sábado, 31 de maio de 2008

Visitação - 31 de Maio

Mariotto Albertinelli
1503 - Óleo sobre madeira, 232 x 146 cm
Galleria degli Uffizi, Florence

ESTADO SOCIAL

DN, 080531


João Miranda
investigador em biotecnologia
jmirandadn@gmail.com
Fala-se em crise, pobreza e desigualdade. Vital Moreira, Mário Soares e Manuela Ferreira Leite defendem mais redistribuição de riqueza. Mário Soares garante que a crise já está a afectar os pobres e a classe média. Os pobres e a classe média são os portugueses quase todos. Sobra um número reduzido de ricos. A crise, a pobreza e a desigualdade terão que ser resolvidas pela caça ao rico. Mas, em Portugal, o rico é um animal raro e fugidio. Por boas razões. A criação de riqueza é desprestigiante e perigosa. Ser rico não compensa o trabalho que dá enriquecer. A maior parte dos portugueses não quer pagar a riqueza distribuída pelo Estado. Quer recebê-la.

Vital Moreira garante que Portugal é um Estado Social com excelentes mecanismos de protecção dos mais desfavorecidos. Tem razão. Pelo menos do lado da despesa isso é verdade. O Estado gasta, sob os mais variados pretextos sociais, quase 50% da riqueza produzida pelos portugueses. Mário Soares diz que não chega. O subsídio de desemprego não chega, o rendimento mínimo não chega, as pensões e complementos de reforma não chegam. Os sistemas de saúde e de educação gratuitos e igualitários não chegam. Os pobres e a classe média precisam de mais. A crise é cada vez pior e quase ninguém lhe escapa. Manuela Ferreira Leite até conseguiu descobrir aquilo a que chamou os "novos pobres", pessoas que se passaram recentemente do lado dos contribuintes para o lado dos potenciais beneficiários do Estado Social.

Todos concordam que o Estado Social é insuficiente. Os "novos pobres" precisam de novos mecanismos de combate à pobreza porque os que custam todos os anos metade do PIB não chegam. Precisamos, portanto, de mais Estado Social. Precisamos, sobretudo, de quem o pague. Gente para receber já cá temos de sobra. Precisamos de obrigar os raros portugueses que são produtivos e empreendedores a pagar mais impostos para sustentar um Estado Social mais avançado. Temos que o fazer rapidamente, antes que eles emigrem.|

Francisco Lucas Pires

João Carlos Espada, Expresso, 080531


Este, creio, foi o maior legado de Francisco Lucas Pires: o de levar as ideias a sério, por elas mesmas

No décimo aniversário da morte de Francisco Lucas Pires, várias justas homenagens têm sido feitas à sua memória e ao seu legado. Não posso acrescentar algo muito relevante ao que disseram já os que o conheceram melhor. Mas talvez me seja permitido um breve apontamento pessoal.

Conheci pessoalmente Lucas Pires a propósito do Clube da Esquerda Liberal e da revista ‘Risco’, que ajudei a fundar em 1984 com José Pacheco Pereira e Manuel Villaverde Cabral, além de muitos outros bons amigos. Lucas Pires revelou desde o início muito interesse na iniciativa, com uma particularidade: ele conhecia bem as nossas ideias, lia os nossos textos, e, sobretudo, falava connosco sobre elas. E eram conversas muito interessantes e desafiantes.

O desafio mais estimulante que recordo residia no seguinte: ele não era de esquerda, mas dizia que tinha gosto em dialogar com a nossa esquerda, por ela ser liberal; mas, acrescentava, a nossa “esquerda liberal” não lhe parecia um ponto de chegada - parecia-lhe um ponto de partida. E não era para ele muito claro porque insistíamos na designação de esquerda. Eu senti que ele podia ter razão, mas não sabia bem como resolver o problema - e não vou agora maçar os leitores com detalhes pessoais sobre como tentei enfrentar o problema.

O ponto que gostaria de enfatizar é o da abertura de espírito que Lucas Pires revelou para connosco e o da genuína empatia com que discutia ideias. Essa abertura e essa empatia ficaram impressionantemente expressas nos trabalhos que promoveu no chamado Grupo de Ofir. Arrisco-me a dizer que, no plano político e intelectual, foram os Encontros mais importantes da década de 1980 - para não ir mais longe.

Aí se apresentou um programa político de reforma e modernização do Estado e da economia, sem paralelo entre nós. Era um programa liberal, sem dúvida, mas era antes de mais um programa de modernização e de abertura intelectual. Era um programa para nos libertar de preconceitos ideológicos que raramente submetemos a discussão aberta: preconceitos de pendor estatista, dirigista, igualitarista que muito provavelmente explicam o nosso relativo subdesenvolvimento - o mesmo subdesenvolvimento relativo que esses preconceitos dizem querer combater.

Este, creio, foi o maior legado de Francisco Lucas Pires: o de levar as ideias a sério, por elas mesmas, e o de sentir empatia genuína com o profundo poder transformador das ideias. Não é seguro, no entanto, que nós tenhamos inteiramente apreendido esse legado.


sexta-feira, 30 de maio de 2008

Festa do Sagrado Coração de Jesus - Jornada Mundial de oração pela Santificação dos Sacerdotes, 30 de maio



A economia portuguesa não é amiga das crianças e das famílias

Mário Leston Bandeira

PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃOPORTUGUESA DE DEMOGRAFIA

DN080530


Desde 1918 que Portugal não registava um saldo natural negativo. É uma tendência do século XXI?

E em 1918 morreram 135 mil pessoas devido à pneumónica. É verdade que estamos num processo de declínio demográfico, inevitável desde 1982, ano em que a substituição de gerações deixou de ser assegurada em Portugal. Entre 2000 e 2005, parecia que o índice de fecundidade iria estabilizar-se nos 1,5 filhos por mulher em idade fértil, mas a partir de 2006 as coisas começaram a piorar.

E temos a taxa de natalidade mais baixa da UE...

O ano passado, pela primeira vez, passámos a pertencer ao grupo dos países que tem um índice de fecundidade de 1,3, que é o clube a que pertencem os países da Europa do Sul (Espanha, Portugal, Itália e Grécia) e da Europa de leste. E a situação demográfica portuguesa não vai melhorar nos próximos tempos.

Como é que tem tantas certezas?

As mulheres têm menos filhos e cada vez mais tarde. Houve uma evolução muito rápida nos últimos anos ao nível do aumento da idade em que se tem o primeiro filho, agora situado nos 28 anos. E esta é uma situação absurda em relação à prática habitual no País. E uma mulher que tem o primeiro filho aos 28 anos tem menor probabilidade de ter um segundo filho.

Mas quais são as razões para que isso aconteça?

As razões são sobretudo económicas, mas também existem causas sociais e culturais. São cada vez mais difíceis as condições para que os jovens obtenham uma maior estabilidade económica. E isso tem consequências ao nível da nupcialidade e da natalidade.

As pessoas também se casam menos e cada vez mais tarde.

Essa é outra tendência da actualidade. E, pela primeira vez, há uma minoria de primeiros casamentos comparativamente aos segundos e terceiros casamentos. Isto remete para uma questão fulcral que é a dificuldade que os jovens têm em constituir família. E o facto de não haver mais casamentos não é compensado pelas uniões de facto. Não é como acontece na Suécia, onde há um maior número de nascimentos fora do casamento. O que quer dizer que em Portugal há uma crise das condições de vida, de que possam resultar nascimentos de crianças.

Como é que se pode inverter estas tendências demográficas negativas?

É muito complicado. Os subsídios de natalidade podem ter alguns efeitos marginais, nomeadamente nos grupos sociais mais desfavorecidos, mas não resolvem. Vivemos numa sociedade que não é muito favorável à procriação. Os salários são baixos, as condições de vida são difíceis. A economia portuguesa não é amiga das famílias e das crianças.

Como é que se pode actuar nessa área?

O Governo devia ser mais exigente na aplicação das disposições legais que impedem a discriminação das mulheres grávidas, por exemplo. Em Portugal, há empresas que continuam a despedir grávidas e a penalizar as mulheres que têm filhos. Como é que isso pode acontecer?

Os portugueses têm que passar a reivindicar o direito à procriação?

A questão é que os casais são livres de decidir se querem ou não ter filhos, mas não têm condições para o poderem decidir sem limitações. Têm que ser criadas condições de vária ordem, económicas, sociais e políticas, que permitam que seja reconhecido na prática o direito à procriação.

Santa Joana d'Arc - 30 de Maio

Jules Bastien-Lepage
1879
Óleo sobre tela
(254.00 x 279.40 cm)
Metropolitan Museum of Art, Manhattan, New York, USA

Afronta humana

Aura Miguel

RR on-line, 080530

A política chinesa do filho único é uma afronta humana!
A regra manda que cada casal só pode ter um filho. Se tiverem mais do que um, ou pagam uma multa incomportável, ou os escondem (e ficam ilegais), ou, então, matam-nos (o aborto é possível até ao fim da gravidez).

Pois agora, por causa do terramoto, o governo Chinês veio ironicamente suspender essa política para as famílias de Sichuan. Então, quem quiser ter outro filho pode “solicitar um certificado”, quem perdeu um filho ilegal, já não paga multa e quem perdeu um filho legal e tinha um ilegal com menos de 18 anos poderá legalizá-lo. Além disso, em Sichuan, pode-se, temporariamente, adoptar crianças órfãs sem limite.

É que, como o terramoto causou 68 mil mortos e deixou quatro mil órfãos, é preciso repor os stocks e arrumar os excedentes…
Até parece que estamos a falar de um armazém ou de produção de gado… Mas, infelizmente, estamos a falar de pessoas e não de números.
É pena que, nem sequer diante de uma tragédia desta dimensão, o governo chinês não perceba que não é o senhor da vida.

Aura Miguel


quinta-feira, 29 de maio de 2008

Até daqui a nada ou depois

ATÉ DAQUI A NADA OU DEPOIS

DN 080529
Pedro Lomba
jurista
pedro.lomba@eui.eu
Sempre ouvi dizer que os povos são o que comem. Acrescento que os povos também são o que falam, como falam e, sobretudo, a maneira como se saúdam. Uma simples saudação pode ser um indicador mais expressivo da identidade de um país do que milhentas sondagens. Há uma passagem na Bíblia em que Lucas comenta o tempo que os árabes educados perdiam em cumprimentos porque perguntavam sobre a saúde, a casa e o dinheiro. Já para não falar dos gestos: cada povo diz "Bom dia" com toda uma retórica, física e verbal, peculiar.

A cultura está nos detalhes. Por exemplo: os italianos dizem sempre em festa "Ciao" quando se encontram e "Ciao" quando se despedem. Tem tudo a ver com uma cultura de sociabilidade e espectáculo. Para eles, é sempre reconfortante encontrar uma pessoa. Mas não é menos quando se separam. As despedidas nunca são uma tragédia para os italianos mas oportunidades para novos encontros e novas saudações.

Nós, portugueses, somos um povo mentiroso porque avançamos com um "Olá" à partida mas fechamos com um ambíguo "Até logo" ou "Até depois". Em 80% dos casos não iremos rever a pessoa nos seis meses a seguir ou nunca mais. Mesmo assim aí vai um "Até logo" ou, numa versão mais absurda de mentira, um "Até já". Nunca soube até quando é este "Até já". Voltamos a ver-nos daqui a bocado ou deixamos de nos pôr a vista em cima uns dois anos?

Além de mentirosos, os portugueses são compassivos. Quando dizemos "Até logo" ou "Até daqui a pouco" também queremos dar esperança àqueles de quem nos estamos a despedir. Como se disséssemos: "Não te preocupes que isto são só umas horas." O português tem um pudor, um excesso de zelo, uma réstia última de humanidade que o previne sempre de agredir o outro. Sim, pode ser que nos reencontremos daqui a nada. Pode ser mais cedo do que tarde. E pode ser que caia um trovão sobre isto tudo e ninguém veja mais ninguém.

Povos triunfantes como os anglo-saxónicos fazem exactamente o oposto. Verdade que existe logo um satisfeito e abreviado "Hi" só para distender a plebe. O problema é que tudo acaba com um "See you" ou um "Take care" que não deixa dúvidas sobre o individualismo destes povos. Quando um amigo inglês me diz "Take care", fico sempre a achar que se eu um dia acabar cego e surdo ele vai dizer que bem me avisou que tomasse cuidado.

Finalmente, franceses e italianos têm duas expressões de que gosto muito: "Bonne journée" e "Buona giornata". Nós, portugueses, não temos disto. Se alguém em Portugal disser "boa jornada", o outro vai pensar que estamos a falar do Benfica. Isto deve ter a ver com a nossa atitude em relação ao trabalho. Se nunca dizemos "boa jornada", é porque sabemos que a jornada não vai ser boa. Ao menos nisso não vendemos ilusões.

Poluição, João César das Neves, DESTAK, 080529

Poluição

29 05 2008 09.22H

Portugal sofre uma nova e terrível forma de poluição. Este agente virulento já atacou largas zonas da nossa paisagem, criando danos devastadores e, em boa medida, irrecuperáveis. Falo da invasão de enormes ventoinhas brancas de dimensões monstruosas que agridem crescentemente os nossos campos. Pelo tamanho e rapidez de reprodução, podemos dizer que se trata de uma das mais horríveis pragas que jamais assolou o nosso país.

Temos sofrido muitos ataques ambientais de muita natureza neste nosso martirizado Portugal. Por isso, embora este seja dos mais contundentes, não mereceria notícia especial se não estivesse a ser praticado em nome da defesa do ambiente. Quem espalhou aquelas aberrações pelo nosso território fê-lo, alegadamente, para proteger o mesmo território. Segundo esses especialistas, a energia assim produzida é limpa e renovável, evitando-se os fumos que danificam a ecologia. Sem notarem que os próprios moinhos arruinam esse ambiente de forma muito mais evidente e artificial; até porque o fumo, apesar de sufocante, é mais natural que as abantesmas.

O pior de tudo veríamos se pudéssemos fazer as contas e saber, realmente, a que preço nos fica essa tal energia limpa e renovável. Dado que boa parte do custo é suportada por impostos, de múltiplas e incalculáveis formas, é bem provável que os que encheram os bolsos multiplicando as ventoinhas nos estejam a cobrar preços reais insustentáveis. Esses custos justificam-se pela protecção do ambiente. Daquele ambiente que o próprio investimento vem destruir.

João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Procissão de Nossa Senhora de Fátima, 31 de Maio, Lisboa

Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

Procissão (Nocturna) de Nossa Senhora de Fátima,

Dia 31 de Maio (Sábado)

Hora: 21h30 (na Igreja Paroquial)

Vamos celebrar a festa da visitação de Nossa Senhora à sua prima Santa Isabel.

Serve para lembrar as constantes visitas que Nossa Senhora nos faz no quotidiano vindo ter connosco onde estamos.



FAMÍLIA, EMPRESA, TRABALHO, António Bagão Félix, 080529

(AESE, 29 de Maio de 2008)

Felicito a AESE por este programa “Empresas Mais Familiarmente Responsáveis (E+FR)” que segundo as palavras do Prof. Raul Diniz procura sensibilizar o mundo empresarial em “rega gota a gota” que é a mais adequadas para terras áridas.

Ora é sobre esta introdução do “regadio” na cultura familiar das empresas que me pediram para dizer umas palavras. Faço-o com gosto.

Ao longo desta minha intervenção procurarei sobretudo incidir sobre quatro pontos:

  • A importância da família
  • O desenvolvimento da cidadania empresarial
  • As mudanças na natureza e nas formas do trabalho
  • A conciliação dos tempos de vida na família e no trabalho

1. Sobre a família já tudo foi dito, escrito e proclamado. Por quem nela deposita o magistério da esperança, e também por quem dela desdenha, desconfia e até prognostica o seu obituário.

Não há político, sociólogo ou opinador que não nos pregue um bom “sermão” a propósito da família. Poder-se-á afirmar que a convergência verbal ou nominal está assegurada quanto ao papel desta instituição básica da sociedade, mas que, ao invés, a divergência real é visível entre o verbo e a vontade, entre o encómio e a convicção, entre as intenções declaradas e as acções encetadas.

Não há um dia em que a família não seja objecto de proclamação pelo mundo fora. Aliás, o mesmo acontece com a paz. No entanto, é da chamada crise da primeira e da ausência da segunda que a actualidade se alimenta freneticamente.

Mas sejamos claros: de entre todas as sociedades humanas, a família é a única natural. Natural, universal e intemporal. Nasceu com o Homem e existe antes do Estado.

O seu fundamento é antropológico. Não foi inventada cientificamente, não resulta de qualquer legado jurídico, não foi imposta por qualquer acto administrativo, não germinou fruto de uma qualquer ideologia, não é o resultado de meras circunstâncias ou contingências históricas.

A família não é de esquerda ou de direita, nem é politicamente apropriável, E também não é laica ou confessional. É antes o mais perene património da humanidade, um bem para todos e não um mal para alguns. A família radica na pessoa humana e não no reconhecimento do Estado. A família não é, portanto, para a sociedade e para o Estado, antes a sociedade e o Estado são para a família (Conselho Pontifício Justiça e Paz, 2004).

Por ser natural, confere o mais genuíno dos sentidos à nossa tripla condição de indivíduo irrepetível, de pessoa que exprime a dignidade e o respeito do ser humano, de cidadão portador de direitos e de deveres. Afinal a tripla condição em que também nos movemos na empresa…

2. A instituição familiar continua a ser a primeira e a mais decisiva infra-estrutura moral e referencial na conjugação de valores e de saberes e na transmissão de solidariedade na sua forma talvez menos elaborada, mas mais espontânea e genuína.

No entanto, muitas vezes a família é desconsiderada – e diga-se em abono da verdade – não apenas pela sociedade politicamente organizada – o Estado – e por outras sociedades, mas por famílias que tendem a demitir-se dos seus papéis vencidos pela pressa, pela angústia, pela indiferença, pela acomodação, pela resignação. Quantos filhos órfãos de pais vivos (palavras de S. S. João Paulo II), quantos filhos de pais a tempo cada mais parcial, quantos avós de netos distantes não sofrem a ausência da família? Quantas refeições se transformam em salas de espectáculo televisivo ou de catarse profissional? Quantas vidas não se transformaram em contra-relógios de circunstância?

E, todavia, na família, como afinal na vida e na empresa, sabemos que o importante não é dissolúvel no meramente urgente, avulso ou superficial, porque o importante na família nem sempre é urgente, raramente é avulso e jamais é superficial.

O sentido de família está sempre presente no nosso quotidiano como referência e valor. Assim é que dizermos que “não há nada melhor do que um bom conselho de família”, que desejamos ter um bom “médico de família”, que temos uma relação afectuosa com a expressão “abono de família”, que sempre desejamos ser um “bom pai de família”, que nos orgulhamos enquanto amigos de alguém de dizer que quase “fazemos parte da sua família”, que segredamos algo para “ficar em família”, que gostamos de uma qualquer empresa ou restaurante pelo seu “ambiente familiar”.

3. É certo que a família sofreu ao longo da história da humanidade várias vicissitudes. Detectáveis mesmo sem necessidade de sofisticação no diagnóstico. Hoje todos temos consciência das patologias relacionais, sociais, afectivas, económicas que, em muitos lares, trazem angústia, privação, dor, desalento, dissolução, e até violência.

Mas, a família como expressão natural da pessoa humana tem sabido, com mais ou menos obstáculos, conjugar três aspectos nucleares: evolução, plasticidade e unidade.

Sendo a família o barómetro social que melhor transmite a tensão e a transição dos tempos, o seu ideal e aspiração não mudaram na sua essência.

Em virtude da industrialização acelerada e da urbanização desregrada, a grande família entendida como unidade de integração e de sucessão no plano trigeracional, nuclearizou-se sendo substituída, gradualmente, pela “família conjugal” comportando no máximo duas gerações, e tornando-se até cada vez mais frequentes as situações de solidão de famílias constituídas por uma só pessoa. É neste enquadramento, aliás, que a ideia de EFR ganha maior acuidade.

4. Uma outra realidade iniludível a todos nos atinge, a administração do tempo jamais se fará do mesmo modo das gerações que nos antecederam. Combinam-se e alternam-se, com diferentes hierarquias de valor ou importância, não só tempos de trabalho e de família, como também tempos de lazer e de formação.

A concorrência, tantas vezes “desleal”, de outros meios institucionais ou informais de educação e de formação é, hoje, uma realidade. A família perdeu, definitivamente, o monopólio da formação dos seus membros, que detinha até há poucas décadas.

Na transmissão da informação, na difusão de valores e na expressão de comportamentos, a família reparte agora crescentemente o seu papel com a escola, a imprensa, a quase totalitária e invasiva presença dos meios audiovisuais, a net e outras redes de telecomunicações.

A perda relativa do peso da família na educação dos filhos pela presença de outros meios e agentes, exige um novo equilíbrio entre o tempo para o trabalho e a disponibilidade para a família com ganhos reais no comprometimento e participação dos Pais no desenvolvimento da tarefa educativa. A disponibilidade e a entrega não são apenas noções de carácter físico e temporal, mas sobretudo afectivo e mental. A família continua a ser a primeira e melhor instituição de sociabilização da criança e todos os agentes políticos, empresariais e sociais devem facilitar esta nova partilha de tempos.

5. Mais do que outro qualquer factor, o trabalho constituirá, sempre, o fundamento sobre o qual a vida familiar se constrói e se consolida. A estabilidade das famílias depende directa e fundamentalmente da capacidade de, através do trabalho, serem angariados os recursos indispensáveis à sua sobrevivência e desenvolvimento.

Como disse João Paulo II na Laborem Exercens, "a família é ao mesmo tempo, uma comunidade tornada possível pelo trabalho e a primeira escola interna de trabalho para todos e cada um dos homens”.

A procura e a conquista do trabalho são, em si mesmos, valores activos que conduzem à dignificação da pessoa humana no quadro da família e à expressão da qualidade criadora subjectiva e inalienável de toda a pessoa.

A luta contra o desemprego assume, neste contexto, uma relevância acentuada na defesa da família como célula base de qualquer comunidade.

O desemprego é não só uma doença económica e social, mas também familiar e, apesar do aperfeiçoamento dos sistemas de segurança social no que concerne às prestações substitutivas dos rendimentos de trabalho perdidos, encerra em si mesmo uma estigmática lógica de insucesso individual, de consequências potencialmente negativas quer do ponto de vista psicológico, quer de estabilidade familiar.

Por outras palavras: sem tempo para o trabalho estará seriamente comprometido o tempo para a família.

6. Continuando a falar de trabalho e de família, não se pode deixar de falar do tempo de descanso, que não é um valor marginal em relação ao trabalho. O trabalho e o descanso contribuem, em alternância, para a realização da pessoa. Separá-los é, pois, um erro que se paga mais à frente. Como está escrito, o trabalho é para o homem, não o homem para o trabalho.

O descanso e as férias não são incompatíveis com o código ético do trabalho. Não o contradizem, não o menorizam, nem mesmo beliscam o profissionalismo, o sentimento do dever cumprido, a exemplaridade laboral, o próprio prazer no trabalho.

Se ter trabalho é um factor de esperança, ter tempo é um factor de harmonia.

O descanso e as férias têm que ser exigidas e, ao mesmo tempo, merecidas porque o direito ao repouso nasce da realização conjunta do direito ao trabalho e do dever de trabalhar.

O descanso e as férias, sendo uma oportunidade de recarga pessoal, são também um espaço de reencontro familiar. Por isso, devem ser um tempo pela família (e com a família) e não um factor de desagregação contra a família. Por detrás do trabalho de cada um, está uma família à espera!

7. Os factores demográficos, por sua vez, têm vindo a provocar consequências determinantes que se podem caracterizar, entre outros, pelos seguintes indicadores:

  • Acentuado declínio do crescimento natural desde a década de 70 do século passado. Esta tendência é explicada substancialmente, pela rápida queda da fecundidade. Assim, a taxa de fertilidade (número médio de crianças por mulher) atingiu nos últimos anos o valor de 1,36 crianças/mulher contra 3,1 em 1960. O nível actual é manifestamente inferior ao necessário para assegurar a substituição das gerações que é de 2,1 filhos por mulher. Da Europa dos 25 passámos em 30 anos do 4º país com taxa de fertilidade para 12º lugar.
  • Outro aspecto importante é o retardamento do nascimento do 1º filho, que em 1980 era aos 23,6 anos de idade da mãe e agora é aos 28,1 anos.
  • Em 2007 terão nascido em Portugal cerca de 103.000 bebés. Trata-se do número mais baixo desde 1935, ano a partir do qual há estatísticas oficiais sobre a matéria. Estima-se que o défice de nascimentos ronde os 55.000 por ano. Em 1960 houve 213.895 nado-vivos e em 1980 houve 158.352.
  • O impacto da queda de fecundidade tem sido atenuado, no entanto, pela diminuição da taxa de mortalidade infantil, de 77 por mil em 1960 para 3,5 por mil agora.
  • A esperança média de vida à nascença que em 1930 era de 44,8 anos para o homem e de 49,2 anos para a mulher é agora de 75,2 e 81,8 respectivamente para o homem e para a mulher, o que significa que a EMV aumentou nos últimos 70 anos cerca de 5 meses por cada ano de calendário!
  • O aumento da esperança média de vida implica que teremos um maior número de famílias em que 4 gerações estarão vivas ao mesmo tempo, o que significará, mais frequentemente, pessoas de 60 anos a ocuparem-se dos seus progenitores de 80 e mais anos.
  • Mas, ao mesmo tempo, a dimensão média das famílias portuguesas tem vindo a diminuir drasticamente, de tal modo que hoje 42,8% não têm filhos e só 4,9% têm três ou mais filhos.
  • O declínio da natalidade associado a um aumento da esperança de vida tem vindo a provocar um maior grau de envelhecimento e um aumento da taxa de dependência dos idosos. Em 1990 havia em Portugal 64 pessoas com mais de 65 anos por cada 100 jovens com menos de 15 anos, mas em 2006 (apenas 15 anos depois!) há 112 idosos por cada 100 menores e estima-se que em 2050 se atingirá o valor, de consequências difíceis de imaginar, de cerca de mais de 200 velhos por cada 100 jovens…

8. Perante este complexo cenário, devemos estar conscientes das dificuldades para a família se impor como pedra angular dos programas sociais do futuro. Os obstáculos são muitos e múltiplos.

Numa democracia por vezes de contornos neo-corporativistas, a família – todos o sabemos – não é um lobi, logo está em desvantagem e tem dificuldade no acesso aos centros de poder. Na política de hipertrofia de meios materiais e de obsessão de resultados concretos, a família é quase sempre sacrificada. No Estado muito compartimentado, a família é perspectivada fundamentalmente como sujeito pagador de impostos. Na sociedade de “marketing”, a família torna-se cada vez mais e apenas um centro consumidor. No imperialismo do espectáculo mediático, o sucesso da família não é notícia, mas apenas o seu fracasso. Na sociedade mais individualista, a família tende a fragmentar-se. Na sociedade mais relativista e minimal, a família perde referências estabilizadoras. Na sociedade mais hedonista, a família é vista até como um obstáculo.

No fundo, a família está entre dois pólos, também chamados de reivindicações da modernidade: o individualismo e o Estado. Subjugada ao poder burocrático, ao mercado, ao consumismo.

Não há solidariedade nacional sem solidariedade social. Não há solidariedade social sem solidariedade geracional. Não há solidariedade geracional sem solidariedade familiar. E na empresa por onde passam várias gerações, vários estratos sociais e muitas famílias, deve haver também lugar a esta ideia de solidariedade.

A família preenche uma enorme quantidade de funções sociais e educativas que nenhum Estado e nenhuma administração colectiva podem “nacionalizar”, e nenhum “mercado” se pode apropriar.

9. É, pois, desejável que, nos próximos decénios, se possa assistir ao reajustamento das políticas social e redistributiva quer a nível macro-político, quer a nível local e empresarial, que tenham não só em maior atenção os encargos familiares, como favoreçam a prevenção de disfunções de natureza familiar, contribuindo para a unidade e estabilidade familiares e estimulem a função da empresa amiga da família.

Tudo isto exige que se afirmem em plenitude:

  • O princípio da subsidiariedade pelo qual não se deve deixar a uma organização social superior, maxime o Estado, o que uma sociedade mais elementar (no mínimo a família e a pessoa humana) melhor pode fazer.
  • Os valores do voluntariado, da solicitude, da disponibilidade e da participação bases de toda a atitude criativa e espontânea de solidariedade não intermediada, amiga, desinteressada, mais conforme à natureza do Homem.

O princípio da subsidiariedade, visto no plano familiar, é um princípio de liberdade, de iniciativa, de responsabilidade e de harmoniosa hierarquia e subordinação de valores (o ser antes de o ter, a dimensão espiritual e imaterial antes da dimensão física e instintiva, a convivência antes do isolamento, a família antes da cidade e do Estado. Não se limita, pois, a ser um simples princípio de repartição de competências.

Como tal, a família deve ser perspectivada e respeitada como a mais genuína micro instância de segurança social, de escola, de local de trabalho, de centro de saúde, de julgado de paz, de associação voluntária de socorros mútuos.

10. O Estado e as organizações da sociedade nas quais se incluem as empresas devem estimular e apoiar (e não sufocar) o exercício da “magistratura social” das famílias. No plano social é primordial que a suplência das sociedades superiores se afirme com eficácia e austeridade institucional. Nem um posicionamento minimal, nem um posicionamento plenipotenciário, castrador da família.

Neste contexto e no preciso respeito pelo princípio da subsidiariedade, as políticas públicas e a acção responsável das empresas devem criar condições que:

  • Protejam e não discriminem a maternidade e paternidade como valores humanos e sociais inalienáveis, não apenas biológicos mas sobretudo educativos e relacionais;
  • Reconheçam a insubstituível função dos pais na educação dos filhos;
  • Ajudem a consolidar a função da Família, enquanto transmissora de valores e veículo de estreitamento das relações entre gerações;
  • Favoreçam, no âmbito das políticas laboral e social, condições para a igualdade do homem e da mulher na partilha das responsabilidades familiares;
  • Estimulem ou ajudem o voluntariado e as redes primárias de solidariedade como estruturas importantes de apoio à Família;
  • Aceitem e fortaleçam o associativismo familiar e a voz das famílias na vida social económica e cultural, deixando de constituir os parceiros silenciosos das políticas sociais.
  • Contribuam para dissipar o eclipse dos mais velhos e dos avós na partilha solidária de tempos e de responsabilidades.
  • Evitem o efeito guilhotina da passagem abrupta e, às vezes, extemporânea da actividade para a fase de reforma

11. Falando de empresas, importa aqui relevar o papel crescentemente indispensável da sua responsabilidade no plano ético, familiar e social.

Na pós-revolução Industrial e até há relativamente pouco tempo, a empresa era vista, fundamentalmente, como uma realidade ou um sistema de natureza material e física ou corpórea, um referencial de técnicas produtivas e operativas.

A grande alteração - quase me apetece dizer, a grande “descoberta” – que entretanto se evidenciou, relaciona-se com a crescente tendência para ver a empresa, também e sobretudo, como uma comunidade de pessoas. Afinal, tarde mas a horas, “descobre-se” que são as pessoas (e não os inadequada e instrumentalmente designados “recursos humanos”) que constituem o principal suporte e património de qualquer organização; são as pessoas que garantem o sucesso ou explicam o fracasso das empresas e das suas estratégias. Logo, tudo o que seja centrar nas pessoas a estratégia das empresas é, hoje em dia, a chave do futuro e é, por aqui, que melhor vislumbramos as crescentes responsabilidades sociais da empresa.

Afirmando a centralidade das pessoas, a empresa corporiza-se como uma entidade ética e um activo social. Desde logo, sendo ou devendo ser, em primeiro lugar, o maior denominador comum dos diferentes e legítimos interesses dos accionistas, dos trabalhadores, dos clientes, do Estado, da sociedade em geral. Mas devendo ser, também, uma referência de valor na e para a sociedade, um centro de responsabilidade social. Responsabilidade social para fora e responsabilidade social para dentro, protegendo determinado tipo de riscos, sociais, familiares, individuais, para todos quantos dão a sua contribuição para o produto final de uma empresa. Por outro lado, a empresa tem de ser um espaço de realização nas suas três componentes: pessoal, cívica e profissional.

12. Por sua vez, o conceito de trabalho vem mudando radicalmente. A geografia dos empregos alterou-se a uma velocidade geométrica e assume hoje contornos mais voláteis. Novas funções emergem nas empresas e empregos relacionados com novas exigências civilizacionais, como a segurança, o bem-estar, os tempos livres, a cultura, o apoio social e tantas outras que surgem por todo o lado, ao mesmo tempo que outras actividades desaparecem ou se tornam obsoletas.

É também notória a transformação da sociedade salarial oriunda de uma visão estritamente obreirista em direcção a uma sociedade activa menos normativa e menos rígida onde emergem novas formas de produção e transformação da organização. Do teletrabalho ao trabalho no domicílio, da exploração das formas "electrónicas" de prestação de trabalho a formas ocupacionais de serviços sociais, do desenvolvimento consistente do trabalho a tempo parcial à conciliação entre o "part-time" e a reforma parcial, deparam-se-nos novos cenários no mundo das empresas e do trabalho cujas consequências ainda não são, de todo, visíveis mas que, por certo, conduzirão a uma noção mais incorpórea e menos física de empresa afirmando-se, sobretudo, como comunidade de pessoas e de valores. E vivem-se – goste-se ou não – os desafios da adaptabilidade, mobilidade, maior elasticidade formação / trabalho e torna-se cada vez mais imperativa, em nome do progresso, a ética do mérito, do esforço e da equidade,

Tudo isto impõe uma alteração na ética de “stakeholders” (entre os quais destacaria no âmbito deste tema as família dos trabalhadores) e no conceito de “accountability” e capacidade social da empresa. Já não chega a adopção das responsabilidades exigidas pela sociedade (as económicas e legais). É preciso aprofundar as responsabilidades humanas, sociais e éticas ainda não exigidas normativa ou estatutariamente mas cada vez mais esperadas ou desejadas pela sociedade e diferenciadoras no mercado.

13. Ainda a este nível, permitam-me reforçar as virtuosas exigências do desenvolvimento de funções sociais nas empresas, para além da prestação do trabalho. Em primeiro lugar, as que têm que ver com a imperativa necessidade de melhor conciliar as responsabilidades profissionais, com as exigências familiares e educativas dos filhos. Isto, ainda é, sobretudo para as mulheres, um factor restritivo do pleno desenvolvimento nos mercados de trabalho. Todas as políticas públicas ou empresariais que reforcem a necessidade de melhor coabitação entre família, trabalho, educação dos filhos e lazer são absolutamente necessárias num mundo que se quer constituído com qualidade e com gerações actuais e vindouras equilibradas e com sentido de futuro.

É tempo de se reconhecerem e fortalecerem as práticas de apoio familiar, seja a nível de mecanismos de flexibilidade não perspectivados unilateralmente, de apoios e de equipamentos sociais (por exemplo, creches e infantários) junto dos locais de trabalho dos pais ou das mães. É tempo de se afirmar a sua concretização como humanamente substantivas e não, de uma maneira demasiado produtivista, como meramente instrumentais ou acessórias.

14. Voltando à família: não há desenvolvimento verdadeiramente humano e qualidade de vida humanizada sem qualidade de família. Nem é possível e desejável construir e desenvolver uma “sociedade de bem-estar” radicada num certo “mal-estar das famílias”.

Por isso a aliança família – empresa é uma atitude positiva e desenvolvimentista. O progresso da humanidade passará sempre pela família e pela empresa. Todas as outras soluções que as minimizem sempre estiveram condenadas ao fracasso ou ao efémero.

Na família – essa unidade feita da diversidade que não pode ser reduzida a uma mera expressão associativa de coabitação, a uma comunidade de interesses circunstanciais – não há concorrência. Cada pessoa vale pelo que é e não pelo que tem. Na família todos dependemos de todos. Não somos invulneráveis, nem perfeitos, mas imperfeitos e dependentes. Na família ninguém é mais pessoa, mas todos podem ser melhores pessoas.

15. Como há pouco referi, é preciso que a família não se deixe iludir pelos seus adversários que umas vezes estão mais à luz do dia, outras vezes mais larvares ou encobertos mas nem por isso menos dissolventes e que são, no meu entender, e entre outros, os seguintes:

No plano ético: o relativismo e o minimalismo

No plano comportamental: a indiferença e o conformismo

No plano espiritual: o positivismo hedonista e a cultura da satisfação

No plano geracional: o egoísmo e a desconsideração

No plano social: o individualismo e a predação sem regras

No plano económico: o utilitarismo e o endeusamento (do mercado ou do Estado)

No plano político: a miopia do longo prazo e o “culto mediático”

16. Já vou longo e certamente fastidioso. Termino, pois, lembrando metaforicamente uma frase que um dia li: “o Titanic afundou-se, embora feito por profissionais. A Arca de Noé salvou-se porque foi feita por amadores”. Eis uma boa imagem do que julgo ser o futuro da família e todo o seu património de conjugalidade afectiva, coesão geracional, educação do carácter e de valores, partilha sem limites. E do que creio ser a necessária complementaridade entre a família de amadores, que amam e de profissionais que produzem!

Em matéria familiar tenho todo o respeito pelas normas, mas acredito mais nos valores.

Valorizo os recursos, mas elejo o exemplo. Escuto as opiniões mas não as confundo com princípios. Admiro o êxito individual, mas sou mais sensível à riqueza familiar.

Por outro lado, as decisões do quotidiano das empresas não são fáceis, estando quase sempre sujeitas a condicionalismos e a restrições que implicam soluções de segunda ordem (second bests), não soluções certamente ideais mas as que melhor realizam o compromisso entre equidade, rendibilidade, eficiência e harmonia interna. Tudo isto só pode ser feito com valores e códigos de conduta que dêem alma, substância, espírito de corpo e cultura às organizações. E neste âmbito a empresa familiarmente responsável é a empresa do futuro e de esperança. E a família é e será indelevelmente um tema de futuro, de progresso e de esperança.

Enfim, como escreveu Yves Bonnet: “Família, Escola, Empresa: afinal e sempre o mesmo combate!

António Bagão Félix

Maio de 2008


quarta-feira, 28 de maio de 2008

Oratória Jefté (Giacomo Carissimi)




Giacomo Carissimi - Oratoria

Responsável da ASAE defende pratos típicos

DN 080528

PAULO JULIÃO, Viana do Castelo
A responsável máxima da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) para a região norte apelou ontem aos empresários de restauração do Minho para "se organizarem" em defesa de uma gastronomia "única", como é o caso da cozinha do Alto Minho. "Eu também sou minhota e mato um frango, da capoeira da minha mãe, quase todas as semanas", confessou a inspectora Fátima Araújo, perante cerca de duas centenas de empresários de Viana do Castelo.

Confrontada com as repetidas queixas dos empresários locais de restauração, a responsável da ASAE foi peremptória: "Sob o ponto de vista legislativo, o País terá muito daquilo que os próprios empresários quiserem. Se não forem capazes de querer e lutar pelos vossos interesses, também ninguém os vai ajudar. Lisboa não vai tratar da vossa vida, desenganem-se", afirmou Fátima Araújo. Perante um invulgar aplauso dos empresários, a responsável regional do Norte da ASAE acrescentou: "Têm aqui uma acérrima defensora da gastronomia nacional. Mas são os senhores a tratarem dos assuntos do vosso interesse. Nós só temos de ser suficientes sábios para compatibilizar a cultura tradicional com as técnicas e práticas de higiene."

Sobre as restrições impostas à confecção de alguns produtos regionais do Alto Minho, como é o caso do arroz de sarrabulho ou de cabidela, a inspectora recordou que "não foi a ASAE que fez a lei", mas apontou uma solução: "Pergunto o que estão a fazer os senhores veterinários locais do Ministério da Agricultura. Porque é que não se põe estas pessoas à procura das condições ideias, criando espaços colectivos para se realizarem as inspecções sanitárias obrigatórias nas devidas condições?", insurgiu-se.

Rejeitando a aplicação de "regimes de excepção", até porque "senão até a sandes de coiratos de Lisboa podia ser património nacional", Fátima Araújo avisou os empresários: "Não contem com a ASAE para tratar dos vossos negócios." E acrescentou: "Não deixem que a gastronomia do Alto Minho se perca. Quando isso acontecer eu saio da ASAE, porque não cumpri o meu papel", sustentou Fátima Araújo, há 34 anos a exercer funções em órgãos de polícia criminal. Sustentou ainda que já houve reuniões com autarcas, com vista à adopção de medidas que permitiram salvaguardar, "compatibilizando" a tradição com as regras de higiene, os pratos típicos da região. A inspectora da ASAE falava num encontro de esclarecimento com empresários de Viana, promovido pelo comando da PSP e a associação comercial local.|

Avô

Queridos amigos:
Quero agradecer a todos os parabéns e a alegria partilhada nas inúmeras mensagens recebidas.
Muitas falam de avós babados; estou ainda a tentar perceber se assim é, e a que é que este qualificativo corresponde.
De facto, mais do que perante o nascimento dos nossos filhos, a reacção mais evidente é mesmo de espanto.
Espanto pelo milagre da vida que antes não era e agora está ali, palpitante à nossa frente; comoção perante a pergunta que mais imediatamente salta sobre o destino daquela criança cuja vida se inicia no nosso mundo.
Dou comigo a pensar que este espanto e esta comoção, melhor, esta capacidade de espanto e de comoção, se se revela de modo tão evidente perante o nosso neto que ainda mal abre os olhos, é por ele despertada para também olharmos para nós próprios. O destino é o mesmo; quero dizer, o dele e o nosso; a nossa consciência de destino é que não é sempre tão viva. À frente dele, abre-se um futuro de esperança, que é também nosso. A esperança é mesmo isto: a certeza no futuro, por força de um facto presente. E o facto está ali à nossa frente, pesa 2,950 kg chora quando tem fome; dorme depois de comer.
Começo a perceber porque é que tantos colegas avós falam do bom que é ser avô; sempre achei que não devia ser por se poder disfrutar das vantagens de ser pai ou mãe, sem o custo educativo; não me parece que seja isso, de facto. É mais pelo renascimento de um ânimo que se torna evidente quando testemunhamos na primeira fila a promessa de ser que a vida faz aquela criança; a mesma promessa que nos faz a nós, desde que estejamos dispostos a reconhecer. Desconfio que ser avô aviva esta consciência de destino porque não podemos deixar de aplicar em nós, aquilo que aprendemos com o despertar para a vida dos netos.
A minha mulher dizia ontem, de uma forma muito bonita que a Inês a tinha tornado, mãe de uma mãe; é outra perspectiva que se abre aos avós: a nossa filha, os nossos filhos estão prontos para tomar o nosso lugar; estão preparados; conquistaram a nossa confiança; são capazes.
Dou comigo a pensar que sempre duvidei, mesmo insconscientemente, se a nossa filha estaria preparada para isto ou para aquilo; conhecemo-la desde sempre e não queremos que nada de mal lhe aconteça; e, mesmo que saiba que sim que está preparada para a vida, a condição de pai, porque protectora, condiciona a forma de olhar. Mas ontem, quando a vi pegar no seu filho com uma confiança como se sempre tivesse feito isso, percebi que tudo estava no seu lugar. É esta confiança que se transmite de forma tão visível que também faz parte (suponho) da condição “babada” de avô.
Vou continuar a tentar perceber o que faz em mim a condição de avô.
Um abraço amigo
Pedro Aguiar Pinto

terça-feira, 27 de maio de 2008

Vimos e ouvimos. Disso damos testemunho?


Joao Soalheiro, Agência Ecclesia, 080527

Quatro jovens, postados à entrada de um centro comercial mantêm um diálogo que me prende a atenção: «... até acredito que tenha existido um judeu chamado Jesus Cristo e que tenha sido crucificado, agora que fosse Filho de Deus, isso não acredito!» Outro acrescentava: «... eu fiz a primeira comunhão e tudo isso, por causa dos meus pais, mas não acredito em Deus». Para emendar, de um jacto: «Quer dizer, até acredito num ser superior, numa força espiritual, mas não acredito num Deus como o dos cristãos, feito de carne e osso para salvar a humanidade». E o diálogo, aliás muito vivo e genuíno, lá continuou, por entre plurais repúdios de fanatismos, com referenciação das seitas à cabeça, até se esfumar no percurso da rua, que apenas acompanhei com o olhar do coração.

Fim de uma Eucaristia, hora de dispersão e de conversas acaloradas, tendo por assunto uns avisos feitos, havia pouco, pelo pároco. No meio de um cortejo de desaprovações - estaria em causa um qualquer costume entranhado, posto em questão - solta-se, entre tantas, uma expressão já clássica: «Eu cá tenho a minha fé», como se essa fosse a última barricada contra as novidades atentatórias de um legado recebido.

Duas situações reais, testemunhadas por quem escreve estas linhas. Que talvez possam ser multiplicadas, sem adaptações de monta, por aqueles que as lêem.

Não sei quantas vezes, na minha ainda curta idade, terei calado as dúvidas de uns e vestido as certezas de outros. Mas foram muitos os dias em que a minha oração se ficou por um trémulo apelo: «Não permitas, meu Deus, que abandone a fé dos meus pais!» De facto, a fé dos meus humildes pais é essencialmente apostólica, como o foi a fé dos seus maiores. E remontando de geração em geração ouço hoje, com a frescura da primeira vez, o testemunho daqueles que partilharam com Jesus de Nazaré o pão e as lágrimas, nem todas vertidas sob o signo da dor: «Vimos e ouvimos». São eles que me garantem que esse Jesus encarnado era verdadeiramente o Filho de Deus.

A «minha fé» até pode ser mais ilustrada, por catequese e magistério universitário, mas será, por certo, bem mais débil que a dos meus queridos pais. Só sei que através deles, e apesar dos meus muitos limites, ela será sempre herança dos que testemunharam com alegria o que «viram e ouviram». E, também por isso, pesem todas as provações, há-de permanecer uma fé radicalmente apostólica. Como não estou sozinho nesta verdadeira aventura, atrevo-me a escrever: vale a pena cuidar um tal legado, pulsante de vida; e vale a pena fazê-lo com inteira liberdade e com empenhada responsabilidade! Mesmo num tempo cada vez mais marcado pela precaridade de todos os vínculos.

João Soalheiro


Editorial | João Soalheiro| 27/05/2008 | 11:08 | 2690 Caracteres | 342 | Pastoral Juvenil

S. Agostinho de Cantuária, 27 de Maio


St. Augustine of Canterbury,
Archbishop of Canterbury

(Died AD 604)

Also known as St. Augustine the Less to distinguish him from his illustrious namesake from Hippo. Augustine was chosen by Pope Gregory the Great as leader of the mission sent from Rome for the evangelisation of the English. He landed in the Isle of Thanet in the Spring of AD 597 and, within a year, Aethelbert, King of Kent, was baptised with several thousand of his subjects.

The foundation of Canterbury Cathedral was laid five years later, supposedly, on the site of an old Roman Church. Augustine was consecrated by Vergilius, Archbishop of Arles and became the first Archbishop of Canterbury.

The alienation between the British Church and the Italian missionaries might have been averted had Augustine recognised the consideration that was due to the Church which had existed in Britain for three centuries, and had been more tolerant of the diversity between British and Roman usage.

He had laid the foundation stone of the Monastery of St. Peter & St. Paul outside Canterbury, later known as St. Augustine's, in the year of his arrival and here he was buried. He died on 26th May, traditionally in AD 604, but possibly as late as 609.


Nasceu um menino....



Nasceu um menino....

Queridos amigos:

Nasceu um menino à nossa filha Inês e ao nosso genro Gonçalo, com 2, 950 kg.

É o nosso primeiro neto e, portanto, é uma experiência humana nova.

Mãe, filho e pai encontram-se bem; mas ainda não sei mais nada e é tudo muito recente para poder relatar uma experiência.

Serve esta, portanto, para avisar os amigos e para indicar que mais notícias, à medida que as houver, podem ser vistas aqui.

É tempo de dar graças a Deus e de Lhe consagrar este menino, mas isso é, sobretudo, tarefa dos pais.

Um abraço amigo

Pedro Aguiar Pinto

segunda-feira, 26 de maio de 2008

S. Filipe de Néri, 26 de Maio, patrono dos educadores e dos humoristas

Filipe Néri, O Apóstolo de Roma, (Florença, 22 de julho de 151526 de maio de 1595) foi um religioso e santo católico.
é, também, recordado como o Santo da Alegria, que encantou a Igreja com seu jeito criativo e excêntrico de viver o Evangelho.
Filho de Francesco e Lucrezia Neri, que faleceu quando Filipe ainda era uma criança. Fílipe teve duas irmãs menores, Caterina, Elisabetta e um irmão que morreu ainda muito pequeno.
Seu pai, que alternava a profissão liberal com a de notário, matinha grande amizade com os dominicanos, e os frades do Mosteiro de são Marcos seriam os que receberiam Filipe Néri para muitos dos seus ensinamentos religiososs religiosas.
Filipe estudou humanidades e na idade de dezesseis anos foi enviado a ajudar nos negócios um primo de seu pai em San Germano, próximo de Monte Cassino. Não raro, Filipe se retirava para orar numa pequena capela na montanha que pertencia aos beneditinos do Monte Cassino. Aqui definiu a sua vocação e, em 1533, decidiu ir para Roma.

Os últimos anos de sua vida foram marcados por alternativas de enfermidades e recuperação. Em 12 de maio de 1595 o Cardeal Barônio, que o havia sucedido como superior, administrou-lhe os últimos sacramentos. Morreu no dia 26 de maio, aos 80 anos.
Foi beatificado por Paulo V em 1614 e canonizado por Gregório XV em 1622. Sua festa é celebrada no dia 26 de maio.

Congregação do Oratório de São Filipe Néri
Em 1564 o Papa Pio IV pediu a Filipe Néri que assumisse a responsabilidade da Igreja de São João dos Florentinos. Foram então ordenados três dos seus discípulos. Os religiosos viviam e oravam em comunidade sob a direção de Filipe Néri.
Filipe e os seus colaboradores, com o beneplácito do Papa Gregório XIII, adquiriram em 1575 sua própria Igreja, Santa Maria de Vallicella, que se encontrava quase em ruínas e era muito pequena, pelo que decidiu demoli-la e construir uma maior, a chamada "Igreja Nova".
O Papa aprovou formalmente a Congregação do Oratório. Era a única em que os sacerdotes sendo seculares viviam em comunidade mas sem votos. Os membros mantinham as suas propriedades, mas deveriam contribuir para as despesas da comunidade. Os que quisessem fazer votos estavam livres para deixar a Congregação e unir-se a uma ordem religiosa. O instituto tinha como fim a oração, a pregação e a administração dos sacramentos.
A aprovação formal e final dos estatutos da congregação somente aconteceu 17 anos após a morte do fundador em 1612.