quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

ENCONTRO COM OS PÁROCOS E O CLERO DA DIOCESE DE ROMA 7 Fev 2008


ENCONTRO COM OS PÁROCOS E O CLERO DA DIOCESE DE ROMA 
DISCURSO DE SUA SANTIDADE BENTO XVI

Sala das Bênçãos
Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

(Pe. Massimo Tellan, pároco de Santo Henrique)
Sou o Padre Massimo Tellan, há quinze anos sacerdote, há seis pároco de Casal Monastero, sector Norte. Penso que todos nos damos conta de viver cada vez mais imersos num mundo culturalmente inflacionado por palavras, muitas vezes sem significado, que desorientam o coração humano a ponto de o tornar surdo à palavra de verdade. Esta palavra eterna que se fez carne e assumiu um rosto em Jesus de Nazaré tornou-se evanescente para muitos, e sobretudo para as novas gerações, inconsistente e distante. Certamente confundida na selva de imagens ambíguas e efémeras pelas quais se é bombardeado quotidianamente. Então que espaço dar ao educar para a fé, para este binómio de palavra a ser acolhida e imagem a ser contemplada? Onde está a arte de narrar a fé e de introduzir no mistério, como acontecia no passado com a biblia pauperum? Na hodierna sociedade da imagem como podemos recuperar a força transbordante do ver, que acompanha o mistério da encarnação e do encontro com Jesus, como aconteceu com João e André às margens do Jordão, convidados a ir e ver onde habita o Mestre? Por outras palavras: como educar para a busca e para a contemplação daquela verdadeira beleza que, como escrevia Dostoievski, salvará o mundo? Obrigado, Santidade, pela sua atenção, e se me permite, mesmo com o consentimento dos confrades, quer como sacerdote deste presbitério quer como artista inexperiente, gostaria de acompanhar o que foi dito oferecendo-lhe um ícone de Cristo na coluna, imagem daquela humanidade sofredora e humilhada que o Verbo quis assumir não só até ao Ecce homo, mas até à morte na Cruz, e ao mesmo tempo imagem actual da Igreja Corpo místico de Cristo, muitas vezes ferida pela arrogância do mal, mas chamada com o seu Senhor, a abraçar o pecado do mundo para o redimir com o seu sacrifício com Jesus. Obrigado, Santo Padre, e obrigado também aos meus confrades. Todos eles, todos os dias mais do que eu e melhor do que eu, estão comprometidos a mostrar ao mundo com o próprio testemunho de vida o rosto actual do Mestre. Se é verdade, como é, que quem viu o Filho viu o Pai, assim quem nos vê a nós, sua Igreja, pode ver Cristo.

Obrigado por este dom agradável. Agradeço por não termos só palavras, mas também imagens. Vemos que também hoje, da meditação cristã, nascem novas imagens, renasce a cultura cristã, a iconografia cristã. Sim, vivemos na inflação das palavras, das imagens. Portanto é difícil criar espaço para a Palavra e para a imagem. Parece-me que precisamente na situação do nosso mundo, que todos conhecemos, que é também o nosso sofrimento, o sofrimento de cada um, o tempo da Quaresma adquire um novo significado. Certamente o jejum corporal, durante um certo tempo considerado já não de moda, hoje todos o consideram necessário. Não é difícil compreender que devemos jejuar.
Por vezes encontramo-nos também diante de certos exageros devidos a um ideal de beleza errado. Mas contudo o jejum corporal é algo importante, porque somos corpo e alma e a disciplina do corpo, a disciplina também material, é importante para a vida espiritual que é sempre vida encarnada numa pessoa que é corpo e alma.
Esta é uma dimensão. Hoje proliferam e manifestam-se outras dimensões. Parece-me que a Quaresma poderia ser também um tempo de jejum das palavras e das imagens. Temos necessidade de um pouco de silêncio, precisamos de um espaço sem o bombardeamento permanente das imagens. Neste sentido, tornar acessível e compreensível hoje o significado de quarenta dias de disciplina exterior e interior é muito importante para nos ajudar a compreender que uma dimensão da nossa Quaresma, desta disciplina corporal e espiritual, é criar-nos espaços de silêncio e também sem imagens, para reabrir o nosso coração à imagem verdadeira da palavra verdadeira. Parece-me promissor que também hoje se veja que existe um renascimento da arte cristã, quer de uma música meditativa como por exemplo a que nasceu em Taizé quer, retornando à arte do ícone, a uma arte cristã que permanece, digamos, dentro das grandes normativas da arte iconológica do passado, mas alargando-se às experiências e às visões de hoje. Onde houver uma verdadeira e profunda meditação da Palavra, onde entrarmos realmente na contemplação desta visibilidade de Deus no mundo, desta tangibilidade de Deus no mundo, surgem também novas imagens, novas possibilidades de tornar visíveis os acontecimentos da salvação. É precisamente esta a consequência do acontecimento da encarnação. O Antigo Testamento proibia qualquer imagem e devia proibi-lo num mundo cheio de divindades. Ele vivia no grande vazio que era também representado pelo interior do templo, onde, em contraste com outros templos, não havia imagem alguma, mas só o trono vazio da Palavra, da presença misteriosa do Deus invisível, não circunscrito pelas nossas imagens.
Mas depois a nova etapa é que este Deus misterioso nos liberta da inflação das imagens, também de um tempo cheio de imagens de divindades, e dá-nos a liberdade da visão do essencial. Aparece com um rosto, com um corpo, com uma história humana que, ao mesmo tempo, é uma história divina. Uma história que continua na história dos santos, dos mártires, dos santos da caridade, da palavra, que são sempre explicação, continuação no Corpo de Cristo desta sua vida divina e humana, e nos dá as imagens fundamentais nas quais além das superficiais que escondem a realidade podemos abrir o olhar para a própria Verdade. Neste sentido parece-me excessivo o período iconoclástico do pós-Concílio, que tinha contudo um sentido, porque talvez fosse necessário libertar-se de uma superficialidade das demasiadas imagens.
Agora voltemos ao conhecimento do Deus que se fez homem. Como nos diz a Carta aos Efésios, Ele é a verdadeira imagem. E nesta verdadeira imagem vemos além das aparências que escondem a verdade a própria Verdade: "Quem Me vê, vê o Pai". Neste sentido diria que, com muito respeito e com muita reverência, podemos reencontrar uma arte cristã e também reencontrar as representações essenciais e grandes do mistério de Deus na tradição iconográfica da Igreja. E assim poderíamos redescobrir a imagem verdadeira, coberta pelas aparências. É realmente um trabalho importante da educação cristã: a libertação pela Palavra por detrás das palavras, que exige sempre de novo espaços de silêncio, de meditação, de aprofundamento, de abstinência, de disciplina. E igualmente a educação para a verdadeira imagem, isto é, para a redescoberta dos grandes ícones criados na história pela cristandade: com humildade libertamo-nos de imagens superficiais. Este tipo de iconoclasmo é sempre necessário para redescobrir a Imagem, ou seja, as grandes imagens fundamentais que expressam a presença de Deus na carne.
Esta é uma dimensão fundamental da educação para a fé, para o verdadeiro humanismo, que procuramos neste tempo em Roma. Voltemos a redescobrir o ícone com as suas regras muito severas, sem as belezas renascentistas. E assim podemos também nós entrar de novo num caminho de redescoberta humilde das grandes imagens, rumo a uma sempre nova libertação das muitas palavras, das demasiadas imagens, para redescobrir as imagens fundamentais que nos são necessárias. O próprio Deus mostrou-nos a sua imagem e nós podemos reencontrar esta imagem com uma profunda meditação da Palavra que faz renascer as imagens.
Então, rezemos ao Senhor para que nos ajude neste caminho de verdadeira educação, de reeducação na fé, que é sempre não só ouvir mas também ver.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

"Pórtico do Mistério da Segunda Virtude"

José Maria Duque
(Charles Péguy)
É um atrevimento escrever sobre este livro. É um livro de tal maneira grande que é preciso muitos anos de estudo para lhe fazer uma crítica ou um comentário. Contudo arrisco-me a fazê-lo. Não porque confie muito nas minhas capacidades de crítico literário ou porque possua grandes conhecimentos sobre Péguy, mas simplesmente porque me tocou profundamente. Por isso este post não tem por fim ser uma crítica ou um ensaio sobre o livro, mas simplesmente um simples testemunho.
 
"Para esperar, ó minha filha, é preciso ser bem feliz, é preciso ter obtido, recebido uma grande graça"

Esta é sem dúvida a frase mais importante do livro para mim.

Desde de pequeno que me venderam a esperança como uma utopia sobre um futuro melhor, sem nenhuma razão aparente. Mas se a vida corre mal, porque raio é que há de correr melhor? Porque é que amanhã deverá ser diferente de hoje? Uma esperança assim é uma fuga para frente, é uma forma de não enfrentar os problemas do presente. Uma esperança assim não é razoável, não tem razão de ser.

Contudo, segundo ensinam Péguy e a Igreja, a esperança não nasce de um mera utopia sobre o futuro, mas de uma alegria presente. Eu tenho Esperança porque encontrei Cristo e esse encontro tem em sim uma promessa de algo ainda maior. A minha Esperança não nasce de um sonho, mas de uma promessa de Eternidade nascida de um encontro feito hoje.