muito difícil. Não havia arrogância ou esperanças, mas trabalho e esforço. Fomos uma boa surpresa. Mas depois vieram as seguranças, as exigências, os palpites. Começámos a ter pergaminhos. Deixou-se de trabalhar e arriscar para nos dedicarmos a direitos adquiridos. Tinha de acabar na depressão.

Portugal até sabe jogar à bola. Mas tem aquela terrível tendência para ficar no café a discutir o árbitro. Quando isso acontece, o resultado é sempre o mesmo: corre mal e a culpa é do Governo.

João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Os irlandeses falaram por todos nós

PÚBLICO
18.06.2008, Jorge Miranda


O voto irlandês é a recusa do modelo de construção apenas a partir de Bruxelas e de acordos entre os grandes

Os Governos dos Estados-membros da União Europeia resolveram evitar a realização de referendos acerca do Tratado de Lisboa, mesmo em países onde eles se impunham por causa dos resultados negativos de anteriores referendos (como a França, a Holanda, a Dinamarca), de exigências da opinião pública (como a Grã-Bretanha) ou de promessas eleitorais (como Portugal).Só não puderam ultrapassar a Constituição da Irlanda e, por isso, aí teve de haver referendo, que pensaram que seria uma mera formalidade.Não viria a ser, porém, uma formalidade. O povo irlandês soube assumir a sua soberania e votou "não", provocando logo as mais espantosas reacções de alguns dirigentes, chegando a afirmar-se que 3 milhões de irlandeses não poderiam parar 450 milhões de europeus! (quando o próprio Tratado, como os anteriores, faz depender a sua entrada em vigor da vinculação de todos os Estados). Ou que o problema era com o Governo de Dublin, convidado a repetir o referendo para se alcançar um "sim"!Ora, independentemente de se concordar ou não com o Tratado de Lisboa (que, aliás, cada vez mais se vê ser uma cópia, salvo em certas formulações, da "Constituição"), o grande significado do voto irlandês é a recusa do modelo de construção apenas a partir de Bruxelas e de acordos entre os grandes (não tenhamos ilusões, não foi a presidência portuguesa que tudo preparou, foi a alemã). É a recusa de uma construção imposta de cima para baixo. E é, especialmente, a recusa do compromisso espúrio que levou à não realização de referendo noutros países. Não se trata, claro está, de pôr em causa a legitimidade dos procedimentos parlamentares de aprovação dos tratados europeus. Bem pelo contrário: os Parlamentos nacionais deveriam ter uma participação muito mais extensa e intensa do que têm tido nas decisões conducentes a novos passos de integração. Deveriam ter tido antes e não depois. (Assim como falta, nas instituições da União Europeia, uma espécie de segunda câmara com representação paritária de todos os Estados através dos respectivos Parlamentos.)Do que se trata é de os cidadãos serem chamados também eles a intervir por vias adequadas e eficazes, entre as quais os debates referendários. E do que se trata é de, para tanto, se fazerem tratados simples, claros, bem elucidativos daquilo que continua a pertencer ao domínio dos Estados-membros e daquilo que, sem prejuízo do princípio da subsidiariedade, é atribuído à União - em vez de tratados longuíssimos e complexos que nem os governantes lêem ou leram (como confessou o primeiro-ministro da Irlanda).No caso português, até agora, os dois partidos maioritários têm fugido ao referendo. Foi assim em 1992 com Maastricht (embora na altura a Constituição não o permitisse). Foi assim com o Tratado de Amesterdão e com o Tratado chamado Constituição (pois, se tivessem querido, bem poderiam ter ajustado as perguntas referendárias às pronúncias do Tribunal Constitucional). E foi este ano, apesar de na revisão de 2005 se ter aditado à Constituição uma norma específica, o artigo 295.º, o qual, se não obriga, pelo menos pressupõe a realização de um referendo sobre o novo tratado europeu.No caso português ainda, as reacções dos grandes ao voto da Irlanda deviam também levar a pensar sobre o nosso estatuto dentro da Europa. Mesmo que o Presidente da República e o Governo achem que o Tratado de Lisboa o acautela devidamente (o que é duvidoso, em face, por exemplo, do desaparecimento das presidências rotativas que eram expressão de igualdade dos Estados), não deveriam fazer declarações precipitadas que, de algum modo, diminuíssem o direito dos pequenos (e, para este efeito, Portugal é pequeno) de livre aceitação dos instrumentos constitutivos da União, tal como decorre (insisto) dos termos do Tratado.Não discuto aqui a necessidade ou a conveniência de um tratado que substitua o Tratado de Nice. O que pretendo é que qualquer tratado seja coerente com uma ideia de Europa de Estados iguais e de uma Europa dos cidadãos. Constitucionalista

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A vergonha da autentica crise social, JCdasNeves, DN080616

A VERGONHA DA AUTÊNTICA CRISE SOCIAL

João César das Neves
professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Portugal vive grave crise social. Toda a gente sabe isto. Os jornais repetem diariamente os contornos do drama, sucedem-se manifestações e protestos, a oposição orienta nesse sentido as críticas crescentes. Ninguém tem dúvidas de que, em vez das prometidas recuperação e prosperidade, caímos em séria perturbação económica. Mas o que está mesmo a acontecer de novo? Quais os factos concretos que sustentam este clima depressivo? Onde está a tão propalada crise social?

Quem pretender responder séria e serenamente a estas questões encontra obstáculos inesperados. A economia não está em recessão, nem sequer próxima; o crescimento económico abrandou ligeiramente do nível baixo que tem há anos. O desemprego não subiu, nem se prevê que venha a subir muito para lá do nível alto em que permanece há bastante tempo. Mesmo nos preços, em que os rumores dos mercados do petróleo e alimentos prometem terríveis desenvolvimentos, as mudanças são mínimas: a inflação acelerou, mas para níveis aceitáveis e, apesar dos esforços jornalísticos, nunca mais se dá um efeito sério que justifique tanto barulho. De facto, o cenário económico que as instituições respeitáveis traçam para o futuro próximo do nosso país não é catastrófico. Pelo contrário, parece copiado da situação que vivemos há algum tempo.

Nos indicadores sociais, pobreza e desigualdade, o quadro disponível ainda se refere apenas a 2006. Devido à superior complexidade do fenómeno, os números andam atrasados e ninguém arrisca previsões seguras. Mas também aí a situação parece ser de continuidade. A taxa de pobreza em Portugal, calculada segundo as regras da UE, há dez anos que flutua à volta de 20% da população. O último valor publicado, de 2006, até registou uma descida para 18%. Os desenvolvimentos posteriores assinalam uma redução, não um aumento da indigência. Os pobres não têm automóvel e não são muito afectados pelo preço do petróleo. Além disso os empregos não especializados têm grande procura e falta de candidatos. Como entretanto a imigração abrandou e a emigração aumentou, é provável que a referida tendência de redução dos pobres continue após 2006.

Na desigualdade de rendimentos passa-se um fenómeno paralelo, com a situação estável há mais de uma década. Os jornais dão grande impacto à notícia de que somos um dos países da Europa com maior disparidade. Isso é verdade, e é há muito tempo. E nem sequer diz grande coisa, dado que estamos a comparar-nos com os países de menor desigualdade do mundo. É verdade que o fosso entre ricos e pobres subiu entre nós face ao que tínhamos antes da democracia. Isso seria sempre inevitável, devido ao desenvolvimento, agora agravado pela globalização. O problema merece atenção cuidada, mas está longe de ser a prioridade aflitiva que os propósitos mediáticos afirmam.

Quer tudo isto dizer que não temos uma crise social? Não. Quer dizer que a crise que sofremos é bastante mais subtil e complexa do que as abordagens comuns asseguram. Existem muitos sinais, não de um agravamento do fundo da escala social, mas de sérias dificuldades nos extractos imediatamente acima. A nossa crise social está na classe média.

Uma parte importante da população portuguesa, que tinha algumas posses e muitas ambições, acreditou nos discursos que os governantes andam a produzir há dez anos. Apostou na educação, comprou casa e carro, endividou-se ao banco. Depois veio o desemprego, doença, trabalho precário, prestações crescentes. Em vez de subir, caiu em grandes dificuldades. Normalmente ainda tem património, a casa hipotecada, carro velho, mas não sabe o que porá no prato esta noite. É uma pobreza envergonhada, desiludida, revoltada. Este é o verdadeiro rosto da nossa crise social.

As políticas contra a pobreza não vão aliviar as dificuldades. Como os responsáveis, que criaram a situação, ainda não a perceberam, conceberão medidas complexas, mas ao lado dos sofrimentos. Alvoroçados, não pelo problema, mas pelo ataque político, proporão programas que calem os críticos, sem resolver o drama.

La Pilarita




Nuestra Señora del Pilar - Saragoça




sábado, 14 de junho de 2008

O pior erro será ignorar o voto irlandês


PÚBLICO, 14.06.2008, José Manuel Fernandes

O problema dos líderes europeus é que nenhum deles é capaz de associar o Tratado de Lisboa a um novo sonho que vá para além dos que estão dados por adquiridos nestes últimos 50 anos


O único povo europeu a quem foi dado o direito de se pronunciar em referendo sobre o Tratado de Lisboa votou "não". Um "não" claro, pois não só a margem do resultado foi expressiva, como um "não" duplamente válido pois foi obtido num referendo em que o nível de participação ficou acima dos 50 por cento, um nível bem superior aos anteriores referendos.
O que esta votação provou é que é cada vez mais difícil "vender" a "Europa" aos europeus. A razão porque 99 por cento dos cidadãos europeus não se podem exprimir em referendo sobre o Tratado de Lisboa não decorre da tradição nem do direito: foi uma decisão política dos líderes europeus tomada em segredo na cimeira que fechou a presidência alemã e que pavimentou a estrada para o acordo a que se chegaria durante a presidência portuguesa. Só a Irlanda escapou a esse acordo, porque a sua Constituição obriga a que qualquer alteração constitucional seja referendada. Os irlandeses já se tinham pronunciado múltiplas vezes sobre o processo de integração europeia, mais exactamente em 1972, 1987, 1992, 1998, 2001 e 2002. Votaram sempre "sim" excepto em 2001, razão porque repetiram o referendo em 2002. E agora voltaram a votar "não", só que de forma muito mais expressiva.
Por isso, ao analisar o voto irlandês, só pode tirar-se dele as respectivas consequências, as únicas possíveis no quadro das regras ainda vigentes na União Europeia: o Tratado de Lisboa está ferido de morte. Os irlandeses não são menos do que os franceses ou os holandeses, que, quando votaram "não" ao anterior Tratado Constitucional, obrigaram à sua revisão. Dizer que são poucos, acrescentar que são mal-agradecidos ou elaborar sobre como terão sido enganados pela demagogia dos defensores do "não" é insistir no mesmo tipo de erro que tem vindo a tornar o projecto europeu invendável a boa parte das opiniões públicas.


É sabido que num referendo se utilizam sempre argumentos demagógicos, e eles não faltaram neste referendo irlandês. Mas será que também não se faz demagogia em eleições legislativas, locais ou presidenciais? Claro que se faz, e isso não é argumento para acabarmos com elas.
É sabido também que a esmagadora maioria dos irlandeses não leu o Tratado de Lisboa e não o compreende bem, só que isso também não desqualifica a qualidade do seu voto. Ou será que alguém imagina que os eleitores também lêem e compreendem os programas partidários antes de qualquer das nossas bem-estimadas eleições? Lêem tanto ou menos do que os irlandeses terão lido o Tratado que referendaram.
É também sabido que os resultados dos referendos podem ser subvertidos pelo desejo dos eleitores de enviarem uma mensagem de protesto, como se disse que aconteceu em 2005 em França. Só que isso também sucede nas eleições locais e europeias, e não é por isso que as cancelamos - sendo que, desta vez, é claro que o voto de protesto irlandês não visou o seu novo primeiro-ministro, mas essa burocracia longínqua e arrogante que dá pelo nome de "Bruxelas".
Se as leis da Irlanda impõem o voto popular, se as da Europa impõem a unanimidade de ratificações para que um Tratado entre em vigor (Tratado esse que muda essa regra...), se a Irlanda votou "não", o problema não é dos irlandeses, é da União Europeia. Qualquer "plano B" que torpedeie estas regras será mais um tiro na credibilidade do projecto europeu.

Aquilo com que os líderes europeus têm mesmo de se preocupar não é com saberem se a Europa pode ou não continuar a funcionar sem o novo Tratado, mas como é que a Europa pode funcionar quando os mecanismos da democracia europeia (que este Tratado era suposto reforçar) não são vendáveis aos eleitorados e até os líderes europeus parecem dispostos a violá-los. Esse é o nó do problema e procurar ignorá-lo descredibilizando o voto popular é enterrar a cabeça na areia.
O que todos os líderes europeus têm de entender é que os últimos referendos mostram que os eleitores, quando têm de enfrentar duas chantagens de sinais opostos - os argumentos do "não" vivem do medo do desconhecido, os do "sim" do medo de ficar fora da Europa -, por regra preferem que tudo fique como está.
O problema dos líderes europeus é que nenhum deles é capaz de associar o Tratado de Lisboa a um novo sonho que vá para além dos que estão dados por adquiridos nestes últimos 50 anos: a paz e a democracia. Pior: a nível nacional, os líderes que a Europa tem utilizam "Bruxelas" como válvula de escape para todas as suas dificuldades nestes tempos em que muitos cidadãos temem pela erosão do terceiro dos grandes sonhos da construção europeia: a prosperidade.
Muitas das primeiras reacções de ontem mostraram que há muita gente que não sabe que um "não" é apenas isso e é tudo isso: um "não".


Made in USA

João Carlos Espada, Expresso, 080614
jcespada@netcabo.pt

Há duzentos anos que os revolucionários da esquerda e os reaccionários da direita andam a contar lendas contra a América. E há duzentos anos que a vibrante democracia americana simplesmente as ignora
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A 2 de Fevereiro, após a chamada ‘super terça-feira’, escrevi neste espaço que “a democracia americana volta a proporcionar-nos um excitante combate político”. Repito hoje o que disse nessa altura, e faço-o por maioria de razão: os dois candidatos agora em confronto são do melhor que a democracia nos pode dar.
O candidato republicano, John McCain, era dado como falido e acabado há apenas seis meses. Partidariamente, é um ‘maverick’, um político que pensa por si e diz o que pensa. Defendeu a intervenção no Iraque e continua a defendê-la. Condenou o utopismo visionário de Rumsfeld, acusando-o de querer vencer uma guerra com tecnologia e sem soldados. Há muito tempo defende a «surge», que está finalmente a dar resultado no Iraque. Quando lhe dizem que a defesa da guerra no Iraque não rende votos, responde que prefere perder as eleições a perder a guerra.
Em política doméstica, não é menos surpreendente. Contra a ortodoxia republicana, subscreveu uma espécie de amnistia para os imigrantes ilegais; condenou a tortura aos suspeitos de terrorismo; defende reformas no financiamento dos partidos; e, sendo embora um acérrimo defensor do mercado e da empresa livres, preconiza uma ética de serviço público e a dignificação da actividade política.
O equivalente a McCain no partido democrático é Barack Obama. É senador há apenas três anos. Cita Ronald Reagan como um líder que refez a cultura política, apresentando-se como o candidato que hoje pode fazer o mesmo a partir da esquerda. Reúne apoios da contracultura dos anos 60 e da nova geração do YouTube. Dispõe de muito dinheiro, oriundo sobretudo de pequenos donativos. E conseguiu a proeza de derrotar a candidata que ao longo do último ano era dada como certa pelos democratas: Hillary Clinton.
Além de tudo isto, Barak Obama rompe com a cultura de vitimização dos negros americanos: raramente refere a questão racial. Por outras palavras, ele não é um candidato negro; é um candidato que por acaso é negro. Este é mais um saudável contraste com a sra. Clinton que, sobretudo no final da campanha, passou o tempo a dizer que era mulher.
Recordo que, há oito anos, apoiei nestas páginas a candidatura de John McCain, então derrotado por George W. Bush. Continua hoje a ser o meu favorito, embora o resultado seja neste momento imprevisível. Mas o ponto realmente interessante é que a democracia americana volta a refutar as lendas que pretendem descrevê-la como uma oligarquia do chamado “complexo militar-industrial”. Há duzentos anos que os revolucionários da esquerda e os reaccionários da direita andam a contar essas lendas. E há duzentos anos que a vibrante democracia americana simplesmente as ignora.