sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Spe Salvi


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sexta-feira, 23 de novembro de 2007

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

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sábado, 17 de novembro de 2007

Santa Isabel da Hungria (1207-2007)


Igreja celebra os 800 anos do nascimento de uma das mulheres mais extraordinárias da Idade Média
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1. Santa Isabel da Hungria nasceu em 1207 e morreu em 1231, com 24 anos vividos com grande intensidade. Isabel aparece nas páginas da história como Princesa da Hungria, Grande Condessa da Turíngia e Penitente Franciscana. A sua memória litúrgica é no dia 17 de Novembro. Filha do Rei André II e de Gertrudes de Andechs-Merano, casou-se aos catorze anos com Luís IV, Landgrave ou Grande Conde da Turíngia. Teve três filhos: Germano, o herdeiro do trono, Sofia e Gertrudes. Ficou viúva aos 20 anos. Foi canonizada pelo Papa Gregório IX, em 1253. É tia-avó de Santa Isabel de Portugal.

2. Com a morte do marido, a Grande Condessa dá lugar à Irmã Penitente. Ela é a primeira figura feminina que mais genuinamente encarna o espírito penitencial de Francisco de Assis: fé profunda em Deus, vida humilde e serviço aos pobres e doentes. Está na origem da Ordem Terceira Franciscana, Secular e Regular. As Fontes Isabelinas evidenciam o paralelo entre Isabel e Francisco, nomeadamente na sua atitude perante os leprosos e outros doentes e necessitados, cuidando deles com muita alegria. A sua acção no mundo da saúde é uma das páginas mais belas da Igreja medieval. Concretizou na sua vida o ideal das obras de misericórdia. No exercício do cuidado justo aos mais vulneráveis (o seu director espiritual, numa Carta enviada ao Papa Gregório IX, testemunha a sua competência na arte de cuidar) descobre a sua realização pessoal, o seu caminho de santidade. O hospital que fundou em Marburgo (1229) e dedicou a S. Francisco é expressão mais acabada da sua forma de ser.

3. Com Santa Isabel da Hungria, a Igreja e a sociedade ficaram mais enriquecidas. Ao associar-se às celebrações do VIII Centenário Isabelino, o Papa Bento XVI, numa Carta dirigida ao Primaz da Hungria, refere-se à importância que Isabel tem na descoberta das raízes cristãs da Hungria e de toda a Europa, chama-lhe Santa "europeia". A Conferência da Família Franciscana, na Carta por motivo do mesmo VIII Centenário, depois de apresentar os traços fundamentais da fisionomia humana e espiritual de Isabel, conclui em forma de compromisso: "Se fizermos memória do seu nascimento, da sua personalidade singular e da sua sensibilidade é para que, através do conhecimento e da admiração, também nós nos tornemos instrumentos de paz e aprendamos a derramar um pouco de bálsamo sobre as feridas dos marginalizados do nosso tempo, a tornar mais humano o nosso ambiente e enxugar as lágrimas. Vamos difundir a bondade do coração lá onde, aos olhos humanos, parece faltar a misericórdia do Pai. O seu exemplo e a sua intercessão vão iluminar os nossos caminhos para o Pai, fonte de todo amor: o Bem, Todo o Bem, o Sumo Bem; serenidade e alegria".

4. Celebrar é progredir. Ficamos todos mais enriquecidos: a Família Franciscana, que celebra também os 800 anos da sua origem e considera Isabel um dos seus pilares na fundação; as instituições da Igreja e da sociedade que a têm como padroeira; e os que vêem em Isabel da Hungria uma referência fundamental para a sua forma de viver. Com a celebração desta data festiva, fica mais vivo o exemplo desta jovem, que viveu tão poucos anos, mas tão intensamente, que se tornou uma das mulheres mais extraordinárias da Idade Média.

Frei Hermínio Araújo, OFM

domingo, 11 de novembro de 2007

A CHEGADA DA MORTE


Maria José Nogueira Pinto | DN 2007.11.11

Com o fim das grandes escatologias, das perspectivas colectivas de um final feliz, religiosas ou científicas, como foi o caso do marxismo, os seres humanos viraram-se para um individualismo feroz, projectos próprios de felicidade e de futuro, despidos de transcendência, valores ou referências. Numa cultura caracterizada pelo valor máximo do sucesso pessoal, da beleza e da perfeição, o sofrimento e a morte, a percepção do outro e a referência da dignidade humana foram-se perdendo. 
Dizia-se que começávamos a morrer no dia em que nascíamos. Hoje, esta afirmação parece uma indelicadeza desnecessária. O mito dos recursos inesgotáveis da ciência e da tecnologia criou a convicção de ser possível eliminar todo o sofrimento e adiar indefinidamente a morte. Estas expectativas esbarram inevitavelmente com aquilo que é e será sempre a condição humana: uma condição forte e fraca, gloriosa e pungente, perfeita e imperfeita, criadora e refém, presa das vicissitudes da felicidade e do sofrimento. Mas finita, em qualquer circunstância.
O fim da vida, o tempo que precede uma morte anunciada, o último trecho do caminho, é um tempo de enorme perplexidade, em que tudo à nossa roda é posto bruscamente em causa. O sofrimento daquele doente terminal, criança, jovem, adulto, idoso, que devíamos partilhar numa total intimidade com ele, torna-se insustentável para nós. Compaixão? Não. Medo, incapacidade, cobardia. A compaixão só se sobrepõe quando procedemos ao exercício dificilíssimo de nos vermos no outro e, assim, fazer com ele, e como ele, essa derradeira caminhada.
Foi por tudo isto que nasceram os cuidados paliativos. Cuidados de Saúde que não se destinam a curar mas a retirar todo o sofrimento e incomodidade aos doentes terminais. Cuidados familiares, porque os que acompanham o doente também precisam de orientação, apoio para um luto que se vai fazendo. Cuidados indispensáveis a um novo conceito de morrer em casa, em vez de morrer só e perdido num hospital. São também o tributo do "estado da arte" ao respeito pela dignidade da vida humana, ainda na sua fase final, mesmo quando, de modo simplista e egoísta, alguns sugerem que já não vale a pena fazer mais nada.
Em saúde, qualquer direito que se crie é, por definição, universal. Esses direitos vão-se criando sempre que as necessidades encontram resposta na ciência. Se a resposta existe, quem dela necessita adquire o direito aos cuidados correspondentes. Sabemos que não é fácil conjugar o aumento das necessidades e a escassez de recursos pelo que se espera que os decisores saibam estabelecer as prioridades. Em Portugal, milhares de doentes e famílias que precisam de cuidados paliativos, que têm direito a aceder a esses cuidados, não obtêm resposta. Corremos o risco da chamada "morte a duas velocidades". Onde exista uma cultura paliativa que difunda um saber-fazer e um saber-ser haverá condições para um fim de vida digno e sereno. Onde tal não aconteça (e são muitos os casos...) estamos a substituir a possibilidade concreta de aliviar o sofrimento e dar serenidade, por um desesperado e solitário pedido de morte. A desigualdade de acesso aos cuidados paliativos é, por isso, inadmissível.
 Em 2006 foram estabelecidos objectivos e criadas metas e expectativas quanto à rede de paliativos. A concretização ficou muito aquém. Numa matéria que não se compadece com atrasos, e tão pouco com menos exigência de qualidade, que deve ser protegida de tentações experimentalistas e fugir de demagogia política, o desafio que se coloca ao Ministério da Saúde vai além de passar de 20 camas para 85 camas. "Quadruplicar" é um bom título, mas 85 camas num país onde pelo menos seis mil pessoas precisam destes cuidados, onde o apoio no domicílio se torna urgente, onde a rede não cresce por falta de acordos, onde os profissionais de saúde precisam e reclamam formação, um título serve para pouco.
O desafio é enorme. Quer pelos meios que envolve quer pelas decisões políticas a que obriga. É mais um exemplo do chamado dilema da escolha, tão frequente em Saúde. O desafio é que em Portugal, país da UE, neste século XXI, não exista, em breve, um único lugar onde se possa reclamar a morte, porque não se suporta mais sofrer. Um desafio colectivo e eminentemente civilizacional.