quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

João Paulo II, o Papa libertador

DN 2006-01-05
Quando assistia ao desfile, nos jornais e nas televisões, dos acontecimentos do ano que findou, imaginei-me, simples cidadão do mundo, a identificar o personagem cujo desaparecimento eu mais sentisse como uma perda.
Um homem emergiu dessa busca João Paulo II, o Papa peregrino. João Paulo II tornou-se, no final do século XX, numa das referências morais do nosso tempo e num guia espiritual para milhões de mulheres e de homens, independentemente de serem ou não católicos.
Por onde passou - e João Paulo II realizou mais de cem viagens a 130 países - arrastou multidões, mobilizou governantes (favoráveis ou contrários à sua presença) e o seu carisma atraiu as massas onde quer que fosse . Foi um verdadeiro Papa universal - isto é, católico. "Se ficasse no Vaticano, como a Cúria gostaria que fizesse, então ficaria sentado em Roma escrevendo encíclicas, que seriam lidas apenas por um punhado de pessoas (Comentário sobre as viagens, 1982)."
E era às pessoas que João Paulo II queria chegar. Nas suas viagens, assumiu o que de mais característico havia nas comunidades visitadas, para mostrar uma Igreja aberta ao mundo, às culturas, à diversidade. Como alguém referiu, nas aldeias, metrópoles, parques, avenidas e estádios desportivos por onde passou, homens, mulheres e crianças "de todas as etnias, de todos os costumes e de todas as tradições" se curvaram à sua frente, cantando e saudando nos seus idiomas. Defendeu a imagem e a mensagem de Cristo como a de um "libertador", mas não como a de "um revolucionário" ou "o subversivo da Nazaré". Quando os jornalistas, na América Latina, lhe perguntaram sobre o que achava da teologia da libertação, o Papa polaco respondeu "Depende. De qual teologia da libertação? Se for a de Cristo, e não a de Marx, sou totalmente a favor."
Procurou ser, e foi, a voz incómoda contra todos os poderosos. Em 1979, disse "O sucessor de João XIII e de Paulo VI fala em nome de todas as nações cujos direitos foram violados ou esquecidos." Neste "todas", ele incluiu o mundo comunista amordaçado, o Sul desprezado, os povos oprimidos no mundo ocidental: "Entendo que o socialismo como sistema político é uma realidade. Porém, a questão está em que ele deveria ter uma face humana (Na Polónia, 1983)"; "Como podemos ignorar as prisões, as sentenças e as execuções arbitrárias, sem julgamento autêntico, a detenção de dissidentes em condições sub-humanas, a tortura, o desaparecimento de pessoas? (Sobre os regimes autoritários, 1988)"; "O homem é muitas vezes tratado como uma matéria- -prima que deve custar o mínimo possível. Em situações como essa, o trabalhador não é respeitado como um autêntico colaborador do Criador (Na Coreia do Sul, 1984)"; "À luz da palavra de Cristo, o Sul pobre irá julgar o Norte rico. Os povos pobres julgarão as nações que levaram as suas propriedades, reivindicando um monopólio imperialista sobre os seus bens e uma supremacia política à custa de outros povos (No Canadá, 1984)."
João Paulo II foi o Papa da Guerra Fria e foi um dos seus vencedores. Desde o início do seu pontificado tornou claro que a questão do comunismo teria o seu empenho. Oriundo de um país católico arrastado para a órbita do império soviético, depois da Segunda Guerra Mundial, o Papa polaco respondeu assim a quem lhe pediu que falasse da Igreja do Silêncio (a do Leste europeu) "Ela já não é a Igreja do Silêncio, porque fala pela minha voz." É evidente que construiu com o Presidente americano Ronald Reagan (que falou da União Soviética como "o Império do Mal") uma aliança táctica.
Na sua primeira visita à Polónia, que os soviéticos queriam impedir, mas que o regime comunista polaco não teve força de fazer, por receio da reacção popular, o Papa desafiou os que perseguiam a sua Igreja, afirmando "Cristo não pode ser excluído da História do Homem, em qualquer parte do globo." Dez milhões de polacos estiveram a receber o Papa, que apoiou claramente também o sindicato de inspiração católica Solidariedade.
Em 1989, um tsunami político varreria o Leste da Europa e iniciaria a queda do comunismo. O último Presidente soviético, Mikhail Gorbachov, diria, anos depois "Tudo o que aconteceu no Leste europeu nestes últimos anos teria sido impossível sem a presença deste Papa." O mesmo Papa que, em 1999, no México, num dos seus mais duros discursos contra os excessos do capitalismo, disse ser o neoliberalismo um pecado social: "Ele rompe a harmonia entre as comunidades de uma nação e de um continente inteiro e baseia-se numa concepção economicista do ser humano, valorizando o lucro e as leis do mercado em detrimento da dignidade da pessoa."
Nem Marx nem a exploração desenfreada do capitalismo, mas, para João Paulo II, o sentido libertador da palavra da sua Igreja - na "visão evangélica da realidade social".